terça-feira, 4 de abril de 2017



04 de abril de 2017 | N° 18810 
CARPINEJAR

Quem é mais dono da morte?

Vejo inventários que se prolongam por décadas, com famílias disputando judicialmente o que dividiriam naturalmente se o pai e a mãe mortos estivessem vivos.

É uma jornada perigosa e violenta, capaz de destruir o legado e manchar a harmonia de um sobrenome. Uma longa guerra de inveja e de ciúme entre crianças disfarçadas de adultos e com escudo dos advogados.

Da mesma forma como os irmãos concorriam pela atenção dos pais, pela predileção psicológica, enquanto todos existiam pacificamente, passam a brigar pela propriedade das lembranças. São filhos se odiando como nunca, sem castigo e sem cinto, selvagens no ato de possuir um imóvel ou um bem. Não pensam pelo morto, o quanto ele trabalhou para garantir paz e conforto, o quanto suou e sacrificou os seus finais de semana para assegurar tranquilidade aos pósteros. Pensam com a mesquinhez de arrematar os melhores brinquedos e as condições mais prósperas. Buscam os seus direitos e apagam os deveres familiares que continuam existindo, com ou sem os pais vivos.

Nesta conflagração de egos, a alegria de um é maior se criar também a tristeza na companhia. A satisfação cresce ainda mais ao abocanhar a maior parte e conseguir subtrair os demais dos privilégios.

Diante do falecimento do ente querido, os filhos esquecem que têm irmãos e se transformam em filhos únicos. Tem em curso uma esquisita e infeliz alienação filial.

Puxam para si as mangas da ausência da roupa maternal e paternal imitando as suas presenças durante a infância.

Tentam reconstituir em vão no colo da lei o aconchego dos abraços, mas apenas se distanciam dos manos que sofrem igual e que restaram ao lado. A partilha se converte em monopólio, a custo de isolamento e desconfiança.

Querem ser donos da morte do pai ou da mãe. Como se a morte possibilitasse algum dono. A morte é de ninguém. A morte é saudade de quem amamos, de quem nos habitará por toda a vida, independentemente de ações e liminares.

O que mais ansiava aquele que partiu era uma família unida, porém o que mais amarga com a despedida é o contrário: a dissolução dos laços. O espólio que serviria para acalmar as dores em tempos de crise é manobrado em xadrez de interesses e maquinações, em tabuleiro de vinganças e vitimizações.

Não se pretende perder o pai e a mãe pela segunda vez, agora simbolicamente para o irmão, e o herdeiro faz de tudo para manter a sobrevida moral dos falecidos.

O orgulho de filho mimado, de filho cheio de si, não permite cedências e recuos, desculpas e generosidade. Crê que será novamente enganado, pois entende a morte como uma trapaça, jamais como a grande prova de amor e de caráter moldado pela educação recebida.



04 de abril de 2017 | N° 18810
EDITORIAIS

REAÇÃO NA SEGURANÇA

O anúncio feito ontem pelo governo do Estado de que irá chamar mais de mil policiais militares para reforçar a segurança, além de lançar novos concursos nessa área, serve ao menos para demonstrar que, apesar da demora na reação, o poder público não está inerte. 

Níveis de violência como os atingidos no Rio Grande do Sul não têm como ser combatidos apenas com mais agentes nas ruas, pois exigem providências mais amplas e coordenadas. Ainda assim, nada contribui mais para aprofundar a sensação de insegurança do que a constatação, pelos criminosos, de estarem livres para agir, por falta da presença ostensiva do Estado.

É justamente o atraso na adoção de medidas efetivas que ajuda a explicar o fato de o Colégio Estadual Ildo Meneghetti, no bairro Restinga, em Porto Alegre, ter sido atacado duas vezes no final de semana, totalizando 18 registros policiais só neste ano. A demora na reação está também entre as razões de Porto Alegre ter sido incluída em pesquisa publicada pela revista The Economist entre as 50 cidades com mais de 250 mil habitantes com maior número de homicídios do mundo.

É positivo que, ao se comprometer ontem com novos concursos para reforçar o contingente de policiais militares, o governador tenha condicionado sua realização à aprovação pela Assembleia de projetos que corrijam distorções históricas, mas inadmissíveis na Brigada Militar. Entre elas, estão as aposentadorias precoces, algumas delas privilegiando quem ganha mais, o que incha a folha e contribui para deixar as ruas menos protegidas.


04 de abril de 2017 | N° 18810
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Considerando a importância da reforma da Previdência, seria de se esperar uma comunicação social à altura do desafio. Ora, há um consenso de que a atual comunicação governamental é muito ruim. Se o governo for incapaz de tomar uma medida nesta área, mais problemática ficará a aprovação desta PEC.

O que se observa na população em geral e nos meios de comunicação é uma não aceitação desta proposta de reforma, com a esquerda conseguindo, por sua vez, ganhar um discurso. A incapacidade governamental de comunicação está tendo como efeito colateral um fortalecimento de certas posições de esquerda.

Em recente pesquisa CNI/Ibope, destaca-se a questão da alteração do sistema previdenciário com 26% das menções. É, de longe, a notícia e o tema mais lembrados pelos entrevistados. É patente o desgaste do governo. Até aqui, este tem sido reativo na defesa do projeto, não conseguindo explicar seu conteúdo de maneira didática à população.

Pecando na comunicação com a sociedade, o governo hoje encontra-se desprovido de qualquer narrativa comunicativa eficaz para persuadir a população a apoiar a reforma – sequer sua base de sustentação no Congresso a defende.

Ocorre que os deputados, dada a má comunicação do governo, estão cada vez mais temerosos na aprovação desta reforma. Têm eles efetivamente medo de serem rechaçados por seus eleitores, perdendo a possibilidade da reeleição. Entre a reeleição e o futuro do governo, sua inclinação mais direta é a da primeira alternativa. Em encontros partidários, deputados verbalizam publicamente essa posição, não temendo nenhuma retaliação governamental contra eles.

Nota-se, inclusive, a ignorância deles no tratamento da questão, com discursos repetitivos sobre a perda de direitos. Não possuem a menor noção de orçamento público, nem do que isto pode significar para o futuro do país, que não poderá, se nada for mudado, nem assegurar o pagamento das aposentadorias em poucos anos.

O rombo é de tal ordem, que em pouco tempo pode engolir a todos.



04 de abril de 2017 | N° 18810 
DAVID COIMBRA

O homem sem medo

Orlov foi um soldado russo condenado à morte pelo famoso czar Pedro, o Grande.

Tenho lido bastante sobre os russos, nos últimos tempos, e mais ainda lerei, porque eles voltaram ao centro dramático do mundo – vide o atentado de ontem, em São Petersburgo.

Aliás, São Petersburgo foi fundada por esse mesmo Pedro, o Grande. Lá está plantada uma imponente estátua equestre dele, mandada erigir por outra Grande, Catarina, que queria se identificar com Pedro, mas não era sua descendente. Catarina, por sinal, nem russa era: era alemã. E Catarina nem Catarina era: era Sophia. Catarina era, isto sim, lúbrica, lasciva e libidinosa. Suas histórias são febris, outro dia conto. Por ora, quero falar de Orlov, o soldado condenado à morte.

Orlov, em russo, significa “águia”, e esse Orlov merecia o nome que levava. Participou de uma revolta contra uma série de reformas que o czar fez no Exército, e por isso acabou sentenciado pelo tribunal militar. No dia da execução, às vistas do povo que fervilhava na Praça Vermelha, diversos colegas de Orlov foram degolados, enquanto ele, impassível, esperava a sua vez. Quando chamaram seu nome, subiu orgulhosamente no cadafalso, caminhou firme pelo piso coberto de sangue coagulado e, chutando a cabeça cortada de um de seus companheiros, disse sem vacilação:

– Vamos abrir espaço para mim aqui!

O czar, que assistia às execuções, ficou tão impressionado com o destemor de Orlov, que gritou:

– Parem tudo! O soldado foi não apenas salvo da morte como promovido. Tornou-se oficial e brilhou no Exército russo pelos anos seguintes.

Tempos depois, quando reinava Isabel, a filha de Pedro, outro militar se viu diante do tribunal. Chamava-se Apraksin e não se tratava de um soldado desconhecido como Orlov. Ao contrário, era um dos mais vistosos generais do império. Mas havia liderado uma retirada vergonhosa na guerra contra a Prússia e por essa razão havia sido levado a julgamento.

Esse Apraksin não tinha nada da altivez de águia de Orlov. Era corpulento, quase obeso, muito vermelho, um tanto preguiçoso, mas muito bem-humorado. Devia ser boa gente.

No fim de seu julgamento, o juiz mandou que se levantasse para ouvir a sentença. Nervosíssimo, de olhos arregalados, Apraksin ficou paralisado de horror, enquanto o magistrado dizia:

– ... diante disso, não temos outro recurso, a não ser...

Esperando que as palavras finais fossem as habituais “tortura e morte”, Apraksin sentiu-se mal e caiu duro ali mesmo, completa, total, absoluta e irremediavelmente morto, incapaz de ouvir o desfecho da frase, que seria... “mantê-lo em liberdade”.

Ou seja: o soldado que encarou a morte com desassombro seria de fato morto, mas ganhou a vida; e o general que encarou a morte com temor ganharia a vida, mas acabou morrendo sem nem saber disso.

A coragem salva e, se não salva, pelo menos é um consolo. Que os russos tenham coragem, nesta hora. E todos nós também.

segunda-feira, 3 de abril de 2017



03 de abril de 2017 | N° 18809
ARTIGO - SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.*

UM ZOOLÓGICO DE CANALHAS

A democracia está em xeque. Alguns podem ter lido cheque e não deixarão de ter certa razão. Sim, nossa política está vendida; o dinheiro – geralmente sujo e ilícito – se tornou mais importante que o voto. Quanta ironia. Durante anos, lutamos para ter o direito de escolhermos nossos representantes e, quando obtido, não temos mais candidatos minimamente decentes ao exercício digno da vida pública responsável. 

É claro que ainda existem alguns poucos nomes honestos; estão ali altivos e ainda nos enchem de esperanças; uma pena que hoje vivam mais nos livros do que nos parlamentos. E, assim, o Brasil afunda progressivamente no lodo da decadência política.

Ora, vivemos em um mundo extremamente complexo e queremos que uma turma de gente tacanha nos apresente as soluções. Não tem como; a lógica não fecha. Os políticos que estão aí não resolverão os nossos problemas. Ilustrativamente, estamos querendo que charlatões curem uma infecção generalizada; embora possa usar jaleco branco, a charlatanice tem os naturais limites da ignorância e do despreparo; pode até assoprar a ferida, mas a dor não irá passar. Ou seja, não adianta insistir com o zoológico de canalhas que contaminam a dignidade do Brasil.

Na verdade, a política atual não se deu conta de como está exposta e vulnerável. Olha-se para o hoje com a mentalidade do ontem, tornando impossível a construção de pontes para o futuro. 

Objetivamente, os sistemas de poder tiveram no monopólio da força o mais importante mecanismo de contenção das primitivas energias de revolta popular. Acontece que a situação é tão caótica, que se o povo marchar contra os palácios é possível que encontre policiais e militares na multidão dos que cansaram de ser enganados. Logo, o poder não está mais tão poderoso como em tempos de outrora.

Portanto, de duas, uma: ou o Brasil muda, ou será mudado pela força dos acontecimentos. Como democrata, sempre acreditei na política, embora a política nem sempre acredite na democracia. É justamente esse conflito de interesses que impõe aos bons cidadãos o inarredável dever de participar ativamente da vida pública de nosso país. Quem apenas aceita as linhas do destino está condenado a ser um eterno escravo das circunstâncias. Até quando, então, aceitaremos o reinado da corrupção desbragada?

*Advogado ventura@sebastiaoventura.com.br


03 de abril de 2017 | N° 18809
EDITORIAIS

A JUSTIÇA QUESTIONADA

Dois recentes episódios judiciais estão provocando polêmica e indignação no país: a concessão de prisão domiciliar à ex-primeira-dama do Rio de Janeiro Adriana Ancelmo, para que dê assistência aos filhos, e a sentença que concede indenização a um preso gaúcho por danos morais devido às condições precárias da Cadeia Pública de Porto Alegre (Presídio Central). Ambos os casos suscitam compreensíveis indagações.

Vamos ao primeiro:

Adriana Ancelmo foi beneficiada apenas por ser rica e famosa? Por que dezenas de outras mulheres em situação prisional semelhante não recebem tratamento semelhante? Homens responsáveis por filhos menores de 12 anos também têm direito ao benefício? A Lei da Primeira Infância, que respalda a prisão domiciliar para presos provisórios com filhos pequenos, facilita a impunidade?

No segundo caso:

É justo que o Estado indenize um homicida e não faça o mesmo com a família de sua vítima? A indenização se estenderá a milhares de outros presos que também enfrentam a precariedade das prisões? Como um Estado quebrado, como o Rio Grande do Sul, poderá fazer frente aos gastos com tais indenizações? Esse tipo de benefício não servirá como estímulo ao crime?

O questionamento é legítimo e pertinente, pois os cidadãos cumpridores de seus deveres só podem se sentir injustiçados quando constatam tanto zelo com os criminosos por parte das autoridades. E o mais chocante é que essas autoridades estão respaldadas na lei, que deveria ser igual para todos. Não é, infelizmente. 

Alguns presos – como se constata nos casos referidos – são “mais iguais do que os outros”, a exemplo da fábula de George Orwell. E os brasileiros honestos só podem sentir-se afrontados quando, além de suportar a violência que o Estado não consegue controlar, ainda são condenados a indenizar os delinquentes que os oprimem.



03 de abril de 2017 | N° 18809 
DAVID COIMBRA

A última vez que falo em Bolsonaro

Tenho vários amigos inteligentes, entre eles o Marcelo Rech, o Potter e o Carlão Flech, que dizem que não devo criticar Bolsonaro, porque a crítica só faz Bolsonaro crescer.

Não concordava com eles. Tinha vontade de dizer a todos o que realmente acho do Bolsonaro: que ele é nada mais do que um homem sem imaginação, sem viço cultural, sem conteúdo, sem ideias.

Bolsonaro cresceu porque as pessoas, muitas vezes, acham que grosseria é sinceridade, que machismo é hombridade, que preconceito é autenticidade, que truculência é coragem.

As pessoas estão irritadas com o julgamento prepotente e neomoralista do politicamente correto, o que de fato é um erro, e reagem festejando o politicamente incorreto, o que é outro erro.

Até respondi para alguns leitores que me escreveram com educação (só para esses respondo) a fim de defender Bolsonaro das minhas críticas pretéritas. Disse o que pensava. E um deles, Sérgio Lucas, para minha surpresa, respondeu o seguinte:

“Outro dia, eu te critiquei porque você fez ‘campanha’ contra o Bolsonaro. Você me disse que ele era burro e tal e mais algumas coisinhas.

Pensei, analisei e neste mês de março o político deu uma entrevista para o Danilo Gentili.

Ouvi, pensei e analisei mais um pouco e ‘fiat lux’. Não é que você tem razão?

O cara não tem nenhum projeto importante para o Brasil, ele só vive de polêmicas e do nióbio.

E não, eu não estou sendo irônico com você”. O e-mail do leitor ganhou meu dia.

Mas, assim como ele, também sou suscetível a argumentos. Logo, concordo com meus amigos inteligentes: falar mal do Bolsonaro é tudo o que quer o Bolsonaro.

Não vou mais falar desse sujeito, portanto. Abrirei uma única exceção hoje. É que circula “nas redes” um vídeo que o próprio Bolsonaro fez, dias atrás. Ele está no aeroporto de Brasília e vê o juiz Sergio Moro ali perto, cercado de admiradores. Decide aproveitar o momento. Um assessor filma a cena, provavelmente com um celular. Bolsonaro manda que o acompanhe. Ele bufa atrás:

– Tá legal, tá legal. Bolsonaro abre caminho entre as pessoas e se aproxima do juiz. O assessor vai pedindo:

– Dá licença! Dá licença!

Os cidadãos, digamos, “comuns” vão se afastando. A ideia de quem faz o filme certamente é mostrar um encontro de gigantes, uma pororoca de campeões. Moro, sem perceber o que se passa, conversa com algumas pessoas e meio que já se despede, meio que já está saindo, quando Bolsonaro chega. Toca em seu ombro. Moro olha para ele. Bolsonaro bate uma continência frouxa. Moro acena rapidamente com a cabeça e se afasta, calado. Bolsonaro fica parado ali, olhando para a câmera, tentando sorrir e não conseguindo.

O que pode ser mais humilhante do que a bajulação frustrada?

Mas logo surge um cara com a camisa do Grêmio e pede para tirar uma selfie com ele e a vida segue, rumo ao desconhecido.

Ri muito desse vídeo. Estou rindo ainda. Mas o farei em silêncio. Serei inteligente como meus amigos inteligentes. Não falo mais do Bolsonaro.



03 de abril de 2017 | N° 18809 
L. F. VERISSIMO

Nostalgia

As utopias morreram, as ideologias agonizam, e eu também não ando me sentindo muito bem. “Esquerda” e “direita” são termos obsoletos. Vêm da divisão física entre os progressistas e os conservadores nas assembleias legislativas francesas depois da Revolução. Quer dizer, têm mais de 200 anos. Não significam mais nada. Ou significam?

Mesmo com outros nomes, como centro A e centro B, esquerdistas e direitistas ainda pensariam de modos diferentes e entenderiam e desejariam coisas opostas. Mas há um sentimento que une direita e esquerda. Uma nostalgia comum que nenhum lado confessa, e da qual talvez nem se dê conta. É a saudade do século 19.

Ah, o século 19. Foi quando a História, por assim dizer, entrou na história, e tudo recebeu seus nomes verdadeiros. Uma segunda Criação. Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico, e a modernidade tecnológica e modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo. 

“Bliss it was in that dawn to be alive” (Êxtase era estar vivo naquela aurora), escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa. A esquerda poderia dizer o mesmo do século 19. Naquela aurora, não havia dúvida sobre a inevitabilidade histórica do socialismo.

Mas êxtase também espera a direita numa volta idílica ao século 19. Foi o século de reação à Revolução Francesa, da restauração conservadora na Europa depois do terremoto republicano e do nascente capitalismo industrial sem remorso. 

Os que propõem a “flexibilização” dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta, como a que pretendem hoje em Brasília, babariam com o que veriam no velho século: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer direito legal ou moral, fora seus magros salários. A perfeição. Antes que a pregação socialista a estragasse.

Século 19, terra de sonhos. Para a esquerda e a direita, juntas.

domingo, 2 de abril de 2017



Samuel Pessoa
02/04/2017  02h00
Quem matou Daniel Blake?


Eu, Daniel Blake [I, Daniel Blake, Inglaterra, 2016], de Ken Loach (Imovision). Gênero: drama. Elenco: Dave Johns, Hayley Squires. Classificação: verifique em www.justica.gov.br/seus-direitos/classificacao ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

Daniel Blake é um carpinteiro inglês competente de pouco mais de 60 anos. Recupera-se de um problema no coração e, segundo o departamento médico da empresa em que trabalha, tem que repousar.

No entanto, segundo a empresa terceirizada contratada pela seguridade social britânica para verificar se Daniel é ou não elegível ao auxílio-doença, o carpinteiro está apto a trabalhar.

Daniel está no limbo. Não recebe o salário da empresa, pois não está apto a trabalhar, nem o auxílio-doença, pois está apto a trabalhar.

O carpinteiro experimentado é um homem antigo. Não sabe lidar com computadores e internet -o que muito dificulta todo o processo de preenchimento on-line dos formulários- e não tem a esperteza das novas gerações, que sabem que, nessa circunstância, o melhor é contratar imediatamente um advogado.

O belíssimo filme de Ken Loach -acaba de sair de cartaz- denuncia as ineficiências e as injustiças da burocracia da seguridade britânica.

Com certeza, a tensão da perda de renda, em meio ao processo kafkiano de enfrentar a burocracia, causou o ataque cardíaco que matou Daniel Blake.

Filme construído na chave de contos de fada, nosso herói, além de profissional competente, é cidadão exemplar. Cumpre com todas as suas obrigações e é ótimo marido. Amou e cuidou de sua mulher, que já morreu.

Não teve filhos, possivelmente em razão das limitações de saúde da mulher. Era bipolar. Ajuda os vizinhos, reclama do lixo no lugar errado, colabora com quem pode. Para Ken Loach, a ganância capitalista e a frieza dos governos conservadores ingleses mataram Daniel Blake.

No Brasil, o seguro-defeso remunera pescadores profissionais ao longo do período de reprodução dos peixes, desde que esses profissionais não pesquem. Assim, em teoria eles deixam os peixes se reproduzir. Brasília, com um único lago, tem 7.000 pescadores recebendo o benefício!

Em 2017, o Ministério do Trabalho encontrou fraudes no valor de R$ 1,3 bilhão no seguro-desemprego.

Pente-fino em 2016 no programa Bolsa Família bloqueou por subdeclaração de renda 654 mil benefícios; convocou 1,4 milhão de famílias para averiguação cadastral; bloqueou o benefício de 13 mil famílias identificadas como doadores de campanha na prestação de contas de candidatos nas eleições de 2016; entre inúmeras outras medidas.

Em apenas um mês, revisões feitas em 5.000 beneficiários do auxílio-doença cancelaram mais de 80% dos benefícios. Há inúmeros outros exemplos.

Há dois tipos de erro em um sistema de filtros. Conceder o benefício para quem não é elegível ou recusar o benefício para a pessoa elegível. Se o sistema de filtros for desenhado para que a probabilidade de recusar o elegível seja nula, será muito suscetível a conceder ao não elegível. E esse trade-off será tão mais difícil quanto maior for a propensão das pessoas a fraudar o sistema e menor for o controle social.

Em que pesem as ineficiências da seguridade social britânica -tema que não conheço-, o fato de a humanidade não ser constituída apenas por Daniel Blakes é responsável em boa medida por sua morte.


Se Temer perde, quem ganha?

Vinicius torres freire
02/04/2017  02h00

Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de quarta a sexta e aos domingos.

Suponha-se que dê tudo certo na economia, segundo planos e critérios do governo Michel Temer. Ou não. O que pode ser da política, no mês que vem ou em 2018?

As ameaças do próprio PMDB de pular do barco dão o que pensar sobre o roteiro do destino até faz pouco tempo risonho e franco do presidente que "aprovava tudo" no Congresso. Um governo "semiparlamentarista", que teria maioria firme porque loteara os ministérios na medida do tamanho dos partidos de sua coalizão, de resto uma aliança ideologicamente coesa, de conservadora a reacionária.

Suponha-se a hipótese "vai dar certo".

Nesse prognóstico, aprovam-se a reforma da Previdência e, ora menos relevante, a trabalhista, que causam medo ou raiva em quase qualquer pessoa com quem se converse na rua. A economia cresceria um minguado mas inesperado 1% neste ano e gordos 4% no ano eleitoral de 2018, com inflação e juros declinantes. Não é chute. São as previsões dos economistas do Itaú, por exemplo.

Muito parlamentar do PMDB parece por ora indiferente a esse cenário. Do PMDB de Temer, da "Ponte para o Futuro", e do "Avança, Brasil", de Renan Calheiros, programas liberais que encheram a linguiça da coalizão que depôs Dilma Rousseff.

Quase metade do PMDB se negou a votar a terceirização. Calheiros, homem-bomba, avacalha Temer em público e nas internas. Não se sabe bem o que quer ou quantas tropas tem. Mas Calheiros e o refugo da terceirização azedaram ainda mais a votação das reformas. Deram ideias para aliados: se até o PMDB se escafede, por que queimar o filme votando projetos detestados?

Neste momento, a "sólida coalizão" de Temer não parece associar seu futuro ao sucesso do governo. Alguns peemedebistas o dizem explicitamente, nas internas.

A melhora da economia talvez não se converta em ativo eleitoral, dizem, pois Temer não vai liderar sua sucessão em 2018, não apenas por ser impopular ou por tocar reformas amargas e comandar enrolados de escol na Lava Jato.

Além do mais, segue o raciocínio do desencanto, um refresco no PIB não apagaria a memória azeda de três anos de recessão, que também ficaria carimbada nos governistas mais autênticos. Um candidato viável a presidente viria do PSDB ou do espaço exterior da política politiqueira, um "outsider" sideral, com ou sem economia melhor.

Política é feita de nuvens, certo, que ora são escuras, mas podem se dissipar. No momento, porém, o clima no Congresso está muito ruim, para surpresa também deste jornalista. Temer está à beira de passar as tropas em revista as ameaçando de tiros na cabeça em caso de motim.
Caso o tempo feche de vez, ninguém será vitorioso em 2018.

Mesmo sem pânico financeiro pela derrota das "reformas", a perspectiva de crescimento baixaria. O presidente tomaria posse em 2019 para governar sob penúria, sem dinheiro. Aliás, até no cenário de reformas aprovadas e crescimento bom haveria refresco nas contas federais apenas em 2021.

O alerta vale também para a esquerda, que deve pensar melhor no que deseja. Na hipótese de contribuir para a ruína de Temer e suas reformas e, mais improvável, de vencer 2018, terá de governar uma terra arrasada e um povo com expectativas irrealistas de reviravolta econômica e social.



clóvis rossi
02/04/2017  02h10

O Brasil apodreceu

É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.

Olhe-se para onde se olhe, o Brasil está podre.

A primeira sensação, ao me sentar para preparar este texto, era a de que a podridão dizia respeito ao Estado brasileiro. Quando quem deveria zelar pelo bom uso do dinheiro público (no caso, o Tribunal de Contas do Rio de Janeiro) não consegue nem sequer se reunir porque cinco de seus sete integrantes estão presos, parece piada pronta.
Mas não é piada, é tragédia.

Mais: não é tragédia localizada. Para ficar só no noticiário da sexta-feira (31), o Painel desta Folha informa que, na sua delação premiada, a construtora Andrade Gutierrez diz ter subornado sete integrantes do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

Nada surpreendente quando se lembra que a Suíça, por exemplo, já mandou para a Justiça brasileira provas de corrupção de um conselheiro do TCE-SP, Robson Marinho, afastado há algum tempo.

Por falar em Andrade Gutierrez, seu presidente, Ricardo Sena, é mais um dos empresário de grosso calibre a confessar: "Fomos apanhados pelados no meio da rua", disse à Folha.

Parece uma frase simpática e irônica, não fosse o fato de que "pelados", no caso, quer dizer que a empresa, como tantas outras do ramo, foi apanhada roubando.

Ou cometendo "práticas impróprias", na novilíngua inventada pela Odebrecht para não escrever delinquir. É a clara demonstração que não é apenas o Estado que está podre, mas também parte importante do setor privado.

O que se faz? Chama a polícia? No Rio, chamaram, e dois PMs se transformaram em pelotão de fuzilamento e mataram dois suspeitos caídos e já desarmados.

O que se faz? Chama o tal de povo para a rua para protestar?

Chamaram, foram, e a bandidagem aproveitou a confusão para armar um arrastão e roubar os ocupantes dos carros parados em meio ao tumulto.

No Brasil, fica-se com a sensação de que até o GPS, uma das maravilhas da tecnologia moderna, está podre. Tanto está que, conduzida por ele, uma turista argentina foi levada por engano a uma favela. Atacada, morreu no hospital.

É tamanha a lesão provocada no corpo social pela degradação da pátria que até pessoas do bem, como Luiz Carlos Bresser Pereira, caem num equívoco de defender leniência para com as empreiteiras, aquelas tais apanhadas "peladas no meio da rua".

O argumento é o de que, se não deixarem as empreiteiras em paz, a economia não se recuperará. É a confissão implícita de que o Brasil só vai caminhar se for conivente ou, no mínimo, tolerante com a podridão que o invade por todos os lados.

O que fazem, então, os políticos, eles também "pelados no meio da rua"? Dão força às investigações para tentar despoluir o ambiente? Não, vão para cima dos investigadores, para fornecer roupa (impunidade) para os "pelados".

Partem para a conversa fiada de que é preciso "evitar abuso de autoridade". Claro que é, isso é o óbvio ululante. Mas estão de pé todos os instrumentos para tanto. O que falta é evitar o avanço da podridão, mas pouca gente se importa com os que não ficaram pelados no meio da rua.

sábado, 1 de abril de 2017



01 de abril de 2017 | N° 18808 
LYA LUFT

Escolhas


Sempre nos ensinam que a vida depende em boa parte de escolhas nossas. Isso também “depende”. Pois, se nasço branco e rico, negro e pobre, branco e doente, negro e saudável, oriental e talentoso, oriental e enfezado, se nasço no Norte mais pobre ou no Sul mais progressista, aqui no estranho Brasil ou em algum lugar muito carente da África mais remota, se meu pai é inuit num dos Polos ou banqueiro em Nova York, e assim por diante, digamos que a minha escolha não há de pesar tanto.

Essa é a base. Mas depois, aí vem o dilema – porque a gente não gosta de dilemas, que provocam escolhas. Depois das condições, não escolhidas, em que nascemos, vem um longo trajeto em que podemos seguidamente tomar decisões: droga ou trabalho, estudo ou boa vida, honra ou malandragem, afeto ou futilidade... enfim. Nada é perfeito.

Escolhas são aflição. Ofereçam ao seu pet um biscoito e um naco de carne, e ele poderá hesitar, perplexo: animais de estimação têm expressões assustadoramente humanas. Para os humanos, as escolhas são as mais diferentes e até absurdas: que roupa usar, no meu closet do tamanho de um bom quarto normal? Que arma vou usar no próximo assalto? Quem vou assaltar? O que vou comprar com o dinheirinho que me resta: remédio ou comida? Para onde devo me mudar? Por que me mudar?

Ainda falando de gente: existe um número imenso de alunos e professores que preferem uma aula bem digerida, nada de provocações por parte do mestre, pois os alunos podem exercer sua perigosa inteligência, sua inquietante liberdade, e argumentar, discutir... Talvez sejamos simplesmente preguiçosos, comodistas, lerdos. Queremos boa vida, nada de caminho pedregoso ou esburacado, nada de pais que impõem limite, professores ou patrões exigentes.

Pode ser delicioso ser filhinho do papai ou da mamãe, e não me refiro só à casa paterna, mas à vida em geral, também à profissão, aos estudos. Escolher é muito chato. Mas a vida não dá colo: passa muita rasteira, exige humildade, personalidade e resistência. Por outro lado – isso me provaram muitos jovens e alunos –, que alegria descobrir o próprio poder de decisão.

Crescer dói, e não só nos ossos infantis com a dita “dor de crescimento”. Dói na alma: “viver é lutar”, disse o poeta brasileiro ao filho, e é, sim. Mas tem umas compensações, como perceber que não somos totalmente ignorantes, incapazes e dependentes. 

Descobrir que nosso trabalho, por mais simples que seja, tem importância, isto é, nós temos importância. Descobrir que somos necessários também para pessoas que nos amam, amigos, família, parceiros. Talvez essa seja a base de todo tipo de felicidade, que para mim é sentir-se bem na própria pele – mesmo fora dos grandes entusiasmos policromados: saber-se apreciado, profissional ou pessoalmente. 

E todos somos. Nem precisam ser coisas grandiosas, ao contrário: o bom, o positivo, pode ser muito pequeno, e ainda assim essencial, como permitir-se ser amado, ser estimado, ser escolhido, ser eficiente. Mesmo que apenas (apenas?) para limpar a rua, trocar a atadura, estimular alguém, fazer alguém pensar por si, e saber-se capaz de fazer suas próprias escolhas.


01 de abril de 2017 | N° 18808 
MARTHA MEDEIROS

O nosso plural e o de vocês

Como quase sempre acontece, o “nós” se desmembra e volta a ser apenas eu e apenas você, dois personagens que já não contracenam

Um dia eu e você fomos nós.

Nós viajávamos juntos em busca de trilhas distantes, nós descobríamos os detalhes de uma nova cidade percorrendo-a de bicicleta, nós tomávamos litros de vinho tinto durante o inverno gélido e também quando não fazia tanto frio assim, nós éramos os anfitriões dos amigos que vinham nos visitar e éramos, depois, a visita aguardada na casa deles, em retribuição. 

Nós éramos torcedores do mesmo clube de futebol e, em alguns casos, não torcíamos para ninguém, apenas para nós mesmos. Nós – o nome do nosso time. Nós – uma espécie de identidade secreta. Nós – o elenco da peça em que atuávamos: uma história de amor para dois personagens principais.

Como quase sempre acontece, às vezes cedo demais, às vezes com atraso, o “nós” se desmembra e volta a ser apenas eu e apenas você, dois times distintos, duas identidades avulsas, dois personagens que já não contracenam. Um final triste, mas digerível – a vida é assim, fazer o quê.

E então um dia você telefona para seu antigo amor e escuta do outro lado da linha algo inacreditável como “Nós estamos de saída, poderia telefonar amanhã?”.

Você está falando com seu ex. Uma unidade. Que “nós” é esse que não se refere mais a você e ele juntos?

Seu antigo par formou um novo plural. Ele voltou a ser nós. Você ainda é só você, um singular.

Onde foi parar a misericórdia? A sensibilidade recomenda não anunciar a nova condição conjugal antes de todos os corações estarem cicatrizados. O uso do pronome pessoal pode ser uma forma sutil de dizer que a fila andou, mas não ameniza o golpe. 

Um amigo me contou esse baque pelo qual passou e estou tentando fazer uma narrativa refinada do seu desalento, transformá-lo em poesia, literatura, canção, sei lá, encontrar alguma análise confortante para esse “nós” que ele pescou no ar, durante uma conversa trivial, um “nós” que já havia sido dele e que agora não lhe pertencia mais.

Só que não há como confortar. É natural que sejamos exclusivistas e nostálgicos em relação ao “nós” que era nosso, aquele “nós” que depois entrou num vácuo, se desfez, silenciou. O fim simultâneo do que era seu e de outra pessoa foi o último ato de intimidade entre vocês. Até o surgimento deste outro “nós” que agora pertence só a eles dois – e que te dói.


01 de abril de 2017 | N° 18808 
CARPINEJAR

Porção para um ou para dois?

Um dos enigmas de minha vida é se o prato é para um ou para dois. Por mais que tenha amadurecido e frequentado restaurantes, ainda não desembaracei a questão e sou um eterno novato na caligrafia do cardápio. Sempre que conheço um lugar, erro a medida. Eu me apoio nas fotografias do menu, viro um analfabeto apenas lendo imagens e não chego a nenhuma conclusão.

Quando o garçom diz que é para um, sobra. Quando o garçom diz que é para dois, falta. Jamais acerto a quantidade de comida no prato. Ou me apresento avarento ou me descubro perdulário. Arranho a minha imagem diante da minha família.

No fim, qualquer que seja o resultado, a mulher me humilha com o seu sermão. Já aguardo o comentário com o cafezinho e a conta: – Podíamos ter pedido um só. (E sinto que não estou ajudando para combater o desperdício do mundo.)

Devíamos ter pedido mais. (E parece que sou um pão-duro.)

Certamente ela ensaiou a maldade com o garçom. Ou eu solicito demais ou solicito de menos, influenciado pela frase ambígua do atendente: é bem servido. Bem servido para quem? Para um rei momo ou para uma porta-bandeira?

Tento adivinhar como que o garçom me enxerga para enxergá-lo melhor, se devo aceitar a sua recomendação ou confiar em meu instinto, se ele acha que como muito ou pouco.

Pedir comida é jogar poker. E não há como desvendar se o garçom está blefando. Não sei qual a orientação que recebe. Não sei se ele me inspira à abastança para encorpar seu dez por cento ou que realmente pensa que a melhor propaganda é a honestidade. Procuro decodificar as suas sobrancelhas para verificar a veracidade do discurso, se é leal ou uma vontade de agradar ao seu chefe.

Porção para um ou para dois? Que trauma infindável, ser ou não ser Shakespeare.

Pior que o amor é igual. Quando começamos uma relação, no início mesmo, tateando às cegas, nunca definimos se a pessoa ama por um ou por dois, se está para o banquete ou para o lanchinho, se ela pretende construir um lar ou busca se divertir e manter a sua vida de solteira, se somos projeto sério ou distração, se somos candidato a moldura ou um rostinho colecionável do Tinder, se é caminho para a rodoviária ou conexão de aeroporto.

As confissões são controladas para não assustar nem decepcionar. Não dá para falar no primeiro encontro que deseja casar e ter filho, senão sobra comida. Assim como não dá para censurar os sonhos por completo, reduzindo o encontro ao sexo, senão falta comida. A generosidade com os desejos é malvista, assim como a mesquinhez.

Eu vou morrer sem entender se a porção é para um ou para dois, se o amor é para um ou para dois e como alguém acha bonita uma gravata-borboleta.



01 de abril de 2017 | N° 18808 
PIANGERS

Freud explica

Existe a confidencialidade de informações na relação paciente e médico, mas quero crer que existe apenas da parte do médico, certo? Quero dizer: da parte do paciente, podemos contar as coisas que ouvimos no consultório? Porque fiz terapia por um bom tempo com um psiquiatra que me ajudou muito a entender uma série de coisas. Ele era muito bom (e, portanto, caríssimo!) e eu só conseguia pagar duas sessões por mês, mas valiam cada centavo. Ele me ajudou a me encontrar profissionalmente, equilibrar trabalho e família, resolver minhas questões do passado e criar melhor as minhas filhas. Como eu disse, esse cara era muito bom.

Mas uma coisa que ele jamais conseguiu curar – e acredito que nenhum médico jamais conseguirá – é a minha insegurança. Tenho aquela imagem idealizada dos psiquiatras como personalidades dominadoras que estão sempre analisando o que digo e, assim, conseguem controlar minhas atitudes puxando as cordinhas certas. Então, ao mesmo tempo em que ele me analisava, eu analisava ele me analisando. Eu queria entender seus métodos, antever qual seria sua tentativa de me fazer abrir. Mas o homem era ninja e sempre me surpreendia. Perguntava “E a sua mãe?” na hora certa e me fazia cair no choro.

Ele não salvava os contatos no celular, justamente pra preservar a privacidade dos pacientes. Então, quando eu mandava mensagem, ele respondia: “Quem é você?”. Minha vontade era dizer: “É exatamente isso que você deveria me ajudar a responder!”. Mas nunca falei isso, claro. Apenas me sentia insignificante tendo que detalhar minhas credenciais: sou o Marcos, filho da Eloisa, aquele que está em conflito profissional e tem dificuldade de deixar a filha na creche.

Uma vez, perguntei a ele o que achava das minhas colunas no jornal. Ele disse: “Acho que você se limita demais”. Acredito que ele quis dizer que eu era melhor do que parecia para o público, mas pra mim a mensagem que ficou foi: “Seus textos são uma porcaria”. Fiquei com isso na cabeça e, quando lancei meu livro, a fila era enorme e passei seis horas autografando páginas. 

Meu psiquiatra estava lá, pude vê-lo no canto me olhando e coçando o queixo, não veio falar comigo, apenas cochichou algo no ouvido da minha mulher e foi embora. Imaginei que, com aquele sucesso, ele teria se convencido de que meu texto é bom, mas depois minha mulher me passou o recado: “Fala para o Marcos que ele sabe o que eu penso”. Ou seja, até hoje eu acho que ele acha que meu texto é uma droga. Este aqui, inclusive.

Minha insegurança com meu psiquiatra chegou ao auge no dia em que cancelei uma sessão porque estava indo viajar. O que não informei era que a viagem era só no outro dia, mas queria passar a despedida perto da família. Então, quando jantávamos amorosamente no segundo andar do Puppi Baggio, quem é que entra subindo as escadas? 

O homem, me olhando por trás de seus óculos, como quem pega uma criança lambuzada de doce. Ao me levantar para cumprimentá-lo, tropecei no pé da mesa, o que deixou mais evidente minha travessura. “Você não foi viajar?”, perguntou. Tentei explicar, gaguejando, ele se afastou e sentou em uma mesa cheia de amigos, cerca de 10 senhores, provavelmente todos psiquiatras. Pela maneira que me olharam a noite toda, sabiam de todos os meus segredos.



01 de abril de 2017 | N° 18808 
L.F. VERISSIMO

Pffff

Não tenho mais a menor ideia de como se faz uma pipa (pandorga, em gaúcho). Eu fazia pipas perfeitas. Perdi o poder. E era um poder, aparentemente, congênito. Não me lembro de ninguém me ensinar que tipo de madeira usar, como cortar o papel, qual o comprimento certo da cauda etc. E devo ter nascido já sabendo como se faz cola em casa.

Outros poderes que eu tinha e não tenho mais dependiam de aprendizado. Você desenvolvia sua técnica nas bolinhas de gude com o tempo, jogando às brinca até se sentir habilitado a jogar às ganha. Com o tempo, desenvolvia técnicas vitoriosas para qualquer coisa, inclusive bater figurinha. Fazer funda (bodoque, atiradeira) era mais complicado do que fazer pandorga, dependia de se achar uma forquilha adequada, portanto de uma certa vivência de mato que os urbanos como eu não tinham. 

Nunca fiz uma funda decente. Mas construí carrinhos de lomba com rolimãs e sofisticados sistemas de direção com cordas, produzi sons exóticos usando só o sopro e as mãos entrelaçadas imitando um pífaro, reproduzi o som de trompete com surdina usando apenas uma folha rachada, inventei umas 17 formas diferentes de futebol de mesa.

Nunca joguei botão. Meu futebol de mesa era com tampinhas de garrafa. Jogava sozinho. Por coincidência, os campeonatos eram sempre vencidos pelo time da Coca-Cola. Não, não havia interferência do imperialismo americano.

Não sei exatamente onde se vão esses poderes de infância. Desaparecem para nunca voltarem. Desconfio que haja uma barganha, um acerto entre estrelas e hormônios na regência das nossas vidas. Uma transferência de jurisdição. Trocamos a onipotência infantil pela puberdade, os prazeres da sabedoria natural pelos prazeres do corpo crescido, o poder da criação instintiva pelo poder da procriação. Não sabemos mais fazer pandorgas, mas o que é isso diante dessa maravilha, o nosso sexo, e desse achado, o sexo oposto, e da perspectiva de os dois se encontrarem?

Na adolescência também temos poderes extraordinários, mas quase sempre imaginários. O poder da sedução irresistível, por exemplo, exercido só na frente do espelho depois de botar Gumex no cabelo, mas poder assim mesmo, esperando a sua vez de ser usado. O poder de despir uma pessoa sem que ela se dê conta, só com a força da mente, ou de ficar invisível e ir atrás dela no vestiário. O poder de ser outro, como um artista de cinema ou um intelectual brilhante, em vez de um espinhento tímido. Etc, etc. E esses poderes também se vão.

No outro dia, encontrei uma folha do tipo que rachava para imitar um trompete, na infância. Achei que, se ao menos conseguisse tirar um som da folha, talvez valesse como uma retomada, não me pergunte do quê. Só saiu um “pffff”.

01 de abril de 2017 | N° 18808 
ANTONIO PRATA

UM PAÍS BONITO


Sabe quando você sonha que está no seu quarto, mas não tem nada a ver com o seu quarto, mas sente que é o seu quarto? Foi tipo isso. Saí do elevador do hotel com a certeza de que estava no Brasil – afinal, ao entrar no elevador, eu estava no Brasil –, mas não parecia o Brasil. Vi, no hall, uns 20 adolescentes bem-vestidos, saudáveis, aparelhos nos dentes, cortes de cabelo estilosos; uns conversavam em rodinhas, outros ouviam música em seus fonões de ouvido, estirados nas poltronas com aquela mistura de arrogância e insegurança típica dos 15 anos, quando você pensa que sabe tudo e sabe que não sabe nada, ao mesmo tempo. O detalhe que me fez sentir-me dentro e fora do Brasil é que os garotos eram todos negros, pardos, morenos.

Me senti no Brasil porque os meninos tinham a cor e a fisionomia da maioria dos brasileiros. Fora do Brasil porque a maioria dos meninos brasileiros com a cor e a fisionomia daqueles ali não costuma frequentar lobbies de hotéis, bem-vestidos, de aparelhos nos dentes, cortes de cabelo estilosos, fones nos ouvidos, estirados nas poltronas. Costumam carregar as malas, limpar os quartos, sim, senhor, não, senhor, obrigado, senhor, disponha, senhor.

Mais do que as roupas, os fones, os cortes de cabelo, me impressionou a atitude daqueles garotos. Eles não estavam intimidados pelo ambiente. Não adotavam aquela postura servil ou agressiva que se espera de quem “sabe o seu lugar”. O lugar deles era ali. Pareciam 20 estudantes negros do Santa Cruz durante uma viagem de campo – mas aposto que se procurarmos entre todos os alunos do Santa Cruz, da primeira série ao terceiro colegial, não encontramos 20 negros. (Não é um problema do Santa Cruz. Eu nunca tive um colega negro na minha classe, do maternal ao terceiro colegial, nos colégios particulares em que estudei.)

Meu estranhamento durou uns dois segundos, no terceiro eu vi uma mala esportiva com o escudo do Corinthians e entendi o que estava acontecendo. Aquele era o time sub 17 ou sub 15. Aqueles eram os raros eleitos que por meio do futebol, da música, de outros esportes ou artes em que não se requer educação formal, conseguem ascender socialmente.

Perceber que se tratava de um time de base me deixou triste. Primeiro, porque eram a exceção que confirma a regra – não uma súbita revolução social, econômica e cultural que houvesse acontecido enquanto eu descia do quarto para o térreo. Segundo, porque boa parte daqueles garotos não vai chegar ao futebol profissional. Após uma década de esforços, de vitórias, de médico bom e dentista bom e lobby de hotel bom e orgulho das próprias conquistas, eles vão ficar na borda de algum funil e terão de se adaptar à vida que o país reserva pra quem nasce pobre e preto. Vão bater na trave e sair pela linha de fundo. Pela porta dos fundos.

Por dois segundos, eu vi um Brasil que havia superado a escravidão dos negros e o extermínio dos índios e dado chances iguais para todo mundo; não este país que faz pacto atrás de pacto através dos séculos para manter inalterada a nossa catástrofe. Era um país bonito.



01 de abril de 2017 | N° 18808
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

AFETO É PLANTAÇÃO


Que o afeto crônico é o melhor antídoto para a indiferença, todo mundo sabe. Quando propus, numa mesa redonda na TV sobre como criar filhos amorosos, o uso precoce e contínuo da massagem como forma de recrutar o carinho permanente das crias, fui encarado com uma mistura de surpresa e pouca fé. Argumentei que um filho massageado desde a infância, no mínimo, terá mais dificuldade de se rebelar contra um pai cuja lembrança esteja associada à reminiscência mais antiga de alguém encantado com a maciez da sola do seu pé, ainda bebê. A massagem, por tudo que representa de proximidade, respeito, carinho e intimidade, devia constar nesses tantos manuais que pretendam ensinar jovens pais a se tornarem amados definitivos.

Quando a Jurema, uma paciente antiga, marcou uma consulta, pensei que pretendia fazer uma avaliação tardia de um câncer de pulmão que operara lá no final dos anos 1990. Ao lado dela, muito sério, acomodou-se o Rodrigo, um jovem de uns 18 anos, com uma cara bonita, que não conseguia disfarçar a ansiedade. Quando a mãe começou a rememorar a nossa relação, ele pressionou:

– Mãe, conta logo!

–Desculpe, doutor, eu sei que o senhor tem muitos pacientes para atender, e para lhe agradecer uma coisa importante que aconteceu na nossa vida e não lhe atrapalhar, marquei esta consulta. Felizmente, estamos sem doença na família e a última revisão que fiz há uns oito meses mostrou que está tudo bem.

–Mãe, não enrola.

– Desculpe, doutor, mas o Rodrigo era meio rebelde e eu fiz questão que ele viesse junto para lhe dizer o quanto o senhor nos ajudou sem saber falando aquelas coisas na televisão. Naquela noite, ele voltou tarde para a casa e, em vez de reclamar pois ele não cumprira o horário combinado, resolvi fazer um teste e disse: meu filho, sente aqui, que quero te mostrar uma coisa interessante que aprendi hoje. Primeiro sentado, depois esparramado no sofá, eu pude massagear-lhe as costas até que ele dormiu. 

No dia seguinte, durante o café, perguntei: “E aí, gostaste da massagem?”. “É, foi legal, mas acho que a minha namorada vai fazer melhor!”. Não me incomodei com a provocação, porque fazia muito tempo que o bom dia não vinha acompanhado de um beijo e isso, para o primeiro dia, já me pareceu demais. Nem vou perguntar para o Rodrigo quantas namoradas ele teve desde então, porque foram muitas, mas depois de um tempo, ele acabava dizendo que tinha saudade da minha massagem, e aquilo me dava uma alegria!

Terminada a consulta, emocionados, nos despedimos, mas a surpresa nos aguardava na porta: – Eu sei que a minha velha teve um câncer. Então, muito obrigado por ter salvado a vida dela. Nunca lhe confessei, mas nenhum dos meus amigos tem uma mãe carinhosa como a minha.

E saíram enganchados com muito amor pendurado naquele abraço. Nem disse para Jurema que os nossos filhos sempre descobrem alguém que os massageie melhor do que nós, mas que não devia desanimar, porque logo chegam os netos e tudo recomeça. Ela vai descobrir, então, que esses trazem uma doçura para compensar todas as asperezas da vida. Um dia desses, o Zé Eduardo, que circulara pelo colo da mãe e do pai, de repente, anunciou: “Agora vou ficar com o meu avô, porque a massagem dele é mágica!” A Jurema nem sonha que o seu o ciclo de afeto está só começando.

sexta-feira, 31 de março de 2017


Jaime Cimenti


Se 

você consegue acordar cedo com as palavras e notícias catastróficas metralhadas pelos radiojornais e telejornais e levantar da cama; Se você mais uma vez desistiu de fugir dos bandidos e se mandar de mala e cuia para o Uruguai (muito frio), Miami (muito caro), Rio de Janeiro (muita violência), Portugal, Austrália, Nova Zelândia (muito longe), Canadá, Suécia, Dinamarca ou Noruega (caríssimo); Se você tem esperança profissional brasileira de que a Lava Jato é eficiente e duradoura como um eletrodoméstico nórdico e que não vai ser lavada e tornada obsoleta por alguma anistia tipo aquelas de parlamento italiano, que sujaram as mãos limpas;

