quinta-feira, 29 de outubro de 2026

29 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Flávio, entre o delírio e a desfaçatez

São delirantes do início ao fim as manifestações do senador Flávio Bolsonaro divulgadas nesta quarta-feira, dia em que chegou fugido aos Estados Unidos. Em uma primeira versão, mais insolente, autoproclamou-se "o verdadeiro presidente eleito do Brasil". Em outra, com um leve recuo, mas em que pouco diminuiu o grau de desfaçatez, considera-se apenas "o líder do Brasil".

A intitulada Carta à Nação Brasileira é desconectada da realidade e de extrema gravidade pelo incitamento à agitação política e social no país que ele deixou às escondidas na noite de terça-feira. Espera-se que seus aliados demonstrem responsabilidade e se dissociem da desestabilização que o senador quer criar no Brasil ao teimar em não admitir a derrota limpa no segundo turno da eleição presidencial, no último domingo.

Aguarda-se também que seus eleitores de boa-fé repudiem a manobra do senador. Convém lembrar o infame 8 de janeiro de 2023, quando a invasão e a depredação dos prédios dos três poderes, em Brasília, levaram à prisão milhares de brasileiros comuns que acreditaram nas teorias conspiratórias criadas pelo bolsonarismo.

A atitude de Flávio apenas confirma a vocação golpista da família Bolsonaro. Ao que parece, não foi suficiente a condenação e a prisão do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentar uma ruptura institucional no país após perder a eleição para o Planalto em 2022. O clã segue a dobrar a aposta, pouco importando os fatos e evidências. Para a família, apenas os pleitos que vence são válidos. O próprio PL, o seu partido, reconheceu o resultado. O governador reconduzido de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também disse nesta quarta que a eleição é página virada.

São totalmente falsas as alegações do senador de que viu no domingo uma fraude eleitoral se materializar diante de seus olhos. O resultado foi certificado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro para o STF por articulação protagonizada pelo próprio senador. Já foi demonstrado, de forma transparente, que o prolongamento do horário de funcionamento das seções eleitorais acrescentou apenas 34 mil votos, 0,03% do total.

Se é verdade que o ministro do STF Alexandre de Moraes agiu mal ao deferir pedido da Polícia Federal ainda no domingo para apreender o passaporte do senador e proibi-lo de deixar o país, também se torna cada vez mais cristalino que a decisão foi a desculpa perfeita para Flávio pôr em marcha um plano para se evadir do Brasil em caso de derrota. Ao fim, a barbeiragem veio a calhar para comportar-se de forma pusilânime. O homem que poucas horas antes bradava corajosamente que lideraria a oposição e negava a intenção de fugir escapou do Brasil na primeira oportunidade. Abandonou seus quase 60 milhões de eleitores.

Flávio Bolsonaro foi embora às pressas não por se considerar um perseguido político, como sustenta, mas por saber que em breve não teria a proteção da imunidade parlamentar, enquanto avançam investigações contra ele por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. São suspeitas graves, amparadas por indícios fortes. Se firmeza fosse uma de suas virtudes, permaneceria no Brasil para esclarecer os fatos nos quais está implicado e para se defender. Voltou a ser valente - para os incautos - apenas bem longe do país, na companhia do irmão, Eduardo Bolsonaro, que pelos interesses da família bateu em retirada antes para conspirar contra a economia brasileira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário