Por que a Flórida se tornou reduto do bolsonarismo
Não é pelo Mickey nem pelas belas praias que a Flórida tornou-se um reduto bolsonarista.
Nos últimos anos, o Estado americano para onde Flávio Bolsonaro (PL) fugiu consolidou seu papel de farol para a direita populista nas Américas, inspirando lideranças pró-Donald Trump no continente. Devido às poderosas e conservadoras diásporas cubana e venezuelana, os dois senadores da Flórida, Marco Rubio e Rick Scott, do Partido Republicano, têm enorme influência sobre a política externa americana quando o assunto é América Latina.
Rubio é hoje secretário de Estado e principal artífice da agenda Trump de contenção do "comunismo" (leia-se China e aliados) na América Latina.
Na política doméstica, depois de anos sendo considerado um importante "Estado pêndulo", a Flórida firmou-se como reduto conservador, a partir da vitória de Trump em 2016. Depois de eleito, transferiu sua residência oficial, Mar-a-Lago, a "Casa Branca de Inverno", para Palm Beach.
Mas a história "conservadora" da Flórida começa especialmente com a Revolução Cubana de 1959. Com a chegada de Fidel Castro ao poder, milhares de cubanos emigraram para os EUA, particularmente para Miami. Muitos eram opositores do governo revolucionário, empresários e famílias que perderam propriedades ou deixaram o país.
Essa comunidade ajudou a consolidar uma cultura política anticomunista, que se aproximou do Partido Republicano, durante a Guerra Fria.
Lar de mais de 110 mil brasileiros, a Flórida é uma das principais comunidades brasileiras nos EUA. Muitos cidadãos de alto poder aquisitivo são atraídos pelo mercado imobiliário do Estado, com investimentos e residências em Miami ou Orlando. Há também a proximidade cultural e o senso de comunidade.
Vida dos brasileiros nos EUA
A presença brasileira tornou possível formar redes de empresas, igrejas, associações e meios de comunicação em português. Essas estruturas também permitem mobilização eleitoral e circulação de mensagens políticas - Eduardo Bolsonaro e, agora, Flávio, só conseguem atenção da mídia e reverberar seu discurso de perseguição graças à imprensa que transmite para a comunidade brasileira no Estado e a influenciadores de direita que ali vivem - muitos, inclusive, ligados ao movimento Maga (Make America Great Again), de Trump. Jair Bolsonaro também foi para a Flórida para não passar a Presidência a Lula, em 2022. E é de lá que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro tem articulado com interlocutores do governo Trump críticas ao STF e ao Planalto.
O trumpismo contribuiu para essa transformação por meio da mobilização de eleitores conservadores, especialmente em torno de imigração, religião, economia e críticas à esquerda.
Os resultados eleitorais de domingo mostram a força do bolsonarismo por lá. Flávio obteve mais de 18 mil votos em Orlando e Miami, contra cerca de 5 mil de Lula no segundo turno. _
A ida do senador para os Estados Unidos abre cenário para que ele possa solicitar a medida diplomática em solo americano.
1 | O QUE É ASILO POLÍTICO?
O asilo político é uma proteção jurídica concedida por um Estado a um indivíduo que sofre perseguição política em seu país de origem. Trata-se de um ato facultativo e soberano: o país receptor não tem a obrigação de concedê-lo. A perseguição deve ter caráter estritamente individual ou ser direcionada especificamente àquela pessoa.
2 | Qual a diferença entre asilo e refúgio?
Refúgio destina-se a grupos ou indivíduos que fogem de perseguição por raça, religião, nacionalidade, pertencimento a grupo social ou opiniões políticas, além de situações de guerra ou violação de direitos humanos. Já o asilo político é focado estritamente em crimes ou perseguições políticas.
3 | Qualquer pessoa pode pedir asilo político?
Qualquer pessoa que se considere perseguida politicamente pode solicitar a proteção. Cabe ao requerente comprovar documentalmente a perseguição.
4 | DE QUEM É A DECISÃO?
A decisão de conceder ou negar é exclusiva e soberana do país receptor, independentemente da oposição ou de eventuais protestos do país de origem.
Roteiro Zambelli
Há semelhanças e diferenças entre as fugas do senador Flávio Bolsonaro e da ex-deputada federal Carla Zambelli. Ambos buscaram fugir do alcance judicial brasileiro, usando como rota a Argentina e, depois, os Estados Unidos.
Mas há diferenças nos casos. Flávio é investigado (não há condenação criminal) por suspeitas por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.
Sobre Zambelli pesava uma condenação judicial e pena prevista de 10 anos de prisão por invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e falsidade ideológica. Depois dos EUA, Zambelli seguiu para a Itália. Ela foi presa em Roma, mas aguarda pedido de extradição em liberdade. _
Manual para entender a eleição em Israel
A primeira eleição em Israel desde os atentados de 2023, realizada ontem, é um referendo para Benjamin Netanyahu. Se deve ou não permanecer no poder. Ele é o mais longevo primeiro-ministro do país e acumula 19 anos em três ocasiões diferentes. A última eleição ocorreu em 2022.
O processo é diferente do Brasil. O voto é em cédula e a apuração deve seguir até sexta-feira.
Como estamos falando de uma eleição parlamentar, os eleitores votam em lista para o parlamento, a Knesset. O Legislativo tem 120 cadeiras. Para ter o direito de indicar o primeiro-ministro, um partido deve conquistar pelo menos 61 cadeiras, algo bastante raro, especialmente devido à fragmentação política - o arco ideológico de Israel, única democracia do Oriente Médio, é largo, com legendas que representam da extrema esquerda à extrema direita, passando por ultraortodoxos, árabes e centro. Logo, são necessárias coalizões.
Essa dificuldade para formar maioria fez com que Israel realizasse cinco eleições em três anos, até que Netanyahu conseguisse formar uma aliança que lhe deu uma pequena maioria.
Há duas forças com chances de vitória. Netanyahu, do Likud, e a oposição do ex-chefe do Estado- Maior das Forças de Defesa de Israel Gadi Eisenkot, do recém-formado Yashar. _
Guerras recentes
Em resposta aos atentados de 2023, Netanyahu iniciou uma guerra total contra o Hamas na Faixa de Gaza. O governo diz ter neutralizado o grupo, mas a facção extremista, ainda que tenha sofrido baixas e reduzida sua capacidade militar, continua operacional. O mesmo ocorre com o Hezbollah no Líbano. No Irã, os ataques de EUA e Israel levaram à redução da capacidade nuclear do país, mas não tiraram os aiatolás do poder.
7 de Outubro
Gadi Eisenkot, o candidato anti-Netanyahu, perdeu seu filho em dezembro de 2023, na guerra, e dois sobrinhos. Seu discurso está marcado pelo luto dos israelenses no pós-atentado. Exige que haja investigação sobre falhas na inteligência que facilitaram o 7 de Outubro. Acredita que Netanyahu deva responder por essas falhas.
Serviço militar
O tema é sensível em Israel, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. Os ultraortodoxos são dispensados de servir, posição que Netanyahu defende. Eisenkot defende que essa regra seja alterada.
QUESTÃO PALestina
Ganhe quem ganhar, a chamada solução de dois Estados seguirá enterrada. Não há qualquer perspectiva de formação de um Estado Palestino. O que há são nuances de abordagem.
Futuro de Netanyahu
Se Netanyahu perder e deixar o poder, corre o risco de, em breve, ser preso. Ele é réu em três casos de corrupção e fraude. Externamente, há um mandado de prisão internacional que pesa sobre o primeiro-ministro por crimes de guerra e contra a humanidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário