quinta-feira, 29 de outubro de 2026


A eleição e o coach

Não foi desta vez que veremos Pablo Marçal como ministro da Prosperidade. Nem no STF, onde prometeu "tocar o terror". Na reta final, o coach virou reforço da campanha de Flávio Bolsonaro e, em vez de somar, fez o que sabe: ofender. Chamou os eleitores de Renan Santos de esquisitos, enfeitiçados por uma seita, e sugeriu que fizessem do voto o que quisessem.

O currículo é longo. Começou aos 18 anos, preso por participar de uma quadrilha que fazia fraude bancária pela internet. Em 2024, candidato a prefeito de São Paulo, levou uma cadeirada de Datena e divulgou um laudo falso contra Boulos na véspera da votação, dizendo que era usuário de cocaína. Saiu inelegível. Agora em outubro, precisou ser resgatado do rio Paraná, para não se afogar, por entrar em uma prova da qual se orgulhou ter feito pouca preparação.

O coach vende a ideia de que a vida é questão de atitude: se você não prosperou, faltou mentalidade. É o negócio perfeito. O cliente paga para aprender a vencer e, se não vence, a culpa é dele. Ilusão é mercadoria sem devolução, porque o defeito está sempre no comprador. Some-se o gozo de estar ao lado de um mestre que parece saber. Em tempos de precariedade, é um alívio acreditar que o desamparo é falta de método.

Ouvi duas piadas sobre Marçal. Na primeira, ele vê uma estrela cadente e ela lhe faz um pedido. Está tudo ali sobre o ego. Na segunda, quando criança, ele primeiro levava os pais ao trabalho e depois ia sozinho para a creche. Está tudo ali sobre o individualismo: não deve nada a ninguém, nem aos pais, nem à escola, nem aos professores, ele se fez sozinho, o coletivo que o rodeou e moldou nunca conta.

A psicanálise tem pouca simpatia pela autoajuda. Freud ensinou que o eu não é senhor em sua própria casa. O coach faz o contrário. Trata o sujeito como gerente de si mesmo, a quem bastaria querer com força. Só que ninguém sabe ao certo o que quer, e o que quer costuma sabotar o que diz querer. O sintoma é uma mensagem que pede escuta, para o coach, é falta de disciplina que pede ordem. O analista recusa o lugar de mestre que lhe oferecem, enquanto o coach faz desse lugar o seu negócio. Quem chega pedindo uma resposta recebe uma, e nunca é a sua. 

MÁRIO CORSO 

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