sexta-feira, 28 de outubro de 2022


28 DE OUTUBRO DE 2022
CAPA

Os caminhos da Feira do Livro

Tradicional evento de Porto Alegre começa hoje sua 68ª edição de olho na formação dos leitores do futuro

A festa do livro. Ou mais uma festa para celebrar os 250 anos de Porto Alegre. Para decretar a retomada plena de um evento-símbolo da cidade. Uma celebração para instigar novos leitores. Uma feira para vislumbrar o futuro.

A partir de hoje, a 68ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre passa a ocupar a Praça da Alfândega, no Centro Histórico e em trechos da Rua dos Andradas, Travessa Sepúlveda e Rua Cassiano Nascimento, além de espaços culturais. O evento será realizado até o dia 15 de novembro, com a área infantil e juvenil funcionando das 10h às 20h e a área geral, das 12h30min às 20h. A programação completa pode ser conferida no site feiradolivro-poa.com.br.

Tendo o poeta Carlos Nejar como patrono, a Feira volta a ser completamente presencial, depois de dois anos em formato digital ou híbrido. Em 2021, a programação com a presença de público foi limitada a sessões de autógrafos e contações de histórias e espetáculos de teatro para a primeira infância.

A organização espera receber 1,5 milhão de visitantes, 200 mil a mais do que em 2019, última edição plenamente presencial.

Atrações

Desta vez, serão 1.001 eventos em 18 dias: 546 sessões de autógrafos, 379 atividades na área infantil e juvenil e 76 na área adulta. Haverá bate-papos, palestras, saraus, oficinas e sessões de autógrafos, sempre tendo o livro como mote. Tudo gratuito.

Muitas dessas atividades terão Porto Alegre como tema, já que a 68ª edição da Feira presta tributo aos 250 anos da Capital - completados em 26 de março. Afinal, o evento leva o nome da cidade desde 1955 e o propaga para o mundo inteiro.

- Hoje, a Feira está no rol dos eventos literários mais importantes do mundo - garante Maximiliano Ledur, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), entidade que organiza o evento. - Somos convidados em diversas ocasiões para debater questões do livro, no âmbito nacional e internacional. É uma feira muito popular, que divulga a cidade.

Além de fechar as comemorações do aniversário de Porto Alegre, a 68ª Feira seguirá pondo em prática um de seus principais motes de sete décadas: instigar o leitor mais jovem. A área infantil e juvenil contará com a participação de 67 escritores, sendo 40 de outros Estados. Serão 38 encontros do ciclo O Autor no Palco, no Teatro Carlos Urbim - atividade voltada a estudantes dos ensinos fundamental e médio. Nos finais de semana, o espaço abrigará espetáculos infantis e concertos musicais.

- Habituando as crianças a lerem agora, forma-se um leitor depois. Não apenas um consumidor de livros, mas alguém com aptidão para a leitura em geral - destaca Ledur. - Trabalhando nas idades iniciais, teremos um cidadão mais informado e buscando cada vez mais. Esse é o grande papel da Feira: popularizar a leitura desde a primeira infância.

Planos

No ano passado, a realização da Feira foi na base do sufoco. A Câmara de Vereadores cancelou um patrocínio previsto ao evento a poucas semanas de seu início - sem essa verba, havia o risco de as bancas ficarem sem cobertura contra chuva. O Legislativo municipal voltou atrás, mas cedendo metade do valor original.

A expectativa é otimista para 2022, já que a Feira cresce em expositores em comparação ao ano passado: de 56 para 71. Embora houvesse uma corrida contra o tempo atrás de patrocinadores - o financiamento pela Lei Rouanet só foi aprovado em agosto -, Ledur afirma que não houve maiores problemas na viabilização do evento.

O presidente da CRL frisa que, na semana seguinte ao término da Feira, a edição de 2023 começará a ser planejada. Um de seus desejos é a implementação do Vale-livro - cartão que disponibilizaria R$ 50 a estudantes e professores da rede pública para utilizarem na compra de livros, projeto que foi utilizado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A ideia também é trabalhar em uma Feira com ainda mais atrações para garantir mais público e, consequentemente, formar mais leitores.

- Vamos ter um número maior de expositores no ano que vem, provavelmente. Seria bacana termos o Cais de volta para a área infantil. Foi um sucesso quando teve, só que vai depender também de como vai se portar o mercado durante o ano e também os nossos projetos - explica Ledur.

 WILLIAM MANSQUE


28 DE OUTUBRO DE 2022
EDUARDO BUENO

Modesta proposta

Não é preciso ser cientista político - nem historiador com y, como eu - para perceber que o Brasil está fendido, rachado ao meio, partido em dois. E nem é preciso ser profeta para saber que as coisas não vão mudar muito depois de domingo. Assim, sempre disposto a promover a paz e a concórdia, o comedimento e a compostura, venho por meio dessas maltraçadas linhas lançar uma modesta proposta, a ser posta em prática já a partir de segunda-feira: separar fisicamente os brasileiros conforme suas mais profundas convicções.

Isso implicaria, claro, uma operação de complexa logística. Mas finda essa espécie de metempsicose coletiva, as pessoas já despertariam numa nação apaziguada. De um lado - que iria, digamos, da serra gaúcha a São Paulo, dando uma guinada para oeste em Mato Grosso do Sul e subindo aos grotões da Amazônia -, viveriam pessoas felizes na sua imunidade de rebanho, tomando cloroquina, apoiando o garimpo onde quer que haja pirita e prontas para ver a Amazônia virar campo de futebol; gente que não crê em mudanças climáticas, acredita em "Intervenção militar já", julga que "Supremo é o povo", despreza a imprensa, só se informa pelo zap e acha a Lei Rouanet dispensável, a não ser para sertanejos e clubes de tiro. Clubes de tiro, aliás, lá estarão abertos a crianças a partir dos cinco anos. De quatro, não - não insista.

Na outra parte do pais bipartido - a porção que inclui basicamente o Nordeste e, talvez, Minas Gerais -, viveriam, felizes, pessoas que acreditam, veja só, na vacina (até contra aftosa), acham que leis ambientais devem ser cumpridas, veem com preocupação eventos climáticos extremos; desconfiam, mas julgam que dos males o STF é o menor; acreditam que os militares são mais úteis ao país nos quartéis, creem que redes sociais não devem espalhar fake news, são favoráveis ao desarmamento e adoram a música de Caetano, Gil e Chico - e da Pablo Vittar e do João Gordo também. Sertanejo? Só se for Luciano sem Zezé e Xororó sem Chitãozinho. Ah, e Sócrates substitui o menino Cai-Cai.

Ainda assim, resta um problema. Com quem ficará a bandeira do Brasil? Pessoalmente, sempre a achei brega. Então, não me importo se mudar de cor. Para azul-celeste, por exemplo, como a do Uruguai. Afinal, minha bandeira jamais será vermelha. A não ser, claro, nesse domingo - pois para Mato Grosso eu não vou nem encilhado. Até porque sempre gostei mais do Nordeste.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 27 de outubro de 2022


27 DE OUTUBRO DE 2022
CARPINEJAR

Pano de chão ou brechó

Repare: todos os panos de chão de sua casa são peças masculinas. Não há nenhuma peça feminina. Só as roupas dos homens servem para limpar o chão e esfregar a casa. Só elas são aposentadas nos baldes.

Mulher jamais deixa seu figurino atingir a degradação total, a decadência irreversível. Por mais que o seu closet seja imenso, conhece o estado de cada uma de suas compras. Já o homem, por mais que seu armário seja enxuto, desconhece as condições de suas vestimentas. Ele parte ao trabalho sem se preocupar sequer com o tamanho das suas camisas. Não perde tempo trocando presente de número inadequado na loja.

A verdade é que o homem desconsidera a necessidade de ajustes. Se tem uma camisa larga, sai de bata. Se tem uma camisa justa, sai de baby look. Acredita que o corpo manda nas roupas, não são as roupas que mandam no corpo.

Um exemplo são os seus sapatos. Gasta até a sola furar, até o couro enrugar, até o bico abrir e assobiar Tico-Tico no Fubá. Unicamente adquire um novo depois de jogar fora o velho. É uma substituição por completa necessidade, para não andar descalço.

Tanto que o homem não teme os furos das traças - nem poderia, porque é a própria traça. Ele se esquece do que tem, abandonando tudo em sua pele. Não registra as etapas de decomposição do tecido, que rasga de repente na hora de pôr.

Nunca se dá conta do problema, da erosão, no momento de colocar para lavar, passar, dobrar ou guardar na gaveta. No instante de viajar e fazer a mala, não revisa os furos e vincos. Sofre da síndrome do Incrível Hulk. Ele não sabe o momento de parar de usar algo. Botões caem, colarinho perde a cor, mas não enxerga os sinais. Pensa que pode vestir mais uma vez, e outra vez. Vai permitindo a desencarnação da lã.

A esposa não tem o trabalho de justificar o emprego de qualquer indumentária masculina como pano de chão - já é um trapo. Nem depende de triagem. Vem pronta para lustrar móveis e encerar o piso.

Agora note o quão dificilmente encontrará roupas masculinas num brechó. Há apenas trajes femininos.

São guarda-roupas com destinos diferentes. O fim das roupas das mulheres é o brechó, o fim das roupas do homem é a área de serviço. As mulheres gastam mais nos shoppings, mas recuperam parte do seu capital com os brechós.

Já os homens não têm nenhum lucro com a reciclagem de sua vida.

CARPINEJAR

27 DE OUTUBRO DE 2022
ARTIGOS

CIDADES PARA AS PESSOAS

A história de uma cidade é feita da soma das histórias das suas pessoas. O lugar onde vivemos resume as nossas lutas, as nossas conquistas e os nossos sonhos. Logo, ele precisa ser um espelho de nós mesmos. Muitos urbanistas têm se dado conta disso e defendem um novo modelo de cidade: voltado para as pessoas, com serviços acessíveis e atendimento próximo e descentralizado. Isso tem transformado, inclusive, os hábitos sociais, culturais e de consumo. A administração pública, os produtos e os serviços precisam chegar ao lugar em que as pessoas estão - e não ao contrário.

Cabe à gestão municipal sempre se perguntar: a população tem atendimento de saúde adequado perto de casa? As ruas estão limpas? Os alunos têm educação de qualidade? Essas questões devem ser respondidas - e resolvidas - antes de se iniciar grandes projetos. O administrador deve, portanto, começar o seu trabalho por aí para garantir o que é essencial para as pessoas.

Em uma época em que o digital ganha força e o virtual passa a ser tão real quanto o físico, há um movimento que, em um primeiro momento, parece até paradoxal: o fortalecimento das comunidades e dos bairros. E isso traz a necessidade de dialogar com a população. Para municípios como Bento Gonçalves, que acaba de completar 132 anos, esse desafio é maior ainda.

Bento hoje é referência em saúde, geração de emprego e educação. Ponteamos rankings nacionais em temas como atenção básica e em indicadores sociais e econômicos. Para chegar lá, não há segredo: investimos na presença na ponta, diretamente nos bairros, onde a população vive. Toda semana, estamos em uma localidade diferente, com toda a equipe tocando obras, reparos, serviços de limpeza. Estamos sempre ao lado da comunidade para resolver as suas reais necessidades.

Bento segue sendo a Capital Nacional do Vinho, a cidade dos grandes eventos, um dos destinos turísticos mais importantes da América Latina. Mas, para além disso, ser reconhecida pela qualidade dos serviços para os cidadãos é ainda mais importante. Fazer bem o simples é essencial - e transforma a vida das pessoas.

Prefeito de Bento Gonçalves - DIOGO SIQUEIRA


27 DE OUTUBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Um legado ambiental para Porto Alegre Primeira atração do Planeta Atlântida

Maria do Carmo Conceição Sanchotene (foto) foi uma apaixonada por árvores. Pioneira no tema da arborização urbana em Porto Alegre e defensora da causa no Brasil, Cacaia, como era conhecida, partiu aos 69 anos, em dezembro de 2021, após sofrer uma parada cardíaca enquanto dormia. Hoje, seu acervo particular, com 400 livros, será doado pela família à biblioteca da Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) da Capital.

Por décadas, a bióloga atuou no órgão municipal, onde foi diretora da Divisão de Proteção à Flora e Fauna e coordenou a elaboração do Plano Diretor de Arborização de Vias Públicas, em 2000. Maria via no plantio de mudas uma forma de mitigar os efeitos colaterais indesejados da urbanização acelerada - e estava certa.

Ela também foi uma das idealizadoras e fundadoras da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana e, já aposentada, ajudou a redigir o projeto de lei que cria uma política nacional na área. Em discussão no Congresso, o texto reconhece as árvores como elementos de infraestrutura essencial nas cidades e orienta as prefeituras sobre como planejar o plantio.

Entre os livros doados, estão obras sobre meio ambiente, planejamento urbano, botânica e biomas brasileiros. Há inclusive títulos da própria doadora, entre eles Frutíferas Nativas Úteis à Fauna na Arborização Urbana.

- A temática do meio ambiente e da preservação nunca esteve tão atual. Dividir isso com a comunidade nos enche de orgulho e é uma forma de dar continuidade ao que ela sempre pregou - diz Maria Cláudia Conceição Sanchotene, uma das filhas da bióloga.

Maior festival de música do sul do país, o Planeta Atlântida não só está de volta como, agora, já tem sua primeira atração confirmada: o cantor e compositor gaúcho Armandinho (foto), um velho conhecido dos planetários por sua ligação afetiva com o evento.

Ontem, na festa de lançamento da nova edição, em Porto Alegre, para convidados do mercado e do meio artístico, o cantor deu uma amostra do que levará ao palco.

Após dois anos de interrupção devido à pandemia, o evento vai ocorrer entre os dias 3 e 4 de fevereiro de 2023, na sede campestre da Sociedade Amigos do Balneário Atlântida (Saba). O festival é uma realização do Grupo RBS e de DC Set Group, com patrocínio de Renner, Banrisul e Unisinos.

INFORME ESPECIAL

27 DE OUTUBRO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Corujas

Minha avó era coruja. De verdade. Não no sentido da fábula da ave que via seus medonhos filhotes como os mais lindos do mundo. Era coruja porque carregava esse sobrenome que designa a ave noturna. Seu pai, um dos meus bisavôs, chamava-se Antônio Alves Coruja, mas a filharada não curtia muito o nome de família, provavelmente devido ao bullying de todas as épocas que não poupa ninguém com identificação de duplo sentido. Tão logo casou-se com um Souza, dona Rita excluiu o sobrenome paterno.

Eu também não uso, mas sei que a ave da sabedoria e do agouro está pousada num dos galhos da minha árvore genealógica. Sequer sou um colecionador de corujinhas, como vários brasileiros e portugueses que curtem miniaturas do bicho por simpatia ou superstição. A simbologia é forte: a coruja, para muitos povos, representa a inteligência e a clarividência - faculdade que muito me agradaria possuir para antever o futuro. Gregos antigos e nativos americanos acreditavam mesmo que a coruja, por enxergar à noite, era uma espécie de oráculo, tanto que a própria deusa da sabedoria e da justiça - Atena - é representada com uma dessas aves no ombro.

Mas nem tudo são flores no imaginário dessa ave de rapina. Os astecas a identificavam como "deus dos infernos" e achavam que ela aparecia para devorar a alma dos moribundos. Na Europa medieval, eram consideradas bruxas disfarçadas e ainda hoje são vistas como guardiãs dos cemitérios.

A verdade é que minhas parentes aladas não fazem mal a ninguém, excetuando-se, obviamente, suas presas - peixes, roedores, insetos e até outras aves. Mas elas também têm seus predadores, e talvez o mais perigoso seja o animal humano. Quando os filmes de Harry Potter estouraram, adolescentes de várias partes do mundo adotaram corujinhas de carne e penas como animal de estimação, imitando o próprio bruxinho e seus companheiros de magia. Depois que a onda passou, centenas foram abandonadas. No Reino Unido, foi preciso criar alas especiais nos santuários de aves para receber as órfãs do filme.

Mas a coruja também se vinga dos humanos. Uma das espécies mais comuns no Brasil é a chamada coruja rasga-mortalha, que emite um som assustador, semelhante a uma roupa sendo rasgada. Diz a lenda que, quando a agourenta passa sobre uma casa ou pousa no seu telhado, algum morador vai virar estrela.

Tem de tudo nessa minha família. Mas nossos filhotes são lindos.

NÍLSON SOUZA

quarta-feira, 26 de outubro de 2022


26 DE OUTUBRO DE 2022
CARPINEJAR

O Napoleão do manicômio

Há traços de insanidade no circo armado pelo ex-deputado Roberto Jefferson. Ninguém faz vídeos alegando ter razão ao arremessar granadas e atirar na Polícia Federal. Não é plausível. A prática de oratória de advogado e sua inteligência estão escondendo algo sério. Ele enlouqueceu, está precisando de ajuda psiquiátrica.

Não é normal dormir presidente do PTB e acordar Rambo. Não é normal alguém em prisão domiciliar alegar que possui um arsenal de 20 armas.

Eu vi os vídeos de Jefferson quando houve o cerco dos policiais: o seu messianismo, a sua paranoia, a sua crença de que fora "vítima de arbítrio" e não iria se render sob hipótese nenhuma, de que estava sendo perseguido e humilhado. A defesa da honra é o discurso do padecimento das faculdades mentais.

Com um passado de cassação no Congresso e condenação pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, era de se esperar o mínimo de prudência. Mas ele sempre realiza o contrário, o estardalhaço de suas opiniões. A loucura já tinha eclodido antes, quando rompeu as formalidades sociais do cargo que exercia e ao qual estava acostumado.

Suas declarações de baixo calão já se caracterizavam como próprias daquele que perdeu a censura e se considera acima da lei e imune às consequências penais para qualquer cidadão. Chamou a ministra Cármen Lúcia de "Cármen Lúcifer" e disse que ela "lembra aquelas prostitutas, aquelas vagabundas arrombadas".

Que político em sã consciência faria tal agressão documentada e pública, dirigida à mais alta hierarquia da Justiça? Ele não difere em nada de um interno de manicômio que se nomeia Napoleão. Sofre da onipotência do desvario.

Se algum familiar nosso fizesse um terço do que ele aprontou na última semana, seria internado imediatamente. Como parente, você se sentiria obrigado a proteger a pessoa de si mesma; não iria acreditar que ela dispõe do uso do seu bom senso, mas que extraviou o seu domínio racional, o seu equilíbrio, a conexão com a realidade.

Jefferson demonstra viver num mundo perigoso de completa fantasia, em que aliados são inimigos ocultos. Simbolicamente, joga as suas roupas e crenças pela janela, aparece nu no comício, não confia em mais nenhum afeto, jura que estão tramando uma conspiração para roubar o seu patrimônio.

Talvez o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter determinado que o ministro da Justiça, Anderson Torres, fosse ao Rio de Janeiro e encerrasse a crise com escolta de luxo seja um sinal de que o governo percebeu que o ex-parlamentar se encontra adoecido.

Estamos num país mergulhado na eleição mais polarizada da sua história, numa possessão coletiva, numa avalanche de fake news, com candidatos acusando uns aos outros de mentirosos, e já não reconhecemos quem está louco ou não. A mais completa aberração é tolerada como se fosse verosímil.

CARPINEJAR

26 DE OUTUBRO DE 2022
JEFERSON TENÓRIO

Porto Alegre, até quando?

O episódio racista envolvendo o cantor Seu Jorge dias atrás, num show no clube Grêmio Náutico União, além de ser vergonhoso para a cidade, também mostra uma Porto Alegre racista e segregadora. Por outro lado, os movimentos e coletivos negros têm atuado de maneira rápida e contundente nos casos de preconceito racial. Além disso, há também uma carta aberta assinada por mais de cem sócios do clube repudiando o ato racista no show. Mas me pergunto: até quando a cidade de Porto Alegre seguirá com seu racismo estrutural?

No programa Fantástico de domingo passado, tivemos o depoimento de um ex-funcionário do Grêmio Náutico União que disse ter sido demitido por tentar implantar políticas antirracistas no clube e que os funcionários negros estão sempre em trabalhos subalternizados. No depoimento, o funcionário disse também que, ao sugerir que o clube colocasse fotos de crianças negras numa peça publicitária, teve a resposta de que o clube não estaria preparado para ter duas pessoas negras na capa de publicação. O que demonstra a ideologia do clube, que não considera pessoas pretas como possíveis clientes.

Além disso, as declarações do presidente do Grêmio Náutico União, Paulo Bing, num grupo de WhatsApp são inacreditáveis ao justificar o ato racista no show de Seu Jorge. Segundo Paulo, a reação do público veio depois de o músico ter feito um gesto político. Ora, por mais que o público branco, de classe média e talvez afinado com o discurso bolsonarista não concordasse com o artista (o que não é um problema), nada, repito, nada poderia justificar uma reação racista e grosseira como aquela. Além disso, o diretor ainda justifica dizendo que o cantor não estava vestido com roupas adequadas. As declarações são tão absurdas que nem parecem verdadeiras.

O episódio com Seu Jorge expôs justamente como o racismo estrutural age. Pois enquanto o músico negro estiver ali divertindo o público branco com músicas para o seu "entretenimento", tudo bem. Mas basta colocar no repertório um discurso político que desagrade aos ouvidos conservadores para que a vaia reacionária e racista venha com força.

Ora, esse povo não acompanha a trajetória de Seu Jorge? Esqueceram que ele representou Marighella há pouco tempo no cinema? Que um homem negro chegar aonde ele chegou é porque há também nele uma consciência política e de raça? O público de Porto Alegre quis reduzir Seu Jorge a "burguesinha e suquinho de maçã", mas acabou levando um discurso antirracista para casa. Obrigado, Seu Jorge.

JEFERSON TENÓRIO

QUEM AMA O BRASIL NÃO DESTRÓI A AMAZÔNIA

Setembro, mês festivo no qual se comemora a Semana Farroupilha e a Independência do Brasil, também marca a estreia anual da primavera, a estação mais vicejante do ano. Mas o último setembro trouxe junto uma marca desoladora para a Amazônia. Somente em Manaus, foram 8.659 focos de queimadas, conforme o sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É a pior da série histórica, que começa em 1998.

O recorde anterior é de 2015, quando o Inpe registrou 5.004 focos. A diferença entre o número de queimadas deste ano e o de 2015 é de impressionantes 3.655. Para ter uma ideia, essa diferença é maior do que a soma das queimadas dos anos de 1998, 1999, 2000, 2001 e 2008, que, juntos, contabilizam 2.554 focos. O número de setembro de 2022 é tão estarrecedor que ultrapassa a contagem do mesmo mês do ano passado em 5.860 focos de queimadas, e é mais do que o dobro do registrado em 2020. No Pará, a conta é pior ainda: 12.696.

O mundo inteiro sabe que o Brasil é rico em biodiversidade e em recursos naturais. Mas, da mesma forma, vê que o país está destruindo seus principais ativos: a natureza e as populações que dela dependem.

Já em 1991, durante uma CPI que disputava discursos sobre a Amazônia, o ex-presidente e fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), José Lutzenberger, então secretário de Meio Ambiente do Governo Federal, afirmava que "o atual modelo não tem futuro e nossos filhos vão ter que pagar a conta e vão nos amaldiçoar por isso". Ele se referia ao modelo adotado por países que destruíram e queimaram suas florestas. "O que os países ricos estão fazendo é comer o planeta", dizia.

É claro que a situação no Brasil não é a mesma dos países economicamente ricos. Aqui, nossa riqueza está expressa no próprio povo e no ambiente natural. Infelizmente, a economia nacional não avança, enquanto nossos recursos naturais seguem gerando fortunas no Exterior. É preciso aproveitar a Amazônia como quem a ama, sem destruí-la.

Presidente da Agapan - HEVERTON LACERDA 

26 DE OUTUBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O CERCO AO ORÇAMENTO SECRETO

Com a exceção dos parlamentares e grupos políticos beneficiados, há uma concordância generalizada quanto à inadequação do chamado orçamento secreto aos princípios republicanos. Trata-se de uma farta distribuição de emendas sem transparência ou critérios de equidade entre deputados e senadores, obedecendo somente a conveniências dos caciques do Congresso e seus aliados, especialmente do centrão. Apenas para 2023 estão reservados R$ 19 bilhões por esse mecanismo.

São recursos em regra aplicados em obras paroquiais e na aquisição de bens e serviços sem a devida comprovação de serem prioridade. Em muitos casos, há indícios de superfaturamento e corrupção. Enquanto isso, faltam verbas para projetos estruturantes que trariam maiores vantagens competitivas para o país ou poderiam melhorar a qualidade de vida de um número maior de brasileiros. Como colide com os preceitos de uma gestão ciosa do dinheiro público, deveria ser extinto.

Criticado por usar o orçamento secreto como um instrumento para garantir a fidelidade de sua base, o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, parece que agora se filiou à ala dos descontentes. Em entrevista na segunda-feira, declarou que, se conseguir um segundo mandato, vai negociar o fim das também chamadas emendas de relator. É fato que, na situação atual, o Executivo perde poder e capacidade de alocar os recursos de forma mais racional. Assim, Bolsonaro se alinha com o oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que em repetidas oportunidades classificou o artifício como uma excrescência.

Acabar com o orçamento secreto por negociação política, entretanto, não será simples. O Congresso eleito fortaleceu o centrão, grupo poderoso que certamente não vai concordar em ceder docilmente a influência também utilizada como estratégia para obter dividendos eleitorais. Mas há, ao menos, manifestações dos dois postulantes a comandar o país pelos próximos quatro anos no sentido de rever esse instrumento. A ver, ainda, o grau de sinceridade e o verdadeiro empenho do presidente escolhido pelas urnas no próximo dia 30 para materializar a intenção.

Uma ajuda definitiva, no entanto, pode vir do Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte deve julgar ainda neste ano um processo que questiona a legalidade das emendas de relator. As informações de bastidores indicam que há inclinação da maioria dos ministros de enterrar o mecanismo. O braço brasileiro da Transparência Internacional, organização reconhecida pela luta contra malfeitos no mundo, já tachou o orçamento secreto como uma forma de institucionalizar a corrupção. Se resta evidente que é um expediente opaco, resulta em má alocação dos recursos dos contribuintes e mostra-se pródigo em dar margem para o surgimento de escândalos, o melhor a ser feito é pressionar para que seja interrompido.


26 DE OUTUBRO DE 2022
MÁRIO CORSO

Felinos verdes

Reza a lenda que nos espinhos dos cactos haveria uma substância que, quando ele fura nossa pele, nos contaminaria com a "doença dos cactos". A tal enfermidade tornaria a vítima um servo devoto a eles pelo resto da vida. Cuido de cactos e suculentas ao redor de uns 40 anos. Será que isso aconteceu comigo?

Apaixonei-me por estas plantas na adolescência, foi amor à primeira vista. Talvez o apreço venha porque cactos e suculentas (fora as aloés) só sirvam para o deleite. Afinal, o melhor da vida é o que não serve para nada. O domínio do cultivo, especialmente de cereais, mudou o destino da humanidade. Somos gratos às plantas, portanto cultivar as que não são úteis, seria uma forma de reconhecimento à categoria, e também de demonstrar que chegamos à fortuna de plantar por prazer. Esses vegetais estão na gramática do luxo.

O que amamos sempre diz de nós, do que somos, ou das nossas fantasias. Estas plantas, especialmente os cactos, precisam de pouca água, poucos cuidados. Largamos um vaso de cactos em um canto do pátio e um ano depois ele estará lá, sobrevivendo a seu modo. Gosto de me pensar como um cacto, forte, rústico e autônomo, dispensando cuidados e carinhos. Admito, é uma mentira deslavada, um anseio de macho onipotente.

Penso nos cactos como gatos verdes. Você os alimenta e protege, e num descuido, eles te unham. Os cactos e assemelhados são assim, cuidamos e um dia um espinho nos machuca. Como um felino, estas plantas se fazem adorar, nos esnobam, raramente se deixam tocar, e vivem do esplendor de sua beleza e elegância.

É desta longa experiência de amante, vítima e servidor dedicado destes espinhudos que lhes trago conselhos: cactos e suculentas precisam em primeiro lugar de luz. Em segundo, luz. Em terceiro, luz. Depois, de terra adubada e bem drenada e só então de água. A vida nasceu no mar e para sair dele teve que levá-lo dentro de si. O controle hídrico é tudo para os seres vivos. Estas plantas desenvolveram a estratégia de serem seladas, retendo líquido para enfrentar a estiagem. Dê água para elas, mas entre intervalos em que a terra seque. Em certas experiências amorosas menos é mais.

No próximo sábado, despeço-me de uns 50 vasos meus por uma boa causa. Um bazar beneficente para a Fundação de Atendimento de Deficiências Múltiplas (Fadem). Doe e leve um cacto. Mais informações no Instagram: @cactus.cafepoa

MÁRIO CORSO

terça-feira, 25 de outubro de 2022


25 DE OUTUBRO DE 2022
CARPINEJAR

Felicidade é quando nos esquecemos de tirar foto

Já estou acostumado a assistir a um show pelo celular do espectador na fila da frente. Meu pescoço não sobe mais do que a mão do vizinho segurando o aparelho lá em cima. Meu campo de visão fica coberto pela telinha. Felizes os tempos em que você reclamava do azar de ter alguém alto na poltrona dianteira.

Eu me conformei. Há gente que não precisa comprar ingresso, poderia atalhar e adquirir um DVD do artista - assim nem sofreria com a qualidade amadora da sua gravação. Mas percebo um costume ainda pior: fotografar pratos nos restaurantes. As contas pessoais nas redes sociais viraram cardápios.

Tão preocupada em ostentar uma existência perfeita e idílica em suas postagens, a pessoa deixa a comida esfriar. É uma falta de educação com a pontualidade do preparo, um desrespeito com o timing das refeições, com o carinho do chef e a agilidade dos garçons.

Quem faz a foto não deixa mais ninguém comer, é uma presença abusada. Os acompanhantes precisam esperar o término da sessão de cliques. Vão segurar o garfo e a faca no ar, congelados, como se estivessem cometendo algo errado simplesmente por se servir quando as porções chegam à mesa.

- Não mexa em nada! - Não estrague o cenário!

Porque o flagrante exige o prato montado e intacto. É um slow food forçado, um boicote contra a urgência do apetite. O camarão é o mais fotogênico, o mais visado, o mais instagramável. Se houver porção de camarão, aguarde paparazzi. É o alimento mais repassado adiante, top model dos frutos do mar.

Não identifico interesse em retratar mexilhões, por exemplo, tão feiosinhos, sempre excluídos das publicações. O curioso é que não são feitos registros do bufê a quilo. Ou da comidinha de casa. Não há cenas circulando nos stories da montanha no prato, com fios de massa grosseiramente escapando pelas bordas, ou do simpático guisadinho com arroz, ou do ovo queimado nas pontas.

Das 14 refeições da semana, apenas se favorece aquele menu caro de exceção que sequer é aproveitado dignamente, que sequer é degustado com a merecida discrição. Existe uma ausência de naturalidade na reprodução dos nossos hábitos alimentares.

Sinto que vem acontecendo uma anorexia da realidade, uma compulsão de retratar o belo sem mastigar e saborear a vida de verdade. O que não é mostrado parece que não foi vivido. Desprezamos o valor secreto das experiências. Se somos o que comemos, somos cada vez menos o que fotografamos.

CARPINEJAR


25 DE OUTUBRO DE 2022
ARTIGOS

ANALFABETISMO DIGITAL

Para Esther Pillar Grossi

Sei como se sentem os analfabetos, não porque me lembre de quando fui um deles, mas porque ainda sou. Um analfabeto digital, caso bastante grave hoje em dia. Não se trata de editar textos em computadores modernos, transformados em antigas máquinas de escrever. Cato milho com dignidade na tela, reviso a gramática, mudo o tamanho da letra, se for preciso, e salvo tudo no word, não exatamente na nuvem, mas no disquete, digo, no pen drive.

Não se trata disso. Trata-se da expertise em utilizar serviços gerais da internet, como, por exemplo, para compra online de passagens. Às vezes, nessas horas, conto com a benevolência da minha filha, mas ela já anda mais ocupada do que eu. Ou eu ainda me assusto com a sua má vontade e aquele olhar terrível, expressando que o meu tempo já passou. Resta mendigar um auxílio extrafamiliar, clamando por uma presença cada vez mais rara neste mundo quase todo automatizado e desconfiado de qualquer abordagem. 

Dia desses, precisei pegar um trem, na França. Eu contava com o quiosque de vendas e seu solitário guichê para idosos, mas um desgraçado de qualquer idade esqueceu a mala no meio do caminho, e a polícia fechou o acesso. Restava o pesadelo da máquina. Ao lado, um cão farejador olhava com desconfiança a minha angústia de não conseguir ultrapassar a segunda fase do negócio. Restava aquela solicitação cada vez menos atendida de pedir ajuda aos universitários passantes.

Uma garota até interrompeu as suas tecladas, mas, ao compreender melhor o meu caso, foi muito dura comigo e falou naquele tom mais elevado e universal dos adolescentes: É COMO UM COMPUTADOR, Monsieur, BASTA SEGUIR OS COMANDOS. Assim que ela saiu, e os comandos deixaram de me seguir, o novo adolescente foi mais compreensivo. Seu olhar não disfarçava a compaixão por um senhor perdido entre as letras do mundo e me acompanhou até a fase 16, sem roubar o meu cartão de crédito que ele mesmo inseriu.

Entre momentos de firmeza e de ternura, como costuma ser, volto a me alfabetizar. 

Psicanalista e escritor - CELSO GUTFREIND

25 DE OUTUBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

CELEIRO DE STARTUPS

É alentador constatar que o ecossistema de inovação no Rio Grande do Sul cresce e amadurece de forma acelerada. O mais novo dado a corroborar essa percepção é a elevação substantiva da quantidade de startups. Ao longo do ano, foi superada a marca de mil empresas emergentes do gênero. São 1.144, número 73% acima de dezembro de 2021, conforme os dados contabilizados pela ABStartups, entidade nacional do setor. Anima ainda a confirmação de que o Estado se consolida como um dos principais polos do país, superado apenas por São Paulo e Minas Gerais na soma de startups residentes.

Ao que parece, estão se dissipando os receios que existiam há poucos meses de dificuldades financeiras devido ao cenário macroeconômico global repleto de incertezas, levando à diminuição dos investimentos em startups. Foi uma conjuntura que acarretou um volume significativo de demissões, inclusive no país. Mas nota-se a sobreposição da tendência de mais longo prazo que favorece as apostas e o surgimento de empresas tecnológicas com potencial de crescimento rápido, dedicadas a desenvolver novas soluções para o mercado.

Os fundos de venture capital seguem dispostos a aportar recursos e, ao mesmo tempo, grandes empresas, inclusive do Rio Grande do Sul, se mantêm altamente interessadas em se aproximar de empreendedores criativos, estabelecendo uma relação de ganhos mútuos. Fazem parte ainda desse ambiente de incentivo à inovação hubs como o Instituto Caldeira, de Porto Alegre, e o Hélice, de Caxias do Sul, além de outras iniciativas semelhantes que surgem em outras regiões do Estado, com a participação decisiva do capital privado, viabilizando a conexão entre mentes inquietas e os meios que possibilitam tirar as ideias do papel.

Felizmente, há no Rio Grande do Sul uma conjugação de fatores que impulsiona o surgimento de startups que tanto desenvolvem novos negócios como concebem respostas para as demandas de setores tradicionais da economia, ajudando a fortalecê-los em um cenário de competição global. Fazem parte deste ecossistema universidades, incubadoras, parques tecnológicos, aceleradoras e, por parte do poder público, uma série de editais lançados também dedicados a financiar a viabilização de iniciativas promissoras. Eventos como o South Summit completam esse ambiente fecundo.

Mas, mais relevante, existe no Estado fartura do principal insumo para a inovação frutificar: capital humano. Se o essencial encontra as demais condições necessárias para materializar a inventividade, o resultado só pode ser esse que o Rio Grande do Sul colhe, com o avanço expressivo no número de empreendimentos jovens e com possibilidades de crescimento veloz. É interessante ainda observar que apesar de a maior parte destas empresas emergentes estar localizada em Porto Alegre (56,87%), elas se espalham também por outros polos como São Leopoldo (5,60%), Caxias do Sul (5,43%), Santa Maria (4,90%), Pelotas (3,06%) e Canoas (2,45%). O potencial gaúcho como celeiro de startups, portanto, é descentralizado, um trunfo para um desejado desenvolvimento regional mais equilibrado. 


25 DE OUTUBRO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Meu candidato

Antes de caminhar cinco quadras da minha casa até a Escola Estadual Professores Langendonck no próximo domingo, para digitar meus votos na urna eletrônica e dar por encerrado o mais angustiante processo eleitoral que já acompanhei em meio século como eleitor, tenho um encontro marcado como meu candidato preferido para encaminhar nosso país para um futuro digno. Será na próxima sexta-feira, no centro de Porto Alegre, onde ele reunirá partidários fieis, simpatizantes e curiosos de todos os matizes ideológicos, de todas as origens étnicas e de todas as crenças, sem qualquer distinção.

Refiro-me a Sua Excelência, o Livro.

