sexta-feira, 6 de janeiro de 2017



06 de janeiro de 2017 | N° 18734
ARTIGOS

INSEGURANÇA E MOBILIDADE


A falta de segurança, particularmente no transporte coletivo, chegou a um limite abaixo do tolerável! Há algum tempo, os usuários do sistema estão deixando de utilizar ônibus devido a uma série de questões. Agora, a esta legião somam-se os que têm medo de serem assaltados. Arrastões e ônibus queimados viraram rotina em Porto Alegre.

Nosso sistema de transporte coletivo urbano remunera-se da avaliação de custos mais bonificações. Os passageiros equivalentes pagam este montante. Ora, se o número de pagantes diminui, o valor da tarifa é majorado. Ainda, se os assaltos aumentam, mais passageiros deixam de utilizar o sistema, formando uma “bola de neve”. Muitos continuam adquirindo motocicletas e mesmo carros, aumentando os congestionamentos. Está instalada a crise ou seria o caos?

A circulação de veículos do transporte individual está sujeita a roubos, furtos e mesmo latrocínios. Estamos minimizando o uso do carro por medo. Banais operações de entrar e sair de casa constituem um tormento.

A caminhada ao supermercado ou mesmo à padaria na esquina está menor. Ciclovias ainda são poucas, bicicletários também. A modalidade de deslocamento por bicicleta ainda é promissora.

Metrô é seguro? Não temos metrô – não adianta falar.

O que sobra para o deslocamento do cidadão para as necessidades básicas de trabalho, lazer, compras e ainda voltar para casa são e salvo? Ora, sobram internet, WhatsApp, Facebook, celular. Ah, podemos caminhar na esteira e trabalhar em casa ou simplesmente nunca mais sair de casa. Crise ou caos?

Quando discuto mobilidade com amigos, sempre me fazem a mesma pergunta: qual é a solução? Não tem solução, respondo. Da mesma forma, agora, quando estamos apontando questões desta mistura de insegurança x mobilidade, me vem a mesma resposta. Não tem solução – penso.

Encontramos nas mais diversas literaturas da área de transporte que é a partir das crises que encaminhamos ações que podem minimizar os problemas. No caos, tudo fica mais difícil, inclusive a mobilização dos gestores e da população.

Acho que devemos “passar a régua (ou borracha)” e reiniciar a discussão com novo diagnóstico, um planejamento factível, reserva de recursos, pessoal especializado, vontade política etc.

Ah, não posso esquecer a educação, uma vez que presos e assaltantes, em sua esmagadora maioria, não estudaram até o fim da sexta série.

*Engenheiro civil e doutor em Transportes/UFRGS - JOÃO FORTINI ALBANO*


06 de janeiro de 2017 | N° 18734 
CLÁUDIA LAITANO

Seu polícia

Homem abandonado pela namorada atormenta os vizinhos ouvindo música no último volume e avisa: só vai parar de beber e de incomodar a vizinhança quando ela voltar para casa. Mulher infiel apronta todas para o marido e é expulsa de casa. Esposa desconfiada dá um flagra no marido no motel e ameaça dar uma surra nele e na acompanhante. Parece prontuário da Vara de Família, mas é apenas um pequeno extrato dos temas presentes nas 10 músicas que mais tocaram no rádio em 2016. Brasil, o país da sofrência.

A enorme variedade de ritmos da música brasileira não está expressa na lista de mais tocadas no rádio já há alguns anos. Um único gênero, o sertanejo universitário, domina o ranking de alto a baixo, o que é ruim não apenas para quem não é fã do gênero, mas para toda a indústria musical. Variedade é riqueza cultural, e gosto é repertório: mais do mesmo só gera necessidade de mais do mesmo.

O sertanejo universitário se caracteriza por letras simples, refrões fáceis de lembrar e arranjos padronizados – em geral, as músicas acabam tão parecidas entre si, que poderíamos imaginar um único compositor, heroico, abastecendo toda a cadeia produtiva do gênero. 

A fórmula, aplicada à exaustão aos novos artistas que chegam aos magotes ao mercado todos os anos, conquistou corações e pistas de dança de forma surpreendentemente democrática: em um país tão desigual quanto o nosso, o ritmo atrai tanto os jovens que ralam para pagar o crediário do smartphone quanto os que vão e voltam da balada sertaneja dirigindo a pick-up do ano. Se você acredita que somos o que lemos (e o que ouvimos), talvez devesse parar alguns instantes para prestar atenção nas letras das canções que estão formando razão e sensibilidade de toda uma geração.

Escute, por exemplo, a música número 1 do ranking, Seu polícia, aquela do namorado abandonado que afoga as mágoas bebendo e ouvindo música alta, sucesso da dupla Zé Neto & Cristiano. A polícia aqui não é vista com desconfiança, como na canção dos Titãs (“Polícia/ Para quem precisa/ Polícia/ Para quem precisa/ De polícia”), ou como ameaça, como no rap dos Racionais (“Não confio na polícia”), mas como uma instituição anódina e potencialmente corrompível (“Seu polícia/ É que eu separei recentemente/ De paixão eu tô doente/ Será que o senhor me entende?”).

Sim, a gente entende. Sabemos o que costuma acontecer quando homens se convencem de que os próprios sentimentos são mais importantes do que o bom senso ou as leis que eles deveriam obedecer. Basta digitar “inconformado com o fim do relacionamento” no Google para descobrir como essas histórias costumam terminar.



06 de janeiro de 2017 | N° 18734
CONTO DO VIGÁRIO

O CASO DO FALSO PADRE

JOVEM DE 18 ANOS rezou missas e até ouviu confissões em Imbé, mas não era sacerdote
Na noite de Natal e na manhã seguinte, os fiéis católicos do balneário Presidente, em Imbé, no Litoral Norte, testemunharam duas das missas mais memoráveis já vistas na capela Santo Antônio de Pádua. Mas, na verdade, haviam caído em um legítimo conto do vigário: o padre responsável por conduzir as celebrações e tomar a confissão de vários fiéis não era um sacerdote de verdade, mas um jovem de 18 anos que se fez passar por religioso e desapareceu quando começaram a suspeitar dele.

Uma ocorrência de falsa identidade foi registrada na Polícia Civil de Imbé sob o número 60/2017.

– Não entendemos por que ele fez isso. Enganou todo mundo, mas não ganhou nada. A decepção entre a nossa comunidade está muito grande com esse fato, porque todos gostaram muito dele e das celebrações que ele deu – lamenta a coordenadora da capela, Vera Hahn, 62 anos.

IMPOSTOR ENCANTOU OS FREQUENTADORES

Tudo o que os devotos do balneário queriam era um padre para celebrar o Natal – o sacerdote que costuma tirar suas férias na localidade e rezar as missas durante parte do veraneio só chegaria alguns dias mais tarde. Surgiu, então, uma possibilidade que parecia caída do céu: um jovem supostamente recém-ordenado estava passando o final de semana na casa de um amigo seminarista a poucas quadras da igreja.

O seminarista, que referendou o falso sacerdote, assegura também ter sido enganado:

– Conheci o rapaz quando ele estava rezando uma missa em Criciúma, há algumas semanas, e ficamos amigos. Ele meio que se ofereceu para passar uns dias com a minha família aqui em Imbé e se prontificou a rezar as missas – lamenta o seminarista, que prefere não se identificar.

Os fiéis que lotaram os bancos sagrados se surpreenderam com o talento do moço – que afirmava ter 20 e poucos anos – ao desempenhar o papel de pastor de almas. Com uma batina emprestada pela própria igreja, recebia a população de braços abertos, dando boas-vindas à casa de Deus. Durante o sermão natalino, discorreu com esmero sobre o significado do nascimento de Jesus.

– Todos ficaram encantados. Até meu marido, que não gosta muito de missa, ficou comovido. Adorou – conta uma fiel que também prefere não dizer o nome.

Ao final da celebração, o pretenso religioso perguntou quantos dos presentes ali compareceriam outra vez à igreja na manhã seguinte, domingo, às 8h, para um novo encontro. Apenas um ou outro fiel ergueu os braços. O rapaz declarou:

– Não tem problema. Assim como Jesus disse que estaria onde houvesse duas ou três pessoas reunidas em nome dele, eu também estarei aqui por vocês.

Na manhã seguinte, cumpriu a promessa e comandou outra celebração. Familiar do seminarista que recebeu o falso padre em sua casa, uma costureira de 64 anos revela até ter se confessado com ele, a exemplo de outros frequentadores.

– Eu só estranhei um pouco quando fui pagar a penitência e me dei conta de que ele havia esquecido de me dar a absolvição. Me confesso a cada Natal, e agora minha confissão não teve validade. Me sinto muito decepcionada, porque gostei muito do moço. Sinto até pena dele, talvez sonhe ser padre – sustenta a costureira.

marcelo.gonzatto@zerohora.com.br

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017



05 de janeiro de 2017 | N° 18733 
DAVID COIMBRA

Para quem está sempre comigo

Agora, tenho que fazer uma homenagem a quem me acompanha sempre, nos momentos bons e nos ruins, a quem me distrai, me alegra e me conta as coisas do mundo, a quem me desperta pontualmente todas as manhãs, evitando que me atrase para o trabalho, a quem me mostra o caminho, quando me sinto perdido: o meu telefone celular.

Mais valor tem essa homenagem porque nossa relação não foi fácil. Como num filme romântico de Hollywood, no começo eu o desprezava. Sim. Confesso, envergonhado, que só fui aderir à telefonia celular depois dos 40 anos de idade.

Já era editor de Esportes de Zero Hora e o diretor de Redação, o Marcelo Rech, se irritava:

– Tu tens que ter um telefone, pra gente te achar a qualquer hora, se for necessário. A Marcinha dizia exatamente o mesmo. Para não perder o emprego e a mulher, adquiri, contrafeito, meu primeiro celular.

Mas continuei renitente, não me entreguei assim tão fácil. Foi só ESTE celular, que acalento agora mesmo em meus braços, que me conquistou. Chamo-o de Jorge. Porque, por algum motivo, ele me lembra meu velho amigo de infância, o veloz ponteiro-direito do Huracán e manemolente dançarino das pistas do Gondoleiros, Jorge Barnabé.

Curioso é que não o escolhi: ele me escolheu. Afinal, não fui à loja, não apontei para ele na vitrine e disse:

– É esse. Não. Foi me dado de presente pelo Professor Juninho, de segunda mão. Não usado, não velho: experiente. 

Aos poucos, fui me afeiçoando. Hoje, não vivo sem ele. Nele, jogo xadrez online. Nele, leio as notícias. Nele, ouço a Gaúcha. Nele, contemplo esse painel da alma humana do século 21 que é o Facebook.

Jorge é meu companheiro. Salve Jorge.

Entendo as pessoas que ficam o tempo todo olhando para seus celulares. Elas são criticadas, mas estão certíssimas: não há nada melhor para fazer. Levante a cabeça e observe o mundo em volta. Tudo tão igual. Retornemos rápido às redes, a fim de opinar sobre a polêmica do dia.

Por que conversar com uma pessoa em pessoa se você pode conversar por WhatsApp? Conversar pessoalmente é muito... pessoal. O interlocutor faz uma pergunta e você tem de responder de imediato. Por celular, você pode refletir um pouco, pode até consultar o Google, se tiver alguma dúvida. Então, sua resposta virá perfeita, redonda, impecável.

Você é mais sábio quando conversa por celular.

Namorar por celular, por exemplo. Tem coisa melhor? Você está ali, passando um xaveco por Whats na pretendida. Aí ela diz algo surpreendente, que é o que fazem as belas mulheres. Se vocês estivessem na mesa de um bar, ela veria sua expressão de imbecilidade, perceberia que você ficou sem resposta. Mas vocês estão conversando pelo agradável e higiênico modo virtual. Você pode copiar o diálogo e mandar para um grupo de amigos, consultando:

“Help! O que que eu faço???” Os amigos darão várias ideias, você escolherá a melhor e repassará para a inhugazinha. Ela, ao ler sua mensagem graciosa e inteligente, pensará:

“Que homem!” Gol do Brasil. 

Pare de falar mal das pessoas com seus celulares. O celular é nosso amiguinho.



05 de janeiro de 2017 | N° 18733
EDITORIAIS

GENTE RESPONSÁVEL NÃO MATA


Virou polêmica nacional a campanha do Ministério dos Transportes destinada a alertar motoristas sobre condutas perigosas no trânsito. Sob o slogan “Gente boa também mata”, as peças publicitárias procuram mostrar que as mesmas pessoas que plantam árvores, recolhem animais abandonados e fazem trabalho voluntário podem causar acidentes fatais quando usam celular ao volante ou cometem outras imprudências aparentemente inocentes.

Faz sentido. Cabe reconhecer que a campanha é oportuna, pela proximidade das férias e das viagens, e certeira no seu apelo, pois chama a atenção para comportamentos que levam pessoas comuns e afáveis a se envolverem em ocorrências de trânsito por distração ou desleixo. Talvez exagere um pouco ao relacionar voluntariado e boas ações com o crime culposo, que é como o Código Penal define uma conduta involuntária que causa danos e que poderia ser prevenida. Mas o propósito parece ser exatamente esse, o de despertar a atenção pelo choque e pela contradição.

É compreensível que cidadãos responsáveis se sintam incomodados com a generalização, mas há também críticas de nítido viés ideológico, por parte de opositores do atual governo. Ora, a questão do trânsito não pode ser relacionada a governantes e partidos políticos. É de todos. Em vez de implicar com a campanha do Ministério dos Transportes, muitas pessoas poderiam adotar atitudes pragmáticas que efetivamente salvam vidas, tais como obedecer à velocidade recomendada nas rodovias, usar cinto de segurança sempre, evitar ultrapassagens arriscadas e jamais dirigir depois de ingerir bebida alcoólica.

Dividir as pessoas entre boas e más é sempre perigoso, pois todos temos defeitos e virtudes. Mas é inquestionável que quem ajuda o próximo, protege os animais, planta flores e se esforça para ser um cidadão responsável corre menos risco de se envolver em acidentes de trânsito se também adotar cuidados ao dirigir.



05 de janeiro de 2017 | N° 18733 
L.F. VERISSIMO

Empatia

“Empatia”, nos diz o dicionário, é a capacidade de sentir o que sentiria na situação ou nas circunstâncias experimentadas por outro. Ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir o que ele sente, um requisito não só para a solidariedade e a caridade, mas para a vida civilizada. Há situações refratárias à empatia que, por mais que você tente, não consegue imaginar. 

Você pode se imaginar preso, mas não consegue imaginar, por ser tão distante das suas expectativas, estar, numa cela em que cabem cinco, com 15 – ou mais. O sistema carcerário brasileiro é um escândalo que atravessa os tempos e os governos e só se agrava. O ódio e a revolta nutridos pela condição desumana das cadeias superlotadas explodem, como nesse horror em Manaus, ultrapassam o nosso imaginário e destroçam qualquer tentativa de empatia.

A empatia falta porque não temos como experimentar o monstruoso, mas também falta em quem tem a responsabilidade de enfrentá-lo e diminuir o escândalo. Nossa empatia com o que sofrem os apenados vai até a selvageria de Manaus e do Carandiru, depois entramos no território do inimaginável, onde a empatia não alcança. Já o descaso de sucessivos governos com a desumanidade das nossas prisões, o outro nome da falta de empatia, é criminoso. 

Tanto a nossa falta de empatia quanto o descaso das autoridades, que gera o horror, vêm do nosso passado escravocrata, do tempo da chibata. Persiste um sentimento, não declarado mas evidente, de que criminoso tem que sofrer mesmo, que condições mais humanas nos cárceres são um luxo imerecido. Vale lembrar que os policiais acusados pelas mortes no Carandiru foram absolvidos.

Em Manaus, duas facções se enfrentaram ferozmente, e os perdedores foram mortos e, em muitos casos, desmembrados. Você lê a notícia terrível e tenta pensar em algum alento. Eram bichos, não eram homens. Não tenho nada a ver com eles. Somos de raças diferentes, vivemos em países diferentes. Mas o consolo não funciona. Sou da raça dos responsáveis pelo que eles se tornaram. Vivemos no mesmo país, mas não há nada que eu possa oferecer aos meus conterrâneos. Nem minha empatia.


05 de janeiro de 2017 | N° 18733


VIOLÊNCIA URBANA


Após arrastão na zona sul da Capital, ônibus é incendiado

Um ônibus da linha T3, da Carris, foi incendiado após arrastão no fim da tarde de ontem na Rua Gabriel Fialho Camargo, ao lado do Pronto Atendimento da Vila Cruzeiro do Sul (Postão), na zona sul de Porto Alegre. Cerca de 50 passageiros estavam no coletivo, mas ninguém ficou ferido.

Segundo o motorista do ônibus, que prefere não se identificar, a ação dos criminosos durou cerca de cinco minutos. Um passageiro teria feito sinal para embarcar na parada do postão e, logo atrás dele, quatro homens armados teriam entrado no veículo.

Eles anunciaram o roubo ao motorista e pegaram objetos de todos os passageiros. Em seguida, teriam mandado todos desembarcarem e espalharam gasolina pelo veículo para dar inicío ao incêndio.

– Depois de limparem os passageiros, gritaram para todos saírem, espalharam gasolina e colocaram fogo no ônibus – contou o motorista.

O veículo ficou completamente destruído, e as chamas foram controladas pelos bombeiros. A área foi isolada pela polícia.

Mais cedo, no mesmo local, moradores fizeram protesto reclamando dos alagamentos causados pela chuva. A Avenida Moab Caldas e a Rua Professor Manoel Lobato chegaram a ser bloqueadas durante a manifestação.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017



04 de janeiro de 2017 | N° 18732 
MARTHA MEDEIROS

Espaço na bagagem

Na minha rotina, é recorrente fazer a mala. São inúmeras viagens a trabalho, muito bate e volta ao Rio e ainda tem as férias, em que me encontro agora (meu corpo foi passear, mas a coluna ficou aqui). Tenho malas de todos os tamanhos, para todas as demandas. No entanto, na maioria das vezes me basta um volume de mão que levo dentro da aeronave, o que, além de prático, agora terá a vantagem extra de me fazer escapar da tarifa que as companhias aéreas desejam adotar a partir de março. Cobrar para despachar bagagem, mais esta.

Outro dia uma amiga me viu arrumando a pequena maleta que me acompanha a bordo e ficou espantada por eu conseguir acomodar roupas e sapatos para cinco dias em uma área tão reduzida e ainda conseguir deixar uma folga. “Não sei como, mas você poderia colocar mais alguma coisa, se quisesse”, disse. Foi quando me vi explicando para ela que sempre ganho algum livro ou dois quando viajo para fazer sessões de autógrafos, sem falar que às vezes me deixo seduzir por uma blusa exposta em alguma vitrine ou simplesmente retorno com um par de Havaianas a mais para a coleção. E desta trivialidade me vi saltando para a filosofice: é sempre bom deixar um espaço reservado para a surpresa.

Eu tenho visto por aí muita gente que fechou sua vida de maneira a não caber mais nada dentro dela. Enfiou tudo o que precisava e até o que não precisava, sentou em cima para forçar a acomodação e deslizou, com dificuldade, o zíper por toda a sua volta. Feito. Agora não cabe mais nem um suspiro em sua vida estornicada.

Estando hermeticamente fechada, como aqueles sacos pretos que embrulham cadáveres, que pessoa consegue ficar receptiva para algum presente inesperado que a vida resolva ofertar? Se uma novidade atravessa seu caminho, a criatura nem nota, não leva em conta, sabe que não haverá maneira de adicionar mais nada em seu mundinho já repleto de certezas, hábitos, costumes, crendices e manias. Não há mais espaço dentro dela. 

Para nada. Para nenhuma ideia singular, mesmo que seja proveitosa. Para nenhum sonho, mesmo que ainda fosse necessário. Para nenhum amor, mesmo que raro. Para nenhuma alteração de rota, mesmo que esta alteração realizasse o seu desejo mais secreto. Ela não pode arriscar abrir sua bagagem de novo, sob o risco de ver tudo o que há de amarrotado lá dentro saltar para fora. Estipulou para si o “ninguém entra, ninguém sai” a fim de se sentir conformada com o que tem e também com o que não tem.

É tempo de férias. Em algum momento, você vai arrumar sua mochila, sua sacola, sua mala de rodinhas. Meu toque: não a abarrote. Só assim continuará de olhos abertos por aí.


04 de janeiro de 2017 | N° 18732
POLÍTICA

Projeções financeiras na Capital opõem Fortunati e Marchezan

PREFEITO COLOCA EM XEQUE lei elaborada pela gestão anterior, dizendo que despesa será 12% maior
Ao projetar rombo de R$ 1,16 bilhão nas contas da prefeitura de Porto Alegre em 2017, o prefeito Nelson Marchezan põe em xeque a Lei Orçamentária Anual (LOA) elaborada na gestão de José Fortunati e aprovada em outubro de 2016 na Câmara Municipal. De acordo com Marchezan, as despesas previstas na LOA – que ele classificou como “fictícia” – serão 12% maiores do que o esperado e a arrecadação, 5,8% menor.

As conclusões levam em conta estudo encomendado à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), que não foi divulgado. Conforme Marchezan e o secretário municipal da Fazenda, Leonardo Busatto, a LOA contém “índices defasados, em desacordo com o atual momento da economia brasileira”.

Como exemplos, eles citam as projeções para o Imposto sobre Serviços (ISS), o principal tributo municipal, e para o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), cujo repasse é feito pelo Estado. No caso do ISS, a LOA prevê o ingresso de R$ 983 milhões em caixa, 18% a mais do que foi embolsado em 2016, sem descontar a inflação. Em relação ao ICMS, o aumento nominal seria de 15%.

ORÇAMENTO O MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE, DIZ EX-SECRETÁRIA

A nova gestão não informou quanto espera contabilizar com esses dois tributos, mas classificou os números como “superestimados”.

Quanto às despesas, Marchezan e a equipe sustentam que pelo menos R$ 360 milhões não foram levados em conta na LOA. A maior parte do recurso (R$ 270 milhões) refere-se a gastos de manutenção, incluindo repasses a hospitais, convênios com creches, conservação de ruas e limpeza urbana.

Também foi detectada inconsistência na previsão de repasse a empresas públicas, estimada em R$ 50 milhões. Segundo a prefeitura, a estimativa não condiz com o histórico de pagamentos: em 2015, foram alocados R$ 107 milhões para esses órgãos e, em 2016, R$ 137 milhões.

Procurado por ZH, Fortunati preferiu não se manifestar sobre as críticas à LOA, que define como deve ser gasto o recurso público. A ex-secretária de Planejamento Estratégico e Orçamento, Izabel Matte, defendeu o trabalho. Ela disse que Marchezan “planta o caos para ganhar tempo”:

– Fizemos o orçamento o mais próximo da realidade possível, minimizando ao máximo os gastos desnecessários. O que a gente não pode é trabalhar pensando que o Brasil vai andar para trás.

juliana.bublitz@zerohora.com.br


04 de janeiro de 2017 | N° 18732 
DAVID COIMBRA

Você é de direita ou de esquerda? Você é de direita ou de esquerda?

Não dá para responder marcando com um X na alternativa correta sem pelo menos cinco minutos de considerações, não é?

Se bem que as coisas mudaram. Hoje, muita gente se assume orgulhosamente de direita, algo impossível no Brasil de poucos anos atrás. Não faz muito, chamar alguém de direitista era ofensivo.

Esse novo comportamento, esse bater no peito, esse olhar de desafio é uma reação ao PT. Tanto os petistas tentaram estigmatizar seus críticos como “de direita”, que eles assumiram: “Quer saber? Sou de direita mesmo!”.

É a saída de quem adota o apelido jocoso como trunfo, comum nas torcidas de futebol. Antes, era gozação dos adversários, hoje o Fluminense é pó de arroz, o Palmeiras é porco, o Coritiba é coxa e no Beira-Rio há torcedor fantasiado de macaco.

Mas, na maioria dos casos, o direitista convicto não parece ter noção real do que é ser de direita. Parece apenas ser oposição a tudo que o PT diz representar ou a bandeiras que diz defender.

A direita pura, a direita de cartilha, seria conservadora nos costumes e liberal na economia. Seria contra o aborto e a liberação das drogas, por exemplo. E a favor do Estado mínimo.

Em tese, esse direitista ideológico defende integralmente o sistema americano. Mas, nos Estados Unidos, o aborto é permitido e a cada eleição aumenta o número de Estados que liberam o uso recreativo da maconha.

Quanto ao chamado Estado mínimo, ocorre algo curioso: nos Estados Unidos, sinto muito mais a presença do Estado do que no Brasil. Na segurança, nos serviços públicos, na administração da Justiça, o Estado está por toda parte. Mas também é verdade que, nos Estados Unidos, as empresas de petróleo são privadas.

Outra: o Obamacare, tão contestado pelo republicano Trump, foi inspirado no programa de um republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney.

Confuso. No Brasil, o Estado falha na tutela dos presos, e falha grotescamente, como se vê nas rebeliões em presídios. Falha também na segurança pública e falha nos serviços. A Justiça é lenta e o cidadão é desrespeitado. Mas o Estado tem uma empresa de petróleo.

No Brasil, há o Bolsa Família, que muitos dizem ser paternalismo. Talvez seja. Mas empresários ganham incentivos fiscais e conseguem empréstimos com juros abaixo dos de mercado, filhas de militares já mortos continuam ganhando pensões, funcionários públicos não aceitam perder suas aposentadorias integrais ou sua estabilidade no emprego, parlamentares têm foro especial e juízes têm auxílio-moradia.

O Estado se mete em tudo no Brasil, e não funciona em nada. O Estado concede muito, mas não faz quando tem de fazer. O Estado é a mãe bondosa, pena que relapsa. É o pai ausente, que não esquece de dar a mesada.

Todo mundo sabe disso e todo mundo condena isso. Todo mundo se queixa dos privilégios... dos outros.

O Brasil não é socialista. O Brasil não é capitalista. O Brasil é populista e patrimonialista. Não faz diferença ser de direita ou de esquerda no Brasil. Faz diferença quem ganha. Se eu ganho, é obrigação do Estado. Se você ganha, é privilégio. Importa é quem grita mais. Vamos reclamar.



04 de janeiro de 2017 | N° 18732 
PEDRO GONZAGA

FANTASIAS

Comecemos assim: eu confesso uma fantasia que mantenho sobre mim, você reflete sobre uma das que guarda aí dentro. Mas pense numa que já não está funcionando. O momento é propício. E não creia nos cínicos de vésperas, os que reclamam dos votos de ano-novo, aplicando a lenga-lenga de que é só mais uma data – eis a fantasia deles –, como se não soubéssemos nós também que todas as coisas acontecem uma única e irrepetível vez. 

Então deixem-nos acreditar nas retomadas, nas correções, nas reformas possíveis. Ou que talvez sigamos os mesmos apesar de nossos esforços, de nossa consciência de que deveríamos ou poderíamos mudar.

Mas eu ia confessar uma fantasia, e a isso voltamos, uma fantasia que me começa a não servir, repetida sempre nesses inícios de ano, cada vez mais esgarçada, mais difícil de ser mantida: a de ser um escritor implacável, avesso ao sentimentalismo de bebês fofuxos vestidos de branco, aos espumantes das animações compartilhadas, à pieguice das letras coloridas dos aplicativos desejando um fantástico Révellion. Há muito tento me apegar à ideia de ser um escritor espartano, que, por contiguidade, me emprestaria seus predicados. Mas o que fazer quando nas redes sociais aparecem tantas fotos de gente feliz reunida, como também eu nos cliques? 

O que fazer quando toca Amanhã, do Guilherme Arantes, ou o “Adeus ano velho”? Pode o escritor fleumático, o poeta refinado, cantar junto? E quando alguém chora ao comer uma saborosa lentilha, talvez por ter vencido um ano como 2016, deve o escritor rejeitar a cena? E se tiver sido eu o autor das lágrimas? Por isso, para a passagem do ano que vem, tentarei me ausentar de todas essas celebrações. Quem sabe numa choupana longe das gentes a fantasia ainda funcione. Ou num mosteiro para escritores austeros.

Pois é. Nesses primeiros dias de janeiro, me parece bem mais simples trocar de fantasia e aceitar que eu não sou o escritor, e que nem o escritor talvez seja o escritor que eu imagino.

Por um 2017 de fantasias novas, para mim e para você.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017



03 de janeiro de 2017 | N° 18731 
CARPINEJAR

The Voice Brasil anônimo

Eu faço questão de pagar o couvert artístico, peço silêncio na mesa para escutar o artista no restaurante. Aquele desconhecido afinado pode vir a ser uma Ana Carolina, um Tiago Iorc, uma Cássia Eller – cantores que também começaram em microfones de bares.

As bandas e músicos que tocam em lugares desertos são os meus heróis. Vencem anonimamente um The Voice Brasil por dia.

Acostumados à rejeição, sofrem horrores para virar as cadeiras dos clientes. Seus adversários são críticos cruéis: a comida, os garçons, as discussões de relacionamento, os namoros, os copos quebrando, os grupos de amigos, as confraternizações ruidosas, o amigo-secreto da firma, as crianças brincando nos corredores.

Superam inimigos invisíveis para conquistar o respeito. A conversa paralela estará mais alta do que a canção, os espectadores almoçam e jantam com o desprendimento de uma tevê ligada. A mesa mais procurada é a que fica longe do palco, o palco é próximo do banheiro.

Qualquer político desistiria diante do desinteresse geral. Pois a indiferença é mais insultante do que a vaia. Mas eles não. Tiro o meu boné para eles.

Alheios às dificuldades, os músicos são atentos e vibrantes como se a casa estivesse cheia só para vê-los. Chamam o coro para o refrão, não reduzem o ânimo apesar da ausência de eco, puxam palmas que virão dispersas.

Não têm nada para provar que existem, a não ser aquele momento. Não têm cartazes com os seus rostos, CDs com as suas letras e muito menos produtores preocupados com o tempo do espetáculo. Não saíram no jornal, ninguém comprou ingresso para lhes assistir. Não foram escolhas do público, e sim acasos da rotina.

Entraram desconhecidos e vão deixar o endereço do mesmo jeito, longe do tumulto e da tinta dos autógrafos.

Seus únicos fãs são a família, mais ninguém. O camarim acaba sendo o estojo de violão, único espaço que possuem para guardar os seus pertences.

Devem trabalhar no turno inverso para pagar as contas. No expediente comercial, sonham com essa uma hora e meia de som ligado.

Mantêm uma relação pura com o talento, sem retorno imediato, sem a pressa da fama, sem a pressão da vaidade, dispostos a encontrar a melhor versão de si mesmos.

Esses artistas demonstram uma teimosia na voz que beira a loucura, porém fundamental para sobrevoar as desconfianças dos outros. De repente, não serão conhecidos, mas estão tentando. Se não são futuro, pelo menos enfrentam o passado.

Mostram as suas composições só depois de reproduzir um repertório inteiro de covers, como uma esmola da audiência. Não se desesperam com as interrupções e não se diminuem com a solidão das sombras. Recebem uma ninharia ou ganham a refeição pela noite trabalhada. Não é o dinheiro que está em questão, e sim o espaço ocupado, a chance de ensaiar mais um pouco, o milagre de ser ouvido sinceramente por alguém.

Para quem escuta, é música de fundo, para quem canta, é música a fundo. Para quem escuta, é obrigação, para quem canta, é vocação.

Para quem escuta é favor, para quem canta é sempre show.



03 de janeiro de 2017 | N° 18731
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD

BOM SENSO

Elas não são de direita, nem de esquerda, são apenas de bom senso. Ocorre que o bom senso havia abandonado a seara política, tendo sido substituído pelo anacronismo de ideias e práticas, baseadas na concepção de que o Estado tudo pode. E, principalmente, gastar muito mais do que arrecada.

O resultado é visível: 12 milhões de desempregados, PIB em queda vertiginosa e uma inflação que somente agora, graças à nova administração do Banco Central, começa a ser controlada. O “Estado tudo pode” veio a significar: quebrar o país.

O que sim deveria causar espanto, senão indignação, é que os mesmos que levaram o Brasil a esse buraco teimam em insistir nas mesmas propostas. Os crimes cometidos, revelados pela Lava-Jato, são simplesmente varridos para baixo do tapete, quando nada mais são do que expressões de que o Estado-partido tudo pode!

Querer atribuir ao governo Temer a qualificação de “direita” por estar levando a cabo essas mudanças é nada mais do que insensatez.

Se as expressões de direita e esquerda possuem ainda algum significado, elas deveriam expor uma discussão de prioridades dentro de um mesmo orçamento. Haveria, partidariamente, todo um debate sobre as prioridades orçamentárias.

Acontece que a discussão atual termina sendo anacrônica. Ser de esquerda significaria gastar aquilo que um Estado não tem. Significaria a incapacidade de fazer qualquer cálculo entre o que é arrecadado e o que pode ser gasto. Discutem fora de qualquer conta, incapazes de calcular.

É evidente que tal formulação vale não apenas para a esfera federal, mas igualmente para as esferas estaduais e municipais. Os Estados em particular, com o nosso Rio Grande em pauta, têm se caracterizado pela completa irresponsabilidade. Agora, aqui, começa a ganhar prumo.

Particular atenção deveria ser também dada aos setores corporativos mais fortes do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público, que teimam em não obedecer ao princípio constitucional do teto dos salários públicos. Alguns escudam-se atrás de Lava-Jato, que tão relevantes serviços tem prestado à nação, com o único intuito de preservarem os seus privilégios.

O bom senso deveria imperar! O colunista escreve às terças-feiras neste espaço.


03 de janeiro de 2017 | N° 18731 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

SANTA REETA

Inesperado mesmo foi esse fim de leitura: chorei, discreto mas firme. Tive que bloquear o que ia falar. Emoção genuína, sem cortes. Emoção de quê? De onde veio?

Acabo de ler Rita Lee, uma autobiografia, naturalmente da própria Rita Lee (Globo Livros). E o fim é esse aí, de chorar. Mas chorar de beleza, pelo patético da vida, pelo belo da vida.

Toda grande figura, ainda mais na curva dos 70 anos, tem coisa pra contar, certo, e eu sou leitor entusiasmado de biografias e memórias. Rita Lee está na berlinda quase desde que eu me conheço: eu tinha uns 10 anos quando Os Mutantes estouraram, conquistando o coração dos jovens e das crianças por motivos nada óbvios, ou nada imediatos – ou melhor, me corrijo, por motivos óbvios e imediatos: aqueles três malucos de roupas alegres, evidentemente disparatadas, com cara de quem estava fazendo uma traquinagem e sabia disso mas, né, era o caso de fazer. 

E a Rita, puxa vida: Rita de noiva, com pratos de banda marcial na mão, misturando ingenuidade e grosseria num sorriso sapeca irresistível. Ela era mesmo casada com um daqueles dois irmãos?

Ela conta tudo isso, com bastidores de sua família de origem – mescla de mãe italiana com pai norte-americano, ela católica e ele meio maluco, os dois caipiras paulistas – e infinidade de detalhes da infância, adolescência, juventude, namoros, criação artística, filhos, amigos, brigas, viagens, tudo, até chegar ao presente, num tom que mistura o informal com o denso, o informativo com o irônico mordaz. 

Textos curtos, cortantes, com ritmo de um espetáculo de idas e vindas sem perder o tom geral debochado. Conta lisamente seu estupro, aos seis anos, assim como todo o bololô com os babujentos irmãos Baptista, desde os 60 até há pouquinho. Conta a infinidade de cenas com drogas (ela, como a Chiquita Bacana, transou todas, mas perdeu o tom umas quantas vezes). Sem autopiedade, sem bravata.

E termina me fazendo chorar de beleza, por me dar a ver a ampla e onipresente atuação de seu talento na minha vida, nesse mostrar-se escondendo-se bem (e, nisso, permitindo que nos vejamos a nós mesmos), como todo grande artista consegue. Santa Reeta, que beleza, uma das grandes figuras do país, da língua, do tempo.



03 de janeiro de 2017 | N° 18731 
DAVID COIMBRA

A melhor carne do mundo


Passei uma semana em Chicago, no feriado de Natal. Aí está uma cidade que você tem de conhecer. Chicago é 200 anos mais nova do que Boston, mas tem muita personalidade. Situa-se mais ou menos na mesma latitude, no extremo norte, à franja do Lago Michigan. Do outro lado, estende-se o Canadá branco e gelado.

Quando o Cléo Kuhn fala em “frente fria que vem da Argentina”, você estremece, não é? Bem. As frentes frias que acometem essa faixa dos Estados Unidos vêm galopando do Polo Norte. No caso de Chicago, elas raspam as águas do Lago Michigan, que, no inverno, muitas vezes fica com a superfície congelada. Chicago é chamada de Windy City, a cidade dos ventos. Calcule, agora, a sensação térmica que esses ventos produzem quando encanam pelas avenidas retas como corredores de apartamento.

O frio de Chicago é coisa séria. Ainda assim, vale a pena caminhar pela cidade e contemplar sua arquitetura de ficção científica. Dizem que a palavra “arranha-céu”, do inglês “skyscraper”, surgiu em Chicago, porque um dos elevadíssimos prédios da cidade foi construído em forma de vela de navio. As pessoas olhavam para o prédio e imaginavam que, se o barco navegasse, arranharia o céu, de tão alto. Donde...

Em Illinois, Estado do qual Chicago é a principal cidade, não há tantos brasileiros como em Massachusetts, Estado do qual Boston é capital. Algumas localidades que cercam Boston, como Somerville, Framingham e Everett, são tomadas por brasileiros. Em Somerville, a proporção de brasileiros da população é a mais alta do mundo em cidades estrangeiras: 12%. Às vezes vou lá, quando sinto saudade do pudim de leite condensado. Chega a ser estranho. Nos restaurantes, só se fala português. Nas ruas, há tantas bandeiras do Brasil, que parece jogo da Seleção.

Em Chicago não é assim. Não existem localidades brasileiras. Você se sente mais longe do Brasil. E está.

Fui a muitos lugares bonitos, mas o que mais gostei foi um restaurante chamado Gibsons. Amigos que moram em Chicago disseram-me que jamais haviam provado carne igual à servida lá, egressa de meigas vacas criadas em fazendas do Minnesota. Sentei-me e o garçom, no primeiro minuto do primeiro tempo, já perguntou se eu queria carne. Lembrei-me do velho Kit Carson, companheiro de Tex Willer, e disse que queria um bife de quatro dedos de altura. O garçom sorriu, deslizou até a cozinha e de lá voltou com uma tábua em que se equilibravam três grandes pedaços de carne fresca feito a primavera.

– O senhor prefere sabor ou maciez? – perguntou.

– Sabor, man! Sou gaúcho! Lá de onde venho, há quem aprecie mais gordura e osso do que carne, exatamente por causa do sabor.

– Sem dúvida, o melhor sabor está perto do osso.

Depois desse elucidativo diálogo, ele seguiu fazendo sugestões com a autoridade de quem conhece seu ofício, como um garçom uruguaio. Garçons uruguaios têm firmeza e opinião. E jamais, eu disse JAMAIS!, anotam. Aquele garçom tampouco anotava.

A carne que nos serviu foi, de fato, deliciosa, mas não a melhor que já provei (sou gaúcho!). De qualquer forma, comemos muito bem. Na saída, não saímos. Ficamos no bar, na parte da frente do restaurante, onde um pianista fazia alegria sem fazer barulho. Sentamos em bancos altos e pedi um Martini seco como uma paixão extinta, com duas azeitonas dentro.

Dois elegantes negros de smoking, categoria Obama, entraram, acompanhados de mulheres vestindo longos. Cumprimentaram o pianista com intimidade e deixaram, cada um, uma nota de 20 dólares dentro do pote de vidro que estava sobre o piano.

O pianista tocava e cantava com graça. Percebeu que a nossa mesa estava mais empolgada e perguntou de onde éramos. – Brazil!

Ele sorriu e atacou de Tom Jobim, colhendo nossos aplausos entusiasmados. Seguiu numa enfiada de Bossa Nova, enquanto eu pedia mais um Martini – as azeitonas estavam ótimas. Quando chegou à Aquarela do Brasil, confesso que me deu certa emoção, até porque combinei a música com o terceiro Martini. Antes de sairmos, o pianista foi falar conosco, agradecido. Agradecemos também. Coloquei dois dólares no pote em cima do piano. Não ia dar 20. Sou brasileiro, poxa.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017



02 de janeiro de 2017 | N° 18730
EDITORIAL

Os novos prefeitos e os cofres vazios

Com poucas exceções, prefeitos e vereadores que assumiram ontem o seu mandato passam a conviver de imediato com um cenário ainda mais adverso do que o enfrentado pelos administradores municipais no último ano. A situação é particularmente desafiadora para os novos gestores de municípios de médio e grande porte. 

Em sua maioria, os administradores dessas cidades assumem com promessas de cortes para conseguir ajustar receitas às despesas e, assim, cumprir os compromissos com os servidores e fornecedores, com a dívida e com a manutenção de serviços essenciais. O quadro se agrava pelo fato de que, com a aprovação da PEC definindo um teto de gastos do governo federal, as prefeituras passarão a contar cada vez menos com o socorro de Brasília.

Levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revela que a falta de recursos em caixa vai atingir quase metade dos novos prefeitos em todo o país. Nada menos de 47,3% de seus antecessores que responderam ao estudo acabaram deixando restos a pagar para quem assume agora, e 15% deles admitiram atraso no pagamento dos salários de dezembro. Além disso, dezenas de prefeituras estão em situação de calamidade financeira. Em consequência, os novos gestores já tomam posse sob aperto e com preocupações imediatas, que vão exigir sacrifícios tanto dos administradores municipais quanto dos legisladores, até agora pouco preocupados com a contenção de gastos.

Essa situação dramática sob o ponto de vista financeiro – preocupante inclusive para prefeitos que lutaram pela reeleição – ajuda a explicar o fato de as cerimônias de posse terem sido marcadas mais por compromissos de ajuste fiscal e redução da máquina administrativa do que de projetos concretos em favor dos munícipes. 

Os novos prefeitos não têm mais como operar com estruturas burocráticas pesadas nem com excessos na folha salarial, pois faltam recursos para bancar o que, até recentemente, era encarado como normal. Em muitos casos, os cortes não serão suficientes, obrigando-os a inovar para reduzir as despesas, recorrendo principalmente às novas tecnologias.

Os gestores precisam ajustar logo as contas das prefeituras para que possam começar a atender o mais rápido possível aos compromissos assumidos com os munícipes. Diante desta realidade, os municípios têm muito a contribuir para ajudar o país a sair da crise.


02 de janeiro de 2017 | N° 18730 
CÍNTIA MOSCOVICH

O CASO DO CELULAR


Era sábado de noite, e estávamos ainda à mesa, naquela conversa boba e divertida que sucede as boas refeições. Foi daí que um dos amigos perguntou o que era, afinal, uma “boa pessoa”.

A Roberta falou que “boas pessoas” éramos nós, que pagamos nossas contas, amamos nossas famílias e não dirigimos quando bebemos. Todo mundo aprovou, mas o Paulo disse que quitar dívidas, amar a família e não dirigir embriagado era o mínimo da decência:

– Até o Eduardo Cunha faz isso. E não é exatamente uma boa pessoa.

A Maninha falou que aquele papo era podre de moralista e que estava ficando com sono. A Iara palpitou que “boa pessoa” era aquela que ajudava os abandonados e carentes. O Sô e a Lígia fizeram com a cabeça que até concordavam com a platitude. O Flávio foi até a geladeira pegar mais uma cerveja e disse que neste país se rouba tanto que nem sobra dinheiro para ajudar os outros.

Política – a partir daí, o assunto passou a ser a louca barafunda nacional. Só cessamos a discussão quando a cerveja acabou. Já quase amanhecia.

Corta para terça à tarde. Quando cheguei na academia de ginástica (não riam), me dei conta de que estava sem meu celular. Procura aqui, ali, revira tudo, chama o próprio número: nada. Fui consultar aquele aplicativo que localiza o celular via GPS – foi quando recebemos um recado da Silvana e do Renato: o telefone tinha sido encontrado por um cirurgião plástico amigo deles.

Resumo da ópera: o médico encontrou o celular caído no chão (não sei como ele caiu), se atrasou para uma planejada ida à praia procurando pelo dono do aparelho, descobriu por acaso meu nome e, pelas redes sociais, amigos em comum. Pediu a esses amigos que me avisassem que o celular estava com seu pai, também cirurgião plástico, e seguiu tranquilo como um justo para o mar.

Eu não coube em mim de contente por causa do celular e por conhecer duas boas pessoas, o filho e o pai. Obrigada, Renato e Silvana, por reafirmarem nossos vínculos. Encantada em conhecê-los e obrigada, doutores Guilherme Fritsch-Nunes e dr. Gerson Petrillo Nunes. Feliz ano novo.




02 de janeiro de 2017 | N° 18730 
DAVID COIMBRA

O príncipe estuprador

Não conseguiria escolher “O” melhor livro que já li, nem 10, nem 100, mas filme, se tivesse de indicar um único, seria O poderoso chefão.

Está certo: isso depende do gosto. Cada um tem seu estilo preferencial. Não suporto comédias românticas, por exemplo, sobretudo as que se passam em Nova York, mas aquele Harry e Sally achei divertido. Também não assisto a filmes de terror – dão medo. No entanto, há três clássicos que até revejo: O Exorcista, O Iluminado e O bebê de Rosemary. Bote aí na lista também O sexto sentido e O advogado do diabo.

Musicais? Só Grease, com o Travolta, e o velho Hair. Já filmes de ficção científica me aborrecem, embora fosse viciado em Perdidos no espaço, quando guri. Mesmo assim, assisti, dias atrás, a um filme de ficção científica que me fez sair contente do cinema e me pôs em frente ao teclado agora mesmo, a fim de sugeri-lo para você.

Trata-se de Passageiros. Não vou dar spoiler. Ou talvez só um pouquinho, mas tenho de contar o enredo para você entender por que gostei da história. Não sei se o autor fez de propósito, mas o filme é uma espécie de A Bela Adormecida futurista.

A Bela Adormecida é um conto que se perde na poeira dos séculos. A versão mais famosa foi escrita pelos irmãos Grimm. Dei a coleção de livros dos irmãos Grimm para o meu filho, mas é claro que ele nunca leu. Prefere jogar XBox.

Os irmãos Grimm se basearam numa história 200 anos mais velha, que hoje provocaria escândalo. Nessa trama original, a Bela adormeceu porque uma lasca de madeira envenenada feriu seu dedo. O príncipe a encontrou dormindo, mas não a despertou com um beijo. Ao contrário: aproveitou que ela estava inconsciente e a estuprou.

A Bela violentada continuou dormindo, só que grávida. Nove meses depois, pariu gêmeos. Um deles, esfomeado, tentou mamar no dedo da mãe e, assim, acabou extraindo a farpa envenenada, despertando a Bela. Nesse momento, o príncipe voltou para ver como ela estava e, surpreendentemente, tomou-se de bom caráter e resolveu assumir a família.

No filme americano, ocorre o seguinte: uma nave gigantesca está viajando pelo espaço com 258 tripulantes e 5 mil passageiros hibernando em máquinas parecidas com aquela cama hiperbárica do Michael Jackson. Eles vão colonizar um planeta distante, um paraíso natural com matas, praias e cascatas. Eles só podem viajar naquele estado de animação suspensa, porque leva-se cerca de 120 anos para fazer todo o trajeto.

Em meio à viagem, uma chuva de meteoros atinge a nave, que se autoconserta. Um equipamento, porém, permanece com defeito: a cama em que dorme o protagonista do filme. Ele acorda e se vê sozinho na nave imensa. Ainda faltam 90 anos para chegar ao destino, e não há ninguém para pedir ajuda. Ou seja: ele está destinado a envelhecer na vasta solidão da nave. Depois de um ano tentando de tudo para resolver o problema, em vão, ele passa pelas camas dos outros 4.999 passageiros e vê essa jovem. É Jennifer Lawrence, a heroína do filme Jogos vorazes, agora loira como uma Marilyn.

Ele se apaixona pela Bela Adormecida, tece fantasias com ela, passa dias em volta de sua cama, até que lhe vem a ideia: por que não despertá-la? É possível, se danificar a cama. Mas, se a acordar, a condenará a passar 90 anos com ele na nave, sem mais ninguém.

E agora? O que ele faz? Um belo drama moral. Não vou contar o que ele fez. Vou deixar que você veja o filme. Mas, antes, responda: o que você faria?


02 de janeiro de 2017 | N° 18730 
L.F. VERISSIMO

Criancice

Quem, entre nós, nunca sonhou em ter um suprimento inesgotável de sorvete que atire o primeiro Häagen-Dazs. Era um desejo infantil, um desejo que se dissipava na adolescência, quando passávamos a sonhar com outras coisas. Mas o poder dá a quem o tem a sensação de que pode realizar tudo, inclusive fantasias infantis. 

O presidente americano George Bush – o lamentável pai, não o lamentável filho – disse certa vez, meio brincando, que nunca gostara de brócolis e que agora que era presidente não precisava comer brócolis. Quem, entre nós, nunca sonhou em não ser forçado a comer brócolis, ou comer espinafre, ou tomar banho, ou ir ao dentista, ou arrumar o quarto?

Eu sei que não foi o Temer que pediu 500 potes de Häagen-Dazs para o avião presidencial, o que, além de um exagero, seria uma desfeita com a Kibon. Mas os 500 potes de Häagen-Dazs servem como metáfora, tanto quanto as joias da mulher do Cabral e outros acintes, para uma espécie de delírio que vem com o poder, e que não deixa de ser uma forma de infantilização. 

Vi, certa vez, um documentário sobre o Frank Sinatra em que ele foi filmado na sua casa, que incluía um enorme salão todo ocupado por uma ferrovia em miniatura. No salão, havia uma placa na parede com a frase: “Quem morre com mais brinquedos ganha”. É isso: quem acumula mais desejos satisfeitos vence, ou é uma criança até o fim.

A quase compra de potes de Häagen-Dazs simboliza um grau de insensibilidade, nesta hora de aperto geral, que também tem algo de infantil, no sentido de que crianças não têm senso de medida. Quem decidiu pela compra é uma criança inocente, não importa sua idade. Ou, se cabe outra metáfora, 500 potes de Häagen-Dazs simbolizariam um descaso pela opinião alheia que beira a malcriação. Outra criancice.

Fiquei pensando nos meus próprios sonhos infantis, realizados e não realizados. Não me tornei aviador nem fui morar numa árvore como o Tarzan, e meu consumo de sorvete foi limitado pelas sucessivas ameaças maternas de ter uma indigestão mortal. Mas também lembro do prazer de ter nas mãos a primeira história em quadrinhos – a cores! E o do primeiro chute numa bola de futebol novinha, no tempo em que as bolas tinham a cor do couro. Ou da vez em que... Mas isto é outra coluna.

sábado, 31 de dezembro de 2016



31/12/2016 e 01/01/2017 | N° 18729 
LYA LUFT

Para não dizer adeus

Publiquei há alguns anos um livro de poemas com esse título, e, porque gosto dele, roubo-o de mim mesma para este artigo. Vivemos, entre perdas e ganhos (pra falar de outro livro, pois livros são o que eu faço), dizendo alô e adeus.

Uma gangorra esta vida, altos e baixos, médio e horrível ou glorioso.

Este fim de ano é para muitos o único momento em que filosofamos um pouco, construindo objetivos, fazendo juras falsas de melhorar aqui e ali, falar mais com os filhos, procurar mais os pais, retomar aquela amizade, pagar aquela velhíssima conta, que pode ser monetária ou emocional, fazer terapia porque andamos muito loucos, ou admitir e curtir essa nossa pequena insanidade porque afinal “eu sou assim e ninguém tem nada com isso”. Prometemos a nós mesmos saber mais das notícias do mundo e do país, pra não sermos tão alienados, ou nos propomos paz de espírito e espaços de alegria, tentando não ver todas as notícias do dia, da noite e da incansável madrugada.

Mas eu aqui falo de outros adeuses e outras perdas: a do tempo, desperdiçado sentindo raiva, inveja, sendo intolerantes, difamando, mentindo, criticando com azedume, passando por cima do outro, esquecendo quem nos ama de verdade, humilhando para nos sentirmos superiores, sendo bobalhões ou cruéis, quando podíamos estar curtindo bons e belos momentos, preciosos na bizarrice dos tempos atuais.

Falo da perda da juventude, que a grande parte das pessoas ameaça, atormenta, sufoca e faz adoecer. Uma amiga minha corria pela sala desesperada, mãos na cabeça, quando fez cinquenta anos: “Como pôde acontecer isso, como pôde?”, e em lugar de curtir a maturidade, em muitas coisas mais gloriosa do que a confusa juventude, sofria uma dor sem consolo, embora fosse uma bela mulher, cheia de energia e esperança.

Outra conhecida tanto começou a se repuxar para enganar o tempo, os outros e a si mesma, que aos sessenta havia perdido não a juventude que se transforma em maturidade e velhice, mas a si mesma: olhava o espelho e nada mais nela era dela. Em alguns anos, por crueldade talvez dos cirurgiões aos quais recorreu em série, parecia uma máscara feia, distorcida, e a gente tinha vontade de sentar ali no meio-fio e chorar. Só restavam nela a voz e os olhos de um cinza singular.

Também damos adeus a pessoas, o que é o pior: as que vão viver longe, as que se desprendem de nós, como acontece porque o afeto ficou ralo demais ou o “longe” chama com muito fervor, passam para um limbo de onde às vezes emergem, como de um nevoeiro, e dói um pouquinho, e pensamos “mas o que será que aconteceu?”. E damos adeus de verdade aos amados que enveredam pelo jardim de neblina e silêncio que chamamos morte, de onde não vão retornar. Uma vez ou outra, parecem nos mandar recados: o som dos passos no corredor, aquela voz, o jeito de falar, de virar o rosto, de estender a mão, de nos olhar.

Com o tempo, tantos adeuses fazem da alma uma espécie de renda – não necessariamente feia, mas intrigante: porque podemos celebrar com espumante ou lágrimas, ou risos bons, o movimento dessa engrenagem de que somos parte, e que, apesar dos adeuses, se chama, mais do que morte, vida.



31/12/2016 e 01/01/2017 | N° 18729 
PIANGERS

O pouco que sobrou

Quando peço uma mordida de um chocolate ou de um picolé, sei que vai vir choro em seguida. Minha boca é grande demais, e o pedaço que arranco com os dentes deixa qualquer criança revoltada e é uma revolta difícil de conter.

Depois de contida a revolução revoltosa, tento sempre vir com uma moral da história, alguma justificativa para que não haja choro da próxima vez, sempre sem sucesso. Mas o fato é que um pai que não tenta ensinar sempre os filhos não é pai, é vô. Meu papel é, de alguma forma, achar sentido em joelhos ralados, peixinhos que morrem e mordidas grandes demais em picolés.

“Não chore pelo que perdeu, agradeça pelo que sobrou”, digo sempre para minhas crianças chorosas que, coitadas, além de doce a menos ainda têm que ouvir meus sermões. “Olha o quanto ainda tem de doce! Normalmente você não consegue comer o doce inteiro! Não fica irritada com a mordida, agradece que ainda tem doce na sua mão!”, eu digo. Minha filha está tão revoltada que sente vontade de jogar o resto do doce no chão, impulso não atendido porque suas papilas gustativas estão salivando.

O ano não foi fácil, como já disseram, mas eu não posso fazer coro com quem diz que já vai tarde. Tenho que ter alguma coerência e, quando me tiram parte do doce, agradeço pelo que sobrou. Perdi amigos este ano, perdi até um pouco da esperança em um mundo melhor, mas, se eu olhar com carinho pro que sobrou, posso agradecer. Dá uma vontade louca de jogar tudo no chão quando a gente perde algo, mas não é uma decisão muito inteligente.

Teve um ano em que eu quase morri com pneumonia. Conheci uma praia do Nordeste neste mesmo ano. Teve um ano em que minha mãe se acidentou e ficou 15 dias na UTI. Antes disso, eu tinha feito uma viagem de carro incrível. Teve um ano em que quebrei a perna. O mesmo ano em que minha filha nasceu. Acho que, se a gente olha pro que ganhou, aprende que não existe ano ruim. Tem ano difícil, mas tanta coisa boa aconteceu. Por mais complicado que seja, quero valorizar o que sobrou. Mesmo que, às vezes, a mordida tenha sido grande demais.



31/12/2016 e 01/01/2017 | N° 18729 
MARTHA MEDEIROS

Plateia atuante


A vida fica mais estimulante quando aceitamos o convite para interagir, ao invés de nos isolarmos num mau humor crítico

Um amigo, outro dia, conversava com Zé Celso Martinez Corrêa em São Paulo, no Teatro Oficina, quando o dramaturgo perguntou a ele: você é ator? Meu amigo, que é fotógrafo, respondeu: talvez não para seu critério, mas sim para o meu, já que me considero plateia atuante. Zé Celso semicerrou os olhos, demonstrando aprovação à resposta.

Zé Celso é reconhecido por dirigir não apenas peças, mas verdadeiros happenings provocativos, incitando todos a interagir, dançar, gritar, pertencer ao espetáculo. O que me faz refletir sobre que tipo de plateia atuante temos sido, nós que também somos incitados a pertencer a este espetáculo diário da existência.

Em todo momento, entramos em cena para atuar em um enredo que não foi escrito apenas por nós, mas por várias mãos: criação coletiva. Alguém dá uma festa, o chamado é para celebrar e a plateia é você, que pode contribuir para o sucesso do evento circulando, indo para a pista, ou pode permanecer num canto mal iluminado a fim de dedicar-se a comentários ferinos sobre como as pessoas ficam robotizadas pela felicidade obrigatória imposta pelo calendário, sobre como é indecente sorrir quando tantos sofrem, sobre como a virada do ano é um embuste que só visa o consumismo e a ilusão. É o rosno da plateia que se recusa a suspender a descrença.

De fato, ao fim de cada ano somos incentivados a gastar mais do que podemos, a abraçar quem mal conhecemos e a tomar resoluções meio fictícias, já que quem pretende mudar de vida precisa fazer reflexões mais profundas do que simplesmente repetir o mantra “hoje é um novo tempo, de um novo dia”. Mas isso não é motivo suficiente para se afastar do palco.

Em tudo há um quê de farsa. Estamos todos em um grande teatro. Então, resta assumir nosso papel e desempenhá-lo com integridade. A vida fica mais estimulante quando aceitamos o convite para interagir, ao invés de nos isolarmos num mau humor crítico.

Já que está dentro, esteja.

Reze quando diante de um altar, mesmo sendo ateu. Declare-se apaixonado, mesmo sem nenhuma garantia de que haverá amanhã. Diante de um defunto desconhecido, chore do mesmo jeito, pois sempre temos uma morte íntima a lamentar. Ao pegar uma estrada, abra-se para os imprevistos. Disse sim? Então dê o seu melhor para este sim contribuir para o que está à sua volta.

A vida não tem um roteiro determinado. É um happening no gerúndio: vai acontecendo. Ou você se joga e atua junto – e assim aprende, surpreende, colabora – ou assiste a tudo daquela distância segura de quem dá bastante palpite, mas não se envolve com nada.

Boa entrada em 2017.