sexta-feira, 28 de novembro de 2014


28 de novembro de 2014 | N° 17997
OLHARGLOBAL | Luiz Antônio Araujo

Inferno

A descoberta de 11 corpos queimados, alguns decapitados, à beira de uma estrada do Estado mexicano de Guerrero precedeu em algumas horas o discurso do presidente Enrique Peña Nieto no qual foram anunciadas medidas contra a violência. Ainda que se saiba pouco a respeito das circunstâncias do crime, a coincidência geográfica – Guerrero é o Estado onde 43 estudantes desapareceram há dois meses, expondo as relações entre autoridades municipais e narcotráfico – é evidente demais para ser ignorada.

Foi a repercussão, e não a selvageria, que fez do massacre de Guerrero, em setembro, um ponto de virada na situação política mexicana. As táticas do crime organizado no país incluem assassinatos seletivos de autoridades e jornalistas, sequestros e carros-bomba. Estimativas sugerem que as gangues perpetraram mais de 60 mil homicídios desde 2006.

A escalada teria atingido um pico em 2012, último ano de mandato do ex-presidente Felipe Calderón, que tentou encurralar o narcotráfico e enfrentou feroz resistência. Um dos efeitos da campanha de Calderón foi dispersar os ataques das megaquadrilhas, antes concentrados nas cidades situadas nas rotas do tráfico e ao longo da fronteira com os Estados Unidos. Situado na costa sul do Pacífico, Guerrero é considerado um foco recente de violência.

Ao perder a guerra contra o tráfico, Calderón, do Partido da Ação Nacional (PAN), selou sua sorte política. Na eleição de 2012, a agremiação foi derrotada pelo rival Partido Revolucionário Institucional (PRI), de Peña Nieto.


Os cartéis da droga em atividade no México, que nada mais são do que filiais de quadrilhas dependentes do mercado consumidor americano, têm pouco a ganhar com uma guerra total contra o presidente. Mas, se forem encurralados, não hesitarão em espraiar o terror até recompor o status quo. É por isso que, como concluíram Calderón e outros ex-presidentes, o combate ao narcotráfico exige novas abordagens na América Latina.

28 de novembro de 2014 | N° 17997
DAVID COIMBRA

Dia de Ação de Graças?

O dia amanheceu branquinho nesse feriado de thanksgiving, o Dia de Ação de Graças americano. Há quatro dedos de neve acumulada no solo duro e nos telhados inclinados, e isso que estamos apenas no outono do Hemisfério Norte. Foi o suficiente para o meu filho se encantar com a paisagem, e eu também. É frio, mas é bonito.

Gosto disso, de haver um dia dedicado a agradecer às coisas boas da vida. São muitas, realmente. Poderia ficar até a noite aqui, olhando pela grande janela francesa da minha sala, vendo a natureza e a cidade que se ergue em meio a ela, ambas oscilando entre o severo e o exuberante, poderia ficar aqui até escurecer, agradecendo. A vida é boa.

Mas a vida não é reta, de forma alguma. Está sempre acontecendo, sempre no gerúndio e sempre fazendo curvas inesperadas. E eu... eu não fico pronto nunca. Todos os dias descubro defeitos a corrigir e contemplo o infinito do que falta a aprender. E quem garante que estou avançando? Quem garante que é uma evolução? Posso muito bem estar piorando, em vez de melhorar.

Penso nisso enquanto observo os esquilos correndo pelos galhos nus das árvores. Vou resistir a tecer qualquer imagem que compare a minha existência à atividade dos esquilos ou à visão da neve derretendo, seja o que for que esteja diante de mim. Nem consigo pensar muito tempo na minha própria vida, logo penso no Brasil.

Sim, estou num mundo distante, num cenário nada tropical, mas penso no Brasil. Não por nostalgia, não por patriotismo, nada disso. É que razoável parcela das graças que me foram dadas e pelas quais jogo minhas mãos para o céu estão aí, no Brasil: são as pessoas. As minhas relações afetivas.

Então, me questiono: o Brasil estará melhorando?

O Brasil também vive no gerúndio e, quando olho para a educação básica e fundamental, para a saúde e para a segurança, que são as áreas de responsabilidade dos governos, quando olho para esse lado, estremeço: aí, o Brasil só piorou.

Mas, institucionalmente, o Brasil mudou para melhor. Hoje nós brasileiros compreendemos a democracia como um bem em si e nossas ideias do que é ou não é ético estão mais claras. Já não aceitamos certos arranjos do passado até recente. E isso não foi obra de governo algum. Nossos governos, de Collor para cá, tiveram certos méritos e muitas falhas, mas a verdadeira evolução se deu na consciência social. A independência da imprensa, do Ministério Público e da Polícia Federal, as leis anticorrupção e o instituto da delação premiada, tudo isso é fruto de conquistas da sociedade, não é benevolência de líderes abençoados. Os brasileiros exigiram mudanças nesse setor da vida pública, e elas ocorreram.

Agora, nas próximas semanas ou meses, o Brasil estremecerá quando os detalhes das investigações sobre a corrupção na sua maior empresa forem revelados. Os nomes dos políticos envolvidos, enfim, serão divulgados. E, nesse momento, veremos o nível da nossa evolução. Muitos querem nos fazer participar de um campeonato de corrupção. Quem rouba mais? Governo ou oposição? Roubou-se mais agora ou antes?

Não é o que está em disputa. Não há disputa. O que há é uma oportunidade quase religiosa de se redimir pela expiação. É corrupto? Puna-se. Seja quem for, de onde for.

Ficou comprovado que o governo do PT é corrupto? Tirem esse governo e ponham outro em seu lugar, como já foi feito. O outro, digamos, do PMDB de Temer, comprovou-se que também se corrompeu? Tirem-no e o substituam por um novo. O novo, sei lá, do PSDB de Aécio, mostrou-se igualmente corrupto? Tirem-no também, sem vacilação. E vamos tirando e vamos trocando. Haveremos de encontrar os honestos. Mas sempre mantendo a regra constitucional, a lisura democrática e, se não for comprovada irregularidade, que fique como está.


Ah, é uma bela oportunidade de evoluir. Temos de dar graças a essa chance. Porque, sim, o Brasil está melhorando. Decerto que está. Queria, agora, olhar para essa manhã gelada lá fora e pensar que eu também.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

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27 de novembro de 2014 | N° 17996
EDITORIAL

VETO À IMORALIDADE

Não importa se integrantes de outros poderes desfrutam de prerrogativas semelhantes.

Também essas vantagens precisam ser questionadas até que sejam corrigidas.

Definido pelo deputado Raul Pont como imoralidade, o projeto de aposentadoria especial para parlamentares gaúchos, aprovado na última terça-feira com 29 votos favoráveis e 14 contrários, vai agora para a sanção do governador Tarso Genro, que só poderá tomar uma atitude em relação a ele: vetá-lo na sua integralidade.

Se assim o fizer, o governador gaúcho estará sendo coerente com a bancada do PT, que votou pela rejeição da matéria juntamente com os deputados Vinícius Ribeiro (PDT) e Jorge Pozzobom (PSDB), e também contemplará o sentimento de indignação da maioria dos gaúchos com o escandaloso privilégio.

Não importa se integrantes de outros poderes desfrutam de prerrogativas semelhantes, incluindo-se aí o próprio governador, que terá direito a uma aposentadoria generosa depois de quatro anos de administração. Também essas vantagens precisam ser questionadas até que sejam corrigidas. Porém, o mais urgente agora é impedir a restauração de uma regalia extinta em 2004 pela vontade da população e em cumprimento à Constituição de 1988.

Por que só os deputados? – perguntam os defensores da aposentadoria integral, lembrando que centenas de juízes, promotores e outros servidores de carreira desfrutam da integralidade no Estado e milhares no país. Em primeiro lugar, não é justo que o trabalhador brasileiro, que recebe uma aposentadoria modesta do INSS, sustente esta desigualdade. Pode até ser legal, pois não é incomum que os detentores de poder legislem em causa própria, mas não é justo nem moral.

Os parlamentares, que são eleitos para representar o povo, devem dar o exemplo. Mais: devem eles também se engajar na luta pela redução das disparidades. Nesse sentido, a sugestão do deputado Raul Pont merece atenção: “Somos representantes da população e não devemos pensar em benefício próprio. Nossa luta deveria ser pela melhoria da Previdência para todos os trabalhadores”.

Ainda que só façam jus à aposentadoria integral os parlamentares que completarem 35 anos de mandato e 60 anos de idade, o certo é que em pouco tempo os valores pagos aos beneficiários serão muito superiores aos arrecadados, causando desequilíbrio e exigindo complementação por parte da Assembleia, isto é, do cidadão pagador de impostos.

É uma imoralidade, sim. No mínimo, a nova despesa, que representará um gasto extra anual de R$ 600 mil para o parlamento gaúcho, deveria ser respaldada por rigoroso cálculo atuarial. Sequer isso foi feito.


27 de novembro de 2014 | N° 17996
ARTIGO - ODIR TONOLLIER*

RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA É UMA VITÓRIA DO RS

O projeto da dívida foi sancionado pela presidenta Dilma Rousseff sem qualquer veto que afetasse o Estado. É uma vitória do Rio Grande do Sul e um legado do governo
Tarso Genro, que liderou a articulação nacional junto ao governo federal.

A mudança no indexador e a redução dos juros são resultado de uma discussão que se arrastou nos últimos 15 anos sem resultados práticos. Com Tarso no governo do Rio Grande do Sul e Dilma na Presidência foi possível chegar a um acordo. Já em 2016, será possível reduzir o estoque em R$ 4,7 bilhões e, no final do contrato, essa redução ficará entre R$ 15 e 20 bilhões.

O Estado, com isso, cria o chamado espaço fiscal para buscar novos financiamentos – e, mesmo utilizando-o, não aumentará o seu endividamento. De 1997 a 2010, o Rio Grande do Sul não acessou qualquer financiamento, porque devia acima do limite. O crescimento da receita no período recente permitiu acesso a algumas operações de crédito, mas é agora, com a aprovação do PL 99, que o RS abre um horizonte para planejar o seu futuro, especialmente investindo em infraestrutura capaz de colocar o Estado numa trilha de desenvolvimento econômico sustentável.

Passamos agora para um período de transição, saindo de uma época de Estado endividado, sem investimento e sem perspectiva de pagamento da dívida, para uma fase em que é possível trabalhar com uma dívida pagável e com uma margem importante de investimentos com recursos próprios. Se pode, com isso, num prazo médio, prever, finalmente, um Estado com contas equilibradas, sem comprometimento dos investimentos sociais e com infraestrutura – para um indispensável crescimento econômico acima da média nacional. Procurando assim, compensar um período de 10 anos que sequer acompanhamos o crescimento brasileiro.

Acreditamos que, a partir de agora, o desafio para o Rio Grande do Sul deve ser manter o projeto de desenvolvimento econômico e social já iniciado neste governo.


*Secretário de Estado da Fazenda - ODIR TONOLLIER
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27 de novembro de 2014 | N° 17996
LUCIANO ALABARSE

PARA FUGIR DO ABISMO

“A cada 10 minutos, uma pessoa é assassinada no Brasil”; “Em 2014, nos meses de agosto e setembro, o desmatamento da Amazônia aumentou 122% se comparado aos mesmos meses de 2013”; “O contingente de nossos indigentes aumentou 3,7%: 10,08 milhões em 2012 contra 10,45 milhões de miseráveis em 2013”.

É como se existissem dois países à nossa disposição: um Brasil real e um fictício, maquiado ao sabor das circunstâncias. Matrix perde. Publicados nos nossos principais jornais, esses dados não são factoides eleitoreiros. Pelo contrário. São dados oficiais e constam de relatórios governistas. O abismo é logo ali.

Enquanto Marta Suplicy sai do Ministério da Cultura desejando que a presidente seja iluminada na escolha de sua nova equipe econômica, dona Eva Sopher continua em busca de recursos para terminar o Multipalco do Theatro São Pedro. Quando implementadas com seriedade, e em tempo hábil, políticas públicas perpetuam seus gestores.

E se há algo a esperar das novas autoridades estaduais da Cultura é que não tergiversem nem adiem a finalização desse extraordinário projeto. Deixem dona Eva, em vida, ver seu sonho realizado. Todos nós, gaúchos, merecemos o Multipalco. E merecemos, também, a finalização de todas as obras dos equipamentos culturais já em andamento. Devolver a potência cultural ao Rio Grande do Sul deveria ser meta e missão.

A falta de credibilidade intectual da classe política é fato. Por isso mesmo, a publicação de Radicalizar a Democracia, de Jairo Jorge, é um contraponto necessário à mediocridade dos nossos representantes legítimos. Emendei com O Círculo, de Dave Eggers. Distintos em gênero e alcance histórico, ambos demonstram preocupações relevantes em relação às mudanças sociais contemporâneas. O entusiasmo de um e a ironia do outro em relação às redes sociais, por exemplo, merecem ampla reflexão.


Tenhamos fé, dona Eva, que fé e pressão – na vida, na política e na cultura – não costumam falhar.
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27 de novembro de 2014 | N° 17996
PAULO SANT’ANA

Além do horizonte

Esses dias, cansado de olhar para o horizonte, resolvi dar uma chegada lá.

E o que encontrei lá no horizonte? Outro horizonte.

Assim são nossos problemas. Quando atingimos a solução para cada um deles, surge-nos outro.

Eu já estou cansado de saber que a vida não tem mesmo solução.

Quem nos designou para a vida sabia que estava nos atirando a um labirinto inescapável de encrencas.

Fui fazer, por exemplo, anteontem, uma ecografia abdominal total.

Quando busquei a prescrição junto ao médico, ele me disse: “Você quer mesmo saber de seus problemas abdominais? Está bem, mas depois não diga que não o avisei”.

Aquele experiente médico, com tantos e tantos anos de clínica, tem bem presente que basta buscar exames laboratoriais para encontrar uma encrenca.

Sei de pessoas que não vão ao médico e jamais farão exames radiográficos. Porque elas têm certeza de que basta procurar para achar.

Quando tiro sangue, e o dr. Gross, junto com o dr. Sarmento Barata, me dá requisições de exames, levo um maço delas até o laboratório e, ao buscar o resultado, já sei que haverá más notícias.

Lugar de más notícias é laboratório ou hospital. É ali, ao redor desses dois locais, que levamos os grandes sustos de nossas vidas.

Um amigo foi comigo ao hospital e lá me disse o seguinte: “É aqui no hospital que a bola está picando. De cada 10 quartos que existem aqui, em cinco vão morrer pessoas”. Vocês conhecem lugar em que mais morrem pessoas do que o hospital?

É preciso reconhecer, no entanto, que hospital é lugar ideal também para salvar pessoas.

A banca do jogo da sobrevivência e da morte paga e recebe. Rola a bolinha na roleta e sai o número da nossa salvação ou da nossa morte.

A vida nada mais é do que um cassino de apostas.

Nesse cassino, há um grande número de más notícias e um pequeno lote de boas novas.

É o que se convencionou chamar de sorte ou azar.


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27 de novembro de 2014 | N° 17996
L. F. VERISSIMO

Definição

Dependendo de quem você é, a que tribo pertence e que valores tem, suas referências são diferentes das do vizinho. O Garrincha, por exemplo, quando quis contar que estivera em Paris com a Seleção, não recorreu à Torre Eiffel, ao Arco do Triunfo ou ao Sena para identificar o lugar, como você e eu faríamos.

Disse “Aquela cidade em que o seu Feola caiu na banheira” (como todas as histórias sobre a inocência do Garrincha, esta também deve ser apócrifa, mas, como ensinou o John Ford, na dúvida, publique-se a lenda). Há alguns anos, por razões nunca explicadas, latas de leite em pó cheias de maconha foram dar numa praia do Estado do Rio. Muitas latas, contendo maconha da melhor qualidade – e era só pegar e levar.

Houve quem agradecesse a Deus pelo milagre, pois a origem de tanta erva só podia ser divina. E, até hoje, o ano de 1987, em que muitas outras coisas importantes aconteceram (Gorbachev começou a abertura na União Soviética, houve o acidente com o césio radioativo em Goiânia, morreram Drummond e Golbery, o Brasil derrotou os Estados Unidos no basquete etc.), é lembrado em certos círculos apenas como o ano em que deu maconha na praia.

Fiquei pensando no que eu escolheria como sendo emblemático dos tempos atuais. Um fato, uma pessoa, uma curiosidade que resumisse tudo o que estamos passando. Escolher a frase símbolo destes dias seria fácil: é “às favas com os escrúpulos”, dita pela primeira vez na reunião do alto comando do golpe de 64 que instituiu o AI-5. Os escrúpulos mandados às favas, então, eram quaisquer considerações de direitos humanos e processos democráticos – ou seja, qualquer frescura que atrasasse a ditadura.

Com o passar do tempo, os escrúpulos mandados longe adquiriram outros significados – ética, moral, honra, vergonha na cara –, e sua falta trouxe os escândalos em série que nos assolam. Frases podem definir eras – já se disse que a frase símbolo do século 20, o século dos campos de extermínio e das bombas nucleares, poderia ser “Estávamos apenas cumprindo ordens” –, mas só frases não satisfazem nossa necessidade de uma definição perfeita, pela qual vamos nos lembrar destes tempos para sempre. E acho que a encontrei.


A notícia saiu nos jornais sem muito destaque: membros do batalhão de elite do Exército que formam os Dragões da Independência foram pegos assaltando um posto de gasolina. Claro que a corporação não tem nada a ver com o comportamento de três ou quatro delinquentes, que serão castigados, mas a posteridade não vai querer saber disso: o lembrado será que houve um tempo no Brasil em que a falta de escrúpulos era tanta, que membros da guarda cerimonial da Presidência da República estavam assaltando postos de gasolina. Gente: Dragões da Independência!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014


26 de novembro de 2014 | N° 17995
PEDRO GONZAGA

CIDADES IMAGINÁRIAS

De dentro da Boca Maldita, vendo uns raros senhores que já não parecem capazes de vilipendiar ninguém, deixo-me estar em frente ao Café Avenida, pensando menos no que vejo e mais no que me dissera ontem o cronista Luís Henrique Pellanda: já não sai mais à rua aquele vampiro que antes raramente se avistava, o pai dos vampiros que se escondiam em cada esquina, em cada praça, no imo dos corações de tantos jovens curitibanos.

Muito do que imagino desta cidade vem de duas mãos cheias de contos perversos, humanos, cômicos, indomáveis, de Dalton Trevisan. Como leitor, me pergunto onde estarão os candidatos a Nelsinho, ou às variações infernais da “Ilíada doméstica” de Guerra Conjugal. Desapareceram.

Diante de mim está a cidade, bonita, mas fria, impessoal porque só podemos amar aquilo que somos capazes de imaginar criativamente. Sem Cervantes, a Mancha é só um pedaço de terra, sem o calafrio do prédio em que viveu a pessoa que nos revelou o fervor da carne, subsiste ali apenas alvenaria e vidro e impostos a pagar.

Vim a Curitiba para o festival Litercultura, onde me cabia apresentar o livro Todas as Cartas de Amor, do português Paulo José Miranda. Foi também o reencontro com um amigo que me foi trazido pela poesia, em 2011, quando ele, perdido em Porto Alegre e sem documentos, descobriu e apresentou o meu A Última Temporada.

Na casa afastada em que vive hoje, entre peixes e passarinhos, depois de muitas garrafas traficadas do Alentejo, comemos uma iguaria lusa chamada salmonete, um peixe pequeno, de cor rosada, que só aparece na primavera. No além-mar, o preço é proibitivo. Aqui, chamado de trilha, ainda é barato (até que crônicas como esta o inflacionem). Depois de frito, acompanha-o arroz de tomate, outra especialidade da terrinha.

Cidades que criamos. Taquara será sempre minha avó desperta às seis da manhã, à mesa, com seu cigarro e seus óculos de lentes garrafais. Curitiba, depois de Dalton, uns salmonetes que sabem a camarão e a caranguejo, enquanto dois poetas lembram de Du Fu, Li Bai e Marina Tsvetáieva.



26 de novembro de 2014 | N° 17995
PEDRO GONZAGA

CIDADES IMAGINÁRIAS

De dentro da Boca Maldita, vendo uns raros senhores que já não parecem capazes de vilipendiar ninguém, deixo-me estar em frente ao Café Avenida, pensando menos no que vejo e mais no que me dissera ontem o cronista Luís Henrique Pellanda: já não sai mais à rua aquele vampiro que antes raramente se avistava, o pai dos vampiros que se escondiam em cada esquina, em cada praça, no imo dos corações de tantos jovens curitibanos.

Muito do que imagino desta cidade vem de duas mãos cheias de contos perversos, humanos, cômicos, indomáveis, de Dalton Trevisan. Como leitor, me pergunto onde estarão os candidatos a Nelsinho, ou às variações infernais da “Ilíada doméstica” de Guerra Conjugal. Desapareceram. Diante de mim está a cidade, bonita, mas fria, impessoal porque só podemos amar aquilo que somos capazes de imaginar criativamente. Sem Cervantes, a Mancha é só um pedaço de terra, sem o calafrio do prédio em que viveu a pessoa que nos revelou o fervor da carne, subsiste ali apenas alvenaria e vidro e impostos a pagar.

Vim a Curitiba para o festival Litercultura, onde me cabia apresentar o livro Todas as Cartas de Amor, do português Paulo José Miranda. Foi também o reencontro com um amigo que me foi trazido pela poesia, em 2011, quando ele, perdido em Porto Alegre e sem documentos, descobriu e apresentou o meu A Última Temporada.

Na casa afastada em que vive hoje, entre peixes e passarinhos, depois de muitas garrafas traficadas do Alentejo, comemos uma iguaria lusa chamada salmonete, um peixe pequeno, de cor rosada, que só aparece na primavera. No além-mar, o preço é proibitivo. Aqui, chamado de trilha, ainda é barato (até que crônicas como esta o inflacionem). Depois de frito, acompanha-o arroz de tomate, outra especialidade da terrinha.


Cidades que criamos. Taquara será sempre minha avó desperta às seis da manhã, à mesa, com seu cigarro e seus óculos de lentes garrafais. Curitiba, depois de Dalton, uns salmonetes que sabem a camarão e a caranguejo, enquanto dois poetas lembram de Du Fu, Li Bai e Marina Tsvetáieva.

26 de novembro de 2014 | N° 17995
PAULO SANT’ANA

Das despedidas

Nem sei por que estou lembrando (ou melhor, sei bem por quê) dos versos inesquecíveis que foram bordão de toda a carreira de Francisco Alves, o Rei da Voz.

Os versos desta canção lendária tiveram autoria de Silvino Neto. Ei-la:

Adeus, adeus, adeus,

Cinco letras que choram

Num soluço de dor.

Adeus, adeus, adeus,

É como o fim de uma estrada

Cortando a encruzilhada,

Ponto final de um romance

de amor.

Durante cerca de 50 anos, Francisco Alves esculpiu no imaginário musical brasileiro esta pérola de canção.

Vejam como ela termina:

Quem parte tem os olhos

rasos d’água

Ao sentir a grande mágoa

Por se despedir de alguém.

Quem fica também

fica chorando

Com o coração penando,

Querendo partir também.

Da minha parte, tenho muita dificuldade para me despedir de alguém.

E, na verdade, tenho também grande embaraço ao me despedir de objetos que foram caros na minha afeição.

Verto lágrimas quando me despeço de uma pessoa, amada ou querida, assim como verto lágrimas quando me despeço de uma caneta, de um par de chinelos ou de um amigo.

Não consigo me despedir, sem chorar, de alguém a quem me afeiçoei, mas também estremeço quando me despeço de uma casa de onde vou me mudar, de um quarto de casa de onde vou me mudar, de uma rua, de uma empresa. Chorei quando bati a última coluna numa máquina de datilografia e ingressei no mundo dos computadores.

Para mim, despedir-me de um objeto ou de um instrumento que usei durante muito tempo não tem diferença de despedir-me de alguém com quem trabalhei, com quem convivi diariamente no trabalho, ou despedir-me, o que me aconteceu concretamente, de uma mulher que tinha sido mãe de meus dois primeiros filhos.

O mais constrangedor momento da vida de uma pessoa é quando ela tem de despedir-se de alguém ou de algo.


Como diz a canção que reproduzi acima, despedir-se de alguém é ver um pedaço da gente mesmo indo embora com a pessoa partinte.

26 de novembro de 2014 | N° 17995
J.A. PINHEIRO MACHADO

Sobre a grandeza e a miséria

No governo Prudente de Moraes (1894-1898), muitos aliados que o elegeram sentiram-se traídos pela atuação política do nosso primeiro presidente civil, inclusive o senador Pinheiro Machado, líder dos republicanos. Alguns descontentes, então, articularam um plano para depor Prudente e foram oferecer ao senador Pinheiro a chefia da conspiração, já apoiada pelo Exército, em prontidão, pronto para o golpe de Estado. Ele seria o presidente no novo governo. Entretanto, a reação do senador foi surpreendente. Embora desafeto e opositor de Prudente de Moraes, repeliu com severidade o plano dos amigos:

“Sou contra! Esse golpe de Estado vai ferir mortalmente nossa jovem República. Governos são passageiros. Mas as instituições são permanentes e, por isso, devem ser respeitadas, mesmo com os maiores sacrifícios”.

Os visitantes não se conformaram com a posição do líder e disseram que não poderiam voltar atrás: iriam em frente sem ele.

O senador ficou indignado: “Muito bem. Já que não querem atender à razão, fiquem à vontade. Podem ir tentar depor o governo. Eu irei, já, postar-me à entrada do palácio presidencial, como guarda da lei, em defesa da autoridade constituída, e ali cairei, cumprindo o dever republicano de defender a democracia”.

Só então os conspiradores recuaram e desistiram do golpe. “Foi uma aula de boa política”, reconheceu um deles, depois. Prudente de Morais continuou a governar, portanto, graças a Pinheiro Machado, que, mesmo contrariado com seus atos, optou pelo respeito ao Estado de Direito.

Pouco tempo depois, ocorreu um atentado contra o presidente Prudente, que saiu ileso, mas resultou na morte do ministro da Guerra, general Machado Bittecourt. Para surpresa geral, o presidente não hesitou em apontar o senador Pinheiro Machado como “suspeito número 1”, determinando sua prisão. Mas as investigações, em seguida, apontaram a evidente inocência do senador, que foi solto. Ficou clara a insólita “vingança”: o gesto anterior do seu adversário, impedindo o golpe de Estado e salvando-lhe o mandato parecia imperdoável. Causara desconforto ao orgulhoso Prudente de Morais. Toda a grandeza e toda a miséria da condição humana...

Esse fato reforçou o ceticismo do senador Pinheiro diante da gratidão das pessoas. Certa vez, alguém lhe contou que em São Luiz Gonzaga um vereador andava falando mal dele. O senador, surpreso, respondeu:


“Falando mal de mim? Mas como!? Eu nunca fiz nenhum favor a ele!”.

terça-feira, 25 de novembro de 2014


25 de novembro de 2014 | N° 17994
FABRÍCIO CARPINEJAR

Minha árvore predileta

Assim como crianças cuidam de cachorro ou gato ou hamster ou tartaruga, eu protegia uma árvore na infância.

Uma árvore toda minha. Uma árvore de estimação. O balanço significava minha coleira. Quando estava triste, andava sentado no balanço. Quando estava alegre, andava de pé no balanço.

Eu conversava com a árvore, ela me lambia de volta. Eu jogava um osso para o alto, ela pegava com a sua boca.

A ameixeira ficava no centro do pátio e me levava para os telhados dos vizinhos.

Era a proa de um navio, a cabine de um avião.

Era minha escada para assistir ao mundo de cima. Tinha um esconderijo no alto dela, um observatório privilegiado da movimentação da casa. No momento em que cometia um crime doméstico, quebrar um vaso ou responder aos pais com palavrão, me refugiava em seus domínios e não me mexia para não ser descoberto e posto de castigo. Eu me fingia de coruja, de pintassilgo, de sabiá.

Era minha torre de guerra, quando arremessava ameixas nos meus irmãos sem que eles percebessem. Já venci grandes batalhas em suas muradas e impedi invasões dos manos com artilharia pesada.

Era minha melhor amiga. Minha conselheira. Tomado de tristeza dos amores platônicos, fechava os olhos e ouvia sua sinfonia de folhas. Somente minha árvore era capaz de me acalmar – banhava meu rosto de vento e esperança, me fazia cócegas com sua penugem de flores.

Minha árvore latia para quem me incomodasse. E cantava para quem me amava.

Ela me ensinou a descascar frutas, a cuspir caroços longe, a me equilibrar com uma perna e não ter medo de altura, a cair com os joelhos flexionados.

Era meu escritório de poemas. Minha água-furtada. Meu assoalho no céu. Levava um bloco e caneta e escrevia cartas para as futuras ex-namoradas.

Dormi em minha árvore predileta várias vezes, sesteava com o barulho intermitente das cigarras.

