
27 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS
Tarefas que se impõem para Lula 4
A façanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de vencer uma eleição improvável justifica as comemorações efusivas do vitorioso e de seus apoiadores. Mas, diante da premência de medidas que sinalizem como será o seu quarto mandato, convém que o incumbente reconduzido arregace as mangas desde já. O fato de estar no poder faz com que Lula deva agir logo para enfrentar os grandes desafios postos ao país, alguns deles agravados pelo próprio governo.
A prioridade de Lula 4, ainda que o presidente resista em admitir, deve ser acenar com maior disciplina fiscal para estabilizar a dívida pública, hoje em trajetória de alta e em nível equivalente a 82,2% do PIB. Caso insista em negar o problema, crescem as chances de se materializar um cenário de manutenção do juro em patamar asfixiante, de inflação pressionada e de risco de recessão. A busca por uma solução será mais espinhosa pela gastança promovida por Lula para se reeleger. O saco de bondades tornará necessário remanejar quase R$ 40 bilhões apenas no orçamento de 2027.
O resultado de domingo pegou o mercado financeiro no contrapé. A consequência, ontem, foi a disparada do juro futuro e a alta de 8% do dólar. O derretimento do índice Ibovespa levou a B3 a acionar circuit breaker pela primeira vez desde 2020. É dever do governo acalmar os investidores, indicando maior responsabilidade no quarto mandato, ainda que controle de gastos leve a frustrar promessas que fez. A alta do juro e do dólar impacta diretamente a saúde financeira das famílias e das empresas.
São muitas as tarefas à frente. Entre elas, a contribuição para uma reforma do Judiciário e a maior participação federal no combate à criminalidade.
Lula terá ainda a última chance de fazer gestos pela pacificação política e social. Fica a expectativa de que o petista honre o compromisso assumido ainda no domingo de governar para todos os brasileiros e não apenas para os que o escolheram. Para isso, é preciso a humildade de compreender as razões de ter sido reeleito. Lula venceu mais pela rejeição maior ao adversário do que pelas virtudes do seu governo, mal avaliado pela população ao longo dos últimos quatro anos.
No discurso da vitória, o presidente enalteceu seu vice, Geraldo Alckmin, que se mostrou leal ao petista no mandato que se encerra e competente como ministro do Desenvolvimento, área em que cumpriu papel relevante de interlocução com o setor produtivo. Merece ser mais valorizado.
Será trabalhoso ainda para o Planalto formar uma base estável no Congresso. As grandes bancadas eleitas pelo PL apontam para uma oposição empoderada. Caberá a Lula a habilidade de articular algum tipo de aliança com o centrão. O desafio será assegurar a governabilidade em termos republicanos, sem apelar apenas para o toma lá dá cá.
Seria importante também que o presidente compreendesse as novas aspirações dos brasileiros, especialmente os jovens. Os nativos digitais, ao contrário da geração de Lula, valorizam mais o empreendedorismo e a liberdade profissional e menos o emprego tradicional com carteira. Lula ganhou a oportunidade de corrigir os erros que quase o levaram à derrota e formar um novo governo mais arejado, politicamente amplo e que olhe para o futuro. Ganha o Brasil se o presidente não desperdiçar o último voto de confiança que recebeu.
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