A pressão comercial dos Estados Unidos sobre o Brasil voltou a ganhar um novo capítulo nesta quarta-feira (3). Um dia após anunciar a proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros no âmbito da investigação da Seção 301, o governo norte-americano avançou com outra medida: uma sobretaxa de 12,5% em uma apuração relacionada ao suposto uso de trabalho forçado. A iniciativa atinge também a União Europeia e outros 58 países.
As medidas ainda serão submetidas à consulta pública, marcada para 7 de julho, e dependem da decisão final do presidente Donald Trump. Mesmo assim, já ampliam a preocupação entre exportadores e aumentam a incerteza para setores da indústria gaúcha que têm nos Estados Unidos um de seus principais mercados.
Caso os EUA confirmem a nova tarifa e também a sobretaxa de 25% por supostas práticas comerciais desleais do Brasil - investigação que cita desde o Pix até a comercialização de produtos piratas na rua 25 de Março, em São Paulo - parte dos exportadores brasileiros poderá enfrentar uma taxação adicional acumulada de 37,5%.
Para o economista e consultor da Ável Aod Cunha, a estratégia adotada pelos Estados Unidos representa um movimento contrário à lógica que sustentou o crescimento econômico global nas últimas décadas. "O mundo cresceu muito com comércio, integração econômica e aumento da produção. Mais impostos sobre exportações são negativos. O mercado não vê com bons olhos esse tipo de medida", afirma.
Segundo ele, o Brasil já deixou de estar entre os países menos atingidos pelas tarifas anunciadas pelos norte-americanos e passou a enfrentar um cenário mais complexo para competir naquele mercado. O impacto, contudo, não será uniforme.
"Alguns setores ficaram de fora, como a indústria aeronáutica, enquanto outros, como o setor calçadista gaúcho, são diretamente afetados e ficam muito mais expostos", observa.
A preocupação é especialmente relevante para o Rio Grande do Sul. Os Estados Unidos estão entre os principais destinos das exportações gaúchas, sobretudo de produtos industriais. Na avaliação de Cunha, os segmentos calçadista e químico estão entre os mais vulneráveis.
"Existem estimativas apontando prejuízos potenciais de curto prazo entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões para o Estado caso todas as medidas sejam efetivamente implementadas", diz.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) também enxerga o anúncio com preocupação. Em nota, a entidade afirma que a sucessão de investigações e propostas de novas barreiras comerciais cria um ambiente de insegurança para os negócios internacionais.
Para o presidente da Fiergs, Claudio Bier, a principal consequência é a dificuldade de planejamento por parte das empresas."A constante incerteza em relação às regras de acesso ao mercado norte-americano afeta negativamente os negócios, dificulta o planejamento das empresas e compromete investimentos de longo prazo. O que as empresas precisam é de previsibilidade para competir e gerar empregos", afirma.
A entidade destaca ainda que as exportações industriais gaúchas para os Estados Unidos já vinham registrando retração desde os primeiros anúncios tarifários feitos pela administração Trump. Novas sobretaxas, segundo a federação, tendem a ampliar as dificuldades enfrentadas pelos exportadores e reduzir ainda mais sua competitividade frente a concorrentes de outros países.
No entanto, apesar da apreensão, especialistas ainda enxergam margem para negociação antes de uma decisão definitiva. Cunha lembra que parte dos argumentos utilizados pelos norte-americanos, incluindo questionamentos envolvendo o sistema de pagamentos PIX, ainda será debatida durante o processo de consulta pública aberto pelo USTR.
"Existem audiências públicas e manifestações em andamento. Por isso, acredito que ainda há espaço para negociação envolvendo empresários, entidades setoriais e os próprios governos. Nada está totalmente definido neste momento", avalia.
O advogado tributarista Pedro Schuch, sócio-líder do Banco Fiscal, também vê a medida como um sinal preocupante para empresas que dependem do mercado norte-americano. Segundo ele, os Estados Unidos são um dos principais compradores de produtos brasileiros, especialmente alimentos, carnes, frutas, pescados e madeira. Qualquer barreira adicional acaba criando dificuldades relevantes para operações já consolidadas.
"Muitas empresas brasileiras são dedicadas quase exclusivamente ao mercado externo, e os Estados Unidos representam um dos seus principais destinos. Isso reduz a competitividade do produto brasileiro justamente em um dos mercados mais importantes do mundo" afirma.
Na avaliação do tributarista, a saída passa pela intensificação das negociações entre os dois países. "O que precisamos neste momento é de uma interlocução eficiente capaz de viabilizar negociações em torno dessas tarifas. Caso contrário, os custos acabam sendo suportados pelo setor produtivo e por toda a população brasileira", conclui.
Veja a lista dos países
- Argélia
- Angola
- Argentina
- Austrália
- Bahamas
- Bahrein
- Bangladesh
- Brasil
- Camboja
- Canadá
- Chile
- China
- Colômbia
- Costa Rica
- República Dominicana
- Equador
- Egito
- El Salvador
- União Europeia
- Guatemala
- Guiana
- Honduras
- Hong Kong, China
- Índia
- Indonésia
- Iraque
- Israel
- Japão
- Jordânia
- Cazaquistão
- Kuwait
- Líbia
- Malásia
- México
- Marrocos
- Nova Zelândia
- Nicarágua
- Nigéria
- Noruega
- Omã
- Paquistão
- Peru
- Filipinas
- Catar
- Rússia
- Arábia Saudita
- Singapura
- África do Sul
- Coreia do Sul
- Sri Lanka
- Suíça
- Taiwan
- Tailândia
- Trinidad e Tobago
- Turquia
- Emirados Árabes Unidos
- Reino Unido
- Uruguai
- Venezuela
- Vietnã
Diversificação de mercados surge como alternativa à instabilidade
Enquanto aguardam os próximos passos da administração Trump, empresas brasileiras já começam a avaliar alternativas. A diversificação de mercados aparece como uma das principais estratégias para reduzir a dependência dos Estados Unidos.
Segundo Cunha, a tendência não é exclusiva do Brasil. A crescente incerteza sobre a política comercial norte-americana tem levado diversos países a ampliar relações com outros parceiros econômicos.
"Vejo uma tendência global de maior diversificação das relações comerciais. Europa, Canadá e outras economias também estão buscando ampliar seus mercados diante das incertezas sobre quanto tempo essa postura americana irá durar" afirma.
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