Na ONU, Lula discursa para convertidos
Não sejamos ingênuos: política externa não dá votos. Nunca deu. O eleitor vota muito mais com a cabeça nos aspectos que influenciam o seu dia a dia - o preço dos alimentos, emprego, o atendimento à saúde e o combate à violência - do que pensando na agenda geopolítica de um país.
É claro que a guerra na Ucrânia afeta o preço do trigo, do milho e dos fertilizantes, e, consequentemente, o valor que se paga pelos alimentos à mesa dos brasileiros. Ou um ataque ao Irã e o fechamento do Estreito do Ormuz repercutem diretamente no barril de petróleo que, ato contínuo, chega à bomba do posto da gasolina.
Mas o eleitor geral não faz, facilmente, essa ponte. O empresário, o setor do agronegócio, o industrial o faz. Mas não muda seu voto por causa do discurso do presidente na ONU.
Aliás, a disputa eleitoral está tão calcificada, que, praticamente, nem uma hecatombe mudaria as posições do eleitorado. Dito isso, Lula discursou na Assembleia Geral, em Nova York, para convertidos: defesa da democracia, da soberania, alertas sobre interferência externa e a criação de zonas de influência globais.
Frase de efeito - Tudo isso não dá voto. Tampouco o resgate da expressão pejorativa da América Latina como "quintal" dos Estados Unidos. "Não somos quintal de ninguém", disse.
Uma frase de efeito, é verdade. Mas, quintal ou não, o Brasil sofre, como toda nação média, os efeitos de existir geograficamente no mesmo continente de uma potência hegemônica. Sofre as afetações de sua agenda geopolítica, para o bem e para o mal. Mas também se relaciona com tal potência, no nosso caso os Estados Unidos, ora com maior aproximação, ora com maior distanciamento.
No caso brasileiro, a cartilha da Casa de Rio Branco recomenda o pragmatismo em momentos de bipolaridade (EUA x China), como na atual esquina da História, o que exige malabarismo para aproveitar, segundo seus interesses, o melhor de cada lado.
No púlpito da ONU, Lula escolhe a desgastada estratégia de arregimentar a população contra o inimigo externo, no caso Donald Trump. Nem sempre dá certo.
Também não é certeza de vitória arvorar-se defensor da democracia em uma suposta guerra de civilização x barbárie. Hillary Clinton tentou contra Donald Trump em 2016. Não vingou. Joe Biden e, depois, Kamala Harris também tentaram em 2024. Perderam.
Eleições continuam sendo decididas muito mais pelo que acontece dentro de casa do que pelo que se diz no púlpito das Nações Unidas. O "quintal" que realmente importa no caminho para o 4 de outubro é o brasileiro.
Americano tenta aproximação com presidente
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, buscou uma aproximação com o presidente Lula e sua comitiva durante a Assembleia Geral da ONU, porém não conseguiu conversar com o brasileiro. O "quase" encontro ocorreu após o discurso do presidente no evento.
Lula caminhava acompanhado do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, do assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, Celso Amorim, e do tradutor Sérgio Ferreira. Imagens mostram Rubio tentando se aproximar do presidente em meio a outras pessoas. Em determinado momento, chega a esticar o braço em direção ao brasileiro, mas não consegue tocá-lo. Instantes depois, Lula e Vieira olham para Rubio.
O chanceler brasileiro inclusive dirige uma palavra ao secretário americano, porém, pelas imagens, não é possível identificar o que ele diz. Rubio, ao que parece, coloca a mão no ombro de Vieira. Nesse momento, a comitiva segue por um caminho, e Rubio não consegue conversar com presidente. _
Delcy Rodríguez em solo americano
Delcy Rodríguez, a presidente da Venezuela que assumiu após a deposição de Nicolás Maduro, está pela primeira vez nos Estados Unidos desde o bombardeio americano a Caracas, ocorrido em janeiro. Ela chegou a New Jersey na segunda-feira.
Ironicamente, ela está em Nova York, a mesma cidade onde Maduro está preso desde que foi capturado pelo governo de Donald Trump. A presidente se reunirá com Trump nesta noite. Seu discurso na Assembleia Geral está agendado para hoje.
Críticas ao Conselho de Segurança
O presidente Lula usou o seu discurso na ONU para falar sobre o papel da organização e teceu críticas ao Conselho de Segurança:
- Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir. _
O papel de Fachin no STF
O jurista e ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior disse que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, enfrentou uma "tropa de choque" durante o julgamento da última semana.
A fala do jurista, feita durante o programa Conversas Cruzadas, de GZH, na última segunda-feira, ocorreu no contexto da análise dos discursos dos ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino durante o julgamento.
- Ele (Edson Fachin) estava enfrentando uma tropa de choque. E tem agressividade junto com o Alexandre de Moraes e o Dino, que saiu atrás, batendo o bumbo de forma agressiva. A forma como foi feita foi um desrespeito à Corte, ao presidente, à Justiça. Aquilo não era lugar para tropa de choque. E isso é lamentável. Por isso que há um desânimo, um desconsolo, uma decepção correndo não só junto ao meio jurídico, mas junto à própria população - afirmou Reale Júnior.

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