segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018


05 DE FEVEREIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O erro de Moro


Omais difícil de ser pai não é cuidar do meu filho. O mais difícil é cuidar de mim mesmo. Não posso errar. Porque sei que ele olha para mim e se espelha. Sei que meus atos são mais importantes do que minhas palavras. É meu exemplo que ele seguirá, mais do que meus conselhos.

Então, preciso sempre me consertar, preciso evoluir. Para que ele seja melhor do que sou.

É uma missão dura, porque minha tendência é tolerar meus erros, perdoá-los e, por fim, acomodar-me confortavelmente com eles. Tipo: sou assim mesmo, o que é que vou fazer?

Mas não posso ser "assim mesmo". Preciso me comportar. Tem gente olhando.

Você recebe essas responsabilidades quando recebe prestígio. Um pai ganha prestígio a priori. Faz parte da sua condição paterna. Mas isso não significa que conseguirá mantê-lo. Ele pode perder o prestígio, se portar-se mal. Ou desenvolvê-lo, se fizer a coisa certa.

É o que tento fazer, atrapalhado por meus muitos defeitos e tantas fraquezas: a coisa certa. Deus me ajude.

Há várias outras condições ou postos que conferem prestígio a priori: um grande artista, um ídolo esportivo, uma pessoa eleita para um cargo público, todos esses têm prestígio e, com o prestígio, responsabilidades.

Sergio Moro, por exemplo, é um juiz de primeira instância. Ocupa um cargo pequeno, se formos levar em conta as imensas possibilidades do serviço público brasileiro. Ou seja: a priori, seu prestígio era também pequeno. Mas nunca, na história do Brasil, um juiz desse grau, que Renan Calheiros definiria como "juizeco", assumiu tamanha importância. Sergio Moro, com sua conduta séria e reta, alçou-se ao topo da vida pública nacional. E com toda a razão: fazendo o seu trabalho com determinação, e apenas fazendo o seu trabalho com determinação, Sergio Moro ajudou a criar um novo parâmetro moral no Brasil. Os poderosos estão sendo punidos pela primeira vez na história do país, algo inédito e alvissareiro.

O caso é que, junto com seu grande prestígio, Sergio Moro adquiriu obrigações. Não, ele não é um herói. Não é um "pai" dos desvalidos. É possível até que, fora de sua profissão, como em algum cargo eletivo, ele decepcionasse.

Mas ele se tornou um símbolo. Os brasileiros veem em Sergio Moro o signo da mudança do Brasil. Existe um anseio na sociedade brasileira. Um anseio de que o Brasil se transforme em uma nação de verdade, em que os cidadãos tenham direitos e também deveres, em que eles saibam que as más condutas serão punidas e as boas, premiadas.

Sergio Moro, com sua sobriedade e sua eficiência, conquistou o prestígio de ser o ícone desse anseio. Por isso, erra ao receber o auxílio-moradia dos juízes. Mas não se engane: não estou entrando no coro dos bajuladores de políticos. A esses, pouco importa o Brasil; importa que seu grupo se refocile no poder. Sua indignação é falsa - eles só querem desmoralizar a Lava-Jato.

Ocorre que o Brasil mudou, e isso aconteceu exatamente devido à ação da Lava-Jato, responsiva ao anseio da sociedade. Assim, a sociedade, hoje, não aceita mais legalidade sem moralidade. Não basta alegar que "todos fazem" ou que a pequena imoralidade compensa a grande injustiça.

Moro deveria recusar já esse auxílio. Todos deveriam recusar, mas ele mais do que todos. Ele tem de cuidar do que faz. Tem de dar exemplo. Tem gente olhando.

DAVID COIMBRA

05 DE FEVEREIRO DE 2018
RBS BRASÍLIA

Sem clima para reformas

Senadores e deputados retomam os trabalhos hoje com um desejo geral de permanecerem bem distantes dos temas polêmicos. É o efeito eleições 2018 que bate à porta dos parlamentares empenhados em conquistar a reeleição, mesmo representando um Congresso sem credibilidade. Com pouco ou quase nada a oferecer aos seus eleitores, políticos de diferentes partidos preferem a chamada pauta positiva. Também é por isso que o governo Temer não conseguiu avançar nos votos para a reforma da Previdência, além da incompetência na comunicação. 

O debate sobre a reforma tributária é outro que não vai prosperar. O Planalto continua a campanha em busca de apoio. É difícil que obtenha sucesso. E isso nada tem a ver com a resistência da oposição, que aproveita para anabolizar antigas bandeiras. Apesar da ampla distribuição de cargos e emendas, Michel Temer não tem votos dentro da sua base aliada, que volta a Brasília preocupada com a própria sobrevivência.

Partidos de oposição preparam ato para amanhã, na Câmara, contra a reforma da Previdência. Com o apoio de centrais sindicais e movimentos sociais, bancadas vão anunciar obstrução dos trabalhos em plenário. Líder do PT, Paulo Pimenta (RS) adianta que os parlamentares aproveitarão para fazer discursos em defesa do ex-presidente Lula.

Presidente do PR no Estado, o deputado Giovani Cherini afirmou à coluna que espera contar com o ex-prefeito José Fortunati para a vaga de vice em uma chapa ao Piratini. Fortunati tem dito que pretende concorrer ao Senado e que ainda não definiu o destino político.

Os ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio estão há mais de um mês sem titulares no comando. Alguém notou alguma diferença?

O presidente da Federação dos Municípios (Famurs), Salmo Dias de Oliveira (PP), está pedindo votos de deputados estaduais a favor da aprovação do plano de recuperação fiscal. As negociações do governo do Estado com o Ministério da Fazenda só avançarão se houver o aval da Assembleia.

Colaborou Silvana Pires - CAROLINA BAHIA

05 DE FEVEREIRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

ESTATAIS SEM CONTROLE


Além de dependerem de aporte de verbas federais para se manterem funcionando, 18 de um total de 149 estatais sob gestão do governo federal mais do que dobraram seu quadro de pessoal efetivo nos últimos 12 anos. Ao divulgar os dados, o Boletim das Empresas Estatais, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, não especifica as razões desse inchaço no quadro de pessoal, que podem até ser justificadas por necessidades técnicas de maior efetivo. A questão é que falta transparência na gestão dessas empresas, o que frequentemente dá margem a excessos e mesmo a casos de corrupção.

Sem a devida preocupação com prestação de contas, muitas dessas empresas acabam tornando-se vítimas de loteamentos entre partidos políticos para abrigar correligionários da base de apoio de quem está no poder. Em conse- quência, em alguns casos, resumem-se a meros cabides de emprego bancados com dinheiro dos contribuintes. O resultado concreto é que, das estatais dependentes de recursos do Tesouro, que operam com prejuízo, apenas duas não estiveram envolvidas em suspeitas de corrupção ou mau uso de dinheiro público nos últimos anos.

A crise fiscal, que vem levando o setor público a fechar suas contas com um déficit entre receita e despesa a cada ano maior, faz com que o momento seja propício para revisão na forma como essas empresas se financiam e se mantêm. Não é justo que a conta da ineficiência acabe reduzindo ainda mais as verbas para áreas essenciais, como atendimento em saúde, entre outras.

O país precisa definir logo quais empresas públicas são realmente imprescindíveis para a sociedade e aprofundar os mecanismos de transparência na gestão. Os contribuintes têm o direito de concluir se muitas dessas empresas têm mesmo razão para continuar existindo, além de apurar se realmente funcionam e se estão sendo gerenciadas com o mínimo de transparência exigido em tudo que envolve dinheiro público.

05 DE FEVEREIRO DE 2018
+ ECONOMIA

DISCURSO FICOUINSUSTENTÁVEL


Amenos que o Carnaval apague memórias recentes dos brasileiros o que não é tão improvável , será sob o impacto das discussões sobre os penduricalhos salariais de magistrados e ministros que se dará a votação da reforma da Previdência. Faltam hoje duas semanas para a data marcada. O atual formato é apresentado como o que vai acabar com os privilégios.

Se o discurso oficial já era discutível antes, com militares fora das novas regras, definha à luz de auxílios-moradia de R$ 4.377,73 para juízes com salários próximos de R$ 30 mil e ainda mais altos, de R$ 7.337, para ministros de Estado que recebem R$ 30.934.

Dados compilados pelo economista José Marcio Camargo, defensor entusiasmado da reforma, mostram que o valor médio dos benefícios é de R$ 951 para quem se aposenta por idade, R$ 1.240 no regime geral, R$ 26.302 no Judiciário e R$ 28.547 para servidores públicos do Legislativo. Na versão atual das mudanças na Previdência, ficam todos submetidos ao teto do regime geral, de R$ 5.645. Ponto para o discurso.

Mas não existem privilégios apenas na Previdência. A economista Elena Landau, defensora não apenas da reforma, mas de privatizações, observou no Twitter que explicar auxílio-moradia como compensação a falta de reajuste salarial seria equivalente a justificar sonegação por anos de tabela do Imposto de Renda sem correção. Para quem tem perspectiva de se aposentar apenas a partir de 65 anos porque o Estado já não sustenta as despesas, fica insustentável o discurso do fim dos privilégios.

A reforma da Previdência é necessária. Como estão, as regras cristalizam para o resto da vida vantagens que se tornam mais difíceis de sustentar quando falta dinheiro para o básico. Mas como a fonte pagadora é a mesma, tem ainda muito privilégio na fila da extinção.

MARTA SFREDO

domingo, 4 de fevereiro de 2018



03 DE FEVEREIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Aos navegantes


Se eu pudesse definir o perfil do futuro presidente (homem ou mulher), gostaria que fosse uma pessoa obstinada em encontrar soluções simples e inovadoras para velhos problemas, que fosse metódico e comprometido com a eficiência de tudo, que tivesse liderança suficiente para engajar os outros em seus projetos e que se antecipasse às crises, investindo em planejamento. Em suma, que fosse prático e criativo, mas não um aventureiro.

Aí me dou conta que esse cara existe e se chama Amyr Klink, que tantos consideram justamente um aventureiro.

Não Há Tempo a Perder, seu livro lançado em 2016, é um longo depoimento dado à editora Isa Pessoa, em que ele comenta não apenas sobre suas viagens solitárias pela Antártica e sobre sua travessia da África para o Brasil num barco a remo, mas também revela sua maneira de ver o mundo, suas convicções, seu estilo de comportamento, o dinamismo com que reverte imprevistos. Focado, discorre sobre as razões pelas quais, mesmo se dedicando a uma atividade considerada perigosa como a navegação de longa distância, nunca passou por nenhuma situação muito grave e sempre voltou para casa são e salvo.

A razão é óbvia: ele não é nem um pouco aventureiro.

Ao contrário do que parece, Klink não gosta de experiências dramáticas e de colocar a vida em risco (nem a dele, nem a de ninguém) e, por isso, investe muito em conhecimento e se empenha à exaustão até realizar seus planos. Ainda assim, admite que em tudo há uma porcentagem de erro. Faz o possível para minimizá-la, mas não a ponto de ficar paralisado pela busca da perfeição - tem uma hora em que é preciso partir, já que nada é perfeito e nunca será. Então, ele vai. E volta pra contar.

Não é homem de deixar nada incompleto, pelo meio do caminho - valoriza as conclusões. Eficiência é isso: começar e terminar. Aí, lembro que o Brasil é esse imenso canteiro de obras inacabadas, de estradas esburacadas, de variados exemplos da nossa incompetência para ir até o fim, para entregar o prometido, para cumprir o combinado. Um país feito apenas de pontapés iniciais.

É fácil supor que ser presidente da República é uma viagem na qual Amyr Klink nunca sonhou em embarcar. Então, só resta recomendar a leitura de seu livro a quem pleiteia o cargo este ano, e que se dê atenção para a parte em que Klink fala da importância de não apenas cuidarmos do que é nosso, mas especialmente cuidarmos do que não é nosso - que esse pensamento seja constante e inspirador para aqueles que se apresentam como opção para governar um país que não é de alguns, e sim de todos.

Aliás, vale pro nosso cercadinho também: cuidar do que é do vizinho, cuidar do que é do colega de aula, cuidar do que é do parceiro de trabalho, cuidar do que é do bairro, da cidade, da coletividade. Um pouco mais de zelo e quem sabe a gente não continue assim, tão à deriva.

MARTHA MEDEIROS

03 DE FEVEREIRO DE 2018

CARPINEJAR

O escândalo masculino


O homem pode matar barata com os pés descalços, não tem medo de esmagar mosquito com as mãos, mas ainda não consegue enfrentar uma mera gripe.

Arma um escândalo quando está gripado. É como se fosse desmaiar. É como se fosse um ataque de asma, uma pneumonia. Força a tosse, e só descreve as suas dores com resmungos. Joga o corpo para frente em uma epilepsia histriônica. Deita no sofá e lá fica na posição de almofada.

Transforma-se numa criança incapaz de medir a própria temperatura, de buscar remédio e preparar chá. Toda namorada é convertida em mãe, em enfermeira, em baby-sitter.

A casa torna-se uma creche, com as roupas espalhadas e objetos fora do lugar.

Enquanto a mulher gripada não diz nada, medica-se e segue com o trabalho, o homem realiza uma ópera. Entra em pânico, é preciso reinstalar o Windows do sujeito.

O nariz escorre coriza e reage com o espanto de sangue. Ele quer ir para o hospital, acha que vai morrer, recusa o banho, puxa as cobertas aos ombros, treme de frio a ponto de bater o queixo, responde a mesma pergunta na quarta tentativa, alucina de olhos abertos.

Qualquer pessoa de fora jura que ele está chapado ou é um péssimo ator. Não dá para acreditar na autenticidade dos sintomas. Não existe progressão gradual. O cansaço já é lassidão, a derrocada, violenta e imediata, não subiu degraus.

É um simples resfriado, e já pede para a namorada telefonar para o emprego no seu lugar e arranjar um atestado. Não encontra valentia nem para ligar para o seu chefe.

Ninguém descobrirá se dessa vez é grave porque sempre é grave. Finge se afogar nas primeiras expectorações. Há um retrocesso etário em poucas horas. Conforme aumenta a febre, diminui a idade.

Antes de perder a paciência com o seu eleito e rebaixá-lo de herói dos insetos a covarde das dores, a ciência provou que o sistema imunológico masculino é mais fraco do que o das mulheres e, ao mesmo tempo, ele tem mais receptores de temperatura no cérebro, o que intensifica e amplia os efeitos.

Perdoe a birra incurável no homem.

CARPINEJAR


03 DE FEVEREIRO DE 2018
PIANGERS

Controle de solo para Major Tom



Não vou dizer que não existem dias em que estou tão tranquilo e feliz que digo para mim mesmo e, às vezes, até para outras pessoas: Eu poderia morrer agora e morreria feliz. Só de vez em quando. Na maior parte do tempo, estou decepcionado pela brevidade da vida, pela curiosidade com o mundo em 3018, pela angústia de deixar um dia de existir. Alguns dizem: É apenas um sono eterno, como se dormir para sempre não fosse também um desespero. Será que há sonho? Alguém me acordará depois de milênios por conta de alguma descoberta científica?

Alguns outros estão firmes na convicção de uma vida eterna (e como eu quero que estejam certos!), mas não há detalhes: envelheceremos no paraíso? Moraremos junto das nossas famílias? Existirão mosquitos?

Gosto de pensar que o paraíso post mortem é congelado eternamente na época em que você foi mais feliz. Você passaria o resto do "pra todo sempre" naquela mesma praia onde ia na infância, correndo com seus amigos de oito anos de idade. Ou estaria para sempre vivo no dia da festa do seu casamento, rodeado de amigos e ao lado do seu grande amor. Ou seu paraíso seria viver para sempre acompanhando o crescimento das suas filhas pequenas, em um andamento temporal imperceptivelmente delicioso. Seja qual for, parecem apenas sonhos irreais. Não sei o que vem depois, e qualquer pessoa que diz que sabe está mentindo.

Quando leio sobre a astrofísica e os bilhões de anos que me separam da explosão inicial, isso também só me deixa mais angustiado. Sou uma coincidência minúscula e insignificante contemplando a grandeza do universo. E como explicar a infinidade do espaço sideral? São estrelas e galáxias e planetas e o que vem depois? E depois disso, o que vem? E por quanto tempo?

Entendo que, para não pensarmos nessas coisas, tenhamos inventado nossos trabalhos insignificantes e nossas discussões de internet. Nossos dilemas diários tão profundos são também bobos quando deparamos com uma visão do todo. O reconhecimento de que não sabemos de nada. De que um dia iremos embora. De que só temos o hoje. E que o hoje, de vez em quando, possa ser um daqueles dias tranquilos em que a gente morreria em paz.

PIANGERS


03 DE FEVEREIRO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

LEGAL, PORÉM ILEGÍTIMO

O que você faria, fora da lei, se tivesse certeza de que nunca seria punido? Muitos se regalariam no trânsito, convencidos de que dirigir depois de beber um pouco, ultrapassar o sinal ou estacionar em um lugar proibido não são infrações tão graves assim. Outros talvez se permitissem furtar um objeto de uma loja, argumentando para si mesmos que um pequeno furto é uma gota d?água no oceano de lucros de algum empresário abastado. Uma minoria, imagino, cometeria crimes mais sérios, mas mesmo esses, não sendo psicopatas, tratariam de encontrar alguma justificação íntima que tornasse a falta menos grave.

Para nossa sorte, a lei está aí para nos poupar o trabalho de decidirmos, por nós mesmos, o que é certo ou errado, o que obviamente não impede que muitos optem por burlá-la - seja pela certeza da impunidade, seja porque as vantagens do crime parecem compensar o risco de uma eventual punição.

Mas e se você fosse colocado diante de uma situação em que o que é legal não é necessariamente moral ou justo? Esse é o centro da polêmica na qual o juiz Marcelo Bretas se envolveu nos últimos dias. Casado com uma juíza que já recebe o benefício, o juiz responsável pela Lava-Jato no Rio de Janeiro entrou com uma ação para garantir um segundo auxílio-moradia, depois que o ministro Luiz Fux, do STF, liberou o pagamento do benefício para todos os juízes do país, em 2014.

Poucos consideram aceitável que dois juízes acumulem um benefício que, em dose única, já parece descabido - muitos dos magistrados que recebem o auxílio sempre moraram na cidade onde trabalham e possuem imóveis próprios. Mas mais difícil do que descobrir um contribuinte satisfeito por estar destinando parte dos seus impostos para engordar a folha de pagamento da elite do funcionalismo talvez seja lotar um estádio com todos os brasileiros dispostos a abrir mão de privilégios legais - ainda que moralmente indefensáveis - se tivessem a oportunidade.

O ex-governador Sérgio Cabral, preso pela Lava-Jato, e o juiz Marcelo Bretas, que o colocou na cadeia, ilustram duas faces de um mesmo cacoete nacional. O primeiro lambuzou-se na calda doce da corrupção - talvez convencido de que apenas estava sendo um pouco mais esperto do que os colegas ao extrair vantagens pessoais do jogo político como poucos antes dele. O segundo foi à Justiça buscar um direito - talvez convencido de que estaria sendo bobo se abrisse mão de mais um penduricalho legal nos vencimentos da família. Ambos são produtos de uma cultura que tolera tudo, menos a falta de esperteza.

A moral é sempre afetada pelo ponto de vista. Não é fácil fazermos julgamentos morais isentos quando nossos próprios interesses e emoções estão envolvidos. Ainda assim, uma ação não é moral se não leva em conta os efeitos sobre as outras pessoas, se não se coloca sob o escrutínio da perspectiva dos outros interesses envolvidos - como o dos contribuintes, por exemplo. Muitos filósofos chegaram a uma mesma formulação simples e eficaz: na dúvida, não faça nada que você não gostaria que virasse uma regra universal - inclusive quando a lei está ao seu lado.

CLÁUDIA LAITANO

03 DE FEVEREIRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

HIPERTENSÃO ATUALIZADA



De acordo com o conceito clássico, eram consideradas hipertensas as pessoas com pressão máxima (sistólica) maior do que 14 cm Hg ou com pressão mínima (diastólica) acima de 9 cm Hg. Aquelas com máximas entre 12 e 13,9 e/ou mínimas entre 8 e 8,9 caíam na faixa da pré-hipertensão, na qual não estava indicado tratamento medicamentoso.

Baseados na revisão dos últimos estudos clínicos, o American College of Cardiology e a American Heart Association acabam de propor novos limites para definir hipertensão arterial. Segundo essas normas, os níveis máximos da normalidade devem ser de 12 por 8, contradizendo os 13 por 9 das anteriores.

As novas diretrizes enfatizam a importância de medir a pressão em casa, com aparelhos regulados uma vez por ano. A medição no consultório médico gera um grau de ansiedade capaz de elevar os níveis pressóricos.

Recomendam, ainda, que os pacientes sejam instruídos a utilizar a braçadeira adequada ao diâmetro do braço, a mantê-lo na altura do coração e a ficar pelo menos de 10 a 15 minutos em repouso antes insuflar o manguito. O ideal é fazer três medições de cada vez, com pequenos intervalo entre elas.

Ao contrário das recomendações anteriores, as atuais propõem levar em conta o risco de doença cardiovascular, calculado a partir do "escore de Framingham" (encontrado na internet).

Pessoas com pressão máxima entre 13 e 14 cm Hg ou mínima entre 8 e 9, nas quais o risco cardiovascular estiver abaixo de 10%, segundo o escore de Framingham, devem ser apenas aconselhadas a mudanças de estilo de vida, sem necessidade de intervenção farmacológica. Aquelas com risco superior a 10%, além das mudanças de hábitos, deveriam iniciar tratamento medicamentoso.

Ao considerar hipertensão grau 1 pressões máximas entre 12 e 13, e/ou mínimas entre 8 e 9 cm, e hipertensão grau 2 máximas acima de 14 e/ou mínimas acima de 9, as novas diretrizes têm gerado controvérsias e discussões acaloradas.

O argumento mais consistente é o de que seriam rotulados como hipertensos grande número de mulheres e homens, hoje considerados normotensos. Na população norte-americana, por exemplo, a prevalência de 32% entre os adultos, calculada de acordo com as regras atuais, subiria para 46%.

Outro problema seria o de receitar medicamentos para pessoas com níveis pressóricos pouco acima de 12 por 8, que enfrentariam custos e efeitos colaterais, em troca de benefícios cardiovasculares mínimos. A medicalização desse contingente sobrecarregaria os serviços de saúde e aumentaria os gastos do sistema público.

O que fazer com essas informações?

A importância delas é enfatizar o controle doméstico da pressão. Todos devem ter um aparelho em casa. No Brasil, nem hipertensos graves tomam esse cuidado. Outro ponto é chamar a atenção para as mudanças de estilo de vida e para o fato de que níveis sistólicos entre 12 e 12,9 e/ou diastólicos entre 8 e 8,9 não são tão normais assim.

Quanto à indicação de medicamentos hipotensores, os riscos e benefícios devem ser discutidos caso a caso.

DRAUZIO VARELLA


03 DE FEVEREIRO DE 2018
J.J.CAMARGO

O AMOR É CONSTRUÇÃO. O FIM DELE, TAMBÉM

Todos os personagens desta crônica são fictícios. Por isso, não perca tempo em tentar identificá-los. Mas nada impede que eles tenham existido e até é bem provável que os leitores fiquem com a curiosa sensação de que já ouviram estórias semelhantes, mas não recordem bem onde. E isso se explica: o comportamento humano, ainda que rico e variável, está cheio de clichês, de modo que mesmo quando a história parece original, pode apostar que, em algum momento e lugar, isso já aconteceu e causou o mesmo assombro que provoca agora, como se fosse primeira, única e espetacular.

E isso tudo como introdução para deixar bem claro que ainda que possa ser apressadamente classificada como ficcional, esta história é verdadeira.

O cuidado em preservar as identidades se deve ao temor de que alguém se sinta melindrado com a revelação de atitudes que exponham uma intimidade que prefeririam, para sempre, sepultar. A escolha de Ivanir e Evonir como nomes dos nossos heróis foi intencional, dada a unissexualidade deles. O que esta história tem como tônica é a dissimulação da maldade, tão perfeita que durante décadas os familiares mais próximos, e no final da vida, os médicos e os enfermeiros, envolvidos durante semanas de convívio emocionalmente intenso, nunca perceberam qual era, na verdade, o sentimento dominante, e se deixaram seduzir pelas aparências.

Pois Ivanir adoeceu, e a agonia no hospital foi prolongada e dolorosa. Os meses de internação despertaram na enfermagem, nos médicos e nos cuidadores a admiração pelo desvelo de Evonir, sempre presente e disponível, sem fome e sem sono, mesmo quando a exigência presencial tornava quase impossível comer ou dormir. Em muitas noites dormira à beira do leito, de mãos dadas, como a mais perfeita âncora afetiva que alguém pudesse imaginar no final da vida. Convencidos de que ninguém como Evonir sabia ajeitar os lençóis e a posição do travesseiro, os familiares desistiram de oferecer revezamento e outra vez suspiraram de admiração e inveja pelo carinho espontâneo e recíproco.

Quando o tumor cansou de testar a resistência dos nossos personagens, Ivanir finalmente morreu e, no mesmo instante, Evonir sacudiu o corpo inerte, inconformado com o desfecho mais do que previsível. Sem resposta ao esforço vão, Evonir desabou em um choro convulsivo que misturava lágrimas copiosas e uma tentativa frustrada de articular as palavras. Comovido com o sofrimento, alguém dos cuidados paliativos ofereceu um abraço solidário, que foi aceito, e choraram juntos até que Evonir finalmente conseguiu falar: "Meu Deusinho, obrigado. E me perdoa por ter duvidado de que, um dia, eu ainda voltaria a ser feliz!".

O violento empurrão que desfez o abraço foi só uma frágil expressão do pasmo e do desencanto pelo amor fingido que varreu aquele quarto como um furação.

Todos têm dificuldade de aceitar que amor e ódio possam ser, em igual intensidade, assumidos ou dissimulados. E se chocam mais as testemunhas inocentes que ainda não aprenderam que esses comportamentos muito bizarros não ocorrem por acaso, e que ninguém é muito amado ou muito odiado sem ter contribuído contínua e intensamente para isso. Tijolo após tijolo.

J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre jjcamargo.vida@gmail.com - J.J.CAMARGO

03 DE FEVEREIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O sanduíche aberto

ODirceu Russi postou, na página dele, uma foto de um sanduíche aberto e escreveu que o fazia em minha homenagem e a seus pais, que o ensinaram a gostar desse acepipe. Fiquei emocionado. Por ter sido citado pelo Dirceu, sim, mas também pela apetitosa imagem daquele sanduíche aberto.

Era um sanduíche aberto de beleza tradicional. Via-se, na foto, o frescor do pão cortado em pequenos retângulos e, sobre eles, delgadas tiras de lombinho de porco e, acima delas, ora a rodela de tomate, ora o breve pepino, ora o queijo e também... ah... também o ovo cozido.

Tenho de discorrer, aqui, acerca do ovo cozido. É um pitéu dos reis. Ou, pelo menos, dos príncipes. Charles, príncipe que é, adora comer ovo cozido depois das caçadas. Só que não é qualquer ovo cozido: tem de ser o ovo cozido PERFEITO. 

Assim, premidos por essa exigência real (ou principesca), os cozinheiros do palácio se esmeram: preparam sete ovos com cozimentos diferentes e os dispõem, perfilados e numerados, em uma mesa à espera do príncipe. Ele chega, quebra a casca do primeiro e o examina com seu olho treinado de velho comedor de ovos. Se estiver no ponto certo, é aquele ovo que descerá pela nobre goela até o fidalgo estômago; se não estiver, ele seguirá tentando, até encontrar o ovo PERFEITO.

Vejam como é importante o ovo.

Suponho, porém, que Charles goste do seu ovo cozido como gosto: com a gema mole e a clara dura, façanha difícil de ser alcançada. Minha experiência ensina que esse ovo tem de permanecer em água fervente por exatos 2,7 minutos. Atingido esse limite, haverá de ser retirado da caneca de alumínio (sim, tem de ser uma caneca de alumínio) e posto sobre seu troninho de bronze, onde ficará aguardando pelo sortudo que lhe quebrará a casca delicadamente, deitar-lhe-á uma pitada de sal e o comerá num suspiro de satisfação.

Esse é o ovo cozido matinal, ótimo também para repor as energias depois da extenuante caça à raposa, exercício que um dia nós teremos que fazer, aristocrata leitor.

Não é, no entanto, o ovo cozido do sanduíche aberto.

O ovo cozido do sanduíche aberto tem de ser todo ele sólido, da clara à gema. Cortado em fatias de meio centímetro de espessura, servirá para dar sabor especial àquela combinação harmônica entre o pepino, o queijo, o tomate e, claro, o lombinho de porco.

Aliás, sou um admirador tão devotado do lombinho de porco, que já tive um com meu nome. Verdade! E foi no bar que era, exatamente, do Dirceu Russi. O gerente do antigo Jazz Café, o bom Atílio Romor, escreveu no cardápio em letras que talvez não fossem, mas que me pareceram douradas: "Lombinho à David Coimbra". Meus amigos brincavam:

- Vamos comer o lombinho do David!

Tudo bem, seus invejosos, isso não é para qualquer um. Pena que não guardei nenhum daqueles menus do Jazz Café.

Mas, voltando ao sanduíche aberto, já contei aqui que este é um prato típico de Porto Alegre. Talvez a única invenção culinária porto-alegrense, além do xis-tudo com ovo. E isso é algo que me toca, eu, que nasci no Cristo Redentor. Por essa razão, talvez faça um sanduíche aberto neste fim de semana.

Tenho cá um bom lombinho de porco. Temperá-lo-ei com alho, pimenta do reino, sal e, por que não?, um pouquinho de nada de molho shoyu. Ele ficará imerso nessa alquimia por algumas horas e, depois, será levado ao forno. O pão, eu o cortarei com precisão em pedaços de três por quatro centímetros. 

Não maiores nem menores. Já separei também o queijo, os pepinos, os tomates e, é claro, o ovo que será cozido. Só vou retirar minhas garrafinhas de Sam Adams do congelador quando elas estiverem prestes a ficar branquinhas por fora, sem que congelem por dentro. Tudo, então, estará pronto, inclusive a poderosa mostarda amarela que comprei outro dia ali no Trader Joe?s. Chamarei a Marcinha e o Bernardo. 

E passaremos pelo menos uma hora conversando sobre as estátuas do Laçador e do Gaúcho Oriental, sobre o Grêmio e o Inter, sobre a Feira do Livro e o IAPI, sobre a escadaria da Fernando Machado e também sobre todos os nossos bons amigos que, naquele exato instante, estarão na nossa cidade, talvez reclamando da violência ou, quem sabe, dos buracos das ruas ou da grama dos canteiros que nunca é cortada, ou talvez não, talvez eles também estejam conversando suavemente, rindo, brincando, se divertindo. Juntos.

david.coimbra@zerohora.com.br - DAVID COIMBRA


Mamma mia faz 90 anos 


Minha mãe faz 90 anos. Não desceu do alto numa poltrona, tipo no filme Mamãe faz 100 anos, de 1979, clássico de Carlos Saura. Emma, a mamma, nasceu em Treviso, no Vêneto, Norte da Itália e, quando estava com 11 anos, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. 

Quando o conflito terminou, em 1945, minha mãe estava com 17 anos. Ela lidou bem com as marcas do conflito, procurou não lamentar muito a adolescência roubada e, aos 20 anos, casou-se com Alberto, meu pai, em Maserada, cidadezinha onde viviam. Com 21 anos, meu irmão de quatro meses no colo e meu pai, ela emigrou para o Brasil. Nova Prata, nenhuma rua calçada, 1949, Dr. Tarasconi prefeito, algumas peças para morar e dois fogareiros para providenciar as refeições. Alberto foi trabalhar coordenando as obras da prefeitura. Trabalharam muito, economizaram algum dinheiro e apostaram numa fazenda de café no Paraná, onde a grana sumiu. 

Acontece com jovens imigrantes. Começaram tudo de novo, já com minha garbosa irmã Jussara, nascida na gloriosa Nova Prata. Em 1954, meu pai, meus irmãos e minha mãe grávida foram morar em Bento Gonçalves, onde eu tive a honra, a alegria e o imenso prazer de nascer, modéstia à parte. 

O pai foi trabalhar na prefeitura de Bento. Em Bento, uma casa, trabalho como primeira vendedora da Avon na cidade, filhos crescendo, alegrias e dificuldades, e sempre os sonhos de ver de novo a família e os amigos na Itália. Um acidente no trânsito louco de Caxias, quatro meses de cama para a mamma recuperar a bacia fraturada, e, aí, depois, a viagem para a Itália, 11 anos depois da partida. O pai pretendeu voltar com a família para a Itália. Emma disse que se acostumou com o Brasil e respondeu que não. 

Conseguiu formar os três filhos na faculdade. Sua comadre, na Itália, tinha três filhos e um apenas se formou em curso superior. Filhos em época de faculdade, a família mudou-se para Porto Alegre, onde foi morar na Felipe Camarão, no simpático Bom Fim. Sempre muito trabalho, aí vieram netos, bisnetos e, daqui a pouco, quem sabe, os trinetos. 

Depois de muita luta, a possibilidade de ir para a Itália uma vez por ano. Alguns anos depois, meu pai faleceu de repente, com 67, minha mãe tinha 58. Nove anos depois, meu irmão nos deixou muito cedo, aos 47 anos. Perdas e ganhos, Emma seguiu em frente, mesmo depois de outro violento acidente de carro, em Porto Alegre, e de um infarto aos 72 anos. Seguiu em frente e preferiu ficar todo tempo no Brasil, país que a acolheu e onde nasceram os filhos, netos e bisnetos. 

A vida segue. Emma cruzou a barreira dos 90. Eu, com 64, perto dela, claro que me sinto, muitas vezes, com 10, e ela, com 36. Como disse Mario Quintana, o tempo é só um ponto de vista dos relógios, e, aí, as lembranças, vivências e memórias de verdade ou inventadas vão rolando como água de cascata. Passado, presente e futuro estão embolados, e a bola vai para cá e para lá. 

a propósito... 


Esses dias, eu e minha irmã Jussara fomos tomar um café da tarde, isso, o antigo café da tarde, na confeitaria Liamar de Atlântida. 

A mana pediu mil-folhas que era exatamente para isso que ela queria ir lá. Eu comi canudinho com creme, que era o único doce que eu comia nas nossas festas de aniversário. Aí eu e a mana começamos a lembrar acontecimentos de infância, juventude e vida adulta, tudo misturado, tempo indo e vindo, memória bamboleando. 

Um contando como tinha sido tal coisa, outro pensando se era assim mesmo. Naquele momento, o que tinha realmente acontecido não importava. Importava lembrar, contar. Importava o momento, as mil-folhas, os canudinhos e o café, que a vida é feita de pequenas grandes coisas. Se o que foi é ou não, se deixará de ser ou será diferente, não importa. - 

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/colunas/livros/608703-a-arte-de-viver.html)

A arte de viver 


Detalhe da capa do livro REPRODUÇÃO/JC A arte de viver (Harper Collins, 192 páginas, tradução de Rodrigo Peixoto), de Thich Nhat Hanh, um dos líderes espirituais mais proeminentes e mais queridos da atualidade, foi lançado há poucos dias no Brasil. 

O vietnamita Thich iniciou sua vida como monge aos 16 anos e, hoje, é mestre do zen-budismo, poeta, acadêmico e ativista da paz. Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr., seus ensinamentos são considerados lendários, e milhares de pessoas frequentam seus retiros para aprender a arte de viver com a mente aberta (ou atenção plena). É a técnica da mindfulness. A mindfulness é uma técnica que pode ser traduzida como atenção ou consciência plena. O conceito vem, portanto, para conectar ação e pensamento. 

Em A arte de viver, Thich apresenta, pela primeira vez, meditações transformadoras que podem libertar as pessoas para uma vida feliz, pacífica e ativa. O autor auxilia a encarar o envelhecimento e a morte com curiosidade e alegria, não com medo, e, acima de tudo, como gerar felicidade, compreensão e amor para que possamos viver profundamente cada momento de nossas vidas. O livro ensina a importância de olhar para dentro de si mesmo e mostra como desenvolver a compaixão a partir de práticas conscientes para se envolver com a vida. 

"A espiritualidade também é um campo de pesquisa e estudo. Queremos nos entender, entender o mundo que nos rodeia e o que significa aceitar e amar, e isso determina nossa qualidade de vida. Todos precisamos ser amados e compreendidos. E todos queremos amar e compreender", ensina o líder espiritual, que atualmente vive em Plum Village, seu centro de meditação na França. Thich não considera a espiritualidade religião. 

Para ele, a espiritualidade é um caminho para gerarmos felicidade, entendimento e amor, para viver todos os momentos da vida de forma mais profunda. Manter uma dimensão espiritual não é fugir da vida ou passar um tempo em algum lugar feliz, fora do mundo. A espiritualidade, para Thich, é enfrentar as dificuldades da vida e gerar paz, alegria e felicidade, bem aqui onde estamos no planeta. 

