terça-feira, 20 de outubro de 2026


20 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Incentivo a mais divisão social

O confronto entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite de domingo, na Band, desalenta não apenas pela frustração com o baixíssimo nível do encontro entre os dois candidatos à Presidência da República. Tão desanimador quanto a falta de disposição para uma discussão séria sobre os grandes desafios do país é a constatação de que o tom do embate prenuncia a continuidade da profunda fratura na base da sociedade brasileira.

Na prática, não houve debate, no sentido de confronto de ideias e proposições, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas. Flávio e Lula protagonizaram quase dois monólogos. Quando não estavam se engalfinhando em trocas virulentas de acusações, falavam apenas sobre o que lhes interessava. Flávio abusou da fuga aos questionamentos do adversário e Lula mostrou dificuldade de formular suas argumentações. É possível que tenha sido o debate presidencial televisionado mais deprimente e dominado por baixarias já visto no país.

As performances pareceram pensadas mais para gerar cortes para as redes sociais e elevar a rejeição do oponente do que inspirar esperança. Em vez de tentarem convencer os eleitores de que têm os melhores projetos para desenvolver o Brasil, se esforçaram para tirar votos do antagonista e energizar as suas bolhas virtuais.

Não foi à toa que os telespectadores acompanhados em grupos focais de pesquisas qualitativas durante o encontro demonstraram, de forma predominante, desencanto com os candidatos e o resultado do embate. Vergonhoso, triste e decepcionante foram algumas definições desses eleitores para o debate e o comportamento dos candidatos. Não será surpresa se a consequência for o aumento da apatia e uma ausência maior das urnas no próximo domingo, pelo desencanto justificado de quem não é bolsonarista nem lulista convicto ou então antipetista e antibolsonarista empedernido.

A incapacidade de Flávio e de Lula de oferecer aos eleitores um choque de ideias minimamente civilizado e respeitoso é combustível para dar prosseguimento à polarização radicalizada dos cidadãos comuns que convivem nas ruas, no trabalho e nos ambientes familiares. A preferência dos candidatos por fustigar o adversário, em vez de debater de forma racional, vai se refletir no comportamento da população. O acirramento dos ânimos na reta final da campanha realimenta o estímulo à manutenção da divisão social, à desconsideração da opinião de quem pensa diferente e à cristalização de posturas refratárias ao diálogo. A agressividade do debate reforça a conclusão de que o país sairá da eleição sem perspectivas de conciliação e de convivência pacífica de ideias.

Flávio e Lula têm um novo encontro marcado na sexta-feira à noite, no debate da Rede Globo, antevéspera do dia da eleição. São escassas as perspectivas de um encontro em termos mais elevados. Mas, em respeito ao eleitor, as campanhas bem que fariam se reavaliassem suas estratégias e não prestassem um novo desserviço à relevância dos debates como um dos símbolos da saúde e da vitalidade da democracia brasileira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário