sexta-feira, 4 de julho de 2014


04 de julho de 2014 | N° 17849
ARTIGOS - João Carlos Möller*

BUCOLISMO E DESENVOLVIMENTO

Travessias de balsas podem ser realizadas em Charqueadas e São Jerônimo, distantes menos de 50 quilômetros de Porto Alegre. Essas duas cidades situam-se sobre a margem direita do Rio Jacuí e suas populações não têm acesso à margem esquerda, a não ser por balsas, que não operam em dias com neblina. Este fato não seria tão inusitado se do outro lado do Jacuí, a exatos 25 quilômetros de Charqueadas, não estivesse situado o Polo Petroquímico de Triunfo, que confere ao município de mesmo nome o maior PIB per capita do Rio Grande e um dos maiores do mundo.

Por falta de uma ponte ligando as duas margens do Jacuí nessa região do Estado, as populações de Charqueadas, de São Jerônimo e da bucólica General Câmara ficaram sem acesso direto ao Polo e a sua variada gama de empregos. Além disto, fica difícil entender a inexistência de uma ponte sobre o Jacuí, permitindo a ligação rodoviária do Polo diretamente ao entroncamento das BRs 290 e 116, em Eldorado do Sul, e daí para o Porto de Rio Grande. Essa providência por certo desafogaria a BR-386 e as pontes sobre o estuário do Guaí-ba, reduzindo acidentes, engarrafamentos e os mais variados transtornos diários. Esse trajeto teria não mais que 20 quilômetros de extensão.

Que estranhos e antissociais interesses existem por trás da decisão de não construir uma ponte sobre o Jacuí nessa região? A quem interessaria manter cativa a mão de obra existente nessas três cidades e não submeter-se à concorrência das inúmeras empresas que constituem o Polo? Certamente, essas empresas gostariam de dispor da mão de obra de bom nível educacional situada nas proximidades, caso existisse uma ponte.

Teria sido uma decisão de Estado preservar o bucolismo das ruas de General Câmara e das travessias de balsa nos rios deste Rio Grande extremamente abençoado pela natureza, mas que não parece ter sido aben-çoado pela formação de políticos com conhecimentos razoáveis de geografia ou com noções básicas de planejamento logístico e social?

De quebra, poderia também ser explicado por que até hoje não existe transporte hidroviário de passageiros entre o centro de Porto Alegre e o Guarujá, com estações no Beira-Rio, Cristal, Ipanema etc. Tal transporte iria melhorar a vida de milhares de pessoas.


* GEÓLOGO

04 de julho de 2014 | N° 17849
VERÍSSIMO NA COPA

FATOR CAMPO CONTRA

Outro clichê do futebol é o chamado fator campo, a vantagem de um time jogar em casa, com sua torcida em maioria, diante da família e das namoradas. O fator campo corresponde a todos os nossos prazeres domésticos, da poltrona preferida ao cachorro de estimação, ou da poltrona de estimação ao cachorro preferido. Você está nos seus domínios, nos seus chinelos, e o adversário é um intruso, a ser punido pela audácia de invadir o seu mundo. Numa analogia medieval, você está no seu castelo e o inimigo tenta escalar as suas paredes. Óleo fervendo neles.

Claro que a vantagem de jogar no seu campo existe. Mas não é tão importante assim, e nesta Copa o “fator campo” adquiriu uma conotação irônica. Houve uma reversão de sentido. O fato da Copa ser no Brasil está deixando o nosso time mais nervoso do que normalmente estaria. Mais atrapalha do que ajuda. O hino cantado a capela pelos jogadores e pela torcida é bonito, é inspirador, mas os jogadores estão bradando o hino com uma ênfase meio desafiadora, como se estivessem não em casa mas sozinhos em território inimigo. O último pelotão inglês cantando God Save the Queen antes de ser dizimado pelos zulus.

Não sei como são as sessões motivacionais da psicóloga da seleção com os jogadores. Imagino que ela tente convencê-los de que eles são bons, que ninguém esqueceu como se joga futebol, que ninguém chegaria à Seleção se não fosse um vencedor etc. Mas acho que a preleção deveria se concentrar em lembrar a todos que estão entre amigos. Que estão em casa. Que o castelo é nosso e os zulus somos nós.


É verdade que estar “em casa”, para grande parte dos jogadores em ação nesta Copa, incluindo os brasileiros, significa estar na Europa, num país que não é o deles. A única coisa que os identifica como nacionais, para efeito de Seleção, é a certidão de nascimento. A globalização e a diáspora de jogadores ajudaram a desmoralizar o tal de “fator campo”. Hoje o coração de um jogador pode estar onde ele nasceu, mas o seu campo, os seus interesses – e os seus chinelos – estão em outro lugar.

04 de julho de 2014 | N° 17849
DAVID COIMBRA

Um homem, uma mulher e dois labradores

Havia um casal estranho no meu hotel. Todas as manhãs, quando eu chegava para o café, eles já estavam lá, sentados a uma mesa discreta, com dois cães labradores aos seus pés. Um labrador era bege; o outro, preto. Ficavam deitados quietos, imóveis, enroscados nas pernas dos donos.

Fiquei impressionado com a obediência e a calma daqueles cachorros. Fiquei também intrigado. O hotel permitia que hóspedes levassem bichos de estimação para os quartos? Ou será que aqueles dois eram moradores das cercanias e iam ao hotel para o breakfast diário? Achei mais provável a segunda hipótese.

Outra coisa chamava-me a atenção: o comportamento do casal. Eles quase não se falavam e, quando o faziam, era sussurrado, perto do inaudível. Sentavam-se eretos como mordomos ingleses e comiam devagar, tão devagar que eu saía e eles ainda estavam lá. Isso todos os dias, todos os dias.

Uma manhã, resolvi investigar mais a respeito do casal. A velha curiosidade de repórter... Dei um jeito de passar pela frente da mesa deles. Só então percebi: eram cegos! Os dois, cegos. Por isso os labradores, por isso a economia de gestos. Era óbvio. Como fui tolo...

Continuei a observá-los a cada manhã. Simpatizei com o casal. Eles conversavam pouco, às vezes eu saía sem que tivessem trocado duas frases. Será que se gostavam? Ou será que já se aborreciam um com o outro? Por algum motivo, intrigava-me saber se ainda havia ternura naquele casal.

Numa manhã de sábado, minhas perguntas foram respondidas. Havia sentado um pouco mais perto deles do que de hábito. Fiquei olhando de lado. Notei que ele falava com ela. Falava calmamente, com as duas mãos postas na mesa. Falou por uns três minutos, enquanto ela o ouvia em silêncio. Ele parou de falar, por fim. E ela, sem dizer palavra, ergueu o braço e fez a mão voar gentilmente na direção dele. Tocou em seu rosto primeiro com as pontas dos dedos, devagar, devagar... e depois estendeu a palma inteira, fazendo-lhe um carinho lento e doce.

Em seguida, ela retirou a mão. E voltou a ocupar-se com seu café da manhã. Ele ficou parado, com os punhos apoiados na borda da mesa. E sorriu.


Não disse nada, não se mexeu, apenas sorriu. Ela não podia ver, mas ele sorria e continuou a sorrir, e era um sorriso manso e satisfeito e intenso. Ali estava, subitamente, um homem feliz. Ele não agradeceu e ela não viu o sorriso, ela não podia ver. Ela nunca vai descobrir como aquela pequena carícia fez bem ao seu companheiro. Ela nunca vai descobrir o poder que exerceu por um momento em outro ser humano. Tive vontade de ir até a mesa deles e avisar: “Ele está sorrindo! Ele está sorrindo!”. Mas me contive. Porque talvez não fosse necessário. Porque talvez o mais belo carinho seja, mesmo, o que não espera retribuição.

quinta-feira, 3 de julho de 2014




“ Algumas ternuras possuem o dom
de despertar em nós doçuras adormecidas.”
((Arnalda Rabelo ))




NINGUEM CRUZA


nosso caminho por acaso 
e nós não entramos na vida de alguém
sem nenhuma razão.


→ Chico Xavier ←





E no fundo,
a gente sabe quem gosta mesmo da gente.
(Felipe Assunpção)

Até amanhã...fiquem com Deus!

 
03 de julho de 2014 | N° 17848
MÁRIO CORSO

De volta à querência

Como os outros brasileiros veem os gaúchos é uma questão. Como nós nos vemos é outra. Uma terceira seria como entendem nosso Estado aqueles de nós que percorreram caminhos mais largos no mundo. Eu prefiro a última. Afinal, é alguém que nos conhece e sabe do mundo. Como é daqui, gosta deste pago e não joga contra por jogar. Em suma, é um de nós com a dádiva de um olhar deslocado pela experiência estrangeira.

E o que dizem de nós os gaúchos que voltaram? Ouvi muitos relatos desses que têm esse olhar ao mesmo tempo forasteiro e crioulo, até que esses dias escutei um mais aguçado: do Walter Lidio Nunes, um gestor de empresa interessado em questões sociais. A fala dele precipitou um entendimento que já me perseguia. Ele diz que um pouco da crise pela qual nosso Estado passa deve-se a nossa peculiar mentalidade conservadora.

Não entenda conservador como uma maneira mais lenta de assimilar o novo, trata-se de uma resistência à novidade, mesmo que ela seja melhor. E isso em qualquer setor, por exemplo: um engenheiro propõe uma maneira mais barata, mais eficaz e mais ecológica. Razões mais do que justas, mas a resposta é: mas nós sempre fizemos assim, por que mudar?

A novidade é vista aqui com desconfiança por ser sentida como estrangeira. O gaúcho parte do princípio de que o outro estaria querendo lhe tirar algo, logo, o que vem de fora é potencialmente prejudicial.

Já estamos acostumados com o conservadorismo de domingo, ao modo do MTG, a questão que interessa nesse caso é essa inflexibilidade nos dias de semana, que compromete os avanços do Estado em várias áreas. Walter comenta que somos conhecidos pelas bipolaridades irreconciliáveis, praticamente não mudamos de opinião. Achamos que mudar é falta de caráter, preferimos seguir no engano, mostrando uma coerência com a história pessoal e não com a realidade fática.

Capturados em reafirmar as pequenas diferenças, esquecemos as enormes convergências. Não nos interessa se a ideia é boa ou ruim, mas de quem ela veio, e a discordância é sempre em bloco, sem nuances. Transformamos a saudável discussão política em paixão clubista. Ou seja, facilmente atolamos pela incapacidade de atuar juntos. Em suas palavras: nosso Estado se guia pelo retrovisor e não olha para frente.


São teses duras que infelizmente me fazem eco. Espero, pelo bem do Estado, que estejamos enganados e que nos desmintam, que mostrem existir áreas em que ponteamos, em que somos inovadores. Mas, por favor, com fatos, não com ufanismo, porque isso já é a inflação que acusa uma falha no valor. O orgulho exacerbado de ser gaúcho é uma resposta à queda de nossa importância política e econômica no quadro do Brasil.

03 de julho de 2014 | N° 17848
PAULO SANT’ANA

Os eleitos por sorte

A respeito das saudades que às vezes sinto dos ex-amigos que viraram meus desafetos, cujo assunto abordei ontem em minha coluna, que por sinal foi primeiro lugar disparado em leitura na pesquisa interna do Call Center de ZH, mandou-me o leitor Valério Alves (valerioalves@hotmail.com) uma observação proveniente: “Caro Pablo. Li tua crônica hoje, como faço diariamente.

