quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Meus sentimentos

Juca Kfouri é um mestre da crônica esportiva. Um dos últimos bastiões da escrita limpa, da clareza impecável e do humor literário. Conserva o legado de Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Antônio Maria, Sérgio Porto. Traduz nossa louca torcida, nossas dúvidas, nossas incertezas, além dos esquemas táticos e das escalações.

Aos 76 anos, vô coruja de duas netas, corintiano da velha guarda, nunca aposentou a pena. Permanece escrevendo no UOL e na Folha de S.Paulo, em colunas virais que mudam opiniões, dissipam enganos e metem pau na cartolagem - a Máfia da Loteria Esportiva foi derrubada por suas mãos.

Mas eu venho aqui para prestar meus pêsames. Sua dor é incomunicável. Morreu sua filha, Camila Kfouri, de 48 anos, na segunda-feira, uma dos quatro filhos.

Costumo dizer que, quando nasce um filho, você tem medo de morrer e, quando morre um filho, numa inversão abrupta do ciclo da existência, você tem medo de viver. Nem ouso profanar o santuário de seu sofrimento com minhas defectíveis palavras, só desejo que ele saiba que eu me importo.

Conhecida carinhosamente como Camiloca, Cam e Joaninha no círculo íntimo, Camila era psicoterapeuta. Atuou também como produtora na Conspiração Filmes e como DJ de música brasileira.

Aos seis anos, ela presenciou o avô paterno ser baleado durante um assalto em frente à casa da família. Segundo Juca, Camila arcou com doenças e sequelas desde então. Não há sentido nesta hora aguda. Até para aqueles que trabalham diariamente para nos dar sentido, como meu amigo Juca.

Eu me lembro dos versos cortantes do maranhense Odylo Costa, do livro Cantiga Incompleta, após o jovem filho ser assassinado no bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro:

"Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te

me tire o gosto do terreno barro

e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,

entre rastros de estrelas, a lembrança

dos teus humanos olhos deslumbrados".

Difícil manter a consciência ou o arrebatamento, porque é normal que a saudade faça com que não andemos adiante, e sim recuemos a um lugar imemorial em que todos os afetos ainda estão vivos, na possibilidade imaginária de encontrar um colo ou uma frase completa.

O luto de um filho, de nossa criança interior fora de nós, é o maior flagelo do mundo. Tanto que não existe nome para quem você se torna, tanto que não há como alfabetizar o rasgo no peito. Quem perde um marido ou esposa é viúvo ou viúva. Quem perde os pais é órfão.

Na morte de seu filho, você se mistura ao nada com tudo febril por dentro, sangrando sem parar, sem chance de cicatriz. É a única ferida que jamais se fechará na pele.

Amarga-se o purgatório de não contar com batismo para aquilo que se sente. Não se explica uma ausência. Juca desabafa:

"Perdi hoje uma das paixões de minha vida. Sinto na carne a dor que imaginava ser a maior de todas".

Em seguida, ele confessa que não enxerga mais a estrada, somente sua bagagem:

"Não faço ideia de como será daqui para frente diante de tamanha agressão ao ciclo natural da vida. Só sei que a levarei comigo até o fim". Juca, ofereço meu silêncio próximo e atento. 

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