quarta-feira, 23 de setembro de 2026

22 de Setembro de 2026
NÍLSON SOUZA

A visitante de setembro

Como previu a poeta Cecília Meireles numa de suas primorosas prosas, a primavera chega hoje mesmo que ninguém saiba seu nome nem possua jardim para recebê-la. Os canteiros públicos da Leal e Valorosa estão tomados pelos chamados wind banners eleitorais, que prejudicam a visibilidade dos motoristas e expõem uma repetição perdulária de rostos photoshopados, mas, ainda assim, representam inegável avanço civilizatório na comparação com os antigos e poluidores cartazes de papel colados em postes e muros. Suportemo-los, pois.

Em breve, como compensação, teremos tapetes de pétalas coloridas nas calçadas da cidade, generosidade anual de ipês e jacarandás que resistem impassíveis às travessuras do menino do tempo ruim, apelidado de El Niño pelos pescadores do Pacífico sul-americano. Vem turbulência climática por aí, previnem os previsores. E todos nós, testemunhas e sobreviventes de catástrofes recentes, procuramos nos preparar para o pior em vez de apurarmos nossos sentidos para os perfumes, cores e gorjeios da nova estação.

Na orla do Guaíba, na zona sul da Capital, operários e máquinas construíram da noite para o dia uma verdadeira muralha da China de malha impermeável e telas de aço, recheada de areia. Nunca tinha visto nada igual. O rio ficou escondido atrás daquele enorme e estranho dique, observado com desconfiança pelos frequentadores do calçadão. Nos meus passeios matinais, já ouvi mais de uma vez o mesmo comentário de outros caminhantes:

- Não vai adiantar nada!

Espero que adiante. Na verdade, torço para que a cortina de areia nem seja testada, mesmo que isso possa frustrar seus idealizadores e os palpiteiros derrotistas. Prefiro mil vezes que a visitante de setembro assuma o seu protagonismo de sempre, atraindo nossos olhares e nossa audição para o colorido das flores, para o canto dos pássaros apaixonados e para o farfalhar quase silencioso das borboletas. Pode ser que o tal El Niño e esse nosso rio tão vilipendiado por aterros e apelidos também se distraiam com as belezas da estação e nos poupem de eventuais retaliações. Nenhum muro vai deter a primavera. _

NÍLSON SOUZA

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