segunda-feira, 22 de junho de 2026

"Carga tributária é a gênese do subdesenvolvimento brasileiro", diz economista gaúcho

"Praticamente toda a arrecadação brasileira vai para a despesa de custeio, e alimenta a inflação", afirma o economista Ricardo Hingel

"Praticamente toda a arrecadação brasileira vai para a despesa de custeio, e alimenta a inflação", afirma o economista Ricardo Hingel

Dani Barcellos/Especial/Jc
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Bolívar Cavalar
Bolívar CavalarRepórter
Enquanto a economia brasileira passa por incertezas internas e externas, o economista Ricardo Hingel traz uma reflexão para explicar o subdesenvolvimento do País que remonta os anos 1990. Na avaliação dele, a “gênese” dos problemas econômicos brasileiros está na carga tributária, que desde o governo de Fernando Henrique Cardoso gira em torno do 32% e 34% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Hingel explica o porquê dele considerar o Brasil e países europeus com cargas tributárias superiores às nossas como “economias socialistas”. O economista conceitua desta forma quando mais de um terço do PIB de um país é revertido em tributos.
Outro assunto abordado é o de agregar valor a produtos brasileiros. Pegando o Rio Grande do Sul e a produção de soja gaúcha como exemplo, Hingel contesta a priorização de exportação de matéria bruta, ao invés de o País investir em agroindústria para produzir produtos derivados da soja com valor agregado. O economista também traz considerações sobre o livro que lançou em 2026, intitulado Brasil: um país que Insiste em não dar certo.
Jornal do Comércio - Como surgiu a ideia do seu livro ‘Brasil: um País que insiste em não dar certo’?
Ricardo Hingel - Há dois anos eu pensei em uma coletânea (de colunas publicadas anteriormente), só que a partir da coletânea - e eu tinha muita assertividade -, eu disse assim: ‘não, peraí, eu tenho uma linha econômica aqui’. Tem muito mais do que artigos. Aí que eu começo a fazer essa linha, e qual é minha linha econômica, e depois eu caso com a política? Eu tenho um artigo do livro, e pode até começar (a ler) por ele, que é ‘a formação da esquerda no Brasil’. Tem tudo a ver com o que aconteceu com a economia brasileira nos últimos trinta, ou quase quarenta anos, mas eu dou um corte no (ex-presidente) Fernando Henrique. Por que eu falo no subdesenvolvimento crônico do País? A partir do Fernando Henrique, o Brasil resolveu ser uma economia socialista. Não foi a esquerda, não foi o PT que trouxe a carga tributária a 32%. Foi o Fernando Henrique. Muita gente diz assim: ‘não, porque a Constituição botou uma série de direitos’. Sim, mas a Constituição é de 1988. O boom: Fernando Henrique pega a carga tributária entre 28% e 29%, e entrega a 32%. E a partir do Fernando Henrique, a carga tributária brasileira se mantém entre 32%, 33%, 34%.
JC - Que é o patamar até hoje…
Hingel - Que é até hoje. Qual é a repercussão disso? O que acontece? E aí eu faço uma crítica também ali no Fernando Henrique na questão do Plano Real. O Plano Real tinha um tripé. Um dos tripés era o fiscal, então tu tinhas que ter equilíbrio fiscal. O equilíbrio fiscal é um termômetro super importante, obrigatório, mas ele não diz tudo, porque ele não diz qual é o teu nível de despesa. O que o Fernando Henrique fez? Ele aumentou a despesa e teve capacidade e espaço para aumentar a arrecadação. E aí, quando ele aumenta a despesa e aumenta a arrecadação, ele aumenta essa carga tributária. Aí ele começa a subtrair recursos da sociedade. Então, eu explico economicamente que, na sociedade, como é que uma economia se desenvolve? Ela se desenvolve a partir do fluxo econômico que existe. Quanto mais dinheiro estiver circulando, mais a economia vai se desenvolver. Aí uma empresa ou um cidadão trabalha, tem a sua renda, e a empresa ou o cidadão tem três coisas a fazer pra estimular a economia: ele vai consumir primeiro, vai investir também, e, se sobrar, ele poupa. Todos os três estimulam a economia. Se consome, tu estás estimulando um vendedor, uma indústria. Se investe, está aumentando a capacidade de oferta da economia. E se tu poupas, gera dinheiro para financiar o consumo e o investimento. Então, quando tu tiras um terço da sociedade produtiva, a economia do país tem que trabalhar com esses dois terços que sobram. O outro terço aí é um desastre o que o Brasil faz com arrecadação. Aí ao longo do livro eu trabalho com o conceito da dominância política, que, quando tu aumentas um orçamento, tu aumentas também o quê? A disputa por poder. E quem domina o orçamento não é o burocrata. Quem domina o orçamento são as corporações públicas e privadas que vivem disso. 
JC - E quais os principais problemas que observa deste aumento da carga tributária?
Hingel - Uma das maiores gravidades deste aumento da carga tributária é que se tu dissesse assim: foi para 32%, mas dos 32%, 6% a gente investe. Bom, aí soma a taxa de investimento baixa do Brasil, que historicamente é na faixa de 17%, e eu boto mais 5%, 6%, eu fico com 22%, 23%, e estou perto do padrão mundial, e não estou nem falando da China ou da Índia. Então, essa subtração de recursos do setor produtivo é que faz com que o sistema econômico trabalhe só com 2 terços. Não tem mágica nisso. Quando tu tens uma taxa de investimento baixa, o teu crescimento é baixo. 
JC - E como a política se relaciona com isso?
Hingel - Eu não consigo explicar a economia do Brasil sem explicar a política, porque ela é a que puxa. Por isso que eu começo com a história do Fernando Henrique. No governo do Fernando Henrique foi implantada essa economia socialista do Estado grande. E dali nunca mais o Brasil saiu, e dali nunca mais o Brasil cresceu em forma adequada, como poderia. O Brasil tem muito potencial. Quando o Fernando Henrique sai, o lulopetismo já encontra o Estado grande, e ele acredita em Estado grande muito mais. Só que ele, de forma mais evidente, transforma o Estado grande em uma sustentação do projeto de poder. Porque não existe conquista de poder e manutenção de poder sem recurso orçamentário - para questões lícitas e para questões ilícitas. 
JC - O senhor falou da disciplina fiscal do tripé macroeconômico de FHC. Por que isto não pode ser a principal referência?
Hingel - O número principal não é o superávit, mas o que compõe o superávit. Então, praticamente toda a arrecadação brasileira vai para a despesa de custeio, e alimenta a inflação. Eu digo que essa carga tributária é um componente estrutural para a nossa inflação - o que está sempre pressionando é o gasto público. Então, ele pressiona a inflação, pressiona as contas públicas, pressiona a dívida. A nossa dívida é impagável.
JC - Conceitua o Brasil como uma economia socialista, e vinculou isso à carga tributária desde FHC. Países desenvolvidos da Europa têm cargas tributárias superiores à brasileira. Eles também são socialistas, na sua avaliação?
Hingel - Sim, eles, em tese, seriam. O meu conceito é um pouco diferente. (Um país) é socialista porque um terço de tudo é a carga bruta, fora os efeitos. Ou seja, é uma economia dominada com viés de gasto, porque eu não tenho decomposição. A Alemanha perde 40%, só que a Alemanha investe. Ela não usa tudo no custeio. 
JC - Mas aí a disciplina fiscal também não é um entrave no investimento? Até porque muitos destes países trabalham com déficits…
Hingel - Mas não devem. Como é que você cobre o déficit? Você pressiona a dívida. Então o correto é não ter déficit. O déficit tem que ser analisado como uma questão contingencial, temporária. Não pode trabalhar sempre com o déficit. 
JC - O déficit tem que ser estratégico…
Hingel - Ele tem que ser estratégico. Ele é eventual. Eu digo assim: a perpetuação do Estado grande é o mesmo que acreditar no modo contínuo, que na física não existe e também na economia não existe. Então tu podes (trabalhar com déficit) por um determinado momento, agora não pode acreditar que gasto é vida, que gasto é investimento. Gasto é uma coisa e investimento é outra. Os benefícios, os efeitos, são distintos.
JC - Um dos efeitos é a pressão na taxa de juros. Na sua avaliação, se justifica a Selic estar a quase 15%?
Hingel - Em princípio não se justifica. Eu acho que a taxa poderia ser menor. O problema é que você joga um coeficiente de incerteza que acaba justificando. No banco eu era responsável pela precificação da operação de crédito. A operação de crédito tem no mínimo dois componentes: o risco (da operação) e o risco sistêmico. Então eu diria assim: uma taxa de juros real mais baixa justificaria uma taxa menor. Agora, o coeficiente de incerteza, e muito em função do governo perdendo o controle das contas e pressionando a inflação, acaba justificando a taxa elevada. Mas a incerteza é o principal, porque eu cobro pela incerteza. Eu chamo de spread de risco. Então (quando a economia está bem) o spread é normal, agora se a economia está mal e vai ter problemas nos próximos meses, eu vou ter que aumentar o spread de risco. 
JC - E o risco não é só interno, mas também externo. Além de questões de gastos do governo, as guerras e tarifas de outros países também podem impactar… 
Hingel - O agente financeiro trabalha no conjunto de variáveis. Então ele pega no conjunto de variáveis. 
JC - Tem uma subjetividade…
Hingel - Tem, mas aí é que está. A diferença entre o milhão e o bilhão é você acertar a subjetividade melhor do que eu. Mas o conjunto de variáveis trabalhadas é a mesma; o que muda são as leituras. Tudo se trabalha com variáveis. 
JC - O seu livro trata de insistências do País para não dar certo. No que o Brasil precisa insistir para dar certo? 
Hingel - Bom, primeiro, se o Brasil não entender que a carga tributária é a gênese (dos problemas)... Por exemplo, a carga tributária americana é 27%, e quando você olha o tamanho da carga tributária, você tem que levar em consideração a capacidade de contribuição para a sociedade. O Brasil tem uma renda per capita quase 10 vezes menor que a do americano. Ou seja, o americano poderia estar pagando 34%. Eu acho que esse é o primeiro ponto: a gente entender que o nível de despesa pública e de gasto é que gera a carga tributária, e que a carga tributária é a gênese disso, e que gera todos os efeitos colaterais, e é isso que condena o Brasil ao subdesenvolvimento. Começa por aí, e é essa carga que gera as distorções, os desperdícios, os privilégios. O Brasil é a capital, eu acho, do privilégio adquirido. A gente confunde direito adquirido com privilégio adquirido. A gente fala no direito do cidadão, mas não fala do direito da sociedade. Nós temos o código de defesa do consumidor, mas nós não temos o código de defesa do empresário. O empresário não tem direito no Brasil, e o empresário paga a conta. A indústria brasileira é uma grande vítima do modelo econômico brasileiro. 
JC - Tem algum país ou governo que o senhor traria de exemplo para o Brasil espelhar a política econômica? 
Hingel - Olha, eu acho que a Argentina é um país que foi destruído. Eu diria assim: essa dinâmica toda (do Brasil) começou a ser quebrada temporariamente no governo do Temer. O Temer fez algumas reformas. Aí o Bolsonaro - mas a cabeça era o Paulo Guedes - trouxe uma linha liberal, e ele começou a colocar o país no trilho. Mas acontece o seguinte: tu não pega uma casa, que está há 20 anos abandonada, e resolves isso em uma semana, em um mês. Isso leva tempo. Então tu pegas a economia brasileira, a economia argentina, têm décadas de estrago. A gênese de tudo é um país gastador, um país com carga tributária elevada que subtrai a capacidade de investimento e de crescimento do país. 
