Temporais afetam dezenas de cidades e elevam rios no RS
O episódio reforça como fenômenos severos podem ocorrer simultaneamente no Estado. Enquanto comunidades acompanham a subida das águas, municípios contabilizam prejuízos causados por vento forte e chuva de pedra
Após uma sequência de temporais que provocou estragos em pelo menos 128 municípios, a elevação dos rios agravou a situação em diversas regiões do Estado e mantém a preocupação para os próximos dias. Pelo menos seis estão acima da cota de inundação em nove trechos monitorados, já provocando a retirada de moradores em áreas sujeitas a alagamentos. Segundo a Defesa Civil, 297 pessoas estavam desalojadas e 779 em abrigos até a noite de ontem. Além disso, um tornado na Região Noroeste deixou feridos e causou danos materiais, enquanto episódios de granizo foram registrados em mais de 10 municípios.
Às 19h, cerca de 17 mil clientes estavam sem energia elétrica no Estado. Na área da RGE, eram 8.786 afetados. Já na região da CEEE Equatorial, há 8.250 clientes sem luz. Segundo as concessionárias, dezenas de equipes estavam nas ruas atendendo aos casos de interrupção.
Avanço
Um aviso de alto risco de inundação para o Rio Paranhana, no trecho de Taquara, foi divulgado ao final da tarde pela Defesa Civil do Estado. Em Rolante, Três Coroas, Igrejinha e Taquara, na mesma região, os alagamentos fizeram com que mais de uma centena de pessoas precisassem deixar suas casas. Abrigos foram montados para receber as famílias. O Rio dos Sinos, em Taquara, segue em alerta máximo e pode superar a cota de inundação.
Já o Guaíba, no centro de Porto Alegre, atingiu ontem a cota de atenção (2m) e pode superar a de inundação (2m50cm) até sábado, segundo boletim hidrológico de ontem do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A Defesa Civil de Porto Alegre informou que já reforçou a atuação na região das Ilhas.
No Rio Caí, em São Sebastião de Caí, onde a cota de inundação é de 10m, a medida foi superada em três metros - era de 13m10cm às 19h30min. No início da tarde, famílias já retiravam móveis do primeiro andar das casas, após a água invadir trechos de ruas como Oderich, Aquidaban e São Lourenço. Em alguns pontos, o nível chegava à altura da coxa de quem atravessava o alagamento.
Em busca de abrigo
Em Eldorado do Sul, com a elevação do Rio Jacuí, a Defesa Civil da cidade orientou que moradores de áreas próximas a arroios e rios iniciassem ações preventivas e procurassem abrigo com familiares em locais seguros. A prefeitura classificou como prioridade de monitoramento as áreas dos arroios Conde e dos Ratos, que abrangem o distrito de Bom Retiro e o bairro Rincão. Também são monitorados o assentamento Irga e os bairros Chácara, Cidade Verde, Vila da Paz, Picada, Itaí, Sol Nascente e Sans Souci.
Após o Rio Gravataí atingir a cota de inundação, que é de 4m75cm, em Gravataí, no bairro Vila Rica, sete pessoas saíram de casa na terça-feira à noite e foram abrigadas por parentes.
Morador da região, o montador mecânico Everton Flores Soares, 32 anos, acompanhava o nível da água na rua. Ele descreve o alagamento não como um evento, mas como um hábito do bairro: a cada chuva mais volumosa, a água empoça e não escoa.
- Aqui é com frequência. Toda chuva que dá acontece esse transtorno do alagamento. A água não tem para onde escoar e fica na rua - explica Soares.
Estabilidade
Para hoje, a previsão é de tempo estável. A frente fria começa a se afastar do Estado e dá lugar a uma massa de ar seco.
O dia começa com temperaturas baixas na maioria das cidades. O sol retorna entre muitas nuvens, mas a chuva não está totalmente descartada - especialmente na Serra e na Metade Norte.
