quinta-feira, 28 de dezembro de 2017


28 DE DEZEMBRO DE 2017
ARTIGO

MENSAGEIROS PRESOS


Revidar com a expressão fake news para desmerecer o noticiário apurado e editado por jornalistas e veículos profissionais é o novo efeito perverso da difusão de inverdades via redes sociais e grupos de WhatsApp. Se 2016 foi o ano em que se acordou para a doença das notícias falsas, em 2017 a epidemia de desinformações fabricadas em ritmo industrial se espalhou em escala planetária. Contribui na disseminação o fato de governantes - e Donald Trump é apenas o mais notório - carimbarem agora como "notícias falsas" o noticiário que lhes causa dissabor.

A distorção sobre a real natureza de notícias propositadamente falsificadas alimenta regimes autoritários mundo afora. Depois da tentativa de golpe na Turquia, o governo de Recep Erdogan dispensou a maquiagem de democracia, brandiu o discurso das fake news e se tornou campeão mundial de prisões de jornalistas, com 73 atrás da grades. Em segundo lugar, está a China, com 41 presos.

Segundo o CPJ, nunca tantos jornalistas estiveram na cadeia desde o início do censo, em 1992. O recorde reflete uma era de valores revirados: profissionais da verdade são aprisionados com crescente frequência enquanto os profissionais da falsificação ganham dinheiro e poder com seu trabalho sujo.

Só há uma vacina contra a epidemia - e ela não virá de governos incomodados pelo noti- ciário independente. O antídoto está no reconhecimento de jornalistas e meios de comunicação como as fontes mais confiáveis de notícias. Mesmo que nem sempre sejam precisos, jornalistas e veículos profissionais vivem do acerto e da pluralidade, e não do erro e do sectarismo, como a verdadeira praga das notícias falsas e das bolhas de ódio nas redes.

Presidente da Associação Nacional de Jornais e vice-presidente Editorial do Grupo RBS 

MARCELO RECH


28 DE DEZEMBRO DE 2017
L.F. VERISSIMO

Perdão

A turma da Lava-Jato tem razão em estar chateada com os indultos de Natal, com o Gilmar Mendes e com outras evidências de coração mole que desfaz o seu trabalho. São todos jovens idealistas que ainda não tinham deparado com uma antiga tradição nacional, a do brasileiro bonzinho. Estão descobrindo que o Brasil corrigiu Marx: aqui a História não se repete como farsa, se reinventa como farsa. E o tempo é um revisor camarada. Cada nova versão da nossa história é mais benevolente do que a anterior.

O tempo brasileiro é conciliador, não guarda rancor. Na verdade, não guarda nada. Quanto mais distante fica no tempo, menos conta o fato. O fato é neutralizado pelo tempo, emasculado como um gato. Quando finalmente desaparece por completo no grande sumidouro da memória nacional, pode ser recriado à vontade. O Collor decretou que sua deposição foi uma farsa. Ninguém o contradisse. Faz tanto tempo. Quem se anima a mergulhar no sumidouro para resgatar uma verdade hoje irrelevante?

A prisão do Maluf surpreendeu justamente por ser tão anacrônica. Maluf tinha uma estranha forma de impunidade, a que vem com o tempo camarada. Transformara-se, com o tempo, num corrupto folclórico, até simpático. E por que tocar num folclore, depois de tanto tempo? O cara já não pagou pelo que fez (segundo ele, nada) com os anos em que foi nosso corrupto-mor sacramentado? Mas o tempo brasileiro, cedo ou tarde, inocenta todo mundo. É só o Maluf esperar sua vez.

Essa garantia tácita de absolvição é um velho hábito do nosso patriciado. Nunca na história do país, mesmo com as oligarquias se entredevorando pelo poder e querendo a ruína do inimigo, alguém caiu totalmente em desgraça no Brasil. Desgraça profunda, irrecuperável, de se trancar no quarto e receber comida em marmita por uma portinhola, pelo resto da vida. 

O tempo brasileiro sempre assegurou a remissão. E aí estão vilões do passado represtigiados, corruptos repaginados, banidos reeleitos e ninguém envergonhado. Collor chegou à Presidência como símbolo de combate à corrupção, saiu da Presidência como símbolo da hipocrisia do poder e volta como símbolo da inconsequência de tudo isso. O que só prova o que ele disse, se não a intenção do que disse. Tudo é uma farsa.

É de se ver se daqui a 15 anos (eu não vou mais estar aqui, mas podem me contar depois) Lula e seus governos terão a mesma deferência que o tempo brasileiro dá ao nosso patriciado. Acredito que sim. Lula não quer outra coisa desde o seu primeiro mandato a não ser se legitimar como um membro confiável do clube que manda, com direito a todos os seus privilégios. Inclusive os do estatuto que trata do perdão implícito da História, não importa o que ele faça.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017


27 DE DEZEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Drácula, Lula e Frankenstein


Aqui onde estou, Vermont, na fronteira com o Canadá, a temperatura despenca velozmente para 28 graus Celsius abaixo de zero. Está tudo branco, tudo coberto de neve e, se você não dispõe de roupas apropriadas, não resiste cinco minutos na rua.

Lembro de quando cheguei a Boston pela primeira vez. Era janeiro, e vim municiado com minhas roupas mais quentes, com as quais enfrentava galhardamente o inverno gaúcho. Achava que bastaria, mas, assim que botei o nariz para fora, meu Deus! Era um frio de doer e, quando digo doer, não é força de expressão. Dói mesmo, como se você fosse espancado pelo ar que o cerca.

Corri à primeira loja de roupas, comprei meias da espessura do dedo indicador de Mike Tyson, botas Ugly tão impermeáveis quanto a zaga formada por Kannemann e Geromel, um casaco forrado com penas de gansos selvagens da Macedônia, gorro e luvas pesadas como a consciência dos políticos que administraram o Brasil nos últimos 15 anos e, finalmente, a capitulação de um gaúcho do IAPI: cuecões. Logo eu, que dizia não ser homem de usar cuecão.

Pois usei. Tenho usado. E tenho refletido sobre esse clima inclemente. Seríamos diferentes, nós brasileiros, se no Brasil fizesse frio assim. O clima infiltra-se no espírito do homem.

Há uma história da qual gosto muito e que cito sempre: a da criação de Frankenstein.

Um grupo de amigos estava reunido em uma casa nos Alpes Suíços no verão de 1816. Era para ser uma temporada de diversões ao ar livre, mas aquele ano ficou conhecido como "o ano sem verão" - não houve um único dia de calor em todo o Hemisfério Norte.

Retidos em casa, espremidos em frente à lareira, os amigos passavam o tempo se entorpecendo com láudano e propondo jogos uns aos outros. O anfitrião era o poeta Lord Byron, um bonitão famoso por suas grandes conquistas amorosas e sua pouca modéstia. Byron dizia que desde os tempos da Guerra de Troia nenhum ser humano havia sido tão disputado quanto ele - ou seja, o rapaz se achava a Helena de Esparta.

Motivado exatamente pelo ambiente sombrio daquele ano atípico, Byron propôs aos convivas uma espécie de concurso para apurar quem escreveria o melhor conto de terror. Ele mesmo pôs as mãos e a cabeça à obra e teceu poemas e contos de vampiro que, mais tarde, inspirariam Bram Stoker a conceber o romance Drácula.

Mas não foi Lord Byron quem venceu a disputa, e sim uma jovenzinha de 18 anos que era a mulher do poeta Percy Shelley. A moça se chamava Mary e, naqueles dias sinistros, montou, membro por membro, o apavorante Frankenstein.

Foi graças ao frio, portanto, que surgiram, quase ao mesmo tempo, os dois principais personagens de histórias de terror do Ocidente: Drácula e Frankenstein.

Conto e reconto essa história porque ela mostra como somos influenciados pelo ambiente. O que me dá a tentação de especular que tipo de povo seríamos se vivêssemos um terço do ano abaixo de zero.

O calor nos moldou. Dizemos de nós mesmos que somos malemolentes. Ou, no original, "manemolentes", de "mané mole". Mané que foi amolecido pelo calor, evidentemente.

Seríamos manemolentes e lenientes se precisássemos da ordem para sobreviver? Uma sociedade que vive em clima inóspito depende de que todos cumpram as regras. Alguém não faz a sua parte e outros morrem de frio.

Será a manemolência a explicação de brasileiros respeitáveis pregarem o desrespeito à Justiça, como estão fazendo tantos no caso do julgamento de Lula?

Tente esquecer que é Lula o protagonista, tente pensar apenas no despropósito que é um grupo político propor um "julgamento paralelo" de um réu simplesmente porque não aceita outra sentença que não seja a absolvição. Não é a contestação a um juiz, é a sabotagem de todo um sistema de Justiça, vindo da Polícia Federal e do Ministério Público, passando pelo juiz, chegando aos desembargadores.

É a virada de mesa, é o vale-tudo, é o desprezo às instituições por quem deveria defendê-las. É o fracasso da nação. Será fruto da irresponsabilidade tropical? Nosso clima quente é capaz de produzir monstros bem mais ameaçadores do que Drácula e Frankenstein.

DAVID COIMBRA

27 DE DEZEMBRO DE 2017
CENTRO HISTÓRICO

Forma de abordagem terminou em divergência e saída de secretária


Meses atrás, a situação no viaduto foi motivo de divergências entre a então secretária de Desenvolvimento Social, Maria de Fátima Paludo, e o prefeito Marchezan. Enquanto a defensora pública aposentada propunha a retirada de moradores de rua "com uma abordagem humanizada", seguida de revitalização da área, Marchezan insistia em uma proposta mais abrangente, para toda a cidade. 

Diante do entrave, Maria de Fátima resolveu deixar a pasta. Hoje, a secretaria está sob responsabilidade de uma gestora interina, que preferiu não comentar o assunto. O gabinete do prefeito não informou previsão de nomeação de novo secretário.

O trabalho iniciado sob o comando de Maria de Fátima, que era tratado como revitalização do monumento, incluía diferentes órgãos, como Fasc, Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), Guarda Municipal e Secretaria Municipal da Saúde. A desocupação também contaria com a presença da Defensoria Pública do Estado. Uma ação prévia chegou a ser colocada em prática, na qual pessoas em situação de rua que viviam no viaduto foram comunicadas sobre a desocupação e as possibilidades de encaminhamento.

Pessoas morando em vias da Capital não são novidade, mas números mostram que a situação tem se intensificado nos últimos anos. Um levantamento realizado pela UFRGS no ano passado mostrou que o número de pessoas em situação de rua na Capital aumentou pelo menos 75% de 2008 para cá, ultrapassando 2 mil.

A Fasc mantém 10 equipes que fazem abordagem social - a do Centro, além de ser maior, trabalha com horário ampliado.

27 DE DEZEMBRO DE 2017
ARTIGO

PREVENINDO-SE PARA UM ANO-NOVO FELIZ


Final de ano é época de confraternizar, de ficar com a alma mais leve. É quando nos tornamos mais relaxados, na expectativa de férias, de viagens e dos festejos que se avizinham. Infelizmente, também é neste período que o descuido toma conta da maior parte das pessoas, que, embriagadas no clima de solidariedade e de amor ao próximo que deveria permear as relações, acabam em decorrência da falta de atenção sendo vitimizadas pela criminalidade que aumenta significativamente neste período.

O último mês do ano é o que apresenta maior volume de circulação de pessoas e de valores em espécie. O número de festas, confraternizações e eventos se multiplica e em decorrência, maior tráfego de veículos. A equação é matemática e desfavorável à sociedade. Maior número de assaltos e de furto e roubo de veículos. 

De acordo com pesquisa realizada pela F-Secure, 25% dos brasileiros afirmaram que já tiveram o dispositivo móvel roubado ou perdido. Basta olharmos para o lado em qualquer ambiente público para se notarem pessoas de todas as idades hipnotizadas em seus smartphones acessando redes sociais, e-mails ou outros aplicativos. O problema é que os delinquentes também observam e assim, com suas vítimas desatentas, têm sua ação criminosa facilitada.

Para que se reverta esse quadro, inobstante mudanças que se esperam do poder público, cada um pode fazer sua parte. Maior atenção no trânsito, evitando paradas prolongadas em espera de embarque ou desembarque, evitar manuseio de dinheiro em locais com grande aglomeração de pessoas, e até o uso de telefone celular deve ser o mínimo possível. Precisa telefonar, acessar redes sociais ou usar aplicativos? Espere chegar em casa ou o faça em ambiente reservado, onde não esteja tão exposto. No carro dirigindo, nem pensar, nem no semáforo. No ônibus ou lotação? Melhor evitar, pois os delinquentes podem estar ao lado.

O ideal é redobrarmos todos os cuidados com nossa segurança, pois assim estaremos mais próximos das boas festas e de um Ano-Novo realmente feliz!

Coronel RR Brigada Militar e especialista em Segurança alberto@i2consultoria.com

ALBERTO IRIART



27 DE DEZEMBRO DE 2017
OPINIÃO DA RBS

OS FURA-FILAS DO SUS

Cada vez mais, os gaúchos precisam não só se negar a compactuar com irregularidades no atendimento na área de saúde pública. Devem também denunciá-las

Os elevados índices de prefeituras gaúchas envolvidas em fraudes no Sistema Único de Saúde (SUS) são preocupantes. Em grande maioria, os prejuízos são provocados por políticos e gestores públicos mais interessados em assegurar votos mediante barganha do que em contemplar quem realmente precisa de atendimento médico-hospitalar. Por isso, é promissor que o Ministério Público, a partir da criação de um grupo especial, venha apertando o cerco contra esse tipo de deformação.

Neste momento, há oito municípios com denúncias sob investigação, ao mesmo tempo em que outros 20 também estão na mira. Entre os desvios mais comuns, está a prática do fura-fila, mediante a qual gestores públicos se valem da criatividade para fazer com que seus protegidos passem na frente, assegurando atendimento imediato. Outra irregularidade frequente é a fraude contratual para desviar dinheiro público por meio de empresas do terceiro setor, como ONGs e Oscips.

Distorções como essas são inadmissíveis, mas estão disseminadas de diferentes formas por praticamente todo o Estado. Integrantes do Ministério Público supõem, inclusive, que a burla à ordem de chegada na fila ocorre em praticamente todos os municípios, embora só possa haver comprovação naqueles em que o hábito é praticado de forma contumaz. Quem mais perde são justamente pacientes habituados a esperar durante anos por uma oportunidade de atendimento, nem sempre em condições de chegar a tempo. Perde também o próprio atendimento em saúde pública, com a má destinação e mesmo o desvio de verbas que são historicamente escassas nessa área.

De alguma forma, as falhas existentes no SUS, com as longas demoras enfrentadas por quem busca atendimento especializado ou internação hospitalar, contribuem para dar margem a fraudes. É natural e compreensível que muitas famílias, diante de um integrante com problemas de saúde, se preocupem em fazer o possível para garantir-lhe atendimento. Ainda assim, nada justifica transgressões à ética e a adesão a práticas claramente criminosas.

Cada vez mais, os gaúchos precisam não só se negar a compactuar com irregularidades no atendimento na área de saúde pública. Devem também denunciá-las.

A fiscalização permanente e o rigor nas punições podem fazer com que esse tipo de crime diminua. Não há outra forma de garantir que o socorro prestado pelo SUS possa ocorrer sempre com imparcialidade, sem a nefasta interferência de interesses políticos.

27 DE DEZEMBRO DE 2017
CLÓVIS MALTA

Era uma vez


Se pensarmos que um dia, não muito distante, quase colocamos abaixo o Mercado Público de Porto Alegre, vamos entender melhor por que chegamos a esta situação de calamidade urbana. O prédio majestoso, que é a síntese da cidade, já tinha sobrevivido a todo tipo de catástrofe, de enchentes a incêndios. 

Conseguiu também resistir ao pedido de passagem dos carros, preservando a diversidade de seu público, as casas de artigos religiosos, o cheiro de peixe misturado ao de charque, de especiarias e de erva-mate, os locais percorridos por Lupicínio Rodrigues e até mesmo aquela inquietante cadeira na qual teria sentado Francisco Alves, pendurada na parede de um de seus bares boêmios.

O passado histórico fez do Mercado uma referência. A cidade à qual essa verdadeira fortaleza oferece de tudo é que não resistiu. Sumiu do mapa como boa parte da Rua Avaí depois da Primeira Perimetral.

Agora mesmo, vemos turistas de todo o Brasil e até do Exterior extasiados com os espetáculos de luzes de fim de ano em cidades serranas limpas e organizadas, para orgulho de seus moradores. Se Porto Alegre fosse escolher um local para as comemorações do Réveillon, como fazem todas as cidades com um mínimo de respeito aos seus moradores, escolheria o quê? As opções que não viraram tapume para sempre resumem-se hoje a um imenso matagal. Era uma vez uma cidade boa para se viver. Virou uma lenda para as futuras gerações.

Por onde quer que andemos pelas calçadas degradadas, ficamos com o temor de que o capim possa atingir logo a nossa altura. O asfalto esfarelou-se. O lixo esparrama-se pelo chão, e ali fica. As favelas de lonas pretas disputam os muros. Monumento vandalizado não passa mais por reparo - some, ou cai no esquecimento. As pichações sem controle contribuíram para a extinção do hábito de se renovar a pintura de prédios. A iluminação de rua faz pensar se os lampiões a gás do século 19 não seriam mais eficientes.

Tem quem não ligue e quem pense que sempre foi assim, que esse caos é igual em todas as metrópoles. Não foi, não é. Porto Alegre já teve ares de cidade europeia, mas não vivemos do passado. É hoje que precisamos aproveitá-la.

Quando alguém decidiu demolir o Mercado Público para construir uma avenida, Mario Quintana impôs-se com a lucidez da poesia em meio ao coro dos aficionados pelas escavadeiras. E onde vamos guardar os nossos fantasmas?, alertou. De novo, é possível que as saídas para preservar a "Cidade do meu andar", na definição do poeta, esteja não com os gestores públicos e políticos, mas com quem a ama de fato e com ela convive no cotidiano.

A capital dos gaúchos não tem mais um porto à sua altura. Não é mais alegre. Ao contrário do Mercado Público, deixou de acolher quem a admira, como fazemos com as visitas. Seu lema continua sendo Leal e Valerosa, fiel ao passado de bravura. Quando voltará, se é que vai, a ser o que diz seu nome?

CLÓVIS MALTA

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


26 DE DEZEMBRO DE 2017
POLÍTICA +

MILHÕES A PAGAR ALÉM DOS SALÁRIOS


Na última semana do ano de 2017, além de pagar parte do funcionalismo, o governo do Estado terá de quitar contas que há algumas semanas já deveriam ter sido liquidadas. Por isso e por outros fatores, ainda é dúvida quanto sobrará de dinheiro em caixa para os salários de dezembro dos servidores do Executivo.

Por enquanto, por falta de recursos, não foram repassados aos bancos os empréstimos consignados retidos na hora da quitação dos vencimentos nem a contribuição associativa para os sindicatos - juntas, essas despesas somam R$ 170 milhões. Também deverão ser creditados os valores da cota da saúde, de R$ 180 milhões, e as parcelas dos duodécimos dos poderes, de R$ 340 milhões. Outra conta a pagar que entra na tabela da Secretaria da Fazenda são os R$ 60 milhões a título de indenização por atraso no pagamento dos salários desde 2015 e do 13º de 2016, que também foi parcelado. A lei aprovada na Assembleia em novembro diz que esse valor deveria ser pago no mês subsequente.

Nesta semana, para cobrir esses gastos, que chegam a R$ 750 milhões (sem contar a folha), o Tesouro conta com recursos do ICMS (combustíveis, telecomunicações e energia elétrica), de cerca de R$ 450 milhões, e da antecipação do IPVA, de R$ 700 milhões (metade vai automaticamente para o município de origem da placa). Se o governo não furar a fila das despesas, a tendência é de que o valor a ser pago no dia 28 aos servidores públicos seja bem menor do que os R$ 1,6 mil do mês anterior.

Mais adiante, um provável alívio no caixa poderá vir da venda de parte das ações do Banrisul, transação anunciada no ano passado, mas adiada para março de 2018 devido às "condições desfavoráveis do mercado". O Piratini chegou a cogitar a possibilidade de arrecadar R$ 3 bilhões com a operação - previsão superotimista, segundo especialistas.

O governo do Estado também joga as fichas na adesão ao regime de recuperação fiscal com a União, porém, o dinheiro oriundo de empréstimo deve demorar a chegar.

Integrantes do time do ex-presidente Lula, Chico Buarque, Fernando Haddad, Lindbergh Farias, Eduardo Suplicy, Jaques Wagner e outras figuras públicas participaram, no sábado, de uma partida que inaugurou um campo de futebol frequentado por membros de movimentos sociais, em Guararema (SP).

A um mês do julgamento do ex-presidente pelo TRF4 no caso do triplex de Guarujá, o evento se transformou em ato político antes mesmo de se iniciar. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o juiz da partida, Juca Kfouri, avisou aos jogadores que poderiam chamá-lo de Juca Moro e que um "tal de Lula" já havia sido avisado de que começaria o jogo advertido. A cena foi uma referência a Sergio Moro e ao discurso de perseguição política entoado por petistas.

Ao ver Lula errar um pênalti, Kfouri deu-lhe outra chance. O ex-presidente acertou o segundo chute em direção ao gol e comemorou tirando a camisa, pretexto do árbitro para, então, expulsá-lo na primeira advertência.

Lula optou por não discursar durante o jogo.

LULA FUTEBOL CLUBE

DÉBORA CADEMARTORI


26 DE DEZEMBRO DE 2017
ECONOMIA

Está mais barato viver, como declarou Temer?

Presidente enalteceu resultados econômicos em pronunciamento na noite de Natal, mas análise da inflação mostra equívocos no discurso

Na noite de Natal, os brasileiros ouviram de Michel Temer que está mais barato comer, vestir e morar no Brasil. Em pronunciamento transmitido em cadeia de rádio e TV, o presidente exaltou números da lenta recuperação econômica observada em 2017, sem citar dados negativos, como o aumento do rombo das contas públicas. Preferiu ressaltar, em tom otimista, resultados que estariam sendo obtidos graças a sua gestão.

- O risco Brasil diminuiu e os investimentos estão de volta, a bolsa de valores registra alta após alta, o Produto Interno Bruto também. A safra agrícola quebra recordes, a inflação está abaixo do piso, a balança comercial atingiu um superávit histórico, a indústria e o comércio dão sinais claros de revitalização - enumerou antes de dedicar o espaço final da fala para defender mais uma vez a aprovação da reforma da Previdência.

Será que está realmente mais barato viver no Brasil, como disse o presidente? O público costuma reclamar que não sente o alívio de preços citado por Temer. Para tirar essa dúvida, vamos destrinchar o IPCA, indicador calculado pelo IBGE e que mede a variação nos gastos de uma família média brasileira.

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O arcebispo metropolitano, dom Jaime Spengler, criticou o pronunciamento de Natal de Michel Temer em entrevista ao Gaúcha Atualidade, ontem:

- Quem diz que a vida está mais barata não vive a realidade do nosso povo. A impressão que dá é de que vive em outra realidade. Olhando nossa situação de Porto Alegre, o número de moradores de ruas, o número de placas de vende-se e aluga-se, o comércio fechado, a vida parada, jovens sem perspectiva de um emprego digno.

O que mostra o IPCA

Está mais barato viver?

Olhando o IPCA acumulado de 12 meses, a inflação está em 2,94%. É baixa e fica abaixo do piso da meta do governo federal. No entanto, ainda aponta aumento de preços. Ou seja, não está mais barato, como disse Temer. Está, sim, aumentando menos o gasto de uma família padrão que se encaixa na metodologia do indicador.

Está mais barato comer?

Sim, está. Aqui, o presidente acerta. O grupo Alimentação e Bebidas, que engloba preços de alimentos para consumir em casa e também refeições na rua, acumula queda de 2,15%. É uma média, puxada bastante por alimentos in natura. A comida tem peso significativo no orçamento da família média brasileira e, portanto, também na metodologia do cálculo da inflação. Por isso, tem essa capacidade de segurar o índice apesar do aumento de outros itens importantes no orçamento.

Está mais barato vestir-se?

Não está. O grupo de despesa Vestuário acumula alta de 2,55% em 12 meses. Há variações sazonais, com quedas nas trocas de estação, por exemplo.

Está mais barato morar?

Também não, presidente. O grupo Habitação é destaque de alta, com elevação de 6,15% em 12 meses. Ou seja, mais do que o dobro da inflação média. Aqui, tem forte influência das contas de luz e do gás de cozinha.

E mais...

O presidente não falou, mas os grupos Saúde (+6,68%), Educação (+6,96) e Transportes (+4,31) também estão pressionando o bolso do consumidor. Há a disparada da gasolina, os reajustes assustadores dos planos de saúde e mesmo as mensalidades escolares com elevações superiores a 10%, ou seja, mais do que o triplo da inflação.

GIANE GUERRA

26 DE DEZEMBRO DE 2017
+ ECONOMIA - FREDERICO TRAJANO - CEO da Magazine Luiza

"Inovação é o grande diferencial na hora da crise"


Ele papou todos os prêmios de gestão em 2017. Sob seu comando desde novembro de 2015, a rede de lojas Magazine Luiza saiu do prejuízo para o maior lucro de sua história no terceiro trimestre deste ano - R$ 92,5 milhões. Foi 273% maior do que o mesmo período do ano passado. As vendas totais cresceram 27% no período. Até o resultado nas mesmas lojas físicas, sem contar novas, aumentou em 15%.

Isso que o forte de Frederico Trajano, ou Fred, como é conhecido, é o e-commerce. Foi o presente de Natal antecipado deste empresário de 40 anos que viveu o outro lado das sucessões familiares: o primeiro homem da linhagem a assumir os negócios, depois da tia Luiza e da mãe, Luiza Helena. Ele diz combinar características femininas e masculinas na gestão. E brinca com as diferenças políticas dele e da mãe, que chegou a ser cotada para ministra no governo Dilma.

Qual o segredo do sucesso?

Trabalhamos muito duro ao longo da crise, cientes de que iríamos passar por muita dificuldade. Quando existe uma crise, é ruim para você e para todo mundo. Se consegue enfrentá-la de maneira inteligente, pode se sobressair, ganhando mercado. O bolo diminuiu, mas você pode pegar uma fatia maior. Muita gente, em contexto de crise, tem agenda meio míope, só cortar custo, reduzir investimento, mandar gente embora. É legítimo para quem está com muita dificuldade e precisa sobreviver. Não critico. Em 2016, reduzimos a base de custos, tivemos de fazer ajustes de funcionários, mas tivemos agenda de inovação também. Muitas empresas deixam de inovar por reduzir investimento, quando, na verdade, inovação é o grande diferencial na hora da crise. Como meus concorrentes não fizeram, estamos abocanhando fatia maior de mercado.

Os cortes foram além na base?

Claro, a liderança tem de dar exemplo. Quem viaja de classe executiva tem de pagar de seu bolso. Cortamos e segue cortado. Se eu viajar de executiva, é porque paguei. Em 2015, ninguém ganhou bônus ou PPR. Ganhamos em 2016 e devemos ter em 2017.

De que tamanho foi a redução de quadro?

Chegamos a ter 24 mil funcionários em 2014 e fechamos com 19 mil em 2016. Nem tudo foi corte, porque há rotatividade muito grande em loja, cerca de 30% ao ano. Fizemos demissões em retaguarda, nos escritórios. Fechou vaga, a reposição era quase proibida. Ainda renegociamos todos os aluguéis, fizemos gestão matricial de despesas. Escolhemos 10 contas - como aluguel, energia elétrica, hora extra, taxa de cartão de crédito, frete - e fizemos força-tarefa. Também saímos de grandes para microtransportadoras. Por outro lado, investimos no e-commerce, no aplicativo de venda, e em tecnologia, que aumenta a venda e diminui custos.

Como foi essa experiência com microtransportadoras?

O e-commerce representou 30% do faturamento no terceiro trimestre. Está em R$ 4 bilhões, alta de 55%. Precisa ótima experiência de compra, tecnologia, mas principalmente entrega. Criamos uma rede de microtransportadoras, a Malha Luiza. Atende lojas físicas e e-commerce. Dei um celular a cada motorista para fazer traking (rastreamento) da mercadoria. Desenvolvemos um aplicativo para transportadores no Luiza Labs. Temos 1,3 mil empresas, em torno de 300 na Região Sul. Digitalizar o Brasil é um dos nossos propósitos. Como marca, queremos ajudar consumidores, parceiros e funcionários a entrar na onda digital. Também estou convertendo as lojas em shoppable distribution center, tornando-as minicentros de distribuição.

A sucessão acabou se tornando uma ascensão da minoria?

(risos) Sou totalmente minoria na empresa. Entre minha mãe e eu, teve um CEO de mercado, Marcelo Silva. Mas sou o primeiro integrante homem da família que assume a companhia. É uma responsabilidade enorme suceder a duas líderes carismáticas, empreendedoras. O conselho tem quatro mulheres, minha mãe cobra muito o empoderamento e está dando exemplo. Desenvolvi um pouco de alma feminina, porque a empresa tem o lado competitivo, que quer crescer e vencer, o masculino, mas tem o feminino de valorizar as pessoas, criar um clima de trabalho de harmonia, ter sensibilidade com a situação específica de cada indivíduo, não cobrar resultados de maneira míope.

Sua mãe foi muito próxima do governo anterior. Vocês têm divergências políticas?

Não, como ela, sou politizado. Nos preocupamos com o Brasil, não só com a empresa. O líder cidadão está mais em voga do que nunca. Aprendi isso com ela. A percepção em relação a minha mãe é um pouco equivocada, porque parece partidarizada, mas foi próxima de todos os governos. Alguns deram mais espaço do que outros. Ela não é radical em nenhuma posição partidária, não é contra a direita nem contra a esquerda, é aberta. Tem muitos empresários que têm rejeição à esquerda, ela não. Gosto desse jeito dela. Confesso que sou um pouco mais liberal, defendo um Estado menor. Ela é de um linha mais intervencionista, mas há respeito mútuo e diálogo produtivo. Debatemos sem esse radicalismo presente na política brasileira.

Você já disse que tem planos para a política. Quais são?

Quando me inscrevi para a faculdade, queria ser político. Era minha intenção original, mas a carreira seguiu para a linha corporativa. Meu foco está voltado para a companhia nos próximos cinco ou 10 anos. Esse sonho antigo pode virar realidade depois.

Magalu é um nome que está pegando. Haverá mudança?

Estou pensando em uma coexistência das duas marcas. A empresa se chama Magazine Luiza, mas pode chamar de Magalu. Estamos colocando Magalu em ofertas, merchandising, ações digitais e, com o tempo, tende a ficar mais importante, mas não vamos matar Magazine Luiza.

O que vê para 2018?

Sem dúvida vai ser um ano muito melhor na economia. É difícil encontrar alguém que não aposte nesse cenário. Mas divido em dois momentos: os primeiros dois trimestres, talvez o terceiro também, depois o quarto. Dependendo da eleição, a recuperação pode ir por água abaixo. Estou superotimista com o primeiro semestre. Existe um risco político não desprezível de entrar uma corrente populista, de esquerda ou de direita, porque para mim uma é tão perigosa quanto a outra. Qualquer visão longe do centro não reformista é perigosa, e esse cenário é provável.

Você tem planos de voltar ao Vale do Silício?

Não precisa ser mudança definitiva, mas quero criar um vínculo, ter um braço do Luiza Labs lá. O Vale hoje é como Paris na época do iluminismo, quando o mundo saiu da Idade Média para a Idade Moderna. E hoje a China é parada obrigatória em inovação no mundo. São dois polos de inspiração.

MARTA SFREDO


26 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

O quanto amo minha filha para entender a sua implicância

Minha filha hoje completa 24 anos.

Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.

Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.

Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.

Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.

Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem - eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.

Minha filha não atende às minhas ligações - depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.

Minha filha não sofre com os meus problemas - avisa que é para parar de drama.

Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.

Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.

Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.

Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando. Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.

Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.

Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência. Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.

A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.

Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.

Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.

CARPINEJAR

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017


Alfabetização requer mais do que só método, diz ganhadora do Jabuti

Luis Evo/Folhapress
Belo Horizonte, MG, BRASIL, 17-11-2017, 11:00h. Retrato da educadora Magda Soares, 85, em sua casa em Belo Horizonte. Ela é uma das maiores especialistas em alfabetização no país.(Luis Evo/Folhapress COTIDIANO) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Luis Evo
A educadora Magda Soares, 85, uma das maiores especialistas em alfabetização no país

Pouco antes de ter a aposentadoria compulsória na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o que ocorre aos 70 anos, a professora Magda Soares adiantou sua saída. Depois de décadas na docência e pesquisa, decidiu voltar às escolas públicas (onde começou a carreira) de forma voluntária.

Autoridade em pesquisas sobre alfabetização, ela atuou então em uma creche e, desde 2007, passou a coordenar um projeto de alfabetização no município mineiro de Lagoa Santa (a 35 km da capital), que veio a se tornar uma referência no país, com resultados superiores à preocupante média brasileira.

Aos 85 anos, sua última obra "Alfabetização –A Questão dos Métodos" (Ed. Contexto) recebeu o prêmio Jabuti de 2017 na categoria educação e, no início de dezembro, foi escolhido como o livro de não ficção do ano.

"A ideia é que esse livro alertasse quem forma o professor de que alfabetização é mais do que métodos", disse. Além de defender a articulação entre teorias e métodos para que se entenda o processo de alfabetização –e dessa forma, realizá-lo– Soares ressalta a importância da reformulação dos cursos de formação de professores e da Base Nacional Curricular (que define o que se deve aprender).
*
Folha - No livro, a senhora reforça a importância de pensar menos no método de alfabetizar, mas sim em alfabetizar com método. Por quê?
Magda Soares - A discussão na alfabetização sempre ficou na questão dos métodos. Qual usar? Qual é melhor? Fiquei 40 anos na universidade trabalhando com formação de professores e fazendo pesquisas, e a pergunta que me fazia era a seguinte: todo mundo dá o método, mas o método tem que estar com a base em teorias, em fundamentos. Mas cada método tem uma coisa certa aqui, mas nunca é tudo. Outro faz sentido pra outra coisa, mas não pra outra.

A alfabetização é uma questão complexa, que tem muitas facetas. E a tendência dos métodos é olhar um lado só, só uma faceta, e o objeto se perde. Nos anos 1980, fiz uma pesquisa longa para levantar toda a produção científica. Ninguém discutia o que é alfabetização. E sempre houve na área uma tendência, um partidarismo, de ser a favor a determinado método.

Quando falamos em uma criança alfabetizada, estamos falando do que exatamente?
Tudo se discute sem se pensar o que, afinal, é isso. Eu vejo dois lados importantes. Primeiro é o ponto de vista da criança, do desenvolvimento cognitivo. E por outro, um desenvolvimento cognitivo para quê? Para se apropriar de um objeto linguístico que é muito complexo. Fiz um capítulo sobre isso motivada sobretudo pela tendência de as pessoas quererem importar sucessos exteriores. Ah, porque os americanos já resolveram que o método fônico é melhor.

Mas olha a ortografia do inglês e olha a ortografia do português. No inglês, há uma relação muito complexa. Tem uma letra que representa vários sons, um conjunto de letras que representa vários sons. E vários sons que são representados pelas mesmas letras. É uma língua muito opaca. Na outra ponta, tem o finlandês. Cada letra um fonema, cada fonema uma letra. Aí dizem: "A gente tem que fazer igual na Finlândia", "as crianças se alfabetizam em seis meses". Está bom, mas a ortografia deles ajuda isso.

Essas línguas favorecem métodos mais homogêneos?
Sim. Porque você vai ensinar uma criança brasileira a se alfabetizar e tem uma mesma letra que pode representar diferentes sons. Ou diferentes sons serem representados pela mesma letra. O que não acontece no finlandês, que é uma ortografia transparente, registra exatamente os sons da língua. Não adianta buscar exemplos do finlandês, porque está alfabetizando num outro objeto. Então vamos trazer a experiência dos Estados Unidos, que tem uma produção de pesquisas enorme? Mas são ortografias completamente diferentes. A do português brasileiro é próxima da transparência.

O foco da discussão foi muito direcionado em o que fazer?
Sempre se considerou em ensinar a ler e escrever, se pensou nisso como método. No Brasil, a alfabetização sempre foi um problema da pedagogia. A partir de um certo momento os linguistas começaram a se interessar e isso no Brasil começou nos anos 1970, outro dia historicamente.


Só a partir disso começa ter uma produção significativa de linguistas olhando para "o que a criança faz com a língua". E, ao mesmo tempo, a psicologia cognitiva se voltou para o contrário: "o que a língua escrita faz com a criança". Dois campos que foram trabalhando isolados, e a pedagogia como um terceiro, dizendo: é preciso falar o que é pra fazer. E o pedagogo acaba isolado sabendo que vai pra sala de aula logo após a formatura.

A gente forma o professor, põe na sala e fala: "Alfabetiza essas crianças". Então ele diz: "Me dá uma cartilha, livro, uma receita". Acho que está mais evidente que só se pode discutir alfabetização conhecendo como o processo ocorre. É o processo cognitivo de crianças em determinadas fase de desenvolvimento para se apropriar de um objeto linguístico, de características próprias. Além das pesquisas, [o projeto de]Lagoa Santa me ajudou muito. Porque eu pude ver a coisa acontecendo, e tentar fazer com que as professoras não ficassem atrás do "que é que eu faço", mas atrás do "por quê".


A que a senhora atribui o sucesso em Lagoa Santa?
É um projeto baseado em teorias e de trabalho com as professoras. Nada foi artificial, é o pessoal da rede. Para atingir a rede toda, escolhi uma professora da sala de aula de cada escola. A primeira providência foi a base [curricular]. Falei: vamos pensar juntas quais habilidades que as crianças têm de adquirir pra aprenderem. Fiz uma versão, que chamamos de nossas metas, ano por ano. Discuti e me corrigiram muito.

A gente até leva em consideração avaliações externas, mas o que nos interessa são as metas que temos, e o que a gente está fazendo pra chegar lá. E não tem material pronto.

As pessoas nunca se perguntaram como se alfabetiza com qualidade. Entra numa tradição de repetir, porque só estão atrás de métodos. E o fundamental é alfabetizar com métodos, e isso significa que eu entenda o que estou fazendo. E aí muda enormemente quando se vê uma criança com dificuldade.

Como a senhora vê a oposição de pesquisadores que receiam uma escolarização adiantada na educação infantil?
Dizem que é forçar a criança, que nessa fase ela tem de ter campos de experiências. Bom, toda criança se desenvolve com experiências. Mas na educação, o que caracteriza as experiências é que elas são dirigidas para determinadas habilidades, conhecimentos que deve se adquirir. Mas não querem saber para onde a experiência vai, e acham que a alfabetização começa em uma determinada hora. 

As crianças nascem hoje no meio da escrita. Elas estão vendo escrita por todo lado, veem os pais, têm interesse. Toda criança pergunta "como é a letra?" "O que está escrito?".

Como vê a discussão sobre considerar o processo de alfabetização até o 2º ano ou até 3º ano do fundamental?
É uma discussão sem foco. É um processo que dura e vai acompanhando o desenvolvimento da criança. E não tem um momento que você fala: aqui eu posso começar a alfabetizar. Porque já começou há muito tempo. Ou então: aqui está alfabetizada. Ela se apropriou do sistema alfabético de escrita, mas ainda não é capaz de ler com fluência ou escrever um pequeno texto. Mas no 3º ano, ela já é capaz. E no 4º ano, está melhor. É contínuo.

Mas sobre o conjunto de conhecimentos que se divide até 2º ou 3º ano, para que a criança esteja autônoma para aprender outras coisas, inclusive se aprofundar na própria alfabetização. Quando faz sentido ter uma régua, avaliar o que é esperado?
Só se pode fazer isso com uma decisão política, não pedagógica. Com os professores que temos, com a formação, condições, as escolas, se a gente conseguir que no 2º ano as crianças tenham se apropriado do sistema alfabético, então vamos marcar o segundo ano. É política, aleatória. mas é importante não deixar solto, sem critério.

Ao mesmo tempo que as faculdades não dão atenção à alfabetização, quem vai para esse segmento são em geral professores iniciantes. É possível ser otimista quando o contexto é tão fragilizado?
Sem mudar a formação do professor, ao menos para educação infantil e séries iniciais, não vamos avançar. Uma esperança é que a base force os cursos a começar a preparar os professores para atender o currículo. As redes vão poder orientar melhor, e os livros vão ter que se organizar pela base.
*

Raio X

Formação
Graduada em letras, doutora e livre-docente (1962) em educação pela UFMG

Carreira
Professora emérita da UFMG. Chefia o Núcleo de Alfabetização e Letramento de Lagoa Santa (MG). Com "Alfabetização - A Questão dos Métodos" (Ed. Contexto), levou o Jabuti de livro do ano 

Musical 'O Rei do Show' entretém, mas peca na trilha sonora

O REI DO SHOW (The Greatest Showman) - bom 
DIREÇÃO Michael Gracey
ELENCO Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Rebecca Ferguson
PRODUÇÃO EUA, 2017
QUANDO: estreia segunda (25)*
A louvação a "La La Land" inseriu novamente os musicais no dia a dia de Hollywood. Há vários filmes do gênero em produção, e um deles, bem ambicioso, chega aos cinemas neste dia de Natal. "O Rei do Show" reúne elementos para cativar o público, mas falta ousadia para criar algo realmente deslumbrante. O filme tem conexões com dois recentes musicais de sucesso. Traz os compositores de "La La Land" (2016) e, encabeçando o elenco, o australiano Hugh Jackman, que se saiu bem em "Os Miseráveis" (2012).


Hackman mostrou um outro lado do ator marcado pelo papel de Wolverine na franquia "X-Men" ao cantar e dançar com desinibição em "Os Miseráveis". Comprovou o talento para musicais que já indicava em divertidas atuações no palco em números especiais para cerimônias de prêmios como Oscar e Globo de Ouro.

Mas "Os Miseráveis" parece um tanto antiquado, em sua concepção como musical da Broadway montado diante de câmeras. Falta fluidez e leveza para cumprir papel de diversão ligeira para cinemas de shopping. "La La Land" tem isso, ganhando certa "modernidade". Acaba se impondo como musical para a geração pós-MTV. É o musical favorito de quem não consome filmes do gênero.

"Os Miseráveis" tem cenas que evidentemente foram executadas com árdua determinação do elenco, resultado de muito ensaio e esforço coletivo. "La La Land" parece uma compilação de cenas de danças simples, dependentes do charme dos atores e não de suas habilidades técnicas.

"O Rei do Show", apesar de ainda exibir a marcação rígida e pesada dos antigos musicais, tem essa leveza e alterna coreografias quase acrobáticas com passagens mais tranquilas. Nesses momentos "suaves" é possível ver canto e dança de Michelle Williams, uma atriz sem dúvida talentosa, mas sem nem um cacoete para o musical.

Jackman interpreta P.T. Barnum (1810-1891), americano que se tornou célebre e rico ao praticamente criar o espetáculo musical moderno. Fez isso abusando de truques e fraudes. O circo de artistas "freaks" que ele montou, e é a narrativa central do filme, tinha mulher barbada, acrobatas siameses e gigante de 2,5 metros que eram totalmente falsos.

De família miserável, Barnum quer ser rico para confrontar o patrão milionário que humilha seguidamente seu pai. Depois de adulto, Barnum se casa com a filha do patrão, Charity (papel de Michelle Williams), e a leva para uma vida de pobreza.

Com talento real para o entretimento, ele erra bastante até conseguir emplacar o sucesso com seu circo. Mas mesmo o dinheiro, que o insere nos eventos das classes mais abastadas, não dá a Barnum uma acolhida entre os esnobes.
A obsessão do empresário por esse reconhecimento o leva a agenciar uma cantora sueca de ópera, vivida pela deslumbrante Rebecca Ferguson (do sci-fi "Vida"), num passo que pode comprometer seu casamento e seu circo.

As letras das canções servem como partes essenciais no roteiro, o que deixa a narrativa um tanto simplória, esquemática. É difícil para o público se envolver com a trama dramática sucessivamente interrompida pela música. E aí entra o defeito que não permite a "O Rei do Show" encantar totalmente: as músicas.

O que dizer de um musical em que o espectador deixa a sala sem cantarolar uma das canções da trilha? Benj Pasek e Justin Paul ganharam Oscar enfiando impiedosamente "City of Stars" no cérebro de todos que assistiram a "La La Land". Mas não repetem a dose em "O Rei do Show".

Por mais que Jackman esbanje simpatia e entrega no papel de Barnum, falta liga ao filme. Os nomes mais jovens do elenco são esforçados e têm raízes no musical. Zac Efron despontou em "High School Musical", hit da Disney, e Zendaya, outra cria da Disney, tem várias participações em videoclipes de estrelas como Beyoncé e Taylor Swift.

Michael Gracey faz sua estreia na direção, trazendo no currículo trabalhos como diretor assistente responsável por inserir efeitos especiais nos filmes. Essa bagagem técnica se reflete em ótimas fusões de cenas cotidianas dos personagens com sequências delirantes.

Mesmo assim, o filme deixa a impressão de que poderia ser espetacular nas mãos de um diretor que arriscasse mais. Talvez Baz Luhrmann, o homem por trás dos impactantes "Romeu + Julieta" e "Moulin Rouge". Gracey sabe o que faz, mas é comportado demais. Um pouco mais de ousadia poderia colocar "O Rei do Show" acima da média.