JC - O senhor também trata de agregar valor ao que se produz no Brasil. Fale mais disso:
Hingel - O Rio Grande do Sul é um grande produtor de soja. Aí a gente briga para melhorar a condição de transporte para o Porto de Rio Grande para exportar soja. Quando exporta soja, tu estás exportando o valor agregado. Porque o chinês vai pegar e vai transformar aquilo em biodiesel, vai transformar em óleo.
JC - A China vai pegar um real de soja e transformar em três reais de produto derivado…
Hingel - Vai transformar em três reais. No Paraná eles agregaram valor à produção. É a palavra chave que eu trago neste trabalho, de transformar o nosso agro, que é muito bom, o agronegócio, que é muito bom, em agroindústria. Que é aí que eu agrego. No Brasil é a mesma coisa. O Brasil tem terras raras. Tu vais mandar a terra rara embora? Quem sabe o produto, e eu não sou especialista nisso, mas eu só imagino dentro dessa lógica de agregar valor, eu tenho que pegar aqueles metais raros, beneficiar e chegar um dia até o produto final.
JC - E que políticas o governo brasileiro pode implementar para influenciar o setor privado a avançar na valorização dos produtos?
Hingel - Tem que ver as condições. O Brasil tem problema logístico e falta uma infraestrutura adequada. Isso é uma condição, é o custo Brasil, e eu analiso o custo Brasil. O custo Brasil é composto por doze variáveis básicas, então ele pega desde a parte tributária, até infraestrutura, logística, energia… Aí eu analiso as doze variáveis e a conclusão que eu chego é que nas doze variáveis tu tens a mão do setor público. 
JC - E na questão do gasto público, onde avalia que o governo tem que gastar menos de forma a não colapsar os serviços públicos? Boa parte do orçamento do brasileiro vai para a dívida…
Hingel - Arredondando, R$ 5 bilhões é o total do gasto, e R$ 3 bilhões é a questão da despesa mesmo, e tu tens mais R$ 2 bilhões que é o efeito da dívida. Eu acho que é muito desperdício, muito privilégio, muito desvio, e a gente não tem noção do custo da corrupção efetiva. Porque só no exemplo dessas emendas parlamentares, que é ‘titica’, o que já dá de desvio. Agora imagina em toda máquina. Acho que há deficiências de auditoria, fiscalização, e o caso Master mostra isso. O Master mostrou que a fiscalização do Banco Central não estava adequada ao momento atual do sistema financeiro. O sistema tomou um tamanho e uma complexidade muito maiores, e a estrutura do Banco Central não acompanhou. O que o Brasil precisa? Eu concluo que precisa da reforma fiscal; não precisa da reforma tributária. A tributária vem depois. Eu preciso da fiscal, porque a fiscal traz a despesa, então eu preciso da reforma administrativa. Na reforma administrativa, tu acaba com distorções, distorções de remunerações e tal, mas também de funcionamento. O Estado está inflado, está inchado, umas discussões que a gente faz, é o seguinte: dá pra tu digitalizar 100% do serviço público hoje, é só querer, está muito abaixo disso. Tem que trabalhar a reforma administrativa para saber qual é efetivamente o teu limite de gasto, e depois tu vê a tributária.
 

Perfil

Ricardo R. Hingel é economista com trajetória no mercado financeiro. Atuou por onze anos como diretor do Banrisul, sendo responsável por seu IPO (Oferta Pública Inicial) durante o período. Também teve passagem pelo BTG Pactual. Foi diretor de secretarias de Estado do Rio Grande do Sul, tendo sido o responsável técnico pelas negociações que trouxeram a General Motors e a Ford para o Estado. Atualmente atua como consultor empresarial, conselheiro de empresas e palestrante. Em 2026, lançou o livro "Brasil: um País que insiste em não dar certo".

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