quinta-feira, 18 de junho de 2026

Área de trigo no RS cairá ao menos 24%, com crédito escasso e El Niño

Emater, que divulga na semana que vem a estimativa de safra, alerta que percentual de queda no trigo pode ser ainda maior

Emater, que divulga na semana que vem a estimativa de safra, alerta que percentual de queda no trigo pode ser ainda maior

Wenderson Araujo/Trilux

Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterO Rio Grande do Sul deverá liderar a redução da área de trigo no Brasil na safra de inverno de 2026. A combinação de produtores descapitalizados, restrições de crédito, dificuldades de acesso ao seguro rural, rentabilidade apertada e receio de um novo ciclo de El Niño está levando agricultores a reduzir a exposição à cultura, mesmo diante de uma perspectiva de preços mais favorável no mercado internacional.
Levantamento da Safras & Mercado projeta que a área cultivada com trigo no Estado cairá de 1 milhão para cerca de 800 mil hectares, retração de 23,8%. A redução de 250 mil hectares representa mais da metade da queda nacional estimada para a cultura. No Brasil, a área deverá recuar de 2,3 milhões para 1,8 milhão de hectares, diminuição de 19,1%.
A consultoria estima produção gaúcha em 2,5 milhões de toneladas, contra 3,6 milhões na safra anterior. No País, a colheita deverá cair de 8,1 milhões para 5,8 milhões de toneladas.
A Emater/RS-Ascar, que apontou 1,198 milhão de hectares plantados em 2025 e divulga na próxima segunda-feira (22) as estimativas para este ano, observa que os percentuais estimados variam de entidade para entidade. Mas admite que o percentual de corte pode ser ainda maior.
Para o analista de trigo da Safras & Mercado, Élcio Bento, a retração é resultado principalmente das dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores após sucessivas safras marcadas por adversidades climáticas.
"O produtor vem de uma sequência de problemas, especialmente no Rio Grande do Sul, e está bastante descapitalizado", afirma.
Segundo ele, o Estado concentra a maior parte da redução nacional porque reúne justamente os fatores que mais pesam na decisão de plantio: problemas de caixa, restrição de crédito e maior exposição aos riscos climáticos.
Os números do financiamento rural reforçam o cenário identificado pela consultoria.
Dados do Banco Central compilados pela Emater/RS-Ascar mostram que, até 14 de junho, a área financiada para trigo somava 211,9 mil hectares no Estado. No mesmo período do ano passado, eram 521,3 mil hectares, queda de 59,4%.
O número de contratos caiu de 19.832 para 9.313, enquanto o valor financiado recuou de R$ 1,7 bilhão para R$ 696,4 milhões.
Para o responsável pelo setor de Crédito Rural e Gestão Agrícola da Emater/RS-Ascar, Célio Alberto Colle, a retração do crédito é um dos sinais mais claros da cautela dos produtores.
"Menos da metade da área que foi financiada no passado, nessa época, está sendo financiada agora", afirma.
Além das restrições de crédito, Colle aponta o endividamento acumulado, as dificuldades de enquadramento no Proagro e a deterioração da relação de troca como fatores que reduzem o interesse pelo cereal.
A percepção é compartilhada pelo coordenador da Comissão de Trigo e Culturas de Inverno da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Hamilton Jardim.
Para o dirigente, que é produtor de grãos em Palmeira das Missões, o ambiente econômico pesa mais na decisão de plantio do que qualquer outro fator.
"Primeiro, um cenário muito forte de descapitalização. E ausência de crédito rural".
Mas há outro aspecto igualmente importante. O produtor precisou comprar insumos com alta de preços por conta da guerra no Oriente Médio. E, nesse mesmo momento, a cotação da soja estava baixa. "São dois fatores que se somam e prejudicam ainda mais a relação de troca", afirma.
De acordo com Jardim, a área cultivada poderá ficar próxima de 850 mil hectares, número semelhante ao projetado pela Safras & Mercado. Ele aponta que em algumas das mais importantes regiões produtoras, o corte de área pode ser superior a 30%.
O dirigente argumenta que muitos produtores têm optado por reduzir investimentos diante da dificuldade de acesso a financiamentos e da insegurança em relação aos mecanismos de seguro agrícola.
Se os fatores econômicos já desestimulam o plantio, as projeções climáticas aumentam a cautela.
A possibilidade de atuação do El Niño durante fases importantes do desenvolvimento das lavouras preocupa produtores e técnicos devido ao risco de excesso de chuvas.
"O que aterroriza o produtor é uma previsão de El Niño nos meses de agosto e setembro", afirma Jardim.
Segundo Colle, o trigo é particularmente sensível a períodos prolongados de umidade, que favorecem a incidência de doenças e podem comprometer a qualidade dos grãos.
Élcio Bento, da Safras, observa que a preocupação do mercado não está apenas na produtividade, mas também na qualidade industrial dos grãos.
"O produtor olha para o retrovisor e lembra do último El Niño forte, quando tivemos sérios problemas de qualidade", destaca.
Raio-X da safra de trigo
Rio Grande do Sul
  • Área 2025: 1,05 milhão ha
  • Área 2026: 800 mil ha
  • Variação: -23,8%
  • Produção 2025: 3,6 milhões t
  • Produção 2026: 2,5 milhões t
  • Variação: -30,6%
Brasil
  • Área 2025: 2,3 milhões ha
  • Área 2026: 1,8 milhão ha
  • Variação: -19,1%
  • Produção 2025: 8,1 milhões t
  • Produção 2026: 5,8 milhões t
  • Variação: -27,4%
Fonte: Safras & Mercado
Financiamento de trigo e canola no RS (até 14 de junho)
  • Área financiada: 521,3 mil ha (2025) → 211,9 mil ha (2026)
  • Variação: -59,4%
  • Contratos: 19.832 (2025) → 9.313 (2026)
    Variação: -53%
  • Valor financiado: R$ 1,78 bilhão (2025) → R$ 696,4 milhões (2026)
    Variação: -60,9%
Canola
  • Área financiada: 39,3 mil ha (2025) → 51,2 mil ha (2026)
    Variação: 30,3%
  • Contratos: 898 (2025) → 1.408 (2026)
    Variação: 56,8%
  • Valor financiado: R$ 107,6 milhões (2025) → R$ 140,4 milhões (2026)
    Variação: 30,5%

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