SP e RJ
O Sudeste também registrou impactos em razão do tempo ontem. Três pessoas morreram em São Paulo em decorrência dos fortes ventos, que chegaram a 124,9 km/h. De acordo com a Defesa Civil estadual, os óbitos foram em Santo, São Sebastião e Cesário Lange. No Rio de Janeiro, a ventania causou apagão, paralisou transportes e resultou na morte de duas pessoas atingidas pela queda de um muro em Santa Teresa. A máxima do vento chegou a 105,5 km/h no Aeroporto do Galeão, na Zona Norte, entre 16h e 17h.
Aporte
Em reunião ministerial ontem no Palácio do Planalto para falar sobre o El Niño, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, anunciou o reforço orçamentário de R$ 1,335 bilhão para mitigar as consequências do fenômeno climático, como excesso de chuvas no Sul, seca e incêndios no Norte e Nordeste e atraso de chuvas no Centro-Oeste. _
Participaram Caroline Batista, Diego Nuñez, Eduarda Wenzel, Isadora Garcia, Júlia Ozorio, Leonardo Martins, Kathlyin Moreira, Kassiane Michel, Madu Brito e Maria Fernanda Freire
Tornado deixou sete feridos em três cidades
No noroeste do RS, sete pessoas ficaram feridas após um tornado atingir três cidades: Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho. As rajadas causaram estragos como destelhamentos e queda de árvores e postes. Duas residências ficaram totalmente destruídas em Sete de Setembro. A prefeitura de Giruá afirmou ontem que irá protocolar o pedido de Declaração de Situação de Emergência.
O que parecia ficção aconteceu diante dos olhos de Renan Bayer, morador de Giruá, nesta terça-feira. No interior do município, o agricultor conseguiu registrar o fenômeno:
- Parecia coisa de filme, que a gente nunca ia ver na vida.
Bayer registrou o surgimento do tornado e acompanhou o avanço do fenômeno até precisar deixar o local às pressas:
- Fiz umas quantas gravações, até que tive que fugir - relata.
O tornado ocorreu por volta das 18h25min, associado a uma supercélula, um tipo de tempestade que tem uma corrente ascendente giratória. O Brasil não costuma ser associado a tornados, mas há registros com mais frequência do que se imagina.
A Região Sul do país, sobretudo o Rio Grande do Sul, é apontada como a segunda área mais propensa à ocorrência desses fenômenos no mundo. O território fica atrás apenas da porção central dos Estados Unidos.
Granizo provoca danos em centenas de casas
Fortes chuvas de granizo também atingiram diferentes municípios do Estado durante a noite de terça-feira e a madrugada de ontem. Na Serra, houve registro do fenômeno em cidades como Caxias do Sul, Canela e Gramado. Apesar do volume de gelo em alguns pontos, até o momento não há registro de feridos.
Já na Região Central, houve danos em mais de 200 residências nos municípios de Quevedos e Capão do Cipó. Em Capão do Cipó, mais de cem casas foram atingidas, principalmente no centro da cidade e na localidade de Carovi.
Em Quevedos, ao menos cem residências registraram danos e cinco famílias precisaram deixar suas casas, sendo acolhidas por parentes. Nas duas cidades, as prefeituras seguem contabilizando os prejuízos e distribuindo lonas para as famílias afetadas.
Mais de 10 municípios do norte e do noroeste do Rio Grande do Sul registraram o fenômeno. Entre as localidades mais afetadas está a cidade de Ubiretama, no Noroeste, onde pelo menos 350 casas foram danificadas pela chuva de pedra, assim como duas escolas e um prédio público.
- Temos 2,1 mil pessoas aproximadamente que foram atingidas. E essas pessoas, nesse momento, estão sendo transferidas para um abrigo - afirmou em entrevista ao programa Estúdio Gaúcha, da Rádio Gaúcha, na noite de terça, a comandante da 2ª Companhia de Bombeiro Militar em Santa Rosa, Lisiane Cassol dos Santos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário