quinta-feira, 30 de julho de 2026

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30 de Julho de 2026
ROGER LERINA

A odisseia perpétua

Entre muitas outras coisas, a Odisseia é uma reflexão sobre movimento e inércia. O retorno de Odisseu - ou Ulisses, na versão em latim -, jornada que durou 10 anos, é precedido pela Guerra de Troia, que também consumiu uma década. Vinte anos de epopeias em que o mar é testemunha, algoz e poucas vezes protetor dos heróis gregos. Durante uma dezena de anos, nos quais cerca de 50 dos últimos dias são narrados por Homero na Ilíada, os guerreiros da Grécia permaneceram ancorados na praia defronte a Troia, combatendo de dia e retornando aos acampamentos junto aos barcos ao final das refregas. 

Conquistada a cidade oriental e recuperada Helena, é hora de voltar para casa pelo oceano, mas os deuses - e particularmente Poseidon, senhor dos mares - não facilitam a vida dos viajantes, obrigando Ulisses a navegar e naufragar por mais 10 anos antes de enfim dar nas costas de sua Ítaca natal, em uma viagem alternada entre deslocamentos e pausas.

Partir e regressar é um dos motes não apenas dos poemas homéricos - e da superprodução dirigida por Christopher Nolan em cartaz -, mas também do curso da civilização através dos tempos. Apostamos nosso destino na alternância pendular entre ação e repouso, ora lançando velas rumo ao ignoto, ora fincando raízes no familiar - em uma ou outra situação, sempre especulando se não seria melhor termos abraçado a opção relegada. O mar une e afasta, acolhe e castiga na Ilíada e na Odisseia, representando tanto a permanência quanto a instabilidade.

Essa ambiguidade fascinante está na essência também de André Severo - A onda de Gustave Courbet, exposição em exibição no MARGS. O artista visual gaúcho identificou quase uma centena de telas com ondas realizadas pelo pintor francês entre as décadas de 1860 e 1870 e recriou-as em grandes dimensões. Colocadas lado a lado, essas enormes pinturas congelam paradoxalmente o que é fluxo incessante. As vagas que se agigantam e quebram indômitas no mar tempestuoso envolvem o espectador em sua hipnótica enxurrada imóvel, atraindo e afastando como a maré que pode seduzir com promessas de além-mar ou matar na praia os ímpetos à aventura.

No canto 26 do Inferno da Divina Comédia, Dante escreve que, mesmo depois de 20 anos de errâncias, Ulisses não sossegou em casa e desafiou mais uma vez os deuses, navegando para além das Colunas de Hércules - o Estreito de Gibraltar - rumo ao oceano desconhecido e proibido. É essa onda de perpétua inquietação que a humanidade surfa desde que desceu das árvores. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

ROGER LERINA

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