sábado, 26 de janeiro de 2019


26 DE JANEIRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

Com quem conversamos?

Quem nunca errou ao usar seu celular? Os puros absolutos podem jogar a primeira pedra nos pecadores do vale da morte da etiqueta digital. Luciana Caran e Thais Herédia lançaram o Manual dos Pecados Digitais, com ilustrações de Maria Eugênia Longo. O texto é uma arma eficaz para que cada um de nós pare e pense a respeito dos exageros e grosserias da era digital.

O texto é curto e utilíssimo. Parece um alerta sobre uma velha parábola dos dois jovens peixes que, ao serem inquiridos por um mais velho sobre como estava a água, perguntam estupefatos: "O que é água?". A água é aquilo do qual não mais nos damos conta, de tão natural e onipresente. A água é o vício deformador que o mundo digital trouxe sem que as pessoas percebam. Perdemos todas as noções e os limites no uso do celular.

Não irei descrever as muitas e boas reflexões do texto. As autoras analisam tanto as infrações éticas e desvios psicológicos causados pelo uso inadequado dos smartphones quanto algo que poucos estão conscientes: lavam as mãos e depois ficam manipulando na mesa do restaurante uma tela infectada. Único trecho do livro que revelarei: "Cada aparelhinho pode carregar até 23 mil fungos e bactérias, entre outras nojeiras. Uma única "sujeita", a Staphylococcus aureus, aparece em quase metade dos smartphones no Brasil, segundo uma pesquisa da Unicamp. Imagine que as pessoas tocam os lábios e a boca até 25 vezes em um hora. Eca".

Em comportamentos errados não vale o argumento histórico ou sociológico, do estilo "sempre foi assim" ou "todo mundo faz assim". O bom Aristóteles acredita na prática da virtude. O hábito é, segundo o filósofo, uma segunda natureza. Usos podem ser criados e eliminados. O celular é um objeto que lhe pertence. Deveria servir ao dono. Examine qualquer restaurante e retome a racionalidade e a humanidade: duas ou mais pessoas ao redor de uma mesa, todas fixadas em uma tela ignorando os que estão ali. É uma patologia, de verdade, um desvio, um vício terrível que esvazia o encontro.

Não foi apenas o livro Manual dos Pecados Digitais que me trouxe à tona a reflexão sobre tais coisas. No final do ano, por imbecilidade absoluta minha, deixei o celular na poltrona do avião a caminho do Deserto do Atacama. Passei quase 10 dias sem o aparelho. Senti falta, sim. Fiz fotos com meu tablet, porém, reconheço, li mais e contemplei mais a paisagem do que faria normalmente. Acima de tudo, percebi que o impulso de mandar fotos bonitas de lugares que conheci para muitas pessoas era algo a ser muito reduzido. Observe que você envia mensagens para pessoas que nunca reenviam nenhuma. Pense! Todos que recebem o fazem com alegria e desprendimento? Quem nunca responde estaria irritado ou até invejoso das suas experiências? Nos dois casos, valeria a pena enviar para tal pessoa? Quem são, de verdade, as pessoas mais importantes que realmente se alegram com você? É pouco provável que sejam muitas.

No caso específico do celular, falta mãe na formação. Não é machismo: estou me referindo à figura materna, que pode ser exercida pela mãe, pelo pai, avós ou quaisquer responsáveis diretos na construção do aparelho psicológico de um indivíduo em seus anos formativos. Era essa "mãe" que insistia na duríssima tarefa de educar a criança: não fale de boca cheia, não use palito de dentes, diga obrigado... À custa de muitas repetições e reiterada insistência, muitas "mães" foram vitoriosas na sua resiliência incomparável. Depois, adultos, nosso superego interioriza essa voz "maternal", estabelece os limites. O celular parece ter ficado fora dessa lista de virtudes a serem estimuladas, desse estímulo formativo, pois contaminou as "mães" e os filhos ao mesmo tempo.

Ver mensagens a todo instante enquanto você está em um jantar com alguém é, sim, sempre, grosseria forte. Se você for um obstetra, isso será mais compreensível. Na maioria dos casos, é pura e absoluta falta de educação. Fazer o que todos fazem é repetir o senso comum e nunca ser original pela gentileza. Em um mundo onde a busca de um diferencial é algo importante, imagine o impacto em um jantar de negócios ou afetivo de plena atenção na parte envolvida.

De novo e mais uma vez: o mundo digital oferece muitos bons e úteis recursos para nossas vidas. Podemos aproveitar muitos. O resto é um vício, um engodo que provoca a falta de foco, um dos grandes entorpecentes da mente contemporânea. Celular virou um veneno de bolso, deteriorando de forma lenta as relações, nublando a imagem de uma pessoa objetiva e até matando de verdade quando usado no trânsito.

A pessoa com quem você está jantando não se importa? Minhas advertências são coisas de gente mais velha que ainda acha que comunicação deve ser olho no olho? Pode ser, mas resta minha pergunta curiosa. Se você não precisa estar com a pessoa que está sentada a sua frente, se fica com terceiros e quartos em mensagens e imagens e se dá ao aparelho a parte mais expressiva do seu tempo, por que sair? Por que estar com alguém que não está ali? Por que convidar alguém para torná-lo apenas testemunho silencioso da ação de polegares frenéticos? Por que estar com quem você, de fato, não estará?

A comunicação humana é complicada, e o convívio um grande desafio. Entendo quem prefira a solidão ou o isolamento. Mas, como placebo, o celular ainda fica devendo muitas coisas. Ou simplesmente envelheci e o placebo seriam as pessoas reais? Pode ser. Já vivi bastante: minhas melhores lembranças afetivas nunca estiveram em um grupo de WhatsApp. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL


26 DE JANEIRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

SOLIDÃO UNIVERSAL

SELEÇÃO NATURAL, CATACLISMOS, MUTAÇÃO: MUITA COISA ACONTECEU PARA NOS DEIXAR ASSIM COMO SOMOS

Estamos sós no Universo. Ainda que exista vida num planeta distante, encontrarmos um ser semelhante a nós, com quem sejamos capazes de nos comunicar, é altamente improvável.

Os hominídeos que nasceram nas savanas da África, há 6 milhões de anos, foram frutos de adaptações a mudanças ambientais e eventos aleatórios que jamais se repetiriam em outro corpo celeste na ordem cronológica em que ocorreram aqui.

Para não recuarmos até as intempéries envolvidas nas origens da vida, há mais de 3 bilhões de anos, vamos partir de uma época muito mais recente, quando surgiram os mamíferos, conforme descreveram os paleontólogos Stephen Brusatte, da Universidade de Edimburgo, e Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, numa revisão para o Scientific American.

As primeiras criaturas semelhantes aos mamíferos não esperaram a extinção dos dinossauros para nascer (como se imaginava), surgiram há cerca de 210 milhões de anos, época em que os cinco continentes ainda estavam unidos, formando a Pangeia.

Algumas dezenas de milhões de anos antes, solavancos nas placas tectônicas tinham provocado erupções simultâneas de vulcões espalhados pela Pangeia. A poluição atmosférica resultante causou uma extinção em massa que quase acabou com a vida na Terra.

A seleção natural eliminou os anfíbios e répteis gigantes que dominavam o mundo. Tartarugas, sapos, crocodilos, dinossauros e os primeiros ancestrais dos mamíferos se aproveitaram do vazio deixado pelos antigos dominadores, para ocupar novos nichos ecológicos.

Esses mamíferos primordiais já apresentavam características que reconhecemos familiares: dentes de leite na infância, saliências e sulcos nos molares, pelos no corpo, musculatura mastigatória robusta e cérebros grandes.

Eram insignificantes comedores de insetos, pequenos como os ratos, que mantinham hábitos noturnos, cuidado providencial para escapar dos crocodilos e dinossauros que não paravam de aumentar de tamanho, na vizinhança.

Há 200 milhões de anos, um cataclismo monumental fraturou a Pangeia em diversas áreas. No final, os cinco continentes estavam separados.

A atividade vulcânica causou nova extinção em massa, oportunidade aproveitada pelos animais que souberam ocupar os espaços abandonados pelos que se foram; entre eles, os dinossauros e os mamíferos.

Cerca de 145 milhões de anos atrás, uma variação anatômica foi decisiva para a sobrevivência dos mamíferos: o encaixe dos dentes entre as arcadas superior e inferior, inovação que ampliou a possibilidade de alimentação mais variada.

Ao redor de 100 milhões a 120 milhões de anos, outra surpresa: apareceram as angiospermas, plantas que dão flores e frutos acessíveis a animais com a dentição apta para mastigá-los.

Apesar da performance ecológica razoável, esses pequenos mamíferos chegaram perto da extinção por culpa dos dinossauros, brutamontes insaciáveis, acostumados a devorar tudo o que viam pela frente.

Foi quando um asteroide de 180 quilômetros de comprimento cismou de cair no México, há 66 milhões de anos. O impacto foi tão brutal que abriu uma cratera de 1,5 quilômetro de profundidade.

O choque provocou terremotos, tsunamis com ondas de mais de cem metros e, como sempre, a erupção dos benditos vulcões. Digo benditos porque os dinossauros não resistiram, sobreviveram apenas os ancestrais que dariam origem às aves. Azar deles, sorte dos mamíferos que se espalharam e se diversificaram num mundo livre daqueles mastodontes.

No Estado norte-americano do Novo México, foi desenterrado o esqueleto de um mamífero que viveu há 63 milhões de anos. É provável que se trate do primata mais velho já descrito, ancestral longínquo dos que desceram das árvores nas savanas da África, há 6 milhões de anos, e começaram a andar em pé com a coluna ereta.

Imagine, você, que exista vida noutro planeta. Qual a probabilidade da repetição desses e de milhares de outros eventos ao acaso que eliminaram tantos competidores, para que nós estejamos aqui, hoje?

Vulcões em erupção, placas tectônicas que se chocam nas profundezas, continentes que se separam, árvores que dão frutos, um asteroide que provoca terremotos, tsunamis, incêndios e poluição ambiental astronômica. Faltasse um desses fenômenos, não haveria ninguém para contar essa história ou compor sinfonias.

São tantas e tão complexas as variáveis para explicar nossa existência que fica mais fácil atribuí-la a um ser poderoso que tudo criou num passe de mágica.

DRAUZIO VARELLA

26 DE JANEIRO DE 2019
J.J.CAMARGO

NÃO MORRER ANTES DE MORRER

Exceto naqueles momentos de grande introspecção em que consideramos que uma pausa no mundo é a melhor terapia, a solidão e seus silêncios simbolizam o isolamento involuntário, e amargura e ressentimento as suas crias obrigatórias.

Quando um jovem se confessa destruído por uma separação inesperada, e se imagina original no anúncio de que nunca mais amará ninguém, mesmo com as infinitas possibilidades de conquista, penso sempre em viuvez na velhice, quando não há mais ânimo, tempo, saúde ou charme para recomeçar o itinerário da sedução.

Só então se percebe que a nossa vida está presa por amarras muito frágeis. E, de tanto ouvir os idosos se lamentarem, entendi o quanto é verdadeira a sua súplica: "E Deus me ajude que eu morra antes da minha velhinha". A crescente e festejada longevidade tem produzido esses pares avulsos, em que um tem ao outro e a ninguém mais. Comove a percepção de que não importa quantos filhos tenham tido, quem se aventurar a viver demais descobrirá a altura do muro da autonomia, construído pelos tijolos da indiferença, e todos com vidas próprias terão suas justificativas sinceras, porque afinal nem todo dia é Natal.

Chega-se, então, ao ponto de buscar um lar onde os velhos descartados possam compartilhar suas mágoas e multiplicá-las com a repetição de suas histórias de abandono.

Atul Gawande, um cirurgião indiano que sempre viveu em New York e acompanhou com proximidade e afeto a dolorosa despedida do pai, narra no seu maravilhoso livro Os Mortais a saga dessa população, cada vez mais numerosa e exigente.

A proliferação dessas casas de repouso e a inevitável competição entre elas têm impulsionado a criação de modelos de convívio mais digno, evitando que se transformem em depósito de moribundos à espera da libertação. Replicar o ambiente doméstico com a instalação de uma coisa simples, como uma cozinha independente, já é capaz de restaurar o interesse pelo cuidado do seu próprio cantinho, e com isso dar algum sentido ao despertar pela manhã.

Outros diretores tiveram a ideia de levar alguns animais, cujos cuidados serviriam para mantê-los ocupados. Foi assim que pássaros, cães e gatos passaram a ter função numa grande clínica com dezenas de unidades espalhadas pelos EUA.

Um velhinho identificado como Mister L perdeu a esposa depois de 65 anos de casamento. A depressão que se seguiu era previsível, mas todos ficaram muito preocupados depois de um acidente bizarro em que ele desceu um barranco com a camionete. A polícia sugeriu a possibilidade de tentativa de suicídio, e a família, impossibilitada de vigiá-lo o tempo todo, decidiu interná-lo em um desses lares modernos. Os primeiros dias foram terríveis, porque ele não aceitava comida, nem banho, nem sair da cama. 

Parecia determinado a acelerar a chegada da morte. Então decidiram colocar uma gaiola com dois periquitos na mesinha de cabeceira. No dia seguinte, ele, que se mantivera virado para a parede durante uma semana, mudou de decúbito para ficar de frente para os passarinhos. Depois, passou a comentar com a enfermagem as peripécias dos animaizinhos e, na semana seguinte, quando já se sentara para comer, comentou que os pobres cães não podiam ficar encerrados em casa, e passear com eles no quintal era uma coisa que ele poderia fazer para ajudar.

Dois meses depois, estava apto a voltar para casa. A ideia da morte tinha sido transferida. Alguém lhe devolvera a única coisa realmente indispensável à sobrevivência de um solitário: a utilidade.

J.J.CAMARGO

26 DE JANEIRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Quando me aposentar

Quando me aposentar, lerei todos os livros que acumulei. Viajarei para inúmeros lugares. Aprenderei a tocar um instrumento. Estudarei uma língua nova. Vou me dedicar à família, aos amigos, a uma associação protetora de sei lá o quê.

Quantas vezes vocês já escutaram as frases do parágrafo acima, ditas por inúmeras pessoas? O espírito dessas falas é: o tempo livre da aposentadoria será a redenção da vida tediosa que levamos. O sacrifício é agora, mas lá na frente será minha vez.

Essas são as promessas, mas como é na prática? Vi muita gente conseguir inaugurar algo novo em sua vida na maturidade. Mas para cada um dos que se reinventaram, vejo 10 deprimidos na frente da TV, sem conseguir fazer nada do que prometeram a si mesmos. Como só sabem trabalhar no seu ofício, estão sem missão, vagam avulsos procurando um encaixe impossível. Como adquiriam significação apenas da identidade profissional, sentem-se esvaziados, já não sabem quem são.

Entre aqueles que alcançaram seu sonho e os que não, a diferença costuma ser simples: quem começou antes, quem se preparou para o porvir é que chega lá. Aqueles que acreditaram que o "paraíso" da aposentadoria era automático, bastava sair das obrigações e da rotina, se dão mal.

Vejamos os leitores do futuro. É óbvio que depois de anos afunilando o cérebro lendo Twitter e texto de Facebook, ninguém consegue ler um livro. Depois que o cano do entendimento estreitou, não passa nada complexo. Para suportar a arquitetura de um romance, de um ensaio, é preciso a musculação semiótica de toda uma vida. Não se aprende a ler de um dia para o outro, e se pode desaprender caso não haja treino.

O mesmo com as viagens, se você não sai de casa, perde o espírito de aventura, a curiosidade, a coragem. Viajar é uma ciência de difícil doma. Vamos nos desafiando cada vez mais, indo mais longe, suportando choques culturais maiores. Quem postergar as peripécias só conseguirá passear no óbvio, junto a pessoas ainda mais óbvias.

Quem deixar para cultivar amigos e aumentar o leque de vínculos quando tiver tempo dará com a cara no muro. A vida social não é fácil. É a arte de decifrar olhares, de perceber as mil sutilezas, de sacar os subentendidos, que aperfeiçoamos a cada dia, e mesmo assim damos mancadas. Imagina quem começar tarde, a inépcia sabotará todas as abordagens.

Caríssimos, se há algo que descobri nesta existência é que o futuro começa agora. Quando chegar esse momento de maior liberdade, é preciso estar treinado. Não jogue seus anseios para uma hipotética vida futura, construa esse amanhã desde já. Sonhos precisam de adubo, de cuidados. Nada florescerá se não for cotidianamente regado.

MÁRIO CORSO


26 DE JANEIRO DE 2019
DUAS VISÕES

SERIA COMO ENRIQUECER PERDENDO DINHEIRO

Falar em crescer preservando meio ambiente é o mesmo que dizer que vai enriquecer perdendo dinheiro.

A questão do crescimento tem sido amplamente debatida nos últimos 50 anos. Se crescer constantemente fosse bom, os gigantes teriam mais saúde do que os outros e não menos, como se observa na vida. Crescimento é um período importante no desenvolvimento de qualquer sistema. O mais importante, entretanto, é se desenvolver e para isso não é necessário crescer, e sim se transformar. A agricultura brasileira cresceu muito nesses últimos anos, mas pouco se desenvolveu. O faturamento com a exportação de soja aumentou, a área plantada aumentou, mas os produtores continuam endividados, e muitos, quebrados. 

Como isso é possível? Simples, produzir muito numa propriedade não significa estar lucrando, pode até estar perdendo dinheiro. Depende do custo de produção, que pode até ser maior que o faturamento. O que interessa é o lucro, que é o que sobra depois de descontar os custos. Eu posso até diminuir minha área de plantio e ainda assim aumentar meu lucro. É o que fazem os agroecologistas, que baixam seus custos, aumentam o valor de seu produto, preservam a natureza e ainda por cima melhoram sua terra, ao invés de destruí-la com o passar do tempo.

Crescer é um processo de economias subdesenvolvidas que sempre destroem o meio ambiente. Economias inteligentes aprimoram, agregam valor a seus produtos, se desenvolvem sem crescer e sempre preservando sua maior riqueza, o meio ambiente.

O trabalho técnico é possivelmente o mais importante para uma nação. Os técnicos aprendem suas habilidades e executam com precisão. Geralmente, o trabalho técnico é eficaz porque é focado e restrito a uma pequena área. Essas pessoas movem o mundo, mas nem por isso são capazes de planejar e interpretar o mundo. Falta a elas a visão do todo e das relações. Tendem a gostar de explicações fáceis, às vezes superficiais.

Desenvolvimento é uma questão complexa para a qual é necessária uma visão ampla da vida. Não é melhor que a visão restrita, é apenas diferente e necessária quando se lida com milhares de variáveis e não com meia dúzia. Todas as visões são importantes para a sociedade, cada uma no lugar correto.

Desenvolver é um processo de complexidade máxima que envolve educar de forma ampla e crítica, para produzir pessoas criativas e independentes. Também envolve sensibilidade social e cultural. O respeito à diversidade é essencial porque ela é nossa maior riqueza. Não só a biodiversidade, mas a diversidade de crenças, de línguas, de costumes, de visões de mundo. Essa é a principal riqueza dos países desenvolvidos.

Educar para o desenvolvimento sustentável é promover a diversidade, o respeito, a solidariedade e a paz. Pessoas educadas entendem a importância de respeitar todos os tipos de vida, ainda mais no país que tem a maior biodiversidade do mundo.

O novo presidente não parece ter essa visão ampla. Caso tivesse, diante da oportunidade ímpar de fazer uma palestra de abertura em Davos, sobre o que pretende fazer, não falaria menos de 10 minutos nem poria, nesta fala minúscula, coisas inconciliáveis como crescimento e preservação do meio ambiente.

FRANCISCO MILANEZ Arquiteto e biólogo, presidente da Agapan 

26 DE JANEIRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

TRAGÉDIA ANUNCIADA


O rompimento de uma nova barragem deixa evidente que o país precisa agir com mais rigor de forma preventiva, sem se limitar apenas a reparar danos de fatos previsíveis

O rompimento de uma nova barragem de rejeitos industriais, desta vez em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, é a confirmação de uma tragédia anunciada. Pouco mais de três anos depois do desastre de proporções inéditas registrado em Mariana, também em Minas Gerais, a repetição do fenômeno numa estrutura de menores proporções, mas preocupante desde o início pelo elevado número de desaparecidos, reafirma o quanto o país continua vulnerável sob o ponto de vista ambiental. Não é admissível que se resolva esperar pela repetição de fatos semelhantes para, só então, começar a agir preventivamente.

Desde o registro do maior desastre ambiental da história brasileira, não faltam alertas sobre a possibilidade de novos casos. De maneira geral, porém, quem tem algum poder para evitar esse tipo de dano prefere correr o risco de acidentes a agir preventivamente. A própria Vale do Rio Doce, responsável pelo mais recente vazamento, é uma das controladoras da Samarco, que, em novembro de 2015, foi responsabilizada pelo vazamento no qual 19 pessoas morreram sob milhões de metros cúbicos de lama. Na época, milhares de moradores ficaram sem suas casas e houve prejuízos ambientais irreparáveis, no solo e em rios da região, incluindo o Doce.

Desde Mariana, cujos danos ainda não foram devidamente ressarcidos, não faltam alertas sobre o risco de novas ocorrências. Um levantamento recente da Agência Nacional de Águas (ANA) já advertia que dezenas de barragens no Brasil estão vulneráveis e podem apresentar riscos de rompimento. A ameaça se mantém justamente pelo fato de, normalmente, problemas como rachaduras e infiltrações serem minimizados. Os responsáveis por esses complexos querem despender o mínimo de recursos e os organismos de fiscalização, por razões nem sempre devidamente esclarecidas, não exercem o seu papel com o rigor necessário.

O presidente Jair Bolsonaro demonstrou consciência da repercussão do fato ao determinar, de imediato, a instalação de um gabinete de crise no Palácio do Planalto e no Ministério do Meio Ambiente para acompanhar a situação. O rompimento de uma nova barragem deixa evidente que o país precisa agir com mais rigor de forma preventiva, sem se limitar apenas a reparar danos de fatos previsíveis. Os brasileiros não podem se conformar mais com sinais tão expressivos de imprevidência em relação às pessoas e ao meio ambiente.


26 DE JANEIRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

OS RECADOS DA GM

O comunicado fixado no quadro de avisos das fábricas da GM, alertando que a operação atingiu "um momento crítico que exige sacrifícios de todos", não tinha apenas os funcionários como destinatários. A mensagem assinada pelo presidente da General Motors (GM) Mercosul, Carlos Zarlenga, também era um recado para Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, a montadora tem sido alvo constante de críticas. Ameaçando aumentar impostos de importação, Trump joga duro e tenta forçar as empresas automobilísticas com fábricas no Exterior a voltarem a produzir no país. O corte de 8 mil funcionários no fim do ano não ajudou a melhorar a relação com o governo. Ao anunciar agora que pode rever sua posição na América do Sul, a companhia faz um aceno discreto pela paz.

No Brasil, a montadora sinaliza que vai atrás de apoio do novo governo e incentivos fiscais para impulsionar os lucros. Representantes da montadora foram vistos circulando pelo gabinete de transição instalado no CCBB, em Brasília. Pelo desenrolar dos fatos, é fácil concluir que não conseguiram o que queriam. Em São Paulo, Zarlenga avança agora para conseguir redução de impostos.

Das cinco unidades no Brasil, a fábrica de Gravataí é considerada a mais protegida contra eventuais turbulências. É da linha de produção gaúcha que sai o modelo Onix, atualmente o carro mais vendido no país. Com 389,5 mil veículos comercializados em 2018, uma fatia de mercado que gira em torno de 15%, a montadora é líder nacional há pelo três anos.

Mas, sem dúvida, uma eventual saída do Brasil seria traumática para Gravataí. Além de gerar em torno de 6 mil empregos diretos e indiretos, a companhia é o motor da economia na região. No ano passado, 40% de todo o retorno de ICMS que a prefeitura recebeu estava diretamente ligado à produção da GM e de seus sistemistas, algo equivalente a R$ 70 milhões.

A repercussão financeira, claro, é muito maior do que esse valor. Levando em consideração o efeito dos salários na economia local e a geração de serviços na cidade, como hospedagem e alimentação, a cifra se multiplica. A estimativa da Secretaria da Fazenda de Gravataí é de que o valor gerado pela presença da GM no município tenha sido de R$ 2,5 bilhões em 2018.

Um resultado tímido se comparado a 2014, antes da crise, quando chegou a R$ 4,1 bilhões, mas, mesmo assim, indispensável. A segunda maior empresa instalada na cidade, por exemplo, não gera nem 15% desse valor. (Cadu Caldas)

TULIO MILMAN

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019



São Francisco em Punta del Este 

Não se assuste, nem se impressione, São Francisco de Assis, o pobrezinho de Assis, eleito com justiça o Homem do Segundo Milênio pela revista Time, não reencarnou em Punta del Este e não está fisicamente por lá, aproveitando o verão. A conversa e as inspirações são outras.

Punta del Este é um dos destinos turísticos mais charmosos do mundo, com sua natureza, gastronomia, limpeza, segurança, simpatia dos uruguaios e, há poucos dias, recebeu, merecidamente, importante certificado da Organização Mundial de Turismo, instrumento adequado para reforçar a competitividade e a sustentabilidade já bem conhecidas do turismo uruguaio, grande fonte de divisa do país. Em meio aos hotéis, pousadas, paradores, restaurantes, edifícios de requintada arquitetura, casas e mansões milionárias e às toneladas de glamour que reinam no balneário, está a Capela de Nossa Senhora de Fátima, dos frades capuchinhos.

A austera construção tem telhado de zinco, paredes simples pintadas de branco e poucas imagens penduradas. A pequena área de aproximados 200 metros quadrados gera intimidade e aconchego. Ao lado está uma modesta construção térrea, de simplicidade fransciscana, onde está o eremitério para os eremitas urbanos. Nos fundos uma parrilla abandonada. No interior da capela bancos simples de madeira e imagens de Nossa Senhora de Fátima, de São Francisco de Assis e do iluminado Padre Pio de Pietrelcina.

É um local franciscano ao extremo, que em meio ao luxo e à riqueza da cidade, nos faz lembrar de simplicidade, pobreza, compaixão, amor aos animais, espírito cristão e nos faz pensar nas palavras da imortal Oração de São Francisco. Localizada na esquina da Chiverta com a Italo dell'Oro, parada 3, está a poucos metros do imponente Hotel Enjoy Punta del Este, anteriormente chamado de Conrad. Inaugurado em 1997, o hotel tem cassino de três mil metros quadrados, 294 apartamentos, ocupa todo o quarteirão e dividiu a história de Punta, fundada em 1907.

Com o hotel, a ideia foi dar vida à Punta o ano todo. Assim é a vida, assim é Punta. Riqueza e pobreza, simplicidade e complexidade, passado, presente, futuro e os pássaros nos ares não dando a mínima para as complicações e as belezas humanas. A capela dos capuchinhos, localizada em terreno altamente valorizado, está lá para lembrar que é preciso ouvir o silêncio, meditar para acariciar nosso coração e os dos outros e para mostrar que o dinheiro deve ser um bom servidor e não um péssimo chefe.

Se o amor, a bondade, a solidariedade, a justiça social e a liberdade mandarem no dinheiro, melhor. Se ele, absoluto, mandar em tudo, bom, aí seremos muito pobres, como muitos que de tão pobres só tem dinheiro, muito dinheiro, demais dinheiro. Há quem diga que o dinheiro tem que ser nosso escravo e não nosso senhor. Não gosto nem de pensar em escravos e senhores. Melhor pensar em colaboradores e líderes. Ou em líderes e empresários servidores, como querem alguns. 

A propósito...

São Francisco de Assis foi um clarão que iluminou o mundo no século XIII e é um dos santos mais importantes da Igreja Católica, que tem mais de sete mil santos. Infelizmente, Francisco não foi e nunca será majoritário na Igreja, mas merece as homenagens do Papa Francisco e as de todos que conseguem ter uma sensibilidade e um olhar mais humano sobre as pessoas, o planeta e a natureza.

Sabia tudo São Francisco e sabia que deveria estar em Punta, para que os ricos não se tornem ricos pobres, desses que santificam só as moedinhas de ouro. Moedinhas que são devoradas, frequentemente, pelas engrenagens e máquinas dos cassinos, onde as pessoas mostram que, no fundo, querem até se livrar do vil metal. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/01/666688-repensando-as-cidades-para-2050.html)


LIVROS Edição impressa de 25/01/2019. 
Alterada em 25/01 às 01h00min 

Repensando as cidades para 2050 

As cidades são o berço da civilização: centro de cultura, comércio e progresso; caldeirão de oportunidade e moradia de 80% da população mundial até 2050. À medida em que o século XXI avança, as áreas metropolitanas vão sustentar o impacto das megatendências globais, como as mudanças climáticas, a exaustão de recursos naturais, e crescimento populacional, a desigualdade de renda, as migrações e as diferenças em saúde e educação.

Em A cidade em harmonia (Bookman, 463 páginas, R$ 118,00), do consagrado psicólogo, filósofo e mestre em planejamento regional Jonathan F.P. Rose, norte-americano formado em Yale, mostra como é possível harmonizar civilização e natureza, integrando os sistemas que já existem na busca pela igualdade, resiliência, adaptabilidade e bem-estar. Jonathan fundou em 1989 a Jonathan Rose Companies LLC, empresa dedicada a desenvolvimento, planejamento e investimento imobiliário multidisciplinar, voltada a desenvolver comunidades de oportunidade e a pensar em saúde comunitária e ambiental.

Em síntese, a densa e bem fundamentada obra de Jonathan coloca em destaque o que a Ciência Moderna, Civilizações Antigas e a Natureza Humana nos ensinam sobre o futuro da vida urbana. A obra faz uma relação com a peça O Cravo Bem-Temperado, de Johann Sebastian Bach. Para ele, o conceito de temperamento que ajudou Bach a criar harmonia entre as escalas poderia ser um guia útil para compor localidades que harmonizem as pessoas entre si e com a natureza. A essa inspiração Jonathan deu o nome de cidade bem-temperada, com cinco qualidades para aumentar a adaptabilidade urbana: circularidade, resiliência, comunidade e compaixão. As cinco qualidades intitulam as cinco partes do livro.

Alguns destes tópicos estão funcionando nas habitações sociais de Singapura, na educação pública da Finlândia, na cultura ciclística de Copenhague e no sistema alimentar regional toscano de Florença, no sistema de ônibus rápido de Curitiba e no acesso á natureza de Seattle e às artes e cultura de Nova York. Na mesma linha de Morte e Vida de Grandes Cidades de Jane Jacobs e de O triunfo da cidade, de Edward Glaeser, este livro defende o importantíssimo papel das cidades na mitigação dos desafios ambientais, econômicos e sociais do século XXI.

Lançamentos 

Poesia completa - Alceu Wamosy (Editora Movimento, 240 páginas), apresentado por Ricardo P. Duarte e introduzido por Colmar Duarte, José Edil de Lima Alves e Cyro Martins, traz a obra poética de um dos três poetas trágicos de Uruguaiana, ao lado de Galba de Paiva e Gonçalves Vianna. "Wamosy faz por merecer um maior reconhecimento à sua elaboração poética, muito além de Duas almas, que tão justamente lhe deu fama", escreveu José Édil de Lima Alves, doutor em Letras.

Harmonia das esferas (BesouroBox, 128 páginas), romance da consagrada professora e escritora Valesca de Assis, tem segunda edição. Personagens como o poeta Léo Schreiber, Suzana, sua mulher, e Magdala, amante do General Candinho, estão no livro. Na apresentação, Cássio Pantaleoni escreve: "A obra é uma pérola literária, cercada com os fios sutis de uma linguagem capaz de tecer imagens como 'Passou os dedos entre as pernas e levou-os à boca, bebendo o gosto de seu filho'".

Alma gêmea (Pandorga Nacional, 304 páginas), da conhecida escritora e romancista Ana Ferrarezzi, apresenta uma pungente história de luta pelo amor verdadeiro, redescoberta e reencontro, envolvida em fantasia e viagem no tempo, sem regras ou barreiras. Ana vem conquistando leitores de todo o Brasil com suas histórias sobre vida cotidiana e fantasias que enaltecem o folclore nacional. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/01/666688-repensando-as-cidades-para-2050.html)


25 DE JANEIRO DE 2019
ENTREVISTA KÉFERA BUCHMANN

"Minha adolescência foi uma época muito cruel"

No ar como a vilã Mariane em Espelho da Vida, novela das seis exibida pela RBS TV, Kéfera Buchmann é a protagonista do filme Eu Sou Mais Eu, que chegou ontem aos cinemas. Com direção de Pedro Amorim, a comédia conta no elenco também com nomes como João Côrtes, Giovana Lancellotti e Felipe Titto. Projetada como fenômeno de popularidade com seu canal no YouTube, Kéfera segue agora carreira de atriz. Em Eu Sou Mais Eu, ela vive Camilla, uma popstar arrogante que, subitamente, volta ao ano de 2004, quando tinha 16 anos, era mais introspectiva e vítima de bullying na escola. Em entrevista a ZH, Kéfera fala sobre o filme e e sua identificação com a personagem

Eu Sou Mais Eu parece ser uma comédia direcionada aos adolescentes, mas há elementos voltado aos adultos que viveram a adolescência em 2004. O filme tem um público-alvo?

Creio que não. Acho que é justamente sobre isso, gerar a identificação de várias pessoas. Principalmente para a gente, que já passou da adolescência, uma pena, né? (risos). Acabamos nos identificando por termos vivido essa fase nos anos 2000. Toda a galera que passou por isso, do jogo da cobrinha, de ir à locadora, de ter discman, de não ter a tecnologia que temos hoje, vai se identificar.

Você tem 25 anos e vive no filme uma popstar na casa dos 30 e uma adolescente. Como se preparou para esse trabalho?

Fiquei dois meses com a Estrela Straus, preparadora de elenco e que interpreta uma fã maluca no filme, que usa o método do Lee Strasberg (ator e diretor e professor de arte dramática americano que trabalhou com nomes como Marlon Brando e Al Pacino). Foi um processo de muito estudo, de trabalho de corpo, de leitura.

O filme não segue o caminho previsível de romantizar a relação de Camilla e Cabeça (João Côrtes), focando na amizade entre os dois. Quais rumos do longa deixaram você satisfeita?

A solução do filme não é encontrar o cara da sua vida, mas sim se encontrar com você mesma. Como sou produtora associada do filme, tudo foi muito bem pensado desde a primeira ideia, no início de 2017. Gostei da mensagem que o filme passa, sobre você não se importar com a opinião dos outros, trabalhar para bancar sua autenticidade e deixar sua essência fluir. Apesar do mal que te fazem nessa época tão intensa que é a adolescência, não deixar que isso não te torne uma pessoa dura e amargurada com a vida.

Você se identifica de alguma maneira com a versão adolescente da Camilla?

A versão adolescente sou eu, retrata certamente o que vivi. Nunca fui a popular. Na escola, sempre fui a esquisita, a bizarra, que sofria bullying. Tem muito do que aconteceu comigo.

Se você pudesse voltar a viver sua adolescência, como no filme, o que você faria de diferente?

Nada. Passaria por tudo de novo. Foi uma época muito cruel. Estudei nove anos em um colégio que foi bem complicado nessa questão (do bullying). Chorava todos os dias. Não queria ir mais para o colégio, odiava muito estar ali porque as pessoas eram muito cruéis com assuntos ligados a cor, a cabelo, a usar óculos, a questão do meu jeito, da minha personalidade, tudo era motivo para tirar sarro. Como sei que muitas pessoas passam por isso e que meu alcance acaba tendo relevância, é muito importante para elas ouvirem essa mensagem.

Você também está em uma novela da Globo. É o seu período de afirmação como atriz?

As pessoas ainda têm esse preconceito de "ah, uma menina que veio da internet, que fez um canal no YouTube e aproveitou disso para virar atriz de repente". Foi justamente o oposto. Quando entrei no YouTube, já fazia teatro há uns dois anos. Entrei na plataforma com a ideia de que as pessoas me vissem e talvez me chamassem para algum teste. Mas não esperava que fosse rolar junto. Agora está acontecendo de vez. Dentro da profissão de ator e atriz, quando a gente fala "estou pronto", está totalmente errado. Nossa profissão é muito sobre melhorar e evoluir. Tem de ler muito, assistir a bastante filme, buscar referências e até buscar terapia e conhecer você mesmo para dar vida a outro personagem. Tudo vai virando bagagem e você vai criando estofo. O amor da minha vida é atuar.

Sua base de fãs na internet é composta por adolescentes. Com sua exposição na novela das seis, você tem sido reconhecida por um público mais velho?

Sim! Tem as senhoras, principalmente no mercado, quando você está fazendo feira. Gosto quando a pessoa que não faz a menor ideia de nada da internet fala: "Ah, a moça da novela". É muito legal ser reconhecida dessa outra forma. Quem me conhece na TV, acaba indo me ver na internet, e quem já me acompanhava acaba assistindo à novela.

WILLIAM MANSQUE

25 DE JANEIRO DE 2019
DAVID COIMBRA


A Corrida do Ouro

Em março de 1848, um americano expedito chamado Samuel Brannan leu em um jornal da Califórnia que um fazendeiro havia descoberto ouro em sua propriedade não muito longe dali, às margens do Rio dos Americanos. Brannan não perdeu tempo: saiu comprando todas as pás, balanças e bateias, todos os equipamentos de mineração que podia encontrar nas imediações. Depois disso, encheu uma garrafa de pedras amarelas e percorreu as ruas de San Francisco, gritando:

- Ouro! Ouro! Ouro do Rio dos Americanos!

A notícia sensacional se espalhou como se fossem nudes no WhatsApp. Em pouco tempo, gente do mundo inteiro chegava a San Francisco para extrair ouro do Rio dos Americanos.

Quando digo "gente do mundo inteiro", é do mundo inteiro mesmo. Os ianques do nordeste dos Estados Unidos tomavam navios até o Panamá e desciam pelo Atlântico. Como o canal ainda não havia sido cavado, eles desembarcavam ali e cruzavam o estreito por terra (e mato). Depois, pegavam mais um navio para subir pelo Pacífico até San Francisco. Outros vinham da Europa e muitos, muitos chegaram da longínqua China.

Havia sido dada a largada para a Corrida do Ouro da Califórnia. Logo, mais de 300 mil pessoas viviam naquele lugar, que, até pouco tempo antes, só era habitado por índios e alguns punhados de aventureiros.

Toda essa massa queria encontrar ouro. Para encontrar ouro são necessários? instrumentos de mineração. E quem tinha instrumentos de mineração para vender?

Samuel Brannan.

Só que a peneira que comprara por 20 centavos de dólar ele agora vendia por 20 dólares, e não adiantava reclamar. Brannan ficou rico graças à Corrida do Ouro sem jamais ter descoberto uma única pepita nem ter sujado as mãos macias na lama do rio.

Ontem, os americanos lembraram a data em que foi encontrado o primeiro rastilho de ouro pelo fazendeiro, exatamente um 24 de janeiro. Ou seja: transcorreram dois meses até que Brannan leu a notícia no jornal de San Francisco. Ninguém dera maior importância àquela informação, até alguém sair pelas ruas apregoando: isso é importante! Isso é importante!

É notável, porque se trata do mesmo princípio das notícias virais do mundo virtual de hoje. O processo funciona assim: uma notícia é publicada por algum veículo tradicional de comunicação. Alguém separa aquela notícia, recorta um pedaço e atarraxa um título "esquentado". Digamos: "Escândalo em rede nacional!". Essa edição cai nas redes sociais e é replicada infinitamente, até que os veículos tradicionais de comunicação a publicam outra vez, agora como repercussão. Nessa volta completa, o que era fato virou fofoca, que se transformou de novo em fato.

Por quê?

Porque alguém interpretou o fato. Brannan dizia: "Venha colher o ouro do solo! Venha ficar rico!". Os editores das redes dizem: "Isso é uma vergonha!". Ou: "Político ladrão é desmascarado ao vivo!".

O mundo muda; as pessoas não. Elas têm preguiça de tirar suas próprias conclusões. Preferem que alguém tire por elas. E, depois que isso é feito, depois que a conclusão é adquirida, não querem mais se afastar dela. A conclusão tornou-se sua posse, e pronto. Que ninguém venha com outra ideia. Que ninguém venha lhes dar trabalho. Porque é muito mais fácil viver se alguém lhes diz o que pensar.

DAVID COIMBRA


25 DE JANEIRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

A TRANSIÇÃO NA VENEZUELA


O reconhecimento internacional à mudança de comando no país vizinho significa um alento para os venezuelanos, pois é um passo importante para a normalidade democrática
O aval de países influentes como Estados Unidos e Brasil a Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino da Venezuela, precisa ser aproveitado como um primeiro passo para o aguardado processo de transição democrática nessa nação sul-americana, mergulhada no caos econômico pelo desastroso governo de Nicolás Maduro. 

A situação a que chegou o país vizinho, com multidões em protesto nas ruas e mais de uma dezena de mortos em conflitos, serve como um triste alerta sobre as consequências de governos populistas, demagógicos e autoritários, que não hesitam em recorrer a todo tipo de artifício para se perpetuar no poder. Na Venezuela ou em qualquer outro país, não há saída fora da democracia. 

Reconduzido ao cargo numa eleição marcada por denúncias de fraudes e índices inéditos de abstenção do eleitorado, o sucessor de Hugo Chávez só se mantém no comando graças ao apoio de quem não admite mudanças para não correr o risco de perder privilégios. Entre os que ainda contribuem para manter a população sob sofrimento constante, estão o alto-comando das Forças Armadas, notoriamente envolvidas em casos de corrupção, e integrantes de milícias que temem por seu destino com a possibilidade de ascensão de um governo democrático.

A Venezuela só se transformou em refém de governantes populistas pelo fato de o petróleo responder pela maior parte da renda nacional. Bastou a queda nas cotações internacionais dessa riqueza natural para que a incompetência gerencial viesse à tona e a conta fosse transferida para a população. Isso faz com que, há algum tempo, os venezuelanos enfrentem uma inflação em descontrole, sem perspectivas de emprego e sem oferta de itens essenciais, como alimentos e medicamentos. A evasão de venezuelanos em busca de novas perspectivas em países como o Brasil é apenas a parte mais visível da incompetência gerencial e do desrespeito continuado à Constituição por parte de políticos oportunistas.

O reconhecimento internacional à mudança de comando no país vizinho significa um alento para os venezuelanos, pois é um passo importante para a normalidade democrática. É preciso, porém, que o novo governo, sob o comando do presidente da Assembleia Nacional, liderada pela oposição, confirme rapidamente as promessas de respeito às liberdades individuais e às instituições. A população tem o direito de viver em paz e com prosperidade, o que só pode ser assegurado com eleições livres e transparentes.


25 DE JANEIRO DE 2019
INDICADORES

Expectativas e estabilidade


Imagine-se na pele de um analista de mercado que assiste ao vergonhoso discurso de Bolsonaro em Davos na mesma semana em que fica clara a ligação do filho dele (um de seus grandes aliados políticos) com uma milícia. Como pode esse analista continuar acreditando que este governo trará benefícios à economia brasileira? De fato, é difícil entender a cabeça dessas pessoas. Vou tratar aqui de dois aspectos do modelo mental de analistas financeiros, sobretudo no setor de investimentos, que levam a esse comportamento.

O primeiro é o tratamento dado a expectativas e à dificuldade de distinguir desejo e realidade. Expectativas são estoques, não fluxos. Cerca de um ano atrás, começaram a ser construídas, aos poucos, com base na promessa de que o governo Bolsonaro pudesse desfazer o emaranhado de obstáculos criado pelos governos da chapa PT-PMDB: política industrial desastrosa, aparelhamento de estatais, crescente complexidade tributária (em tempos onde tranquilamente havia capital político para fazer reformas nesse campo).

Embora as trapalhadas do novo governo agora comecem a desfazer essa expectativa positiva, esse processo leva tempo. Como esse é um fenômeno coletivo, presente no mercado como um todo, ele afeta preços, o que mexe com percepções de todos os agentes do mercado.

O segundo ponto é sobre o fato de a estabilidade ter um valor em si mesma no mercado financeiro. Ontem, o presidente em exercício, general Mourão, editou um decreto que provavelmente limitará investigações de casos como o de Flávio Bolsonaro. Se, por um lado, essa medida destrói valor por atentar contra a transparência das instituições e permitir corrupção, ela também gera estabilidade ao dar mais poder a governos que precisem abafar eventos para garantir governabilidade. E estabilidade significa menor risco, o que é bom para quem investe.

A promessa por trás desse governo tem a ver com trazer de volta um tempo em que os investimentos encontravam menos barreiras, riscos e escândalos, portanto mais estabilidade. É um discurso que funciona, visto que grande parte do sistema de incentivos por trás da gestão de ativos é baseado em uma necessidade de manter o status quo de quem possui fortunas.

Se analisarmos as maneiras como os grandes conglomerados financeiros globais construíram seu patrimônio, identificamos duas: ora utilizaram práticas que eram proibidas e que hoje são permitidas por conta do lobby dessas corporações, ora utilizaram estratégias que eram permitidas e que hoje são coibidas por serem consideradas falhas no sistema financeiro. Essa é a dinâmica da mudança das regras do jogo e da formação dos oligopólios (inclusive oligopólios de poder) que, aparentemente, esse governo conhece bem.

Igor Oliveira escreve às sextas-feiras, a cada 15 dias - IGOR OLIVEIRA

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019



24 DE JANEIRO DE 2019
NÍLSON SOUZA

DESAFIO DOS 10 ANOS

A brincadeira é tão irresistível que em poucos dias sobrecarregou as redes sociais. Os usuários são desafiados a ressuscitar a própria imagem de 10 anos atrás e publicá-la ao lado de uma foto atual. Não chega a ser uma grande novidade: o contraponto "eu era assim, fiquei assim" vem sendo empregado há décadas na publicidade, especialmente em anúncios de produtos e métodos para emagrecer. Mas a disseminação do smartphone, esse canivete suíço da era digital, facilitou a exposição comparativa. As pessoas fotografam e fotografam-se o tempo todo. E também não é de hoje: outro dia li uma reportagem sobre um pai britânico que fotografou o filho todos os dias, do nascimento até que ele completasse 21 anos.

Pois bem, o tal "Desafio dos 10 anos" tornou-se logo viral e também imediatamente acordou o vírus da suspeita. Especialistas vieram a público para alertar que a brincadeira pode não ser tão inofensiva quanto parece, pois facilitaria o trabalho dos algoritmos na construção de um esquema de reconhecimento facial. E empresas diversas poderiam utilizar as imagens dos internautas que toparam o desafio das marcas de expressão para encaminhar-lhes propaganda direcionada.

Tudo é possível nesse admirável mundo novo da alienação tecnológica, mas esse caso do desafio me parece apenas mais uma teoria da conspiração. A verdade é que a internet já suga nossos dados, nossos desejos e nossa curiosidade o tempo todo, sem esperar que publiquemos voluntariamente autorretratos. Outro dia fui conferir uma notícia antiga sobre o assalto ao presidente Jair Bolsonaro quando ele ainda era deputado e fazia campanha no Rio de Janeiro - e logo passei a receber ofertas de pistola Glock 380, o modelo que ele entregou aos criminosos. Os algoritmos certamente pensaram que eu tenho o preparo militar do capitão-presidente e que sou um potencial comprador das quatro armas a que cada cidadão passou a ter direito de guardar em casa. O bombardeio publicitário só mudou de rumo quando fiz outra consulta ao buscador, desta vez sobre cartuchos, mas de tinta para a minha impressora.

Se os duendes mercantilistas da web equivocam-se quanto ao meu gosto, por que acertariam na interpretação do meu rosto? Pensando bem, talvez seja mais fácil. Minha foto de 10 anos atrás, assim como a de hoje, certamente suscitaria a cobiça dos vendedores de cremes para rugas, barbeadores, perucas, óculos e outros produtos recomendados para as fadigas do tempo. Mas não vão me pegar nessa. Incluam-me fora do tal desafio. Prefiro continuar lidando com as letrinhas e com esses malditos cartuchos de tinta que aparecem em todos os cantos da tela.

NÍLSON SOUZA


24 DE JANEIRO DE 2019
CINEMA

Viajando entre controvérsias

"Green book: o guia", filme que estreia hoje e está indicado a cinco Oscar, vem colecionando polêmicas e prêmios
Se a quantidade de polêmicas servir de termômetro para o Oscar, Green Book: O Guia, que estreia no Brasil hoje, acelera na corrida pela estatueta. O longa de Peter Farrelly, mais conhecido pelas comédias debochadas Debi & Loide (1994) e Quem Vai Ficar com Mary? (1998), não somente recebeu cinco indicações ao prêmio, incluindo melhor filme, mas coleciona controvérsias.

A primeira surgiu entre a família de Don Shirley, pianista negro falecido em 2013, interpretado por Mahershala Ali (Moonlight). Os parentes alegam que a história da viagem de Shirley ao sul dos Estados Unidos com o motorista branco Tony Lip (Viggo Mortensen), em 1962, é "uma sinfonia de mentiras". Na jornada, em uma região racista amparada por leis de segregação, a dupla debate os próprios preconceitos usando o "livro verde" - guia criado em 1936 para ajudar viajantes negros a saber onde comer, dormir ou abastecer o carro.

- Guardei essa história por 25 anos, desde que comecei a ouvir a versão do meu pai - conta o roteirista Nick Vallelonga, filho de Tony, que retrata um pianista escondendo sua homossexualidade proibida. - Shirley me confirmou tudo, mas me pediu para não escrever antes da sua morte. Era um homem muito reservado.

Como o filme estacionou em uma bilheteria modesta, em torno dos US$ 40 milhões (cerca de RS 150 milhões), o caso não foi levado adiante. Em seguida, o ator Viggo Mortensen proferiu o termo "nigger" em um debate, considerado ofensivo à comunidade afro. A intenção era explicar como a palavra não é mais aceita hoje, mas incomodou.

- Embora minha intenção tenha sido falar de maneira forte contra o racismo, não tenho o direito de sequer imaginar a dor que a palavra causa - desculpou-se Mortensen, ironicamente um dos atores mais conscientes de Hollywood.

AÇÕES DE DIRETOR POSTAS NA BERLINDA

O próprio Viggo relutou em viver o papel de um ítalo-americano por não "querer desrespeitar a comunidade com estereótipos" - segundo Vallelonga, o ator James Gandolfini (Sopranos) estava ligado ao papel até sua morte, em 2013.

Já Mahershala Ali não conhecia Don Shirley e precisou ver documentários para capturar seus modos elegantes e maneira de tocar.

- Tenho um físico diferente e um tom mais baixo de voz, mas procurei incorporar seus gestos - afirma.

A química entre a dupla é visível e superou até mesmo outra revelação: o cineasta, Peter Farrelly, costumava exibir sua genitália como forma de "brincadeira" nos sets das suas comédias anteriores.

- Eu era um idiota - disse o diretor, que muitos não levam a sério.

- Se Green Book tivesse Woody Allen ou Steven Spielberg no pôster, todos estariam falando que é uma obra-prima - questiona Mortensen sobre esse Conduzindo Miss Daisy (1989) às avessas.

O roteirista Nick Villalonga também não ajudou quando um tuíte seu de 2015 ressurgiu, concordando com a afirmação falsa de Donald Trump sobre ter visto muçulmanos em Nova Jersey comemorando a queda das Torres Gêmeas, após o ataque de 2001.

Villalonga apagou a conta e pediu desculpas, possivelmente direcionando-se a Mahershala Ali, que é mulçumano. Mesmo assim, Green Book está desviando das críticas e levou o prêmio do Sindicato dos Produtores, um dos maiores termômetros do Oscar. Mas detratores seguem dizendo que o assunto não deveria fazer parte de uma comédia.

- Comediantes como Chris Rock e Dave Chappelle não falam sobre assuntos fáceis - rebate Ali. - O racismo foi tratado de várias maneiras no cinema. Temos Barry Jenkins, que rasga a alma, e Spike Lee, com um equilíbrio entre drama e comédia. Peter não é negro, mas a história tem uma forte presença negra. Se pessoas vão ao cinema para rir, talvez saiam com algo para pensar.

"A Favorita" encena luta íntima pelo poder

Entra em cartaz hoje A Favorita, um dos campeões de indicações ao Oscar deste ano (10 estatuetas, ao lado de Roma). Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos, o filme mostra a luta íntima pela influência na corte inglesa da rainha Anne no início do século 18. Fraca, manipulável e infantilizada, a soberana (vivida por Olivia Colman) é o centro de uma disputa de influências entre a maquiavélica Sarah Churchill (Rachel Weisz), a "favorita" do título, e a ambiciosa recém-chegada Abigail (Emma Stone), que quer subir de criada a nova preferida da monarca. Veja salas e horários na página 6.

Do YouTube para a tela, Kéfera aborda bullying

Eu Sou mais Eu estreia hoje como um novo veículo para a youtuber Kéfera Buchmann, que vem investindo em sua carreira nos cinema - estrelou, entre outros filmes, É Fada! (2016).

Na trama de Eu Sou mais Eu, que se assemelha à de comédias como De Repente, 30 (2004), Kéfera interpreta Camila, cantora famosa e temperamental que, após destratar uma fã com poderes mágicos, é enviada 15 anos para o passado. De volta à escola em que sofria bullying, Camila tem de enfrentar, outra vez, as perseguições infligidas pelos colegas.

Folhapress Los Angeles - RODRIGO SALEM


24 DE JANEIRO DE 2019
DAVID COIMBRA

A decepção com o discurso de Bolsonaro

O breve discurso de Bolsonaro na Montanha Mágica produziu decepção mundial, e com razão. Bolsonaro não é bom de oratória. Faltam-lhe a naturalidade de Lula, a energia de Collor, a malícia divertida de Brizola, a cultura de Jânio. Bolsonaro fala olhando para o lado, como se estivesse envergonhado. Parece que está lendo um texto que não escreveu e, pior, não decorou.

Alguém dirá que mais importante do que falar é fazer. É verdade. Mas, muitas vezes, é falando que se faz. No caso de um homem que ocupa cargo tão importante, tudo o que ele fala e faz produz efeitos.

Discursos mudaram o rumo da humanidade. Tenho para mim, como lema, um discurso de Churchill, em que ele esbraveja: "We shall never surrender!". Nós nunca nos renderemos! Quando Churchill pronunciou essa frase imortal, a II Guerra parecia perdida. Hitler estava prestes a tomar a França e praticamente todo o continente europeu se submetera ao poderoso exército alemão. Sobrava, isolada e irredutível, a Ilha, contida dentro de seus limites desde a dramática retirada de Dunkirk. Sozinha naquele momento, a Ilha resistiu até que, como previu o próprio Churchill, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, deu um passo à frente para o resgate e a libertação do Velho.

Se estou em alguma dificuldade, repito para mim mesmo essa sentença que Churchill usou como anáfora, "we shall never surrender!", e sigo em frente.

Em Washington, diante do Lincoln Memorial, está gravada no chão de granito uma frase que Martin Luther King pronunciou exatamente naquele ponto, para 250 mil pessoas, em 1963: "I have a dream". Eu tenho um sonho.

Essa frase se tornou o maior símbolo da campanha pelos direitos civis dos negros americanos, todos a conhecem, meu filho vive a repeti-la e fez questão de tirar uma foto ao lado da pedra em que ela está inscrita, quando visitamos Washington, neste ano. Mas, por ironia, King hesitou até a última hora em torná-la o centro da sua manifestação. Durante dias, o discurso foi escrito e reescrito. Na véspera, alguns assessores de King o aconselharam a não dizer que "tinha um sonho". Para eles, essa expressão era batida e havia sido usada muitas vezes por King. Foi ele, sozinho, quem decidiu. Dizem que, horas antes do discurso, King repetia baixinho para si mesmo: "Eu tenho um sonho, eu tenho um sonho, eu tenho um sonho?".

I have a dream!

Kennedy, vendo o discurso pela TV, reconheceu:

- Ele é danado de bom!

Sabia que a História estava sendo feita naquele momento. Feita com palavras.

Palavras fazem toda a diferença.

Bolsonaro perdeu uma oportunidade preciosa de se afirmar perante o planeta. Ele se preparou mal para ir a Davos, talvez porque ainda não tenha compreendido o tamanho do posto que ocupa, talvez porque ainda não tenha compreendido que tudo o que ele agora diz ou deixa de dizer tem significado. Talvez porque ainda não tenha compreendido que o mundo é muito maior, mais complexo e mais sofisticado do que todos os posts de todas as redes sociais.

DAVID COIMBRA


24 DE JANEIRO DE 2019
REDE SOCIAL

SOL, MAR E ARTE

Mais de cem pessoas passaram pela loja Aria, em Atlântida, no último final de semana, para um evento em torno da arte. O encontro, fruto de uma parceria entre a Gravura Galeria de Arte e a associação Decor+, recebeu com uma programação intensa a turma de veranistas. Miguel Rodrigues fez um show ao vivo com hits da MPB, e brindes foram sorteados. As atenções também estiveram voltadas para Marcelo Hubner, que pintou uma tela durante o evento. Depois de pronta, a obra foi doada pelo artista para José Paulo Tesche, por conta da parceria com o arquiteto no último ano.

Uma turma migrou de Porto Alegre para o Litoral especialmente para a ocasião. Os presentes também aproveitaram para conferir a exposição Atlântida Arte. A mostra coletiva, que ficará à disposição até 9 de março, conta com obras de 32 artistas. Entre eles, Corali Cardoso, Iara Zippin, Marco Santaniello, Mariana Sperotto, Marion Lunke e Rejane Karam.

PRAIA NO SHOPPING

Um projeto para levar o clima de praia para dentro do ParkShopping Canoas será apresentado a influenciadores e imprensa hoje, a partir das 18h. A Arena de Verão terá quadras de areia para praticar esportes, shows, operações gastronômicas e outras atrações para divertir o público nos meses de calor. O espaço, com cerca de dois mil metros quadrados, terá ainda vestiários, pista de skate com obstáculos e lounge para descansar e confraternizar. Todas as atividades são gratuitas.

MAIS BELEZA EM CAXIAS

A última semana foi de realização para a maquiadora Vanessa Carra. Gaúcha de Flores da Cunha, a empresária com mais de 10 anos de carreira abriu as portas de seu espaço de beleza em Caxias do Sul. Cerca de 200 convidados passaram pelo número 1.050 da Rua Pedro Tomasi. O projeto do salão de beleza, instalado em uma antiga casa da década de 1970, leva assinatura da irmã da maquiadora, a arquiteta Jordana Carra. Um coquetel com direito a macarons, bem-casados e drinques deliciou os convidados.

#ficadica

O empresário Rodrigo Dal Pizzol e sua mulher, a relações públicas Raquel Vieceli Dal Pizzol, inauguram hoje um novo restaurante em Caxias do Sul. O Amuleto Del Fuego, localizado na Rua Olavo Bilac, 126, será apresentado a convidados durante um coquetel preparado pelo chef assador João Paz Alves. O DJ Daniel Dalzochio anima o encontro.

#inbox

Uma escultura de Vinicius Vieira irá enfeitar o jardim do Unitá, novo empreendimento da incorporadora Garst no bairro Menino Deus. No dia 30 de janeiro, o artista estará presente no lançamento do condomínio para apresentar sua obra em aço, chamada Flexões II. Vieira irá conversar com os moradores sobre suas inspirações a partir das 18h30min, na Rua Saldanha Marinho, 359.

RENATA MAYNART - INTERINA

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019



23 DE JANEIRO DE 2019
POLÍTICA

No idioma de Davos

Foi um Bolsonaro comedido e superficial que discursou em Davos. E pode-se avaliar seu discurso pelo que ele deixou de falar: o presidente evitou citar alianças automáticas com Estados Unidos, Itália e Israel - obviamente, manteve longe do discurso a questão da transferência da embaixada para Jerusalém, para não tirar o foco das promessas de liberalização econômica. Também evitou mencionar líderes que inspiram seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, como o húngaro Viktor Orbán, questionado entre seus pares europeus por arroubos autoritários.

Na meca da globalização, Bolsonaro tampouco criticou o "globalismo", palavra que está impregnada nos discursos e artigos de Araújo, mas que não apareceu na fala de Davos.

Instado a comentar sobre a América Latina, Bolsonaro verbalizou os nomes dos presidentes Mauricio Macri (Argentina), Sebastian Piñera (Chile) e Mario Abdo Benítez (Paraguai) para garantir que "não queremos uma América bolivariana como existia no Brasil". América bolivariana no Brasil? Um ato falho por certo, corrigido em seguida:

- A esquerda não prevalecerá nesta região.

Bolsonaro citou duas vezes a promessa de "retirar o viés ideológico" da política externa e dos negócios. Sem mencionar a China, afirmou que o Brasil quer "aprofundar os negócios com todos os países do mundo".

Embora sem detalhar nenhuma promessa - mesmo quando questionado do "como fazer" -, o brasileiro foi moderado, como se espera de um chefe de Estado. Foi quase neutro, batendo apenas nos bolivarianos, sem citar Nicolás Maduro. O presidente falou o idioma de Davos, prometendo liberalizar a economia e fazer reformas, como diminuir a carga tributária - sem explicá-las. Mas foi o suficiente para o que a plateia dos Alpes suíços queria ouvir.



23 DE JANEIRO DE 2019
+ ECONOMIA

FEIJÃO COM ARROZ NO FÓRUM DE DAVOS

O presidente Jair Bolsonaro almoçou em um bandejão de um supermercado em Davos e, após a refeição, serviu um discurso feijão com arroz no Fórum Econômico Mundial. Pouco para o paladar refinado e o apetite da distinta audição formada por grandes investidores. Além de genérico, Bolsonaro foi econômico não tanto nos temas que abordou, mas na duração do pronunciamento. Tinha direito a 45 minutos que poderiam empolgar a elite do capital global, mas usou magros seis.

Bolsonaro tocou no principal, mas foi superficial. Disse que vai trabalhar para reequilibrar as contas públicas. Sustentou que o governo tem credibilidade para "fazer as reformas que precisamos e que o mundo espera de nós". O presidente também afirmou que vai diminuir carga tributária e simplificar normas, para ajudar quem quer empreender, produzir e gerar empregos. Comprometeu-se a privatizar. Era o que a plateia esperava ouvir. 

Mas não deu detalhe de como pretende fazer a reforma da Previdência e sequer mencionou especificamente o tema que gera mais apreensão entre investidores. Raspando em outro assunto que desperta interesse internacional, prometeu conciliar desenvolvimento econômico e preservação do ambiente. E só. O que pareceu positivo foi tentar passar imagem de certa moderação e compromisso com a democracia.

Enquanto Bolsonaro começava a falar na sessão plenária do fórum, por volta das 12h30min, o mercado acionário brasileiro, que abriu em queda, ensaiava reação. Sinal de que manteria o rali das últimas semanas. Ao fim do breve pronunciamento, porém, o humor voltou a azedar. O dólar reacelerou e fechou o dia com alta de 1,25%, a maior em quase dois meses, enquanto o índice Ibovespa encerrou a sessão com queda de 0,94%, a maior retração do ano, também influenciada pelo Exterior.

Relatos indicam que, depois, em reuniões fechadas, Bolsonaro foi um pouco mais incisivo e garantiu que a proposta para a Previdência será apresentada quando o novo Congresso se reunir. O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse o mesmo em outro encontro. A expectativa é de que hoje o superministro dê mais detalhes do menu da reforma da Previdência. Empolgado com o aperitivo das intenções do governo, o mercado espera para logo o prato principal. Se ficar de cara feia, é fome.

CAIO CIGANA