sábado, 29 de maio de 2021



29 DE MAIO DE 2021
JR GUZZO

Por que Lula "beijou a mão" de FHC

Parece que está se tornando um hábito, quando a campanha eleitoral chega mais perto. Tempos atrás, necessitado de uma imagem de "homem de centro" (ele sempre está atrás de uma imagem de "homem de centro"), o ex-presidente Lula fez o impensável: foi à casa do ex-governador paulista Paulo Maluf e ali, na frente de testemunhas e do seu então candidato à prefeitura, praticou o beija-mão completo do monstro mais horrível que o PT e a esquerda brasileira tinham criado na época. Lula apertou a mão de Maluf, deu abraço, tirou foto, como se não tivesse passado anos a fio dizendo sobre o novo amigo as piores coisas que alguém poderia dizer a um adversário.

Lula repete a dose agora, mas com Fernando Henrique. O petista é candidato de novo à Presidência da República, e seu instinto, mais as lembranças das lições de marketing que teve no passado, o conduzem a vender outra vez a imagem de político "moderado". Quem melhor do que Fernando Henrique, nesse mundinho da elite, para lhe dar uma certidão de centrista, civilizado e bondoso para todos os que estão com a vida ganha? Lá se foi Lula, então, apertar a mão, trocar altas ideias e aparecer na foto com um dos políticos brasileiros que mais desprezou, insultou e cuspiu em cima durante toda a sua carreira. Levou, até mesmo, a promessa de que FHC vai votar nele no segundo turno.

Ficou tudo extremamente barato para Lula. Não foi preciso, para embarcar FHC no seu bonde, retirar uma única sílaba da ofensa mais perversa que fez ao novo aliado - a de que recebeu dele uma "herança maldita", na passagem da Presidência em 2002. Também não há informação de que tenha feito qualquer reparo à principal palavra de ordem do PT durante o governo do ex-inimigo: "Fora FHC". Foram esquecidos, na mesma balada, as sucessivas exigências de impeachment feitas contra ele, sua demonização como líder da "direita" brasileira e mais do mesmo.

Se o próprio FHC engole tudo isso quieto e declara o seu apoio público a Lula, o que se pode fazer? Fernando Henrique está dizendo - quando se deixa de lado o discursório marca barbante que acompanha a explicação dessas "estratégias" - o seguinte: vai votar para presidente da República num político condenado legalmente como ladrão pela Justiça brasileira e pelas decisões de nove magistrados diferentes. É isso, em português claro; o resto é conversa. Obviamente, quando as coisas ficam assim, o melhor é não perguntar nada.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO*

sexta-feira, 28 de maio de 2021


28 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

A cachaça do Papa

Suponho que o Papa não se importe com comentários de internautas. O que lhe ocupa a mente são elevadas questões divinas e a melhor maneira de conduzir seu imenso rebanho pelo caminho da retidão. Mas, caso ele se preocupe com assuntos menores, como o que vai pelas redes, talvez esteja intrigado com a reação de alguns brasileiros à brincadeira que fez nesta semana. Durante um evento no Vaticano, um padre pediu que ele abençoasse o Brasil e Sua Santidade caçoou:

- Vocês não têm salvação. É muita cachaça e pouca oração.

A frase é perfeita, vale uma letra de samba. Tem até rima.

É óbvio que o Papa estava brincando, ele é um argentino gozador. Mas também é óbvio que alguns chatolas se sentiram insultados. "Ele está chamando a nós todos de cachaceiros!". Af!

O grande problema do mundo moderno não é a polarização. É a forma como as pessoas se levam a sério. Elas são muito suscetíveis, elas se ofendem facilmente. Qualquer coisa que você disser, sobre qualquer assunto, pode gerar uma interpretação arrevesada e deixar alguém aborrecido.

O pior é que se estabeleceu um conceito esquisito: se a pessoa se sentiu injuriada, ela tem razão. Por favor! Às vezes, uma brincadeira é apenas uma brincadeira. Se você tem boa vontade (paz na Terra aos homens de boa vontade!), você se esforça para compreender e tolerar o outro, ainda que a brincadeira que ele tenha feito possa ser de natureza dúbia.

Não estou dizendo que não existam brincadeiras maldosas, que fazem mais bullying do que riso. Existem. Como existem, também, grosserias. Mas, se o receptor não estiver eternamente armado, procurando motivos para protestar, ele saberá a diferença entre uma coisa e outra.

Isso de o Papa falar da cachaça brasileira não só não deveria ofender, como deveria ser exaltado. Porque, sim, se tem algo que nos dá fama positiva no Exterior é a cachaça. Os estrangeiros AMAM caipirinha - americanos dizem "caipiurinha".

Certa feita, o Luiz Zini Pires, quando era editor de Mundo em ZH, foi almoçar com um cônsul de um país europeu. De aperitivo, o gringo pediu uma caipirinha. Enquanto bebia, suspirava e comentava:

- Não sei como vocês bebem uísque, se têm essa bebida maravilhosa, que é a cachaça.

Então, pediu outra. O primeiro prato chegou e ele foi na terceira. Durante a refeição, avançou na quarta, na quinta e na sexta caipirinhas. O Zini só olhando. De sobremesa? Mais uma. Quando o jantar acabou, o cônsul olhou desolado para seu copo vazio e o Zini o animou:

- Pede mais uma! Ele sorriu: - Vou pedir!

E bebeu sua retumbante e gloriosa oitava caipirinha.

Alguns estrangeiros, mais do que nós, sabem o que temos de bom. Viva a referência do Papa a nossa cachaça, portanto. Mas houve algo que ele falou, que, aliás, também foi de troça, sem maldade alguma, só que me calou fundo na alma. Foi a frase:

"Vocês não têm salvação".

Estremeci, quando ele disse isso. Era uma brincadeira, era uma graça, mas não deixa de ser uma verdade. Nós, brasileiros, não temos salvação.

DAVID COIMBRA

28 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

SINAIS DA TERCEIRA ONDA

Surgiram nos últimos dias inúmeros sinais preocupantes que apontam para o risco de uma terceira onda da pandemia no Rio Grande do Sul ou, ao menos, um novo recrudescimento da crise, a partir de patamares já altos. Junto a maior mobilidade, crescem os casos e internações, tanto em leitos clínicos quanto em UTIs, elevando a possibilidade de o Estado assistir a outro aumento na contabilidade funesta de vítimas fatais.

Se o momento volta a ser crítico, com inúmeros alertas de especialistas e gestores da área da saúde, o que se espera dos administradores públicos das diferentes esferas são gestos de boa vontade para o diálogo e a busca de consensos e soluções que tratem de frear o ritmo de contágios e, ao fim, salvar vidas e evitar novas sequelas para a atividade econômica. Menos bate-boca e mais conversações construtivas é o que se exige dos homens e mulheres que, no dia a dia, são forçados a tomar decisões que podem influenciar os números da maior crise sanitária em um século para um lado ou outro em suas comunidades. Um exemplo de atrito que felizmente evoluiu para a procura por um entendimento envolveu o Piratini e prefeituras. Um desentendimento em torno do fechamento de escolas em cidades com agravamento da pandemia acabou por ter um melhor encaminhamento, com a formação de uma mesa de escuta e diálogo entre a Procuradoria- Geral do Estado (PGE) e a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) para tratar do tema de forma civilizada.

É preciso ter sempre em primeira perspectiva que, mais do que disputa por poder ou convicções ideológicas, o que está em jogo são a vida e o bem-estar de grande parte da população. Hoje se sabe que, mesmo entre os que adoeceram e se curaram, é alta a taxa de pessoas com sequelas que levam a outros problemas de saúde. Divergências entre agentes públicos são naturais e fazem parte do ambiente democrático, mas existe um limite nesse enfrentamento. A simples troca de acusações e orientações desencontradas passadas à população, é preciso lembrar, contribuíram para o desastre da covid-19, que já matou mais de 450 mil brasileiros e 27 mil gaúchos. A lição foi dura.

Uma quantidade inaceitável de vidas já foi perdida pela descoordenação, compreensão equivocada dos fatos e lentidão em comprar vacinas, por exemplo. A esta altura da pandemia, deveria restar cristalino que, com divisões na sociedade, quem ganha é o vírus. Enquanto a imunização não atinge um percentual mínimo da população para conter a circulação do patógeno, os governos federal, estaduais e municipais deveriam compreender a obrigação moral que têm de buscar consensos e partir para uma comunicação minimamente coordenada nas medidas de prevenção. 

Apesar das limitações políticas, é o que também vem tentando fazer o próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Internamente, no Rio Grande do Sul, a ausência de grande desarmonia deve ser um trunfo e um ponto de partida para a busca por uma sintonia que poupe vidas. É algo que se torna ainda mais urgente e imprescindível diante dos reiterados avisos de que a covid-19 tende a reacelerar no território gaúcho.

 



28 DE MAIO DE 2021
+ ECONOMIA

Resultado veio mesmo com aço caro

Mesmo com alta de preço e escassez de matéria-prima, a Metalli Aços Especiais, de Caxias do Sul, teve aumento de 70% no faturamento nos primeiros quatro meses do ano, ante mesmo período de 2020. Apesar do desempenho, o diretor da empresa, Francis Borelli dos Santos, afirma que a indústria é afetada pelo cenário:

- Como distribuidores, somos os primeiros a receber o aumento do aço, e não podemos repassar tudo. Além de corroer a margem, gera desconforto com o cliente, é preciso negociar com frequência.

O crescimento, diz, vem da demanda reprimida do primeiro ano de pandemia:

- Ainda que o momento favoreça, muitos projetos foram adiados e, agora, são retomados. As empresas acreditam na recuperação e, por isso, preparam-se para atender.

Santos diz que "praticamente não há" negociação com usinas, e relata escassez:

- Nos últimos meses, tivemos dificuldade com as nacionais. Importamos aço da Europa desde 2009. Buscamos fornecedores, mas como a demanda está aquecida em todo o mundo, não deu para importar mais.

Preço de luxo

Amanhã, durante o Torneio de Golfe Abertura 2021 do Porto Alegre Country Club, a One Imóveis de Luxo terá área de pré-lançamento do "prédio mais luxuoso de Porto Alegre". Os valores vão de R$ 6,8 milhões até R$ 18 milhões por unidade no Cyrela by Pininfarina. A diferença é grande porque a área varia de 333 m2 a 750 m2. A imagem abaixo dá uma ideia um pouco melhor da fachada, até agora mantida em sigilo. Jogadores de golfe, familiares e convidados do Country poderão saber mais no Clube One, com organização da Jalfim Eventos e arquitetura de Daniela Giffoni.

Grupo gaúcho avança no Exterior

Maior revenda premium da Apple na América Latina, com 144 pontos de venda no Brasil, a iPlace abrirá em junho sua primeira loja fora do Brasil. Será no Punta Carretas Shopping, em Montevidéu, Uruguai. Matheus Mundstock, diretor-geral da iPlace, diz que era um desafio planejado há anos com a Apple. A escolha se deve à combinação entre baixa oferta de produtos da marca, proximidade, identidade cultural, alto padrão social e estabilidade.

- Será o início da expansão internacional - avisa o diretor.

Será uma loja conceito de 300 m2 com exposição de dispositivos, assistência técnica e profissionais certificados pela Apple. A iPlace é uma das 19 marcas do Grupo Herval, criada em 2010 como revendedora oficial da Apple e hoje parte do programa Apple Premium Reseller. Segundo o presidente da Herval, José Agnelo Seger, "pode ser apenas o início de uma grande jornada ao futuro".

foi superávit primário (sem contar o pagamento de juros da dívida) do governo central em abril. Apesar de o resultado positivo já ser esperado, ficou R$ 7,1 bilhões acima da média das expectativas. O secretário do Tesouro, Jeferson Bittencourt, confirmou a projeção de alcançar superávit sustentado entre 2024 e 2025.

MARTA SFREDO

28 DE MAIO DE 2021
EDUARDO BUENO

Cumpleaños

Não lembro nada de meu aniversário de um ano. Nem do de dois, do de três e do de quatro. Mas lembro tudinho de meu quinto aniversário. Foi num prédio estilo Gotham City, em São Paulo, na esquina da Avenida São João, onde alguma coisa aconteceu no meu coração. Minha namorada de infância e eu fugimos da festa chata e subimos as escadarias apertando em todas as campainhas. Voltamos cobertos da fuligem, feito Bonnie & Clyde.

Meu aniversário de 10 anos marcou época em Porto Alegre, para onde a família havia retornado. Inspirada nas festas dos meus colegas ricos de São Paulo, minha mãe contratou até um mágico. Tinha pingue-pongue e minisnooker. Mas ela decorou a mesa com frutas de cera - e elas ficaram cheias de pequenas dentadas. Já eu, mordi só a maçã do amor, pois a namorada de infância estava lá.

Na tarde do meu aniversário de 15 anos, concluí que se "debutasse" virgem, minha masculinidade ficaria abalada. Então, fui até um lugar apropriadamente chamado Sucata. Madame Min abriu a porta e disse: "Sim?". Eu disse: "Não, obrigado". Mas após a festa - à qual a namorada de infância compareceu -, voltei lá com os amigos. Perdi a virgindade e ganhei uma gonorreia.

Com o salário de fome que ganhava como estagiário em ZH, alimentei os amigos e a namorada de infância no dia dos meus 18 anos. Tomei um porre e vomitei na sacada. Mas ela sorriu para mim e o enjoo passou. Meus 20 anos, passei-os na Argentina, onde fui condecorado como o repórter mais jovem (e mais mal pago) da história das Copas. Meus 21 anos, passei-os nas ruínas maias no México. O cardápio foi hongos à fine herbs. Estava bom até os fantasmas de conquistadores espanhóis me fazerem perder a cabeça.

Meus 30 anos, passei-os em comunidade, no mato, com minha mulher e as duas filhas. Não era a namorada de infância, mas ela também estava lá. Meus 40 anos, passei-os numa pizzaria fuleira onde aniversariante não pagava. Estava com minha mulher - que não era nem a primeira, nem a namorada de infância - e com a terceira filha. Eu não tinha um tostão, mas acabara de escrever o livro que me deixaria milionário.

Nos meus 50 anos, eu já tinha gasto tudo e estava a trabalho na China, com minha mulher - que não era nenhuma das três anteriores. Os meus 60 anos, passei-os com ela e uma das filhas, em Woodstock, na casa onde Bob Dylan e The Band moraram. Para entrar nela, digitei um código feito só para mim: 30.05.58. Foi dos melhores dias da minha vida.

O dia dos meus 62 anos foi o primeiro em que saí de casa após dois meses recluso por causa da covid. Que um ano depois eu ainda não tenha tomado a segunda dose e a peste siga solta só reforça meu juramento: vou infernizar esses negacionistas e esse governo sórdido até o dia do meu aniversário de cem anos. E já aviso que, sem ser dos meus quatro primeiros aniversários, eu sempre lembro de tudo. Vou infernizar a vida desses negacionistas até o dia do meu aniversário de cem anos

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 27 de maio de 2021


27 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Como os brasileiros salvaram Roma

Minha amada sogra Ana Maria deu-me de presente um livro que era do pai dela, o velho "gaúcho Dubita Camps", como conheciam-no pelo Pampa afora. É um livro publicado em 1958, a propósito da vida de Nero, escrito pelo jornalista italiano Carlo Maria Franzero.

Um livro de mais de 60 anos de idade a respeito de um imperador romano. Exultei. Diversão garantida! As histórias dos césares e de suas famílias são das mais extraordinárias da humanidade. Pudera: um césar detinha poder absoluto sobre o maior império do mundo. Podia fazer o que quisesse, com quem quisesse. Então, eles faziam horrores.

Nero cometia incesto com a mãe, Agripina. Que, aliás, foi ela própria grande personagem. Era uma daquelas mulheres inescrupulosas e ardilosas, típicas do patriciado romano. E linda, o que, inclusive, é comprovado por estátuas dela. Sua rival de morte era Messalina, muito já escrevi acerca de Messalina. É uma das minhas mulheres preferidas na História. Tratava-se de uma loirinha atraente que nutria enorme apreço pelas lides sexuais. Tanto que, às vezes, quando se sentia aborrecida no palácio, punha-se debaixo de uma peruca preta e ia se entregar ao amor a soldo na Suburra, o bairro da prostituição da Cidade Eterna. Narram, os cronistas maliciosos, que Messalina só voltava para casa depois de se repimpar com pelo menos uma dúzia de amantes.

Cláudio, o antecessor de Nero, foi casado com ambas, Agripina e Messalina. Isso o torna um dos maridos mais traídos da História. Ele só não é o maior corno de todos os tempos porque eu mesmo conheci um marido que foi vítima da infidelidade de sete mulheres diferentes.

Fala-se muito mal de Cláudio. Que era tolo, que era fraco, que babava ao abrir a boca e tudo mais. A propósito, a palavra "claudicante" vem dele, porque Cláudio mancava. No entanto, o inglês Robert Graves escreveu uma novela sob o título Eu, Claudius, Imperador, que o redime. É um ótimo livro. Leia-o, se você ainda não o fez, e depois me agradeça.

Nesse romance, escrito como se fosse a autobiografia de Cláudio, ele conta como, na verdade, se fez de bobo para sobreviver naquele meio sensual e violento da corte palaciana romana. Cláudio precisava parecer inofensivo sobretudo para o imperador que o antecedeu, o famigerado Calígula. Aliás, você já assistiu ao filme Calígula, de 1979, um dos mais insultados e desancados da história do cinema? Assista, e você verá como a sociedade romana da época movia-se por sexo e sangue.

Repare: se eu começar a encadear as histórias desses imperadores e suas famílias, ocupo o jornal inteiro com casos escabrosos. Que são, obviamente, os mais saborosos. Só que, hoje em dia, os historiadores dizem que não foi bem assim. Dizem que seus antecessores romanos, Suetônio, Plutarco, Dion Cássio e outros escreviam com motivações políticas. Ou seja: eles exageraram e até inventaram escândalos sobre os nobres romanos.

Faz sentido essa constatação, admito, mas isso me decepcionou. Gostava tanto daqueles contos lascivos e cruéis dos césares... Cheguei a me desinteressar um pouco pela história dos imperadores desvairados, não sentia nem vontade de ler livros como o que ganhei da minha sogra, até que... pensei no Brasil. Imaginei nossos políticos usufruindo de poder vitalício e total, podendo nomear um cavalo como senador, como fez Calígula com seu Incitatus, ou podendo se homiziar numa ilha onde apenas satisfariam seus estranhos apetites sexuais até com nenês, como fez Tibério, ou ordenar que todos os habitantes do país adotassem o seu próprio nome, como fez Cômodo, a Besta Fera. Se eles pudessem fazer tais coisas, perguntei-me a mim mesmo, eles fariam? E a resposta foi: Sim! Eles já são esdrúxulos, eles já são alucinados. Com poder ilimitado, seriam muito mais. Para mim, essa conclusão foi um alívio. Sorri e tomei meu livro, suspirando antes de começar a leitura. Os desatinados políticos brasileiros salvaram toda a graça da história do império romano.

DAVID COIMBRA

27 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

AVANÇO NA REFORMA ADMINISTRATIVA

Há ainda um longo e tortuoso caminho pela frente, mas a admissibilidade da reforma administrativa pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, aprovada na terça-feira, é sem dúvida uma sinalização positiva quanto à intenção de modernizar o Estado brasileiro. É verdade que a proposta poderia ser mais ousada e conter menos exceções, mas o texto que agora passa a ser discutido em uma comissão especial traz avanços essenciais para, no futuro, melhorar a produtividade da máquina estatal, garantir serviços mais ágeis e adequados aos cidadãos, eliminar privilégios incompatíveis com a realidade fiscal do país e corrigir desigualdades em relação à iniciativa privada.

Ainda haverá um extenso debate para burilar a proposta, válida para União, Estados e municípios. Espera-se que seja aperfeiçoada, e não desidratada ainda mais. Tem méritos, por exemplo, como o fim da estabilidade para os futuros servidores, a criação de novos vínculos, a eliminação da possibilidade de progressões ou promoções exclusivamente por tempo de serviço e a impossibilidade de mais de 30 dias de férias por ano, entre outros pontos. A estabilidade, é necessário ressaltar, após um período de experiência permanece como uma prerrogativa das carreiras típicas de Estado - aquelas que não têm paralelo no setor privado. Ainda será preciso algum cuidado, entretanto, para evitar situações como perseguição política a servidores sem garantia de permanência no cargo.

É natural que existam resistências de corporações contra as mudanças. O aperfeiçoamento da política de recursos humanos do Estado, porém, será benéfico para os bons servidores. No sistema atual, funcionários com produtividades díspares têm perspectivas parecidas na carreira. É um convite estrutural para um comprometimento aquém do ideal para alguns, tornando o serviço público menos eficiente e mais pesado. Existem, ao mesmo tempo, distorções gritantes que precisam ser corrigidas. Um estudo do Banco Mundial divulgado no final de 2019 mostrou que servidores da União ganham, em média, 96% acima de um trabalhador privado, com função e qualificação equivalentes.

A fase seguinte, a de análise na comissão especial, aprofundará a avaliação sobre o mérito da proposta. Os debates certamente produzirão alterações de alguns pontos. Depois, o texto ainda precisa ser votado em dois turnos tanto pela Câmara quanto pelo Senado. Como 2022 é ano eleitoral, o ideal seria que a tramitação fosse acelerada ainda em 2021. Espera-se, portanto, celeridade, o que também merece a reforma tributária, outra pauta essencial por dar perspectivas de melhorar o ambiente de negócios no país. São duas matérias que se complementam para impulsionar o crescimento do Brasil, associado à modernização do setor público.



27 DE MAIO DE 2021
+ ECONOMIA

Ação da Azul decola com possível compra

A especulação sobre a aquisição da Latam pela Azul fez as ações da suposta compradora saltarem 11,3% ontem na bolsa. A companhia com controle chileno está em recuperação judicial em Nova York.

A expectativa tem base em fato relevante publicado na segunda-feira em que a Azul comunicava uma "possível consolidação" ao comentar o fim das operações compartilhadas (code share) com a Latam. A companhia afirma ver a "consolidação como uma parte importante da resposta da indústria no pós-pandemia" e que está em "forte posição para liderar essa consolidação". Detalha, ainda, que contratou consultores para "explorar ativamente as oportunidades na região".

Ex-conselheiro do Conselho Administrativo da Defesa da Concorrência (Cade), Arthur Barrionuevo apontou outro complicador à coluna: o mercado da aviação é muito determinado pela ocupação de slots (espaço/tempo reservado a pousos e decolagem de cada empresa) nos aeroportos. Um eventual acordo entre duas das maiores detentoras desses slots no Brasil provavelmente levaria a uma recomendação de desinvestimento por parte do Cade e também da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Meio casa, meio hotel

Prestes a completar um ano no mercado, a startup paulistana de locação Charlie está iniciando sua operação em Porto Alegre. A chegada ao mercado gaúcho ocorre em parceria com incorporadoras locais.

Por meio de plataforma própria, a empresa atua como gestora de locações. O modelo de negócio mescla as praticidades de um hotel com o conforto de uma casa. A Charlie oferece estada com prazo flexível e serviços sob demanda para curta, média e longa duração.

Na estreia, o serviço da empresa estará disponível em sete empreendimentos da Cyrela Goldsztein, incluindo o NY 205, no bairro Auxiliadora, que já está pronto. Os outros seis projetos têm entrega prevista até 2023. A Charlie também vai oferecer unidades na Praça 4 Menino Deus, das incorporadoras Famcorp e Lugares com Alma, já concluído.

6,5%

é a taxa Selic projetada por bancos como Santander e Deutsche Bank para o final do ano. O aumento da estimativa, que antes era de 5,5%, se deve à alta da inflação, mas também do PIB.

MARTA SFREDO

27 DE MAIO DE 2021
L.F. VERISSIMO

Etiqueta

A Duquesa de Noailles era conhecida na corte de Luiz XVI como "Madame l?Etiquette". Era obcecada pelo protocolo. Tanto que, quando ficou senil, começou a escrever longas cartas para a Virgem Maria discutindo questões de etiqueta no céu e ditando regras de conduta e prudência na eternidade. O padre confessor da duquesa respondia às cartas, assinando-as " Maria".

As respostas aparentemente não agradavam à velha e ela uma vez comentou a respeito da sua correspondente no Além que não se podia esperar demais de uma camponesinha de Nazaré que, afinal, só entrara para a nobre Casa de Davi através do casamento.

A Duquesa de Noailles ficou como um exemplo extremo das pessoas que não entendem o tempo em que vivem. Certamente, o comentário que faria sobre a revolução que rugia à sua volta, se tivesse lucidez para notá-la, seria que se tratava de uma coisa de muito mau gosto. Pelas normas da duquesa, tudo se dividia entre o que era e não era de bom-tom. Um recado para a elite e a classe patronal brasileiras, que deveriam mudar seus termos de referência para não acabar como a duquesa - que, por sinal, foi guilhotinada.

Não se sabe a opinião da Duquesa de Noailles sobre outra questão protocolar francesa. O restaurante Lapérouse, que fica na beira do Sena, na esquina com a Rue des Grands Augustins, tem salas particulares, usadas, há mais de século e meio, por grandes senhores e suas "petites filles". Na parede de uma dessas salas, ainda existe um espelho, todo riscado. Era na sua superfície que as meninas testavam a autenticidade dos diamantes que acabavam de receber - e portanto o caráter e as intenções dos seus acompanhantes. A cada arranhão daquele vidro correspondia um romance, um caso bem-sucedido ou no mínimo uma hora de amor agradecido. Tudo feito com elegância e distinção.

Mas a verdadeira prova de comportamento civilizado - e, pensando bem, de todos os valores da época - devia ser quando o diamante do anel não produzia nenhuma marca no espelho. Imagine a cena, a moça esfregando o falso diamante contra o espelho e este, com silenciosa eloquência, denunciando a falsidade tanto da pedra quanto do cavalheiro. Ninguém, certamente, diria uma palavra sobre o vexame. O único efeito do fiasco seria que, pelo resto da noite, ficaria entre eles um clima que só pode ser descrito como meio assim. Eles teriam que conviver, educadamente, com a evidência de que "monsieur" era um patife.

Luis Fernando Verissimo está em licença médica.

Esta coluna foi publicada originalmente em 7 de setembro de 2017.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 26 de maio de 2021


26 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

O que fazer contra o terrível frio gaúcho

Você não vai acreditar, mas sinto mais frio aqui, no outono do Rio Grande Amado, do que no inverno de Boston, onde às vezes faz 20 graus abaixo de zero.

Como pode? Pode.

Porque aqui não existe estrutura de combate ao frio intenso. Lá, os vidros das janelas são duplos e as paredes das casas têm duas ou três camadas que produzem isolamento térmico. Além disso, viceja em toda parte a bendita calefação. Vou dizer: a vida sem calefação é uma vida menor.

Digo o mesmo acerca do banho de chuveiro. Entenda, compreensivo leitor: vivi grande parte da minha vida tomando banho de chuveiro elétrico. Não sei como são os chuveiros elétricos hoje, nem quero saber, mas houve época em que eles me fizeram sofrer. A começar pelo começo: quando ia ligar o chuveiro, ele dava choque. Tinha de pegar o registro com uma toalha. Aí caíam aquelas gotas esparsas, miseráveis. Uma no Sul, outra lá adiante, no Norte. O ideal seria aumentar o fluxo, só que, quanto mais fechado o chuveiro, mais quente vinha a água. Assim, no inverno, em vez de um jato, vinham pingos.

Depois, minha mãe comprou uma ducha de plástico que prometia jorros de água deliciosamente fervente e fumacenta. Porém a ducha não era muito diferente do chuveiro e, não raro, ainda estourava no meio do banho. Uma vez, minha irmã Silvia saiu correndo do banheiro, gritando e pelada, por causa da explosão, fazendo a alegria dos gaiatos dos meus amigos, que estavam lá em casa vagabundeando.

Então, o que quero dizer é que chuveiro a gás é alegria, chuveiro a gás é vida. Bem como a calefação.

No entanto, não temos calefação ou paredes duplas por aqui. Mas temos umidade. A umidade gelada penetra pelas paredes e se instala em meus ossos. Assim, o frio que sinto não é um frio do clima lá fora, é um frio da alma, um frio conceitual, que condicionadores de ar, flanelas, lãs e cobertores não resolverão.

O fato é que perdi o costume do inverno gaúcho, e isso que o inverno gaúcho nem chegou.

Bem. O que tenho feito, para solucionar meu drama?

Cremes.

Repare que não estou falando de sopas, estou falando de cremes. Eles fazem a diferença no inverno. Na Nova Inglaterra, onde vivi, há um creme típico, uma das poucas comidas típicas dos Estados Unidos. Chama-se clam chowder. A tradução seria "sopa de mariscos", com o detalhe de que o chowder significa que a sopa é mais encorpada. E é. O que eles servem é um creme branco, denso, muito saboroso.

Porto Alegre, contudo, não é uma terra de frutos do mar. Então, os cremes que têm me encantado nesses dias são outros: de abóbora, de beterraba, de mandioquinha e, mais do que todos, um clássico: o imortal creme de ervilhas.

Era do que queria falar o tempo todo. Porque o creme de ervilhas foi um prato da minha infância. O inverno não acabava sem que minha mãe nos servisse um creme de ervilhas perfeito, informando:

- É bom porque tem ferro.

Mas, por algum motivo, passei muitos anos sem experimentar um autêntico creme de ervilhas. Quando alguém me vinha com um, não era creme, era sopa. Rala. Superficial. Triste sopa.

Neste pré-inverno, tiritante leitor, tenho me regalado com cremes de ervilha suntuosos, que levam nas profundezas finíssimas rodelas de salsicha e, na superfície, minúsculos pedaços de bacon frito na própria gordura.

Isso me faz feliz, se você quer saber. Isso me afirma que, mesmo sem calefação, a vida na umidade fria do Pampa vale a pena ser vivida.

DAVID COIMBRA

26 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A IMPORTÂNCIA DA SEGUNDA DOSE

É alarmante a informação de que cerca de 40% dos idosos com mais de 80 anos no Rio Grande do Sul ainda não tenham tomado a segunda dose da vacina contra a covid-19. Trata-se de uma população mais suscetível a complicações causadas pela doença e sabe-se que, sem a aplicação complementar, não se alcança a máxima imunização possível. Diante deste quadro preocupante, é impositivo reforçar as iniciativas informativas para alertar quanto à necessidade de se complementar o esquema vacinal. Não só diretamente aos octogenários e mais velhos, mas aos familiares e cuidadores, para que inclusive se mobilizem e se organizem para levá-los aos pontos de vacinação, uma vez que muitos podem ter limitações ou dificuldades para se locomover sozinhos.

De acordo com o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Estado (Cosems/RS), há a expectativa de que boa parte desse contingente procure os locais indicados nos próximos dias por ser o prazo para tomar a segunda dose da vacina Oxford/AstraZeneca, pelo fim do período de três meses recomendado, após a distribuição do imunizante no Estado no final de fevereiro. Mas, pelo sim, pelo não, deve-se planejar desde agora uma ação inclusive de busca ativa pelos idosos por parte das prefeituras, para que não fiquem mais expostos ao vírus. Seria recomendável ainda que essa procura incluísse os idosos que nem sequer receberam a primeira aplicação. Devem, da mesma forma, ser conscientizados para a necessidade de tomarem a vacina da gripe, cumprido o prazo indicado de 14 dias após a imunização contra a covid-19.

As preocupações quanto à possibilidade de um novo avanço rápido e avassalador da pandemia no Estado voltaram a crescer nos últimos dias, com piora dos indicadores de casos e internações em várias regiões. Em entrevista ontem à Rádio Gaúcha, a diretora-presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Nadine Clausell, alertou que nota um aumento na ocupação dos leitos nos últimos dias e prevê, inclusive, que a busca por UTIs ultrapasse o período mais crítico de março e abril. Vislumbra-se, portanto, o risco de um novo colapso no sistema de saúde. Ao mesmo tempo, a chegada do período mais frio do ano, com ambientes pouco ventilados, contribui para a circulação de vírus que causam doenças respiratórias, o que eleva a possibilidade de pressão sobre os hospitais. Preocupa, ainda, a chegada da variante indiana da covid-19 ao país.

São várias as circunstâncias que se somam para acender uma luz de alerta. Não há saída para combater a pandemia a não ser a aceleração da vacinação, o uso de máscaras e o distanciamento social. Assim, é preciso contar com a responsabilidade das autoridades, para agirem a tempo, e com a consciência da população, para redobrar os cuidados pessoais.

 


26 DE MAIO DE 2021
MÁRIO CORSO

Tratamento para lobisomem

Hoje respondo a uma dúvida da leitora Mara Regina, da Capital. Ela pergunta: a psicanálise cura lobisomens?

Cara leitora, infelizmente será uma resposta especulativa. Não encontrei na literatura psicanalítica casos de lobisomens em tratamento. Se algum colega souber, por favor...

Porém a profilaxia é simples, conhecida e eficiente. Como o lobisomem surge quando, depois de seis meninas seguidas nasce um menino, basta a mais velha ser madrinha do guri, que está pelada a coruja. Feito isso, não há desenvolvimento da síndrome e a criança cresce sem sequelas. Desabrochando num adulto sadio, sem nenhum traço de lobisomia, ou qualquer comorbidade lupina associada.

Mas especulando um pouco mais: o que haveria nele para ser curado? E se a cura fosse a aceitação de sua dupla natureza, a alternância ocasional entre ser algo e depois outra coisa? Afinal, passada a lua cheia, ele volta ao normal. Um tanto extenuado, é claro, mas pronto para a vida corriqueira. A propósito, se realmente a metamorfose ocasional fosse fonte de sofrimento, teríamos pedidos de ajuda. Embora de má fama, o lobisomem só causa susto. Não encontramos homicídios, agressões ou abusos ligados ao lobisomem. Ele não mata humanos ou animais, nem se alimenta deles. Em outras palavras, o lobisomem é um problema para ele mesmo. Temos que encarar a verdade: os humanos normais, no sentido de não metamorfistas, são mais agressivos e perigosos do que os lobisomens. Encontre um delegado que tenha problema com lobisomens, já com humanos...

Acredito que o correto seria escutar os lobisomens para saber o que é seu ser. Quais seus reais problemas? O que ele espera da vida? Tem laços verdadeiros e positivos com a comunidade? Outra coisa, escutá-lo nos dois momentos, até para confrontar os discursos. Sou ciente da dificuldade de decifrar uivos, mas a clínica é feita desses desafios.

E creio que, para humanos unicorporais, carentes dessa duplicidade, que não temos nem ideia de como é ser dois em um, poderíamos aprender com eles. Afinal, seria a alternância uma condição estressante, ou uma bem-vinda quebra de rotina? Nem isso sabemos. Nós conhecemos a experiência da bipolaridade, uma mudança radical de humor mantendo a mesmíssima forma. Talvez eles sofram o mesmo preconceito que os bissexuais quando os outros teimam em encaixá-los em categorias fixas, não respeitando sua plasticidade quanto ao objeto de desejo.

Portanto, cara leitora, creio que o lobisomem chega ao século 21 não como uma aberração, mas como um humano qualquer. Livre dos tratados de folclore que o estigmatizavam, pronto para novas possibilidades de se expressar. Assim é o nosso tempo, para o bem e para o mal, cada um sabendo da dor e delícia de ser o que é. E cada um cuidando da própria, eventual, cauda.

MÁRIO CORSO

26 DE MAIO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Starbucks, Melo e a transformação de Porto Alegre

Sebastião Melo celebrou, nas redes sociais, a chegada da primeira cafeteria Starbucks à Capital. Comemorou o trabalho conjunto para "transformar Porto Alegre". A publicação do prefeito foi aplaudida por alguns, mas criticada por empreendedores locais que sofrem com a pandemia e por aqueles que consideram tanto entusiasmo um sinal de submissão a um modelo econômico ultrapassado.

A Starbucks foi fundada em 1971, em Seattle, Estado de Washington (EUA). Mas foi graças a Howard Schultz, que entrou na empresa em 1984 e virou seu presidente até 2017, que ela se transformou no que é. Schultz conta, em um dos seus livros, como mandou suspender a oferta de um lucrativo sanduíche de queijo derretido em toda a rede porque a preparação interferia no aroma do café, pelo qual havia se apaixonado na Itália. Ou seja: perdeu dinheiro no curto prazo em nome do respeito à essência do negócio.

Ouvi uma palestra de Schultz em Nova York, em 2017, quando eu morava na Filadélfia, a uma hora e meia de ônibus de Manhattan. Era um evento com alguns dos maiores CEOs dos Estados Unidos, que fui cobrir como jornalista do Grupo RBS. Abaixo, as anotações que fiz da fala de Schultz. Na época, ele era lembrado para concorrer à Presidência dos EUA pelo Partido Democrata:

"Howard Schultz - Starbucks. Um bilionário com patrimônio avaliado em US$ 2,8 bilhões (hoje já são US$ 4 bilhões) que é contra o corte de impostos. Tem argumentos sólidos. O primeiro é o déficit federal trilionário. O segundo é a certeza de que as grandes corporações não reinvestirão o dinheiro poupado dos impostos no bem-estar de seus colaboradores, em programas sociais ou de incentivo à economia. Para ele, a medida só concentrará mais renda nas mãos dos que já têm muito. ?Precisamos de uma sociedade com mais compaixão e essa proposta (baixar impostos) não ajuda?. Perguntado se vai concorrer a presidente dos EUA, disse que não pensa nisso agora."

Seu nome ganhou destaque pelas políticas internas da Starbucks - mais de 3 mil lojas. A empresa é famosa pelos benefícios que dá aos seus colaboradores - planos de saúde e ajuda para pagar os estudos. Schultz acredita que os empresários têm a obrigação moral de opinar sobre os grandes temas do país. "Vivemos numa época de mentiras e precisamos elevar o nível do nosso debate", afirma.

Repito: as anotações foram feitas em 2017. Quatro anos depois, é fácil concluir que dificilmente Sebastião Melo e Howard Schultz concordariam em temas como gestão pública e conceito de evolução econômica, especialmente no que diz respeito a impostos. Mas isso não os impediria de tomar um expresso juntos em uma das tantas boas cafeterias já existentes em Porto Alegre, as quais a Starbucks vem se somar, meio século depois da sua fundação.

TULIO MILMAN

terça-feira, 25 de maio de 2021


25 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

O pequeno segredo da grande felicidade

Estou de volta, de novo. Inteiro, ainda que me faltem pedaços. E espero que, como diria o Rei, agora pra ficar.

Na minha ausência, não sei se você percebeu, ausentei-me mesmo. Não tratei de nada que não fosse tentar melhorar minha própria condição física. O que fiz não por decisão, mas por imposição da contingência. Um valor mais alto se alevantava, como diria o poeta caolho.

Nesses momentos, você percebe como tudo é realmente menor do que parece ser. Porque, quando você sente dor, é só a dor que importa, todo o resto do planeta e da humanidade se torna secundário. Mas aí você vai se curando, vai ficando bom e, de repente, esquece o sofrimento e os dramas do dia a dia crescem. Ou seja: a vida está bem quando você se preocupa com as coisas mundanas. Você está inquieto com o que sai no Jornal Nacional? Está contente com o resultado do Gre-Nal? Está tudo certo com você.

Eis uma medida de felicidade. A pessoa que passa o dia inteiro pensando nos problemas do Brasil ou no seu time, essa é uma pessoa feliz.

Na verdade, é ainda mais do que isso. Ou, por outra, ainda menos. O que interessa, de fato, é o comezinho, o trivial comum. Porque a vida deixa de fazer sentido quando as coisas pequenas deixam de ter graça.

O oposto da depressão não é a glória. O oposto da depressão é o prazer que se sente ao se tomar um bom café da manhã ou assistir a um filme de detetive.

Churchill tinha depressão. Ele e Isaac Newton, Einstein, Lincoln e outros tantos famosos e anônimos. Churchill chamava a doença de seu "cão negro". Escrevia cartas para a mulher: "Quando o cão negro voltar, acho que vou precisar de um médico". Acho que ele foi o primeiro a dar essa designação para o mal. Depois de Churchill, cão negro e depressão viraram sinônimos. Ele era bom em dar nome às coisas, vide "Cortina de Ferro".

Mas o que queria dizer é que Churchill teve menos ataques depressivos durante os dias duros da Segunda Guerra. O problema se dava nos dias comuns. Um problema grande, porque você não pode passar a vida inteira salvando o Ocidente dos nazistas.

Mas essa é a notícia alvissareira, leitor: você não tem que lutar contra Hitler, como Churchill; nem descobrir a lei da gravidade, como Newton; você não tem que libertar os escravos de uma nação, como Lincoln; nem formular a Teoria da Relatividade, como Einstein; você não tem de fazer nada de especial para ser feliz. Basta-lhe a alegria da existência digna e mediana de bilhões de terráqueos. A vida na planície é a vida que vale. Ou seja: você não deve reclamar dos seus dias iguais. As semanas são todas parecidas? Jogue suas mãos para o céu e agradeça por essa graça do Senhor. A rotina, meu amigo. Nada mais abençoado do que viver em paz os dias suaves de rotina.

DAVID COIMBRA

25 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

AVALIAR PARA CORRIGIR

Desde o início da pandemia, foram inúmeros os alertas de entidades ligadas à educação e de especialistas sobre os graves prejuízos à aprendizagem causados pelo fechamento das escolas. A Organização das Nações Unidas (ONU) chegou a chamar a atenção para o risco de uma tragédia geracional, com consequências nefastas como o aumento da desigualdade. Estancar esse processo e dar início a um trabalho de recuperação do conteúdo e do tempo perdidos deve ser uma das tarefas prioritárias especialmente nas instituições públicas, onde a penetração da tecnologia não ocorre no mesmo nível da rede privada.

Vem em boa hora, portanto, a iniciativa do governo gaúcho de dar início a um período de aplicação de provas para estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio para ter uma estimativa mais acurada do quanto os alunos deixaram de aprender e das principais deficiências nas disciplinas de matemática e língua portuguesa. Os resultados servirão como um diagnóstico e ponto de partida para elaboração de estratégias pedagógicas mais precisas, com o objetivo de recuperar o mais rápido possível as perdas detectadas pelo longo período de salas de aula vazias.

O programa chamado Avaliar é Tri parte de um pressuposto correto na busca pelos melhores resultados. Qualquer política pública, para alcançar os objetivos propostos, tem de estar amparada necessariamente em informações concretas e confiáveis para que as intervenções sejam precisas. Como a educação não é uma preocupação apenas dos alunos ou dos pais dos estudantes, mas a chave para o desenvolvimento de um Estado ou país, toda a sociedade deve acompanhar com interesse e atenção máximos a aplicação das provas, os resultados e as providências tomadas a partir das conclusões. Tão importante quanto obter respostas é saber o que fazer com elas. E isso vale, ressalte-se, para todas as áreas em que o Estado e o Brasil precisam se planejar. Agir no escuro, sem uma boa base de dados a nortear ações, é uma porta aberta para o desperdício e a ineficiência.

Antes mesmo da pandemia, educação já era motivo de grande inquietação no Rio Grande do Sul, pela percepção de que o Estado vinha perdendo espaço nos rankings nacionais para outras unidades da federação. A chegada da crise sanitária, que dura 15 meses, agravou esse quadro em todo o país. Em especial no ensino público, pelo menor acesso a dispositivos eletrônicos de qualidade e internet satisfatória para que os alunos acompanhassem de maneira adequada os conteúdos. Uma aprendizagem insuficiente significa, no futuro, maior risco de subemprego e menor renda, pela baixa produtividade, o que acaba contaminando toda a economia. Ao fim, é um freio para o desenvolvimento, o progresso e a diminuição da pobreza. A avaliação dos estudantes, desta forma, é o pilar que sustentará as próximas iniciativas voltadas a contornar uma deficiência estrutural, agravada em muito pela pandemia. 


25 DE MAIO DE 2021
+ ECONOMIA

Guedes avisa que reeleição passará a ser foco da economia

Paulo Guedes, ministro da Economia, tem tendência ao sincericídio. Já o praticou chamando servidores federais de "parasitas" e reclamando que domésticas viajavam à Disney. Em entrevista à Folha de S.Paulo no final de semana, fez uma espécie de confissão:

- Jogamos na defesa nos primeiros três anos, controlando despesas. Agora vem a eleição? Nós vamos para o ataque.

Para não deixar dúvida sobre o que significa "ataque", detalhou, sobre a atuação:

- Vai ter Bolsa Família melhorado, BIP (Bônus de Inclusão Produtiva), o BIQ (Bônus de Incentivo à Qualificação), vai ter uma porção de coisa boa para vocês baterem palma. Tudo certinho, feito com seriedade, sem furar teto, sem confusão.

Foi tão desconcertante que uma fonte do Ministério da Economia negou que signifique "abrir a porteira dos gastos". Que governos tendem a ser mais "generosos" em períodos pré-eleitorais, e mais quando há reeleição, não é novidade. Mas um anúncio prévio como o feito por Guedes é bastante raro.

E vem logo depois da famosa portaria do "teto duplex", que permite aumentos salariais a Jair Bolsonaro e a vários ministros. A partir de junho, o teto de R$ 39.293,32, poderá ser solene e legalmente ignorado, o que representará ganhos de até 69% para servidores de alto escalão, com pagamentos mensais que podem ultrapassar R$ 66 mil. Conforme a Associação Contas Abertas, o gasto anual será de R$ 66 milhões ao ano, o que poderia financiar a instalação de 110 leitos de unidade de terapia intensiva (UTI), segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

Outra promessa de Guedes é "devolver as estatais ao povo brasileiro". Parece ter acatado a proposta do Manifesto Convergência Brasil, apresentada no ano passado, que previa a transferência para programas sociais de recursos obtidos com privatização e com a reforma administrativa.

- Cada estatal vendida dá ganho de capital para o povo. E se não vender? Pega um pedaço dos dividendos. Cria um fundo de distribuição de riqueza, capitalismo popular. Isso está formulado e pronto - avisou Guedes.

O Brasil precisa, e com urgência, rever a reeleição.

MARTA SFREDO

25 DE MAIO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Pelé e a ditadura

No dia 1º de novembro de 1971, fui escalado para marcar Pelé. Minha missão de repórter recém saído do estágio era bem objetiva: grudar no maior jogador de futebol de todos os tempos desde o momento de sua chegada ao Estádio Olímpico, onde o Santos enfrentou o Grêmio, até o seu retorno para o hotel. E, posteriormente, descrever para os leitores do jornal tudo o que ocorresse com ele, em torno dele e por causa dele.

Pelé, tricampeão mundial na Copa do ano anterior, era simplesmente o brasileiro mais amado e idolatrado pelos 90 milhões de conterrâneos em ação daqueles tempos de ufanismo e opressão.

Recuperei outro dia, no museu Hipólito da Costa, a página que escrevi sobre ele naquela noite de quarta-feira, meio século atrás - e voltei a me emocionar ao ler o meu próprio relato. Na edição, a reportagem foi dividida em dois momentos: Pelé sem a bola e Pelé com a bola. Mesmo na condição de fã empolgado pela oportunidade de entrevistar o grande ídolo, acho que consegui fazer o meu trabalho com isenção e profissionalismo.

No dia seguinte à pesquisa, assisti na Netflix ao mais recente documentário sobre Pelé, que enquadra a carreira inigualável do craque no contexto da ditadura militar. Pelé vitorioso, Pelé aclamado, Pelé recebido pelo presidente, Pelé abraçado ao general Médici, Pelé comparado criticamente a Muhammad Ali, o Pelé do boxe, que se recusou a lutar na guerra do Vietnã.

O filme não condena Pelé, mas reacende um questionamento histórico: ele deveria ter usado o seu prestígio para contestar o regime em vez de legitimá-lo? O próprio Pelé, confrontado com a questão, parece hesitante. Mas os testemunhos de seus contemporâneos - entre os quais o cantor Gilberto Gil e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - o absolvem integralmente. A visão geral é de que ele fez o que estava ao seu alcance para dar alegrias ao povo brasileiro.

E como deu!

Por óbvio, também prefiro Pelé com a bola. No filme, porém, aquele senhor octogenário de cadeira de rodas que batuca saudades na sua antiga caixinha de engraxate me faz pensar que os erros e acertos do Pelé sem a bola já prescreveram. As perversidades da ditadura é que são imprescritíveis.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 24 de maio de 2021


24 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Houve luxos neste Gre-Nal feio

Depois de 15 dias de recolhimento, ter um Gre-Nal de decisão de campeonato para voltar a escrever é um luxo. O dia foi feio e cinza, é verdade. O jogo foi mais brigado do que jogado, também é verdade. Mas, ainda assim, trata-se de um luxo. Até porque há coisas especiais nessa decisão. Há alvíssaras, sobretudo no lado vencedor, o Grêmio.

Uma não chega a ser uma alvíssara, e sim uma renovada constatação: Pedro Geromel. Depois da semifinal, o técnico do Caxias foi perguntado a respeito da razão de o seu time não ter conseguido mais jogadas de perigo. Ele respondeu:

- O zagueiro do Grêmio é o Pedro Geromel.

Não precisou dizer mais nada, estava explicado. Geromel virou adjetivo. Geromel é um fenômeno de antecipação, de colocação, de visão do lance defensivo. O Rio Grande do Sul teve monstros na zaga central: Nena, do Rolo Compressor, Aírton, 12 vezes campeão, Figueroa, bruto e poeta ao mesmo tempo, De León, o capitão campeão do mundo, além de Oberdan, Índio, Adilson, Mauro Galvão e Lúcio, entre tantos. Geromel suplanta a todos, e afirmo essa temeridade sem nem ter visto Nena e Aírton jogarem.

Neste domingo, Geromel passou a tarde afastando a bola da área do Grêmio. Alguém mais distraído diria que a bola sempre ia aonde ele estava. Ao contrário: ele SABIA onde a bola cairia. Geromel olha para o atacante e antevê o que ele vai fazer. Com Geromel e Kannemann na área, o sempre atento Thiago Santos à frente deles e o seguro Brenno atrás, o Grêmio fica perto do impermeável.

Mas o protagonista do jogo não foi nenhum desses: foi o ponta-esquerda Ferreirinha. Gosto de escrever isso: ponta-esquerda. Há uma história antiga a respeito de pontas, já contei, conto de novo, é boa. Numa cidade do interior profundo do Brasil, o Exército estava procedendo ao alistamento de novos recrutas. Havia uma fila de jovens diante da mesa do sargento, que ia tomando nota dos dados. Ele perguntava para cada candidato:

- Nome? - Idade? - Profissão?

Assim por diante. Até que chegou um mais retaco, mais fortinho, fez posição de sentido, deu o nome, deu a idade e, ao chegar na profissão, detalhou:

- Eu marco ponta!

Era como funcionava, antes. Havia o ponta e havia o marcador de ponta. Até que o ponta foi banido, os times queriam se fechar, eram quatro no meio-campo, cinco, até seis.

Bem, agora eles estão de volta, e Ferreirinha é um lídimo representante dessa estirpe. Ele fez o gol do título, dando um corte seco, de ponta, no marcador do Inter. Ele prendeu a bola na esquerda durante quase todo o tempo de prorrogação. Ele foi o jogador mais perigoso da partida.

O Grêmio tem ponta-esquerda. O que é bonito. E terá ponta-direita, Douglas Costa, que está chegando. Com um pormenor, que valoriza ainda mais as loas que teci ao zagueiro aí de cima: foi Geromel que acertou sua contratação. Um zagueiro craque que contrata atacante craque. Não. Nunca houve ninguém como Geromel.

DAVID COIMBRA