Se você acha que ainda existe alguma verdade, alguma ética e que é possível revogar a Lei de Gerson e dar uma limpada geral na política, na economia e nos poderes públicos; Se você acha que dá para controlar muuuuuuitooo a corrupção, o propinoduto e as demais tretas e aplicar o dinheiro em saúde, educação e segurança;

Se você acha que a gente vai conseguir pensar mais no coletivo e não só nos interesses individuais, pensar um pouco mais no que pode fazer pelo País e não só no que o País pode fazer por nós, pensar que estamos no mesmo barco, no meio da tempestade; 

Se você acha que podemos aproveitar melhor nosso potencial turístico, nossas riquezas naturais, nossas qualidades pessoais e nossa rica e diversificada cultura; Se você acha que surgirão novos e bons líderes e partidos políticos, com propostas de união nacional em torno de interesses públicos verdadeiros; Se você acha que os administradores públicos conseguirão gastar bem o que tem e não gastarão o que não têm;

Se você acha que as pessoas obterão empregos, conseguirão poupar, não gastar o que não têm e observar o que fazem cidadãos de outros países, em termos de vida, consumo, hábitos e ideias; Se você ainda tem capacidade de sonhar e achar que sonhos se tornam realidade, ouvindo Pixinguinha, Villa Lobos, Tom Jobim, Ary Barroso, Chico, Gil, Caetano e tantos outros; 

Se você acha que é possível desarmar os bandidos, para não precisar armar os cidadãos e que é possível dar um jeito na criminalidade e deixar de viver com medo de sair para a rua e enfrentar a roleta-russa cotidiana das calçadas; Se você acha que é possível melhor entendimento entre as forças do capital e do trabalho e debate sereno, transparente e real sobre as questões da previdência social;

Se você acha que é possível, seguindo o modelo sueco, um País com menos ou sem excelências, privilégios, gastos públicos controlados, pompas e circunstâncias reduzidas, término de almoços e jantares PJ (pessoa jurídica) e PP (poder público), auxílios esquisitos, cartões de crédito corporativos e outros penduricalhos; Se você acha que é possível um teto para remunerações públicas; Se você acha que é possível conversarmos, respeitadas as diferenças e juntarmos, todos, os cacos desse Brasil fraturado, para bem de todos e para bens dos que ainda vão nascer;

Bom, aí então és um brasileiro consciente, esperançoso, realista e que, junto com os demais, pode tentar dar um jeito no que está aí. a propósito... Vêm aí as eleições. Tomara que na reforma política - aquela que não sai nunca - os parlamentares ouçam e respeitem os eleitores. Respeito, liberdade e democracia são ótimos e os cidadãos agradecem.

Há quem não queira votar em quem já está no poder. Há quem queira - parece que são milhões - renovar para valer e dar um solene cartão vermelho para os representantes que não os representam. Há cidadãos que já estão saindo no braço para cima de parlamentares em aeroportos. Violência não é bom para ninguém. Os políticos devem se dar conta que a cordialidade, o caráter lúdico, a ginga e a paciência dos brasileiros acabaram. 

Todos esperam que eles se toquem. Ou então serão tocados para fora. Ainda é tempo de eles ouvirem a gritaria das ruas.   

- Jornal do Comércio - (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/554490-estranhas-memorias-de-porto-alegre.html)

Jaime Cimenti

Estranhas memórias de Porto Alegre 

Há quem diga que Porto Alegre ainda é uma província, uma açoriana tímida. Os mais críticos falam que é uma carroça. Porto Alegre sempre cultivou lendas e histórias, inventadas ou não, e sempre gostou de apelidos e nomes pitorescos para ruas e becos. 

Quem não lembra das histórias da noiva abandonada no altar da Igreja Santa Terezinha depois da delação de alguém ou da casa de gays masculinos na zona Sul? O livro 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre (Libretos, 216 páginas, R$ 34,00), do consagrado e premiadíssimo jornalista e escritor Rafael Guimaraens, autor de Tragédia da Rua da Praia e A Dama da Lagoa, entre outros 15 livros publicados, justamente trata da alma de Porto Alegre, de suas estranhas histórias. 

Os 20 relatos misturam drama, romance, tragédia, memória, jornalismo e teatro, envolvendo personagens reais e cenários, incluindo locais que não existem mais. O trabalho é resultado de mais de uma década de pesquisas históricas e o autor, que já tem uma extensa obra dedicada à memória da cidade, utilizou toda sua vasta experiência e ótimo faro jornalístico para a seleção destas histórias. 

Segundo Guimaraens, as histórias são diferentes, mas guardam a estranheza que provocam nos leitores como fator comum. Narrando o suicídio de Honorina, viúva de Júlio de Castilhos que não suportou a dor causada pela morte do marido depois de 20 anos de vida em comum, o autor envolve o leitor, torna-o cúmplice. Ela se suicidou com um fogareiro, na antiga residência da família, onde hoje funciona o Museu Júlio de Castilhos. 

O dramático caso de amor entre o compositor erudito José de Araújo Vianna e a cantora e pianista Olinta Braga; o surgimento da mística em torno da moça assassinada que virou Maria Degolada, santa popular; e a maldição da Negra Inácia, que foi acusada de feitiçaria e assassinada pelos patrões, estão entre as narrativas do volume. Guimaraens utiliza formas narrativas e estilos diferentes para mostrar aspectos da memória de Porto Alegre, sem preocupar-se com juízos de valor ou avaliações morais. 

Os episódios marcantes e trágicos da encenação da peça Roda Viva em nossa cidade, em pleno período de anos de chumbo, de censura e violência, e a espetacular fuga da Ilha do Presídio a bordo de duas panelas, igualmente revelam facetas esquisitas de nossa Porto Alegre. Streep-tease no Bar Novidades; e O incrível sumiço do chefe de polícia estão também no livro, contados com inventividade e criatividade, mas com respeito à verossimilhança e à honestidade, próprios da boa literatura e do jornalismo de qualidade. 

Com mais esta ótima contribuição, Rafael Guimaraens com suas narrativas saborosas, mostra nossas memórias estranhas e nos faz compreender melhor esta cidade e seus habitantes. 

lançamentos 

A última camélia (Novo Conceito, 304 páginas), de Sarah Jio, autora de Neve na primavera e As violetas de março, best-sellers do N.Y. Times, narra sobre a última espécie de uma camélia rara e Flora, jovem americana que vai tentar obter a flor, numa mansão inglesa. 

Um amor e crimes estão se juntam na busca. Anotações de meu diário: um lema - hei de vencer (Viapampa, 248 páginas), de Vilson Ferretto, advogado consagrado, escritor e ex-vereador de Uruguaiana, revela décadas de uma vida intensa e produtiva, em páginas de um diário iniciado na juventude, em 1953. 

De menino nascido na roça, de família modesta, Vilson vive trajetória exemplar e inspiradora. Histórias de Taiwan, de Cláudia Presser Sepé, esposa de Yen Ko Chegn, taiwanês, traz nove contos folclóricos do país, que marcaram a infância e juventude de Yen. A obra conta com fotos feitas pelo casal e ilustrações de Cremilda Lenz Pereira. Lançamento nesta sexta-feira, na Fnac. - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/554490-estranhas-memorias-de-porto-alegre.html)