sábado, 24 de outubro de 2026



24 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

A guitarra silenciada

Eu confessei, nesta coluna, que não me dou bem com encomendas. O trauma é justificado. Com a minha filha, cometi uma gafe irreparável.

Aos 17 anos, Mariana se mudou de Brasília para Porto Alegre e me confiou uma missão: trazer sua guitarra. Eu iria palestrar na capital federal.

Falei, claro, que contasse comigo. Mesmo sabendo que minha estada seria apertada, de um dia para o outro. Mesmo sabendo que eu não retornaria diretamente para Porto Alegre, ainda faria uma apresentação em Maceió.

Desprovido de experiência com um instrumento, sequer tinha noção se deveria despachar ou não - minha vida de artista no microfone se resume à palavra. Eu jurei que se tratava de uma chance de ganhar alguns pontos na paternidade, no meio da contestação da adolescência. Substituiria o débil discurso pela veemência do gesto.

Para não errar, eu me programei para recuperar o seu tesouro antes do evento. Assim não correria riscos de deixar para a última hora e arcar com imprevistos. Levei a guitarra para o hotel. Ela dormiu ao meu lado. Transportei a guitarra a bordo. Cuidava para que ninguém a danificasse em seu estojo. Eu a embalava nos braços.

Carregava a minha filha novamente no colo - era essa a minha sensação. Nunca me preocupei tanto com um objeto, para não estragá-lo, para não perdê-lo de vista.

Eu me tornei um guardião implacável. Ao extremo de almoçar e jantar no quarto. Ao extremo de conversar com a Fender Stratocaster como se fosse meu cupido: que entoasse depois para Mariana, com suas cordas, com suas canções, o amor que sinto por ela. Que me ajudasse a ser um pai mais próximo, afinado e presente.

Fiquei antissocial na viagem. Só desejava ir para casa e entregar a incumbência sã e salva. Na verdade, ansiava receber um abraço e um beijo de recompensa, talvez um "eu te amo" que a gratidão arranca do mais fundo da palpitação.

Quando pousei em Porto Alegre, finalmente relaxei. Nada mais me tiraria os méritos. Eu me dirigi até o carro. Abri o porta-malas, coloquei minha bagagem e parti para o lar, para rever minha filha com o sacerdócio do resgate cumprido.

Eu ria sozinho, eu cantava as músicas do rádio, eu vibrava com o sucesso da operação. Ao desembarcar na garagem, acabei tomado de um pânico: cadê a guitarra? Minhas malas se encontravam ali, mas a guitarra não.

Tonteei de nervoso. Numa velocidade impressionante de raciocínio, rebobinei os pormenores da minha chegada, quadro a quadro.

Já passaram mais de quinze anos e não sei explicar o que aconteceu. Eu observei Mariana me esperando na janela. Sem comentar coisa alguma, entrei no veículo, engatei a ré e voei de volta para o aeroporto.

Havia esquecido a guitarra no alambrado do estacionamento, perto de uma lixeira. Não a pus no bagageiro. Simplesmente permaneceu de pé, encostada na grade. Não estava mais lá. Alguém pegou. Alguém acreditou num estranho descarte. Nem posso chamar de furto.

Meu coração é que foi roubado. Mariana me perdoou, eu jamais. _

CARPINEJAR

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