
24 de Outubro de 2026
MARCELO RECH
A segunda-feira é decisiva
É manhã de segunda-feira, 26 de outubro de 2026. O vencedor da eleição de domingo entrou pela noite em comemorações. Por isso, o presidente que tomará posse em 5 de janeiro acordou mais tarde, mas já não terá um segundo de descanso. A campanha foi tão disputada, e tão repleta de promessas mirabolantes, que o vencedor será cobrado, questionado e contestado a partir desta segunda-feira.
Sua primeira missão é mais complexa ainda do que arrumar dinheiro para fazer valer a promessalhada de palanque. Sua tarefa prioritária é juntar os cacos da nação. O fosso entre as duas metades - a esquerda e a direita - apenas se aprofundou nos últimos anos. As torcidas de Lula e dos Bolsonaro veem os apoiadores do outro lado como iludidos, na melhor das hipóteses, ou degradados morais, no mais das vezes. Nestes termos, não há entendimento possível se o presidente e suas forças políticas não absorverem as motivações alheias para detestá-los com tanto ardor.
O racha do país em blocos antagônicos vai bem além do problema político. Ele separa famílias, destrói amizades e apaga consensos mínimos em torno de agendas primárias, como a convivência em harmonia e o fato de que a nação deveria estar acima de questões eleitorais transformadas em batalhas de vida ou morte. Se não houver racionalidade, o futuro é sombrio. Seja quem for o vencedor, a partir de 6 de janeiro o governo tem tudo para dar errado do ponto de vista econômico, porque os dois candidatos prometeram o céu enquanto flertavam com o inferno fiscal. Quando essa conta não fecha, impopularidade, frustração popular e crises sociais são apostas certeiras.
Lá fora, embora as campanhas se mantivessem à margem do que ocorre no Exterior, a situação não ajuda. O mundo desenvolvido está atolado em dívidas, o extremismo avança, protestos violentos explodem em razão do desalento dos jovens e as guerras ameaçam se conectar para desembocar em conflito de alcance internacional. O Brasil pode tirar proveito da instabilidade ou ser tragado por ela. Depende de como o vencedor se portar.
Ele precisa agir rápido para desmontar rancores e lidar com os previsíveis desencantos. Terá de construir pontes e não alijar os adversários em um desterro moral sem saída. Para esfriar o ânimo bélico, ajudaria refrescar a memória do país dividido que o inimigo de hoje muitas vezes é o aliado de amanhã, como demonstram as forças que se uniram em torno de Lula e Flávio neste segundo turno. O discurso da vitória, ainda no domingo, será um prenúncio, mas é pelo comportamento do vencedor a partir desta segunda-feira que saberemos o que nos espera ali na frente.
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