No final da semana, depois de dois anos de restrições impostas pela pandemia, começa a 68ª Feira do Livro de Porto Alegre, com mais de 170 expositores, cerca de 150 autores e totalmente presencial. Sob o inspirado slogan "uma boa festa tem história", o evento promovido pela Câmara Rio-Grandense do Livro vem sendo isso mesmo desde 1955, uma celebração da cultura, da educação, da ciência e da esperança em um país melhor.

Quando entro naquela escolinha de periferia para votar, gosto de percorrer salas e corredores enfeitados por murais com trabalhos pedagógicos, desenhos coloridos e avisos diversos para estudantes e professores. Sei que aqueles recados estão lá porque um dia alguém transformou suas ideias em sinais gráficos e outros alguéns pesquisaram muito e trabalharam duro para deixar conhecimento para a posteridade. Os livros são o registro de nosso andar pelos séculos e ajudam a dar sentido à história da humanidade.

Claro que livros podem ser bons e maus, pois a página em branco recebe o conteúdo que seu autor decidir registrar. E o leitor mais crédulo pode ser tão iludido quanto o são alguns usuários de redes sociais que não questionam as informações que recebem. Mas quem passa pelos bancos escolares, com a supervisão e a orientação de mestres dedicados, tem mais chance de sair capacitado para interpretar adequadamente o que lê e para não repassar conteúdos falsos ou tendenciosos.

Na fila do voto do colégio, leio com atenção os murais e me emociono com a visão dos trabalhos infantis. Eles me fazem pensar que aquelas crianças que frequentam o Langendonck e outras escolas do país terão a oportunidade de se tornar bons cidadãos, quem sabe até mesmo lideranças políticas melhores do que as atuais, mais focadas em insultos, mentiras e armas do que na educação e nos livros.

NÍLSON SOUZA

25 DE OUTUBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Na estrada com Martha Medeiros

Cronista consagrada e autora de best-sellers inesquecíveis, Martha Medeiros (foto) está chegando com mais um livro e nos convida a pegar a estrada com ela. Em Um Lugar na Janela 3 (L&PM, 128 páginas), a escritora abre outra vez o diário de viagens e dá continuidade à série iniciada em 2012, com um novo (e eclético) roteiro - do Pampa profundo aos encantos de um mês inteiro em Paris.

- Amo viajar. Quando veio a pandemia, a saída foi embarcar nas memórias de viagens passadas. Por sorte, eu tinha estoque - brinca Martha.

O mais difícil de ler os 12 textos escritos por ela é resistir ao ímpeto de comprar a primeira passagem que aparecer pela frente e correr o mundo. Mas, antes de atender ao apelo irresistível, anota aí na agenda: o lançamento será no dia 5 de novembro, às 18h, na Feira do Livro de Porto Alegre.

- Vai ser lindo. Adoro autografar na feira. Faz 30 anos que repito esse ritual. É sagrado e me faz bem - diz a autora.

Por que o RS é considerado o mais inovador do Brasil

Nunca se falou tanto em inovação, mas o que o termo significa na prática? Passou quase despercebida a notícia de que o Rio Grande do Sul foi considerado - pelo segundo ano consecutivo - o Estado mais inovador do país no ranking de competitividade do Centro de Liderança Pública (CLP). O que explica isso? Vale a pena olhar os dados com lupa.

Na análise, o CLP utilizou cinco parâmetros. Em dois deles, o Estado recebeu nota máxima e ficou no topo: patentes e empreendimentos inovadores. Vamos aos detalhes.

No primeiro item, a proporção de registros de novas ideias e produtos no RS superou inclusive os números de São Paulo em 2021, com destaque para as universidades federais (em especial a de Pelotas) e grandes empresas, como Braskem e Randon.

Quanto aos empreendimentos, o RS está à frente das demais regiões devido à grande quantidade de parques tecnológicos (16), incubadoras (43) e startups (mais de mil) a cada milhão de habitantes. Santa Catarina, por exemplo, ficou em 4º lugar no quesito.

- Somos muito fortes nessas áreas, e isso é fruto dos esforços de empresas, universidades, entidades da sociedade civil organizada e poder público - diz Alsones Balestrin, secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia.

Os outros três critérios analisados foram bolsas de mestrado e doutorado (ficamos em 6º), pesquisa científica (6º lugar) e investimentos públicos (23ª colocação) - aqui, vale a ressalva de que o dado ainda não contempla os R$ 112 milhões do programa Avançar na Inovação, do governo estadual, o que tende a melhorar a posição em 2023.

É evidente que ainda há desafios para consolidar esse cenário - ou ecossistema, como dizem os entendidos -, mas os resultados estão aí. E são promissores.

JULIANA BUBLITZ

segunda-feira, 24 de outubro de 2022


Querido deputado federal

Eu o conheci na TVE, quando você foi o presidente da emissora. Sempre estava de bom humor, alegre, motivador, um homem bonito afeiçoado às câmeras, dono de um bordão imitado por todos os gaúchos: "Sucesso!".

Fui seu estagiário de jornalismo no início dos anos 1990, no departamento de Divulgação e Marketing. Repassava a programação e os destaques da grade da televisão para a imprensa. Você foi responsável por uma gestão animada, buscando elevar o padrão cultural da nossa prestação de serviço, brigar por ibope, não reduzir o nosso sinal a um mero traço.

Pois, humildemente, peço que revise as suas opiniões. Acho que entrou em um caminho equivocado de barbárie, incitando o ódio quando estamos precisando de amparo e colo. Não se brinca com a morte. Não se brinca com o luto. Não se brinca com a tragédia. Não sei o que aconteceu durante esse tempo em que não nos falamos, mas você está diferente, está transtornado de raiva, não pode estar feliz dizendo o que disse.

Como você pode caracterizar alunos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e de Pelotas (UFPel) de inúteis? Qual a legitimidade da ofensa? Chamar atenção? Assim você só perde o respeito. Como pode declarar que os alunos de Santa Maria merecem ser queimados vivos?

Ainda que fosse uma alusão ao filme Tropa de Elite, não era o momento, nunca será o momento. Mesmo que pretendesse insinuar que, se os alunos "alienados", "filhos de papai" defenderem um posicionamento de esquerda, terminarão queimados vivos dentro de pneus pelos bandidos, isso não representa uma comparação apropriada.

Depois de tudo o que aconteceu na boate Kiss? Depois de uma cidade jamais se recuperar de um incêndio que matou 242 filhos? Você não é pai? Não tem piedade? 

Você pode se opor politicamente ao protesto organizado pelos estudantes contra os cortes orçamentários nas instituições de Ensino Superior, resultado de um bloqueio no Ministério da Educação (MEC) anunciado no início do mês, mas de modo nenhum ser desumano e insensível.

Há certas palavras que não têm como ser corrigidas. Elas morrem na boca, apodrecem um por um dos dentes pelo veneno letal da indiferença. Roubam a inocência do riso. As famílias de Santa Maria não terão suas crianças de volta. Sabe o que significa um disparate macabro reacendendo os fatos? O peso da zombaria? O julgamento foi anulado, e ainda não houve justiça depois de quase uma década.

O ventre e o coração secaram desidratados de saudade. Os lares permanecem aniversariando ausências, presos para sempre na véspera de vida daquela fatídica madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando ainda havia esperança.

Desejo não perder a humildade de um estagiário. Sou só um estagiário que passou em sua vida, mas vivo de cada palavra que lanço para fora de minha alma.

Cordialmente,

CARPINEJAR



24 DE OUTUBRO DE 2022
ARTIGOS

DOUTOR, EU NÃO FALO A SUA LÍNGUA

A linguagem é um dos elementos de identidade mais consistentes numa cultura, mas também é uma das formas de estratificação social e, nesse contexto, apresenta potencial para se transformar num mecanismo de poder - por meio da concentração do saber - e num distanciador poderoso entre as pessoas. Se é um processo de mão dupla e produz ação, como dizem os teóricos da linguagem como processo dialógico, ela também pode produzir apatia, desconforto e sentimento de não pertencimento.

Esse pressuposto nos permite analisar o discurso jurídico como perpetuador da desigualdade produzida pelo uso da linguagem. A igreja católica, por exemplo, abandonou o latim da sua liturgia há mais de 50 anos. Já o Poder Judiciário brasileiro, além de priorizar o uso de linguagem técnica e rebuscada, mantém o uso de expressões em latim, em total dissonância com a realidade dos seus jurisdicionados, os cidadãos brasileiros. Ora, se o acesso à Justiça é um direito constitucional, como garantir a efetivação deste direito se a comunicação entre a jurisdição (Poder Judiciário) e o jurisdicionado (cidadão) não se efetiva?

Recentemente, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul lançou um guia de linguagem simples. O material, que está sendo distribuído para comarcas de todo o Estado do Rio Grande do Sul, traz uma série de orientações sobre como simplificar a linguagem utilizada, tanto interna como externamente, a fim de facilitar a compreensão dos atos e das decisões e promover inclusão social, transparência e cidadania.

São pequenos, mas importantes passos para que o Poder Judiciário desça do seu pedestal e passe a falar de igual para igual com o cidadão. E para isso, é preciso entender que a concretização do direito à Justiça pressupõe acesso; acesso pressupõe comunicação; comunicação pressupõe que se utilize a língua, um dos principais códigos da linguagem, de forma que se consiga fazer entender. E não é em latim que isso vai acontecer.

SANDRA DENARDIN

24 DE OUTUBRO DE 2022
EMPREENDEDORISMO

Número de startups gaúchas cresce cerca de 70% em 2022

Estado supera mil empresas em atividade na modalidade e se consolida como o terceiro maior ecossistema do país

Em 2022, o Rio Grande do Sul rompeu a barreira das mil startups em atividade. Ao longo do ano, a quantidade de empresas, nos mais diferentes estágios de maturidade, avançou 73% - de 661, em dezembro de 2021, para 1.144, atualmente. De acordo com os dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), os ecossistemas de Porto Alegre, São Leopoldo, Caxias do Sul, Santa Maria, Pelotas e Canoas detêm a maior concentração do mercado no Estado.

O salto ocorre em cenário considerado positivo e passa pela evolução do interesse por inovação nas grandes corporações e o aumento exponencial dos investimentos. Gustavo Araújo, CEO e cofundador da consultoria Distrito, que reúne informações do segmento, lembra que, em 2019, ano anterior à pandemia, foram aportados US$ 3,5 bilhões em startups no Brasil. Em 2021, após alta de 177,1%, os dados indicam US$ 9,7 bilhões.

- Um crescimento brutal de investimento de venture capital (via fundos) cria um ciclo positivo no mercado. Há muito dinheiro sendo alocado em tecnologia e, ao mesmo tempo, um amadurecimento dos ecossistemas, com mais empresas buscando inovação digital e em contato com as start- ups - anota.

Araújo também percebe maior equilíbrio entre a relação de risco e retorno do que no passado recente. Segundo ele, o fator amplia a quantidade de empreendedores e gera uma valorização robusta das empresas.

- São startups que resolvem problemas complexos com boas oportunidades. Por essa razão, é muito comum ver executivos de altas posições deixando seus cargos para empreender - resume.

Dentro da nova leva de startups gaúchas, Rafaela Mendes Reinehr e os sócios, Guga Ferreira e Júlia Lorenzon, literalmente, "uniram a fome com a vontade de comer". Durante a pandemia, Rafaela que é formada em administração, comentou com a amiga e nutricionista, Júlia, a respeito da dificuldade de encontrar comidas saudáveis, apesar dos filtros disponíveis nos aplicativos de delivery tradicionais.

- Recorria muito aos pedidos e até ia para os apps com boa intenção, mas acabava caindo em tentação. Esse foi um problema que aconteceu com muita gente e tem relação direta com o ambiente alimentar digital. Ou seja, há muita exposição de opções de fast food em redes sociais e streamings de séries e filmes, que acabam influenciando a escolha do consumidor. Resolvemos criar uma alternativa de delivery com curadoria de nutricionistas para dar segurança aos consumidores - conta a empreendedora.

Estreia

Nascia assim a Pede que Nutre. Em abril, depois de lançar a ideia, a startup venceu uma batalha no Gramado Summit, recebeu investimentos de R$ 200 mil da aceleradora gaúcha Ventiur e pôde ingressar no ecossistema do Tecnopuc, em Porto Alegre.

No início de julho, a empresa estreou no mercado. Desde então, conta com a oferta de produtos de 20 estabelecimentos. A taxa de recorrência dos pedidos supera a marca de 50% e o crescimento bateu os 60% em setembro.

- A meta é, até o final do ano, levar a Pede que Nutre para mais duas localidades, além de Porto Alegre - projeta Rafaela.

RAFAEL VIGNA