sábado, 24 de outubro de 2026


Por que o mundo olha para a eleição do Brasil

Maior país da América Latina, sétimo mais populoso do mundo e a décima economia do planeta, o Brasil, que irá às urnas, é observado com lupa pela chamada comunidade internacional. Na mão do eleito, seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT), estará o poder de desenhar uma política externa que irá impactar as relações políticas e comerciais para lados diferentes.

O Brasil é campo de batalha ideológica e geopolítica. A eventual eleição de Flávio será vista como uma vitória de forças anti-establishment (chamada de direita populista ou extrema direita a depender dos analistas), representada por Donald Trump, nos EUA, com aliados como Benjamin Netanyahu, em Israel, e partidos como Vox, na Espanha, Alternativa para a Alemanha (AfD), da Alemanha, Reunião Nacional, da França, e o Fidesz, da Hungria. São líderes que desqualificam as instituições multilaterais, como a ONU, a OMS e os acordos climáticos.

A eventual reeleição de Lula significará, aos olhos do mundo, a continuidade de uma política externa alinhada aos princípios do sistema multilateral.

Essas diferenças de pontos de vista se manifestam, na prática, em agendas também diversas na forma de abordar conflitos, disputas e questões geopolíticas. 

Principais tópicos

A coluna reúne os pontos que podem sofrer impactos a depender de quem for eleito neste domingo

EUA x China

O Brasil está no centro de uma disputa entre as duas potências que concorrem pela hegemonia da nova ordem global. A China é o maior parceiro comercial brasileiro. Os EUA são o segundo, mas o principal investidor estrangeiro no país. Por isso, o Brasil precisa preservar boas relações com as duas potências, mesmo diante da rivalidade entre Washington e Pequim.

Lula defende uma política externa de diversificação das alianças, com fortalecimento dos Brics e das relações com a China, sem romper com Washington.

Flávio propõe maior alinhamento político com os Estados Unidos de Donald Trump, especialmente em segurança e comércio, mas também reconhece a necessidade de preservar a relação econômica com os chineses.

O problema é que os interesses de Washington e Pequim estão em conflito. Aproximar-se politicamente de um lado pode provocar dificuldades com o outro. Manter a autonomia é desafio tanto para Flávio quanto para Lula.

América Latina

Os vizinhos estão de olho porque quem vencer vai manter um contrapeso de esquerda ou ampliar a maioria de governos de direita. Se a esquerda mantiver a presidência, o Brasil segue como principal governo de esquerda do continente, ao lado do Uruguai de Yamandú Orsi. Se passar para a direita, o Brasil se juntará a Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia em uma configuração regional amplamente comandada pela direita. Para Donald Trump, que vê a América Latina como zona de influência, a eleição é fundamental. Uma vitória de Flávio favorece sua agenda, reduzindo a ação da China e da Rússia na América Latina. A vitória de Lula oferece uma resistência.

Relações com o Mercosul

O bloco econômico do Cone Sul sempre foi refém do desalinhamento ideológico entre os presidentes de cada país. A eleição vai influenciar a maneira como o Brasil abre sua economia e negocia acordos comerciais. Um exemplo é o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja parte comercial começou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio de 2026. O próximo governo terá papel importante na implementação das regras e no aproveitamento das oportunidades de exportação. Lula defende o fortalecimento do Mercosul como plataforma de negociação internacional. Flávio propõe maior flexibilidade para o Brasil estabelecer acordos comerciais, inclusive bilaterais.

Mudanças climáticas

O Brasil abriga a maior parte da Floresta Amazônica, fundamental para a biodiversidade e regulação do clima. Também é uma potência agrícola e energética. Isso faz com que decisões sobre desmatamento, combustíveis fósseis, agricultura e transição energética repercutam no mundo. Lula colocou a agenda climática entre as prioridades de sua política externa. Flávio Bolsonaro enfatiza o aproveitamento econômico dos recursos naturais, do agronegócio e critica exigências ambientais consideradas excessivas. O mundo se pergunta se o Brasil continuará exercendo protagonismo nas negociações e como conciliará conservação ambiental e desenvolvimento.

