sábado, 27 de novembro de 2021


27 DE NOVEMBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

TRATAMENTO PRECOCE EFICAZ, SEM CLOROQUINA, PODE NOS LEVAR A OUTRA ERA

Vou dar uma notícia boa, alvissareira, como dizia minha avó: estamos perto de um tratamento precoce para impedir que a covid se agrave.

Entre nós, o uso político da cloroquina, apresentada como droga milagrosa no combate ao coronavírus, desviou a atenção da possibilidade de surgirem antivirais capazes de evitar que a doença se agrave.

Insistir no famigerado kit covid, depois que todos os estudos metodologicamente bem conduzidos demonstraram que cloroquina e ivermectina não passaram de tentativas infrutíferas, é coisa de médicos despreparados, gente desinformada ou espertalhões com interesses subalternos.

A confusão política armada nessa área, no entanto, não impediu que a indústria farmacêutica testasse drogas que pudessem ser indicadas nas fases mais iniciais da infecção.

Você, caríssima leitora, poderá argumentar que o vírus da gripe está entre nós há séculos, sem que tenhamos antivirais realmente eficazes contra ele. Por que não seria assim com o SARS-CoV-2?

Porque na gripe o quadro já se instala com todos os sintomas: dor de garganta, febre, dores musculares, fraqueza, perda de apetite etc. Os primeiros dias são justamente os piores, você começa a melhorar por conta própria depois do terceiro ou quarto dia, não daria tempo de o medicamento interferir com a evolução.

Já a infecção pelo coronavírus oferece uma janela de oportunidade: a instalação é mais insidiosa, é raro alguém precisar de internação nos primeiros dias. Os sintomas costumam piorar no fim da primeira semana, mesmo nos casos graves. Por falta de uma, surgem agora duas medicações com atividade documentada na fase inicial da doença.

Uma delas é o molnupiravir desenvolvido pela Merck, uma molécula capaz de se incorporar à informação genética do vírus, provocando mutações que interrompem sua multiplicação. No mês passado, a companhia anunciou que um esquema de cinco dias de tratamento, administrado logo após o início dos sintomas, reduz em 50% o risco de hospitalizações.

A preocupação dos especialistas é com a possibilidade teórica de aquisição de mutações que possam facilitar o aparecimento de cepas virais resistentes ou mais contagiosas. Como até o momento não há evidências desse efeito indesejável, o Reino Unido aprovou a indicação do molnupiravir para as pessoas com risco aumentado de complicações da doença. É a primeira medicação oral aprovada para impedir a progressão para as formas graves da covid.

A outra pertence à classe dos inibidores de protease, drogas dotadas da propriedade de inibir a ação de uma enzima essencial para a multiplicação de diversos vírus, que revolucionaram o tratamento da aids.

O primeiro ensaio clínico com esse inibidor foi realizado com pacientes não vacinados, em que os sintomas tinham se instalado no máximo havia três dias. Os participantes foram divididos ao acaso em dois grupos: placebo versus cinco dias do medicamento. Todos tinham pelo menos um fator de risco para as formas mais graves da doença.

O grupo de pesquisadores independentes encarregado de acompanhar os dados suspendeu o estudo precocemente, porque os resultados entre os que receberam a droga foram tão superiores que seria antiético prosseguir com ele.

Embora parciais, os números divulgados pela Pfizer são contundentes: das 389 pessoas tratadas a partir dos três primeiros dias da instalação dos sintomas, apenas 3 (0,8%) foram hospitalizadas, contra 27 (7%) no grupo placebo.

Num estudo paralelo, o antiviral foi iniciado pouco mais tarde: nos cinco primeiros dias após o aparecimento dos sintomas. Dos 607 pacientes tratados, apenas 6 (1%) foram hospitalizados, contra 41 (6,7%) entre os 612 do grupo placebo.

No total, ocorreram 10 mortes no grupo placebo; zero no grupo do medicamento.

A Pfizer já iniciou estudos em pacientes sem fatores de risco, bem como em contactantes que dividem a casa com alguém infectado. A companhia está para apresentar esses resultados ao FDA, o órgão americano correspondente à nossa Anvisa.

Se esses e outros antivirais forem lançados a preços acessíveis, tudo indica que vamos entrar em outra era. A pandemia será controlada quando vacinarmos o maior número possível de pessoas e tratarmos precocemente com medicamentos eficazes as não imunizadas e as que foram infectadas apesar da vacinação.

DRAUZIO VARELLA

VIVA O TESÃO!

Muita gente me escreve dizendo que perdeu o tesão, tanto no sentido figurado como literal nesses tempos difíceis. E como disse Roberto Freire, décadas atrás, "Sem tesão não há solução".

Naquela época, a discussão era outra. O tesão se opunha ao moralismo, à hipocrisia e repressão. Era o desejo libertário de ir contra valores impostos por uma sociedade fechada, especialmente para as mulheres. Imagine que ser desquitada era um ostracismo social que condenava apenas a mulher.

Hoje, a questão é vencer um desânimo generalizado, uma exaustão, um cansaço de lutar contra o noticiário assustador cotidiano e assistir de uma forma desconsolada o cenário da nossa indignação. Essa realidade dura e embrutecida nos rouba a vitalidade e tenta apagar o fogo do nosso estímulo, o entusiasmo que mantém a chama acesa.

Vemos por aí o sexo usado com esse mesmo embrutecimento truculento, um tesão distorcido associado a um comportamento de vulgaridade que resulta em brutalidade e violência. E não podemos nos identificar com isso.

Sinto que precisamos urgentemente resgatar a beleza do desejo. O tesão de viver, a maravilha do erotismo, da sensualidade, a delícia do sexo natural da vida. Descobrir dentro de nós o que isso significa e em qual fase estamos e saber respeitar nosso momento.

A energia sexual é uma força da vida. A nossa pedra filosofal que nos transforma com seu prazer e sua alegria. Tesão é um misto de bom humor e uma doce loucura que faz um bem danado. Preste atenção: troque tensão por tesão.

Tesão não significa apenas transar. Na verdade, é compreender que a força vital do sexo representa a chave da nossa libertação. Quebramos nossas amarras com essa energia. Descobrimos a auto estima e o poder do sagrado feminino.

Mesmo quando nos sentimos distantes da ideia da sensualidade, mesmo em casa, de pijama, cara lavada, querendo colo, sopa e consolo, a energia sexual está dentro de nós adormecida. Nem sempre precisa ser sexo desvairado, pode ser só carinho, pequenos gestos de ternura, de cuidado.

Você pode transcender, sublimar, estar em outra, ter interesses variados, não importa. Respeite seu momento e seu sentimento. Passamos por ciclos, períodos, mudanças e cada tempo tem sua descoberta e sua beleza.

Sejam quais forem suas circunstâncias, é sempre tempo de reacender o tesão de viver que jamais se apaga completamente. Mesmo que esteja esquecido, escondido, mesmo se o coração estiver machucado, tudo o que vivemos foi importante pra escrever a nossa história.

O amor é a nossa força renovadora, o verdadeiro elemento alquímico que nos liberta. Que nos tira do casulo que nós mesmos criamos. Muda a estação, uma nova corrente percorre o ar e a gente sente a vibração. Somos movidos a desejo, movidos a paixão. Essa é a nossa verdadeira natureza.

"L?amor che move il sole e l?altre stelle", escreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia. O amor nos conecta a tudo e move todo o universo. É hora de despertar o amor que começa dentro de nós, deixar irradiar sua luz que nos transporta.

BRUNA LOMBARDI 


27 DE NOVEMBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

DE NOVO E SEMPRE, A ESPERANÇA

O condicionamento humano à prática da esperança é surpreendente na saúde e comovente na doença. A nossa relação com a esperança na vida cotidiana é muitas vezes ilógica e envolve escolhas absurdas, resultando em frustrações que quem olhasse à distância as consideraria previsíveis. É assim na vida sem propósito definido, nos empreendimentos que exigem determinação e coragem indisponíveis, nas relações pessoais com afeto comedido e nas promessas sem convicção.

E tudo se repete nas expectativas irracionais de que os toscos, quem sabe se comovidos pela dor dos outros, mostrem alguma empatia, que os jovens um dia se convençam que os velhos sabem mais por mais terem vivido, que os corruptos com currículo riquíssimo tenham um surto inesperado de decência, a até que ex-atletas com históricos brilhantes sejam milagrosamente ressuscitados para salvar nosso time e justificar o esforço de quem os contratou a peso de ouro.

Quando o exercício da frustração se generaliza, minando a alegria que tem geração espontânea na esperança de que tudo vai melhorar, de repente nos descobrimos tristes. E de tanto não dar certo, nos deprimimos. Nada de surpreendente que a letargia se transforme nessa doença inominada que enruga a pele, retira o brilho do olho, diminui a libido, produz dores itinerantes, coloca cabelos onde não têm utilidade, encurva a coluna e aumenta o perímetro abdominal.

O quanto esse estado de espírito é classificável como doença depende dos critérios e das exigências de quem os acolhe, e com que tolerância. A maioria das pessoas, pachorrentas na mesmice, agradeceria se as pessoas simplesmente não se importassem tanto com elas, ou seja, que parassem de chatear.

Um degrau acima nesse conflito entre o que nos enfara sem ameaçar-nos de verdade e a descoberta súbita, e sempre sentida como extemporânea, de uma peste qualquer que possa por um fim à nossa vida muda tudo. Porque, afinal, mesmo que o portador tenha noção do quanto a sua vidinha é monótona e chata, outra não lhe restou, por falta de sorte ou preguiça.

Também por isso, quando uma doença grave dá as caras, fé, promessa e esperança se misturam tanto que até a espera de um milagre parece bem razoável. Ou como me disse um ranzinza: "Claro que acredito em milagre, porque, se não, como explicar tanto santo por aí, se precisam de dois ou três milagres para canonizarem o vivente?".

A Marina tem um tumor enorme entre os pulmões, inoperável a menos que tenha uma resposta incomum à combinação de químio e radioterapia. Com o início do tratamento e aparente redução da lesão, o discurso adensou: "Minha relação com Deus ainda vai produzir surpresas maravilhosas. Pode crer".

Que Deus nos ajude para que a certeza esperançosa que Ele plantou se confirme.

J.J. CAMARGO

27 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Quero ser Tex Willer

Uma vez, um medicamento que eu tomava fez as minhas sobrancelhas mudarem de cor. Elas sempre foram pretas, ou quase pretas, sobrancelhas fortes, tão densas que minha madrinha Sônia às vezes insistia em eliminar a junção delas com uma pinça. Hoje, aquela ponte entre as duas sobrancelhas não existe mais. Minha madrinha fez um bom trabalho.

Eu tinha, e tenho ainda, o hábito de erguer as sobrancelhas. Às vezes uma única, a esquerda. Achava engraçado. Faço tanto isso que fiquei com um sulco no meio da testa, uma rugona profunda, que deriva para a direita, como se fosse a curva de um rio. Minha mãe diz:

- Por que tu não faz um botox?

Eu: - Nunca! NUNCA! Um homem tem de envelhecer com alguma dignidade.

Não é preconceito, entende? É que não combina com a minha personalidade. Você precisa manter coerência na sua vida. É por isso que não pedia o chocolate Lollo no bar da redação da Zero Hora. Ficava imaginando a cena: eu chegando ao bar, fincando o cotovelo no balcão e rosnando:

- Me dá um Lollo!

Não, não, esse não sou eu. Nada contra o chocolate Lollo nem contra seus apreciadores, mas o que quero, ao entrar num bar, é fazer como faziam Tex Willer e Kit Carson depois de irromper num saloon do Texas. E ordenar:

- Estalajadeiro! Me veja uma boa bisteca e uma montanha de batatas fritas! E, para tirar a poeira da garganta, uma grande caneca de cerveja!

É o que vou comer todo este fim de semana, por Manitu!

O que estou dizendo é que você faz uma imagem de si mesmo, baseada na sua própria história, e você só conseguirá ser íntegro se não macular essa imagem. Que imagem é essa? Depende de você. Você se sente autêntico usando calças legging cor de abóbora? Pois use! O que não pode é você fazer algo em confronto com a sua autoimagem. Aí você fratura a sua personalidade, fica cheio de problemas e vai gastar uma fortuna com psicanalistas.

Acontece que, bem, as minhas sobrancelhas mudaram de cor. Clarearam, ficaram loiras. É óbvio que isso não iria me causar trauma algum, era algo fora do meu controle, mas eu detestava aquelas sobrancelhas pálidas. Não era eu, compreende? Não era eu!

Evitava me mirar no espelho, quando estava com sobrancelhas alouradas. Não por vaidade, juro. É que eu parecia outra pessoa. Mas, tudo bem, fui em frente, tentando não pensar muito naquilo, até que, um dia, elas começaram a pretear de novo, para júbilo meu. Não voltaram a ser negras como eram, mas pelo menos não estavam mais loiras.

Pensei muito nisso, nesta semana, porque, no Timeline, da Gaúcha, falamos sobre mulheres que perdem os cabelos no tratamento contra o câncer. Compreendo o sofrimento delas. Imagine uma mulher que cultiva com tanta dedicação aquelas melenas que lhe descem quase até o meio das costas, ela passa cremes, ela leva duas horas no banho, e depois tem de se ver careca. É uma dor. Admiro quem faz o gesto singelo de doar cabelo a fim de que sejam confeccionadas perucas para mulheres em quimioterapia. É um grande bem que essas pessoas fazem.

Você tem de se esforçar para preservar sua autoimagem, mesmo que ela seja o reflexo de um personagem idealizado. Lembro sempre do Bukowski. Uma vez, ele estava discutindo com uma namorada e ela disse algo que o ofendeu. Ele gritou:

- Como você pode dizer isso? Eu sou Bandini! Eu sou Arturo Bandini!

Referia-se ao imortal protagonista dos romances de John Fante. Bukowski queria ser Bandini. Eu, Tex Willer. Assim neste final de semana beberei um bom uísque de milho e comerei bistecas com uma montanha de batatas fritas. Cáspite! Preparem-se, estalajadeiros!

DAVID COIMBRA

27 DE NOVEMBRO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

O BEIJO

Em qualquer idioma, beijo significa a forma mais profunda de amor, seja ele terno ou erótico. O beijo aproxima e faz com que dois se tornem apenas um, integrados entre si. Foi talvez assim que deram àquela boate de Santa Maria o nome de Kiss, que é beijo em inglês, compreensível até a quem não fale inglês.

O beijo da Kiss, porém, foi mortal, numa mortandade traiçoeira que convidava a uma atração ou relaxamento de corpo e mente, mas que, de fato, era horror. Daqui a alguns dias, em 1º de dezembro, após quase nove anos de protelações, será julgado o crime que matou 242 jovens e deixou sequelas físicas ou psicológicas em 636 outros.

O júri, porém, não será em Santa Maria, mas na Capital, como se a cidade do crime não tivesse sido afetada, também, pela tragédia.

É impossível falsificar a verdade e qualificar o crime de mero "acidente" em que o horror foi obra do acaso. A madrugada de 27 de janeiro de 2013 na Kiss foi criminosa em si. Tudo havia sido disposto para um beijo de morte e terror. Vale relembrar o descaso e desdém com que os donos da boate trataram a segurança dos frequentadores, encerrando todos eles numa infernal ratoeira humana.

A brutalidade de janeiro de 2013 não se extingue nesse dezembro de 2021. Ao contrário, permanece escancarada nos depoimentos dos réus publicados por este jornal, dias atrás. De fato, nenhum deles assume sequer as responsabilidades, menos ainda as culpas pela tragédia.

Tratam a morte de 242 pessoas como se fosse uma rixa banal, quando se tratou de um crime fundado na cobiça. Ou o que foi quando truculentos "seguranças" impediram a tapas que os clientes se salvassem do fogo por não terem pago a conta?

Para os donos da boate, o dinheiro valia mais do que a vida? A rede que levou ao crime é extensa. Um dos donos da Kiss alega, até, que forrou o teto com inflamáveis placas de "isopor" só para aliviar o ruído.

O minucioso inquérito policial foi abrandado pelo Ministério Público e, agora, os réus se limitam aos donos da boate e membros da banda. Bombeiros e funcionários da prefeitura que concederam o alvará não são réus, mesmo que sejam parte da teia do crime.

Na Amazônia, no extremo norte do país, o Rio Madeira está sendo revolvido (e seu leito destruído) por dragas de garimpeiros em busca de ouro. Trata-se de outro crime, tão brutal quanto o desmatamento.

Quando substituiremos a cobiça por um beijo terno na natureza?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

27 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A CRISE DO TRANSPORTE PÚBLICO

Serviços públicos, por definição, são aqueles destinados a suprir as demandas básicas da população. Podem ser prestados pelo próprio Estado ou delegados. É função de todo gestor, eleito ou indicado para funções decisórias, trabalhar para que sejam assegurados aos usuários com qualidade e a custos justos, mas remunerando de maneira adequada os concessionários, quando a atividade estiver a cargo de empresas privadas, em nome da sustentabilidade do sistema. 

São exatamente estas condições que estão desafiadas hoje no transporte coletivo urbano, que atravessa uma crise que se arrasta há alguns anos em Porto Alegre, outras cidades gaúchas, como Caxias do Sul, e na esmagadora maioria dos mais populosos municípios do país. Os desequilíbrios, com queixas de passageiros e prestadores, têm soluções complexas e que provavelmente não estão apenas ao alcance das prefeituras.

O sistema convive com problemas que se realimentam. Há perda de passageiros, tanto para o transporte individual quanto para os aplicativos. Essa evasão reduz a receita das empresas, o que se reflete na qualidade do serviço e na renovação inadequada da frota. Do outro lado, há grande pressão dos custos, especialmente dos combustíveis, que naturalmente as empresas tentam repassar às tarifas, o que gera mais insatisfação dos usuários e conflitos a cada processo revisório. 

Como o principal propósito dos serviços públicos é atender em primeiro lugar a população, todas as medidas que visem cortar custos, com o objetivo de segurar os preços das passagens em valores razoáveis, devem ser implementadas. Mesmo que gerem naturais resistências. O encarecimento do diesel ao longo de 2021 agrava o quadro e promete tensionar as negociações em torno da definição das tarifas no próximo ano.

Na busca de saídas, além dos repasses emergenciais às empresas para não deixar as tarifas subirem mais, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, conseguiu aprovar na Câmara medidas como a privatização da Carris, a extinção gradual - para minimizar traumas - da função de cobrador até o final de 2025 e a revisão de uma série de isenções. Não há milagre. Se alguém deixa de pagar parte da tarifa, os demais usuários acabam onerados, embora manter benefícios seja justo para certos grupos, principalmente pelo perfil socioeconômico mais baixo ou com necessidades específicas. 

Estudantes carentes, por exemplo. Mas é preciso recordar: parte destas medidas foi proposta pelo prefeito anterior, Nelson Marchezan, que acabou derrotado no Legislativo. Ao fim, perdeu-se tempo na implementação de soluções, enquanto o serviço continuou a se deteriorar, prejudicado ainda mais pelos reflexos da pandemia, que diminuiu drasticamente o números de passageiros nos últimos anos anos.

Parece claro que o colapso dos serviços de mobilidade urbana só será evitado se existirem receitas extra tarifárias. Mas algo estrutural, e não paliativo. Não prosperaram as ideias de Marchezan de taxar aplicativos ou criar pedágios urbanos para subsidiar as passagens. Agora, Melo propõe criar uma loteria municipal para este fim ou reajustar os preços dos estacionamentos na área azul da cidade. Não há porque se interditar o debate em busca de respostas objetivas para a crise, mesmo controversas ou que contrariem interesses localizados. 

Mas as saídas também possivelmente passam por um uma colaboração federal e pelo apoio possível dos Estados. Dirigentes da Frente Nacional de Prefeitos estiveram na quarta-feira em Brasília para agendas com o Executivo e o Congresso. Prometem retornar dia 8 de dezembro. A entidade pleiteia algum tipo de subsídio, como um fundo emergencial que socorra o transporte público e a desoneração dos combustíveis para o setor. O inequívoco é que o tempo está se esgotando e a ruína do sistema, se não existirem ações articuladas e complementares, é iminente.


27 DE NOVEMBRO DE 2021
POLÍTICA +

Todo o cuidado é pouco nos aeroportos

Com a variante Omicron assustando o mundo e os países mais precavidos fechando suas fronteiras para viajantes da África e proibindo viagens de seus cidadãos, o governo não poderia fazer ouvidos moucos às recomendações da Anvisa. No final da tarde, o ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, informou que a partir de segunda-feira o Brasil fechará as fronteiras aéreas para seis países da África (África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue).

"Vamos resguardar os brasileiros nessa nova fase da pandemia naquele país. Portaria será publicada amanhã e deverá vigorar a partir de segunda-feira", escreveu Nogueira.

Só fechar as fronteiras para esses seis países da África poderá ser insuficiente. Nada garante que o vírus não tenha se espalhado para outras regiões (Bélgica e Israel confirmaram um caso cada um). O óbvio, dizem médicos envolvidos desde 2020 com o combate à pandemia, seria exigir passaporte vacinal e testar todos os recém-chegados a qualquer aeroporto, porto ou fronteira terrestre. Se a situação se agravar, impor quarentena aos visitantes ou brasileiros que regressam do Exterior.

No início da pandemia, o vírus entrou no Brasil pelos aeroportos, trazido por turistas ou por brasileiros que passaram as férias no Exterior, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. À época não se tinha vacina nem conhecimento acumulado para evitar a proliferação do vírus. Culpa-se o Carnaval, mas, mesmo que as festas tivessem sido canceladas, o coronavírus teria chegado de qualquer forma.

Com o que se sabe hoje, é possível reduzir as chances de que essa variante detectada primeiro na África do Sul se espalhe pelo Brasil. Aeroportos, portos e fronteiras terrestres são pontos de atenção. Quem faz essas recomendações é a Anvisa, o órgão do governo brasileiro responsável pela vigilância sanitária.

A Anvisa não manda, sugere. O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, passou o dia dando entrevistas e alertando para a necessidade de medidas imediatas.

A secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann, disse que a nova variante preocupa muito as autoridades do Rio Grande do Sul:

- Estamos melhor preparados tecnicamente para enfrentar uma possível nova variante, mas as precauções devem ser tomadas. Temos população vacinada, rede assistencial constituída, temos testagem, equipes treinadas, vigilância genômica para identificar o mais rápido possível a presença da nova variante, mas o Brasil precisa fechar o ingresso de pessoas dos países onde se constatou o vírus. No mais, é seguir rastreando todas as possíveis mutações do vírus.

ROSANE DE OLIVEIRA

27 DE NOVEMBRO DE 2021
MARCELO RECH

Lula precisa escolher o lado

Como a devoção às democracias será um tema central da próxima campanha eleitoral, o favorito nas pesquisas precisa se decidir. Ele entende que há ditadura boa e ditadura ruim? Ele tem apreço por ditadores, desde que de esquerda? O que ele vê de bom nos sistemas políticos e nos governantes de Venezuela, Cuba e Nicarágua?

A pré-candidatura de Lula à Presidência está repleta de furos em um telhado de vidro, a começar por sua promiscuidade com empreiteiros que cresceram à sombra da corrupção na Petrobrás. Outro fantasma que seguirá o assombrando em debates e entrevistas é a hipótese de que, apesar do figurino social-democrata que tenta vestir para buscar o voto de centro, Lula representa correntes que, no fundo, acham mesmo que Daniel Ortega está certo em mandar sete candidatos da oposição para a cadeia na Nicarágua porque “são filhos da cachorra do imperialismo ianque”.

Lula pode se iludir com o fato de desfrutar de uma ampla base de simpatizantes que o aplaudem em quaisquer circunstâncias. Jair Bolsonaro é frequentemente ovacionado em suas andanças – mas essas manifestações não concedem ao presidente o direito de se associar a governos totalitários, intimidar opositores e a imprensa ou falar asneiras impunemente. Como líder nas pesquisas e potencial futuro ocupante da Presidência, Lula, portanto, também tem de dar muitas explicações sobre suas convicções e conexões, o que inclui as ditaduras esquerdistas da América Latina.

Para além dos contorcionismos verbais, no que é um mestre, Lula precisa esclarecer até onde vai sua ligação com o castrismo em Cuba e o chavismo na Venezuela. Vá lá que Lula e a namorada tenham escolhido Havana, onde gravaria um documentário, para passar o Réveillon passado – e lá tenha sido diagnosticado com covid, aliás. Ou que os contribuintes tenham bancado R$ 163 mil dessa viagem. 

O custeio oficial do tempo livre de ex-presidentes devia ser revisto, mas, por enquanto, é seu direito curtir a vida usando dinheiro público. Também não seria o caso se imiscuir nas admirações platônicas do cidadão Lula com regimes de força. Trata-se de entender a profundidade da relação de um potencial futuro presidente com ditaduras, até porque os governos petistas usaram e abusaram dos cofres estatais para solidificar os vínculos com os governantes de Cuba e Venezuela.

Uma coisa é manter relações diplomáticas com autocracias – a África, o Oriente Médio e a Ásia têm constelações delas – e o Brasil não pode deixar de fazer negócios nestes países. Outra, bem diferente, é dar apoio político e econômico a déspotas, sejam eles de esquerda ou direita, endossando torturas, prisões políticas, censura à imprensa, proibição de manifestações e deportação de opositores. Com ditaduras não há meio termo. De que lado Lula ficará?

MARCELO RECH

27 DE NOVEMBRO DE 2021
J.R.GUZZO

Quatro meses de espera

Caminha para o seu desenlace, enfim, mais um episódio miserável na vida pública brasileira: a sabotagem comandada pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, durante quatro meses seguidos, contra a apreciação do nome indicado pelo presidente da República para ocupar a vaga existente no Supremo Tribunal Federal.

Algum dos marechais-de-campo das “instituições”, esses que vivem dizendo que Senado, STF, o “regimento interno” e o resto da banda são entidades sagradas e intocáveis, seria capaz de dizer o que o interesse público ganhou com essa palhaçada? É claro que não. O atraso na votação do novo ministro foi apenas uma aberração – mais uma, na longa sucessão de agressões diretas ao Estado Democrático que a falsa legalidade tem feito em todos os níveis no Brasil de hoje.

A democracia brasileira, cada vez mais, é um objeto de curiosidade. Para o ministro Alexandre Moraes e o seu inquérito ilegal sobre “atos antidemocráticos”, ela está ameaçada de morte por cantores de música caipira, motoristas de caminhão e candidatos de “direita”. Mas um político sozinho, por rancores e interesses puramente pessoais, pode bloquear por quatro meses, ou quanto tempo quiser, o funcionamento da ordem constitucional. Aí ninguém acha que a democracia está sendo agredida.

O exame pelos senadores do nome indicado para o STF agora vai – ou pelo menos parece que vai. Mas quem pagará pela desmoralização completa do processo de escolha? Quem pagará pelos prejuízos que esses quatro meses de paralisia trouxeram para a máquina pública? O responsável único por esse absurdo, com certeza, não pagará nada. Ninguém paga, nunca.

Como a democracia pode estar sendo defendida, estimulada ou fortalecida pelos quatro meses de atraso na aprovação do novo ministro do STF? O que aconteceu é exatamente o contrário: o uso descarado das regrinhas inventadas pelos políticos para satisfazer a desejos pessoais. O senador “zé” ou o senador “mané” querem isso ou aquilo; o Estado tem se curvar para eles, e o interesse comum que vá para o diabo que o carregue.

Impedir por quatro meses inteiros, sem nenhuma razão decente, que o maior Tribunal de Justiça do país complete o seu efetivo legal não é um “ato antidemocrático”. O que será, então?

J.R. GUZZO

27 DE NOVEMBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O ex-aluno de escola pública que virou referência na Europa

Fila da merenda do Grupo Escolar Anne Frank, década de 70: Ricardo Saltz Gulko aguarda a vez de entregar a ficha mimeografada e de receber, em troca, um cachorro-quente. Esperar, de fato, nunca foi o forte daquele aluno irrequieto, nascido em Uruguaiana e nem sempre entre os mais disciplinados da turma.

A paciência tem mesmo limites. Diante da falta de perspectivas profissionais no Brasil, em meio a uma das tantas crises, decidiu virar imigrante. Desembarcou em Tel Aviv, Israel, em 1988, cheio de esperanças. O começo foi desafiador. Trabalhou como garçom, faxineiro e cuidador, até conseguir um emprego em uma das maiores empresas israelenses, a Amdocs, especializada em sistemas tecnológicos de cobrança.

A partir daí, decolou. Cursou Engenharia Industrial e Informações de Sistemas. Mas faltava o grande sonho: um MBA nos EUA. Foi aceito em Kellogg, uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Tudo certo, menos por um detalhe. Ele não tinha dinheiro. Esperar? Jamais.

Ricardo foi 12 vezes a uma das agências do banco Hapoalim, em Tel Aviv, pedir um empréstimo, sistematicamente negado. Lá pelas tantas, uma das funcionárias ameaçou chamar a polícia se ele voltasse. Ele voltou, é óbvio. E protagonizou um milagre de proporções bíblicas: um financiamento de US$ 150 mil, sem ter garantias nem renda fixa.

Embarcou para os EUA e lá concluiu a sua formação. Desde então, ocupou cargos executivos e liderou projetos em gigantes como SAP, Oracle e Ericsson. Atualmente, trabalha como consultor estratégico para a Samsung. De Munique, na Alemanha, onde mora com a esposa, lidera, com a ajuda da tecnologia, uma equipe que está na Coreia. Ao longo dos anos, se especializou em experiência do consumidor, área focada em melhorar as relações dos clientes externos e dos públicos internos com as empresas. Está, de acordo com revistas e publicações, entre os 50 melhores do mundo.

Em 2020, fundou a Organização Europeia de Experiência do Consumidor, voltada a incentivar as empresas do continente a inovar e a aperfeiçoar as interfaces com seus públicos. Ricardo, porém, continua com o olhar voltado ao Brasil e a Porto Alegre, onde estão as bases do que aprendeu.

- Estudar em uma escola pública foi uma das melhores experiências da minha vida, porque foi no Anne Frank que aprendi sobre a realidade da vida, sobre capacidade de adaptação e sobre respeitar e me relacionar com pessoas diferentes - afirma.

E, sorrindo, canta, meio desafinado, mas com profundo empenho, o hino da velha escola: "O Anne Frank, é nossa casa, que nos dá luz e saber..."

TULIO MILMAN

sexta-feira, 26 de novembro de 2021


26 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

A palavra do ano

Leio que "NFT" foi eleita "a palavra do ano" pelo grupo que publica o Dicionário Collins. Fiquei surpreso. Porque estive por aí neste ano e nunca tinha ouvido tal palavra. Que, aliás, nem é palavra, é uma sigla em inglês para "Non-Fungible Token". Em português, "Token Não Fungível".

Senti-me um pouco aflito ao descobrir o significado de NFT, porque não sei o que é um token, seja ele fungido ou não fungido. O que me parece claro, com essa eleição, é que não é nada bom um token ser fungido. Por essa razão, eu mesmo juro que não fungirei tokens, a não ser que vidas humanas ou a classificação do Grêmio para a Série A dependam disso.

Para falar a verdade, não gostei muito dessa eleição que coroou a NFT. Acho que há outras boas palavras sendo ditas e escritas em 2021. Descobri, inclusive, que há um segundo dicionário, o célebre Oxford, que escolheu "vax" como a grande palavra deste ano. Faz mais sentido do que NFT, porque vax é a gíria inglesa para "vacina".

Aqui, no Brasil, todo ano há palavras que se consagram. Tenho a impressão de que em 2021 foi a expressão "por óbvio". Por que as pessoas começaram a falar "por óbvio" em vez de "obviamente" ou apenas "é óbvio"? Quem foi o primeiro a falar "por óbvio"? Não faço ideia.

O concorrente de "por óbvio" também é curioso. É a palavra "resenha". Trata-se de uma palavra antiga, que, em outros tempos, era usada com comedimento e critério. Se você trabalhasse no Segundo Caderno do jornal, provavelmente teria de escrever "resenhas" de livros. Seu chefe, em algum momento, poderia pedir para você fazer uma "resenha" de determinada obra de arte e, assim, você a descreveria em minúcias. Hoje, porém, resenha virou sinônimo de conversa. "Olha aquela resenha", avisam os narradores de futebol ao ver um jogador conversando com o outro, a mão à frente dos lábios, olhando para os lados, desconfiados. Quando alguém vê um grupo de amigos sentado à mesa do bar, bebendo e rindo, ele se aproxima e comenta:

- Que resenha, hein! Ele está elogiando a conversa que se derrama sobre a mesa. Gosto de pessoas que elogiam conversas. Devíamos fazer mais isso. Depois de um tempo falando com alguém, antes de se despedir, você avaliaria:

- Essa foi uma ótima conversa. Depois, poderia fazer uma resenha do que se passou:

"Começamos com cumprimentos afetuosos tipicamente masculinos, como ?e aí, cafajeste?? e ?tudo bem, canalha?? Depois dessas demonstrações de carinho, seguimos descrevendo com entusiasmo os atributos físicos de algumas amigas e relembrando antigas façanhas amorosas. A história do chiclete nos fez gargalhar. Finalizamos com uma pequena e divertida simulação de altercação por causa de futebol. Pedimos a saideira. Contamos piadas. Pedimos outra saideira. Falamos mal das nossas cônjuges. Pedimos mais uma saideira. Fomos embora nos abraçando e balbuciando: ?Tu é meu irmão! Grande noite?."

É isso aí: resenha é a palavra do ano.

DAVID COIMBRA

26 DE NOVEMBRO DE 2021
ARTIGOS

120 ANOS DE UMA HISTÓRIA DE INOVAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

Ser agente na transformação da sociedade de acordo com a mensagem cristã - essa é a missão da Associação Cristã de Moços do Rio Grande do Sul (ACM-RS), que neste dia 26 de novembro completa 120 anos de existência. Presente em 120 países e considerada a maior ONG de trabalho com jovens do mundo, a ACM-RS conta com 12 unidades no Estado, que abrangem os quatro campos de atuação da instituição: esportes e lazer, ensino, desenvolvimento social e necrópole.

Sabemos que mudanças pessoais e sociais duradouras vêm quando trabalhamos juntos. Com isso, impactamos diariamente milhares de pessoas, em especial crianças e jovens, em programas que buscam garantir que todos - sem distinção de raça, credo ou orientação de qualquer natureza -, tenham a oportunidade de buscar seu aperfeiçoamento pessoal e se tornar alguém capaz de contribuir no crescimento de outras pessoas, gerando, assim, um ciclo de transformação social em suas famílias e comunidades.

De 1901 até hoje, contribuí- mos de diversas formas para o desenvolvimento da sociedade. De forma pioneira, introduzimos o Dia das Mães no calendário nacional, implantamos os acampamentos educativos, criamos o primeiro curso técnico do Rio Grande do Sul e difundimos no Estado a prática de três esportes muito populares entre os brasileiros: o basquete, o vôlei e o futsal - que foram inventados pela ACM em âmbito internacional.

Esta trajetória de inovação, sempre presente nas iniciativas da instituição nestes 120 anos, segue inspirando na busca incessante de avanços. Em 2021, destacamos a construção da maior usina de energia fotovoltaica de Porto Alegre, com o intuito de abastecer nossas sete unidades na capital gaúcha com energia solar - uma opção renovável, limpa e sustentável.

Tudo isso para demarcar o 120º aniversário da ACM-RS com uma promessa: continuar entregando à sociedade gaúcha um legado de saúde, educação, acolhimento e amor ao próximo.

 Presidente da ACM-RS sec@acm-rs.com.br - DANIELA COLUSSI


26 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

DEFESA DA DEMOCRACIA

Mais do que oportunas, são indispensáveis ações que desde já comecem a combater o mal da desinformação, em atenção especialmente ao pleito do próximo ano. É a proteção da própria democracia que está em questão. É exemplar, neste sentido, a resolução do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) de lançar uma campanha destinada a conter a propagação de fake news, prática nociva que ganhou terreno fértil, nos últimos anos, com o maior uso de redes sociais pela população.

Mesmo que agora pareça existir um refluxo, há não muitos meses assistiu-se a um ataque massivo, partindo inclusive da mais alta autoridade da República, que buscava desacreditar o sistema de votação por urnas eletrônicas no Brasil, mecanismo que nunca teve uma fraude comprovada, tampouco suspeitas consistentes. Não se duvide, porém, de que as investidas voltem a ocorrer, à medida que se aproximem as datas das eleições gerais, no próximo ano, com conteúdos falsos e distorcidos criados por milícias digitais e mal-intencionados, muitas vezes até repassados por cidadãos de boa-fé vítimas dos embustes, que inadvertidamente se tornam elos da cadeia viral da desinformação.

A iniciativa do TRE-RS, lançada na quarta-feira, tem como eixo conscientizar e levar a boa informação sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro e da urna eletrônica. É uma forma adequada ainda de estabelecer maiores vínculos de confiança entre os cidadãos e a Justiça Eleitoral, atenta para assegurar a lisura do pleito. 

O fenômeno das fake news, no entanto, é bem mais amplo, e nas últimas eleições o ambiente virtual se transformou na arena preferencial da guerrilha criminosa entre candidaturas e apoiadores, na tentativa de fustigar os adversários. São necessárias, da mesma forma, campanhas que contribuam para que eleitor esteja mais apto para discernir fatos de notícias fraudulentas, conheça fontes confiáveis e, assim, seja capaz de checar e desprezar o joio na enxurrada de informações que certamente receberá ao longo dos próximos meses.

Não será surpreendente se a virulência e os golpes baixos se multiplicarem nas eleições de 2022. Basta observar o patamar de animosidade política vigente, especialmente em nível nacional. Mas cabe à Justiça Eleitoral e demais autoridades envolvidas direta ou indiretamente no processo de escolha dos próximos governantes e parlamentares colocar um freio nesta marcha destinada a causar confusão e conspurcar a democracia. 

Um alerta importante partiu no final de outubro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o aviso de ministros de que a disseminação de notícias falsas e teorias conspiratórias terá desta vez consequências potencialmente graves, como prisões e anulação de registros de candidaturas. A desinformação carrega a ameaça de desvirtuar o voto dos cidadãos, que assim podem deixar de fazer as suas escolhas de maneira livre, por serem decididas a partir de premissas adulteradas. Conscientizar, advertir para inibir estratégias ilegais e subterrâneas e punir, se necessário, são neste momento os meios mais adequados para combaterem as fake news eleitorais.

 


26 DE NOVEMBRO DE 2021
EDUARDO BUENO

Salvador

A cidade do Salvador foi fundada em março de 1549 (mais de 220 antes de Porto Alegre, portanto) para ser "como coração no meio do corpo". Criada como primeira capital do Brasil, era cidade planejada e as "traças e amostras" - ou seja, o plano diretor e as plantas baixas - foram trazidas de Portugal, bem como o arquiteto responsável pelas obras, Luís Dias. A capital deveria emular Lisboa, com uma Cidade Alta (onde ficariam as sedes do poder: o palácio do governo, a igreja da Sé e a Câmara e a cadeia), sobrepondo-se à Cidade Baixa (lugar do porto e da alfândega, onde labutaria o povo). A cidade foi construída por seis empreiteiros, mas as licitações foram fraudadas e as obras, superfaturadas, atrasaram-se em vários anos. Inaugurada às pressas, a muralha ruiu dois meses depois de pronta.

