
20 de Outubro de 2026
NÍLSON SOUZA
As cortinas do espetáculo
Sei que o país está explodindo de tensão política e que os clubes gaúchos agonizam na beira do precipício, mas, até para distrair um pouco meus leitores de pressentimentos apocalípticos, convido-os para uma breve incursão ao país da infância a partir deste episódio que testemunhei recentemente.
Cenário: o menino, a bola e a parede: - Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto.
- Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! - acrescenta com igual agilidade verbal.
E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. - Prrriiiii! Retorna para o locutor improvisado: - Penalidade máxima! - grita.
Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: - Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.
- Isolou! Isolou! - grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo.
- Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair:
- Craque! Esse é craque! - diz para si mesmo. Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora:
- No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego.
- Fim de jogo! - exclama, desapontado. Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: - Fecham-se as cortinas do espetáculo!
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