quarta-feira, 17 de junho de 2026

Inflação e fim de guerra entre EUA e Irã dividem mercado sobre próximo passo do Copom

Copom iniciou, ontem, a primeira etapa de sua reunião de análise de conjuntura; decisão sai hoje

Copom iniciou, ontem, a primeira etapa de sua reunião de análise de conjuntura; decisão sai hoje

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/Divulgação/JC

Gabriel Margonar
Gabriel MargonarÀs vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para quarta-feira (17), o mercado segue dividido entre a manutenção da taxa Selic em 14,50% ao ano e um último corte de 0,25 ponto percentual. Se a inflação mais elevada reforça os argumentos dos que defendem cautela, a recente melhora do cenário externo - impulsionada pelo acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã e pela queda dos preços do petróleo - fortalece a avaliação de que ainda há espaço para uma redução dos juros.
O Copom iniciou nesta terça-feira (16) a primeira etapa de sua reunião de análise de conjuntura. A decisão será divulgada nesta quarta, após as 18h30. Atualmente, a taxa básica de juros está em 14,50% ao ano, depois de um corte de 0,25 ponto percentual realizado em abril.
Nos últimos dias, o mercado passou a incorporar um cenário internacional menos pressionado. O acordo preliminar firmado entre Estados Unidos e Irã, no fim de semana, provocou forte recuo nas cotações do petróleo, reduzindo temores de novas pressões inflacionárias globais e levando a uma queda das taxas futuras de juros no Brasil.
Parte dos especialistas entende que esse ambiente favorece mais uma redução da Selic. É o caso do BTG Pactual, que mantém a expectativa de corte de 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. Em relatório, o banco avalia que a comunicação adotada pelo Banco Central desde a última reunião ainda sugere continuidade do ciclo de flexibilização monetária, embora reconheça que o cenário inflacionário tenha se deteriorado.
A XP Investimentos também projeta uma redução de 0,25 ponto percentual nesta semana. Segundo a instituição, apesar da piora dos indicadores de inflação, o Copom ainda sinaliza que os juros permanecem em nível suficientemente restritivo para permitir um ajuste adicional.
“A nosso ver, o último comunicado do Copom sugeria redução adicional de juros na reunião desta semana. Não observamos mudança relevante nessa sinalização, apesar da piora no cenário de inflação”, destaca a XP em relatório.
A instituição avalia, porém, que o comunicado pós-reunião deverá adotar um tom mais duro, indicando projeções de inflação mais elevadas e reduzindo as referências a novos cortes. Ainda assim, entende que uma interrupção imediata do ciclo é pouco provável.
A expectativa por uma nova redução também é compartilhada por Alcindo Canto, economista e conselheiro consultivo da Ável. “Apesar da deterioração do cenário externo e de algumas pressões inflacionárias no ambiente doméstico, esse movimento ainda parece compatível com o que vinha sendo precificado pela curva de juros futuros”, afirma.
Canto ressalta, porém, que a discussão principal passou a ser o nível terminal da Selic. Se no início do ano havia expectativa de taxa próxima de 13% ao fim do ciclo, agora o patamar de 14% parece mais provável.
“Nossa expectativa contempla um corte de 0,25 ponto percentual nesta reunião, seguido de mais uma redução da mesma magnitude adiante. Após isso, o Banco Central provavelmente deverá interromper o ciclo de flexibilização e manter a taxa em torno de 14% por pelo menos duas reuniões do Copom”, projeta.

 

Inflação ainda pesa na balança

Especialistas apontam que diminuição das tensões no Oriente Médio tem impacto limitado para avaliação do BC

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Reprodução internet/JC

Apesar do alívio recente provocado pela queda do petróleo, a inflação continua sendo o principal argumento dos economistas que defendem uma pausa no ciclo de cortes. Em maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,58% e acumulou alta de 4,72% em 12 meses, voltando a ficar acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central.

Além disso, as expectativas do mercado para a inflação seguem em trajetória de alta. No Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (16), a projeção para o IPCA de 2026 subiu para 5,30%, enquanto a estimativa para 2027 - atual horizonte relevante da política monetária - avançou para 4,10%.
Para Gustavo de Moraes, professor da Escola de Negócios da Pucrs, a aceleração inflacionária reduz significativamente a margem de atuação do Copom. Segundo ele, a tendência mais provável continua sendo a manutenção da taxa básica de juros.
“Estamos chegando a 4,72% acumulados em 12 meses, portanto acima do centro da meta e muito próximos do limite superior do intervalo de tolerância. Nesse contexto, o Copom tem pouco espaço para continuar reduzindo os juros”, afirma.
Moraes destaca que a melhora recente do cenário internacional não altera substancialmente esse quadro. “Havia uma parcela do mercado que trabalhava com a possibilidade de a Selic encerrar o ano próxima de 12%. Hoje, o cenário mais provável aponta para taxas ao redor de 14% ou 14,5%”, avalia.
A leitura é semelhante à de Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Segundo ele, a queda recente do petróleo e a perspectiva de redução das tensões no Oriente Médio não alteram de forma significativa o balanço de riscos enfrentado pelo Banco Central.
“O Brasil continua operando com uma taxa de juros em nível bastante contracionista. Em tese, ainda haveria espaço para um corte adicional de 0,25 ponto percentual. Por isso, o mercado permanece dividido entre duas possibilidades: uma redução de 0,25 ponto ou a manutenção da taxa nesta reunião”, diz.
Na avaliação de Pletes, os fatores que continuam pressionando a inflação doméstica permanecem presentes, mesmo após a melhora do cenário externo. Por isso, as probabilidades de manutenção e de corte seguem praticamente equilibradas.
Na Unicred Porto Alegre, a expectativa também é de manutenção da Selic em 14,50% ao ano. A consultora de investimentos Karen Focchesatto afirma que o perfil mais conservador do Banco Central e a piora recente dos indicadores inflacionários reforçam esse cenário.
“Devido ao perfil mais conservador e baseado em dados do Banco Central e a importância que ele dá para os dados de IPCA dentro da meta, nós da Unicred Porto Alegre acreditamos que o Copom decidirá manter os juros nos patamares de 14,50% ao ano”, destaca.

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