quinta-feira, 26 de junho de 2025


26 de Junho de 2025
OPINIÃO RBS

Mais gaúchos no aperto

Levantamentos realizados por diversas instituições sobre endividamento e inadimplência de pessoas físicas e jurídicas confirmam uma tendência preocupante. É crescente a bola de neve das dívidas e a dificuldade de honrar os compromissos em dia no país. Um exemplo está em reportagem de Anderson Aires publicada ontem em GZH, com dados da Serasa. É cada vez maior o número de gaúchos que não conseguem quitar as contas em dia. O problema atingia 42,1% da população do Estado em maio, com avanço constante nos últimos meses. No mesmo período de 2024, o percentual estava em 36,98%.

É preocupante que, a despeito do desemprego em mínimas históricas e da renda em alta, cada vez mais pessoas mostrem-se incapazes de manter uma situação financeira sadia. O quadro sinaliza que, apesar do bom momento da atividade econômica, outros fatores, como inflação resistente e juros nas alturas, pesam mais. A continuidade da escalada da inadimplência eleva o risco de um desarranjo da economia à frente.

Voltou a crescer a inadimplência com contas básicas, como luz, água e telefone. São compromissos que costumam ficar em aberto apenas em último caso. Quando deixam de ser pagas, é indicativo de que as finanças da família, de fato, passam por um período periclitante. Note-se que, com o programa federal Desenrola, lançado em meados de 2023, o calote nesse tipo de fatura teve uma queda representativa. Em maio de 2023, a inadimplência dos gaúchos com essas faturas era de 26,32%. Caiu para 16,15% no mesmo mês do ano passado e, agora, chegou a 17,15%. Ao que parece, o programa federal realmente proporcionou um alívio para quem estava mais apertado, mas foi um desafogo fugaz.

Não se enxergam, por enquanto, fatores que possam significar um recuo da inadimplência. A inflação, grande corrosivo da renda, mostra-se resistente. Está em 5,32% em 12 meses até maio. Um reflexo imediato aparece na Selic, o juro básico da economia. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou a taxa em 0,25 ponto percentual, para o nível sufocante de 15% ao ano, o maior desde 2006. Quem está endividado tem a situação agravada, e quem procura contratar empréstimo encontra condições ainda mais escorchantes, realimentando o círculo vicioso.

Ao mesmo tempo, iniciativas gestadas para ajudar a população ameaçam sair pela culatra. É o caso do programa de crédito consignado para o trabalhador com carteira. A principal intenção era fazer com que os beneficiários trocassem uma dívida cara por uma mais barata. Mas os primeiros números foram frustrantes. Dados divulgados no final de maio pelo BC mostraram que em abril, primeiro mês cheio de funcionamento da modalidade, as taxas subiram em vez de cair. 

A única notícia razoável é a de que o BC sinalizou nesta semana ter encerrado o ciclo de alta da Selic. Ainda assim, tende a continuar em nível nada salutar para o bolso dos brasileiros por um bom tempo. A inadimplência só será combatida de forma sustentável se existir maior responsabilidade fiscal, comportamento capaz de reduzir a inflação e permitir o afrouxamento monetário, combinada com uma melhor educação financeira dos brasileiros. 

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