Apesar do início inglório, Salvador logo virou uma cidade magnética, um polo entre dois mundos, a inequívoca capital do Atlântico negro, capaz de transformar oceano em rio - um rio de lágrimas, por certo, mas também uma torrente de vida e sangue, pois, qual vaso comunicante entre dois continentes, seria responsável pela transfusão de culturas da Costa da Mina para as costas do Brasil. 

E ainda mais do que uma cidade luso-africana, com sotaque brasileiro, tornou-se cidade majoritariamente negra. Era a urbe que "falavazava desvairadas línguas", em meio à qual a realeza africana no exílio e a "canalha" d?além-mar misturavam-se, quase indistintas, no formigueiro humano que coalhava a Cidade Baixa, o mais das vezes submissa e subserviente à Cidade Alta, mas ainda assim subversiva e insurgente, como na Revolta dos Malês (em 1835) e na Sabinada (1838).

Reconhecida pelo odor do azeite-de-dendê misturado ao onipresente cheiro do mijo, era a "triste Bahia, tão dessemelhante, de tantos negócios e tantos negociantes", tal como cantou o Boca do Inferno, o imortal Gregório de Matos, já nos idos do século 17. Era também a cidade "erguida em nome do Salvador, mas onde o diabo arregimenta as almas". A cidade de Caetano e Caymmi e Castro Alves. A cidade de Jorge Amado, Caribé e Verger. De Gil, João Ubaldo e João Gilberto. A cidade de Cipriano Barata, do doutor Sabino e de Marighella.

Mas, acima de tudo, é a cidade de todos os santos, de todos os deuses, dos terreiros e dos tambores, dos orixás, do axé, do acarajé, do Olodum, dos Filhos de Gandhi, do Ilê Ayê, da Igreja do Bonfim, de Mãe Senhora, de Mãe Menininha. A cidade de todos os batuques, todas as macumbas, todos os feitiços, todos os sortilégios. Quando você estiver lendo estas mal traçadas, neste 26 de novembro de 2005, ops, de 2021, estarei desembarcando na Bahia. Minha primeira pergunta será: "Onde fica o estádio dos Aflitos?". Não me pergunte como, mas parece que ele saiu do Recife e foi parar em Salvador.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 25 de novembro de 2021


25 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Quando você sabe o que não quer

Quando você fala das coisas de que não gosta, sempre vem um gaiato ironizando:

- Você está ficando velho.

Isso significaria que as pessoas jovens gostam de tudo. Não é verdade. Vou defender os jovens: eles têm sentido crítico, sim. Não é que eles gostem de TUDO. Eles só gostam de tudo o que os outros jovens gostam. Há critério.

No entanto, faz sentido dizer que os velhos não gostam de muitas coisas. É que leva tempo para você descobrir as suas próprias preferências. Em geral, quando muitas pessoas gostam de algo, a sua tendência é de gostar também. Ou achar que gosta.

Mas, como diria Millôr Fernandes, livre pensar é só pensar. Se você para e pensa, se você é honesto consigo mesmo e se você não teme a crítica alheia, você está em condições de fazer algo libertador: o descarte.

Porque, entenda: viver é editar. Sei que essa é uma máxima difícil de ser compreendida por quem nunca trabalhou numa redação de jornal, então explico: é que o editor escolhe. Essa é a tarefa mais importante da sua função. Ele recebe uma grande quantidade de material para acomodar tudo em uma única página. Só que "tudo" não cabe naquele espaço. Assim, ele escolhe, ele faz uma triagem do que é mais importante e do que é mais interessante, e descarta o resto.

Você faz isso na sua vida todos os dias. Você seleciona o que faz e o que deixa de fazer, você escolhe um prato, no restaurante, e rejeita todos os demais. Sair à noite ou dormir mais cedo? Vida de casado ou vida de solteiro? Filhos: melhor não tê-los. Mas, se não os temos, como sabê-los? A ideia é você selecionar o que é bom e o que é ruim para você. O que é bom você incorpora e o que é ruim joga fora.

O problema é que as pessoas estão sempre tentando influenciar as nossas escolhas. Sabe por quê? Porque elas querem ter certeza de que as escolhas DELAS foram certas. Elas querem ter certeza de que as vidas delas não são inúteis. Desta maneira, por crua insegurança, elas formam clubes. Ali estão os que tratam os cachorros como filhos; mais adiante, os vegetarianos; do outro lado, os amantes do churrasco; olha lá os fanáticos por Game of Thrones. Parecem predileções banais, mas vá dizer que não gosta do que elas gostam. Aquilo se torna pessoal, parece que elas foram ofendidas, que você falou mal das mães delas.

Não é nada disso, my friend, só estou dizendo que EU não gosto. Você, se quiser, pode comer miúdos de galinha, que não me importo.

Outro exemplo: shows. As pessoas amam shows musicais. Para elas trata-se de um programa realmente especial. Por isso, e apenas por isso, me deixei ser arrastado a inúmeros shows na minha vida. Mas não se pode dizer que eu seja um apreciador de todos os tipos de show. Muitos me aborrecem. Um dia, me flagrei dormindo num show do Zé Ramalho. Não que ojerize o Zé Ramalho, não é nada disso, apenas não é o gênero de música que mais aprecio. Naquele dia, saí do ginásio perguntando a mim mesmo: "Por quê? Por que fui ao show do Zé Ramalho???". É que as hordas dos admiradores dele me levaram quase que à força. Culpa minha, que não tive personalidade para dizer: não! Mas hoje digo. Hoje sou capaz. Por quê? Porque sou mais velho do que era. Não tenho tempo a perder.

DAVID COIMBRA

25 DE NOVEMBRO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Cuidado que vaza

Brocardos, brocardos... Quando alguém lembra que o peixe morre pela boca dificilmente está falando de pescaria. Também poderia estar dizendo - com o auxílio de outro provérbio popular - que em boca fechada não entra mosca. As duas expressões querem dizer a mesma coisa: nascemos com dois ouvidos e uma só boca, ouça mais e fale menos para não se incomodar.

Em tempos digitais cabe acrescentar mais uma advertência: controle os dedos e os cliques, pois tudo que disser, digitar ou retransmitir poderá ser usado contra você. Mais sinteticamente ainda: cuidado que vaza.

Os juízes de todas as instâncias gostam de repetir uma antiga máxima do direito romano: o que não está nos autos não está no mundo. Ou seja: para que alguém seja condenado, é preciso que as provas do crime estejam no processo. Pois a comunicação instantânea inverteu esta máxima: o que vai para a web vai para o mundo. Quem passa mensagem para um amigo, por mais amigo que seja, deve ter consciência de que está se expondo aos olhos da multidão.

Não que os amigos sejam traíras, como se diz no futebol, que é onde busquei inspiração para este comentário depois do vazamento do áudio do preparador físico do Internacional. Nunca se esqueça de que o seu melhor amigo também tem um melhor amigo e pode não ser você. Nem sempre há maldade na disseminação de um comentário indiscreto. Às vezes, nesta relação de confiança entre pessoas que se amam e se respeitam, ele cai na caixa de alguém que sequer conhece o primeiro autor.

Também não se pode descartar a maldade, evidentemente, ainda mais quando existe paixão envolvida - o que é corriqueiro no futebol. No fim das contas, quem sai no prejuízo é o ingênuo que abriu demais a boca ou acreditou que estava falando somente com uma pessoa. Nas chamadas redes sociais, não existe tête-à-tête - que é a expressão francesa consagrada para nominar uma conversa particular entre duas pessoas.

A rede é o mundo. E o mundo, como na sentença jurídica, passa a ser a verdade. Palavra dita e flecha lançada jamais voltam atrás, diz outro brocardo. Pior ainda quando a palavra vira flecha.

NÍLSON SOUZA

25 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ICMS E INCENTIVO À EDUCAÇÃO

Vai na direção certa o projeto de lei aprovado na terça-feira na Assembleia gaúcha que define a qualidade da educação como uma das medidas para a distribuição aos municípios dos recursos do ICMS nos próximos anos. O texto, que teve origem no Piratini mas foi modificado pelo parlamento, está em sintonia com os desafios postos à frente.

Com o Rio Grande do Sul na dianteira, o Brasil passa por uma transição demográfica acelerada. Menores taxas de natalidade e maior longevidade conduzem o Estado e o país a ter um perfil populacional de idade média cada vez mais avançada. É fenômeno já observado em nações desenvolvidas, mas onde, em regra, a elevação da renda da sociedade antecedeu o envelhecimento. No Brasil, pródigo em crises, não é o que se observa até agora.

O número menor de jovens a ingressar na força de trabalho vai exigir um significativo aumento da produtividade da mão de obra no país, hoje estagnada. A capacidade de cada cidadão produzir mais na vida profissional está associada, sobretudo, ao nível educacional. É o acúmulo de ensinamentos, desde a alfabetização na tenra idade, que permite a contínua absorção de conhecimentos, gera capacidade de adaptação e permite a obtenção das habilidades necessárias para uma boa colocação e um carreira promissora. Vale o mesmo para empreender e se aventurar pela trilha da inovação, em um mundo de mudanças tecnológicas em ritmo cada vez mais frenético.

Diante do quadro exposto, é fácil concluir que não há alternativa para o Estado e para o país fora do fortalecimento da educação e da busca por melhores índices de aprendizado. Qualquer incentivo adicional para que o poder público se engaje de fato nessa missão merece crédito. É o que faz o governo gaúcho, com o apoio da Assembleia, ao vincular repasses maiores a avanços no aprendizado nos municípios, responsáveis pelo Ensino Fundamental. É de se esperar que, interessadas em receber mais verbas, as prefeituras passem a dar atenção ainda maior à educação, para que seus alunos possam ter bom desempenho na futura avaliação que será instituída a partir do próximo ano. Ao mesmo tempo, será um estímulo para que acelerem as buscas por recuperar os prejuízos na aprendizagem gerados pela pandemia. Pelo texto aprovado, a mudança começa a valer a partir de 2024, com 10% do montante repassado tendo a qualidade de educação como métrica. O percentual vai subindo gradualmente, até chegar a 17% em 2029.

O programa tem inspiração em uma iniciativa do Ceará, onde foram alcançados avanços relevantes na educação. Mas o projeto cearense não se resume à distribuição de ICMS. A parceria entre Estado e municípios vai além, incluindo apoio à gestão das escolas e formação continuada dos professores. Um salto completo no ensino depende da melhora conjunta do aprendizado sob responsabilidade dos demais entes federados. Do governo gaúcho, por exemplo, se espera a entrega das promessas apresentadas no programa Avançar na Educação, que prevê investimento de R$ 1,2 bilhão até o final do próximo ano para solucionar deficiências estruturais das escolas, disponibilizar equipamentos de informática e pagar bolsas aos professores como estímulo ao aperfeiçoamento e aos alunos, para evitar a evasão. As intenções, não há dúvida, vão no sentido esperado. Resta aguardar a materialização dos compromissos. 


25 DE NOVEMBRO DE 2021
CARPINEJAR

Meu colega que dormia cedo

Eu descobri que existia alguma coisa errada na vida quando tinha sete anos, numa conversa distraída com meu colega no nosso recreio. As classes sociais conviviam diante da lousa - não havia nenhum medo dos pais de matricular o filho em ensino público para enfrentar o vestibular. As crianças iam para a escola mais perto de sua casa, em seu bairro. A localização influenciava decisivamente as escolhas educacionais. O que se levava em consideração era a dispensa de carona.

Até aquele momento, jurava que todos se mostravam iguais por dentro e por fora. Trajávamos a mesma camiseta branca com escudo da E.E. Imperatriz Leopoldina e a mesma calça azul com três listras nas laterais. Os mesmos cabelos desgrenhados de quem acordou de repente, as mesmas remelas, os mesmos silêncios profundos da manhã. Falávamos de rotina. Contei que eu dormia às 22h30min, depois de me esbaldar no sofá. Acabava a novela e não tinha mais mordomia. Nem adiantava espernear. Seguia de bico calado para debaixo das cobertas. Tentava enganar as horas matraqueando depois com os meus irmãos no escuro do quarto, em nosso telefone sem fio dos beliches.

Iragi me respondeu secamente que dormia às 20h. Eu fiquei assustado por ser tão cedo. Recém haveria anoitecido. A Lua nem piscaria os seus olhos de Georges Méliès. Concluí que sofria a repressão da família, ou enfrentava um castigo por alguma malandragem, ou aquilo consistia numa invenção de disciplina dos adultos.

Julguei a sua conduta de acordo com o meu mundo.

Foi quando ele me respondeu o motivo e quebrou as minhas pernas:

- Durmo cedo para não sentir fome.

Ele usava o sono para enganar a vontade de comer. Não jantava, a sua próxima refeição vinha a ser a merenda da escola, a única de seu dia.

- É mais fácil me esquecer do estômago roncando. Tomo muita água e deito. Ele não bebia água, comia água.

Explicou a situação com naturalidade, longe de qualquer ênfase de novidade, habituado a uma estratégia antiga de sobrevivência, com uma franqueza esgotada de mistérios.

Nunca mais falei por ninguém. Não tenho essa pretensão. Eu escuto. Escutar é ser um pouco o outro. Só posso ser um pouco. Um pouquinho.

Iragi passou a almoçar comigo ao meio-dia na minha residência. Não salvei a sua vida. A diferença é que o almoço virou seu jantar.

CARPINEJAR