domingo, 3 de maio de 2015

Com dólar alto, língua portuguesa desaparece das lojas de Nova York
CHICO FELITTI - EM NOVA YORK
02/05/2015  18h46


A empresária Sandra Maria Lee, 39, entrou na butique da Louis Vuitton da Quinta Avenida falando português há algumas semanas:

"A Paula, por favor. Paula. No, no, Paula, please." Os funcionários tentaram explicar que Paula, uma das duas vendedoras que falavam português na loja, não trabalhava ali fazia alguns meses.

Em meio à valorização do dólar, lojas de Nova York dispensam funcionários lusófonos que tinham contratado para atender os brasileiros, terceiro grupo de estrangeiros que mais visita a cidade.

Chico Felitti/Folhapress           


O americano Samuel Mondesir, 25, vendedor da loja de equipamentos fotográficos B&H

A loja da Prada no SoHo apareceu em reportagem da Bloomberg por empregar três vendedores fluentes em português em 2010. Agora, pede a grupos de brasileiros que "avisem com antecedência de alguns dias", para conseguirem comissionar funcionários que entendem a língua.

A Macy's diz em seu site ter um lusófono. A Folha visitou o prédio da Quinta Avenida da loja de departamento em três datas no mês passado e ele não estava disponível.

Tentando comprar em português, a reportagem foi atendida em espanhol nas três visitas. Macy's, Louis Vuitton e Prada não responderam a pedidos de entrevista feitos durante duas semanas.

Ana Souza, 27, trabalhou em três lojas de departamento durante os cinco anos em que morou em Nova York.

Está de volta a Vitória, sua cidade natal, faz dois meses. "Fiquei um ano procurando emprego. Meu visto de trabalho expirou e tive de voltar."

Lojas de roupas jovens tampouco veem a língua como um investimento válido. Na Abercrombie, falam-se seis línguas, além da oficial do país: italiano, espanhol, alemão, francês, chinês e alemão. Procurada, a
Abercrombie não se pronunciou.

"Parece que um certo interesse por funcionários chineses está acontecendo ao mesmo tempo em que há queda na procura por vendedores brasileiros, portugueses ou de países da África que dominem o português", diz a analista de recursos humanos Tina Schuster, que recruta para marcas de luxo.

Alguns negócios visitados afirmaram não terem enxugado a equipe que fala português, como a loja de equipamentos fotográficos e tecnologia B&H, em Hell's Kitchen.

Ali, há quatro vendedores capacitados com a língua. Um deles é o americano Samuel Mondesir, 25, que aprender frases como "mas é o iPhone grandão ou o pequeno que você procura?" nos oito meses de emprego.

Questionado sobre como tinha aprendido português (e adotado o Santos e o Vasco como times do coração) em menos de um ano, ele espalmou as duas mãos e apontou ao redor: "Você já olhou em volta? Só tem brasileiro!".


sábado, 2 de maio de 2015


03 de maio de 2015 | N° 18151
MARTHA MEDEIROS

Um novo arranjo

Afora o jogo explícito da sedução, mulheres podem sim surpreender um homem com flores, desde que seja oportuno

Semanas atrás, li na coluna da Celia Ribeiro, aqui mesmo na revista Donna, que uma leitora tinha dúvida sobre se era aceitável mandar flores a um homem. Celia respondeu com a sensatez de sempre: dependendo da situação e não sendo um buquê de rosas vermelhas, ok. Está certa. Rosas vermelhas são declarações de amor em estado vegetal. Melhor não bagunçar as regras do jogo: deixemos que eles mandem rosas. Já conquistamos tanto poder nas relações, vamos querer seduzir os rapazes com flores também? Desse jeito, vai sobrar o que para eles fazerem?

Mas afora o jogo explícito da sedução, creio que mulheres podem sim surpreender um homem com flores, desde que seja oportuno.

Exemplo de momento oportuno?

Se ele estiver no hospital... não. Leve algumas revistas, jornais. Leve frutas, chocolates. Isso considerando que ele não esteja na UTI – neste caso, leve apenas suas orações.

Se ele está festejando aniversário... acho que não. Dê a série completa de House of Cards. Um disco. Um livro.

Se ele está se formando... também não. Eu sei que presentes como caneta e agenda estão com a validade vencida, mas duvido que um garoto que acabou de sair da universidade vá querer receber astromélias, margaridas ou girassóis.

Se ele chamou para alguma comemoração, leve bebida. Não tem erro.

Se ele está autografando sua primeira obra, arraste para a livraria uma turma disposta a comprar vários exemplares. É isso o que ele quer: uma longa fila.

Se irá visitá-lo na cadeia (ué, gente), leve sabonete líquido, biscoito recheado, palavras cruzadas, ansiolíticos.

Então, quando seria oportuno? Vou dar um exemplo que vivenciei.

Um conhecido que mora sozinho resolveu fazer um jantar em sua casa para me apresentar seus amigos. Eu não conhecia sua casa e, sendo sincera, nem a ele muito bem, mas sendo um jantar com uma motivação relacionada a mim, não podia aparecer de mãos abanando. Sem me preocupar em ser original, pensei em levar uma garrafa de vinho. O problema é que ele era um grande conhecedor de vinhos e já havia decidido o que servir à mesa, ou seja, eu só atrapalharia seus planos. Foi então que, às três da tarde, horas antes do jantar, entrei numa floricultura, escolhi uma bela orquídea e mandei entregar na casa dele. Não tinha ideia sobre que efeito isso teria.

Teve um bom efeito. Outro momento oportuno, vivenciado por uma moça bem menos sutil, foi quando o noivo rompeu com ela, sem dar explicação, duas semanas antes do casamento. O rapaz recebeu em casa uma coroa de flores com uma faixa roxa onde estava escrito: “Descanse em paz”.

Se o clima for de velório, considere. Mas não espere encontrar essa dica numa coluna de etiqueta.



03 de maio de 2015 | N° 18151
CARPINEJAR

Casaquinho preto

Toda mulher tem um casaquinho preto, de malha, que custou barato e é uma companhia inseparável. De aparência simples e discreta, o casaquinho é mais importante do que qualquer roupa de estilista famoso.

O casaquinho é aquele que ela diz para as amigas que deveria ter comprado dois e que jamais encontrará igual. E ela nunca compra dois, apesar de já ter amaldiçoado a avareza antes.

O casaquinho é uma segunda bolsa, tamanho seu valor prático, combate o frio do cinema, da saída de festa e de jantares. Toda mulher que se admira tem um casaquinho preto, que cavou em uma liquidação como um dos grandes achados de sua vida.

É uma peça invisível que não estraga nenhuma combinação. É um travesseiro para os ombros. É uma vitamina C de pano para prevenir a gripe.

Não se habilite a segurar o casaquinho preto dela, é muito pessoal. Cometerá uma gafe. O máximo que pode fazer é ajudá-la a vesti-lo.

Nenhuma mulher aceita emprestá-lo. Não é gentileza, e sim invasão de privacidade, o equivalente a mexer em suas redes sociais.

O casaquinho é um objeto íntimo, intransferível, lingerie pelo lado de fora. Não queira assumir a responsabilidade. Se tomar conta e extraviar, ela ficará enlouquecida e não perdoará a distração.

Casamento é bem capaz de terminar quando o homem inventa de proteger o casaquinho e acaba esquecendo em algum lugar. Não corra riscos. Eu perdi um casaquinho num show. Amarrei na cintura. Ao pular e dançar como um negro gato no show do Luiz Melodia, deixei cair no meio da pista.

Estávamos felizes, radiantes, nos beijando e nos abraçando com furor, um casal antologicamente apaixonado em Porto Alegre, cantando as canções de cor e trocando risos caprichados. Quando, no intervalo de uma música, ela me perguntou “Cadê o casaquinho?”, a noite mudou de feição, ela mudou de feição, eu mudei de feição vendo a noite e ela mudando de feição ao mesmo tempo. Paralisei minha boca em uma careta, porque ele havia sumido sem que percebesse.

Com a lanterna do celular, eu me postei no chão, me agachei como o aspirador dos dedos para reconhecê-lo entre latas e copos de bebida. Pisaram em minhas mãos, me empurraram, e nada de resgatar o pobrezinho.

Ela passou a madrugada lamentando o casaquinho, a manhã seguinte lamentando o casaquinho, o mês seguinte lamentando o casaquinho. Era viúva do casaquinho. Não se falava em outra coisa.


Procurei corrigir o erro e adquirir um semelhante. E agravei a minha falha: só ela tem o direito de escolher seu casaquinho. As mulheres não são difíceis, mas fetichistas.

03 de maio de 2015 | N° 18151
ROBERTO ROMANO

Latinos?

Amigos do Rio Grande, meus respeitos! Recebi a honra de escrever na Zero Hora em companhia de ilustres colegas e jornalistas. O nosso convívio, penso, pode ser destinado ao diálogo sobre questões éticas, estéticas e políticas. Escolhi para a primeira conversa um tema espinhoso.

Usamos sem cautelas a palavra “latino” para indicar quem vive abaixo do México. A recusa do apelativo, não raro, é punida com linchamentos ideológicos. Numa reunião acadêmica, fui proibido de questionar o fato e a palavra. E o evento era um “debate”. Discordar, pouco a pouco, se transforma em sinônimo de crime. Mas pensemos o dogma.

O termo “América Latina” surge em 1856 com Francisco Bilbao e Torres Caicedo. Ele se amplia com o padre Lamennais e se vulgariza sob Napoleão III. Mesmo com Lamennais, teórico e suposto progressista – de fato um conservador desiludido – ele assume forma problemática. Para a política internacional da França, importa que os EUA não controlem o México.

“Se”, escreve o imperador ao General Forey em 1862, “o México mantiver sua independência e integridade territorial, e com ajuda da França um governo estável se estabelecer ali, podemos restaurar a força e o prestígio da raça latina no ‘outro’ lado do Atlântico (…) é nosso dever intervir no México com nossa bandeira”. E mais: “estamos interessados em manter os EUA como poderosa república; não é interesse nosso que ele se aposse de todo o Golfo do México e governe as Índias Ocidentais e a América do Sul, controle toda a produção do Novo Mundo”. Leia-se M. Rojas, Los Cien Nombres de America (1991).

O nome se reforça com a imposição sangrenta ao México de um governante estrangeiro, o patético Maximiliano de Habsburgo. A latinidade oficial nasce numa concorrência entre imperialismos. O mito legitima canhões e baionetas de Napoleão III, cujo alvo era garantir “mercado para nossas fábricas, matéria-prima para nossas manufaturas” na mesma carta ao general Forey).

O “latino” atribuído à nossa gente surge em conflitos políticos, econômicos, ideológicos e religiosos que envolviam a Europa, os EUA e as nações que conseguiram independência no século 19. A fórmula “América Latina” não denota uma cultura comum gerada no Latium via Espanha e Portugal. Ela traz o selo de uma invenção diplomática (mentirosa como toda razão de Estado) para definir o território de caça francês, contra a notória voracidade norte-americana de espaço.

A propaganda gálica indica os protestantes do Norte como ateus presos ao mercado. Já a França seria espiritual. No fato, Paris quer a riqueza americana, jamais o diálogo com nosso espírito, demasiado primitivo segundo seus filósofos. Vicente Romero tem outra versão, plausível. A ela voltarei se preciso. As vítimas devem optar entre imperialismos: qual rapina é menor? Vencidos os franceses, nossa gente é estigmatizada como “latina”. Nos EUA de hoje, o termo designa cidadania inferior.

O apelativo silencia que os indígenas e seus filhos são alheios à cultura de Cícero. Eles eram muitos antes dos europeus. Após o seu genocídio nos EUA, na América Central e do Sul, congregam povos que vincam a nossa fala e vida ética. Africanos nada possuem que os ligue à cultura “latina”. Dela, recebem morte e dor. Os afrodescendentes não são “minoritários”, pois só aqui eles contam 101.923.585 (IBGE). Se passamos aos alemães, ucranianos, poloneses, russos, japoneses, húngaros, holandeses, chineses, coreanos, sírios, libaneses, turcos e outras etnias, piora o equívoco do “latino”.

E o fato existe no continente inteiro. Analiso o tema na revista Art-Press (How “latin” is Latin America?, no endereço bit.ly/1du0ycy). O termo “latino” não significa, de modo imediato, liberdade democrática.


Em vez de retomar algo que nos prende às ideologias do século 19, importa pensar o Brasil como síntese dinâmica de múltiplas e diferentes culturas, política inclusive. Tensões entre elas ocorrem, mas todas entram na paleta de nosso povo sem nada dever aos pretensos donos, gálicos ou saxões, do mundo.

03 de maio de 2015 | N° 18151
ANTONIO PRATA

O último a sair

Desde os longínquos anos oitenta do século passado, quando perigava do Lula ganhar as eleições presidenciais, a direita brasileira ameaça deixar o país. Segundo apregoava o então presidente da Fiesp, Mario Amato, em caso de uma vitória petista, 800 mil empresários picariam a mula: “O último a sair, por favor, apague a luz do aeroporto”, teria dito.

Neste segundo mandato de Dilma Rousseff, o projeto da diá$pora voltou com tudo. Pelo que leio e ouço por aí, tem mais rico brasileiro se mudando pra Miami, hoje, do que turista japonês tirando foto da Mona Lisa, no Louvre.

Acho curioso. Se alguém deveria estar contente com o estado das coisas, é a direita. Os índices de aprovação da presidente são os mais baixos da história; o congresso quer rever o estatuto do desarmamento e diminuir a maioridade penal, já disse que não vai tocar no tema do aborto e tenta retroceder nas conquistas LGBT; Bolsonaro & Feliciano fazem mais sucesso do que Chitãozinho & Xororó; e a PM que desce o sarrafo em professores e mata criança com tiro de fuzil é aplaudida em passeatas “ordeiras” e “pacíficas”. Se eu fosse de direita, não estaria pensando em fugir pra Miami, mas em construir uma Disney lá pros lados de Barueri.

Quem tem motivo para se arrastar por aí chutando tampinha e rosnando pra lua somos nós, companheiros, que colamos o adesivo “oPTei” em nossos Chevettes, lá por 1987, nós que cantamos o “Lula Lá” como se fosse um “Abre-te, Sésamo!” para Shangri-Lá, achando que o PT iria levar pão, poesia, matemática e tomografia para cada brasileiro. Que tristeza: apostamos num partido fundado por Sérgio Buarque de Holanda e Chico Mendes para fazer “dessa vergonha, uma nação”, como cantou Caetano Veloso, e, hoje, nossa expectativa mais otimista são alguns quilômetros de ciclovia.

É preciso reagir, meus caros. É preciso tirar da direita as rédeas da história. É preciso dar um passo à frente e dizer: péra lá, não são vocês que vão embora, com seus jacarezinhos no peito e Rolex no pulso, somos nós, com nossas pochetes na cintura e barbas por fazer! Chega de tentar tirar o gigante adormecido do seu berço esplêndido. (Aliás, um gigante de 500 anos que ainda dorme em berço, já era para termos nos tocado, tem algum problema bem sério). Chega de querer construir um país do zero: nos mudemos, de mala e cuia, para um que já esteja pronto.

Para onde vamos? Pra Miami? Evidente que não. Vamos para outra cidade onde a língua também é o espanhol, mas num país cujo governo é – verdadeiramente – de esquerda, a maconha é liberada, o vinho é de primeira, a carne é estupenda e o maior defeito, ao que parece, é fazer fronteira com o Brasil. Estou falando, claro, do Uruguai.

Se o Haddad perseverar e o MP parar de encher o saco, talvez consigamos ir de bicicleta até o porto de Santos, de onde seguiremos, em comboio, de pedalinho, rumo ao Éden cisplatino. Às margens do Prata, fundaremos a nova Colônia Cecília, requereremos nacionalidade uruguaia, e, ao recebê-la, sob o radioso sol de nossa alviceleste bandeira, brindaremos com Tannat, simultaneamente, duas tão sonhadas conquistas: um país justo e a Copa de 50.


O último a sair, por favor, acenda o baseado.

03 de maio de 2015 | N° 18151
MOISES MENDES

Marta e a classe média

Marta Suplicy e muita gente que você conhece, amigos, parentes, vizinhos e colegas, faziam parte, até bem pouco tempo, do que se definia como a classe média de esquerda, ou meio de esquerda, ou simpatizante de alguém ou das atitudes de centro-esquerda. Essa classe média pretendeu passar aos filhos suas referências.

Os jovens que saíram às ruas pelas Diretas Já em 1983 e 1984 estão hoje com uns 50 anos. Depois, a classe média voltou às ruas em 1992, com os caras-pintadas, para derrubar Collor. Um adolescente daquele tempo chegou agora aos 40 anos.

A classe média meio de esquerda carrega cicatrizes e memórias de tempos duros: ditadura, resistência, inflação, dívida externa, Vietnã, Terceiro Mundo, distribuição de renda, social-democracia, Guerra Fria, FMI, negritude, indigenismo, Teo- logia da Libertação, diretas.

Em algum momento, essa classe média até se divertiu com o deboche da direita, que passou a defini-la como o perfeito idiota latino-americano. O idiota era, segundo o escritor peruano Álvaro Vargas Llosa, o cara bem de vida seduzido por algum apelo considerado populista, na política, na economia e nos costumes, que afrontasse o que era dado como pronto e acabado. Álvaro – filho de Mario – referia-se à “empoeirada classe social, à qual provavelmente todos nós pertencemos”.

Pois essa classe, esculachada por Álvaro e três amigos no livro Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano (Bertrand Brasil), lá em 1997, deixou de existir. A crise existencial a desalojou de seu território político e de suas utopias.

Marta Suplicy, a moça que falava de feminismo nos anos 80, é a expressão desse dilema, não só porque brigou com o PT. A grande massa de classe média que sustentou o petismo não era a da militância orgânica, de filiados e embandeirados. Era a que via Marta na TV e arejava a família com ideias levemente transgressoras.

Álvaro Vargas Llosa e seus parceiros escreveram há 18 anos que, abaixo da tal classe média empoeirada, estava “o povo, essa grande massa anônima e paupérrima”, e acima dela estavam, “sempre arrogantes, os ricos com seus clubes, suas mansões, observando com desdém as pessoas da classe média”. Era, claro, uma ironia.

Essa classe média não existe mais, não do jeito que Llosa a descreveu, descontados os exageros. A classe média constrangeu-se com o fracasso de seus sonhos. Seus filhos são quarentões desorientados. Logo ela, a classe média que sustentava as boas intenções do mundo.

Podem esnobar Marta Suplicy e dizer que ela é uma bacana ressentida, mas é preciso admitir: Marta era, sim, daquela turma. Ela falava para pais, tios e avós de quem hoje pode ver sentido até na retórica assustadora de um Levy Fidelix e seus seguidores, que defendem o rearmamento e a maioridade penal aos 16 anos ou condenam a união homoafetiva, as cotas, o Bolsa Família e o Prouni.

Enquanto antigos idiotas latino-americanos prosperam no Uruguai, no Chile e na Bolívia, para desespero dos idiotas da direita, os idiotas brasileiros se constrangem. Muitos de seus filhos (quantos não foram caras-pintadas?)nunca chegarão perto de um livro de Neruda ou Marcuse, esculhambados por Álvaro, e outros já não têm certeza de que a democracia dará conta das suas confusões.


A velha classe média brasileira transformou-se em outra coisa, à espera de quem a decifre ou, quem sabe, a confunda ainda mais.
RUTH DE AQUINO
30/04/2015 - 20h57 - Atualizado 30/04/2015 21h17


Falar ou calar, companheira Dilma?

Para qualquer lugar que se olhe, os números justificam a cisão entre PT e trabalhadores

O 1º de Maio, Dia do Trabalho, deveria ser uma data de gala para o Partido dos Trabalhadores. O PT está no Poder há mais de 12 anos, legitimamente eleito em quatro consultas consecutivas à população. Lula duas vezes. Dilma, mais duas. Por que então a presidente decide não fazer o pronunciamento tradicional em cadeia de rádio e televisão para 200 milhões de brasileiros? Por que não agradecer o voto de confiança dado a ela há apenas alguns meses – que já parecem uma eternidade?

Medo de um panelaço pior que o do Dia da Mulher. Panelas novas, panelas importadas, panelas velhas, panelas arranhadas. Medo do barulho infernal que pode emergir de residências caras, apartamentos modestos ou barracos. Medo da reação dos trabalhadores, não importa quanto ganhem. Medo da desilusão dos que perderam o emprego. A taxa de 6,2% de desocupação é a mais alta desde maio de 2011. O total de desempregados aumentou 23,1% em relação a março de 2014. As contas públicas registraram o pior trimestre em 17 anos.

O governo nega medo de panelaço ou de vaia. Dilma prefere gravar e divulgar alguns vídeos com mensagens nas redes sociais, segundo o ministro da Comunicação, Edinho Silva. O PT não gostou dessa desculpa tecnológica. Dirigentes petistas acham “um absurdo” e criticam a “covardia” de Dilma. Lula também pressiona a companheira. Há duas semanas, ele apelou em reunião com sindicalistas: “Dilma, se tem gente para te defender para sair dessa enrascada, é esse pessoal aqui”.

Qual enrascada? Para qualquer lugar que se olhe, os números justificam a cisão entre o PT e os trabalhadores. Tivemos o pior desempenho da história da caderneta de poupança, com os saques superando os depósitos em R$ 23 bilhões. O salário acaba antes do mês. Brasileiros raspam suas economias. É a maior carestia em 12 anos. A inflação e a desaceleração econômica aumentam as demissões e diminuem o poder de negociação salarial. A renda média do trabalhador foi reduzida em 2,8% em março – a maior queda em um mês desde janeiro de 2003, segundo o IBGE.

Em 2003, em seu primeiro Dia do Trabalho como presidente, Lula fez um discurso na Igreja da Matriz, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Foi uma fala de improviso, coisa inimaginável para Dilma. “E eu tenho, na minha cabeça, cada discurso que fiz na minha vida, eu tenho na minha cabeça cada compromisso que eu assumi em praça pública, eu tenho na minha cabeça programas de governo e eu tenho na minha cabeça que, se falhar, quem falhou foi um pedaço da história deste país e, possivelmente, iremos passar muitos anos para que a gente possa reconstruir a esperança que brotou no nosso país.” Premonição?

Lula dizia querer ser lembrado pela qualidade de vida de homens e mulheres. “E sobretudo pela qualidade da educação e da saúde que a gente quer implantar neste país.” Para tanto, o governo precisa “ter a habilidade de envolver a sociedade brasileira para se tornar cúmplice do governo”. “Podem ficar certos que todo 1o de Maio, às 9 horas da manhã, o presidente da República estará aqui para prestar contas do que estamos fazendo neste país”, afirmou Lula em 2003, pedindo que “Deus abençoe todos nós”.

Doze anos depois, onde está a qualidade na educação e na saúde? Doze anos depois, por que Dilma evita falar em público ou na televisão? Não quer prestar contas? A sociedade foi, sim, cúmplice do governo e acreditou no PT, como queria Lula. O PT teve a bênção de Deus, mas se deixou corromper pelo diabo.

A sociedade só não se sente cúmplice da corrupção e da incompetência que roubaram bilhões dos trabalhadores e de suas famílias. Agora, o ajuste fiscal, necessário como um antibiótico com efeitos colaterais negativos, tira bilhões do seguro-desemprego, da pensão por doença e morte e do abono salarial. O corte de R$ 18 bilhões em benefícios sociais foi reduzido para R$ 7,7 bilhões por resistência do Congresso. Onde está o corte necessário e moralizador nos surreais 38 ministérios? É ou não “corte na carne”?

Neste Dia do Trabalho, Lula e a CUT querem que Dilma condene a terceirização aprovada na Câmara. Na segunda-feira passada, Lula disse que, no 1º de Maio, “tranquilamente, a companheira Dilma vai vetar (a terceirização das atividades-fim das empresas)”. Se falar, a presidente dirá que não é a favor nem contra, muito pelo contrário. Dirá que apoia a terceirização para aumentar chances de trabalho e produtividade. Dirá que rejeita mexer nas conquistas trabalhistas. Dirá, como o presidente do Senado, Renan Calheiros – quem diria –, que não dá para liberar geral a terceirização, num momento em que o Estado aumenta impostos e juros.

Neste feriadão, o povo não quer mesmo ouvir Dilma. Não foi apenas o trabalho que se tornou precário. Foi a presidente.



02 de maio de 2015 | N° 18150 ARTIGOS
RODRIGO LOPES

VIDA QUE VIVE

A cena era dura, porque dura é a morte. Mas, naquela ocasião, em uma estrada empoeirada, entrada de Porto Príncipe, a morte ganhava um toque de delicadeza: o cadáver de uma mulher, um dos 316 mil mortos do terremoto que devastou o Haiti, em janeiro de 2010, era transportado na traseira de uma caminhonete. Meus olhos foram imediatamente atraídos para o rosa de suas unhas dos pés a contrastar com a aridez do cenário.

Corta a cena! Retrocedamos três anos, agosto de 2007: saída do vilarejo de Pisco, interior do Peru. Depois de uma madrugada de trabalho, acompanhando o resgate dos corpos do interior de uma igreja destruída por outro terremoto, vejo um caminhão aproximando-se do meu carro. Ao redor, mulheres, crianças e cães correm para alcançar sacos de comida atirados por voluntários. Choro de emoção.

Voltamos aos nossos dias. Observo a tragédia do Nepal antevendo um ciclo jornalístico conhecido: no primeiro dia, o estupor do desastre. Pessoas correm para um lado e outro, mortes e destruição por todos os lados, resgates; no segundo, a ajuda internacional começa a chegar ao país arrasado, começam os saques; no terceiro, aparece o risco de epidemias.

É preciso enterrar os mortos urgentemente. Metrópoles tornam-se cidades de caixões. Ou esburacadas por valas comuns. Cumprem-se as famosas 72 horas, tempo máximo que os especialistas preveem que uma pessoa é capaz de sobreviver sob escombros. Nos quarto e quinto dias, quando o assunto começa a desaparecer do noticiário, surgem os milagres. Imagens como as do bebê Sonit Awal, de cinco meses, retirado dos escombros de Muldhoka, a leste de Katmandu. O rosto está coberto de poeira de escombros, é quase difícil identificar se seria um bonequinho de brinquedo ou um ser humano. Olhinhos fechados. Está vivo.


Se a ciência no século 21 ainda não é capaz de prever terremotos – tsunamis são mais fáceis –, resta convivermos com esses fenômenos. Não é a natureza que está em lugar errado. Somos nós que construímos cidades onde a vida urbana um dia pode ser aniquilada: Anatólia, San Andreas, fissuras entre placas tectônicas que um dia, infelizmente, vão matar populações na Turquia e na Califórnia. Uma consolação: mesmo no horror, aparecem a delicadeza de unhas pintadas, a solidariedade do homem do caminhão de comida e os bebês que contrariam as estatísticas. Vida que insiste em seguir vivendo.

02 de maio de 2015 | N° 18150
NILSON SOUZA

Vai dar bolo!

Escrevo antes de dormir, intrigado com o que ouvi à tarde de um colega que acompanha muito de perto a revolução tecnológica. Disse ele que já está em teste um algoritmo capaz de prever com exatidão o que será notícia amanhã, a partir do zum-zum-zum das redes sociais. Depois que consultei o preço de uma camiseta do Japão no Google e o uniforme da seleção nipônica passou a me perseguir por todos os sites que consulto, já não duvido de mais nada.

Algoritmo, decifra-me ou te devoro.

Decifro, depois de consultar a enciclopédia digital. É uma sequência de instruções que podem levar, às vezes automaticamente, à solução de um problema. Como a gente sempre pensa em computador quando imagina coisas que se resolvem sozinhas, os autores do conceito apressam-se a explicar que não se trata apenas de informática. Algoritmo, esclarecem, pode ser uma receita de bolo.

Consulto, então, minha esposa sobre o algoritmo do meu bolo preferido:

– Duas xícaras de farinha, duas xícaras de açúcar, quatro ovos e meia xícara de leite – me responde, sonolenta.

O resto eu sei, de tanto assistir à alquimia culinária, sempre com água na boca. Mistura-se tudo e leva-se ao forno pelo tempo necessário para criar aquela casquinha gostosa na cobertura. O cheiro que escapa durante o cozimento é uma verdadeira tortura, mas vale a pena acompanhar.

Esses ingredientes olfativos e emocionais, evidentemente, não fazem parte dos algoritmos utilizados na programação de computadores. Mas a definição serve: um algoritmo é uma sequência lógica de passos e instruções que devem ser seguidos para resolver um problema ou executar uma tarefa.

Não passa dia sem que um jovem pesquisador anuncie um algoritmo de futurologia, a partir da imensidão de dados existentes no multiverso das redes sociais. Tem até um que recolhe informações do Face e diz quando um namoro ou romance deve acabar. Ou seja: a coleta e a operação das informações obedecem à automaticidade da computação, mas o resultado interfere nas emoções.

Assustador isso, não?

Minha vacina contra essa tecnologia que ameaça namoros e profissões é um ceticismo adesista. Tomara que não vingue, mas, se vingar, a gente se adapta. Enquanto isso, prefiro seguir os meus instintos e prever a minha própria manchete para a manhã seguinte, no café da manhã:


– Vai dar bolo!

02 de maio de 2015 | N° 18150
DAVID COIMBRA

Quero que o Grêmio seja campeão

Sim. Quero que o Grêmio seja campeão. Sei que, neste momento, os colorados estão me chamando de gremista filho duma #$#o@#%¨&l*(f)(&k%!, mas não, não quero que o Grêmio seja campeão por causa do Grêmio. Se o Grêmio de fato for campeão, será mais um entre dezenas de títulos gaúchos que conquistou, e entre outros tantos que conquistará. Campeonatos há todos os anos.

Não, não. Quero que o Grêmio seja campeão por causa de Luiz Felipe Scolari.

Nunca fui à casa de Luiz Felipe, ele nunca foi à minha. Não tenho o número do celular dele. Não saímos para jantar juntos. Nossa relação é meramente profissional. Até já fiquei irritado com Luiz Felipe e suponho que ele já tenha ficado irritado comigo também.

Mas quero que Luiz Felipe seja campeão.

Uma vez, entrevistando-o nos anos 1990, perguntei a Luiz Felipe sobre seus tempos de jogador, quando era um enérgico quarto-zagueiro do Caxias, parelha com Cedenir, protetor de Bagatini. Hoje, a lenda diz que não passava de um tosco, um violento, sem réstia de habilidade. Mas o vi jogar, e não o achava tão ruim assim. Ao contrário: para mim, tratava-se de um dos melhores zagueiros do Estado. Disse isso para Luiz Felipe, e ele contou que, no começo, espanava a bola e batia mesmo, mas que, depois, quando tomou confiança e os adversários o respeitavam, passou a jogar mais, a sair de cabeça erguida feito um Figueroa, a ousar passes de insinuação feito um Gamarra.

Luiz Felipe se sofisticou como jogador. Essa evolução profissional, não por coincidência, ele a repetiu no campo pessoal. No começo, Luiz Felipe reagia a cada desavença como se estivesse espanando a bola. Batia mesmo. Com o tempo, sentindo-se mais confiante e percebendo o respeito que os outros por ele nutriam, Luiz Felipe relaxou. Amigo dos seus amigos ele sempre foi. Não foram poucas as oportunidades em que Luiz Felipe demonstrou possuir o supremo predicado da lealdade. Com o tempo, ele se aproximou das pessoas e permitiu que elas se aproximassem dele.

Com a personalidade suavizada, Luiz Felipe tornou-se uma pessoa melhor. E foi então que sofreu o maior revés da sua vida profissional.

A goleada para a Alemanha, embora fosse imprevisível, foi compreensível. Nas quartas de final, escrevi um texto sobre como estava vendo os jogadores da Seleção. “Com o Brasil sobre os ombros”, foi o título. Temia a derrota para a Colômbia, tal era o clima passional do país, um clima entre a beligerância e o ufanismo, transmitido para os jogadores a cada minuto do dia por seus parentes, seus amigos, pela TV, pelo celular. O Brasil, que nunca foi fácil, está cada vez mais difícil, e aqueles jovens sentiram o peso de ter um Brasil inteiro com os olhos sôfregos postos neles. Isso ficou claro durante toda a Copa. Um único revés é decisivo para quem é instável. E foi. Em seis minutos, a Seleção se desmanchou. Nem um homem com a sabedoria futebolística de Luiz Felipe tinha como evitar a tragédia.

Luiz Felipe poderia ter acabado ali. Poderia ter desistido. Não seria de todo ruim, ele já conquistou tudo que um técnico teria para conquistar. Mas ele seguiu em frente. E, ao avançar, voltou às origens, ao time do seu coração, que o revelou para o mundo. “Preciso de carinho”, disse ao chegar, demonstrando que no peito de um zagueiro duro batia um coração macio.


Luiz Felipe no Grêmio são dois velhos recomeços. O futebol é feito de histórias, e essa é uma linda história, que tem provocado risos e lágrimas. Espero que tenha um desfecho coerente. Um desfecho feliz. Pela história de Luiz Felipe, quero que o Grêmio seja campeão.

02 de maio de 2015 | N° 18150
CLÁUDIA LAITANO

Emanuel e os professores

No mesmo dia em que os grandes jornais do país, Zero Hora inclusive, estamparam na capa as imagens do violento confronto da quarta-feira entre professores e policiais militares em frente à Assembleia Legislativa do Paraná, a foto que ocupava quase toda a primeira página do jornal Diário Gaúcho era a de um menino encontrado morto, na noite de terça-feira, na Restinga.

Emanuel tinha 12 anos, mas aparentava bem menos. Quando foi encontrado, vestia bermuda de surfe, camiseta Nike, chinelos de dedo e cinco balas espalhadas pelo corpo franzino. Nos últimos três anos, contam os repórteres Eduardo Torres e Renato Dorneles, Emanuel fugiu pelo menos nove vezes de casas e abrigos para menores. Era figura conhecida dos assistentes sociais da região central de Porto Alegre – que haviam tentado, mais de uma vez, convencê-lo a sair da rua e voltar para casa. A mãe, catadora de lixo, também não conseguia mantê-lo por perto.

Apreendido no mês de fevereiro por tráfico, Emanuel foi colocado em um abrigo em São Leopoldo, de onde, pela última vez, acabou escapando também. A polícia suspeita que ele tenha sido aliciado para vender drogas em Porto Alegre, na Restinga, onde esta breve e previsível história terminou como todos imaginavam que terminaria. (Com exceção, talvez, do epílogo: a foto em destaque na capa de um jornal e o título desta coluna.)

Para algumas pessoas, a trajetória de Emanuel talvez sugira que a maioridade penal deveria ser reduzida para os nove anos, idade em que muitos meninos como ele começam a ser atraídos pelo tráfico. Ou mesmo antes, quem sabe (em fevereiro, foi apreendido, no Rio, um pequeno assaltante de seis anos, apontado pelo comparsa de nove como o verdadeiro “cérebro” criminoso da dupla). Talvez, por segurança, as leis devessem imitar Herodes e bater em todas as portas, de todas as casas (pobres), condenando à morte todos os meninos. O céu, ou o inferno, é o limite.


Na contramão do autoengano de que mais e maiores presídios poderiam resolver os problemas sociais do país, é possível ver no episódio que colocou professores na mira de balas de borracha e na morte do menino que morava na rua não uma coincidência aleatória do noticiário, mas a confirmação de uma correspondência tão evidente que chega a ser redundante: sem a valorização dos professores, não existe educação pública de qualidade, sem educação pública de qualidade há poucas chances de que meninos como Emanuel consigam mudar o curso da própria história.

sexta-feira, 1 de maio de 2015


Dia do trabalho

A história do trabalho humano é das partes mais lindas e interessantes da história da humanidade. Talvez seja mesmo a parte mais digna, honesta e bonita. Estão aí pirâmides, muralha da China, estádios à beira de rios, livros, bibliotecas, jardins, templos, catedrais, obras gigantes, pequenas casas em aldeias, represas, edifícios, arte, artesanato, tudo feito quase sempre por milhões de anônimos, geralmente mal remunerados.

Desde que Adão comeu a maçã e Deus o mandou ir atrás e suar um monte para comer, até o ócio criativo, o direito à preguiça, o lazer cultural e outras modernidades laborais, passando por lutas sindicais e revolução industrial, muita coisa aconteceu nestes milênios, especialmente a partir de 1886. Em Tempos Modernos, Chaplin deixou seu recado sobre o novo mundo trabalho, com suas linhas de produção, suas correrias e falta de humanismo.

Tripalium, instrumento de ferro ou de madeira com três pontas, usado antigamente na lavoura para separar cereal, teve sua utilização decaída e virou instrumento de tortura e, aí a triste origem da palavra trabalho, até hoje muita associada com pecado, punição, esforço, tortura, abuso e violência. No Brasil do século XXI, o trabalho escravo é objeto de uma PEC. Triste, mas não podemos deixar isso de lado, esquecer essa chaga no Dia do Trabalho. Desculpem.

1886, primeira grande paralisação de empregados nos EUA. 1889, Paris, enorme movimento de operários. 1891, 8 horas diárias de trabalho. Na Inglaterra da Revolução Industrial a frase revolucionária, verdadeira lição de vida e de luta: 8 horas de trabalho, 8 de diversão, 8 de descanso e 8 shillings por dia. Meu pai me ensinou esta frase, quando eu tinha uns dezoito anos, mas sem os 8 shillings, que as oito de trabalho eram de estudo.

1º de maio no Brasil virou feriado nacional só em 1924 com o Presidente Artur Bernardes. Nos outros países foi bem antes, como de costume nestas coisas. Nossa CLT, não por ocaso, foi promulgada no histórico 1º - 5- 1943. De lá para cá muitas conquistas, muitos avanços, especialmente no âmbito do trabalho doméstico, um setor que evoluiu muito, calmamente, sem tumultos, sem problemas maiores. Domésticos constituem a maior categoria profissional do Brasil.

Claro que há muito ainda por acontecer nas relações de trabalho no Brasil. Temos que evoluir. Tomara que aconteçam coisas boas. Muito diálogo produtivo entre as forças do capital e do trabalho seria um ótimo, desejável caminho. Não é fácil, nunca foi fácil a conversa entre o capital e o trabalho, nestes séculos de luta. Mas seria o melhor. Vamos torcer pelo melhor.

É sempre bom lembrar que na vida a relação com o trabalho é das mais longas que temos e é das que podem nos dar mais alegria e satisfações. É uma espécie de casamento com uma parte importantíssima da gente, um relacionamento com nossos setores produtivos e criativos, por aí. Que seja bom. Para nós e para os que estão perto.

a propósito...

O ideal seria que todo mundo trabalhasse com a seriedade e a alegria de uma criança brincando. Não é fácil. Pouquíssimos conseguem. Mais comum em áreas artísticas, de criação, atividades que envolvem sonhos infantis, aspirações profundas, e vocações inatas, difícil explicar. Bom pensar que mesmo num mundo onde a alta tecnologia por vezes aliena e faz os trabalhadores, solitários, conviverem até demais com as telas e o silêncio, sempre haverá momentos de pausa, olhar, conversa, abraço, cafezinho, chá, chimarrão e convívio indispensável. Se não houver, melhor exercer o direito à preguiça, ir para a praia e viver à base de peixe com banana.



Castellinho, o mais lido e mais influente
DIVULGAÇÃO/JC

Todo aquele imenso mar de liberdade - A dura vida do jornalista Carlos Castello Branco (Record, 560 páginas, R$ 60,00), do jornalista Carlos Marchi, conta a história do colunista político mais lido e influente do País entre as décadas de 1960 e 1990. Muitos o consideram o maior colunista de política que o Brasil já teve. Ele escreveu mais de 8 mil colunas para o Jornal do Brasil. Política, literatura e jornalismo são os três pilares que definem a vida de Castellinho, que integrou a Academia Brasileira de Letras.

Carlos Marchi conviveu longamente com Castellinho, trabalhou no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, Última Hora e O Globo), Brasília (O Globo, TV Globo, O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil) e São Paulo (O Estado de São Paulo). Foi secretário do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal na gestão de Castellinho e assessor da campanha civilista de Tancredo Neves em 1984/1985. É autor de Fera de Macabu (Record, 1988 e Best Bolso).

Marchi é um exímio contador de histórias e não escondeu nada sobre o ícone da imprensa com quem conviveu. Não escondeu as fraquezas de Castellinho e a obra se inicia com uma conversa do biografado com Jango, sobre um tema que seria a maior tristeza da vida do jornalista.

Castellinho veio do Piauí, formou-se em Direito, começou sua carreira em Minas Gerais, onde logo começou a trabalhar nos Diários Associados. Conviveu com os maiores personagens da história do País e atravessou períodos turbulentos da política, como a renúncia de Jânio Quadros, de quem foi secretário de imprensa. Em Minas, aproximou-se de Fernando Sabino, Hélio Peregrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.

Castellinho morou no Rio e depois em Brasília, onde consolidou sua carreira. Castellinho foi jornalista durante cinqüenta anos, sendo que trinta deles como colunista político diário no Jornal do Brasil. Somente uma vez atuou "do outro lado do balcão", trabalhando no governo, como se diz no meio jornalístico.

No Jornal do Brasil com seu talento para as letras e o jornalismo, ia driblando a censura do tempo da ditadura militar, aprofundando análises, definindo informações essenciais e, assim, conseguia informar, na medida do possível para a época, o leitor, defendendo ao máximo a liberdade de expressão e de informação. Não era fácil, mas Castellinho ia desenhando o panorama político da época.

Com a volta da democracia em 1985, mestre Castellinho pode livrar-se de tristezas, frustrações e angústias pessoais e profissionais dos anos de chumbo e mergulhar num imenso mar de liberdade, quando então pode abandonar as entrelinhas e falar bem alto e claro. Felizmente Castellinho viveu oito anos depois da abertura democrática, vindo a falecer em 1993.


O volume tem apresentação de Merval Pereira, colunista político de O Globo e integrante da Academia Brasileira de Letras. Escreveu Merval: "frio, pragmático, Castellinho sabia lidar com as autoridades de Brasília sem perder de vista sua condição de repórter, o que sempre surpreendia seus interlocutores".

01 de maio de 2015 | N° 18149
DAVID COIMBRA

A calçada de plástico

Há exatos 20 anos, em maio de 1995, acompanhei uma delegação de empresários catarinenses em missão pela bela Itália. Era uma viagem de trabalho, mas acabou sendo das mais prazerosas que fiz na vida. Um dia, conto mais a respeito. Por ora, quero falar de um episódio ocorrido numa cidade industrial do norte da Bota. Não lembro que cidade era. Lembro que os empresários italianos apresentavam aos brasileiros uma máquina de reciclar plástico.

O plástico velho entrava por uma ponta e saía por outra transformado em calçadas novas. Isso mesmo: lajotas de plástico furadinho, que seriam encaixadas no chão a fim de serem usadas como calçadas baratas e de fácil instalação.

Os italianos mostravam-nos com orgulho uma das calçadas montadas. Caminhamos sobre ela. Então, me agachei, enfiei o indicador no orifício de uma das placas e a levantei.

– Elas não ficam presas? – perguntei.

– Não. É assim mesmo – respondeu um dos italianos.

Balancei a cabeça: – Não vai dar certo no Brasil.

Eles se espantaram: – Por quê?

– Porque a turma vai arrancar isso e levar embora.

Os italianos ficaram embasbacados. Queriam saber por que catzo os brasileiros fariam uma coisa dessas com a calçada em que eles próprios pisavam. Ninguém soube explicar muito bem, mas os brasileiros concordaram comigo, disseram “é, no Brasil não vai funcionar”, e o negócio não foi fechado. Bem.

Você sabe por que no Brasil esse tipo de iniciativa não funciona? Sabe por que orelhões são depredados e tampas de lixeira roubadas? Por que as pessoas sujam as ruas? Por que picham os monumentos?

Porque, para elas, nada daquilo a elas pertence. Para os brasileiros, tudo que é público pertence a uma entidade chamada vagamente de “eles”.

“Eles” ninguém explica o que seja, mas é o Estado. Os brasileiros sentem-se fora do Estado, abaixo dele. Por isso, culpam o Estado por todas as suas vicissitudes. Afinal, aquela entidade superior teria poder para resolver os problemas. Não os resolve porque não quer.