O livro nos ensina, acima de tudo, a desenvolver a compaixão, a partir de práticas conscientes para se envolver com a vida e, assim, quem sabe, ter um planeta e um convívio dos humanos mais harmônico e feliz. Disso precisamos. 

lançamentos 


Berta - Os anos dourados da Varig - Uma história de bastidores nunca antes revelada (Editora Espaço Aberto, 416 páginas), de Mario de Albuquerque, jornalista que trabalhou 39 anos na Varig, é obra que surpreende e polemiza. Desnuda as figuras de Berta e Meyer, mostrando a intimidade dos grandes mitos que fizeram a história da Varig e da aviação brasileira. Reportagens, entrevistas e dezenas de documentos dão autenticidade à obra. 

A marca do Z - A vida e os tempos do editor Jorge Zahar (Zahar, 296 páginas), do jornalista, professor e escritor Paulo Roberto Pires, da UFRJ, mostra a riquíssima vida do legendário editor Jorge Zahar, cuja trajetória se confunde com a história das ideias no Brasil do século XX. Livreiro e depois editor de grandes obras de ciências humanas, formou várias gerações de leitores e debateu com calor as questões de seu tempo. 

Vamos melhorar o Brasil? (232 páginas, AGE Editora), de Oscar Danieli, economista nascido em Carazinho, traz inspirações para lidar com nosso Brasil, país sem guerras, com muitos recursos, mas com desigualdades, violência, radicalismos, desemprego, corrupção e outros problemas. Danieli trata de política, administração, finanças, teto salarial e outras questões, e opina, com fundamento, sobre as importantíssimas eleições deste ano.  

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/colunas/livros/608703-a-arte-de-viver.html)

02 DE FEVEREIRO DE 2018
ARTIGO

VOCÊ VAI QUERER O NOSSO VOTO, NÉ?


AAssembleia Legislativa deveria fazer jus ao apelido de Casa do Povo. Porém, o que estamos vendo nos últimos dias é cada um pensando no seu povinho, na sua aldeia, na sua chance de se (re)eleger. O futuro do Estado parece ser o menos importante - leia-se futuro de longos anos, não apenas dos próximos quatro ou oito anos. 

As três sessões extraordinárias viraram piada, provando mais uma vez que muitos estão ali apenas para enrolar, para transferir a responsabilidade para o partido oposto. Que vergonha. Alguns parecem ter esquecido que somos mais de 11 milhões de gaúchos, que diariamente deparam com perdas. De investimentos, de credibilidade, de confiança e até mesmo de vidas.

Não dá para ser um jogo político. Os governantes precisam entender que deveriam todos jogar no mesmo lado, com estratégias conjuntas de vitória para chegar ao topo da tabela. Podiam inspirar-se na torcida mista e, mesmo que com camisetas diferentes, fazer um belo espetáculo. Mas estamos beirando o rebaixamento do jeito que as coisas andam.

Porém, a preocupação maior é, se melhorar, a situação pode seguir no governo. Com o negócio saindo de vez dos trilhos, tem quem pense que é o que precisa para mudar o cenário político. Gente, precisamos transformar nosso Estado, seja quem for que estiver no poder. É necessário seriedade para encarar a realidade dos fatos e compromisso de dar o seu voto no plenário para construir um amanhã mais esperançoso.

Porque outubro está aí e você, que não foi capaz de votar a favor do nosso Rio Grande, vai estar lá pedindo para apertarmos o verde e confirmar mais quatro anos no poder. Não vai gostar se houver voto em branco ou nulo, quer que o eleitor tenha escolha, se posicione, marque presença na urna. E nós, que escolha temos para seguir acreditando em vocês, que ficaram três dias seguidos enrolando para não sair do lugar e não apertaram o verde? A velha forma de ser político não condiz com a nova realidade dos fatos. Senhor político, por favor, faça por merecer.

Jornalista comunica@graziaraujo.com - GRAZIELLE ARAUJO


02 DE FEVEREIRO DE 2018
CAMPO ABERTO

INDÚSTRIA CRESCE E ESPERA 2018 MELHOR


A safra recorde colhida no país e a melhora do ambiente econômico fizeram as vendas de equipamentos agrícolas voltarem a subir. O faturamento do setor no ano passadochegou a R$ 13,5 bilhões, 7,2% acima de 2016 e o melhor resultado desde o recorde de 2013 (R$ 19,4 bilhões). As estatísticas são da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e excluem tratores, colheitadeiras, setor de irrigação e armazenagem.

Com a continuidade de retomada da atividade no país, a entidade espera um 2018 ainda melhor. Os financiamentos, que fluíram bem ano passado, também tendem a transcorrer sem percalços.

- Projetamos crescer entre 5% e 8%, mas sobre uma base de comparação mais forte - espera o presidente da CSMIA, Pedro Bastos.

O mercado externo também ajudou a tracionar o desempenho. As exportações subiram 84,5% e chegaram a US$ 923,5 milhões. O resultado foi reflexo da maior demanda da Argentina. Colômbia e Rússia também compraram mais do país, revela Bastos.

Outro indicador que melhorou foi a utilização da capacidade instalada, agora na ordem de 76%. Bastos estima que, para o setor voltar a fazer investimentos, o percentual terá de superar os 85%.

Reflexo da crise, o emprego não subiu tanto quanto os demais componentes observados pela câmara. O avanço foi de apenas 0,6%. Após a recessão, as empresas partiram para melhorar processos e automatizaram as plantas, em busca de maior produtividade. As contratações, diz Bastos, dependem da continuidade do crescimento das vendas do setor.

caio.cigana@zerohora.com.br - CAIO CIGANA

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018




01 DE FEVEREIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

Um e-mail de um amigo distante

Recebi um e-mail do Dadinho. Na verdade, um e-mail da filha do Dadinho, escrito por ele. O Dadinho não haverá de ter e-mail. Certos homens são indiferentes ao mundo virtual, interessa-lhes apenas a concretude da vida. O Dadinho é um desses. Seu bom coração não combina com o fel que destilam as redes.

O Dadinho era meu amigo de Cachoeira do Sul e... Agora, só de escrever esse tempo verbal, estremeci. Como assim, "era"? O Dadinho continua vivo, tanto que me enviou e-mail, e foi um e-mail amistoso. Quer dizer: não há nada que indique que não somos mais amigos.

Mas falei dele no passado.

Porque deve fazer mais de 10 anos que não vejo o Dadinho, não falamos por telefone nem trocamos e-mails. Na verdade, nem sabia que ele tinha filha.

Isso é triste, apartar-se assim dos amigos. E talvez seja algo ainda mais grave: você não se aparta de alguns amigos, você encerra vidas que teve.

Lembrei do histórico Verão de 98. Tínhamos uma turma grande e saíamos juntos todas as noites e era muito divertido. Mas a Mariana Bertolucci, em certo momento, nos negligenciou, e eu disse para ela:

- Mais tarde, vamos nos separar para sempre, e tu vais sentir saudade.

Ela: - Ai, David! "Para sempre"?

Não era drama. Vivemos muitas vidas em uma e, assim, morremos muitas vezes também. São mundos que se acabam. Aquele mundo do Verão de 98 não existe mais. Nem a cidade é a mesma.

É por isso que, quando você reencontra um velho amigo, é como se reencontrasse também um outro que você foi.

Como eu era, quando convivia mais com o Dadinho? Nós fazíamos festa em Cachoeira, escutávamos o Supertramp e, bem, éramos mais magros. Ou pelo menos eu era, não sei se o Dadinho engordou.

O que eu diria para aquele que fui se o encontrasse? Algo sobre os perigos do consumo excessivo de embutidos? Para usar filtro solar, como o Bial? Para estudar mais inglês?

Não... Diria para não perder tempo com pessoas negativas. Para entender que, às vezes, pessoas muito críticas não são inteligentes; são amargas. Para saber que aquele que sempre vê o mal nos outros está vendo dentro de si mesmo. Porque o mal é o que sai da boca do homem.

É isso. Diria para mim que ignorasse essas pessoas sombrias e desse atenção a tantas outras luminosas. Aos seres humanos de bom coração, como o Dadinho. Aos amigos do peito. Esses para quem você olha e são como se fossem um espelho. Você vê quem foi e, mais do que isso, vê quem poderá ser. Porque, no mundo do futuro, seu amigo estará lá. Junto com você.

DAVID COIMBRA


01 DE FEVEREIRO DE 2018
TRANSPORTE

Aumento fora dos trilhos


TARIFA DO TRENSURB sobe 94% no sábado. Preço não era atualizado desde 2008 e ficará em R$ 3,30

Os usuários da Trensurb terão, de uma só vez, um reajuste de 94,12% na tarifa. A partir de sábado, o bilhete passará de R$ 1,70 para R$ 3,30. Em nota, a empresa justifica o salto afirmando que o novo valor é necessário para seguir oferecendo o serviço.

Há quase nove meses a Trensurb esperava a autorização dos ministérios das Cidades e do Planejamento para implantar a tarifa. Há 10 anos, o valor não era reajustado. Como justificativa para o longo período sem aumento, a Trensurb diz apenas que depende de autorização do governo federal. Outras solicitações foram feitas em anos anteriores, mas não foram atendidas. Agora, houve a permissão.

As integrações com linhas municipais da Capital e de Canoas também serão impactadas. Mas, por enquanto, somente a tarifa integrada com Porto Alegre aumenta, de R$ 5,18 para R$ 6,62. As integrações que envolvem ônibus de Canoas seguem com o preço atual por tempo indeterminado, dependendo do acerto com as empresas de ônibus (confira ao lado).

O último reajuste da tarifa da Trensurb, de R$ 1,50 para R$ 1,70, ocorreu em janeiro de 2008. No mesmo período em que ficou sem reajuste, o acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPC-A) foi de 79%. Caso fosse usada essa inflação acumulada no período, a tarifa deveria ser R$ 0,24 mais barata, ficando em R$ 3,06.

Mas, para justificar o aumento de 94,12%, um dos principais itens apresentados pela Trensurb é o gasto com energia elétrica. Nesse mesmo período, segundo a empresa, a alta do custo com energia de tração - para os trens rodarem - foi de 111%. Com iluminação, o gasto subiu 148%. O aumento da conta teve a ver com reajustes na tarifa e com mais consumo de energia com a expansão do sistema até Novo Hamburgo, que agregou cinco estações e mais 9,3 quilômetros de linha.

COM CARTÃO, USUÁRIO ECONOMIZA ATÉ MARÇO

Será possível driblar o reajuste no primeiro mês de vigência da nova tarifa. Segundo a Trensurb, quem carregar os cartões TRI, TEU e SIM até amanhã seguirá pagando o valor antigo, tanto na tarifa unitária quanto na de integração até 3 de março. No sábado, os carregamentos realizados já sofrerão o desconto do valor novo.

Apesar do reajuste, deslocar-se de trem entre Porto Alegre e os municípios ligados pelos trilhos (Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo) ainda é mais barato do que usar ônibus. A passagem rodoviária dessas cidades para a Capital é única e custa R$ 4,65. Se o passageiro se deslocar de ônibus entre esses municípios sem chegar a Porto Alegre, paga R$ 3,95. Nos últimos anos, a diferença entre essas tarifas praticamente esvaziou os ônibus, de acordo com a Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan). Esse jogo pode começar a virar, aos poucos.

- Houve um acordo para fixar um valor único da passagem. Com o reajuste de agora, e se vierem outros, mais pessoas poderão optar por ônibus. E, se isso ocorrer, as empresas irão oferecer mais horários e veículos - projeta o chefe do Departamento de Transportes Metropolitanos da Metroplan, Danilo Landó.

leandro.rodrigues@diariogaucho.com.br - LEANDRO RODRIGUES


01 DE FEVEREIRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

DUPLO EQUÍVOCO


Mais uma vez, o Rio Grande patinou. A decisão da Assembleia Legislativa de barrar o projeto de adesão ao regime de recuperação fiscal do Rio Grande do Sul tem consequências que vão muito além das questões eleitorais imediatas. As contas do Estado alcançaram tal nível de inviabilidade, que federalizar ou vender estatais transformou-se em uma necessidade, independentemente de ideologias e interesses paroquiais.

A chance desperdiçada foi a última antes de um novo agravamento da crise das finanças públicas. Se pretenderam infligir prejuízo ao governo, os setores refratários à visão de um Estado que deve concentrar esforços em áreas fundamentais, como saúde, educação e segurança, deram, na verdade, um duplo tiro no pé. Em primeiro lugar, porque ofereceram ao Piratini um álibi para justificar o agravamento da já terminal situação financeira do Estado. Em segundo, porque, em caso de vitória da oposição na eleição de outubro, emergirá das urnas a imediata obrigação de resolver a questão sem usar as soluções agora rechaçadas.

Cabe ao governo estadual absorver a decisão de ontem e, imediatamente, oferecer à sociedade alguma perspectiva de futuro, mesmo com os inevitáveis prejuí- zos que a falta de unidade política, mais uma vez, infligirá aos gaúchos. Não se questiona aqui a legitimidade da postura dos deputados, mas, sim, o seu efeito nefasto na estrutura pública que muitos parlamentares acreditam estar defendendo, mas que, na verdade, estão apenas ajudando a dilacerar.

OPINIÃO DA RBS


01 DE FEVEREIRO DE 2018
POLÍTICA

SESSÕES EXTRAS TERMINAM SEM VOTAR PROJETOS

SARTORI SAIU DERROTADO após terceiro dia da convocação feita por ele acabar e as propostas nem sequer terem sido apreciadas

No último dia da convocação extraordinária da Assembleia, o governo de José Ivo Sartori sucumbiu, mais uma vez, à estratégia da oposição e à falta de apoio da base aliada. Não conseguiu votar nenhum dos projetos que considera vitais para o futuro do Estado. Depois do fracasso no plenário, as atenções se voltam, agora, para a próxima terça-feira, quando o Legislativo retorna ao trabalho após o fim do recesso.

A primeira proposta a entrar em debate será justamente a que autoriza o Estado a aderir ao regime de recuperação fiscal da União, que Sartori tentou aprovar nos últimos três dias, sem sucesso.

Sob pressão das galerias, a sessão de ontem foi marcada por quatro horas de discursos inflamados e manobras regimentais. Tudo limitou-se ao pedido de inversão da pauta feito pelo governo. Os projetos sequer entraram em debate.

O líder do governo, Gabriel Souza (PMDB), voltou a acusar o presidente do parlamento, Edegar Pretto (PT), de agir "partidariamente" e disse que adversários fizeram "de tudo para que, pela primeira vez na história, convocação extraordinária terminasse sem votar um único projeto".

- Nunca imaginei que a oposição teria tamanha irresponsabilidade. Está forçando uma situação para que o Rio Grande do Sul volte a pagar a dívida, mas a população está vendo isso. Quanto mais o tempo passa, maior é o risco de cair a liminar do Supremo Tribunal Federal (que suspendeu provisoriamente o pagamento das parcelas à União). Se isso acontecer, será o caos - ressaltou Souza, irritado.

A réplica veio também em tom elevado.

- Não assumo de forma nenhuma a responsabilidade pelo fracasso dessa convocação extraordinária. Aqui é uma casa plural, aqui tem normas. Não há possibilidade de manobra política - disse Pretto.

Segundo Pedro Ruas (PSOL), Sartori "não pode jogar a culpa na oposição":

- Quem não teve presenças suficientes na primeira sessão e perdeu o quórum foi o governo, não fomos nós.

Líder da bancada do PT, Stela Farias disse que faltou ao Piratini "fazer a lição de casa e organizar melhor a base":

- O governo tem de parar com mimimi.

ADESÃO AO REGIME TRANCA PAUTA NA VOLTA DO RECESSO

Por tramitar com urgência, o texto que autoriza a adesão ao regime federal impede, após o fim do recesso, que outras proposições sejam apreciadas enquanto não for votado. Para evitar nova derrota, o Piratini reforçará a articulação, mas diz ter os 28 votos necessários:

- O foco estará totalmente voltado para esse projeto - sustentou Souza.

O maior obstáculo é obter apoio às propostas de emenda à Constituição (PECs) que permitem a privatização ou federalização de CEEE, Companhia Riograndense de Mineração (CRM) e Sulgás sem a necessidade de plebiscito. As dificuldades são grandes porque essas PECs estão paradas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde dezembro, exigem 33 dos 55 votos e enfrentam forte resistência. Para que sejam apreciadas, Sartori precisa conseguir acordo de líderes, o que, por enquanto, não está no horizonte.

Se as PECs não avançarem, mesmo que seja autorizado a assinar o acordo com a União para suspender a dívida por três anos e obter novos empréstimos, Sartori corre o risco de ouvir um "não" da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) - a oferta de ativos é exigida como garantia.

Nos bastidores, técnicos da Secretaria da Fazenda já trabalham em alternativas, como vender a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) ou simplesmente extinguir o órgão e fazer a concessão de estradas à iniciativa privada. Há dúvidas se a STN aceitaria a contrapartida, cujo valor seria menor do que os R$ 2,2 bilhões estimados com a privatização das estatais.

- Ainda estamos definindo qual seria o desenho disso. Estamos dando um passo de cada vez. Mantemos a esperança de aprovar ao menos uma das PECs - disse um interlocutor do governo.

Em coletiva de imprensa após a derrota na Assembleia, Sartori não escondeu a frustração. Acompanhado de secretários e deputados da base, fez duras críticas ao que chamou de "manobras protelatórias de uma pequeneza infeliz":

- Quem vai responder pelo atraso dos salários? (...) Se o atraso dos salários aumentar, esses setores políticos vão ser responsabilizados.

juliana.bublitz@zerohora.com.br - JULIANA BUBLITZ

01 DE FEVEREIRO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Distância


Existe uma coisa chamada silogismo falso. Um pensamento que parece perfeitamente lógico até se revelar que não é. Por exemplo, dois pontos. As Forças Armadas existem para proteger a nação dos seus inimigos. Os maiores inimigos da nação, hoje, são os criminosos bem armados que dominam boa parte do seu território e são uma ameaça constante aos seus cidadãos. 

Os meios convencionais de combater esses inimigos não funcionam. A criminalidade aumenta, a nação se sente indefesa. A solução? Mandar as Forças Armadas saírem dos quartéis e usarem suas armas para combater o crime. Mobilizar essa força ociosa para que cumpra seu papel de defender a pátria.

O silogismo é falso e perigoso, como se viu na recente experiência carioca. Exército agindo contra o crime não acaba com o crime e corre o risco de corromper o Exército. Tropas e tanques na rua para manter a ordem estão a poucos passos de estar na rua para impor exceção e arbítrio. 

O Brasil é um dos raros países do mundo que não seguiram o exemplo da Roma antiga, onde as legiões eram aquarteladas longe da cidade justamente para prevenir a tentação de usá-las a qualquer pretexto. Isto não as impediu de intervir na vida civil dos romanos, mas sempre contra a oposição de figuras formidáveis como Cícero - pelo menos o Cícero que Shakespeare botou no palco -, para quem a distância das legiões era a primeira condição para a sobrevivência da República.

O fato de os quartéis brasileiros estarem geralmente dentro de perímetros urbanos só aguça a lógica enganosa, pois realça a inutilidade de uma força militar dedicada aos seus rituais internos e à preparação para guerras hipotéticas enquanto na rua em frente, ou no morro atrás, o crime corre solto e o inimigo toma conta. Fica difícil convencer as pessoas de que esse aparente contrassenso é preferível a transformar militar em polícia. Que é melhor para nossa saúde cívica as legiões ficarem longe de Roma, metaforicamente falando.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018



31 DE JANEIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O moletom do Mickey

Gosto do meu moletom do Mickey. Ele é confortável e azul-escuro e tem um capuz muito bom e a cara sorridente do Mickey bem grande estampada no peito. Comprei na Disney. Era uma noite em que fazia muito frio e eu estava desprevenido, achando que na Flórida sempre é quente e acolhedor. Então, entrei numa daquelas lojinhas deles e vi esse moletom. Olhei para o Mickey ali desenhado, tão simpático com suas orelhonas, e pensei: por que não? Vesti-o na loja mesmo e me afeiçoei.

Depois, nos dias de inverno inclemente do Norte, várias vezes acordava ainda em meio ao breu da madrugada, para fazer o Timeline, da Gaúcha, enfiava meu moletom pelo pescoço e ia preparar o café sentindo-me mais jovial. Participava alegremente do programa, dentro do meu moletom. Mas, um dia, o Potter ralhou:

- Fica ruim tu entrevistar um ministro de moletom do Mickey.

A Marcinha fez coro:

- Ele está certo. Não tem cabimento tu andar por aí com esse moletom do Mickey!

Com o que, dobrei tristemente meu moletom e o acomodei em uma prateleira alta do roupeiro, suspirando:

- Adeus, querido ratinho...

Faz uns dois anos que isso aconteceu. Desde aquele dia, tenho pensado em jogar para o alto as convenções e voltar a vestir, orgulhosamente, meu moletom do Mickey. Estava até decidido a cometer esse ato de rebeldia ainda em janeiro, até que, nesta semana, vi aquele vídeo da quase ministra do Trabalho. Você sabe do que estou falando: a deputada Cristiane Brasil, candidata a ministra, aparece a bordo de uma lancha cercada por homens sem camisa. Eles são fortões, grandes e estão depilados. A deputada fica pequena perto deles. Seu queixo está à altura dos mamilos do mais alto. Ela começa a falar defendendo sua nomeação ao ministério, e os sujeitos concordam:

- É isso aí, ministra!

Assisti ao vídeo nas redes e no Jornal Nacional. Confesso: não prestei a mínima atenção ao conteúdo da fala da quase ministra e de seus apoiadores brutamontes. A forma, digamos, pouco ortodoxa do vídeo suplantou e ofuscou a mensagem. Não que achasse o vídeo indecente, como alguns acharam, nada disso. Achei apenas esquisito, o que bastou para que o teor do discurso da deputada se esfarelasse.

Foi aí que dei razão ao Potter e à Marcinha: a bela apresentação não garante a qualidade do produto, mas a embalagem desleixada é um dado que depõe contra o conteúdo. Se houve descuido na capa, é provável que tenha havido também no interior. É preciso ficar atento. Não vou mais vestir meu moletom do Mickey.

DAVID COIMBRA