O Brasil na ordem mundial

O Brasil é integrante dos Brics, do G20 e de outras organizações multilaterais. Sua relevância também decorre da capacidade de dialogar com líderes que estão em lados opostos. Lula procura ampliar a influência dos países emergentes, defendendo reformas na governança internacional e o fortalecimento das instituições multilaterais. Flávio Bolsonaro questiona a atual orientação política dos Brics e prefere dar mais ênfase a relações bilaterais, sobretudo com EUA, Israel e Argentina. Com Lula, o Brasil continuará atuando como interlocutor entre diferentes blocos. Com Flávio, haverá preferência por alinhamentos com posições adotadas pelos EUA.

Melhor nível de debate

Graças às regras, o debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, obrigou os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) a versarem sobre propostas e os constrangeu a não fazer ataques e se reduzirem à linguagem de 5ª série. O show de horrores visto na Band, no domingo, foi, senão evitado, diminuído em muito. Houve propostas desta vez.

Na apresentação do mediador, o jornalista César Tralli, Flávio foi mais "imagético", postando-se sorrindo tão logo seu nome foi anunciado. Lula estava de cabeça baixa. Em um debate televisivo, tudo importa, principalmente a imagem. Ao contrário do debate da Band, Flávio usou gravata, o que demonstra solenidade. Lula optou por não vestir o acessório, a fim de passar uma imagem próxima do "cidadão comum".

Mas voltemos ao formato: as regras da Globo impediam que o adversário aparecesse atrás do rival no momento de fala do segundo. Foi fundamental. Não só porque isso tira a concentração de quem está falando. A tática usada por Flávio na Band prejudicou, principalmente, quem assistia, Sua Excelência, o Eleitor, quem realmente deveria ser o foco de quem almeja governar o Brasil.

Lula estava mais focado do que no debate anterior, mas a idade pesa e houve problemas de dicção. Flávio estava mais imagético e preocupado com sua postura. Mas foi capacitista ao dizer "nove dedos", logo no primeiro bloco. Quando foi sorteada a Região Sul, o senador errou feio ao fazer referência "a Sarandi", o bairro porto-alegrense, um dos mais atingidos pela enchente de 2024, como se fosse uma cidade. Demonstrou não conhecer Porto Alegre. 

No mais, tentou passar a imagem de que um eventual governo com alinhamento direto com o governador eleito Luciano Zucco seria favorável ao Estado. Lula demonstrou conhecer mais o Brasil, surfou nos detalhes.

Lamentável que ambiente e sustentabilidade tenham aparecido pouco quando o Norte foi sorteado. Flávio ignorou. Lula puxou o assunto tardiamente. O formato e as regras da Globo salvaram o debate e os brasileiros da repetição do circo de horrores de uma semana atrás. _

Pantera Cor-de-Rosa nos protestos em Paris é IA

Desde o início das manifestações em Paris, uma série de imagens circula pela internet. Algumas, em especial, mostram supostamente uma pessoa fantasiada de Pantera Cor-de-Rosa participando dos protestos, vandalizando espaços públicos e até sendo presa.

Contudo, trata-se de imagens geradas por inteligência artificial.

A coluna utilizou três sistemas de identificação para checar se os arquivos de imagem foram criados ou alterados por inteligência artificial.

Segundo as três plataformas, a imagem da Pantera Cor-de- Rosa sendo presa por dois policiais foi gerada por IA. Uma delas identificou até que a peça foi criada pela OpenAI. Já os outros dois sistemas mostraram que a foto contava com índices superiores a 99% de chances de serem geradas pela tecnologia.

A cena do jato de água das forças de segurança também foi confirmada como IA, com índices de 86% e 95% de probabilidade de inteligência artificial. 

INFORME ESPECIAL 

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