31 de Julho de 2026
CARPINEJAR
Cabeça de porongo
Existe uma expressão muito nossa: "me virei o mate!". É o equivalente ervateiro ao "me caiu os butiás do bolso". Trata-se de raiva, mortificação e espanto.
Não há quem não tenha exclamado a frase diante de uma trapalhada generalizada com a bebida típica. Você está chimarreando na maior tranquilidade e, de repente, tropica na cuia cheia, perturbando o seu momento de paz.
Pode se queimar. Pode emporcalhar seriamente o ambiente.
Quem nunca fez lambança? Quem nunca se desequilibrou? Maculou o sofá, que assumiu uma coloração vintage esverdeada? Entupiu o teclado, espalhou os grãos pelo estofado do carro, sujou o uniforme no meio do serviço sem a possibilidade de trocá-lo imediatamente, transformou cachorros e gatos em miniaturas do Incrível Hulk?
Derrubar um chimarrão é um pequeno luto. Perde-se o rumo da conversa, do trabalho, das ideias. É como interromper um devaneio ou um raciocínio que jamais será recuperado. Nem tanto pelo desperdício do material, ou do tempo de preparo, mas por ferir o orgulho. Você se irrita consigo mesmo, xinga a sua patetice, porque sempre acontece em câmera lenta, parecendo que teria como evitar o acidente. Você termina nocauteando a sua serenidade. É uma apneia que antecede o ronco final.
Difícil explicar o constrangimento para os que não são daqui. Atinge a nossa condição de gaúcho, o nosso sentimento perfeccionista com os rituais.
É mais ofensivo ao nosso espírito do que espatifar um prato de comida recém-servido no chão, do que derramar a xícara de café em cima de documentos, do que quebrar um copo, do que ver o sorvete despencar do cone na primeira lambida, do que fechar a aba de um texto longo sem salvá-lo.
Enquanto a térmica é silenciosa, segura e discreta, o porongo, que depende de um suporte para se firmar na mesa, costuma ser bagunceiro e anárquico. Uma página nas redes sociais, @matesderrubados, administrada por um casal da região metropolitana de Porto Alegre, aproveitou o nosso peculiar pânico e vem obtendo acolhida calorosa com as videocassetadas de seus seguidores.
Os criadores, que preferem manter o anonimato, contam que a iniciativa surgiu com um objetivo simples: rir dos tradicionais desastres domésticos. Inclusive, os vizinhos argentinos e uruguaios se sentiram entusiasmados em participar da gincana.
Eu coleciono livros manchados de erva. Receberam um banho da minha afoiteza.
Além do histórico de vexames na cama, estragos no tapete persa da mãe e no computador, minha grande façanha foi no Grêmio Náutico União. Inventei de dar uns goles no chimarrão na borda da piscina, jurando que era um drinque, mas ele escorregou de minhas mãos absolutamente molhadas, interditando o lugar e acabando com a calmaria etérea dos banhistas. Observou-se uma cena cinematográfica: o mate boiando, aprendendo a nadar.
Talvez seja por isso que ninguém goste de lavar a cuia, retirar o montinho antes de empedrar, cavoucar o recipiente com extrema atenção. Bate o medo de errar a pontaria do lixo e conspurcar a cozinha. Pior não é morrer com a cuia na mão, mas deixar a cuia morta para algum familiar limpar. É o cúmulo do descaramento e do egoísmo.

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