No Beira-Rio, em uma avenida mais movimentada e numa área mais central de Porto Alegre, são poucos os que se aventuram a abrir as portas nos dias de Brasil para receber o público. No caso do bar e brechó Minha Camisa Vermelha, dos sócios Max Peixoto e Douglas Carmona, o melhor movimento nos jogos da seleção é equivalente a 30% do pior dia de Inter. Mesmo assim, vale a pena receber o público, que é formado por uma clientela fidelizada — a mesma, em partes, dos jogos do Colorado.
Abertos desde março deste ano, explicam que já viam 2026 como um período difícil, justamente pela parada para o Mundial e pelo tempo necessário para se consolidar perante a concorrência. Para suprir a queda na demanda, apostam na loja online do brechó, também disponível nos fundos do bar, com camisas dos mais diversos anos da história do Inter.

Aposta para o bar é unir a torcida pelo Brasil com a saudade do Beira-RioNathan Lemos/Divulgação/JC
Ainda assim, a aposta para o bar é unir a torcida pelo Brasil com a saudade do Beira-Rio. “Nos organizamos para transmitir os jogos inclusive para o cara que está sentindo falta de estar perto do estádio. Tem muita gente que gosta de estar em volta e de trazer essa galera em momentos que não tem jogos do Inter”, explica Peixoto.
Carmona acrescenta que o negócio promove a troca de figurinhas no local, e que, por tabela, ganham com mais consumo. “Às vezes você acha que é só uma figurinha e que a margem de lucro é muito pequena, mas volta e meia um cliente compra bebida, até camiseta, e ajuda muito”, explica.
Para o ano que vem, os sócios esperam a parada da Copa do Mundo Feminina, neste mesmo período, com bons olhos, já que haverá partidas no Beira-Rio e a expectativa é por um grande movimento no entorno. Quem também pensa assim é Igor Dummer, conhecido como “Alemão da Borracharia” no entorno do estádio, que é proprietário de três bares e uma loja de pneus.
Há 25 anos com empreendimentos à frente do Beira-Rio, Dummer tem hoje o Bar do Alento como seu principal negócio para o pré e o pós-jogo do Inter. Com uma capacidade mais ampla, explica que o faturamento é proporcional à lotação do estádio e que, nos grandes compromissos, as vendas decolam. E por isso, com o calendário parado e percebendo um torcedor menos empolgado, enfrenta dois meses sem abrir as portas e arcando com o alto custo do aluguel.
Uma reclamação que Peixoto, Carmona e Dummer têm em comum, diante da dificuldade, é que o Inter irá disputar dois amistosos em casa com os portões fechados. São duas datas a menos em meio ao marasmo que, com certeza, ajudaria a manter os negócios mais sustentáveis.
“Isso é lamentável, né? Sinceramente, eu não consigo entender até hoje. Para quem se diz o Clube do Povo, a gestão não entende que não precisa cobrar, faz uma campanha do agasalho, faz uma campanha para alimentação. Prejudica muito o comércio”, opina Dummer.
Para o restante da Copa do Mundo, o proprietário do Alento irá esperar para ver até onde o Brasil vai chegar. A depender da fase e do desempenho, pretende abrir as portas e receber o público nos jogos da seleção.
Quem também pensa assim, do outro lado da cidade, é Luciano Osório, dono do Mercado Luciano, em frente à Arena, na Rua do Grêmio, onde ocorre a maior concentração de torcedores.
Ele está surpreso pelo movimento nulo no entorno, sem nenhuma empolgação com a seleção brasileira ou a competição em si. “Ninguém quer saber, está todo mundo desanimado. Agora nessa segunda fase estamos pensando em pintar o Weverton aqui na rua, ver se dá uma movimentada”, frisa o comerciante.

Dono do Mercado Luciano diz que nunca viu um movimento tão baixo em Copa do Mundo como o atualNathan Lemos/Divulgação/JC
Também revela que, há 25 anos no ponto, nunca viu uma Copa tão monótona. Nos outros anos era bem mais movimentado. Nós pintamos a rua, colocamos bandeirinha, e neste ano eu até fiz uma movimentação com os outros negócios, mas ninguém quis”, completa.
O que segura as pontas, conforme Osório, é que a sequência de jogos do Grêmio antes da parada foi substanciosa, assim como o movimento, servindo como um fôlego para os demais. Agora, revela que para equilibrar as contas precisa ficar aberto até de madrugada, fazendo promoção de bebidas e apostando nos itens de mercado para os moradores do bairro.
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