quarta-feira, 6 de maio de 2015


06 de maio de 2015 | N° 18154
MARTA MEDEIROS

Um novo olhar sobre as palavras

Isso é bom, isso é ruim, isso é certo, isso é errado, isso é assim e não assado. Costumamos catalogar e etiquetar tudo, inclusive palavras e expressões. No entanto, algumas foram condenadas a ter um sentido negativo quando poderiam ser avaliadas por outro prisma – caso de “válvula de escape”, por exemplo. Bastou dizer que fulano está recorrendo a uma válvula de escape para que pensemos que a criatura não é de confiança, que é alguém que não enfrenta a realidade. Puro pensamento condicionado. Ora, qual o problema de se ter uma válvula de escape?

Uma viagem solitária, um amor escondido, um vício secreto, um pseudônimo, manias ocultas: ninguém precisa ser tão corretinho e tão transparente o tempo todo. Dar uma fugida para um mundo particular, só seu, não consta da lista de pecados mortais – supondo que você ainda acredite em pecados.

Frivolidade. Outra palavra para a qual os narizes se torcem. A ordem é ser sério e profundo para garantir o respeito alheio. Concordo, mas sem fanatismo. Sou séria, profunda, respeitável e também leve, superficial, brincalhona, tudo isso atendendo pelo mesmo nome e sobrenome. Virar refém da aura de intelectual que minha profissão impõe? Nunca pensei. Escritores também têm o direito de ser divertir, assim como juízes e padres. Frívolo, mesmo, é aquele que engessa a própria vida.

Escândalo. Precisa mesmo ser uma palavra que apavore os cidadãos de bom comportamento? É razoável que não queiramos mais escândalos na política, mas um decote escandaloso, um beijo escandaloso, uma performance escandalosa podem provocar sorrisos, desejos, ideias e uma empolgação a que estamos cada vez menos acostumados. É importante sermos provocados. O escândalo nos salva da anestesia geral e da apatia que a constante repetição dos dias provoca.

Desespero é outro exemplo. A tendência universal é manter os nervos controlados. O mundo está sob efeito de ansiolíticos. O faniquito já não é considerado uma reação espontânea, e sim um delito. Entendo, também não dou audiência para chiliques, mas a palavra desespero é de outra categoria e merece toda minha atenção.

Um poema desesperado, uma súplica desesperada, uma expressão desesperada de algum sentimento: como não se comover? Pollock pintava com desespero, Janis Joplin cantava com desespero, ou assim parecia. Não se pode negligenciar aquilo que acorda a humanidade de sua sobriedade bocejante. Banir o desespero é banir a paixão.

Palavras têm vida e não se deve temê-las. Mesmo as que carregam uma herança maldita podem ser revestidas por uma visão mais humorada e criativa em relação ao seu uso. Andrógino, ácido, infernal, rebelde, subversivo, titânico, incendiário: onde foram parar os adjetivos que tornavam a vida mais excitante?



06 de maio de 2015 | N° 18154
EDITORIAIS

PÁTRIA ENGANADORA

Depois de um período de trapalhadas e tergiversações, o Ministério da Educação admitiu que o imbróglio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) deve-se mais à falta de dotações orçamentárias para novos contratos do que a problemas técnicos que os alunos vinham encontrando para renovar os já existentes.

A confusão compromete o conceito e a promessa da presidente Dilma Rousseff de que o Brasil passaria a ser uma Pátria Educadora neste seu segundo mandato. A transparência a que recorreu agora o ministro Renato Janine Ribeiro teria evitado problemas maiores se tivesse sido adotada há mais tempo.

Ao acenar com a alternativa do Fies, o governo federal criou uma expectativa entre os brasileiros de menor renda de que o acesso a cursos de nível superior em universidades privadas seria facilitado. É óbvio que, num cenário de recursos escassos, não faz sentido o poder público contemplar todos os interessados. O próprio MEC deu-se conta disso, ao aperfeiçoar os critérios de concessão do benefício. Os estudantes, porém, poderiam ter sido poupados, primeiro, da tensão de não conseguir renovar o crédito e, agora, da frustração e revolta diante da admissão de falta de recursos para novos contratos.

No caso das instituições privadas de nível superior, ficou evidente que algumas deixaram o bom senso de lado ao reajustarem os valores cobrados dos alunos em níveis estratosféricos, procurando tirar vantagem do financiamento fácil. Mas não é justo que, por isso, muitas delas sejam agora prejudicadas, enfrentando inclusive o risco de evasão de alunos.


Em qualquer país, particularmente no Brasil, educação tem que ser prioridade. Se não há recursos para um programa da importância do Fies, que pelo menos não se engane a população.

06 de maio de 2015 | N° 18154
ARTIGOS

NÓS, OS INTERIORANOS

Gosto das conversas das salas de espera da Santa Casa. Na segunda- feira, estive no Santa Rita para um exame de rotina. Me sinto inseguro quando a sala está silenciosa demais, sem um paciente ansioso que puxa conversa com estranhos para tentar esquecer que logo entrará no tubo da ressonância magnética.

Desta vez, uma senhora dizia que se casar de novo hoje em dia é um grande risco. E contava a história do padrasto americano que manteve as enteadas num porão. Por isso, aos 58 anos, negava-se a se casar pela terceira vez.

Um casal escutava a história, que parecia antiga. O homem dizia: é a realidade. A narradora contava que a violência chegou a Lajeado, e o homem concordava: é a realidade.

Fui chamado para a sala seguinte quando a mulher iria falar de mensagens divinas cifradas que as pessoas não levam a sério. Uma amiga ignorou uma mensagem, disse ela, bem na hora em que chamaram para a outra sala.

Na antessala do exame, um alemão tentava ser engraçado. A TV repetia O Rei do Gado, e duas mulheres interrogavam-se: Carlos Vereza já morreu?

Sentei-me ao lado de uma delas. A senhora examinou minha cabeça e, uns cinco minutos depois, encorajou-se a acionar o comentário guardado. Falou alto, para que todos ouvissem: não se entra na máquina com cabelo molhado, nem com gel.

Tiro o gel antes de entrar no tubo, eu disse. E ela fez outra advertência: também não se recomenda cabelo com tintura pintado há pouco tempo. E voltou a examinar minha cabeça.

Não pinto o cabelo, esclareci. Conservo meus castanhos de mameluco, de índio charrua misturado com negro, português e espanhol da Fronteira. Mas que parece, parece, me disse a senhora.

Um morador da Capital não se meteria a examinar os cabelos dos outros. Os puxadores de conversa de hospital se denunciam como interioranos. Vêm de Espumoso, Quaraí, São Sepé. Sei porque sou um deles.

Conversar é interagir com alguém da cidade para dominar o ambiente e embromar a ansiedade. O interiorano faz graça, como o alemão que zombava das próprias safenas (estariam entupidas, depois de seis anos), conta as brigas com o plano de saúde, circula pelos corredores com um saco de supermercado transformado em trouxa e, antes de entrar no tubo, fica sabendo que o grande Carlos Vereza continua vivo.


MOISÉS MENDES

06 de maio de 2015 | N° 18154
DAVID COIMBRA

Lula voltará

Vi o filme de um discurso de Lula em que ele fazia ameaças ao povo brasileiro. Lula é dado a fazer ameaças. Tempos atrás, ele ameaçou o país com o que chamou de Exército do Stédile.

Stédile, todo mundo sabe, é o líder do MST, um movimento que começou com os agricultores sem terra reivindicando a justa e necessária reforma agrária e se transformou numa espécie de brigada política financiada pelo governo federal. A uma ordem de Lula, o Exército do Stédile vai às ruas, causa depredações, fecha estradas, destrói pesquisas científicas e intimida opositores, tudo às expensas do contribuinte.

Agora, no 1° de Maio, Lula fez uma ameaça mais grave. Insinuou que vai voltar ao poder. A perspectiva deixou-me horrorizado. Você, que é um otimista, dirá: “Não se preocupe, ninguém vai votar nesse governo de novo. Está provado que eles são muito ruins”.

Engano seu. Faltam ainda três anos e meio para a eleição. Veja o que aconteceu na última: o governo, sabendo da sua ruindade e sabendo que seria derrotado, pôs-se a gastar. A distribuir dinheiro, exatamente como se fazia antes, na ditadura militar, e antes ainda, e desde sempre. Pegue o caso do Fies como exemplo. Durante a eleição, o governo acenou com financiamentos de cursos universitários para centenas de milhares de alunos.

Bastava saber assinar o nome para entrar na faculdade, oba! Todos esses alunos e seus pais e parentes e quiçá amigos votaram em Dilma, naturalmente. Mas, na hora de fazer a matrícula, o site do Ministério da Educação simplesmente não funcionava. O ministro jurava que era problema técnico. É muita gente acessando, e tal. Estranho... o site do Imposto de Renda, bem mais pesado, não tem problemas técnicos...

Mas as pessoas acreditaram no ministro e na presidente. Pais, mães, avós e alunos passaram noites em claro, tentando acessar o site. Famílias desesperadas, jovens chorando, não era possível, iam ficar sem estudar, maldita internet!

Não era culpa da internet.

Pressionado pela Justiça, o ministro da Educação admitiu que o governo não tem dinheiro para todos os financiamentos e criou novos critérios. Mais coerentes, diga-se de passagem, mas revelados só agora. Quer dizer: o governo mentiu. Enganou as pessoas. Fez centenas de milhares de brasileiros de otários. As pessoas acessando o site o dia inteiro, dias inteiros, e o que faltava era verba, não Help Desk.

Por que o governo mentiu? Porque tinha de reeleger Dilma. É o que será feito daqui a dois anos e meio. A meses da eleição, o governo começará a instituir programas e a oferecer benemerências à população. Que, com medo de perdê-las, votará em... Lula!

Como diria Conrad: o horror... o horror...


Três anos e meio... Tempo suficiente para esquecer a dor. A ameaça terrível de Lula pode se cumprir. Regozijem-se, empreiteiros! Regozijem-se, Eikes e Fribois! Regozijem-se, apaniguados de universidades e do serviço público! Regozijem-se, soldados do Exército do Stédile! Ele voltará!

terça-feira, 5 de maio de 2015


05 de maio de 2015 | N° 18153
CARPINEJAR

Cavalo deitado

Eu não contei com nenhum exemplo, ídolo, modelo de vida.

Alguém que pudesse me motivar a colar cartazes atrás da porta do quarto ou que me botasse a correr por um ingresso.

Nem na música, nem no cinema, muito menos na literatura.

Alguém que fosse seguir insanamente suas pistas e biografias, capaz de me pôr a participar de chats e comunidades.

Alguém para repetir os gestos, o riso, o carisma do olhar no espelho.

Nunca fui fã de carteirinha de qualquer artista. Não tive aquela influência externa, que facilitasse uma identidade e que poderia prestar uma homenagem no Facebook.

Com exceção de um cavalo. Um cavalo branco, pálido como o leite, que observei na infância.

Um cavalo, sim!, eu inspirei a minha vida num cavalo.

Quando tinha oito anos, participava de um churrasco numa fazenda de amigos dos pais em São Borja.

E observei um cavalo estranho abrir o portão com um meneio da cabeça, subir a estrada sinuosa de terra batida, limpar as patas no capacho, entrar dentro do casarão e deitar na sala.

Montou guarda entre o sofá, a mesa e a televisão, ocupando praticamente o espaço necessário para se locomover.

Ele parecia uma pessoa. Não se intimidou com a multidão no pátio, manteve o porte ereto e tranquilo, convicto a protestar em pleno domingo.

Um cavalo revolucionário. Um cavalo grevista.

Eu me espantei com a imprevisibilidade da cena, e me belisquei para definir se não estava dormindo.

O cavalo entrou na casa do seu dono, por algum motivo obscuro. Os mais velhos tentaram dissuadi-lo, levá-lo dali pelo tranco das rédeas ou por palavras carinhosas, xucras, bravas, nada produzia efeito.

O cavalo teimou em ficar.

Naquele pânico, no zunzum dos convidados opinando sobre qual atitude adotar, ouvi de minha mãe a frase que me serviria de lema:

– Cavalo deitado, ninguém levanta!

Sou teimoso como aquele cavalo. Turrão como aquele cavalo. Obstinado como aquele cavalo.


É só me dizer que não posso fazer, que faço. É só me contrariar que aceito o desafio. É só falar que é impossível que dou um jeito de tentar. As adversidades são estimulantes.
  
05 de maio de 2015 | N° 18153
ARTIGOS - ADÃO VILLAVERDE*

VERDADES SIMPLIFICADORAS E PARALISANTES

Integrante autorizado do governo gaúcho dissertou, neste espaço de ZH há pouco tempo, acerca do que chamou de “A hora da verdade”, conforme interpretação de realidade exigindo “enorme sacrifício” alheio. Ressalte-se que o chefe do Executivo completa mais de seis meses desde a eleição, notabilizando-se por uma paralisia constrangedora. Imobilismo que emana do próprio Piratini, redoma protetora do mandatário, cercado por personagens histriônicos, dedicando todos os esforços para alardear, diuturnamente, a verdade simplificadora, na qual o gestor anterior é depositário de todas as dificuldades estruturantes do dito caos nas finanças rio-grandenses.

Prefeitos escolados e políticos experientes não poderiam ceder a tal simplificação. Empenhado em superlativar dificuldades e apontar culpabilidades pretéritas, esse “coletivo pensante” substitui a necessária busca de soluções pela estratégia do reducionismo descomprometido que torna inerte a administração em solo gaúcho.

Assim, transforma essa versão na verdade que privilegia o ajuste de contas com o passado, sempre referenciado pela visão meramente retroativa. O cenário decorrente é paralisação de obras, calote nos fornecedores, corte de horas extras para servidores da segurança pública e de recursos para o Corpo de Bombeiros, diminuição nos repasses à saúde, crises nos hospitais, carência de investimentos em políticas sociais, falta de nomea- ções de professores e completa ausência de projetos legislativos estruturantes. Impõe, assim, ao RS um ambiente pessimista agravado pelo clima de “terrorismo” das ameaças de atraso ou parcelamento de salários.

E que acentua o encaminhamento obrigatório para um diagnóstico de penúria, no qual se aplica o receituário bem conhecido da requentada elaboração dos tradicionais governantes do PMDB: arrocho salarial, demissões de servidores e aumento de impostos complementado com a venda do que restou do patrimônio público. Presume-se, pois, da assertiva oficial que, mais uma vez, o povo gaúcho será sacrificado pelas verdades simplificadoras e paralisantes que não são novidade para nenhum de nós.


*Engenheiro, professor e deputado estadual (PT-RS)</>

05 de maio de 2015 | N° 18153
LUÍS AUGUSTO FISCHER

CERCA E CRIACIONISMO

Por sugestão da Maria da Graça Rodrigues, entro num assunto que me parece uma cortina de fumaça, mais produção de espuma inócua, numa época que exigiria concentração em temas de real importância – o cercamento da Redenção. Ela acha, como eu, um desperdício de dinheiro, mas sugeriu que eu desse alguma notícia do que acontece cá na França.

Bem, é preciso dizer que há parques cercados, sim. O Jardim de Luxemburgo e o Parque Monceau, duas joias parisienses, vivem atrás de grades. Há as pracinhas de bairro, que têm uma cerca de um metro de altura e portão sem tranca, apenas e tão somente para evitar que entrem cachorros. E há grandes espaços verdes totalmente abertos, como o Campo de Marte, diante da famosa torre Eiffel. Assim varia também a coisa em outros países europeus. Qual será o caso da Redenção (que nem em pesadelo eu penso como “Parque Farroupilha”)?

Tenho a impressão de que historicamente ela faz uma síntese entre o que na França é um parque controlado, com jardins, lagos e recantos, e um espaço verde aberto, lugar de passagem e festa pública. O eixo central da Redenção é um espaço aberto, uma esplanada; mas o entorno do lago e os recantos ali da vizinhança do Araújo estão mais para um desses parques gradeados, com entrada e saída em horários fechados.

Dito isso, peço licença para mencionar meu espanto diante do projeto de lei de uma deputada, que ocorre ser do PSB, partido que em outros momentos deu orgulho a gente como eu. Ela se chama Liziane Bayer e apresentou projeto de lei para tornar obrigatório o ensino do chamado Criacionismo nas escolas gaúchas. Nada descreve meu estupor ao saber disso.


Até o papa Francisco, num momento de grande lucidez, já observou em público que Darwin não é incompatível com Deus. Mas esta deputada parece desejar nos arrastar para um poço de irracionalidade, só comparável, no Ocidente, ao de certos grotões caipiras do meio-oeste estadunidense. Não confio muito no nível do debate possível na nossa Assembleia, mas, que fazer, espero muito que não prospere esse projeto regressivo, anticientífico, obscurantista.

05 de maio de 2015 | N° 18153
DAVID COIMBRA

Elis Regina poderia ter sido presa

Estava ouvindo o João Bosco. As músicas dele em parceria com o Aldir Blanc têm uma brasilidade que está em extinção. Ninguém mais escreveria, hoje em dia:

“Genésio, a mulher do vizinho sustenta aquele vagabundo.”

“E o meu café, cadê? Não tem, vai pão com pão.”

“Costurou na boca do sapo um resto de angu, a sobra do prato que o pato deixou.”

E tem aquela da mulher que vive para atazanar o marido e, numa manhã, depois de sonhar à noite com ele, mandou que jogasse no burro. Ele jogou e acertou no milhar.

Uma das mais lindas, que era cantada também por Elis Regina, hoje seria impossível. É Gol Anulado. A letra diz assim:

“Quando você gritou Mengo!

No segundo gol do Zico

Tirei sem pensar o cinto

E bati até cansar.

Três anos vivendo juntos

E eu sempre disse contente:

Minha preta é uma rainha

Porque não teme o batente

Se garante na cozinha

E ainda é Vasco doente.”

Uma história com sabor de aipim frito na manteiga. Durante três anos, a ilustríssima dizia para ele que era vascaína, mas, quando Zico meteu o segundo gol num Flamengo e Vasco, ela não se aguentou e extravasou sua paixão rubro-negra. Não duvido que o vascaíno da música preferisse ser traído por outro homem do que por outro time.

Essa poesia hoje causaria indignação, revolta e, não duvido, processo. As redes sociais se ergueriam em fúria, apontando João Bosco, Aldir Blanc e Elis Regina como incentivadores da violência contra a mulher. O Ministério Público puxaria da bainha a espada da Justiça. Depoimentos comoventes de mulheres espancadas seriam espalhados pelo Whats, fazendo muita gente chorar e balbuciar, com a voz embargada:

– Essa é a nossa luta, e a nossa luta não é engraçada...

De fato, luta-se muito, Brasil afora, e lutas não são engraçadas. Que fazer? Não há outro jeito, a não ser rir menos.

É fácil ser campeão

Aldir Blanc é vascaíno, como o personagem da música. O Vasco foi campeão com um gol de Gilberto, centroavante que jogou no Inter há pouco. O Atlético de Minas foi campeão com gol de coxa de Jô, centroavante que jogou no Inter há pouco. E o Inter foi campeão com gol de Nilmar, centroavante que também jogou no Inter há pouco.

Aí está uma pista forte das razões do bom sucesso do Inter nos últimos anos. Um time, para vencer, tem que ter quem marque gol. O Inter, quando compra caro, compra goleador. É simples. Nilmar se pagou com um único gol e 45 minutos de bom jogo.

E não adianta ser centroavante. Braian Rodríguez é centroavante e marcou 40 gols em 10 anos, média de quatro por temporada. Até Rogério Ceni fez mais.


Você quer saber se um time é bom? Verifique quantos são os jogadores afeitos a fazer gol que estão em campo. Lembra do Grêmio dos anos 1990? Só Roger e Danrlei não faziam gol. O Inter dos anos 1970? Só Vacaria não fazia gol. Não tem mistério: na frente, você bota os bons, atrás, organiza.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

RONALDO LEMOS

Vigilância emocional

Softwares já são capazes de detectar se você está feliz ou triste: o próximo passo é usar isso na propaganda

Nos anos 1960, o psicanalista Paul Ekman desenvolveu um trabalho revolucionário. Ele catalogou expressões faciais humanas, conectando-as a emoções como alegria, tristeza, raiva etc. O resultado foi publicado em 1978 e tornou-se um verdadeiro atlas das emoções humanas e das expressões faciais que fazemos de acordo com elas.

Ekman certamente não imaginava os desdobramentos que seu trabalho poderia ter no mundo de hoje, no qual a tecnologia de reconhecimento facial avançou radicalmente. Com a presença de câmeras e imagens em todas as partes (alô selfies), computadores já são capazes de analisar em tempo real as expressões faciais humanas e saber se estamos tristes, felizes, frustrados e assim por diante. E, a partir dessa análise, tratar de forma diferente cada pessoa.

Esse é o nascimento das chamadas "tecnologias afetivas". Computadores que compreendem e respondem às emoções humanas melhor do que nós humanos o fazemos.

Um belo exemplo disso é a Affectiva, localizada perto de Boston. A empresa levou o trabalho de Ekman às últimas consequências. Desenvolveu um software capaz de reconhecer mais de 1 bilhão de movimentos faciais e ligá-los a estados emocionais, tudo em tempo real. A tecnologia é capaz de distinguir com precisão, por exemplo, um sorriso meramente social de um sorriso espontâneo e verdadeiro, algo que nem sempre conseguimos fazer.

O objetivo inicial era medicinal. Buscar melhorar a vida de pacientes com autismo, que em geral têm dificuldades de decodificar emoções humanas. Mas logo a empresa mudou o foco para marketing. A Affectiva oferece hoje serviços para redes de TV, agências de publicidade e para políticos. A rede CBS usa a tecnologia para analisar a resposta emocional do público com relação a cada momento dos seus seriados. Em 2012, o software foi usado para medir a reação de um grupo eleitores aos debates entre os candidatos Obama e Romney nos EUA, sendo capaz de prever o voto de cada um com mais de 70% de precisão.

A empresa está também incorporando a tecnologia a aplicativos de videoconferência, analisando as expressões faciais que fazemos ao falar com alguém por vídeo pelo computador ou pelo celular e passando "dicas" de como reagir às emoções da pessoa do outro lado. Com isso, o software vai ficando preciso.

O resultado é que entramos no território do monitoramento emocional, que será cada vez mais corriqueiro. A próxima evolução do marketing é exibir publicidade de acordo com nossos estados emocionais. Um anunciante poderá optar por exibir a propaganda apenas para pessoas que estão felizes, por exemplo. Ou o controle de imigração de um país poderá selecionar para inspeção automática pessoas que apresentam determinados padrões em seus movimentos faciais. Quais os limites éticos dessa tecnologia? Ao ler este texto, você ficou entusiasmado ou preocupado? Muito em breve será possível saber isso imediatamente.


LUIZ FELIPE PONDÉ

O mundo nunca teve rumo

Berramos que 'é proibido crianças trabalharem como escravas', mas gostamos de preços baixos no shopping

Muitas vezes escutamos frases como "o mundo está pegando fogo" ou "nunca houve tanta violência".

Outra vezes, algumas pessoas, querendo ser mais precisas, levantam questões como "não está pior, apenas tem mais mídia e, por isso, sabemos de tudo mais rápido".

Ou ainda: "agora tem mais gente no mundo, por isso, mais violência". Alguns, mais "místicos", arriscam ideias de que mesmo terremotos se acumulam na Terra agora.

Enfim, comparações assim tendem a ser inconsistentes porque simplesmente não temos como saber como era a violência há cem mil anos ou quantos terremotos aconteceram há 500 mil anos (provavelmente, bem mais do que agora, aliás).

Se contássemos as pessoas que os marxistas mataram no século 20 deixaríamos qualquer jihadista inseguro com relação a sua eficácia assassina. Quanto à fome, bem, sempre houve pobreza no mundo, porque a pobreza é como a gravidade --quem parar de bater as asas cai nela de volta. A riqueza é que é a coisa nova na face da Terra.

Mas, ainda assim, muitos continuam a ficar perplexos com o mundo contemporâneo. O número de mortes causadas pelo terrorismo! Africanos mortos tentando chegar a Europa! Fome na África! A Rússia engolindo a Ucrânia! Os Estados Unidos do Obama mais perdidos do que cego em tiroteio com o projeto nuclear do Irã! A Europa, coitada, se esforçando para manter a dignidade em cima do salto alto!

A China continua indiferente ao papo que Marx chamava de "humanismo burguês", ou seja, nossa hipocrisia ao fingirmos que nos preocupamos com o sofrimento alheio para jantarmos com a consciência limpa no sábado a noite com amigos.

Quer ver? Apesar de berrarmos "é proibido crianças trabalharem em condição de escravidão", continuamos a gostar de preços baixos no shopping.

No Oriente Médio, os países insistem em não dialogar e resistem à máxima "ame ao próximo como a ti mesmo" (como se ela tivesse algo de óbvio). O Islã continua a dividir o mundo entre "o reino do Islã" (ou da paz e da submissão) e "o reino da guerra" (todo o resto a ser combatido e convertido). Os israelenses continuam a fazer a conta e chegar à conclusão de que os árabes tem muito mais terra e, por isso, deveriam cuidar dos seus (os palestinos).

Afinal, o que toda essa gente tem na cabeça? "Como assim?!", grita o tolinho de plantão. O mundo continua deixando um rastro de sangue por onde passa? Afinal, o mundo teria perdido seu rumo?

Não, o mundo nunca teve rumo. E nunca terá. Mesmo quando vive séculos sob a força de um ou mais poderes "globais", toda ordem mundial é, no fim, uma forma de ilusão ou provincianismo geográfico.

A única coisa que permanece na "ordem global" é o processo interminável de povos devorando outros povos, como dizia o crítico americano Edmund Wilson.

Mas, por uns poucos séculos, achamos que tínhamos uma ordem global --pelo menos pensavam assim os europeus e os americanos.

Segundo o que nos diz Henry Kissinger (que ocupou cargos importantes em geopolítica nos governos de Richard Nixon e Gerald Ford nos anos 1970) no seu brilhante "Ordem Mundial" (ed. Objetiva, R$ 54,90, 432 págs.), do século 17 ao final do 20, vivemos mais ou menos sob a crença na existência de Estados independentes como unidade mínima geopolítica.

Essa ideia, herdada da Paz de Vestfália (1648), assinada entre católicos e protestantes para por fim à guerra dos trinta anos no que hoje chamamos de Alemanha, a grosso modo.

Segundo o tratado, pouco importa no que se acredita em cada Estado, contanto que a violência entre os Estados seja reduzida ao seu mínimo possível. Logo, ninguém se mete na vida interna do outro Estado e se respeita as fronteiras.

Essas unidades geopolíticas agiriam segundo o princípio de redução da violência entre todos, presumindo uma paz pragmática como o melhor dos mundos possível. E, neste mundo, os negócios progrediriam, assim como nos comerciais da CNN.


Infelizmente, o mundo nunca teve rumo. Um dos maiores equívocos de nós modernos, filhos da ordem burguesa de Vestfália, é pensarmos que todos "só querem ganhar dinheiro e viver na monotonia da paz".

04 de maio de 2015 | N° 18152
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

O império que conquistou a América

Para um lugar tão acostumado com imperialismos, os Estados Unidos caíram facinho sob a dominação de Empire, série do canal Fox que estreou em janeiro e se tornou um dos maiores sucessos da temporada por lá.

Empire é uma empresa de sucesso no lucrativíssimo mercado da música negra americana, música criada pelos afro-americanos e comprada em massa pelos branquelos, como diz Lucious Lyon, pai de três filhos que precisam competir pelo comando do império musical criado por ele.

Se alguém fala em pai, filhos e disputa pelo poder, alguém, em algum canto já grita “Rei Lear” sabendo que vai estar certo. Em Empire, a voz dessa lucidez e do conhecimento da tragédia shakespeariana é de Andre, o filho mais velho vestindo terno e gravata. Os outros dois são Hakeem, talentoso e descerebrado, e Jamal, talentoso, cerebrado e gay.

Essa última parcela da composição da persona de Jamal o desqualifica para sempre diante do olhar homofóbico do pai. Jamal é sensível, talentoso, capaz, mas namora rapazes. No mundo bastante preconceituoso do rap, Jamal não terá chances, ou não teria, se não acontecesse a vulcânica entrada em cena de Cookie, a mãe dos meninos, que tenramente volta ao lar após 17 anos em uma penitenciária por tráfico de drogas.

Compreenderam o enredo? Fácil mesmo, e esse é um dos segredos do sucesso de Empire. Não há quem não entenda, não há quem desgrude, porque Empire é melodrama do começo ao fim, e melodrama, caros leitores, funciona.

O que também funciona é a ambientação. O mundo dos negros americanos com milhões na conta bancária pode ser tudo menos entediante ou carente de glamour, mesmo que com cores um tanto excessivas. Essa é uma sacada da série: o mundo que mostra é sensual, barulhento, exagerado, sexy. O mundo branco pode ser algumas dessas coisas, mas não todas, porque ele é, ora vejam, branco.

Claro que a série investe em estereótipos, e tem que haver quem se incomode com isso. Mas, lembremos sempre, this is television, baby, e o que conta, no final do dia, são os números.

Empire os tem, de sobra, e já vai para a segunda temporada. No Brasil, parece que vai ser lançada em agosto deste ano. Se isso acontecer mesmo, sorte de todos. Empire, como a sua música, não é arte, mas é entretenimento, e dos bão.

Aproveitem.



04 de maio de 2015 | N° 18152
DAVID COIMBRA

O amor bruto pela ruiva

OHulk apaixonado pela Scarlett Johansson é algo que me faz acreditar no futuro da humanidade. Estou falando no novo filme dos Avengers, que fui ver no cinema com o meu filho. Um ótimo filme de aventura, os americanos aplaudiram no final.

Aliás, os americanos demonstram fidelíssimo amor pelo cinema. Só nesse teatro de Boston em que fomos, há 20 grandes salas de exibição, e todas estavam lotadas. Eu e o Bernardo chegamos, comemos nossos cachorros-quentes regulamentares e fomos para a sessão. Quando a Scarlett apareceu pela primeira vez, dentro daquele macacão preto e justo, e debaixo dos cabelos ruivos, o Bernardo ciciou:

– Como ela é bonita...Concordei, sorrindo, sem tirar os olhos da telona:

– É... – Parece a mamãe...– É...

Não admira que o Hulk tenha se enternecido.

Scarlett, que no filme faz a Viúva Negra, chama o Hulk de Big Guy. Achei carinhoso. Quando ela toca com sua mãozinha branca na mãozona verde dele, ele amansa e se transforma de novo em Bruce Banner. Existe poesia aí. Mulher nova, bonita e carinhosa faz um homem gemer sem sentir dor, como diria o Zé Ramalho.


Como os americanos conquistaram o mundo
Não foi pelas armas que os americanos conquistaram o mundo. Foi pelo cinema.

O interesse externo dos americanos não é a indústria, não são conquistas territoriais, não é a ideologia; é o comércio. Para o bem do comércio, eles se valem de todo o resto como argumentação. Eis a natureza do tão debatido imperialismo norte-americano.

Esse imperialismo nasceu no século 19, pouco antes da Guerra Civil. Os americanos queriam fazer comércio com todo mundo, de todo o mundo. Havia quase três séculos que o Japão estava fechado para o Exterior. Os americanos consideravam aquilo pouco civilizado e nada lucrativo.

Mandaram para lá uma frota comandada pelo comodoro Perry, que apontou os canhões para a cidade de Tóquio e pediu, amigavelmente, que os portos fossem abertos aos navios americanos. Os japoneses ponderaram, concluíram que os estrangeiros estavam sendo convincentes e cederam.

Paradoxalmente, aquela submissão acabou sendo boa para o povo japonês, que vivia numa espécie de feudalismo oriental, oprimido pelos xoguns. Em 50 anos, o Japão estava unificado e forte como nunca. Em menos de cem, atacou os próprios Estados Unidos.

Mas essa é outra história. O que dizia era que, no século 19 e no começo do 20, os americanos usavam de um imperialismo brutal. O primeiro Roosevelt dizia:

– Fale macio, mas sempre com um grande porrete na mão.


E era assim que ele fazia, de fato. Até que, no século 20, os americanos compreenderam o poder do cinema. Uma história bem contada pode ser mais forte do que uma esquadra armada de canhões. As calças jeans, os tênis e a camiseta, os hambúrgueres e os cachorros-quentes, a língua inglesa, o dólar e os arranha-céus, os carros, as autoestradas e o uísque, o jeito como você fala e anda, tudo tem a ver com o poder insinuante do cinema. Se a Scarlett Johansson fizer parte da trama, mais insinuante ainda. Aí, bem, aí nem o Hulk é capaz de resistir.

04 de maio de 2015 | N° 18152
MOISÉS MENDES

Pitbulls

Discute-se há dias quem tem mais culpa no episódio da repressão policial aos professores em Curitiba, quando um cachorro da PM abocanhou a perna do repórter Luiz Carlos de Jesus, da Rede Bandeirantes. Um vídeo no YouTube mostra que o cachorro ficou seis segundos com a perna do jornalista entre os dentes.

A questão que se apresenta nas redes sociais é esta: o soldado atiçou o bicho ou qualquer pitbull é um cachorro sem noção? Os defensores do policial, de um lado, e os admirados de pitbulls, de outro, tentam argumentar sobre quem foi o omisso ou o descontrolado.

Nunca pensei que uma polícia chegasse ao ponto de usar pitbulls em espaços públicos. A polícia tucana do Paraná me surpreendeu com a guarda de um cachorro imprevisível e, dizem, sem a menor condição de se submeter a comandos e a entender o que possa ser certo ou errado.

O cinegrafista foi atacado quando cobria, na quarta-feira, protestos de professores estaduais contra um projeto do governo de Beto Richa que muda o sistema previdenciário do funcionalismo. Vi as cenas da batalha. Os policiais agrediram os professores com a gana dos pitbulls.

Há na internet fotos de gente que nunca mais se livrará das cicatrizes de tiros de balas de borracha no rosto. É uma marca real e simbólica de uma época de humilhação dos professores. Deve, um dia, ser tema de aula.

Já os pitbulls têm defensores apaixonados. São cães dissimulados como os golpistas que tentam nos enganar com aparentes docilidades. Não há como sentir pena de um cachorro covarde. Nenhum cão é tão traiçoeiro. O pitbull ataca velhos e os próprios donos, de preferência se estiverem fisicamente fragilizados.

Mas pitbull gosta mesmo de atacar crianças. Não há notícia do ato heroico de um bicho desses, como os que volta e meia nos fazem admirar ainda mais os vira-latas. Mas quem sou eu para julgar os pitbulls, até porque seus donos têm o costume de processar quem ofende seus animaizinhos.

Para contribuir com o debate, digo apenas que há uma certa coerência entre a polícia de um governo quebrado, inseguro e violento e a utilização de um cachorro agressivo para caçar professores e repórteres.


Ninguém cria um pitbull impunemente. E tem gente dedicada a engordar pitbulls diversos, só para atacar jornalistas, professores e assemelhados.

04 de maio de 2015 | N° 18152
L. F. VERISSIMO

O ponto da ganância

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho – ou ficam melhores, ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que ela lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas).

O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da era vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existiam o indivíduo e suas fomes.

Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela sra. Thatcher.

No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim.

Claro que para isso funcionar é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira.


O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usurários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.

domingo, 3 de maio de 2015

Apoio a causa progressista vira obstáculo para Fachin

FREDERICO VASCONCELOS DE SÃO PAULO
03/05/2015  02h00

Em mais de três décadas de exercício da advocacia, Luiz Edson Fachin construiu uma reputação sólida como defensor de movimentos sociais e de causas progressistas como a reforma agrária e os direitos dos trabalhadores.

Desde que ele foi indicado pela presidente Dilma Rousseff para uma cadeira de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), porém, essas posições deram munição aos que se opõem à nomeação.

Representantes do agronegócio veem Fachin como um amigo dos sem-terra e ameaçam barrar sua indicação no Senado. Evangélicos estão incomodados com suas opiniões sobre questões de família. Juízes se preocupam com suas convicções ideológicas.

Seus defensores dizem que não há razão para temor. "Ele é um jurista antenado com a realidade social e sempre agiu nos limites da legislação", diz a ex-corregedora nacional de Justiça Eliana Calmon.

Indicado por Dilma no dia 14, Fachin passou as últimas semanas visitando senadores para pedir apoio. Ele deve ser sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em meados deste mês. Depois, sua nomeação será submetida ao plenário.

A ligação com a questão agrária deverá ser um dos temas principais da sabatina. Ele foi um dos formuladores de um plano de reforma que o então presidente José Sarney lançou em 1985.

Frustrado depois que o governo decidiu esvaziar o plano, Fachin escreveu um artigo para lamentar que o projeto, que parecia ser "prioritário" para o país, tornara-se "um problema incômodo".

Em 2008, Fachin assinou um manifesto de apoio ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), na época alvo de uma ofensiva do Ministério Público do Rio Grande do Sul. O documento defendia como "atos legítimos" as invasões de terra, descritas como "ocupações reivindicatórias".

À Folha a assessoria de Fachin afirmou que o advogado nunca trabalhou para o MST, não atuou como consultor de organizações sociais e nunca teve amizade com os líderes dos sem-terra.

"Ele é preocupado com a questão social, mas é um jurista sem vínculo de qualquer espécie e muito menos comprometido com políticos", afirmou o desembargador federal aposentado Vladimir Passos de Freitas, colega de Fachin na Academia Paranaense de Letras Jurídicas.

Editoria de Arte/Folhapress     

FAMÍLIA

Gaúcho de Rondinha, a 341 km de Porto Alegre, filho único de um pequeno agricultor e de uma professora, Fachin mudou-se com a família para o Paraná com dois anos de idade e fez sua carreira como advogado na capital, Curitiba.

Ele é sócio de um escritório especializado em direito empresarial e dá aulas de direito civil na Universidade Federal do Paraná. Sua mulher, Rosana Amara Girardi Fachin, é desembargadora no Tribunal de Justiça do Paraná.

Há poucos dias, a Associação de Direito de Família e das Sucessões entregou aos senadores um dossiê com críticas às posições de Fachin.

O advogado defende estender o direito à pensão alimentícia às amantes e que direitos atribuídos a padrastos e madrastas sejam idênticos aos de pais e mães, entre outras inovações. Para a associação, medidas como essas instituiriam uma espécie de poligamia consentida.

À Folha Fachin rejeitou essa interpretação. "Não comungo de qualquer pretensão de ruptura do modelo monogâmico, em termos de estruturação social. Admito apenas a proteção jurídica, individual, daqueles que não vivem sob esse modelo basilar."

Colaborou LUCAS FERRAZ, de São Paulo

elio gaspari
03/05/2015  02h00

O sigilo dos petrocomissários

Nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por 'As Ilusões Armadas'. Escreve às quartas-feiras e domingos.

O repórter Fábio Fabrini revelou que a Petrobras destruiu os vídeos onde estavam gravadas as discussões de seu Conselho de Administração. Para uma empresa que está coberta por uma névoa de suspeitas, não poderia haver notícia pior. O comissariado informa que essas gravações servem como subsídio para a redação das atas e, feito esse serviço, são apagadas. Contudo, não mostra a norma que determina esse procedimento. Pelo que lá aconteceu, a Petrobras ficou numa situação em que lá tudo pode ter acontecido. Se ela andar sobre as águas dirão que não sabe nadar.

Quem grava e apaga os debates de uma reunião só age dessa forma porque está interessado em suprimir alguma coisa do conhecimento dos outros. Todos os áudios das reuniões do conselho da Petrobras poderiam ser armazenados num pen drive do tamanho de um isqueiro. O mesmo acontece com as reuniões do Copom do Banco Central, que jamais deu uma explicação convincente para sua conduta. (O seu similar americano divulga as transcrições dos áudios a cada cinco anos. Se o BC quiser, pode criar um embargo de vinte anos. O que não pode é apagar o que se diz nas suas reuniões.)

O apagão da Petrobras só servirá para ampliar o grau de suspeita que hoje envolve suas práticas, sobretudo porque lá estavam as intervenções da doutora Dilma, que presidiu o conselho da empresa. Não há uma lei que mande preservá-los, mas destruí-los ofende o senso comum.

Fica feio para a jovem democracia brasileira que funcionários do Planalto tenham registrado súmulas das audiências de Lula em seus laptops particulares ou que tratem de assuntos de Estado em endereços eletrônicos privados. O que ficou nos laptops sumiu. Sumiram também os registros de algumas reuniões gravadas.

Fica feio, porque durante a ditadura o marechal Costa e Silva gravou a reunião em que se discutiu a promulgação do Ato Institucional nº 5 e preservou-se a fita. Graças a isso pode-se provar que a ata de 1968 foi editada. O famoso "às favas todos os escrúpulos" do ministro Jarbas Passarinho na ata virou "ignoro todos os escrúpulos". Durante a experiência parlamentarista de 1961 a 1963 preservaram-se as notas taquigráficas das reuniões do Conselho de Ministros.

Muitos companheiros reclamam que documentos da ditadura desapareceram. É verdade, mas não deveriam apagar a memória da democracia.

PEIXES GORDOS

Os procuradores da República que investigam os peixes gordos com foro especial em Brasília ouviram demoradamente o "amigo Paulinho". Começou um procedimento de verificação dos depoimentos dados ao pessoal de Curitiba. É possível que já se tenha fechado o círculo em torno de uma movimentação de dinheiro.

A votação da Segunda Turma do STF no caso do habeas corpus dos empreiteiros mostrou que na bancada minoritária ficaram os ministros Celso de Melo e Cármen Lúcia (com a faca nos dentes). É improvável que Teori Zavascki ou Gilmar Mendes formem uma linha de zagueiros com Dias Toffoli.

SEM BRAVATA

O Itamaraty sinalizou que recebeu um recado do governo da Indonésia e evitou adjetivos estridentes ao reclamar da execução do traficante de drogas Rodrigo Gularte.

Depois da pirraça da doutora Dilma recusando-se a receber as credenciais do novo embaixador indonésio, a venda de 16 Super Tucanos da Embraer foi colocada na frigideira.

BETO CABRAL

Vozes serenas do tucanato enviaram sinais ao governador Beto Richa alertando-o para os riscos de rodar o software Sérgio Cabral 2.0.

Graças à fé infinita de Cabral no porrete da PM, o governador reeleito com dois terços dos votos em 2010 tem evitado circular nas ruas do Rio.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota. Ele acha que pagando-se R$ 11 mil por mês aos membros do Conselho de Administração dos Recursos Fiscais acaba-se com uma roubalheira onde um refresco para um banco autuado pela Receita rendia uma propina de R$ 28 milhões.

MAIS UM

Nesta semana devem começar em Curitiba as conversas para mais um acordo de colaboração nas investigações da Lava Jato.

Elas terão uma nova essência. O novo colaborador poderá contar muitas coisas de seu negócio, mas seu testemunho será valioso para narrar encontros que teve com petrocomissários que estão presos, aferrados a negativas.

LI KEQIANG

No dia 19 chega ao Brasil o primeiro-ministro chinês Li Keqiang. Tomara que não se repitam trapalhadas como a da visita do presidente Hu Jintao ou a da ida da doutora Dilma a Pequim em 2011.

Li é um superadministrador. Economista, fluente em inglês, deu uma demonstração de seu espírito prático em 2007. Conversando com o embaixador britânico, disse-lhe que não dava muita bola para o indicador do PIB, no qual há fortes influencias subjetivas. Ele preferia olhar para três indicadores brutos: o consumo de energia, o volume do crédito e a movimentação de cargas nas ferrovias. Nasceu aí o que hoje se chama "Índice Li" (Como as ferrovias brasileiras são o que são, não se deve brincar com essa variável).

Se esse índice é melhor que o do PIB, desde agosto do ano passado a economia chinesa vai devagar, no pior nível desde 2004.

TERCEIRIZAÇÃO

A voracidade com que trabalharam os interesses favoráveis à nova lei das terceirizações tornou-se um presente de Dia das Mães para a doutora Dilma.

Sob a inspiração de Lula, deram-lhe uma bandeira capaz de recuperar o apoio de trabalhadores pela preservação de seus direitos.

CARLOS LACERDA VIVE

Um obsessivo conhecedor da vida política brasileira bateu num tesouro. Encontrou dois vídeos da passagem de Carlos Lacerda por Portugal, no segundo semestre de 1964. Num registrou-se uma entrevista coletiva de meia hora. Noutro, uma palestra de quase uma hora, exibida pela televisão portuguesa, com direito a quadro negro.

Existem poucos vídeos tão extensos mostrando o desempenho do brilhante orador que foi Lacerda. Foi o primeiro a tirar proveito da televisão e, salvo Lula com outro estilo, ninguém se igualou a ele.

A História é trapaceira. Na palestra, ele defende o projeto colonial de Portugal em Angola e Moçambique, sustentando que a ideia da autodeterminação dos povos africanos era uma forma de racismo. Sua defesa do colonialismo português é um exemplo de como um administrador moderno e capaz pode conviver com um político retrógrado e oportunista.


A forma como o "Corvo" cavalgava o tema da corrupção e do combate ao esquerdismo do regime deposto em 1964 poderia levá-lo a qualquer carro de som das manifestações de hoje na avenida Paulista. Seria um prazer ouvi-lo. Quatro anos depois, ele estava preso num quartel da PM.