quarta-feira, 28 de outubro de 2015



28 de outubro de 2015 | N° 18338 
MARTHA MEDEIROS

Dentro do seu corpo

Quem é dono do que acontece dentro de você?


Sua história passa por dentro do seu corpo. Você é dono de seus arranhões e também das contusões conquistadas em subidas em árvores e quedas de escadas. Dono das cicatrizes externas e internas, dos enjoos de nervosismo diante das broncas do pai, do primeiro pedido de namoro, das provas do vestibular.

Você é dono do seu joelho, do seu cotovelo, do seu estômago, da sua hérnia, da sua pedra no rim. É sua a hepatite, é sua a corrente sanguínea, a adrenalina por ter escapado por pouco de um assalto ou de um acidente.

Você é dono da sua taquicardia na hora de uma entrevista de emprego, você responde pelos quilos a mais depois de passar o fim de semana pulando de um churrasco para uma feijoada. Seus dentes são seus. Sua língua. Seu beijo.

Dentro do seu corpo estão as lágrimas represadas por dores que você esconde embaixo da pele. Esse tumor desgraçado é seu. Essa alegria infinita é sua. Você pensa porque tem um cérebro aí dentro que não é de ninguém mais. Você resolve para onde olhar com seus olhos, o que segurar com suas mãos, com quem compartilhar seu sexo. Você pode vender seu corpo, mas nunca precisou comprá-lo, tem a posse gratuita, legítima, vitalícia e intransferível.

Intransferível.

Através do corpo, você exerce as duas coisas que movem sua vida: o querer e o não querer. Se você deseja, se você resolve, se você pretende, é com o corpo que alcançará seu destino. E você também é dono da sua paralisia, se assim preferir. Tudo o que você sente, tudo o que você é, vem aí de dentro. O que você quer expelir e o que você quer cuidar. Músculos e sentimentos na mesma caixa-forte.

Você aborta se quiser. Ou gera se quiser. O corpo é seu. O embrião é seu. A história de vida é sua.

Políticos são eleitos para garantir às pessoas (a partir do nascimento, quando se tornam seres sociais) segurança, habitação, transporte, educação, saúde e trabalho. O querer e o não querer de cada um são privados. O que cada mulher traz dentro do próprio corpo é dela, não do Estado.

Não bastasse o aborto ser proibido, agora querem transformá-lo em crime hediondo. Um político, que é um cidadão qualquer, tem o poder de decidir sobre o corpo da minha filha e o corpo da sua. Não importa a vontade delas próprias, suas questões emocionais, psicológicas, íntimas. 

Não interessa a idade que elas têm, se são religiosas ou ateias, se estão empregadas ou desempregadas, se já são mães de sete ou se jamais quiseram ser mães. Não lhes dão o direito ao medo, nenhum privilégio pela ordem de chegada, adeus ao livre-arbítrio. Engravidaram e, a partir de então, não são mais elas que escolhem.

O querer e o não querer mais pessoais do mundo, administrados por quem não tem absolutamente nada a ver com o assunto.



28 de outubro de 2015 | N° 18338 
PEDRO GONZAGA

TANTOS CAFÉS


Lembro de um antigo poema do Ferreira Gullar em que, diante do café, o eu-lírico pensava na cadeia produtiva do açúcar, na exploração do homem pelo homem, nos canaviais e nas usinas escuras, para que pudesse, naquele instante, adoçar o seu café em Ipanema. Lembro do som dos versos enquanto cogito de onde vêm as três gotas do edulcorante que agora uso na manhã fria para adoçar o meu café. 

Os amantes da bebida sabem – e gentilmente me perdoam por estragá-la, ferindo-lhe a pureza – que a olorosa fumaça é privilégio das manhãs frias. No calor, que graça? Longa também poderia ser a discussão de quão válido é combinar o café com o leite. Lembro de Manuel Bandeira num curta-metragem, humildemente, de chambre, tomando seu café clarinho com os olhos na xícara. Declamo Café com pão em singela homenagem, à maneira como Tom Jobim o musicou.

Penso que talvez seja esta a derradeira manhã fria de 2015, e que logo farei 40 anos e, por mais melancólico que seja considerar a coisa nesses termos, vivida estará a metade das manhãs frias que me cabem. Lembro de um filme francês em que um personagem dizia, “Todas as manhãs do mundo são sem volta”, que eu repetia vaidosamente nos meus vinte, mas que finalmente entendo, porque chega a hora em que a grande arte deixa de ser apenas uma antecipação.

Bebo um novo café antes que esfrie. Ao retornar, acrescento que, apesar das verdades ásperas, minhas lembranças cafeinadas teriam muito menos graça sem essa coletânea artística que a memória guarda, mesclada aos eventos vitais. 

Lembro de meu falecido amigo, professor de piano, que guardava as sobras de café das térmicas e um dia por semana as requentava para um aluno qualquer, só para ver como a injustiça do mundo se manifestava, enquanto o pobre bebia a bebida intragável. Interessava-lhe a aleatoriedade da maldade, mas isto é assunto longo para um café curto.

Lamento não poder escrever a crônica ao tempo de uma só xícara. Mas vocês podem lê-la a esse tempo, e por tolo que pareça, ao saber disso, mesmo depois do evento, aí estará a alegria do escrevinhador. Esta alegria tardia que é boa parte da alegria de escrever.


28 de outubro de 2015 | N° 18338 
DAVID COIMBRA

O robozinho


Tem um robozinho que varre a casa. Ainda compro um, quando o real tomar tenência e o dólar arrefecer. Não sou muito de comprar coisas, mas esse robozinho eu quero. Ele parece um disco voador, só que pequeno, mais ou menos do tamanho daquilo que antes se chamava LP e hoje é vinil. Você liga o robozinho, larga-o no chão e ele sai limpando tudo. Onde tem sujeira, ele vai. Passa o dia inteiro assim, a casa fica faiscando de asseio.

Do que mais gosto nesse robozinho nem é tanto sua eficiência como faxineiro, embora possa me considerar adepto entusiasmado da higiene. Falo sério. Desenvolvi um revolucionário método de lavação de louça, se você quer saber. Lavo a louça de um lauto jantar antes que você possa dizer Cucamonga sete vezes. Está certo, não sou exatamente destro em limpeza profunda, mas, para isso, sempre contei com profissionais especializados.

Esse assunto me traz recordações. Tive uma faxineira pelada, certa feita. Ela limpava meu apartamento semanalmente. Uma tarde, fui mais cedo para casa, por algum motivo. Percebi, pelo barulho, que ela estava trabalhando no banheiro. Caminhei até lá para falar com ela e... Jesus! Vi a faxineira sem nenhuma roupa, de quatro, lavando o chão afanosamente, as grandes nádegas leitosas apontando para mim, ameaçadoras. Aquilo me deixou em pânico. Engoli um grito de horror. 

Como ela não tinha notado minha presença, recuei com cuidado até a porta e saí. Só voltei quando tive certeza de que ela fora embora. A partir daquele episódio, nunca mais fui para casa sem ligar antes, no dia da faxina.

Depois dessa faxineira, tive outra que era muito controladora. Ela trabalhava às segundas. Chegava de manhã, via as garrafas de cerveja espalhadas pelo apartamento, olhava-me maliciosamente e comentava, erguendo uma sobrancelha de acusação:

– Parece que tivemos uma festinha por aqui, no fim de semana...

Aquilo me deixava nervoso. Eu gaguejava:

– Não... Não foi fes-festinha... Só recebi uns amigos e...

Ela me dava as costas, não sem antes rosnar:

– Sei! E ia-se para o quarto. Eu saía de casa me sentindo culpado.

Troquei-a por uma que não limpava tão bem, mas que era mais tolerante. O problema dessa é que toda segunda ela quebrava alguma coisa. Um dia a chamei e mostrei-lhe uma estante cheia de porcarias de porcelana:

– Está vendo essa estante? Quebra esses troços aqui, certo? Te concentra nessa estante.

