sábado, 29 de março de 2014


Bom Dia Ternurinha !


A vida é o nosso bem mais precioso,
é tão forte;
sendo capaz de mudar o mundo
Todos os momentos são mágicos
e cabe a cada um de nós, deixá-los mais
marcantes.
Seja feliz e faça alguém feliz também!
Estamos todos em busca de:
amor, amizade, paz,
esperança, afeto, sonhos.

O que vale
realmente é sermos Felizes...


BOM DIA....

Se perder um amor... não se perca!
Se o achar... segure-o!
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
O mais... é nada.
-Fernando Pessoa-

Tenha um dia encantado
Beijos meu...

Lindo sábado pra você
RUTH DE AQUINO
28/03/2014 22h31 - Atualizado em 28/03/2014 22h37

Ela estava pedindo

Para 65%, a vítima é culpada pelo estupro se usar short, decote ou saia curta

Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. É uma afirmação forte. Leia novamente, por outro ângulo. Homens que atacam mulheres com shorts, saias curtas ou decotes reveladores não têm culpa nenhuma. Eles não são agressores, apenas respondem a seu instinto humano e animal.

O homem, ao atacar, exerce o direito masculino de se apossar daqueles nacos de carne exibidos. Coxas, umbigo, linha dos seios, costas. Se ela mostrou na rua, em público, estava pedindo, não é mesmo? Nesse caso, se existe algum culpado de ataque sexual, claro, é ela. A fêmea que provoca o desejo do macho.

Se você acha que enlouqueci, saiba que faz parte de uma minoria no Brasil. Também sou minoria. Mesmo ciente do preconceito e do machismo entranhados em nossa sociedade, fiquei escandalizada com o resultado de uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), realizada entre maio e junho do ano passado, com 3.810 pessoas em todo o país.

A culpa é delas. É o que pensam os brasileiros sobre a violência contra a mulher

Segundo o levantamento, 65% dos entrevistados concordam parcial (22,4%)  ou totalmente (42,7%) com a afirmação “mulher que mostra o corpo merece ser atacada”. Não é só homem que acha isso. Muita mulher moralista, hipócrita e ciumenta acha o mesmo. Que queimem no inferno as mulheres fáceis e libertinas...ou apenas sensuais, bonitas e desejáveis que economizam no tecido.

Quinhentas e vinte e sete mil mulheres, adolescentes e crianças são estupradas por ano no Brasil. Isso significa que, a cada dia, ocorrem 1.443 estupros de seres do sexo feminino. São 60 estupros por hora. Um estupro por minuto. Não sei quanto tempo você leva para ler esta coluna. Marque no relógio e, no ponto final, saberá quantas mulheres, adolescentes e crianças terão sido atacadas sexualmente enquanto você pensa se faz parte dos 65% de brasileiros que culpam a vítima.

“Mulher ainda é vista como propriedade no país. Homem pode fazer o que quiser do corpo feminino.” Essa é a visão da socióloga Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Está no senso comum que a mulher provoca e, por isso, é estuprada, que ela apanha porque o marido estava nervoso, que ela deve tolerar as agressões para manter o núcleo familiar”, disse Samira ao jornal O Globo.

A pesquisa do Ipea revela um poço de preconceitos. Dá arrepio na alma. Mas prefiro me concentrar na parte mais atroz e cruel: a inversão da culpa nos ataques sexuais. Que explica também por que 58% dos entrevistados acham que, “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”. Eles culpam Eva e seus atributos físicos.

As famílias ajudam a perpetuar o preconceito. Pais e mães que se orgulham do filho “garanhão” e “comedor” e castigam a filha “namoradeira” e sexualmente livre contribuem para visões distorcidas dos gêneros. Ambas as atitudes – o orgulho e a rejeição – são equivocadas.

Escrevi uma coluna, “Os pegadores e as vagabundas”, que descreve exatamente essa dupla moral. O número alto ou baixo de parceiros sexuais não determina o caráter ou o real prazer de ninguém. A rotatividade na cama não deveria ser tachada de devassidão. Não sempre. A busca talvez? Mas o homem pode buscar, e a mulher não... ainda hoje, no ano 2014, ela é malvista.

Em cidades litorâneas e quentes onde se anda semidespido, como o Rio de Janeiro, fica claro, nos calçadões, o código do figurino diferenciado. Homens de todas as idades e corpos caminham de sunga, mas praticamente só as gringas caminham de biquíni, sem nada por cima. As cariocas têm receio de ser atacadas verbalmente ou fisicamente se andarem na calçada de biquíni.
>> Você é contra ou a favor de vagões só para mulheres?

Em São Paulo, passar a mão dentro do metrô e dos trens virou esporte de macho mal resolvido, que quer extravasar as frustrações. Homens foram presos em flagrante, sob acusação de abuso de passageiras jovens e bonitas. Alguns desses abusadores se gabam na internet de usar o transporte público para molestar as mulheres. Há os que se masturbam, que se encostam, que filmam as moças. Uma passageira disse ao Fantástico que anda no metrô com uma chave de fenda, por defesa pessoal. Outra pediu que a sociedade pare de julgar as mulheres pelas roupas. Mas esse dia parece estar longe. Sempre esteve.

Quando eu, garota de praia, estava perto de completar 11 anos, meu pai me proibiu de usar biquíni, porque tinha ficado “mocinha” – eufemismo para a primeira menstruação. Nem “duas peças” podia. Precisava ser maiô inteiro. Era uma ordem. Me senti confusa e humilhada, não protegida. Meu pai também destruiu uma minissaia a tesouradas, para eu não mostrar as coxas. Dizia que era para meu bem. Foi mesmo, porque ali, naquele apartamento de Copacabana, comecei a me rebelar.



29 de março de 2014 | N° 1774
EDITORIAIS ZH

Visão preocupante

São chocantes as conclusões de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelando que os brasileiros ainda mantêm uma visão retrógrada e machista em relação ao papel da mulher na sociedade. Nada menos do que 65% das 3.810 pessoas de ambos os sexos entrevistadas em 212 municípios disseram concordar com a afirmação de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.

A conclusão, somada a outras igualmente inconcebíveis como a de que 58,5% justificam estupros pelo comportamento das mulheres , demonstra o quanto o país ainda precisa evoluir na área social, para assegurar mais igualdade de gênero, com efetivo respeito mútuo. Os avanços dependem de campanhas institucionais eficientes e de caráter permanente, além de uma aposta firme na área educacional.

Um dos aspectos promissores do levantamento é o de revelar que, embora a visão dos brasileiros seja marcada, de maneira geral, pela ambiguidade, é nas faixas de menor nível educacional que a intolerância costuma ser maior. Ainda assim, e embora essa realidade seja reproduzida de forma massificada e até mesmo celebrada em manifestações culturais como músicas e danças, são perturbadoras as conclusões do estudo, agora respaldadas em números.

O que fica evidente é uma cultura marcada pela superioridade masculina, reforçada pela tendência à desqualificação do sexo feminino. Enquanto se mantiver preso a preconceitos e a concepções socioculturais deturpadas, o país não conseguirá resolver algumas de suas mazelas mais perturbadoras, a começar pela violência.

Conscientes do problema escancarado pelo levantamento, a sociedade e o poder público já vêm promovendo avanços de ordem legal que hoje estão na vanguarda da assistência a pessoas mais vulneráveis, como crianças, adolescentes, idosos e mulheres. Ainda assim, essa rede de proteção se choca com concepções pessoais largamente majoritárias, apesar de equivocadas.

Uma delas é a de que, embora a violência física contra a mulher seja rechaçada e punida, uma imensa maioria ainda acredita que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. E mais: que “roupa suja se lava em casa”. Esse olhar deformado para o problema ajuda a explicar tantos casos de violência doméstica e sexual, entre os quais o estupro, em grande parte cometidos, tolerados e acobertados no âmbito familiar.


Diante dos resultados, a presidente Dilma Rousseff advertiu ontem que “governo e sociedade devem trabalhar juntos para atacar a violência, dentro e fora dos lares”. O Brasil só será um país mais justo quando seus cidadãos conseguirem encarar-se uns aos outros com mais respeito, acima de quaisquer diferenças, o que depende sobretudo de um consistente avanço educacional e cultural.

29 de março de 2014 | N° 17747
NÍLSON SOUZA

A última notícia

Jornalista perde o amigo, mas não perde a oportunidade de dar uma notícia.

Outro dia, um colega de trabalho ficou doente e passou alguns dias hospitalizado. Lá pelas tantas, recebeu o telefonema amável de outro companheiro de redação que parecia sinceramente interessado na sua saúde. Queria saber como foi a cirurgia, se ele sentia alguma dor, se a família estava bem, até que de repente perguntou:

– Tu nasceste em Rosário ou em Uruguaiana?

O doente saltou na sua cama de manivela:

– Tá fazendo o meu obituário, filho da mãe!

Os dois, felizmente, continuam firmes e fortes por aqui, rindo do episódio. Gente do meu ofício, que não é melhor nem pior do que integrantes de outras tribos profissionais, carrega no sangue esse compromisso irrenunciável com a notícia e uma verdadeira obsessão pela antecipação de fatos. Se sabemos que vai acontecer, por que não deixar o relato pronto? Às vezes, nos quebramos, como no caso de jogos de futebol disputados na hora do fechamento e que têm o resultado alterado nos acréscimos. Já vi muito colega torcendo contra o time de sua predileção para não ter que mudar o texto.

A questão do obituário é mais curiosa. Nada é tão certo como a morte. Então... É raro, mas de vez em quando a imprensa mata alguém que continua vivo. É célebre a história do escritor Mark Twain, que acabou virando referência para casos semelhantes. Ao ler uma notícia sobre seu próprio óbito, ele reagiu com ironia:

– Parece-me que as notícias sobre minha morte são ligeiramente exageradas.

Pois ocorrências desse tipo, que não são incomuns no ambiente jornalístico, estão ameaçadas pela nova tendência europeia do “selfie obituary”, pela qual o próprio morto deixa redigida a sua derradeira notícia. É um desafio e tanto isso de escrever o que desejamos que outras pessoas leiam sobre nós quando não estivermos mais aqui. Como manter a equidistância? Nada mais pernóstico do que um autoelogio póstumo. Nada mais falso do que uma autocrítica sem o risco de vermos sinais de assentimento no rosto dos leitores.

Se tivesse que me submeter a um exercício surrealista desses, apelaria para a objetividade característica da minha profissão:

– Deixou-nos ontem, aos 113 anos, o jornalista...


Pensando bem, é melhor aguardar o telefonema do colega solidário.

29 de março de 2014 | N° 17747
PAULO SANT’ANA

Parabéns, Porto Alegre!

Completou, na quarta-feira passada, 242 anos de fundação minha querida Porto Alegre.

Continuou debruçada à beira do Guaíba, o rio que foi massacrado durante os últimos 60 anos por uma poluição encarniçada.

Eu ainda alcancei, nos anos 50, um Rio Guaíba balneável. Em Belém, a gente entrava no rio com água até o pescoço e, incrível, viam-se junto aos nossos pés, lá no fundo, os lambaris balouçantes, era uma água cristalina. Juro que alcancei esse tempo de delícias.

Apareceram nos últimos anos o Parque Moinhos de Vento e o Marinha do Brasil para reforçarem o alquebrado Parque Farroupilha, a nossa Redenção, que resiste bravamente à estupidez indizível de não a terem cercado.

Acontece que nós, que nascemos em Porto Alegre, clamamos veementemente aos poderes públicos para que cerquem a Redenção. Mas os forasteiros, os que vieram de outras cidades e foram acolhidos por Porto Alegre, não querem que se cerque o Parque.

E assim vemo-lo todos os dias sendo depredado, suas estátuas são quebradas, suas árvores e equipamentos são agredidos.

E o fantástico é que toda a destruição da Redenção se dá à noite, quando só frequentam o Parque os vândalos e os vagabundos.

Por isso é que se tem de cercá-lo, para protegê-lo à noite e abri-lo estuante durante o dia.

Fez, nesta semana, 242 anos de idade a nossa querida Porto Alegre. Quando nasci, Porto Alegre era ainda uma quase aldeia, tinha 400 mil habitantes apenas. Agora já virou metrópole pretensiosa, embora incrivelmente ainda não tenha metrô. Se o tivesse, seria uma metrópole maior de idade.

Porto Alegre do meu tempo tinha bondes, hoje deu-se lugar imbecilmente a milhares de ônibus poluentes que emperram o trânsito, porém de greve em greve vão quebrando o galho do transporte público.

Reparam, os meus leitores, que os morros que circundam Porto Alegre foram lamentavelmente crivados de habitações?

Quando eu era criança, o Morro da Polícia era pelado de casas, hoje ficou repleto de residências e perdeu aquele ar silvestre que tinha. Certamente os pássaros foram expulsos não sei para onde, deixaram a cidade e com isso esmaeceram a poesia.

Mas está aí, ainda oferecida diante dos nossos olhos, nossa querida Porto Alegre, a capital de todos os gaúchos.

Saiu daqui de Porto Alegre, onde estava refugiada de sua Minas Gerais, a nossa estimada Dilma Rousseff para ser presidente da República. Reconheçamos que ela tem dado atenção especial a Porto Alegre e ao Rio Grande.


Mas ainda falta o nosso metrô, dona Dilma.

29 de março de 2014 | N° 17747
CLÁUDIA LAITANO

Todo dia é dia dos bobos

Não sei se caiu em desuso junto com o kichute e o estojo de madeira, mas o dia 1º de abril já foi uma data importante no calendário escolar não oficial. Temido por uns, ansiado por outros, o Dia dos Bobos era o exame nacional de admissão na elite dos espertinhos – que nem sempre, ou quase nunca, eram os mais espertos segundo as normas convencionais de avaliação.

Malandros preparavam-se para o 1º de abril com a diligência que jamais demonstravam nas tarefas de casa ou na preparação de provas. Havia brincadeiras elaboradas, que exigiam um roteiro complexo e às vezes até o auxílio de figurantes, além do talento histriônico de um ator shakespeariano. Às suas vítimas em potencial, restava torcer por um golpe de sorte que os alertasse, antes de sair de casa, de que aquele era um dia para desconfiar de tudo – do conteúdo do pastel da cantina à chegada do homem na Lua.

Quantos salafrários profissionais podem ter dados seus primeiros passos no ofício pregando peças na escola, gargalhando diante da cara de tacho de um colega boa-praça. Não que todo gozador da infância tenha crescido para adulterar o leite das crianças ou convencer os outros a comprar usinas de petróleo a preço de minas de ouro, mas muitos talvez tenham descoberto ali, naquele ensaio de dissimulação tão naturalmente engendrado e posto em prática, um talento para o engodo que não haviam percebido antes.

Se hoje o 1º de abril perdeu um tanto de graça e outro tanto de utilidade (além, é claro, de continuar servindo para fazer troça do Golpe de 64), talvez seja porque a internet tornou possível um calendário com 365 dias da mentira por ano. Abra agora a sua caixa de e-mail e é possível que você encontre pelo menos uma das seguintes mensagens:

1) Sua senha de banco está com problemas. Entre aqui e resolva.

2) Sou uma senhora africana que acaba de perder o marido. Preciso da sua ajuda para recuperar US$ 1 milhão da herança e salvar meus filhos da fome.

3) Tenho fotos suas comprometedoras do último Carnaval. Entre em contato urgentemente comigo.

Além dos e-mails falsos, muito criativos em alguns casos, há ainda as contribuições diárias das redes sociais postadas indistintamente por crédulos e mal intencionados: teorias conspiratórias (“conglomerado americano derrubou o avião da Malaysian Airlines”), falsas notícias (“consulado espanhol está distribuindo passaportes europeus para 5 mil sobrenomes comuns no Brasil”), histórias mal contadas sem fonte confiável e histórias bem contadas e de fonte confiável, mas que não foram adequadamente checadas (“ditador da Coreia do Norte manda todo mundo cortar o cabelo igual ao dele”).

A vida cotidiana tornou-se um campo minado para os de natureza crédula e confiante, para aqueles que não achavam graça em fazer os outros de bobos e que às vezes caíam nas brincadeiras por excesso de boa vontade com o gênero humano. Ainda assim, se pudessem voltar no tempo e optar por um dos dois lados, boa parte deles talvez escolhesse permanecer dormindo o sono tranquilo daqueles que não desconfiam de tudo a sua volta e que sempre acabam apostando no melhor lado daquilo que ainda não se mostrou nem bom nem ruim.


Mas, vai saber, talvez até isso seja apenas ingenuidade da minha parte.

sexta-feira, 28 de março de 2014

BOM FIM DE SEMANA


Que a gente amanheça com
um olhar comprido, capaz de
enxergar as miudezas mais
belas da vida.

* Priscila Rôde *



Bom Dia Anjo!

“Há
Momentos na vida em que é melhor calar,
Deixando que apenas o silêncio fale ao
Coração, pois existem sentimentos que
A linguagem não consegue expressar, assim
Como existem emoções que
As palavras não podem traduzir.

By Keyla
Bom Dia Anjo!

Se ame em primeiro lugar e sorria...
Sorria afastando de ti tudo aquilo que não lhe convêm
E que não contribua para a sua felicidade, erga sua cabeça
E siga em frente, se o passado te atormenta faça o presente
valer tanto a pena para você nem ter lembranças do mesmo.
Você é a protagonista da sua vida, só você tem
Omanuseio do que pode te atingir e o que não pode.

By Keyla






BOM DIA!

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz.

Clarice Lispector







BOM DIA!

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar nossas fraquezas. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto pouco salgado, produto de nossa DOR mais profunda.

Clarice Lispector





Jaime Cimenti

Feliz aniversário, Porto Alegre!

Só 242 aninhos. Tu ainda és muito guria, Porto Alegre. Isso é nada perto da eternidade, que é para onde te encaminhas. Venceste, permaneceste, cresceste e faz tempo que não és mais a açoriana tímida do centro da cidade, que depois se tornou polaquinha na zona norte, italianinha na Vila Nova, judia no Bom Fim, africana na Cidade Baixa e no Rio Branco, alemãzinha na Floresta e no Moinhos de Vento, e mais um monte de gentes do mundo que acolheste com carinho, tu, plural, democrática e cheia de vidas diferentes que és!

De cidade pequena te tornaste grande cidade pequena, depois pequena cidade grande, depois cidade grande e agora, com dois títulos mundiais de futebol e outras cositas mas, és uma grande cidade grande, uma metrópole de quase um milhão e meio de almas.

Dia 5 de abril vais ganhar um belo presente de aniversário, o maior e mais lindo que poderias receber este ano. Tipo o skyline de Nova Iorque, ao chegar aqui, os porto-alegrenses e os visitantes agora, vão vislumbrar nossa porção Manhattan, a ponta do Gasômetro e tal e, na beira do Guaíba, vão se deslumbrar com uma obra de arte que lembra um gigantesco diamante, o majestoso estádio Beira-Rio, que foi eleito, com justiça, por uma enquete, o estádio mais bonito do Brasil.

Com o devido respeito, carinho e consideração aos outros estádios e às muitas arenas, bastante parecidas umas com as outras, o Beira-Rio é diferente, individual, criativo, único, enfim, um presente de Deus para a humanidade.

Na Copa do Mundo, Porto Alegre e o Beira-Rio serão motivo de alegria e orgulho para todos os gaúchos e brasileiros, e também para os queridos hermanos uruguaios, argentinos e paraguaios. Tenho certeza de que todos se sentirão orgulhosos e felizes com o diamante gigante, que embeleza a paisagem e fará Porto Alegre brilhar ainda mais, de dia e de noite. Parabéns, querida Porto Alegre, nosso berço, nosso chão e nosso túmulo!


De tão forte e vencedora, estás recebendo cada vez mais turistas e já contas com 20 mil leitos para os hóspedes deitarem e sonharem, ou, como disse o Quintana, acordarem para dentro. És única, múltipla e diversa, cidade-sorriso! Mesmo que não seja abril ou outubro, os meses de clima bom, não és apenas um bom lugar para se voltar. És casa aconchegante para estar sempre. Mesmo e principalmente no frio, és nosso cobertor de orelha preferido. Sempre vais ser. Feliz níver, Portinho! Campai, longa vida, felicidades, fica com Deus!
Jaime Cimenti

O revolucionário poder do humor

Humor é coisa séria, do médico, psicanalista, escritor e articulista porto-alegrense Abrão Slavutzky apresenta, antes de tudo, através de um verdadeiro tratado, mas muito bem-humorado, um panorama inédito, criativo e provocativo do revolucionário poder do humor. A obra resulta de três décadas de estudo do autor e seu fio condutor é a leveza.

Abrão constrói uma história cultural do humor, na qual discorre, entre dezenas de tópicos, sobre o poder libertador dos filmes de Charles Chaplin, a sabedoria de Dom Quixote, o humor de Woody Allen, o nascimento e o desenvolvimento do humor infantil e a linda obra do escritor Scholem Aleichem, que nos deixou o inesquecível personagem Tevye, o leiteiro, do livro, peça de teatro e filme O violinista no telhado.

Rir sempre foi o melhor remédio, e os bons médicos sempre recomendaram a terapia do sorriso. O povo judaico, de modo muito especial, sempre soube da importância transcendental do humor, até como meio de sobrevivência, em meio a uma trajetória de muitos sobressaltos, perseguições e barbáries. Freud com a psicanálise, claro, não poderia ter deixado de tratar do tema, e Abrão Slavuzky enfoca-o e reflete sobre a visão do mestre.

Como disse o prefaciador Renato Mezan, Abrão nos convida a uma tripla viagem: pela história da cultura, pelas condições psicológicas que favorecem a eclosão do humor ou a ela se opõe e pela intimidade do consultório de um analista.

O livro impressiona pelo tamanho da pesquisa, pela profundidade, pela clareza e, também, pela generosidade com a qual oferece suas experiências pessoais e profissionais, como psicanalista, sobre situações em que o humor foi essencial para sua vida. Enfim, Humor é coisa séria é dedicado a todas as pessoas que já tenham sentido a necessidade de sorrir diante dos assombros e das tristezas da vida, como fizeram, por exemplo, os judeus nos campos de concentração. Ou, como fizeram muitos humoristas brasileiros, nos períodos das ditaduras para superar as barras-pesadas. Brinque de ser sério, leve a sério a brincadeira, disse Rita Lee, numa de suas canções.


Como está dito na apresentação do livro, parafraseando o grande italiano Ítalo Calvino, “num mundo pleno de tragédias, devemos tentar identificar aquilo que, em meio ao trágico, é tragicômico ou cômico, e preservar o humor”. Abrão preservou o humor. É muito e é essencial para essa vida. Arquipélago Editorial, 344 páginas, www.arquipelagoeditorial.com.br. 

28 de março de 2014 | N° 17746
ARTIGOS - Jônatas Marques Caratti*

Vinte anos de escravidão

Está em cartaz nos cinemas o filme 12 Anos de Escravidão, que conta a história de Solomon Northurp, um homem negro nascido livre em Nova York, mas sequestrado e vendido como escravo para o sul dos Estados Unidos. Solomon sabia ler e escrever numa época em que muitos brancos não sabiam e também tocava violino.

No entanto, ao ser escravizado ilegalmente, recebeu um novo nome, Platt. Solomon foi obrigado a não falar seu verdadeiro nome. Northurp foi vendido a diversas senhores, viajou num imundo navio negreiro, foi leiloado como mercadoria e trabalhou em plantações de algodão e açúcar. Finalmente, após 12 anos procurando meios de libertar-se, Solomon foi localizado e libertado por seus antigos amigos, que o conheciam e sabiam de sua verdadeira identidade.

Os leitores, a esta altura, devem estar pensando que o título deste artigo é um equívoco. Foi, na verdade, uma provocação. O que quero revelar é que casos de escravização como o de Solomon Northurp aconteceram aqui no Brasil e, mais especificamente, aqui em nosso Estado, na época chamado Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Não é preciso ir longe para encontrarmos experiências de reescravização e escravização ilegal. É só dirigir-se à Rua Riachuelo, 1.031, no Arquivo Público do Estado, situado no centro histórico de Porto Alegre. Lá, o interessado encontrará milhares de documentos que revelam casos cinematográficos que mereceriam ser gravados por cineastas gaúchos.

A africana Joaquina Maria fugiu de Jaguarão em 1843, para dirigir-se ao Uruguai, país que aboliu a escravidão em 1842, muito antes do Império do Brasil. De lá, sua filha, nascida livre, foi apreendida e vendida como escrava em Pelotas. Também do Uruguai, o menino Anacleto, de apenas nove anos de idade, foi levado em 1860 por um índio e um mulato e foi vendido em Rio Grande.

A jovem Reina, em 1854, estava preparando a ceia quando sua casa foi invadida por três sequestradores que a levaram para São Leopoldo, depois de duras jornadas feitas na calada da noite. Em 1858 na cidade de Bagé, Baltasar, de 12 anos, foi amarrado quando brincava perto da cadeia e vendido como escravo em Pelotas.

Vinte anos de escravidão. Foi entre os anos de 1842 e 1862 que localizei em arquivos a história desses indivíduos negros livres ou libertos que foram reescravizados ou escravizados ilegalmente. Alguns destes, como Solomon, foram encontrados e libertados. Outros não tiveram a mesma sorte.

Vivemos num país onde o preconceito e a exclusão social são presentes. As marcas da escravidão ainda são percebidas. Quem puder assistir ao tocante e dramático filme 12 Anos de Escravidão, assista. Mas, por favor, não esqueçam dos 20 anos – e tantos outros – de escravidão por qual passaram diversos personagens de nossa história. Suas vivências também merecem ser contadas e, quiçá, gravadas.


*PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E HISTORIADOR

28 de março de 2014 | N° 17746
PAULO SANT’ANA

Justiça cruelmente injusta

O noticiário internacional de ontem foi dominado por um fato: o japonês Iwao Hakamada foi libertado após ficar 46 anos no corredor da morte, acusado de ter assassinado quatro pessoas, uma família inteira.

Hakamada foi condenado à morte, 46 anos atrás, por apunhalar até a morte o dono de uma pequena fábrica em que trabalhava, a mulher dele e seus dois filhos.

Durante o julgamento e em todos esses 46 anos de prisão, ele sempre se declarou inocente do crime e várias organizações de direitos humanos denunciaram que a investigação sofreu todo tipo de irregularidade.

O ex-boxeador de 78 anos disse ter sido coagido pela polícia a assinar uma confissão.

Ele, ontem, ao ser libertado, não mostrava expressão nenhuma, nem de dor nem de revolta. Foi recebido por sua irmã e por vários meios de comunicação.

Para simplificar, um homem inocente passou 46 anos encarcerado e agora se viu que não era o assassino.

Notem que o noticiário assinala que Hakamada sofre agora, ao ser libertado, de uma doença mental, pelo que pergunto: como não enlouquecer na prisão, durante 46 anos, com a consciência de que era inocente?

Se um homem culpado de crimes já deve sofrer na prisão, mesmo tendo sua consciência acicatada pela culpa, imaginem o sofrimento atroz e contínuo de um inocente trancafiado na prisão durante quase meio século.

O forte sentimento de injustiça que martela a sua mente só pode mesmo levá-lo à loucura.

Por isso é que sempre preguei, diante da discussão da pena de morte, que só poderia haver a pena máxima em um caso em que não sobrevivesse no processo qualquer dúvida sobre as acusações lançadas sobre o réu.

Só agora noto que eu estava errado: em qualquer caso, mesmo quando não seja o da pena de morte, ninguém poderá ser condenado quando se aflorar no processo a mínima dúvida sobre a acusação.

Por sinal, existe um brocardo que afirma, em latim, in dubio pro reo, ou seja, no caso de dúvida o réu tem de ser absolvido. Não o réu de pena de morte, mas o réu de qualquer crime menos grave.

Aparecendo dúvida no processo, os juízes ou os jurados tinham de ter a obrigação legal e compulsória de absolver o acusado

Agora, me dói como deve doer a todos o caso desse japonês injustiçado.

Por falha da lei japonesa e que é falha também da lei brasileira: todo réu em cujo processo aparecer a mínima dúvida tem de ser imediatamente considerado inocente. E, se estiver preso, terá de ser na hora libertado.

É claro que a dúvida de que falo tem de ser relevante. Caso contrário, se dirá que sempre aparece dúvida em qualquer processo.


E eu, por sinal, não tenho dúvida: agora que foi provada a inocência, não vão enlouquecer também os que condenaram esse triste homem?

28 de março de 2014 | N° 17746
DAVID COIMBRA

O jornalismo engajado

Eu acredito no jornalismo. Falo do jornalismo ortodoxo, clássico, o jornalismo dos repórteres que salvam o Brasil na mesa do bar, o que tem por maior objetivo a busca da isenção e daquela entidade vaga e impalpável, a Verdade com vê maiúsculo.

Alguém dirá que cada um tem a sua verdade, que não existe uma única verdade.

Certíssimo. O mesmo fato é visto de formas diferentes por pessoas diferentes. É por isso que não existe imparcialidade. O jornalista é parcial porque ele enxerga o fato do seu ponto de vista, da sua parte. Mas ele pode, e deve, sim, tentar relatar o fato com isenção. Mesmo a opinião deve ser isenta, embora jamais seja, nem deva ser, imparcial. Quer dizer: você dá a sua opinião com honestidade intelectual. Não há segundas intenções no que você diz achar. Você acha mesmo, é o seu pensamento, fruto de reflexão, não de pré-conceitos ou de, o horror!, interesses escusos.

Por isso, não acredito no jornalismo engajado, defendido por pensadores respeitáveis, como o Verissimo. Nem no jornalismo engajado da revista Veja, nem no da Mídia Ninja. Não acredito no jornalismo engajado com boas nem com más intenções. O jornalismo engajado até pode ser sincero, mas não é honesto, porque não tem mais nenhuma ambição de isenção.

Alguém, aquela mesma pessoa que disse que cada um tem sua verdade, alguém dirá que num veículo que se anuncia isento o patrão tem sua posição, e que o patrão é mais forte do que o repórter.

Certíssimo de novo. Mas, se o patrão preza o seu negócio, se ele quer ganhar dinheiro com jornalismo, ele terá de preservar sua principal mercadoria, que é a credibilidade. Então, ainda que ele odeie e discorde do que um reporterzinho mixuruca escreveu ou falou, ele terá pruridos de se imiscuir na notícia, porque ele tem de preservar pelo menos a aparência de isenção. Um dono de jornal que quer ganhar dinheiro com jornal não pode admitir a censura ou a manipulação, e se ele censura e manipula, será escamoteando, será com vergonha daquele reporterzinho mixuruca que mora num quarto e sala na Azenha.

Hipocrisia. É o que salva o jornalismo, os casamentos e a civilização. Um repórter de mídia engajada não é um repórter; é um assessor de imprensa. Ele pode ter a convicção de que é um paladino dos oprimidos ou pode se contentar em ser um mercenário da informação, não importa: ele é um assessor de imprensa. Porque ele tem de ser de esquerda ou de direita, isso ou aquilo, ou não trabalhará no veículo engajado. E o repórter, acredite, sagaz leitor, o repórter é a estrutura óssea do jornalismo.

Enquanto existirem repórteres que saem à rua com a única intenção de ver, ouvir e apurar para, depois, relatarem exatamente o que viram, ouviram e apuraram, enquanto houver repórteres com esse espírito, repórteres de verdade, de bloco e caneta na mão, que passam o dia com o olho alerta para a grande pauta, que passam a noite lavando a poeira da garganta com cerveja e salvando o Brasil na mesa do bar, repórteres esfaimados, chatos, atrevidos e compassivos, enquanto houver repórteres assim, haverá jornalismo livre, e o jornalismo livre é a estrutura óssea da democracia.


Hipocrisia, sagaz leitor. Hipocrisia. A sinceridade rasga e fere. A sinceridade mata. A hipocrisia constrói.

quinta-feira, 27 de março de 2014

História da Água Engarrafada

Os Riscos De Beber Água Engarrafada

















BOM DIA!

O caminho que eu descobri é o do amor... Escolhi ser verdadeira. No meu caminho o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero, por isso não estranhe minha maneira de sorrir e de te desejar o bem. É só assim que eu enxergo a vida, é só assim que eu acredito.
Clarice Lispector











BOM DIA!

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Clarice Lispector







BOM DIA!

Respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Clarice Lispector






27 de março de 2014 | N° 17745
L.F. VERISSIMO

Boas-pintas

A foto do Bellini levantando a taça no final da Copa do Mundo de 58, na Suécia, a primeira que nós ganhamos, virou ícone instantâneo. De todas as imagens que ficaram daquela Copa sem TV – o Garrincha fazendo vários Joões dançarem, o Didi pegando a bola no fundo do nosso gol depois que a Suécia marcou primeiro, no último jogo, e caminhando com ela embaixo do braço como um pai carregando uma criança malcriada pra casa, o lençol do Pelé sobre um sueco atônito antes de marcar o mais bonito dos seus seis gols na competição –, a do gesto triunfal do Bellini foi a que mais ficou.

Tanto que, dizem, nas convocações para as Copas futuras houve a preocupação de se prever a repetição da cena: quem levantasse a taça teria que ser uma figura igualmente hierárquica e bonita

Na Copa seguinte – 62, no Chile –, o Bellini estava na delegação, mas o titular foi o paulista Mauro, que também era alto e, como se dizia na época, boa-pinta, e fotogênico. Foi ele quem levantou a taça. Não sei se é verdade, mas contavam que depois do Bellini o quesito “boa-pinta” passou a ser critério para escolha do capitão, ou pelo menos de um dos zagueiros, da Seleção.

Só isto explicaria a convocação, por exemplo, do baiano Fontana, um jogador supostamente medíocre, mas bonito, que fazia dupla com o Brito no Vasco da Gama e não faria feio imitando o Bellini de 58 numa vitória no México em 70. Fontana não chegou a jogar na Copa do México, que eu me lembre. Brito e Piazza foram os nossos zagueiros de área. Mas diziam que, no caso de a vitória do Brasil na final estar assegurada, o Brito, com sua cara de homem das cavernas, seria rapidamente substituído pelo Fontana antes do fim do jogo só para este ser fotografado levantando a taça. Mas isto já deve ser maldade.

Nada a ver, mas também dizem que uma das condições para chegar a comandante de aviões de passageiros é ter voz de comandante. Duvido que exista mesmo esta norma, mas a verdade é que até hoje não ouvi nenhum comandante de voz fina. O preconceito não se justificaria: nada impede que um piloto de voz fina seja mais confiável do que um de voz grossa. Mas entende-se a preocupação.


Os cursos de pilotagem incluiriam aulas de dicção e impostação de voz, ou então – também se especula – alguns aviões teriam, na cabine de comando, um locutor cuja única função seria dirigir-se aos passageiros numa voz máscula e firme, de quem estará nos controles e saberá o que fazer não importa a situação, no lugar de um piloto esganiçado que poderia causar pânico entre os passageiros com sua primeira comunicação. Para voar com segurança você precisa imaginar que o comandante é o William Bonner.

27 de março de 2014 | N° 17745
 PAULO SANT’ANA

Falando com os animais

Esses dias, imaginei numa coluna como seria bom que os animais falassem e nós pudéssemos entender suas palavras.

Quando nos acercássemos de um boi, certamente ele diria para nós: “Já sei, estás olhando para mim e calculando como seria gostoso o meu filé. Na chapa? Frito?”.

E se nos aproximássemos de um porco ele nos diria: “Certamente estás a calcular como seria delicioso o meu pernil colocado entre duas fatias de pão”.

Da mesma forma, imagino que o cacarejo das galinhas, quando me aproximo do galinheiro, se refere ao fato de que em breve nós destroncaremos seus pescoços e as serviremos em nossas mesas com diversos nomes nos seus pratos.

O galo, quando nos aproximamos dele, deveria dizer: “Pelo amor de Deus, não vai torcer o meu pescoço e depois dizer na mesa que está saboreando uma galinha: pelo menos tenho o direito de no jantar ser chamado de galo, um ‘galo à milanesa’ por certo será um cardápio honroso para mim”.

Será que os bois calculam que um dia virarão churrasco? E os pintinhos criados têm a certeza de que não viverão mais do que o tempo dos galetos?

Se um pinto pudesse decidir, ele preferiria ser comido como galeto ou ter tido o direito de viver mais uns dois anos e ser comido como frango à caçarola?

Os gatos e os cachorros são animais felizes, só agora vejo. Os homens os criam não para devorá-los, mas para que mantenham com eles um convívio fraterno que só terminará pela morte natural.

Já com o peru, o homem não convive assim. O homem passa meses convivendo com o peru e tentando imaginar o melhor modo de assá-lo no forno.

Não tem explicação que eu ame o cachorro e devore uma galinha. Ambos são animais e filhos de Deus, por que os trato de maneira radicalmente diferente? O certo é que eu os respeitasse como filhos de Deus e não os comesse, eu deveria ser só um vegetariano.

Se os gatos têm alma e são capazes de cultivar grande afeição conosco, quem me diz que a galinha não tem alma e, se não for criada para ser alimento do homem, passaria só aí a ter amizade conosco também? As galinhas me parecem também que têm alma, assim como os cães.

Os passarinhos, por exemplo, compõem a paisagem humana. Só os canalhas podem matar passarinhos e fazer sopa deles.

Eu, por exemplo, no que se refere ao papagaio, jamais teria capacidade para comê-lo, assando-o antes num espeto: estás louco, eu comer um papagaio, um ser que falava comigo no seu poleiro?

Comer um papagaio é igual a comer na panela um cachorro que teve cenas de agradável e longa convivência conosco.


Eu não teria coragem de ser tão cruel assim.

27 de março de 2014 | N° 17745
PEDRO GONZAGA

A música da garota estranha

Coisas que as pessoas deixam. Músicas que as pessoas deixam. Por vezes um velho LP que já não toca (foi-se há muito a agulha que lhe arranhava a pele – e como não lamentar o pudor desses novas tecnologias em que nada se vê), uma fita K7, um CD feito para durar cem anos, mas cujo brilho apresenta translúcidas falhas.

Por vezes, no entanto, as pessoas deixam a música apenas em nossa memória, ativada subitamente por essa potência da arte de ser também matéria sublimada, transformada em pensamento, e pensamento sensível, feito de imediatas irradiações de alegria e tristeza, calma e inquietação, que os estímulos da melodia e da letra erguem, de súbito, quando toca no rádio uma canção como esta, que certa vez me deixou uma garota de cabelos curtos, talvez um pouco estranha, mas estranha de um jeito bom, estranha para minha congênita caretice, uma canção que mesmo depois de tanto tempo vivifica um nariz coberto de sardas e uns olhos pequenos que pareciam abertos a estilete na face.

E a ti agradeço, garota estranha, por ter deixado também essas sensações periféricas no tato, no olfato, no paladar, convertendo-me, por cerca de três minutos, em poeta simbolista, senhor das mais agudas sinestesias.

Ter uma música. Não digo que tenhamos chegado a isso, a garota estranha e eu. Unia-nos a amizade, vez ou outra aquilo a que se chamava amizade colorida. Me pergunto se meus alunos ainda usam esse termo, se não o trocaram por algo mais direto, tão menos sugestivo (gosto de pensar que a própria ideia de humanidade depende do poder de sugerir).


Seja como for, sempre admirei, malgrado o deslavado pieguismo, esses casais que possuem “a nossa música”, e era sobre isso o que eu queria falar. Porque o mundo é um lugar inóspito, sabemos disso, habitado por planetárias solidões, tendemos, subjugados por sei lá que força, a minar os afetos e ali estão aquelas duas criaturas a dizer “essa era a música que tocava quando nos beijamos pela primeira vez”, “essa era a música que ela me obrigava a dançar para fazermos as pazes.” Porque só há uma maneira de sentirmos mais. É sentirmos juntos. E dos cultos religiosos aos concertos de rock, dos bailes carnavalescos a um par dançando na sala, só a música pode operar essa forma de comunhão. Mesmo entre as garotas estranhas e os cronistas mais quadrados.