Eu segurava sua cintura e ela me convidava para dançar, pisei em seus pés no começo e ela não se importou, não reclamou, disse para seguir a música de dentro.

Ela fazia aniversário em outubro, cinco dias antes de meu aniversário, sei que era de Libra, nunca descobri seu ascendente e sua lua.

Fui seu tatuador, talhei um coração com meu nome em sua madeira, com as datas embaralhadas de nossos nascimentos.

Ela assobiava no verão. Ela ria no outono. Ela chorava no inverno. Ela pedia minha ajuda na primavera, estava muito carregada de frutas e quase desmaiava. Eu comia tudo o que podia em uma única tarde para devolver sua leveza.

Não deixei que a mãe pendurasse a corda do varal em seus ombros. Ela era criança para trabalhar na lavanderia secando roupas. A mãe amarrava, eu ia lá e desamarrava. Durante dias, seguimos esta luta silenciosa, este cabo de força, e acabei vencendo. Ela me agradeceu com um balão azul que apanhou com seus galhos de alguma festa perdida.

Levava minha árvore a passear pelo bairro com meu binóculo. Ela enxergava até a igreja São Sebastião, numa distância de um quilômetro.

Minha árvore adoeceu quando completei 10 anos. Teve o câncer de árvore, chamado de broca pelo adultos e de ferrugem pelas crianças. Sua madeira apodreceu. E perdeu seus braços e ficou apenas um tronco podado, uma estaca, uma cruz no pátio.


Minha árvore morreu de pé, como uma guerreira. Morreu ainda me esperando para o último abraço.

25 de novembro de 2014 | N° 17994
ARTIGO - SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.

SOBRE O IMPEACHMENT E OUTRAS ADJACÊNCIAS

Se o mensalão foi uma marolinha, o chamado “petrolão parece ser um tsunami. A cada dia, a gravidade do fato se avoluma, assim como cresce, em progressão geométrica, o numerário desviado; o que, no início, parecia ser humildes R$ 10 bilhões, agora já está para lá de multiplicado; peixes pequenos, em delação premiada, se comprometem
a devolver milhões, cavados e escondidos em contas secretas pelo mundo afora;
todavia, o mais eloquente estouro ainda está por vir, pois o grand finale ficará com o núcleo político do impressionante esquema criminoso.

Diante da complexidade dos delitos constatados, é natural que o tema do impeachment seja publicamente discutido, tendo-se em vista que muitos dos fatos arrolados ocorreram nas barbas do Planalto. Afinal de contas, os anjos que estão na Petrobras não caíram do céu; muitos foram nomeados por indicação política, tendo íntimas relações com o poder. A intimidade era tanta, que chegou a ficar promíscua na última potência da corrupção. E, sabidamente, a promiscuidade política, cedo ou tarde, bate à porta para cobrar o preço do almoço grátis.

Aqui, é importante frisar que, mesmo que não haja nenhum tipo de vinculação penal direta e objetiva, o processo de impeach- ment poderá seguir o seu curso constitucional. Isso porque o impedimento do governante é uma sanção política a cargo do Legislativo, diferenciando-se de eventual processo criminal de titularidade do Poder Judiciário. Como bem aponta Lawrence, o impeachment “não visa punir deliquentes, mas proteger o Estado”. E uma das causas que autoriza a instalação do processo de responsabilidade política no Brasil é a prática de atos contra a probidade na administração (art. 85, V, CF/88).

Assim sendo, uma vez comprovados os lamentáveis fatos do malsinado “petrolão”, o impeachment poderá acontecer por simples consequência da lei. Em sua insuperável monografia sobre o tema, Paulo Brossard, com o traço de sua intelectualidade superior fruto de sua experiência humana poliédrica, bem coloca que a sociedade “tem o direito de desfazer-se do governante que lhe malfez”. Ou seja, existem malfeitos que fazem tanto mal, que precisam ser politicamente extirpados. Ainda é cedo, mas é preciso falar antes que seja tarde. Ou será que o pus da corrupção é tão denso, que inamovível?


Advogado - SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.

25 de novembro de 2014 | N° 17994
EDITORIAL ZH

MAIS PROTAGONISMO, MENOS HESITAÇÕES

O Planalto precisa sair do imobilismo e tomar as decisões que o país aguarda em casos como o da Petrobras e da definição da equipe econômica.

São legítimas e democráticas as pressões dirigidas ao governo por políticos aliados e da oposição no momento em que a presidente Dilma Rousseff, acuada pelo escândalo da Petrobras, hesita na definição do ministério para o seu segundo mandato. Integrantes do PT criticam abertamente os nomes indicados para os ministérios da Fazenda e da Agricultura, por considerarem o senhor Joaquim Levy e a senadora Kátia Abreu muito comprometidos com o mercado e com a elite ruralista e pouco com as políticas sociais das administrações petistas.

Ao mesmo tempo, lideranças oposicionistas no Congresso ameaçam o governo com CPIs e até mesmo com a possível abertura de um processo de impeachment exatamente quando o Planalto tenta aprovar um projeto que altera a meta fiscal, iniciativa com potencial para gerar intranquilidade em relação ao cumprimento de compromissos da dívida pública. O pano de fundo desta situação desconfortável para o governo continua sendo a investigação das irregularidades bilionárias cometidas na Petrobras.

O que pode fazer a presidente em meio a esse bombardeio? Pode – e deve – assumir o protagonismo que o país espera dela, cumprindo os compromissos de transparência e combate à corrupção que assumiu na recente campanha eleitoral.

No caso da Petrobras, já não basta alegar que as instituições fiscalizadoras, especialmente a Polícia Federal e o Ministério Público, nunca tiveram autonomia para fazer o seu trabalho. Ora, isso não é concessão do governo – é uma garantia constitucional que o Executivo sequer pode reivindicar. O que se espera da presidente Dilma Rousseff é que mexa imediatamente no sistema de governança na estatal, a começar pela substituição da presidente da empresa, que não conseguiu promover a depuração planejada nem combater a promiscuidade entre empreiteiras e dirigentes políticos.

Sobre a equipe econômica do governo, não há mais margem para hesitações. Depois da negativa do primeiro convidado para o ministério da Fazenda, senhor Luiz Carlos Trabuco, um outro recuo seria danoso demais para o mercado. Cabe à presidente, portanto, enfrentar as resistências ideológicas e confirmar logo os nomes anunciados extraoficialmente, até mesmo para que os escolhidos comecem a planejar o que farão para tirar o país da crise.


O Planalto precisa sair do imobilismo e tomar as decisões que o país aguarda em casos como o da Petrobras e da definição da equipe econômica.

25 de novembro de 2014 | N° 17994
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

EU VI O ZEPPELIN!!!

Como nasci antes da televisão e do liquidificador, permito-me arriscar os comentários que seguem. Afinal, essa geração que não pode passar cinco minutos sem mandar uma mensagem sem assunto para alguém que mal conhece, essa geração que não pode passar 10 minutos sem fotografar o gato da vizinha ou o prato de comida à sua frente, essa geração que não sabe viver sem a tecnologia que garante o triunfo das redes sociais, iPad, iPed, iPid, iPod, iPud, tablet, netbook, nanochips, WhatsApp, Facebook, Twitter, Instagram, smartphone, MP4 e por aí afora, essa geração que namora apertando as teclas do celular, essa geração precisa se dar conta de que não seria nada sem uma série de pequenas conquistas que foram dando forma à humanidade, facilitando a vida das pessoas, modernizando hábitos que eram, às vezes, rudes, difíceis, penosos.

Já pensaram o que era transformar legumes e frutas em sopa, purê ou suco antes do liquidificador? Já pensaram o que era fechar a braguilha antes da existência daqueles dois cadarços com dentes de metal ou de plástico que se encaixam por ação de um cursor em forma de Y? É disso mesmo que estou falando, do zíper.

E tem mais. Muito mais. A fita durex, a caneta esferográfica, a calça jeans, o sabão em pó, a sandália havaiana, a cueca boxer, o relógio digital, as fotocopiadoras, o xerox e centenas e centenas de outras pequenas descobertas que vão melhorando cada vez mais a vida da gente.


O mundo, portanto, não se resume a Skype, Tinder, Pinterest, Tumblr, Baboo, Microchip, YouTube, wi-fi, Shuffle e nem os deuses sabem o que mais. Tem também o ar-condicionado, o papel higiênico, o Band-aid, a luz elétrica, o café solúvel, o leite em pó, a fralda descartável, o fraldão e – ah! –, já ia me esquecendo, o Viagra, a maior descoberta da ciência nas últimas décadas, garantindo o poder dos homens e o prazer das mulheres. Mas como ninguém fala disso, faz de conta que eu também não disse nada.

25 de novembro de 2014 | N° 17994
MOISÉS MENDES

Irmãos

Um dia depois de perder o irmão, Duca Leindecker respondeu às perguntas repetidas aos que precisam dizer que, sim, continuam vivos. No sábado, ele disse que a banda dele e do irmão Luciano, a Cidadão Quem, não existe mais. “O que segue agora é a música; a banda, não.”

O que pode seguir em frente depois da morte de um irmão que é seu grande parceiro, mesmo quando existe a arte? O irmão de Mingo, do conto de Eduardo Galeano, por exemplo, recebeu a missão de ir embora de onde morava. Deveria viver, perto do mar, tudo o que o irmão morto não vivera.

Li que Luciano era um cara sempre alegre, que sabia que poderia morrer a qualquer momento, mas continuava divertido. Meu irmão também era assim. Como o Mingo do conto de Galeano, meu irmão morreu num acidente. Moacir tinha 31 anos, um a menos do que eu. Era tão divertido o meu irmão, que eu me constrangia de tentar acompanhá-lo nas palhaçadas da infância e da adolescência. Não havia nem como tentar imitar seu talento para divertir.

Adulto, continuou palhaço. Quando ele morreu, me agarrei a um consolo. Como ele foi na frente, e sempre andava na frente, não temo mais nada que possa existir depois da morte.

No sábado à noite, pensando na frase de Duca sobre Luciano, peguei a estrada e fui a Novo Hamburgo ver Hique Gomez no Tãn Tãngo, no Teatro Feevale. Era a gravação do DVD do show, dirigida pelo Aloisio Rocha.

Ao final do espetáculo, nem pensei no que andam dizendo sobre a banalização dos aplausos em pé. Quando me dei conta, eu e mil pessoas havíamos levantado. Algo poderoso nos impulsionou para cima.

Ainda não tinha assistido a Tãn Tãngo, era um retardatário. É uma das coisas mais bonitas que vi no século 21. Piazzolla, Hugo Díaz, Santaolalla, Bajofondo, todos circulam por ali. Hique é sutil no virtuosismo como músico e faz humor na medida. Mistura a Tropicália de Caetano com a Buenos Aires Hora Cero de Piazzolla. Pega os Beatles e transforma Eleanor Rigby em tango.

Crianças do coral do Instituto de Educação Ivoti arrepiam a gente na canção dedicada à Legalidade. E como é bela a trilha (com as imagens do filme) de A Festa de Margarete, de Renato Falcão.

Tem o bandoneon encantado do uruguaio Carlitos Magallanes, tem Filipe Lua, o cara que toca tudo (aquela gaita de boca!), Dunia Elias no piano e nos teclados, Everson Vargas no contrabaixo, as participações especiais de Liane Schuler (harpa) e Camila Sprandel (vocal) e os bailarinos Valentin Cruz e Marlise Machado.

Quando o violino de Hique chorou, na homenagem a Guedali, o centauro de Moacyr Scliar, também dei uma choradinha.

Todos merecem ser citados. O Claudio Ramires, da direção de arte, a Heloiza Averbuck, que ilumina, o meu amigo Rique Barbo, que comanda a técnica de projeção das imagens, e a Marilourdes Franarin, que produz.

Hique dedica o show a Nico Nicolaiewsky, o parceiro de 30 anos de Tangos & Tragédias.

É também por isso que Tãn Tãngo nos comove. Porque Hique é um sobrevivente da morte de um irmão de arte.

O que se vê é o vigor de um cara que a tragédia partira ao meio e que foi salvo pelo palco.

Sem Nico, não há mais Tangos & Tragédias. Mas há como levar adiante o espetáculo que já existia antes da morte do parceiro e que se revitalizou sob a inspiração da memória de Nico.


A última imagem no telão mostra um Nico sorridente. Tãn Tãngo é a arte que segue e nos mantém vivos. E que arte.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014


24 de novembro de 2014 | N° 17993
EDITORIAL ZH

DESENVOLVIMENTO COM MORALIDADE

Vamos desenvolver o país, sim, mas é preciso, ao mesmo tempo, depurar a administração pública e interromper a drenagem de recursos oficiais para o bolso dos espertalhões.

Ninguém questiona a preocupação do governo em sugerir uma agenda positiva para mudar o rumo do noticiário, hoje centrado no escândalo da Petrobras. O país não pode mesmo ficar paralisado. Mas também não dá para aceitar que o anúncio dos futuros comandantes da área econômica e de algumas medidas pontuais possa encobrir a megacorrupção descoberta na maior estatal do país.

As duas frentes devem ser tocadas paralelamente. O Brasil deve andar, a economia tem que ser revigorada e as instituições precisam continuar funcionando. Mas nada disso pode pressupor impunidade, ainda que o custo possa se revelar elevado num primeiro momento.

Antes mesmo de informações estarrecedoras começarem a vir à tona a partir das delações premiadas, a economia brasileira já se mostrava estagnada. Em consequência, o país começou a registrar sinais preocupantes em sua contabilidade pública. O principal deles é a queda do superávit primário, valor reservado para os compromissos com os credores, que, do equivalente a 2,71% do Produto Interno Bruto (PIB) no acumulado em 12 meses em janeiro de 2011, caiu para 0,6% em setembro último.

O cenário incerto levou o Planalto a recorrer ao Congresso na tentativa de atenuar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que pode alterar a visão do país por parte das agências de avaliação de risco e atemorizar investidores.

Se a situação econômica e financeira já era difícil, o detalhamento do esquema fraudulento na Petrobras amplia ainda mais as preocupações, o que vai exigir ampla liberdade de atuação para a nova equipe. Contratos de projetos importantes para o país, hoje sob a responsabilidade de grandes empreiteiras, precisarão ser suspensos ou mesmo refeitos. Muitas empresas que nada têm a ver com o caso também serão prejudicadas. Os danos, portanto, se estendem em cadeia, atingindo trabalhadores e um ritmo de atividade que já era baixo.

Ainda assim, não tem como ser diferente. Os brasileiros já cansaram de ver falcatruas impunes sob o pretexto de que sempre foi assim e de que todo mundo faz. Não. Vamos desenvolver o país, sim, mas é preciso, ao mesmo tempo, depurar a administração pública e interromper a drenagem de recursos oficiais para o bolso dos espertalhões, sejam eles agentes governamentais ou privados.



24 de novembro de 2014 | N° 17993
“FOI POUCO TEMPO MAS VALEU”

O adeus ao Cidadão Luciano Leindecker

BAIXISTA DA CIDADÃO QUEM, morto na sexta, será lembrado por contribuições à música gaúcha

A marca de Luciano Leindecker, músico que morreu na última sexta-feira vítima de mieloma múltiplo, um tipo de câncer na medula óssea, era o baixo da Cidadão Quem.

– Ele começou tocando baixo com o (irmão) Duca quando tinha uns 16 anos na Leindecker, que foi o embrião da Cidadão Quem – lembra o atual baterista da banda, Claudio Mattos.

Emocionado, ele contou que conhecia o “Alemão” há mais de 30 anos:

– O Luciano tinha uns 13 ou 12 anos. A gente ouvia muito Van Halen. O Alemão era mais erudito, gostava muito de música instrumental.

Como baixista, teve vários bons momentos. Mattos destaca os shows no Festival de Verão de Salvador e no Rock in Rio, ambos em 2001, como marcas da trajetória do amigo.

Para além do rock e da banda que o consagrou, o músico de 42 anos tinha outras tonalidades musicais. Tocava baixo acústico, violão, violão de sete cordas e piano.

– Ele também criou um instrumento de cordas, o Quince, que é uma espécie de bandolim.

O motivo da criação do Quince, segundo um depoimento gravado no YouTube, foi para dar de presente para o irmão e grande parceiro musical, Duca Leindecker.

Luciano tinha algumas composições na Cidadão Quem, mas era com a banda Mani Mani que vinha desenvolvendo outra vertente musical.

– Foi com esse projeto que ele abriu o show do Fito Paez no Araújo Viana, no ano passado – lembra Mauro Borba, radialista e diretor da Ulbra TV e da Rádio Mix, que entrevistou o músico dezenas de vezes ao longo da carreira.

Na Mani Mani, trio no qual era acompanhado por Paulo Inchauspe e Caio Girardi, ele passou a dar vazão a outras partes da criação musical.

– Em 2009 e 2010, conversamos bastante, a Cidadão tinha dado um tempo, e ele começou a tocar violão também. Dividíamos as composições. Dá para dizer que 50% eram minhas e 50% eram dele – diz Inchauspe.

O parceiro da nova banda lembra que ele tinha referências como Beatles, Paul McCartney e Jaco Pastorius:

– Mas ele era plural. Era um baita profissional.

No início da carreira, Luciano chegou a trabalhar como modelo profissional e participar de diversas campanhas publicitárias. A vida dele, contudo, era a música.

– Chegaram a convidá-lo para trabalhar em Nova York, mas ele recusou a oportunidade por causa da banda – resume Claudio Mattos.


claudio.rabin@zerohora.com.br