quinta-feira, 26 de junho de 2025


26 de Junho de 2025
CARPINEJAR

Volta de Taison

Sou avesso, reticente, cauteloso com repatriações de ídolos no canto do cisne, como forma de resgatar o passado. Meu medo é transformar o Beira-Rio num asilo e viver com esperanças velhas, feitas apenas de saudade.

Mas eu, como colorado, fiquei comovido com o depoimento de Taison, 37 anos, ao Globo Esporte, desejando encerrar a carreira no Inter. Se eu fosse o presidente Alessandro Barcellos, eu o contrataria para a Libertadores - ele que já foi campeão em 2010 e também possui no currículo o galardão da Sul-Americana pelo nosso escudo.

Taison conhece as manhas, esbanja liderança, preenche a nossa carência de um motivador dentro do gramado. Antes de tudo, demonstra ser torcedor, com um afeto sincero e orgânico pelas arquibancadas. Seria uma peça estratégica e complementar no meio de campo, com Alan Patrick. No mínimo, um reserva de luxo, diante de três competições acontecendo ao mesmo tempo e da ameaça constante de lesões.

Ele se encontra em Pelotas, de férias do clube grego PAOK. Isso já prova o quanto é bairrista, apegado às raízes, o quanto ama este Estado, o quanto não faz demagogia. Com sua atual prosperidade, teria possibilidade de descansar e se refugiar em Miami, Ilhas Gregas, Caribe, Ibiza, Maldivas, mas escolhe sempre vir para o Sul, e justamente no período de chuvas e frio.

Poderia se dar o direito de ser procurado, mantendo-se numa espera silenciosa. Porém, decidiu abrir o coração e a guarda, sinalizar interesse em retornar, encarnando um papel corajoso de vulnerabilidade. Afinal, oferece a cara a tapa, sem receio de ser recusado ou menosprezado.

Taison mostra tanta paixão, tanta garra, tanta vontade de se religar ao elenco que não desperdiçará a oportunidade. Não será uma promessa efêmera, tampouco um capricho. Na entrevista, ele se martiriza pelas declarações contra a direção. Pede desculpas pela sua última passagem polêmica, entre 2021 e 2022, que contou até com uma insólita e informal greve de jogadores e com a rescisão antecipada de contrato:

- Eu, infelizmente, falei coisas que não deveria ter falado. Então, o presidente sabe do carinho que eu tenho por ele. A gente conversou antes de eu voltar, antes de eu sair do Shakhtar, eu conversava direto com ele. Mas isso foi um erro meu, ter acusado ele, ter xingado ele em live, ao vivo. Eu errei, assumo o meu erro.

Cabe lembrar que aquilo que ele fez transcorreu em meio ao luto pelo pai e pelo irmão, duas perdas num período de oito meses. Qualquer pessoa se revolta contra o mundo pelo excesso de dor. É necessário ter empatia com o seu sofrimento. Demora-se a aceitar a ausência dos entes queridos. Você se sente inútil, insignificante, por não ter conseguido prolongar aquelas vidas valiosas ao seu lado.

Nem precisava se arrepender, mas se arrependeu. O que reforça suas chances de reintegração é o exemplo recente da reconciliação de D?Alessandro, que litigou com o comando do clube e depois selou as pazes, a ponto de se tornar diretor esportivo.

Taison é protetor. Porque já se viu desprotegido. Filho de uma empregada doméstica, sétimo entre 11 irmãos, driblou a fome e a miséria no bairro pelotense Navegantes, alimentando-se dos sopões que a igreja oferecia. O pai havia deixado a família, e o pequeno adolescente começou a ajudar no sustento de casa. Chegou a trabalhar como flanelinha em um supermercado. Ansiava por mais - e se arriscou como jogador. Enfrentou dificuldades, superando preconceitos a partir da sua insistência, ginga e velocidade, enquanto todas as avaliações técnicas apontavam que ele era magrinho demais.

O apelo de Leandro Damião, há alguns meses, não sensibilizou a presidência colorada. Que Taison tenha mais sorte. Só proponho que ele mude um detalhe no seu discurso: que regresse não para se aposentar, mas para ralar como nunca - e conquistar o tão sonhado tri da América. Que não ressurja para a festa da despedida, e sim para um novo combate. 

CARPINEJAR

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