Na França, Luís XIV, o Rei Sol, dizia: “O Estado sou eu”. E era mesmo. Mas, dois Luíses depois, os franceses fizeram a revolução, separaram o corpo do rei de sua cabeça e disseram: “O Estado é nosso”. Hoje, esse é um dos maiores dramas franceses. Como o Estado é deles, eles exigem o usufruto do Estado, e sangram o Estado, e o Estado não aguenta mais.

Na Rússia, o Estado também era do czar. Mas os bolcheviques fizeram sua revolução e avisaram ao povo: “Agora, vocês são do Estado”.

Nos Estados Unidos, os pioneiros chegaram à Costa Atlântica e decidiram começar tudo de novo, juntos e em harmonia, sem ninguém acima deles. Assim, todos concordam em cumprir o acordo social, que é o seguinte: todos têm de cumprir a lei.


Seria o ideal, mas os americanos do Sul trouxeram homens negros da África e os escravizaram. Como a proclamada terra da liberdade suportaria a contradição da escravidão? Não suportou. Dilacerou-se na maior guerra civil do planeta, em que morreram mais de 600 mil pessoas. Os negros foram postos abaixo do Estado, e é assim que ainda percebem a realidade. Os negros americanos não se sentem parte do Estado. Exatamente como nós, brasileiros. Mas a melhor fórmula é a dos velhos colonos ingleses. É dizer: “O Estado somos nós”.

01 de maio de 2015 | N° 18149
MOISÉS MENDES

Nós, os índios

Soltaram os empreiteiros presos em Curitiba. Deveriam ter soltado? Há quem acredite que eles estavam presos apenas para que virassem delatores. Foram quase seis meses, e a maioria aguentou.

Não se imagina que o clube do superfaturamento tenha o peito de se reunir de novo para trocar charutos e obras e acertar a propina de Pedro Barusco, o único ladrão avulso. Até porque Barusco não deve estar precisando de mais nada.

Os empreiteiros só voltarão para a cadeia se os advogados cometerem barbeiragens. Se forem advogados medianos e buscarem informações com a turma impune do mensalão tucano, adiós, cárcere.

Pelo que se deduz do que dizem alguns juristas, é mais fácil o ex-governador Eduardo Azeredo ser condenado em primeira instância em Minas, pelo mensalão do PSDB, do que um empreiteiro voltar para a cela.

Não há dúvida de que o juiz Sérgio Moro irá condená-los. Mas aí teremos os recursos. Leiam o que diz o jurista Dirceo Torrecillas Ramos, professor da USP, ouvido pelo jornal O Globo: se forem condenados, eles vão aguardar em liberdade, enquanto apelam ao Supremo; isso pode demorar muitos anos e possivelmente muitos já estarão até mortos.

Você acreditou que finalmente agora seria diferente, que pegariam os grandes corruptores. Não entusiasme tanto as crianças, os amigos e os colegas.

Corruptor brasileiro tem a chance de morrer antes da condenação. Seus operadores também. O doleiro Youssef é velho conhecido da Justiça. Há uma década, foi processado por corrupção, fez delação e foi solto ao apontar a bandidagem do famoso caso Banestado, do Paraná.

O juiz Moro homologou o acordo de delação de 2004. Mas Youssef voltou a lavar dinheiro para quem aparecesse com dinheiro sujo. Moro está de novo diante de Youssef, que voltou a dedurar todo mundo. Moro condenou Youssef, em setembro do ano passado, a quatro anos de cadeia, pelos crimes lá do primeiro processo. E também o condenou, na semana passada, a nove anos de prisão pela lavagem na Petrobras.

Você tem o direito de imaginar que Youssef e Moro se encontrarão para sempre, de tempos em tempos, reproduzindo a sina de bandido e mocinho de faroeste.


E nós, os índios, o que fazemos? Nós ficar aqui na colina com a cara de Cavalo Abobado.

1 de maio de 2015 | N° 18149
MARCOS PIANGERS

Diziam que o ano não ia ser bom

Que maravilha tem sido este ano, cheio de feriados em dias de semana. E a maioria perto do final de semana, o que significa folga prolongada. Mesmo no Dia do Trabalho, vejam vocês, estamos agora dormindo até tarde, leremos este jornal apenas perto do meio-dia. Que maravilha é um feriado caindo numa sexta-feira.

Melhor que isso só um feriado caindo na quinta-feira. Melhor do que isso só a ponte de Laguna ficando pronta. Porque quem não gosta de feriado é marido de mulher feia. Ou o cara que mora com a sogra. Esse fica até tarde no trabalho e reza pro feriado cair no domingo.

É claro que existem aquelas pessoas irritantes que amam o trabalho. Que tipo de gente mais desagradável. Essas pessoas com trabalhos maravilhosos me revoltam. Como aquele cidadão que passa óleo nas modelos internacionais, para que a pele das fotografadas fique brilhante e saudável.

Ou aquele gordinho da TV a cabo, que faz um programa de viagens e está sempre em um lugar diferente do mundo, sempre feliz demais. Ou comentaristas esportivos, pagos para assistirem a jogos de futebol e dizerem quem jogou melhor. Ou essas pessoas que ficam uma hora por dia falando bobagem no rádio e ainda são pagas pra isso. Revoltante, não há outro adjetivo.

Porque para a grande maioria dos viventes o trabalho é sofrimento. Trabalho é terno, trânsito, lugar pra estacionar. É bandejão e impressora que estraga. É a catraca da entrada do escritório, que leva três segundos pra liberar depois que você passou o crachá. Cada vez que você entra tem que esperar três segundos. Cada vez que sai, também. Em algum tempo, você terá perdido um dia inteiro, 24 horas esperando a catraca do escritório abrir.

Cansei de conhecer pessoas empolgadas com o novo emprego, felizes com os desafios. Para estes: burocracia! É o que merecem. Façam-nos preencher em detalhe um relatório sobre o que esperam do novo emprego, onde se veem daqui a cinco anos. Obriguem-nos a preencher novamente este relatório de três em três meses. Tornem obrigatória a troca da senha do e-mail corporativo de 15 em 15 dias. Proibida a entrada no escritório de bermuda.


Proibido o acesso ao Facebook no escritório. Proibido ouvir música. Proibido celular. Cada ambiente de trabalho é uma indústria especializada na fabricação de apaixonados por feriados. E que maravilha é um feriado quando cai numa sexta-feira.