O que sentes pelos teus ‘desafetos’, aos quais dizes odiar mas ao mesmo tempo sentes saudades, é o amor que tens por eles. Estás intimamente ligado a eles. Toma a iniciativa e libera teu perdão a eles, mesmo que não tenhas sido tu o responsável pelo rompimento da amizade. Mesmo que tenhas sido tu a vítima, não alimentes o ódio. Fala com eles e pede perdão por ter, de alguma maneira, os ofendido ou prejudicado.

Assim fazendo, vais ver que ou volta a amizade que tinham antes, ou te livras desse peso e sentimento de culpa (mesmo que saibas não tê-la). Faze isso, amigo, faze tua parte, isso só vai engrandecer ainda mais o teu caráter e teu coração se aquietará. Depois, conta-me o que aconteceu. ok?

Grande abraço!” (Estava assinada).

Tenho visto no Animal Planet sensacionais flagrantes sobre animais que ainda filhotes são adotados por animais adultos de outras espécies.

É impressionante, um leão e uma leoa, tendo morrido em caçada uma tigresa, adotaram para si um filhotinho dela.

E a leoa, fantástico, amamentava em suas tetas o tigrezinho órfão.

Em outro filme, um gorila destroçou a golpes de seus dentes e garras uma pantera que o desafiou numa clareira. Logo em seguida, penalizado com os dois filhotes da pantera, adotou-os e passou a amamentá-los. Se eu não tivesse visto as cenas em filme, não acreditaria.

Eu já escolhi há tempos nesta coluna o país que considero favorito para a conquista do Mundial, a Holanda.

Mas existem outros que podem chegar ao título máximo, o Brasil, a Argentina, a França, a Alemanha...

A Copa do Mundo nesse aspecto imita a vida: há muitos desclassificados no caminho e poucos eleitos para a finalíssima.


E também a Copa imita a vida quando algum juiz favorece um dos eleitos, como aconteceu em Brasil x Croácia. Na vida, o juiz que favorece é a sorte, por isso há os sortudos e os azarados. Aquela bola chutada por um suíço que foi bater na trave argentina quase no fim do jogo eliminatório é uma prova de que o Mundial, como a vida, tem preferências pelos que devem conquistar a fortuna.

03 de julho de 2014 | N° 17848
VERÍSSIMO NA COPA

STRAWBERRY FIELDS

Em todas as Copas, há um período em que as delegações já chegaram, os jornalistas já chegaram, mas os jogos ainda não começaram. Os jornalistas cobrem treinos, fazem entrevistas, fuçam, especulam, fofoqueiam, mas a verdade é que, enquanto a bola na rola para valer, ninguém tem muito assunto. E aproveitam qualquer coisa extra-futebol para encher o tempo e fazer matérias.

Em Guadalajara, na Copa de 86, a equipe da Rádio Gaúcha, sem nada para transmitir, resolveu irradiar uma tourada. E lá se foi o Ranzolin narrar os avanços do touro e os meneios do toureiro, com comentários técnicos do Paulo Sant’Ana! Na Copa da Alemanha, em 2006, parte da equipe de O Globo ficou num hotel rural perto de Frankfurt e da pequena cidade de Konigstein, onde estava hospedada a Seleção, e no meio de uma plantação de morangos. Na falta de futebol, comecei a escrever sobre os morangos. Textos bucólicos, evocativos, exemplos acabados de literatice vazia, mas providenciais.

Acho que cheguei a lembrar os morangos com nata batida da minha infância, e não duvido que Proust e sua memória gustativa tenham entrado na história, além do Strawberry Fields dos Beatles. Até que veio uma sutil sugestão da editoria de esportes que eu esquecesse os morangos. Não demorei para descobrir por que: estava todo mundo no hotel escrevendo sobre os morangos. Já tinha leitores reclamando.

CONTRASTE

Quanto mais vejo futebol, mais admiro o rugby. Não, não é que ache o rugby superior ao futebol. Não seriam necessários mais do que os jogos que estamos vendo nesta Copa para provar como nenhum esporte coletivo se compara, em emoção e beleza plástica, ao futebol.

O que me espanta no rugby é que, sendo um esporte muito mais violento do que qualquer outro, com homens do tamanho de cruzadores se entrechocando e se amontoando continuamente, e certamente trocando empurrões, socos e insultos à mãe nas aglomerações em que a bola é esquecida, não se vê uma cara de dor, um jogador desabando dramaticamente, como no futebol.


Está certo, o futebol é jogado aos pontapés, e ninguém duvida que um chute no joelho ou um pisão no pé doa pra burro, e que as caras de sofrimento sejam sinceras, mas parece que, com o tempo, as demonstrações de dor no futebol foram ficando mais cinematográficas. Em contraste com os estoicos jogadores de rugby, que nunca acusam nenhum golpe. Outro mistério é o que constitui falta no rugby. Ouvi dizer que só não pode discutir política ou religião.

03 de julho de 2014 | N° 17848
DAVID COIMBRA

DAVID COIMBRA UM BILHÃO AOS MÍOPES

Li o balanço que a Secretaria do Turismo fez sobre a Copa em Porto Alegre. Trezentos e cinquenta mil turistas passaram pela cidade em 20 dias, sendo 160 mil estrangeiros 90 mil argentinos (que fizeram o que minha avó chamaria de muita laúza), 16 mil alemães (que, como meu avô, beberam muito chope), 12 mil norte-americanos, 10 mil australianos (que se deram muito bem), 4,1 mil argelinos (que andaram de dindim em Gramado), 4 mil franceses, 4 mil holandeses (que também se deram muito bem), mil sul-coreanos, mil hondurenhos, mil equatorianos e outros 17 mil de outras nacionalidades, todos faceiríssimos, dançando com a banda da Brigada. Essa gente deixou mais de um bilhão de reais na Leal e Valerosa, além de algumas saudades doídas nas meninas e ressentimentos igualmente doídos nos meninos.