Não adiantou.

A verdade é que gostava de todas elas, apesar de suas eventuais idiossincrasias. Todo mundo tem seus defeitos, ora. Mas o robozinho acho que não. O robozinho é perfeito. E o que mais aprecio nele, como ia dizendo aí em cima, o que me deixa realmente encantado é algo de especial que ele faz, que vi na TV.

É o seguinte: quando a bateria do robozinho está no fim, ele mesmo procura uma tomada pela casa e se acopla nela, a fim de recarregar as forças. Isso, de alguma forma, me comove. Porque parece uma demonstração de humildade do robozinho. Parece que ele está dizendo: “Limpei tudo, agora estou cansado, vou ali me recuperar”. E calmamente, docemente, humanamente, desliza para a tomada e se aconchega, como quem puxa o cobertor até o queixo, ao se deitar numa noite de inverno. Deve ser bonito ver isso. É certo que vou comprar esse robozinho.


28 de outubro de 2015 | N° 18338 
MOISÉS MENDES

Machistas e fascistas


Por que, além de Bolsonaro e Feliciano, ainda há tantos homens com medo das mulheres? Que incômodo os mobiliza contra uma frase com mais de 60 anos? A frase, de Simone de Beauvoir, que apareceu no Enem é esta: ninguém nasce mulher, torna-se mulher.

Temem a frase e temem o tema da redação do Enem sobre a violência contra as mulheres. Que insegurança os atormenta?

Devem ser os mesmos que repetem de vez em quando, mesmo que nem sempre em voz alta: eu tenho o direito de ser machista. Vi essa frase várias vezes em alguns textos do livro que estou lendo: Como Conversar com um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, de Marcia Tiburi (Record, 194 páginas).

Quem se surpreendeu com as reações à frase de Simone e ao tema da redação pode encontrar reflexão corajosa no livro da professora de filosofia que não faz volteios para abordar todo tipo de preconceito, linchamento, violência e ódio.

O livro faz uma lista de fascistas. E lá está o machista, o declarado ou o dissimulado. O violento, do tapa, do estupro, dos tiros e das facadas – quantas vezes em nome da “honra”?

O metido a espirituoso, debochado, insistentemente sarcástico, mesmo que tudo isso seja redundante. O machista aparentemente sábio, que tenta desqualificar a frase de Simone com certa empáfia.

Não, não estamos falando da brincadeira eventual que fica no limite da grosseria, mas dos atos do machista doentio definido por Marcia como um narciso infantilizado e emburrecido pela sequela de alguma rejeição.

O machista idiotizado mobiliza redes sociais, arregimenta aliados, como os que seguem Bolsonaro e Feliciano, e – escreve ela – grita no Facebook como um histérico, porque as mulheres são o seu tormento.

O machista é um sádico em alguns casos protegido por falsas sutilezas. Como a tentativa de depreciação, sob argumentos falsamente sofisticados, de qualquer ponto de vista que possa ser definido por ele como feminista.

O machista pensador junta argumentos em almanaques para desqualificar qualquer gesto, como os dos formuladores do exame do Enem, que amplifique o medo que sente das mulheres. O antifeminismo precário é apenas o pretexto. O que ele teme mesmo são as mulheres.

Dos outros ódios de linchadores, racistas e fascistas presentes no livro não vou falar. A lista é grande. E é claro que ninguém nasce fascista.

terça-feira, 27 de outubro de 2015



27 de outubro de 2015 | N° 18337 
CARPINEJAR

A bela e a fera


A mulher linda é a alma gêmea do homem feio. Os dois são vítimas da aparência, com grandes dificuldades para demonstrar o que são por dentro. Sou o feio de minha casa. Mas não enfrentei um bullying como o que aguentou a minha irmã Carla, uma boneca de tão formosa.

Eu fui debochado, chamado de ET, de monstro, de apelidos inimagináveis. Cansei de me envergonhar e de suportar os colegas rindo do meu jeito desengonçado. Porém mantenho o discernimento de que a Carla sofria mais: as pessoas por perto desconfiavam de sua inteligência. Não podia ser bonita e inteligente ao mesmo tempo.

A gozação era de outra ordem, caracterizada pelas indiretas. No meu caso, o bullying era a gargalhada escancarada; no caso dela, era a conversa sussurrada.

No meu caso, o bullying era a ofensa gritada; no caso dela, era a suspeita silenciosa. No meu caso, o bullying era a troça; no caso dela, era a fofoca. No meu caso, o bullying era feito em minha presença; no caso dela, era construído em sua ausência.

Qualquer avanço precoce que ela alcançava na vida, pelos seus méritos e estudo, terminava creditado para a sua beleza. Os colegas insinuavam que encontrava facilidades por ser exuberante.

Não podiam admitir a sua genialidade, e suas proezas como a láurea na faculdade de Direito da UFRGS ou o primeiro lugar no concurso do Ministério Público. Ela cresceu obrigada a se defender do senso comum, que não admitia que ela pudesse ser também competente, que conservava a mania de achar que toda a miss é burra, de que todo mulherão precisa seduzir para conseguir os seus objetivos.

Enquanto muitos deduziam que ela lesse O Pequeno Príncipe, ela conhecia O Príncipe, de Maquiavel, de cor e desbravava os clássicos da política e da literatura.

A beleza nunca a favorecia, apenas atrapalhava. Trabalhou o dobro para ser aceita, e o triplo para ser reconhecida. A mulher linda é tratada somente pelo seu físico, esvaziada de personalidade. São um preconceito e um machismo invisíveis, traficados pelo elogio do corpo.

A agressão acontece de modo psicológico e sutil, e o isolamento torna-se quase certo. Tem que se desvencilhar de cantadas ininterruptamente. Há uma dificuldade para encontrar amigos e chefes desinteressados. Sair na rua é aturar os assobios da construção civil e os olhares pornográficos. Existirá a inveja das amigas que procurarão desmerecer o seu sucesso profissional. Professores esnobarão a sua imagem bem-vestida.

A mulher bonita corre sérios riscos de virar um alvo meramente sexual e jamais ser vista por inteiro. Só ela entende o que o homem feio sente.


27 de outubro de 2015 | N° 18337
EDITORIAIS ZH

DIREITO BANALIZADO


Ao declarar inconstitucional a famigerada Lei de Imprensa, o Supremo Tribunal Federal deixou para o Legislativo a tarefa de regulamentar o Direito de Resposta previsto entre as garantias fundamentais da Constituição. 

Mas as iniciativas para a elaboração de normas para a eventual reparação de danos acabam por produzir uma distorção. É o projeto de lei 6.446, aprovado pela Câmara, que pretende assegurar direito de resposta em veículos de comunicação a qualquer pessoa, empresa ou entidade que se sentir ofendida por informação ou análise veiculada.

Por esse enfoque, não só um delinquente pode ver ofensa em notícia publicada sobre seus atos e pedir direito de resposta, mas também um artista que venha a ter sua obra criticada. Ficaria a critério de qualquer ofendido a percepção genérica do dano, e a lei passaria a tratar, não de prejuízos reais, mas de sentimentos. 

O projeto não contribui para avanços nessa área. Faz parte da prática cotidiana da imprensa o reconhecimento ao direito de resposta, quando a informação divulgada é comprovadamente inverídica ou passível de entendimento, referendado pela Justiça, de que configura calúnia, injúria ou difamação. Cabe aos juízes arbitrarem os casos controversos.

O projeto de autoria do senador Roberto Requião concede poderes excessivos ao ofendido, garantindo, além do direito de resposta, indenização por dano moral, material ou à imagem. 

Reparações devem levar em conta critérios objetivos consagrados pelas leis e pelas decisões do Judiciário. Banalizar o direito de resposta é conspirar contra o fortalecimento da liberdade de expressão exercida com responsabilidade. Como o projeto retorna ao Senado, os parlamentares têm a oportunidade de submeter o tema, sem interpretações subjetivas, ao que está expresso na Constituição.


27 de outubro de 2015 | N° 18337
ARTIGOS - ESTHER PILLAR GROSSI*

AS SITUAÇÕES É QUE ENSINAM

Gérard Vergnaud, na mais importante contribuição atualizada ao ensino, demonstra que não se aprende por explicações, mas por aquilo que situações concretas provocam.

Ora, se há (e há) de sobra situações concretas de persistência da violência contra mulheres na sociedade brasileira, alunos aprendem e muito nessas situações. Aprendem com as violências por agressões físicas abomináveis e com as terríveis e costumeiras violências sexuais de assédio e estupro, inclusive no interior das “sacrossantas” famílias “bem estruturadas” constituídas por pai, mãe e filhos “biológicos”.

Se a escola não vincula o que quer ensinar àquilo que os alunos aprendem na vida, a escola perde para a realidade cotidiana. Vergnaud, em sua consistente Teoria dos Campos Conceituais, escancara o fato de que as únicas situações verdadeiramente capazes de ensinar são as que afetam os alunos.

É possível imaginar que crianças e adolescentes que veem mães, irmãs ou vizinhas apanhando e/ou padecendo até o cúmulo de numerosos assassinatos não são afetados por tais acontecimentos? E, mais, quantas das próprias mulheres que fizeram Enem já foram vítimas de violência?

Como eu, que sou professora de matemática, vou conseguir motivá-los para a relevância do Teorema de Pitágoras se ignoro algo importantíssimo que eles estão aprendendo no dia a dia?

Como ex-deputada, me congratulo com o Inepe por ter escolhido este tema tão atual, em um momento de retrocesso legislativo da Câmara ao votar leis referentes às mulheres, às famílias e aos direitos humanos no Brasil.

Por favor, pensar que o tema da redação do Enem foi ideológico é ser ignorante em relação ao que há de melhor hoje, em pedagogia e didática, ou seja, que as situações é que ensinam.

*Presidente e pesquisadora do Geempa



27 de outubro de 2015 | N° 18337 
DAVID COIMBRA

A perturbadora questão 14


Recebi de presente a cópia dessa questão 14 do Enem. Trata-se de uma safira da língua escrita. Leia o texto escolhido pelos organizadores da prova, de Santos, M. Ele começa com autoridade:


“No final do século XX e em razão dos avanços da ciência, produziu-se um sistema presidido pelas técnicas de informação”.

Assim que li a primeira frase, pensei, um pouco aflito: a que técnicas se referirá Santos, M.? Estará ele falando da internet? A internet é uma “técnica da informação”? Oh...

Mas Santos, M., pouco ligando para minhas dúvidas, foi em frente com galhardia, afirmando que as técnicas essas “passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema uma presença planetária”.

Fiquei ainda mais intrigado. “As demais”? As demais o quê? As demais técnicas? Técnicas de quê?

Santos, M. afirmou que as técnicas de informação serviram de elo entre duas outras técnicas. Uma técnica numa ponta, outra técnica na outra ponta e as técnicas de informação entre elas, unindo-as a fim de assegurar ao tal novo sistema “uma presença planetária”. Que técnicas foram unidas pelas técnicas de informação, Santos, M.? Me diga!

Ele não disse. Santos, M. mostrou-se indiferente à minha ignorância. Ele apenas acrescentou, de modo sombrio, que “um mercado que utiliza esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa”.

Santos, M. me deixou realmente inquieto.

Só que, abaixo de seu texto enigmático, vem o dos professores que redigiram a prova do Enem. E eles me aliviaram, dizendo coisas como “eliminação das vantagens locacionais”. Que palavra tão bonita essa, “locacionais”. Nunca a tinha usado. Senti inveja dos professores do MEC, que saem por aí falando em coisas locacionais. Anotei essa palavra e qualquer dia vou engastar um “locacional” num texto, de preferência antes de um ponto de exclamação:

“Isso é locacional, meu caro! Muitíssimo locacional!”

Já o item B falou em “limitação dos fluxos logísticos”. Isso me revoltou. Onde se viu um absurdo desses, limitar os fluxos logísticos? Temos de lutar para que os fluxos logísticos não sejam limitados! Fluxos logísticos, obviamente, têm de fluir, não ficar emperrados. Não, senhor!

Poderia derramar dezenas de parágrafos ponderando acerca das vantagens locacionais e até dos fluxos logísticos, mas sei que a resposta correta é a derradeira: “Automatização dos processos fabris e aumento dos níveis de desemprego”. Isto é: foram os avanços da ciência que causaram o aumento do desemprego no Brasil e no mundo. Maldita ciência! O que será que Santos, M. sugere para nos proteger dela?


segunda-feira, 26 de outubro de 2015



26 de outubro de 2015 | N° 18336
EDITORIAL

GASTANÇA FEDERAL

O Planalto, que tenta convencer os brasileiros da urgência de um ajuste fiscal, deveria começar dando o exemplo, cortando gastos na máquina administrativa.

Sempre que recebe um governante estadual solicitando recursos federais, o ministro Joaquim Levy faz questão de posar para fotos na frente da parede do Ministério da Fazenda onde se localiza o cartaz com o conceito da Lei de Responsabilidade Fiscal: “Agora o Brasil só gasta o que arrecada”. Infelizmente, e a responsabilidade não é só do ministro, o próprio Palácio do Planalto vem dando maus exemplos, a começar por gastos excessivos com uma burocracia estatal que, nos últimos anos, aumenta em número e consome cada vez mais recursos, bancados com os impostos dos contribuintes. 

Só na ativa, o governo federal tem hoje 618 mil funcionários. Entre esses, inclui-se uma elite que, graças ao acúmulo de gratificações e vantagens, consegue auferir ganhos mensais superiores aos de ministros e aos da própria presidente da República – situação incompatível com a realidade financeira do país.

Não faz sentido que, enquanto tenta convencer o país da necessidade de um rigoroso ajuste fiscal, impondo um custo pesado para todos os brasileiros, o governo preserve práticas na máquina administrativa totalmente na contramão. A tendência a atitudes perdulárias não é de hoje, mas fica mais visível diante da crescente negação dos contribuintes a aumento de impostos e à maior cobrança por rigor das contas por parte de instituições como o Tribunal de Contas da União (TCU). Desde 2000 até agora, o número de cargos de confiança no governo federal, por exemplo, passou de 66.040 para 100.313, e nada indica que apenas a crise financeira seja suficiente para deter esse inchaço.

Pressionado pelo clamor popular, o Planalto acabou reduzindo o número de ministérios de 39 para 31 neste ano. A iniciativa, porém, tem impacto reduzido numa máquina administrativa em que ocupantes de cargos de confiança, muitas vezes cedidos de estatais, disputam 37 tipos de gratificações, como retratou, recentemente, o jornal O Globo.

O Planalto, que tenta convencer os brasileiros da urgência de um ajuste fiscal, deveria começar dando o exemplo, cortando gastos na máquina administrativa. É inadmissível que, enquanto famílias e empresas apertam o cinto, os responsáveis pela condução de políticas governamentais continuem a viver como se fizessem parte de outro mundo.



26 de outubro de 2015 | N° 18336 
CÍNTIA MOSCOVICH

POR QUE URBIM SERÁ IMORTAL

Na próxima sexta-feira, última de outubro e na qual, tradicionalmente é aberta a Feira do Livro de Porto Alegre, os que trabalhamos com literatura temos uma missão. Às dez da manhã, nos toca inaugurar o Teatro Carlos Urbim, que deveria funcionar no cais do porto, mas que, em função das cheias do Guaíba, foi transferido para a Avenida Sepúlveda.

Tendo nos deixado no dia 13 de fevereiro deste ano, aos 67 anos, Urbim será lembrado de forma perene graças a uma obra que, focada no universo infantil, também mirava valores como o humor, a precisão da frase, o encantamento das fábulas e a doçura das memórias. Leitor da poeta uruguaia Juana de Ibarbourou e de Mario Quintana, de quem apreciava as tiradas irônicas e a fineza do humor, Urbim apostou em personagens que evitavam as formas prontas ou enredos moralistas ou didáticos – aí estão a Traça Biblió, o Piá Farroupilha, a Pandorga Patropi e o próprio Dadau, o guri daltônico, que era seu alterego.

Na procura pela simplicidade, Urbim nunca deixava por menos. Ia buscar no menino santanense o encanto redondo das bolachas Maria, passando pela goma arábica, o caderno de temas, a apostila de admissão ao ginásio, o baú de brinquedos. Foi um entusiasta das pandorgas e da sua singeleza de papel de seda e taquarinhas.

Urbim era exigente e fazia poucas concessões. Por isso, se entende que seus textos evitassem a obviedade com que muitos pais e professores tratam crianças. Urbim refinou o gosto literário de duas gerações e fez com que seus textos fossem acompanhados dos trabalhos dos melhores artistas plásticos e ilustradores do país, gente como Zoravia Bettiol, Fabio Zimbres, Eduardo Vieira da Cunha, Monika Papescu, Rodrigo Rosa, Eloar Filho, Marco Cena, Guazzelli e Claudia Sperb – muitos livros dele são verdadeiras obras de arte.

Na sexta, as kombis do projeto Kombina estarão na Sepúlveda. Será lançado um livro inédito do Urbim, A Caixa do Alvinho, com ilustrações de Laura Castilhos e editado pela Coordenação do Livro e Literatura de Porto Alegre, com organização de Chris Dias e Márcio Pinheiro. 200 exemplares serão doados a professoras da rede pública – coisa que o Urbim certamente apreciaria.


26 de outubro de 2015 | N° 18336 
DAVID COIMBRA

A questão do Enem


Acompanhei a febril discussão travada “nas redes”, no fim de semana, sobre a frase de Simone de Beauvoir que caiu na prova do Enem. É frase conhecida, o mesmo debate já se deu muito tempo atrás, e foi sempre um debate sonolento. Mas não é a tese de Beauvoir que interessa. Nem vou reproduzi-la. O que interessa é que a maioria dos alunos que a leram não conseguiram interpretá-la, seja para concordar, seja pra discordar.

Não me incomodaria de ver as escolas públicas brasileiras educando pequenos Josés Dirceus ou pequenos Ronaldos Caiados, desde que as crianças saíssem de lá educadas. A ideologização é péssima, claro que é. Todas as ideologias são emburrecedoras, sem exceção. Mas, levando-se em conta a situação da escola pública brasileira, esse é um problema subalterno.

Cursei o segundo grau no Piratini, excelente colégio público. Havia ainda o Dom João Becker, nos altos do IAPI, o Parobé, célebre por seu ensino técnico, o Instituto de Educação, o Julinho, o Colégio Uruguai, o Irmão Pedro, o Infante Dom Henrique, e tantos outros, todos ótimos, de nível tão bom quanto qualquer escola privada.

O que aconteceu, de lá para cá? Por que a situação da escola pública, no Brasil em geral e no Rio Grande do Sul em particular, piora de ano para ano?

Não é só culpa dos governantes. Temos aí um problema cultural.

Quando Lutero liderou a reforma religiosa, há quase 500 anos, houve uma secularização do ensino na Europa. Um dos atos mais importantes de Lutero foi a tradução da Bíblia para o alemão. Não por diletantismo. Com esse trabalho, ele se tornou o fundador da língua alemã moderna, tanto quanto Dante o fora da italiana, 200 anos antes. Lutero dedicou-se a essa dura tarefa para que a Bíblia fosse acessível a todas as pessoas, o que as libertaria das amarras do papado, e permitiria que elas aceitassem as novas religiões. Mas, para que as pessoas pudessem ler em alemão, elas teriam de saber... ler! Logo, a educação era importante.

É por isso que, na fundação de qualquer cidade de raiz protestante, os primeiros prédios erguidos eram o da igreja e o da escola pública, muitas vezes lado a lado. A primeira escola pública da América foi levantada aqui, em Boston. É a Boston Latin School, que existe desde 1635, onde estudaram figuras como Benjamin Franklin.

Nos países católicos, a educação era restrita à nobreza e ao clero, precisamente porque a nobreza e o clero eram quase que a mesma coisa, havia interdependência entre eles, e a exclusividade do conhecimento lhes dava poder.

É claro que o mundo evoluiu e se transformou, mas você pode até mudar velhos hábitos, sem mudar velhos sentimentos. Há em nós, nos países católicos, um sentimento recôndito de que a educação não é um fim em si mesmo. A nossa percepção é de que a educação tem de servir a outro objetivo, e aí haverá de ser qualquer um: pode ser o mais comum, o de ganhar dinheiro, até o mais bizarro, o da “formação de quadros”, passando pelo supostamente libertário, que é o de “conscientização”, que na verdade não liberta: dogmatiza. O “conscientizado” pensa pela cartilha.

No Rio Grande do Sul havia, tempos atrás, uma educação de matriz protestante. Não por acaso, a melhor do país. Mas o Rio Grande do Sul foi se “abrasileirando”, todo o Brasil foi “se abrasileirando”. Hoje, mais do que nunca, o Brasil é um país homogêneo. Somos todos iguais, ou mais ou menos iguais. O que não significa que sejamos melhores.


26 de outubro de 2015 | N° 18336 
NÍLSON

As meninas caingangues


Todo sábado cruzo com meninas caingangues que frequentam a mesma feira de produtos orgânicos onde faço minhas compras no bairro Tristeza, na zona sul de Porto Alegre. Elas vendem artesanato, cuidam dos irmãos menores, de vez em quando pedem para um “tio” ou uma “tia” comprar-lhes frutas ou biscoitos. Sempre há adultos da tribo por perto, mas raramente interferem nesse trabalho infantil consentido. Os índios brasileiros vivem como desgarrados nas grandes cidades. Poucos escapam da pobreza e da mendicância.

A escola é uma das raras portas de saída para a população pobre. Por isso, doeu mais ainda aquela tragédia da Aldeia dos Coqueiros, em Estrela, onde quatro jovenzinhas foram atingidas por um ro

dado de caminhão que se desprendeu do eixo. Elas estavam nas margens da BR-386, esperando um ônibus escolar e um futuro mais digno. Chegou antes a fatalidade – cruel, monstruosa, difícil de entender à luz da razão ou de qualquer crença.

O fatalismo não é apenas uma crendice. Diz a Teoria da Relatividade que o futuro é tão imutável quanto o passado. Por esse raciocínio, estaria escrito nas estrelas que aquelas vidas seriam interrompidas precocemente, de maneira brutal. Respeito todos os deuses, inclusive Einstein, mas não me conformo com isso.

Sem sair crucificando o infeliz motorista, que provavelmente jamais se livrará do tormento de ter causado tamanha desgraça, também penso que o veículo poderia ter sido melhor revisado antes de rodar. Num primeiro momento, revolta o fato de o condutor não ter parado o carro para socorrer as vítimas, mas é grande a possibilidade de que o homem não tenha percebido, como alegou à polícia.

Ainda assim, ele não está totalmente inocente. É cúmplice de uma sociedade que coloca o progresso, a pressa, a velocidade e a cultura do automóvel acima da vida humana. Todos somos cúmplices disso. 

Mas esse comportamento também não deve ser uma fatalidade. Com nosso livre-arbítrio e nossa inteligência, podemos, sim, contrariar teorias religiosas e científicas para garantir um futuro mais digno às meninas que perambulam entre as barracas de frutas aos sábados e a tantas outras crianças que merecem uma vida melhor.

Aqueles pneus desgovernados são um bom motivo para refletirmos sobre a cultura do progresso, da pressa e da velocidade. Algum sentido – à luz da razão ou das crenças – tem que ter aquele absurdo.

sábado, 24 de outubro de 2015


25 de outubro de 2015 | N° 18335 
MARTHA MEDEIROS

Você, eu e nossos amigos


Antes da era tecnológica, a gente via os amigos de vez em quando, em encontros eventuais. Agora, eles estão na palma da mão. Sabemos tudo o que eles pensam e o que fazem, as informações são atualizadas em minutos, e o resultado disso? Fé na humanidade.

Se depender de você, de mim e de nossos 3.768 amigos, ou 7.543, ou 21.544 (quantos amigos você tem?), o mundo está salvo. Porque, veja bem: somos todos bons. Somos todos justos. Somos todos inteligentes. Somos todos amorosos. Somos todos honestos. Escândalos políticos não têm nada a ver com a gente: somos todos críticos, atentos, lúcidos. E estamos todos estupefatos, lógico. Acreditávamos que a sociedade era íntegra, já que somos todos íntegros.

Todos nós amamos os animais, adotamos cachorros de rua, gatos abandonados, porquinhos-da-índia. Cuidamos deles, nos importamos com eles, temos por eles um amor que se equipara ao amor que sentimos por nossos filhos. Ah, nossos filhos. Somos todos pais espetaculares de filhos que não se drogam, não bebem, não são jovens indiferentes, não são preguiçosos, não são acomodados, não estão perdidos, não são sedentários. Foram crianças excepcionais e não poderia dar noutra coisa: hoje são adultos incríveis. É de família. Bênção do DNA.

Somos todos ecologistas, amantes da natureza, adoradores de crepúsculos, mares, florestas. Não pisamos na grama, não poluímos os rios, não jogamos bituca de cigarro no chão, somos a favor da energia eólica e solar, reverentes às flores, às montanhas, às cachoeiras, às árvores. Tudo documentado em fotos, milhares delas.

Somos a favor dos refugiados, das empregadas domésticas, dos gordos, dos gays, dos pobres, das mulheres, das crianças, dos negros, dos chineses, dos sírios, dos mendigos, dos feios, dos albinos, dos haitianos, dos anões, dos favelados, dos nudistas e demais minorias – minoria é gente à beça.

Somos todos conscientes e defendemos os direitos humanos. Somos todos bem-amados, bem-humorados, temos bom gosto. Todos nós respeitamos as regras de trânsito. E o nosso time só perdeu porque o juiz roubou.

Não temos religião, mas somos espiritualizados. Não fazemos parte de nenhuma ONG, mas vestimos a camiseta. Dirigimos carros, mas damos a maior força para as ciclovias. Não somos vaidosos, apenas usamos nossa imagem a fim de enaltecer boas ideias e intenções. Estamos a serviço de um mundo melhor. Somos todos messias. Todos gurus.

E todos nós votamos corretamente nas últimas eleições.

O inferno são os outros. Jamais você, eu e nossos amigos. Os 3.768, os 7.543, os 21.544 que estão conectados, que vivem na bolha da autorreverência e não possuem defeitos, a não ser este, que é meio suspeito: o de não ter defeito algum.



25 de outubro de 2015 | N° 18335 
CARPINEJAR

Brigando direito

Sou fã de seriados, venho assistindo três ao mesmo tempo: Elementary, Narcos e Newsroom.

Neste último, um dos personagens jornalistas diz para a sua colega de trabalho que vive se separando do namorado: “Vocês precisam aprender a brigar direito”.

É um conselho que deveria ser levado para o ouvido do noivo e da noiva ao pé do altar: aprender a brigar direito é reduzir os danos e evitar as rupturas (e desgastantes reconciliações).

Briga boa é discussão curta, sem tempo para envolver outras pessoas e com espaço reduzido para não produzir ressentimentos. É falar o que feriu, explicar o ponto de vista, ouvir o contraponto, acolher as desculpas e seguir em frente, sem o risco de retaliações e excessos. Dependendo do que aconteceu, um longo telefonema ou um chimarrão ao entardecer resolve a pendenga.

Briga boa é aquela que não sai de casa, permanece dentro do círculo do relacionamento, a portas fechadas. Não vira cobrança, sermão e dívida. Mágoa longa sempre gera fofocas e opiniões incontroláveis de terceiros.

Briga boa não deve ultrapassar 24h, pois o mal-estar faz vítimas rapidamente. Nem todos têm paciência para ruminar desentendimentos. O suspense pela paz desperta o pessimismo nas almas amorosas. É duro controlar a ansiedade. O tema só chegará ao terapeuta depois de passar pela comunidade inteira.

O ideal é ter simplicidade para falar o que incomoda, não dependendo de conversas sérias e avisos de despejo.

Saber brigar é solucionar o impasse procurando as palavras certas, respirando fundo, prevenindo-se das agressões gratuitas, cuidando para não recorrer a afastamentos. Ao banalizar o término, estará abrindo caminho para chantagens cada vez mais pesadas.

Briga boa significa preservar o seu par de algumas ofensas. Ultimatos são perigosos e costumam ser aceitos no momento de raiva. Desaconselhável desafiar a sua companhia com o fim – apressando a chance de ela fazer as malas. Afinal, na gritaria, é o orgulho que manda, jamais o amor.

Briga boa é manter o foco de tudo o que é vivido a dois, e não apenas sublimar um momento ruim. Acima de tudo, cabe a delicadeza de trazer o contexto do romance à tona, o dia anterior, a sequência da intimidade. Fica mais fácil compreender a falha diante do conjunto da obra.

Ninguém está livre do erro, do engano e da distração. Brigas são desabafos. Não distorça a sua natureza catártica para um desproporcional acerto de contas. Briga boa é, depois de reclamar, devolver a esperança com um beijo e um abraço apertado.



25 de outubro de 2015 | N° 18335 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Sepé vivo


Saiu faz pouco um excelente livro de história do século 18 gaúcho: A Guerra Guaranítica – O Levante Indígena que Desafiou Portugal e Espanha, de Tau Golin (editora Terceiro Nome, São Paulo, coleção Brasil Rebelde). Em prosa mais fluente do que nunca, e com uma percepção panorâmica amadurecida em algumas décadas de trabalho sobre o período – alguns com pioneirismo, sempre com farta documentação –, Tau Golin dá um relato que encaixa cada mapa, cada batalha, cada interesse, cada nome em jogo no amplo xadrez de interesses do tempo.

A Guerra Guaranítica mais notória aconteceu na década de 1750, envolvendo quatro forças políticas: os reinos de Portugal e Espanha, as duas potências na América do Sul, mais a Companhia de Jesus e, membro quase sempre negligenciado nessa conta, os índios, especialmente aqueles que viviam organizados nos Trinta Povos das Missões, sete dos quais no território hoje pertencente ao Rio Grande do Sul.

O general índio Sepé Tiaraju morreu em fevereiro de 1756, ao que tudo indica torturado depois de ser ferido em batalha. Essa data nos leva ao futuro.

Duzentos anos depois dessa morte, aconteceu no Rio Grande do Sul outra guerra, que vista de agora tem seu quê de bizarrice. Apenas 60 anos atrás, prazo histórico pequeno em vista da encrenca toda.

Essa outra guerra durou mais de ano e travou-se pelos jornais de Porto Alegre, especialmente o católico Jornal do Dia e o Correio do Povo. Começou em novembro de 1955 e se estendeu até o fim de 57. O ponto era: seria legítimo erguer um monumento a Sepé Tiaraju?

Ocorre que um major do Exército havia proposto erguer tal estátua, e escreveu ao governador, que encaminhou a questão à Secretaria de Educação e Cultura de então. Esta designou o Instituto de Tradições e Folclore para decidir, mas este repassou o rojão ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. O IHGRS, nascido nos anos 1920, estava consolidado então como árbitro das questões envolvendo a interpretação da História – isso num tempo em que o trato universitário da História era ainda tímido, quase inexistente entre nós, salvo pela existência do curso de formação de professores. Pesquisa e debate era com o IHGRS.

E este Instituto dá parecer, assinado por Othelo Rosa, Moysés Vellinho e Affonso Guerreiro Lima, três figuras de destaque no cenário intelectual do momento. E o parecer é contrário à estátua. Sim, contrário. O motivo: Sepé, cuja história se confunde com um mito, atuou o tempo todo a favor dos interesses castelhanos, nada tendo de valor brasileiro, eis que nosso país era aquilo que os portugueses tinham projetado e construído. Os portugueses, não os castelhanos.

O prezado leitor vá fazendo a conta: nestes anos, se afirmava o movimento tradicionalista, cuja primeira data de referência forte é a de 1948, quando é fundado o 35 CTG. A partir dele, a história é conhecida.

A posição dessa comissão é apresentada em público, e logo se manifesta a visão contrária, liderada pelo padre Luiz Gonzaga Jaeger, membro do IHGRS. Como jesuíta, pensava a partir de outro paradigma: ao contrário da afirmação das raízes lusitanas que aquela comissão defendia, Jaeger valorizava a figura guerreira, valente, líder, do índio missioneiro, assim como o valor da lenda que cercava seu nome, necessária para formar a nacionalidade.

O debate incendiou o RS intelectual. Ao lado do parecer, contra a estátua, ficaram Carlos Reverbel, Arthur Ferreira Filho, Carlos Galvão Krebs e Augusto Meyer. Do lado oposto, Walter Spalding, Manoelito de Ornellas, Dante de Laytano, Félix Contreira Rodrigues, Mansueto Bernardi, Ruy Rubem Ruschel, o próprio Borges de Medeiros, mais o 35 CTG e outros.

(A briga é interessantíssima e foi bem adiante. Um jovem Sérgio da Costa Franco, por exemplo, espinafra os dois lados, mas principalmente ataca o lusitanismo do parecer. Para quem se interesse pelo tema, há alguns trabalhos decisivos, em especial a obra de Ieda Gutfreind, e a lamentavelmente inédita tese de Eliana Inge Pritsch, As Vidas de Sepé, de 2004.)



25 de outubro de 2015 | N° 18335 
CLÁUDIA LAITANO

Casal de novela


O primeiro casal que conheci era muito amoroso e solícito comigo, mas, entre si, não era muito adepto dos PDAs (públicas demonstrações de afeto). Meus pais eram definitivamente um casal, tinham o mesmo sobrenome, moravam na mesma casa, dormiam no mesmo quarto – e não eram muito diferentes de tios, vizinhos e outros conhecidos no quesito romantismo. Todos pareciam já ter nascido adultos, casados e com responsabilidades como filhos, trabalho e carnê na JH Santos para pagar.

O sentido do amor e do casamento jamais seria uma das minhas preocupações pré-escolares se Glória Menezes e Tarcísio Meira não entrassem todos os dias na nossa casa para sugerir que um outro tipo de amor era possível. Um amor com trilha sonora, sofrimento e êxtase – e sem filhos ou contas a pagar empatando o clima de romance. Eles também eram um casal, mas de um jeito, digamos, mais arrebatado. Meus pais até trocavam umas bicotas de vez em quando, rápidas e funcionais, mas nada parecido com o que Glória e Tarcísio faziam na TV. Pelo menos não na minha frente.

Comparando o comportamento dos casais de novela com o dos adultos que eu conhecia na época, cheguei a uma conclusão óbvia: beijo apaixonado era como empregada de uniforme e balde de gelo sempre abastecido na sala – uma mentirinha de novela que até eu, do alto dos meus seis anos, era capaz de desmascarar sozinha analisando as evidências. Bastou um casal de namorados despedindo-se no portão do edifício – sem trilha sonora, mas com ardor de último capítulo – para que a minha instável compreensão do mundo adulto sofresse nova reviravolta. Seria o beijo apaixonado um estágio antes da bicota protocolar dos casais casados ou amores de novela e amores domésticos seriam como espécies diferentes de um mesmo gênero?

Não devo ser a única criança dos anos 70 que encara Glória e Tarcísio como se eles fossem membros de uma espécie de família estendida – que inclui, além deles, toda essa gente que nos visitava à noite depois do Jornal Nacional: Regina Duarte, Francisco Cuoco, Lima Duarte, Paulo Gracindo, Dina Sfat, Yoná Magalhães... Eles não deveriam morrer. Nossos pais não deveriam morrer. Talvez por isso ver Tarcísio Meira esta semana na TV, com lágrimas nos olhos, lamentando a morte da amiga Yoná, tenha sido tão comovente – as lágrimas de um homem velho são sempre as lágrimas dos nossos pais, como as lágrimas de uma criança são sempre as dos nossos filhos.

Glória e Tarcísio envelheceram, mas continuam encarnando um ideal romântico raro na vida real – o do amor que perdura. Vê-los ainda juntos, por alguma fantasia de constância e estabilidade que trazemos da infância, nos conforta e tranquiliza. Meus pais, por sua vez, hoje vivem e revivem todas as cenas, as românticas e as mais banais, em um cenário de sonho e imaginação onde ninguém envelhece ou fica doente e o amor nunca acaba. São eles agora que parecem um casal de novela.




25 de outubro de 2015 | N° 18335 
MOISÉS MENDES

O diário de FH

Diários de verdade devem ter a franqueza das anotações de Getúlio Vargas. Como este registro de 20 de novembro, menos de um mês depois da Revolução de 30: ...eu entrei de botas e esporas nos Campos Elísios, onde acampei como soldado, para vir no outro dia tomar posse no governo do Catete com poderes ditatoriais.

Nos discursos, Getúlio tomara o poder em nome do povo, para finalmente construir um governo democrático. Mas não havia por que enganar o diário: quem o escrevia era alguém que só poderia governar, naquelas circunstâncias, como ditador.

Getúlio escreveu o diário à mão, anotando até os encontros com a amante. Fernando Henrique Cardoso falou para um gravador, ao anoitecer, durante os oito anos dos dois mandatos. As confidências resultaram nos Diários da Presidência (Companhia das Letras), que estarão em quatro volumes. O primeiro será lançado no dia 29. Trechos têm saído em pílulas diárias nos jornais.

As divagações de Getúlio foram publicadas depois da sua morte. FH diz ter revisado o seu diário falado depois da transcrição das fitas. Fica a dúvida sobre a tentação que pode ter levado o FH de hoje a intervir, no café da manhã, nos monólogos noturnos do FH de quase 20 anos atrás.

O primeiro volume, do período menos complicado, do início do primeiro governo (1995-1998), já revela um FH angustiado com arranjos, negaceios e fofocas. Ele diz, em 1996: “Estou cada vez mais convencido de que o mal está em que todo o grupo próximo a mim fala (...). As dez pessoas mais próximas são as que mais fazem confusão, porque são essas fofocas que saem no jornal”.

Também em 1996, faz o registro que teve maior repercussão até agora. Conta que teve um encontro revelador com Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional. Stein- bruch havia assumido uma cadeira no conselho da estatal.

Está no diário: “Ele me disse que a Petrobras é um escândalo”. Que o Orlando Galvão Filho, diretor financeiro, é quem “manobra tudo”. Que os diretores-executivos são também membros do conselho de administração. FH diz: “Acho que é preciso intervir na Petrobras”.

Mas vacila: “O problema é que eu não quero mexer antes da aprovação da lei de regulamentação do petróleo pelo Congresso, e também tenho que ter pessoas competentes para botar lá”.

Em agosto de 1997, o Congresso aprova o fim do monopólio da exploração do petróleo pela Petrobras. Em 1998, a empresa adota, por decreto de FH, o sistema de contratação de serviços que dispensa licitações, depois apontado como multiplicador da corrupção.

A conversa com Steinbruch aconteceu em outubro de 1996. Naquele mesmo outubro, Paulo Francis denunciou, no programa de TV Manhattan Connection, que estavam roubando na Petrobras: “Imaginem, roubam, tem superfaturamento. É a maior quadrilha que já existiu no Brasil”.

O ex-gerente de Serviços Pedro Barusco já confessou em depoimentos da Lava-Jato: em 1997, ele começou a receber propinas na Petrobras, como ladrão avulso, até juntar US$ 97 milhões em contas na Suíça.

Por que FH não foi adiante para pelo menos saber mais dos escândalos? Por que até hoje não se sabe para quem Barusco roubava? Por que Francis, processado pelos diretores da Petrobras, foi deixado sozinho pelos próprios colegas e morreu sem conseguir provar a roubalheira?

Aguardemos os quatros volumes do diário de FH. Se o tom for o de Getúlio, talvez venhamos a saber mais. Se não for, é provável que nunca mais saibamos nada.


RUTH DE AQUINO
23/10/2015 - 20h32 - Atualizado 23/10/2015 20h32

Somos todas Valentina

É impressionante como, depois de tanta luta, a menina-moça-mulher ainda é intimidada

Valente Valentina, o assédio sexual e cretino a sua beleza, nas redes sociais, não pode fazer tremer suas mãos quando você criar novos pratos no MasterChef Júnior. Aos 12 anos, você, sem querer, apenas por ser linda e charmosa, despertou tarados que estão por aí, escondidos na pele de filhos, maridos e pais normais. Pedófilos e potenciais estupradores se expuseram no Twitter, protegidos ou não por apelidos. Assustaram seu pai, Alexandre. Ele estava preparado para o encantamento que você espalha, não para sujeira. “Teve gente que pediu que ela mandasse foto nua”, disse. Ele apagou tuítes ofensivos. Ele tenta proteger você, Valentina, da malícia do mundo.

Menina, uma hora você saberá que, por um tempo, uniu o gênero feminino em torno de seu nome. Valentina, você não é vítima. Não somos vítimas por ser mulheres. Você aprenderá que o feminismo ainda é necessário no século XXI. Para defender nossa autodeterminação e autoestima, nossos direitos e escolhas, numa sociedade ainda patriarcal. Não adianta omitir seu nome, nem cortar seus cabelos ou cobrir seu corpo de cima a baixo com roupas pouco atraentes. Você perceberá que a menina-moça-mulher continua a ser discriminada em vários momentos da vida e tem de reagir.

Ainda vai encarar muitas brigas, Valentina. Já devem mexer com você na rua quando sai sozinha. Na sua idade e muito depois, meus sentimentos variavam entre o medo e o desafio. Mudava de calçada quando via grupos de rapazes, para evitar o assédio, o desconforto ou a humilhação. Às vezes, xingava alto quem me dizia coisas, quem insinuava convites ou mexia no meu cabelo e pegava meu braço, para denunciá-lo, para expor meu nojo e sua doença.

É impressionante como, depois de tanta luta, desde o direito a votar, ou a usar calças compridas, ou a desamarrar o espartilho, ou a controlar a fertilidade, ou a trabalhar... é impressionante como a menina-moça-mulher ainda é intimidada ou ameaçada. Nem falo de países que obrigam meninas a casar com estranhos ou matam a chibatadas mulheres que traem. Acho incrível que os direitos femininos continuem em questão. 

Direito de ser bonita, de ser sensual, de usar saia curta, direito de ser feia, de ser velha, direito de não casar, direito de se dedicar aos filhos e à casa, direito de não ser mãe, de amamentar ou não, de insistir em parto normal ou escolher cesárea, direito de abortar, direito de transar com muitos, direito ao prazer, direito de pintar os cabelos ou deixá-los brancos, direito de ser ambiciosa ou não, direito de ganhar bem e ser promovida, direito de não ser assediada por chefes.

É muita patrulha contra as escolhas femininas. A patrulha não é só masculina. Mulheres também patrulham mulheres. Mulheres patrulham a si próprias. Uma autocrítica descabida e injusta. Filhas patrulham mães e vice-versa.

Mas, semana passada, o ataque veio de homens. Não só no Twitter. Não vou reproduzir os comentários excitados com a visão de Valentina. Por que as mulheres reagiram em massa? É só ler os depoimentos de #primeiroassedio, uma campanha criada pelo coletivo Thing Olga, e ler lembranças femininas dolorosas aos 4, 9, 13 anos, em casa e na rua. Lembranças que falam de garotos e homens, da família ou estranhos, metendo a mão, passando a mão, falando sacanagens, deflorando tudo, a inocência, o corpo, a mente. Muitos homens reagiram também nas redes sociais, xingando de “babacas” os que chamavam Valentina de “uma mulher de 12 anos”.

Não foi só esse episódio que me fez lembrar que continuo feminista. O outro ataque veio de engravatados, na Câmara. Um projeto retrógrado, elaborado pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha, aprovado pela CCJ, Comissão de Constituição e Justiça, com apoio sobretudo da bancada evangélica. E suspeito que seja só o começo. O texto dificulta o aborto legal por estupro, ao fazer novas exigências à mulher estuprada – ela não poderá ser atendida em hospitais sem que antes faça exame de corpo de delito no IML e registre a denúncia na delegacia.

O texto proíbe “medicamentos abortivos”. Deixa assim em aberto a possível proibição, na rede pública, da pílula do dia seguinte para vítimas de estupro, caso a pílula seja considerada abortiva. Isso significa que o projeto de Cunha poderá obrigar a menina-moça-mulher violentada a engravidar, para, depois, abortar. Nada mais cruel. 

O texto ainda transforma em crime a “indução” ao aborto ou a “informação” sobre o aborto. Seja você amigo ou médico, poderá ser preso se aconselhar ou informar. Típico de sociedades obscurantistas. Em vez de evoluir, o Brasil está rasgando direitos reprodutivos da mulher conquistados no século passado. Não podemos esquecer: #somostodasvalentes.


24 de outubro de 2015 | N° 18334
PALAVRA DE MÉDICO

VAMOS DANÇAR?


NOSSO JEITO DE LIDAR COM A NOTÍCIA RUIM É COMPLETAMENTE INDIVIDUAL
O quanto é recomendável saber do que preferiríamos ignorar? Nosso jeito de lidar com notícia ruim é completamente individual. Coloque 10 pessoas numa situação de ameaça real e provavelmente terás 10 comportamentos diferentes, desesperados vários, equilibrados uns poucos, bizarros outros tantos.

A arte médica consiste em investigar com delicada sutileza o quanto, de fato, o paciente quer saber, dando-lhe o sagrado direito da negação, sem jamais fechar a porta do diálogo franco, se essa for a improvável opção.

Se os comportamentos são individuais, as abordagens devem seguir o mesmo caminho, o que significa não existir um jeito mais adequado de contar o que ninguém escolheria ouvir.

O velho professor de medicina interna tinha um câncer de mama, um tumor relativamente raro em homens e de comportamento invariavelmente mais agressivo. Precocemente, surgiram nódulos subcutâneos que se estenderam para o ombro e desceram pelo braço numa rápida disseminação da doença. Enquanto o examinava, ele comentou: “Nestes anos todos de prática médica, nunca vi ninguém, na minha idade, desenvolver tantos lipomas, em tão pouco tempo!”. 

Como a questão podia ser um teste, improvisei uma resposta ambígua: “Nesta nossa profissão, a gente não cansa de se surpreender!”. Gratidão? Tolerância? Surpresa disfarçada? Não consegui decifrar aquele sorriso enigmático. Mas, por prudência, nunca mais tocamos no assunto e, daí em diante, nos socorremos da paixão mútua que tínhamos pela biografia de Churchill para fomentar diálogos menos traumáticos.

O exercício da negação é universal, ainda que algumas civilizações tenham uma postura mais assumida e corajosa, mas aos olhos latinos, incompreensivelmente rígida. O Herbert recebeu do neurocirurgião, pouco afeito a rodeios, a informação de que seu tumor cerebral era irressecável e, questionado, disse com todas as letras que a expectativa de vida era muito curta. Quando entrei no quarto, duas horas depois, ele jogava xadrez e amiúde alertava a mulher de que era a sua vez.

Na fase da revolta diante do imponderável é comum o protesto contra a divindade de plantão, seja lá qual for a forma do Deus disponível. Lembro do Igor, um alemão de cabelo ralo e um sotaque e tanto, que ameaçava Deus com assustadoras formas de vingança, depois que lhe foi comunicado que tinha um linfoma, mesmo reiterado que era uma neoplasia com enorme potencial de cura.

Já o Alencastro, conheci com uma metástase pulmonar de um sarcoma de tíbia que impusera, três anos antes, uma amputação logo acima do joelho. Usava uma prótese de perna à qual se habituara a ponto de não se perceber pela leveza de movimentos, e pelo rápido retorno à dança, uma paixão da sua vida. Foi operado do pulmão e ficamos amigos. Sua abnegação e resiliência eram comoventes.

Quando já se supunha curado, foi surpreendido com uma recidiva do tumor no coto amputado. Fui visitá-lo em outro hospital. Estava sentado no sofá com a perna exposta e a prótese apoiada na parede, submetida à humilhação do abandono.

Com razões de sobra para um rosário de queixas, justificadas todas, ele estava pronto para recomeçar: “Veja, doutor, a sorte que tive de Deus ter-me dado uma perna tão comprida que, mesmo depois de nova amputação, ainda vou poder voltar a usar prótese. Ele deve saber que eu ainda tenho muito pra dançar!”.

J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre jjcamargo.vida@gmail.com


24 de outubro de 2015 | N° 18334 
NILSON SOUZA

IMPEACHMENT DE PADRINHO

Nunca tive medo de mau tempo, literalmente falando. Quando criança, enquanto minha mãe tapava os espelhos e acendia palhas bentas pela casa, eu gostava de ficar na janela observando os relâmpagos – talvez com o pensamento ingênuo de que a vidraça me protegia. Isso que naquela época remota os adultos costumavam assustar as crianças com a história de um tal de corisco, faísca elétrica emitida pelas nuvens que podia entrar por qualquer fresta da casa e causar estragos impensáveis.

Jamais pensei – como os gauleses da aldeia de Asterix – que o céu pudesse cair sobre as nossas cabeças. Mas já estou revendo esta posição, principalmente depois que nuvens negras carregadas de água, barras de gelo e raios resolveram estacionar sobre o Rio Grande. Não passa semana sem que várias cidades gaúchas sejam bombardeadas por saraivadas de granizo. Isso que o nosso padroeiro é São Pedro, aquele que ganhou as chaves do céu para ligar e desligar o que bem entendesse.

Por Tutatis, São Pedro, fecha essa torneira!

Mesmo com esse padrinho influente, dia desses acho que estivemos bem próximos do fim do mundo. Foi naquela quarta-feira em que uma tempestade desabou sobre a Capital, com o estrondo de mil canhões. Assim que o barulho começou, fui para a área da minha casa filmar os relâmpagos. Mas aquilo não terminava nunca e foi se aproximando de forma cada vez mais ameaçadora. 

Quando caíram as primeiras pedras de granizo, corri para dentro. Mas o que mais me assustou nem foi a chuva sólida ou a ventania: foi o ruído dos trovões – insistente, continuado, crescente. Dava a impressão de que alguma coisa terrível estava chegando, e não chegava nunca. Ô, agonia!

O mundo não terminou naquela noite, mas a tempestade derrubou árvores, destelhou casas, inundou cidades e deixou milhares de desabrigados. Depois dela, outras chuvas já despencaram sobre nossas cabeças, fizeram rios transbordar, destruíram lavouras e causaram mais sofrimento, especialmente às populações carentes.

E São Pedro, nada.

Já ando pensando se não seria o caso de ameaçá-lo com um pedido de impeachment.

24 de outubro de 2015 | N° 18334
DAVID COIMBRA

Um homem amado


Conheci cachorros chamados Nero. Cachorros antigos. Todos já falecidos, suponho. As pessoas botavam o nome de Nero nos cachorros como espécie de desagravo aos cristãos supliciados por ele. Nero tinha péssima fama entre os cristãos. Tem ainda. Porque os culpou pelo incêndio de Roma e porque, durante seu reinado, foram executados Pedro e Paulo.

Pedro, você sabe, foi a pedra sobre a qual Jesus construiu sua igreja, e Paulo foi arquiteto, engenheiro e decorador da obra. Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo, numa cruz em forma de xis. Paulo, decapitado.

Todos os apóstolos, com exceção de João, tiveram fim violento. Uns foram apedrejados, outros acabaram chicoteados, crucificados, apunhalados... Foi por isso que, em certa passagem do Novo Testamento, Jesus disse que não vinha trazer a paz, mas a espada. Ele se referia, exatamente, aos apóstolos. Era para eles que falava, prevendo os sacrifícios que os discípulos passariam por pregar em seu nome. Já li cada interpretação torta acerca desse episódio...

De qualquer maneira, o que dizia é que Nero goza de péssima imagem devido à sua implicância com os cristãos e porque três historiadores se empenharam em difamá-lo: Suetônio, Cássio Dio e Tácito. Muito do que sabemos sobre Nero se deve a eles, só que nem tudo que sabemos é verdade.

Por exemplo: é certo que Nero mandou matar a própria mãe, a pérfida Agripina, mas também é certo que ele NÃO estava tocando cítara no telhado do seu palácio enquanto Roma ardia em chamas.

Nero foi vítima da mídia burguesa. A elite branca não gostava dele. Os pobres, sim. Porque Nero seguia alegremente a política que Juvenal denominou de “panem et circenses”, pão e circo. Quando ele morreu, tornou-se o que o rei dom Sebastião foi para os portugueses. Os romanos suspiravam esperando pelo seu retorno nos braços do povo. 

Corria uma lenda de que ele continuava vivo, e vários Neros se apresentaram como se fossem o imperador. A crença na volta de Nero vicejou pelo menos depois de 20 anos de sua morte. Um dos impostores, um homem chamado Terêncio Máximo, era parecidíssimo com ele. Andava igual, falava igual e até cantava igual, tocando harpa e tudo mais. Terêncio teve a ousadia de reivindicar a coroa, então usada por Tito, chegou a firmar um pacto com os partas, tradicionais inimigos dos romanos, mas foi descoberto e executado.

Veja que estou falando de Nero, uma espécie de Hitler da antiguidade, tão infame que seu nome era posto nos cães como vingança por suas maldades. Nero foi amado, quem diria? E o foi porque dava ao povo o que o povo queria, quer e para sempre quererá. O povo está pouco se importando para governos austeros, para responsabilidade fiscal ou para quem administra pensando no futuro.

Liberdade? É um luxo.

Igualdade? Não precisa tanto.

Precisa é ter comida na mesa, um lugar onde morar e uma cervejinha para beber com os amigos no sábado. A popularidade do governo anda baixa? Basta aquecer a economia. Ninguém tem de ser bom presidente, se tiver um bom ministro da Fazenda.