Um bilhão de reais.

Para onde foi esse dinheiro? Para o comércio, para os hotéis, para os táxis e... para os impostos. Ou seja: para a saúde, para a educação, bibibi.

Quem ganha com a Copa?, perguntavam alguns míopes, tempos atrás.

Resposta: todos.

Até os míopes.


LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS

No cartel de Porto Alegre rebrilham 10 campeonatos nacionais, quatro Libertadores da América e dois títulos mundiais. É uma cidade na última esquina do Brasil, longe demais das capitais, como diriam os Engenheiros, mas do futebol brasileiro é megalópole, como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. Só que Porto Alegre sai da Copa nas oitavas, como os mexicanos, os americanos e os suíços.

Não podia.

Agora que você sabe como a Copa é um evento palpitante, um evento que torna viva uma cidade e a promove e a exalta, agora você lamenta que Porto Alegre fique esquecida no seu meridiano, enquanto outras cidades do Brasil vibram às vistas do mundo inteiro.

De fato, é lamentável.

Mas isso só aconteceu por causa do instinto destrutivo e iconoclasta do gaúcho. Por causa da nossa casmurrice. E também por causa das tolices da rivalidade Gre-Nal. Se gremistas e colorados tivessem se unido para fazer uma bela Copa no Estado, Porto Alegre bem poderia passar à semifinal. Onde merece estar.

A TERRA DE MARLBORO

Gostei da forma como o jornalista de uma TV americana chamou o Rio Grande do Sul durante a partida da Argentina:

“Gaúcho’s country”.

Segundo ele, o Rio Grande do Sul é uma terra de caubóis.


O Texas do Brasil.

quarta-feira, 2 de julho de 2014


02 de julho de 2014 | N° 17847
MARTHA MEDEIROS

Um beijo só

Duas retas finais: a da novela Em Família e a da Copa do Mundo no Brasil. Acompanho as duas. A novela das nove, comecei a assistir pra valer só no último mês, e façamos justiça ao autor Manoel Carlos: a audiência pode não ser a esperada, mas é uma delícia ver diálogos hiper-realistas e cenas domésticas que se desenrolam num ritmo muito parecido com o nosso, nos dando a possibilidade de sermos voyeurs olhando pelo buraco da fechadura de portas alheias. Me divirto, relaxo, esqueço da vida.

Só uma coisa me aflige, não sei se quem assiste à novela também percebeu: alguns personagens dão três beijinhos quando se encontram. Três. Será o novo modismo da zona sul carioca? Fiquei nervosa, confesso.

Logo agora, quando estamos observando um avanço aqui no Sul: o fim dos dois beijinhos. Não sei como essas coisas iniciam, quem introduz, como pega, mas agora, na capital dos gaúchos, a gente está fazendo como os paulistas, dá um beijo só e basta.

Gosto de simplificações. Gosto de tudo que é enxuto, econômico, objetivo. Poucos meses atrás, estive em São Paulo visitando uma amiga e ela me apresentou sua turma, e saí tascando dois beijos, um que era retribuído e outro que ficava no ar, porque acostumados com um só, os paulistas logo afastavam suas suculentas bochechas depois do primeiro, fazendo com que eu parecesse uma caipira. Oh, infernais dois beijos, para que o excesso?

Pois agora, para complicar, vem a novela das nove lançar três beijinhos. Tem gente que ficou apreensivo com o insosso beijo gay da Clara e da Marina, mas escandalosos mesmo são os três beijinhos entre a Helena e a Shirley. Vamos nos preocupar com coisa séria, por favor.

Não suporto dar três beijos, mas dou quando não há a mínima chance de fuga. Três beijos é um exagero, porém não se sintam menosprezados os que possuem o costume, pois na aristocrática Suíça se dá o mesmo. Três beijos. Por que motivo, não sei.

Mas, excetuando-se a Suíça, o interior do Rio Grande do Sul e os estúdios do Projac, a tendência mundial é a da subtração, os modos se refinam. Me garantiram: em Porto Alegre não se dá mais dois beijinhos. É um só.

Saiu no Diário Oficial?

Um beijo só, aleluia. Tenho dúvida se a ideia já está disseminada, mas diante do desserviço da novela global, ofereço minha contribuição com essa crônica, apoiando. Um único beijo é a elegância da economia. Um único beijo é suficiente para demonstrar nossa simpatia. Um beijo rápido, talvez com o adendo de um abraço nos casos mais íntimos e em situações calorosas, e estaremos todos devidamente cumprimentados.


Antes que me perguntem: no ombro, de preferência, nenhum. E mordida, só entre lençóis.

02 de julho de 2014 | N° 17847
PAULO SANT’ANA

Macacos catarríneos

Esses dias, eu falei aqui sobre uns quatro desafetos que tenho.

São desafetos. Logo, cheguei a eles por desafeição, como o nome está dizendo.

Deixei de dar-me com eles por algo grave que eles ou eu tenhamos cometido na nossa relação.

Mas o fato é que de repente me vejo com saudade de algum deles, é um impulso que não posso evitar e que sei qual é a origem: se meus atuais desafetos foram meus amigos, natural que me venham à memória instantes deliciosos que vivemos juntos.

A que ponto extremo eu cheguei: sinto saudade de pessoas que odeio.

Uma vez andei consultando no dicionário o que queria dizer a palavra espirro. E, se lembro bem, estava escrito no amansa-burro que espirro era uma contração dos músculos respiratórios.

É que andei olhando um livro de etiqueta que me mandava que não dissesse saúde a quem espirrasse. A etiqueta dizia que espirrar é falta de educação e quando se ouve alguém espirrar deve-se fingir que não se ouviu nada e assim não profligar o espirrador.

Gozado, diz-se saúde para quem espirra e não se diz o mesmo para quem tosse, soluça, boceja...

Tenho um amigo que tem tosse tonitruante, ouve-se-a a uma quadra de distância.

Esse meu amigo tem uma tosse tão espetaculosa, que parece que ele é descendente dos símios, os macacos catarríneos.

O amigo Eduardo Oltramari me apresentou uma cantina de massas espetacular, não me perdoo por não conhecê-la há um ano, que me parece é o prazo de sua duração total.

Trata-se da Cantina de la Famiglia Facin, no Shopping Total. É uma variedade de massas e molhos que nos fazem cair o queixo, além de um deslumbrante e saboroso cardápio de saladas.

Fiquei estupefato que eu não conhecesse essa tal ilha de riqueza culinária da minha cidade.

Além das massas, os nhoques e as panquecas. Servi-me lá de um nhoque de batata-doce de fazer português largar a mercearia nas mãos dos caixeiros.


Que massas, que molhos, que queijos!

02 de julho de 2014 | N° 17847
VERÍSSIMO NA COPA

QUE COPA!

A vitória da Bélgica sobre os Estados Unidos, ontem, completou uma trinca de jogos espetaculares. Só a Holanda, contra o México, ganhou sem sofrer, ou sem sofrer muito. Os outros jogos foram histéricos, digo históricos. Se esta é a melhor Copa até hoje não sei, mas é certamente a mais taquicardíaca.

Alemanha x Argélia já tinha quase matado alguns torcedores, e ontem não devem ter sido poucos os apelos de argentinos para o Papa ser patriota e interceder lá em cima pela vitória deles. No fim não foi Deus que resolveu – se bem que aquela bola na trave do goleiro argentino no finzinho da prorrogação, não sei não – foi o Messi, que passou o jogo todo cercado de suíços e no único momento em que se viu numa clareira sem inimigos por perto fez o passe salvador para o Di María marcar. Quem tem Messi e Di María não precisa do Papa. De qualquer maneira, a Fifa deveria apurar se está havendo influência divina indevida nos resultados.

Antigamente se falava muito no “ferrolho suíço”. Numa época em que o futebol era mais franco e não havia tantos cuidados defensivos – acho que nem o líbero os italianos tinham inventado ainda –, a Suíça apareceu com uma defesa mais fechada do que o seu sistema bancário. O único problema com o tal ferrolho era que ele dificultava os ataques do adversário, mas quando os suíços recuperavam a bola não sabiam o que fazer com ela.

Eram como selvagens examinando, sei lá, uma máquina de café expresso. O que é isso? É um chapéu? A gente come? O resultado era que os suíços levavam poucos gols, mas não ganhavam de ninguém. A julgar pela Suíça que veio para esta Copa, eles aprenderam o que fazer com a bola. Enfrentaram a Argentina de igual para igual, ou de igual para parecido. E há duas razões para lamentar a eliminação da Suíça.

Uma é que a Argentina continua na Copa. A outra é que não veremos mais o Shaqiri, o melhor jogador suíço e um dos mais interessantes da Copa.


Quanto ao jogo dos americanos contra os belgas, outro teste de esforço para cardiopatas, só uma observação: se continuarem melhorando desse jeito, já se pode prever qual será a final da Copa do Mundo de 2026: Estados Unidos x China.

02 de julho de 2014 | N° 17847
DAVID COIMBRA

DAVID COIMBRA O GOLEIRO DA MINHA SELEÇÃO

O goleiro da seleção americana vai para a minha seleção da Copa. Não é porque estou nos Estados Unidos... Ou talvez seja... Sim, sim, o fato de eu estar nos Estados Unidos fez com que conhecesse um pouco mais da história desse goleiro, Tim Howard.

Ele tem Síndrome de Tourette, um mal genético que faz a pessoa apresentar tiques, contrações involuntárias e falar palavras desconexas nos momentos mais inesperados. É incurável. Não mata, mas o afeta socialmente. Howard sofre dessa Síndrome.

Mas não é por isso que ele vai para a minha seleção. É porque ele é o pilar do time do Grande Irmão do Norte, foi o principal responsável pelos EUA disputarem duas Copas e, ontem, parecia Yashin, Lara, Sepp Maier, Manga, uma dessas lendas da camisa 1. Tim Howard. Uma das grandes histórias dessa grande Copa.

Aquela falta marcada aos 125 minutos de jogo dentro da meia-lua da Argentina é o lance-símbolo desta Copa brasileira, uma Copa que tem se decidido no que a turma do IAPI chamaria de “na unha”.

Uma falta dentro da meia-lua... Imagine um Zico chutando. Um Ronaldinho. Era uma falta a ser cobrada com doçura. Jeito, não força. A bola devia ser colocada como que com a mão um palmo acima da cabeça do terceiro homem da barreira. Não devia ser endereçada ao ângulo formado entre trave e travessão, não, devia morrer na junção entre rede e grama e ali ficar.

Mas quem bateu foi um jogador da Suíça, não Messi. Messi estava do outro lado, de azul e branco. Messi já havia feito sua mágica. Com uma ou duas mágicas por jogo, ele vem empurrando a Argentina para a final.

Uns e outros se irritam quando digo que não torço pelo mais fraco, torço pelo mais competente. Para eles, é arrogância querer que o melhor ganhe. Tudo bem, mas quando proponho a essas pessoas uma final da Copa entre Costa Rica e Colômbia, todos torcem o nariz. Ah, não, elas querem o grande jogo, elas querem Brasil e Argentina, Holanda e Alemanha.

O mais fraco que se contente com as quartas. Grande caridade, essa. Dê ali a migalha das quartas para o mais fraco, coitadinho. Ele vai se contentar com isso. Olhe como ele está sorrindo, agradecido. Fica alegre com qualquer coisa. Mas não me venha querer estragar a final! Por favor, cada um no seu lugar!

A minha seleção da Copa (até agora, pelo menos) seria muito agressiva, que essa tem sido uma Copa de times agressivos. Colocaria três zagueiros, os dois vigorosos brasileiros e, entre eles, o clássico capitão do México, Rafa Marques. No meio-campo, aquele alemão com nome que parece um latido vigiaria a grande área. Os outros fariam o adversário dançar. É claro que você não concorda, mas a minha seria campeã. Aí vai:

Tim Howard; Thiago Silva, Rafa Marques e David Luiz; Schweinsteiger, Sneijder, Di María e Messi; Müller, Neymar e Robben.

Pode vir com esse seu timinho.

O narrador da TV americana ficou espantado com o comportamento do árbitro brasileiro Sandro Meira Ricci na partida entre Alemanha e Argélia. A todo momento o narrador perguntava:

– Mas por que esse árbitro conversa tanto? Por que não marca a falta e deixa o jogo correr? Por quê?


A conversa em demasia é vício da arbitragem brasileira.

terça-feira, 1 de julho de 2014


01 de julho de 2014 | N° 17846
FABRÍCIO CARPINEJAR

Dono do mundo

Não tenha medo de quem é ciumento, mas de quem é possessivo.

O ciúme não é nocivo, é um sentimento sadio e normal para revelar os limites da aceitação e da dependência. Moderado, transmite inclusive uma sensação charmosa de cuidado e de proteção. No início    do relacionamento, revela paixão e comprometimento.

Ciúme é uma insegurança passageira, uma carência pontual. Costuma ser mais uma dúvida do que uma desconfiança.

O problema é a possessividade, que impõe conclusões e não questiona, sempre incontrolável e insaciável.

A possessividade é o ápice do machismo, escraviza e anula personalidades.

Com a fachada da adoração, o sujeito cria uma prisão emocional   . Não permite que a mulher viva nada além do que é concedido dentro da relação. Seus elogios são mesadas. Suas gentilezas são oportunistas. Seu cerco é castrador.

O que ele busca é enfraquecer sua companhia de tal maneira que ela não apresente mais individualidade e forças para se opor. Sua tática    é cansá-la perguntando e exigindo explicações para qualquer coisa. Disposta a não se incomodar e evitar os conflitos, ela vai dizendo sim e apagando as diferenças.

É como ter um pai patrão, não um marido. É como ter um chefe, não um cúmplice. É como ter um dono, não um parceiro.

A possessividade não é brincadeira, não é engraçada, não é bem-vinda.

O possessivo será rude com seus amigos e familiares, será grosseiro com seu círculo de convivência, armará barracos e escândalos nos momentos de suas maiores alegrias, sob o pretexto de sinceridade e transparência    e que precisa dizer o que vem sentindo.

Sem se dar conta, estará pedindo autorização para se vestir, para sair, para falar, para se comportar, para se divertir. Tudo o que fizer dependerá de relatórios minuciosos e narrativas detalhadas, e nada agradará para garantir a confiança e a liberdade.

Um cafetão seria mais discreto e generoso.

Terá seu Facebook administrado pelo marido, seu celular monitorado pelo marido, seus gastos checados pelo marido. O controle começará com o tamanho e o perfil das roupas   , depois avançará para as fotos    nas redes sociais, prosseguirá nas amizades (seus conhecido dependem de aprovação à semelhança de linha de crédito   ) e, por último, desembocará na utilização das palavras em mensagens.


A possessividade é a ameaça de bomba    dentro de sua casa. Pode evacuar o coração. Não costuma ser trote.

01 de julho de 2014 | N° 17846
LUÍS AUGUSTO FISCHER

RADAR DA LÍNGUA

Estou sempre com o radar ligado no que se refere à língua, aos usos, às variações, às sutilezas. Escrevi meu livro mais bem-sucedido, o Dicionário de Porto-Alegrês (L&PM), assim mesmo, prestando atenção ao que se dizia, ao que eu dizia, ao que meus amigos falavam, ao que os velhos murmuravam. Levei uns 15 anos, mais ou menos, apenas anotando, juntando pequenos papéis com palavras, amontoando tudo em uma caixa literal de sapatos, até que achei um jeito de escrever sobre elas, que resultou no livro, lançado em 1999 e ainda agora com circulação apreciável.

(Comecei a escrever o livro ainda antes de ter um computador pessoal, em cadernos. No processo de escrita comprei meu primeiro PC, que me facilitou enormemente a coisa. Aí por 1994, tive o grande, o imprescindível auxílio de um programinha que me proporcionou botar em ordem os verbetes sem fazer maior força. Autor do programa? Nei Lisboa, ele mesmo.)

Agora tenho filhos pequenos, e o encanto de ouvir me retornou com muita força. Fico bispando o que dizem, atento, querendo ver o jeito e o rumo das mudanças, que são inevitáveis em tudo, ainda mais na língua falada, esta que é por natureza incontrolável e sujeita aos humores e às modas – e, por isso mesmo, tão legal de ver.

Não é raro me dar conta de que cada vez mais o repertório das atividades infantis não está mais recoberto por palavras especiais, locais, distintivas daqui de Porto Alegre ou do sul. Em festa infantil já ocorre com frequência ouvir chamarem os balões de bexigas. Minha filha de quatro anos conheceu o jogo de sapata como amarelinha. Já faz algum tempo que pandorga, por sinal bem rara de ver aqui na cidade, virou pipa ou papagaio.


Talvez faça parte da rotina essa mudança, que homogeiniza a linguagem pela força dos programas de televisão concebida para crianças, cuja voz é, em cem por cento dos casos, seja em locução original ou em dublagem, feita fora do Rio Grande do Sul, em Rio ou São Paulo, com uma exceção em Minas, que eu saiba. Meus filhos falam a linguagem que falamos em casa, mas também a que ouvem na tevê e que é repetida pelos amigos e colegas.

01 de julho de 2014 | N° 17846
DAVID COIMBRA

O TÉCNICO BRABO

O técnico da Argélia tem um nome impronunciável, Vahid Halihodzic, e, pelo que li, é um homem brabo. Andou xingando gente nesse Mundial. Mas provou conhecer o jogo: armou um sistema inteligente para deter um time poderoso, e quase obteve sucesso. Vahid montou uma linha de cinco jogadores no meio-campo e deixou só um, o número 13, rapidíssimo, entre os dois enormes e lentos zagueiros alemães. A Alemanha tinha dificuldades de exercer seu toque de bola, e os contragolpes da Argélia eram tão agudos que o goleiro alemão jogou de líbero. Se o goleiro alemão fosse mais lento, a Argélia teria marcado mais gols.

O TÉCNICO NOJENTO
O técnico da Alemanha, Joachim Löw, é conhecido por gostar de comer tatu de nariz durante os jogos. Nojento. Mas teve competência para fazer do time alemão uma espécie de Flamengo com trema. Ou de Barcelona, o time no qual ele confessadamente se baseou.

Só que ontem Joachim Löw errou. Não percebeu que um de seus jogadores mais importantes, Özil, estava fora do jogo e hesitou em dar mais profundidade ao time. Quase foi eliminado da Copa por uma equipe inferior, mas enérgica e disciplinada. A energia e a disciplina são as marcas deste Mundial do Brasil.

VOCÊ É MEIO GREGO
Os gregos inventaram o teatro e, inventando o teatro, inventaram a literatura.

Os gregos inventaram a filosofia.

Os gregos inventaram a democracia.

Os gregos inventaram a História.

Temos uma dívida de gratidão para com os gregos, não é? Temos, claro que sim. Mas vocês não levaram isso em consideração, vocês torceram para a Costa Rica. Alguém dirá: mas e no esporte, o que nos deram os gregos? No esporte? Oh, sacripanta, os gregos nos deram as Olimpíadas, o atletismo, a maratona... Está certo, também nos deram a luta greco-romana, que é muito esquisita, mas, fora isso, compreenda o tamanho dos gregos e o quanto você também é grego culturalmente falando.

E vocês torceram para a Costa Rica...

Viram no que deu?

Milhões de olhos e quereres concentrados levantaram a mão do goleiro da Costa Rica e ele defendeu aquele pênalti. A Grécia está fora da Copa. A Grécia, para quem vocês devem tanto. A Grécia, por causa de vocês.

Cuidado, os deuses do Olimpo não devem estar nada satisfeitos.

NACIONALISTAS EM FÚRIA

Você prestou atenção nos alemães cantando o hino?

Devia ter prestado.

Há uma guerra de hinos nesta Copa. Os brasileiros cantam o hino a capela, os chilenos querem fazer o mesmo e os brasileiros não deixam. Os jogadores do Brasil não cantam o hino; berram-no, em especial o zagueiro David Luiz, imbuído de um fervor patriótico meio assustador. Teve uma menina de 12 anos que, perfilada em frente aos jogadores, gritou tão desvairadamente o hino que impressionou o capitão Thiago Silva, a ponto de ele postar numa rede social que aquilo, sim, era prova de amor à pátria.

Os franceses também fazem todos se arrepiar com a Marselhesa, assim como os ingleses com o God Save The Queen. Os americanos entoam seu hino fazendo continência, como se fossem soldados. Vi, pela TV, gente chorando na execução do hino de seu país.

Mas os alemães, não. Os alemães cantam discretamente seu hino nacional e vão para o jogo sem palpitações ufanistas. Você, que conhece um pouco de História, me diga: você sentiria medo, se os alemães cantassem o hino como David Luiz?

Decerto que sim.

Só que os alemães têm farta consciência dos efeitos do nacionalismo. Então, eles são moderados.


O curioso é que poucos países da Copa, na verdade poucos países do mundo respeitam seu cidadão como a Alemanha. Os alemães são bem cuidados pela Alemanha, e cuidam bem da Alemanha. Sem ardores, sem paixões alucinadas, sem achar que se ganha no grito.

01 de julho de 2014 | N° 17846
VERÍSSIMO NA COPA

JOGO DE CÃIBRAS

Alemanha e Argélia provaram: jogo com muitas cãibras é jogo emocionante. Em número de jogadores que acabaram a partida sem pernas, prevaleceu a saúde e a melhor alimentação desde a infância dos alemães, mas a vantagem foi pequena. As cãibras contam a história do jogo. Sensacional.

INVEJA

A inveja é um sentimento baixo. É um dos pecados capitais, e consiste em desejar o que os outros têm e nós não temos, seja felicidade, beleza, simpatia, popularidade, conta na Suíça ou – no caso do futebol – no meio de campo. Vendo o jogo da França com a Nigéria, ontem, senti que a inveja me invadia como um veneno. Tentei reagir, apelar para meus melhores sentimentos, me convencer que o que eu sentia era torpe e tóxico, mas em vão. A inveja me ocupou de cima a baixo, devo ter rosnado de inveja. E o que eu invejava era o meio-campo da França. Invejava Cabaye, Matuidi e Pogba.

Sim, tenho vergonha de dizer que bradei aos céus contra aquela injustiça, a França ter Cabaye, Matuidi e Pogba, e o meu time não ter nada parecido. Todos os ataques da Nigéria tinham que passar por Cabaye, Matuidi e Pogba para chegar na grande área da França e todos os ataques da França passavam por Cabaye, Matuidi e Pogba a caminho da grande área da Nigéria. Isso é que se chama de um meio-campo presente e não aquele vácuo no meio da nossa Seleção. Terminado o jogo me resignei: o mundo é desigual, e a ultima coisa que o destino pensa quando distribui as camisetas é em equanimidade, que ele provavelmente nem sabe soletrar. Mas não posso deixar de sonhar. Ah, Cabaye, Matuidi e Pogba no meu time...

ADRIANA

Teve gente que discordou da minha opinião sobre reconhecimento do campo, aquela prática inútil do time ir com antecedência a um estádio em que nunca jogou para se familiarizar com a grama, as arquibancadas etc . Entre os que protestaram estava a Adriana Calcanhoto. Na sua coluna de O Globo, há dias, a querida Adriana argumentou que o “reconhecimento” pode ser inútil para o time, mas inspirador para um jogador que vê o estádio vazio como uma tela em branco na qual ele se projeta como vencedor, herói do jogo que se aproxima, e vê sua própria vida e sua luta até o momento de entrar no estádio cheio, para brilhar.


O “reconhecimento” seria um instante ao mesmo tempo de concentração e devaneio. Impossível não concordar com interpretação tão poética. Mesmo porque, diante daqueles olhos, é impossível não dar tudo à Adriana. Inclusive razão.

01 de julho de 2014 | N° 17846
ARTIGOS - JOSÉ FORTUNATI*

COPA PADRÃO PORTO ALEGRE

A Copa do Mundo em Porto Alegre foi palco de muitos gols, dentro e fora do campo. As nove equipes que aqui estiveram deram um espetáculo de bom futebol e a avalanche de “todos os povos e todas as cores” que as acompanhou levou nossa cidade às páginas dos principais jornais do mundo, destacando nossa cultura peculiar, a hospitalidade do nosso povo e a capacidade de organizarmos grandes eventos. A rigor, uma Copa Padrão Porto Alegre.

Pois a plasticidade dos gols esteve também do lado de fora do Beira-Rio, e eles foram feitos por uma só equipe, na qual atuaram juntos com a administração municipal os governos federal e estadual, o OP, os órgãos de controle, a sociedade civil, o COL e cada um dos porto-alegrenses, cuja empatia e espírito solidário encantaram os turistas que aqui estiveram.

Desde o anúncio de que Porto Alegre seria uma das cidades-sede, acreditamos firmemente que o evento deixaria um legado material e imaterial inédito.

Primeiro, porque teríamos acesso a um volume de recursos federais que viabilizariam obras de mobilidade urbana há muito tempo necessárias. Segundo, ao sermos incluídos na plataforma de um evento de tal magnitude, fortaleceríamos ainda mais nossa marca de Cidade Global, apta a celebrar acordos de cooperação descentralizada, promover nossa economia e nossa cultura e ingressar definitivamente no mapa do caminho do turismo internacional. Encerrado o jogo Alemanha x Argélia, é quase unânime a opinião de que a aposta de Porto Alegre foi coroada de êxito.

A capital gaúcha está orgulhosa por ter encontrado “O Caminho do Gol”. Esta invenção tipicamente porto-alegrense, por cujo traçado, do Centro Histórico até o estádio, desfilaram e dançaram milhares de turistas e brasileiros, serve de metáfora para a comemoração de muitos gols de placa.

Do reconhecimento à cidade como a mais transparente na Copa, passando pelas exibições públicas nas comunidades e valorização de artistas locais na Fan Fest, até o impacto positivo em nossa economia e a entrega das obras no entorno do Beira-Rio e do Viaduto Júlio de Castilhos, concluímos essa etapa da nossa participação com a certeza de que estamos preparados para qualquer desafio, porque aqui temos um Padrão Porto Alegre de organização e hospitalidade.

Aqui temos um Padrão Porto Alegre de organização e hospitalidade

*PREFEITO DE PORTO ALEGRE


segunda-feira, 30 de junho de 2014


30 de junho de 2014 | N° 17845
NILSON SOUZA

Mentalidade monarquista

Por coincidência, terminei de ler ontem as 415 páginas de 1889, exatamente no dia em que este jornal publicou uma bela entrevista com o autor do livro, Laurentino Gomes. O jornalista paranaense que virou escritor de sucesso, e que vem recontando de maneira deliciosa a história do Brasil, disse ao repórter Alexandre Lucchese que a herança monárquica é mais forte do que a republicana na formação do caráter do brasileiro.

O que isso significa? Segundo o escritor, que parcela expressiva da população prefere acreditar que o soberano, o monarca, agora representado pelo Estado, lhe dará tudo o que necessita, sem que precise se envolver e participar da vida do país. Do mesmo teor é o pensamento mágico de que todos os políticos são corruptos e que é preciso entregar a um ditador (imperador?) a tarefa de moralizar a nação.

Seríamos, portanto, uma República com mentalidade monarquista. Realmente, o próprio Laurentino conta em seu livro que os brasileiros nunca tiveram muito apreço pela República, na verdade um golpe militar na carcomida monarquia de Dom Pedro II, ele mesmo um simpatizante do regime republicano. Outra assustadora constatação, essa atribuída ao abolicionista Joaquim Nabuco, é a de que a escravidão prolongada fez com que os brasileiros desprezassem o trabalho, pois quem trabalhava era o escravo.

Corta para esta segunda-feira que assinala a metade do ano. Neste momento, avança no Congresso um projeto do deputado mineiro Newton Cardoso que pretende extinguir exatamente o feriado da Proclamação da República, o 15 de Novembro, sob o argumento de que o movimento comandado por Deodoro da Fonseca não teve participação popular.

Não teve mesmo. O projeto de Newtão é absurdo, mas pode ter um efeito positivo para a economia do país. Caso seja aprovado, neste ano só voltaremos a ter feriado no Natal. Julho e agosto não têm feriados, o 7 de Setembro cai num domingo, como também 12 de outubro (Nossa Senhora Aparecida) e 2 de novembro (Finados).


Nada mais republicano – para usar a linguagem da moda – do que trabalhar, não é verdade?