sábado, 7 de julho de 2018


07 DE JULHO DE 2018
SINGULAR

UMA FAMÍLIA ÀBEIRA DO PENHASCO


Passados 40 anos desde que saiu de casa e abraçou a civilização, a costureira Maribel Edira Klipel da Silva voltou, em dezembro do ano passado, a morar na cabana isolada em que viveu até pouco antes da maioridade. Ela se desvencilhou de comodidades como um chuveiro de água quente, uma geladeira movida a eletricidade e um fogão a gás. Passou a viver com a sensação de estar em suspenso no tempo. 

Durante o dia, recebe turistas na sala de estar da choupana de madeira erguida por seus pais há 73 anos, localizada no que hoje é o Parque Nacional de Aparados da Serra, em Cambará do Sul. À noite, enquanto quem mora nas cidades desliga os abajures, ela apaga a lamparina acesa a gás e adormece ao lado do marido a poucas dezenas de mestros do cânion do Itaimbezinho, penhasco de 720 metros de altura localizado na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.

Em seus 57 anos de vida, Edira jamais viu a casa de madeira ter uma única lâmpada acesa com energia elétrica. Junto a nove irmãs e dois irmãos, cresceu correndo no meio de araucárias, troteando no lombo de cavalos e se banhando em cascatas de água límpida. Não se importava muito com os calçados grandes demais para o pé, comprados para durar bastante. As preocupações eram o frio que "engripava", as vacas bravas no caminho da escola e os pumas que atacavam ovelhas à noite.

- Vivi em Caxias do Sul durante 40 anos, criei dois filhos, fiquei desempregada e agora estou de volta. Era muito bom viver aqui (ao lado do cânion). A gente trabalhava, mas brincava muito, corria no mato, descia para o Itaimbezinho sem contar, porque o pai e a mãe não deixavam, por ser perigoso. Minha mãe puxava água no balde, carregava lenha no mato, fazia queijo com leite. E dizia que nunca passou trabalho - conta Edira, que divide a cama com uma colorida colcha de crochê ao lado do marido, Antonio Selomar Rodrigues da Silva, 64 anos.

Para chegar até ali, é preciso percorrer, desde o centro de Cambará do Sul, 18 quilômetros em estrada de chão. Uma vez no parque, deve-se costear a sede do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), percorrer a pé 1,5 quilômetro da Trilha do Vértice e, em vez de tomar a direita para avistar a Cachoeira das Andorinhas, pegar a esquerda.

No pátio, além de uma horta e uma grande araucária, uma placa apresenta o local aberto a visitação desde 2015: "Café do Vô Marçal e Artesanato da Vó Maria", em homenagem aos pais, Marçal e Maria Klipp. O local é cuidado por Edira e pelo marido, mas também pela cunhada, a artesã Loeni Borges Klippel (o sobrenome mudou por erro do cartório de registros), 64 anos, e a irmã adotiva, Mônica Rosane Mendes de Oliveira, 51.

Quando Marçal e Maria eram vivos, sua residência era ponto de encontro de tropeiros e viajantes que acampavam (prática permitida até a década de 1980). Tomados de surpresa por uma virada no tempo, um frio insuportável ou uma neblina impedindo que se enxergasse mais de um palmo de distância, todos os incautos eram acolhidos. O casal dava um jeito de abrigá-los, aquecê-los perto do fogão a lenha, inclui-los na roda de chimarrão. Se estavam com fome, preparava-se uma refeição. Hoje, os herdeiros mantêm a tradição de deixar as portas abertas e conservam a cabana tal como era antigamente. No fim de semana, recebem o reforço da filha de Loeni, Vanessa Borges Klippel, 32.

- A gente era pobre, mas sempre ajudava os viajantes. Se alguém batesse na porta e pedisse um pouso, um café ou um almoço, meus pais sempre davam - rememora Edira.

Zero Hora visitou o local em uma tarde de terça-feira e na manhã da quinta-feira seguinte. Parece que as sete décadas não passaram naquele ambiente. Não faria sentido um calendário colado na parede: nada ali remete aos tempos modernos. No banheiro, o chuveiro é um balde suspenso por uma roldana, e, no quarto, um andador de vime para bebês descansa no chão. Em outro cômodo, um tear e uma roca repousam em frente à janela de vidro.

O teto não tem forro e um pequeno fogão à lenha na sala é a única fonte de calor. O que é perecível se esconde em uma caixa de isopor e, no galpão dos fundos, buracos denunciam vazios onde foi levantado fogo de chão. No pátio, seriemas caminham desengonçadas de um lado para o outro.

Quem quer se recompor das trilhas no cânion pode pedir pastel de pinhão, suco de laranja e almoço campeiro. Ou, ainda, comprar roupas de lã artesanal. A iniciativa de transformar a antiga residência em casa para turistas foi de Loeni, esposa do construtor Eraldo Kippel, 60 anos. Loi, como é conhecida, se uniu à família há quatro décadas e chama os sogros de vô e de vó. Habilíssima com as mãos, aprendeu com Maria a lida na roca e no tear, trançando a lã em cachecóis, toucas e palas.

- Hoje sigo os passos da vó Maria, fazendo o que ela fazia. O espírito dos dois está vivo aqui. Comecei a cuidar da casa para a história da família não se perder e para ter um retorno financeiro também - diz a artesã.

A cabana foi construída em 1945, antes da implementação do Parque Nacional de Aparados da Serra (o que ocorreu em 1959). Há situações semelhantes, de residências erguidas em áreas depois transformadas em parques de preservação, em todo o país - invariavelmente, tornados casos de disputas judiciais. Como tropeiro, Marçal transitava pelos três Estados da Região Sul em viagens nas quais estirava peças de charque e queijo e garrafas de cachaça no lombo de burros. Cavalgava por dias para obter, em troca, açúcar, tecidos para fabricação de roupas, arroz e calçados. Aos 24 anos, em uma das andanças, se apaixonou pelo "peral" (como muitos chamam os cânions).

Tábua sobre tábua, Marçal, Maria e um compadre construíram com as próprias mãos a casa e o galpão nos fundos. A família festejou ali os casamentos dos filhos e os 65 anos de comunhão do casal. Sob o mesmo piso de madeira, nasceram os 10 filhos biológicos com auxílio de parteira.

As exceções foram dois bebês - Eroni e Eraldo -, que Maria deu à luz sozinha. Marçal até saiu cavalgando para buscar ajuda, mas a distância da casa em relação à zona urbana impediu que voltasse a tempo. Sozinha, nas duas ocasiões, a mulher cortou à faca o cordão umbilical.

Como quem se queixa da grama alta no quintal de casa, Marçal por vezes reclamava da neblina típica da região, que até hoje azeda o dia de turistas. Costumava dizer aos filhos:

- Um dia vou tapar esses perais para acabar com essa umidade.

MARCEL HARTMANN

07 DE JULHO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

TE RECUERDO VICTOR JARA


Eu era criança quando Victor Jara foi preso, torturado e morto, nos primeiros dias depois do golpe militar que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 1973. Ouviria falar dele apenas alguns anos mais tarde, adolescente ainda, quando alguém me mostrou, comovido, Te Recuerdo Amanda, sua música mais conhecida. A bonita e triste canção de amor nasceu para mim junto com a história trágica do seu autor - uma espécie de Chico Buarque chileno, me disseram, preso com outros professores e estudantes durante um protesto em uma universidade no dia seguinte ao golpe.

Enquanto eu ouvia a canção pela primeira vez, me contaram que o cantor havia sido morto em um estádio improvisado como cárcere. E mais: suas mãos foram cortadas para que ele soubesse que jamais voltaria a tocar violão. Essa imagem difícil de esquecer - um artista com as mãos amputadas, sangrando sob o olhar sádico dos seus algozes - é a única parte exagerada dessa tragédia latino-americana. Jara não perdeu as mãos, mas foi espancado e atingido por pelo menos 23 tiros antes que seu corpo fosse descartado em um terreno baldio.

Em meio ao terror da tortura, porém, o poeta teve tempo de escrever o poema-reportagem que ainda hoje é um dos mais pungentes relatos, no calor da hora, do horror da violência de Estado: "Somos cinco mil aquí/ en esta pequeña parte de la ciudad/ (?) Seis de los nuestros se perdieron/ en el espacio de las estrellas./ Uno muerto, un golpeado como jamás creí/ se podría golpear a un ser humano./ Los otros cuatro quisieron quitarse/ todos los temores, / uno saltando al vacío,/ otro golpeándose la cabeza contra un muro/ pero todos con la mirada fija en la muerte./ Qué espanto produce el rostro del fascismo".

Victor Jara tornou-se o mártir mais conhecido da truculenta ditadura chilena, que matou mais de 40 mil pessoas em 17 anos. Um símbolo do que a cegueira ideológica é capaz de produzir quando tem acesso a armas e se coloca acima do bem, do mal e da justiça. E era, até bem pouco tempo, também um símbolo de impunidade. Não mais. Na semana que passou, oito ex-integrantes do exército chileno foram condenados pela morte do cantor. Hugo Sanchez Marmonti, Raul Jofre González, Edwin Dimter Bianchi, Nelson Haase Mazzei, Ernesto Bethke Wulf, Juan Jara Quintana, Hernán Chacon Soto e Patricio Vásquez Donoso foram condenados a 15 anos de prisão.

Por uma dessas coincidências que adornam o acaso com novos sentidos, na mesma semana em que os militares chilenos foram condenados, o Brasil levou um puxão de orelhas da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O Estado brasileiro foi condenado pela falta de investigação, julgamento e punição dos responsáveis pela morte do jornalista Vladimir Herzog. Em 24 de outubro de 1975, Vlado, então funcionário da TV Cultura, apresentou-se voluntariamente para depor no DOI/CODI de São Paulo. Não teve tempo de escrever um poema, mas sua imagem, morto, ajudou a sepultar a ditadura brasileira.

Com tantos elementos em comum até aqui, os destinos de Vlado e Jara tomaram caminhos distintos nos últimos dias. A partir de agora, Victor Jara passa a simbolizar a Justiça que tardou, mas não falhou, na história recente do nosso continente. A memória de Vlado, por sua vez, permanece à espera do acerto de contas com o passado que pode impedir que a nossa história, um dia, decida reencarnar como assombração.

CLÁUDIA LAITANO

07 DE JULHO DE 2018
INFORME ESPECIAL

A MELHOR SEMANA DOS ÚLTIMOS TEMPOS EM PORTO ALEGRE


Foi uma baita semana para a Capital. Juntando os pontos, os últimos dias mostram que alguma coisa nova e muito boa começou a acontecer. Por três motivos:

1 A inauguração do primeiro trecho da revitalização da orla do Guaíba injetou ânimo na cidade. Ficou lindo. Imagino a vergonha da caranguejada que lutou contra até onde pôde. Custou mais caro? Atrasou? A culpa também é dos que reclamam que custou mais caro e que atrasou. Devem estar, a esta altura, focados em algum novo alvo. Porto Alegre ficou mais bonita, mais verde, mais pública. Acabou a novela. Obrigado, Jaime Lerner. E desculpe o mau humor de alguns.

2 O governo do Estado encaminhou à Assembleia Legislativa, durante a semana, um projeto de lei de incentivo à segurança. Se aprovada, a iniciativa da sociedade, através do Instituto Floresta, abrirá a possibilidade da participação direta de empresas e pessoas físicas na execução de projetos que ajudem as polícias a prevenir e combater a criminalidade. Sem que o governo perca protagonismo nem tenha de abrir mão de receitas. Mesmo antes de virar lei, a ideia já rendeu a entrega de viaturas e armamento. Imagine se a burocracia ajudar.

3 Mais de 700 pessoas se reuniram em Porto Alegre na quarta-feira para o lançamento público da Aliança para a Inovação, uma união inédita entre UFRGS, PUCRS e Unisinos. A palestra do catalão Josep Piqué, guru dos ecossistemas de inovação, teve mais público do que confirmações anteriores de presença, algo raro em eventos dessa natureza. Sinal de que a cidade tem fome e sede de mudança e evolução. Unir universidades públicas e privadas é um passo gigantesco, um exemplo que merece aplauso e apoio. E vem mais por aí.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 5 de julho de 2018


05 DE JULHO DE 2018
ARTIGO

RAÍZES DO BRASIL


A meses das eleições, lembrei-me da obra clássica Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. E da expressão "homem cordial", por ele cunhada. Um olhar desatento nos faria interpretar essa figura de linguagem como elogiosa, ou seja, tratar-se-ia de uma alusão a um modo amável de ser.

Ledo engano. O "homem cordial" de Buarque de Holanda é produto de um tecido social no qual as relações se baseiam em exacerbações do afeto, conchavos e favorecimentos entre famílias e amigos.

Representa o que há de mais perverso na estrutura escravagista ainda viva na sociedade brasileira. Um mundo em que tudo se resolve no âmbito privado e não no institucional. O "homem cordial" é bondoso com o criado, mas deixa clara a distância que há entre os dois. Pois ele se sente superior. Como antes fazia com o corpo do escravo, apropria-se do país.

Tudo pertence a ele e ao seu clã. A república, ou res publica, sistema no qual o Estado representa o interesse geral dos cidadãos, é substituído pelo compadrio, onde o privado sobrepõe-se ao público.

No latim, cordis significa coração. Buarque de Holanda refere-se a um modo de viver no qual as regras não valem para todos, mas segundo os afetos e vontades de alguns. Neste Brasil injusto, as regras se aplicam desde que o mais fraco entregue barato o seu suor. Mas, se ele quiser renegociar, a coisa muda.

Ouse pôr em xeque o poder das grandes corporações ou os privilégios dos donos do Brasil. Tente baixar os juros abusivos do cartão. Faça isto e verá quem manda no país. Como no passado, em nosso tempo a casa- grande e a senzala convivem apenas na aparência. Desde que tudo continue como está e o "homem cordial" de Buarque de Holanda dê as ordens.

A verdade é que somos tributários desse jeito feio de ser, em que homens públicos não servem a todos, mas apenas aos seus. É isto que faz perpetuar e acentuar nossas desigualdades. Temos de mudar. As eleições vêm aí. Analise com cuidado os candidatos. Procure quem já tenha feito algo útil para a população. Escolha um ficha-limpa que aos seus olhos possa melhorar o Brasil.

GILBERTO SCHWARTSMANN


05 DE JULHO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

UM PACTO PARA O FUTURO

Merece apoio a iniciativa pela inovação que une universidades, empresários, setor público e entidades com o objetivo de inserir Porto Alegre em um novo cenário de desenvolvimento

Inovar deixou, há tempos, de ser modismo ou opção. Empresas, governos e entidades necessitam, cada vez mais, de um ecossistema amigável para se desenvolver e, com isso, gerar prosperidade e bem-estar. Criar as condições para que isso aconteça não é uma missão apenas de um ente, mas de toda a sociedade, nas suas dimensões individuais e coletivas.

Inspiradas por essa lógica, as três principais universidades gaúchas iniciaram um movimento inédito de convergência. UFRGS, PUCRS e Unisinos estão na linha de frente da Aliança para a Inovação, que teve ontem um momento fundamental em Porto Alegre. O desembarque na Capital do consultor e presidente da Associação Internacional de Parques Científicos e Tecnológicos, Josep Piqué, deu início a um novo capítulo desse esforço. Piqué, autoridade planetária em ambientes de inovação, auxiliará na formatação de um modelo sustentável e eficaz para Porto Alegre, sustentado nas histórias de sucesso de Barcelona, Medellín e Santa Catarina. A caminhada iniciada ontem terá um outro marco definitivo em novembro, quando está prevista a assinatura do Pacto pela Inovação.

Um dos primeiros e principais desafios nos próximos meses é vencer as barreiras do descrédito, erguidas pelas expectativas frustradas de iniciativas pretéritas. Desta vez, porém, as condições são bem mais favoráveis, a começar pela formatação plural dos protagonistas dessa união: academia, empresários, poder público e entidades representativas do tecido social e econômico estão se mobilizando, cientes da urgência da tomada de decisões inadiáveis na direção de um novo futuro para Porto Alegre. Cria-se assim um movimento mais amplo que, além das universidades, recebe ajuda e impulsos de uma ampla rede apartidária e colaborativa.

Tão importante quanto a iniciativa em si é a consciência de que a tarefa de recuperar a autoestima da capital dos gaúchos deve ser compartilhada. A violência, a perda de relevância no cenário nacional e a fuga de empresas e de talentos jogaram sombras sobre uma cidade que já foi sinônimo de vanguarda. Não resta dúvida de que temos em Porto Alegre todos os elementos para essa retomada, sendo necessário para tal a remoção das barreiras burocráticas e culturais.

Não é um desafio fácil, mas é factível, na medida em que seja compreendido e apoiado sem os ranços e o radicalismo que, infelizmente, ganharam espaço entre nós. Temos, mais uma vez, a oportunidade de inserir Porto Alegre em um novo cenário. Não há milagres. Há talento, trabalho e compreensão de que não podemos perder mais tempo.


05 DE JULHO DE 2018
ECONOMIA

Greve derruba produção industrial

RETRAÇÃO DE 10,9% em maio é a maior em quase 10 anos e afetou 24 dos 26 setores analisados
A greve dos caminhoneiros derrubou com força a produção industrial no país em maio. A queda de 10,9% é a maior em quase 10 anos - em dezembro de 2008 foi de 11,2%, indicou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A paralisação de 11 dias levou à interrupção do transporte de matéria-prima e de produtos, fazendo com que fábricas chegassem a dispensar trabalhadores por falta de condições de produzir. Em relação a maio de 2017, a produção caiu 6,6%.

O recuo foi observado em 24 dos 26 ramos pesquisados. As principais influências negativas foram de veículos automotores, reboques e carrocerias (-29,8%) e produtos alimentícios (-17,1%). No setor de bebidas, a retração de 18,1% é a maior já registrada desde 2002, quando começou a série histórica. Apenas produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (6,3%), impulsionado pelo óleo diesel, e indústrias extrativas (2,3%) tiveram avanços.

- Se não tem chegada de matéria-prima para a produção de veículos, tem de paralisar a produção. Se tem dificuldade de escoar e não tem mais capacidade para estocar no pátio industrial das montadoras, tem de paralisar ou diminuir a produção. Isso afeta de forma importante o setor de automóveis - explica André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

O tombo de 10,9% fez crescer a distância entre o patamar de produção atual e o ponto mais elevado já registrado pelo órgão. Em abril, a indústria operava 14,5% abaixo do pico de produção registrado em maio de 2011. Em maio, esse patamar de produção ficou 23,8% mais baixo que o ápice já registrado, em nível semelhante ao de dezembro de 2003.

No ano, a indústria tem alta de 2%. No acumulado em 12 meses, o avanço é de 3%. Após a divulgação dos números do IBGE, o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge, disse que a greve dos caminhoneiros deve ter impacto na recuperação econômica, mas ponderou que é preciso esperar pela divulgação de mais indicadores para se ter melhor ideia da dimensão do choque provocado pela paralisação no transporte de cargas:

- Em decorrência do prejuízo do mês de maio, com certeza há impacto no exercício. Agora, qual será o tamanho disso temos de observar mais adiante.

05 DE JULHO DE 2018
INFRAESTRUTURA

Quilômetros de incertezas na freeway


SAÍDA DA CONCEPA da BR-290 provoca série de questionamentos sobre manutenção e serviços prestados na rodovia federal

Na tarde de ontem, dois funcionários de uma empresa de segurança percorriam a BR-290, quando, no km 58, em Glorinha, a correia do carro estragou. Era necessário um guincho para retirar o Corsa empenhado do local.

Gelson Pinto e Mauro da Silva tentaram acionar o interfone em um recuo da rodovia. Sem sucesso, telefonaram para um serviço privado que levou uma hora para chegar e cobrou R$ 150. Foi um dos primeiros impactos que o encerramento do contrato com a Concepa deve provocar nos usuários - durante a concessão, o socorro levava cerca de 10 minutos.

- O pedágio precisa ser cobrado para termos manutenção e assistências. Já utilizamos algumas vezes, foi rápido. Dessa vez, ficamos na mão - reclamou Mauro.

À meia-noite de terça-feira, o convênio chegou ao fim porque a Concepa rejeitou a prorrogação emergencial, proposta pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), devido à queda no preço dos pedágios. Motoristas comemoram a interrupção da cobrança e a consequente economia na viagem, mas a saída da empresa já causa incertezas sobre os serviços prestados e a manutenção da estrada.

Pelos cálculos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), são necessários R$ 40 milhões para custeá- la, garantir a segurança e a iluminação das praças de pedágio e operar o vão móvel da ponte do Guaíba durante os próximos sete meses. O governo federal prevê que nova concessionária chegará à estrada em fevereiro de 2019, em contrato que abrange também as BRs 101, 386 e 448.

- Estamos buscando a estrutura necessária para manter os níveis de qualidade e segurança. Em contrapartida, a cobrança de pedágio fica suspensa - resumiu Allan Machado, superintendente do Dnit no Estado.

ATRASO EM IÇAMENTO DE VÃO MÓVEL DA PONTE

Na autarquia, o principal impasse está no orçamento mirrado. Nos últimos anos, os valores repassados pela União vêm caindo significativamente, levando inclusive à paralisação de obras. Hoje, essa verba não existe.

Por isso, o departamento busca repasse extra do governo federal. Em Brasília, o Planalto sinalizou positivamente, mas ainda sem apresentar garantias. É um montante expressivo - mais de 13% de toda a verba destinada para manter rodovias federais no Estado em 2018 e 80% do orçamento destinado à nova ponte do Guaíba no ano.

- Não há mais orçamento. Sem suplementação, será inviável - admitiu um servidor da autarquia.

Com o suporte, o Dnit pretende lançar licitação para os consertos emergenciais na BR-290. Em paralelo, contratou uma empresa para operar o vão móvel, em Porto Alegre. O primeiro dia foi marcado por imprecisões - o departamento anunciou que o serviço seria às 13h, mas ocorreu somente às 14h15min.

DÉBORA ELY

05 DE JULHO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Já era

Disse o homem para o garoto:


"Fiquei velho na época errada. Toda a minha vida foi assim. Cheguei às diferentes fases da vida quando elas já tinham perdido as suas vantagens. Ou antes de adquirirem vantagens novas. Passei minha vida com aquela impressão de quem entrou na festa quando ela já tinha acabado ou saiu quando ela ia ficar boa.

"Veja você: a infância. Houve um tempo em que crianças, assim, da minha classe eram tratadas como príncipes e princesas. Está certo, elas também apanhavam muito. Mas havia as compensações. Geralmente uma avó morava junto ou morava perto e as consolava com colo e doces. E as mães não trabalhavam fora nem faziam academia ou pintura em cerâmica. Ficavam em casa, inventando maneiras de estragar os filhos.

"Você alguma vez teve roupa de veludo? Nem eu. Sou da geração pós-veludo e pré-jeans. Às vezes, olho fotografias daquelas crianças antigas com roupas ridículas, golas rendadas e babados, e me dá uma inveja... Aquilo, sim, era maneira de tratar criança. Acho que a minha geração deu no que deu porque nunca usou roupa de veludo. Ou cacho nos cabelos.

"Outra coisa: psicologia. Fui da primeira geração criada com psicologia. Nada de castigo - conversa. Ele rabiscou toda a parede? Está tentando expressar alguma coisa. E usou o batom da mãe? Ih, cuidado, uma surra agora pode deflagrar um processo de introjeção edipiana e traumatizá-lo para sempre. Também fui da primeira geração que, com a invenção da calculadora de bolso, não precisou decorar a tabuada. Resultado: cresci sem a noção de duas coisas importantíssimas: pecado e matemática.

"Cheguei tarde à infância e muito cedo à adolescência. A revolução sexual começou exatamente um dia depois que eu casei com a minha mulher porque era a única maneira de poder dormir com ela. Nos casamos num sábado e a revolução sexual começou no domingo. Ainda tentei desfazer o casamento, já que não precisava mais, mas não deu, estava feito.

"Minha adolescência foi um martírio. Me lembro dela como uma única e interminável tentativa de desengatar sutiãs. Os sutiãs eram presos atrás de mil maneiras. Ganchos, presilhas, botões, solda. Você precisava de um curso de engenharia para desengatá-los. Uma namorada minha usava um sutiã com uma fechadura atrás. Com combinação, como um cofre, juro. Dezessete para a esquerda, cinco para a direita, rápido que a mãe vem vindo! Você, garoto, nem deve saber o que é sutiã.

"Eu pensava ser um jovem adulto sério, engajado nas melhores causas, talvez até um ativista político, um guerrilheiro. Quando cheguei à idade, os jovens adultos estavam cuidando das suas carreiras e das suas carteiras de ações. Fui da primeira geração que quando falava em ir para as montanhas queria dizer para um fim de semana na serra. E a última que ainda usou a palavra ?alienação?, mas já sem saber o que queria dizer.

"Tudo bem, pensei. Vou me preparar para a velhice e os seus privilégios, com minha pensão e meus netos. Mas a Previdência está quase quebrando e minha aposentadoria é uma piada, e meus netos, quando me olham, parecem estar me medindo para um asilo geriátrico. E há meia hora que eu estou aqui chateando você com toda esta conversa e você ainda não se levantou para me dar o seu lugar".

E disse o garoto: "Pô, qual é, coroa? Esse negócio de dar lugar pra velho já era".

E suspirou o homem: "Eu não disse? Também cheguei tarde à velhice".

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 4 de julho de 2018


04 DE JULHO DE 2018
PEDRO GONZAGA

OU


Ou fiquei distante das discussões, ou pouco se fala hoje de Charlie Chaplin, ou foi porque fiquei velho de repente, ou já não é comum alguém na vizinhança escutar Stevie Wonder ou Tim Maia, ou isso é apenas uma reclamação caduca, ou o hábito de resmungar recentemente adquirido por terem os amigos migrado para digitais estratosferas, 

ou tudo começou quando os horóscopos abandonaram as sortes do dia, ou quando as ruas deixaram de ser trafegáveis, ou talvez seja apenas um problema de digestão, ou uma dor de dente, ou a tosse que dura mais a cada inverno, 

ou afinal as infinitas latas de coca zero começam a cobrar seu preço, ou os infinitos volumes de poesia que se não prejudicam o corpo sobrecarregam a alma, ou aquele verso em que Bandeira diz ser a vida uma agitação feroz e sem finalidade, ou porque o trabalho nos tira o tempo do melhor amor, ou porque talvez tudo nasça do desconforto de estarmos aqui, ou algures, ou alegres, 

ou tristes, ou indiferentes, ou cansados em plena segunda-feira, ou animados quando todos dormem, ou otimistas depois de uns copos porque lembramos do Cartola cantarolando "a sorrir eu pretendo levar a vida", ou uma euforia que brota do expediente subitamente reduzido pelos jogos da copa do mundo, ou a vibração da próxima greve que não dará em nada, 

ou ame seu país, ou o deixe, ou o afogue nas águas de um rio qualquer, ou o esqueça numa esquina de Montevidéu, ou escreva uma crônica, ou agarre firme o corpo mais próximo, ou você não sente os abalos desta pedra girante, ou você não cuida que os pássaros se silenciam a cada estação, ou quem sabe tais figuras sejam apenas um exagero, ou um golpe retórico, ou um exercício de estilo, ou esta é uma pausa necessária para suavizar um pouco o horror, ou tentar estancar a perda de leitores que deve vir a galope, 

ou chegamos juntos aqui, ou você me abandonou em algum dos ous, ou prosseguiu, ou ficou a ler o que eu li tantas vezes antes para fazer o texto funcionar, ou ficou porque reconheceu o tom de uma voz que se esforça para se manter humana, ou porque no fundo sabemos que o verso ferino do Bandeira está certo, ou porque lutamos todos os dias para que ele esteja errado.

PEDRO GONZAGA

04 DE JULHO DE 2018
INFRAESTRUTURA

Leilão de BRs será em novembro



PUBLICADO ONTEM, edital prevê valor máximo de R$ 7,24 para veículos de passeio e 225 quilômetros duplicados em rodovias do RS
Prevista para iniciar sua operação em 2019, a nova concessionária que passará a administrar quatro estradas gaúchas será conhecida em quatro meses. Para o dia 1º de novembro, está previsto o leilão da chamada Rodovia de Integração Sul, formada pelas BRs 101, 290, 386 e 448.

O anúncio do cronograma ocorreu em Brasília ontem, mesmo dia em que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou no Diário Oficial da União o edital de concessão. No documento, estão previstas as principais diretrizes do contrato, como a abertura de sete praças de pedágio e o valor máximo de R$ 7,24 em cada.

Primeiro pacote de concessão de rodovias lançado pelo governo Michel Temer, o plano servirá de modelo para o restante do país. Pelo calendário, a assinatura do contrato ocorrerá em 9 de janeiro. Um mês depois, em 8 de fevereiro, a concessionária assumiria a administração de 473,5 quilômetros de rodovias federais no Estado. Poderão participar do leilão empresas e consórcios brasileiros e estrangeiros. Vencerá aquele que apresentar a tarifa de pedágio mais baixa.

- Chegamos a um modelo muito próximo do ideal que será aplicado nas demais concessões daqui em diante. O edital está muito bem estruturado, não acredito em polêmicas ou distorções - disse Mário Rodrigues, diretor-geral da ANTT.

Inicialmente, a cobrança da tarifa ocorrerá somente em dois pontos da BR-290, em Gravataí e Santo Antônio da Patrulha. Passado um ano e meio de concessão, as sete praças, em ambos os sentidos, começarão a funcionar.

A cedência dos trechos à iniciativa privada será por 30 anos. Como contrapartida, a empresa vencedora terá de promover melhorias na infraestrutura - a principal será a duplicação da BR-386, entre Carazinho e Lajeado.

NO COMEÇO, HAVERÁ REPAROS E MELHORIAS NA SINALIZAÇÃO

Com o alargamento dos 225 quilômetros, o investimento nas estradas concedidas chegará a R$ 7,8 bilhões e a Rodovia de Integração Sul será totalmente duplicada. Nos primeiros dois anos do convênio, a empresa executará reparos emergenciais e melhorias na sinalização. Do 3º ao 18º, fará ampliação da BR-386.

Segundo o superintendente de exploração de infraestrutura rodoviária da ANTT, Fábio Freitas, o calendário de obras evita o encarecimento dos pedágios. Na prática, o prazo torna o convênio mais flexível na tentativa de viabilizar a concessão - nas últimas realizadas pelo governo Dilma Rousseff, o cronograma para a entrega de trechos duplicados era de cinco anos.

DÉBORA ELY

04 DE JULHO DE 2018
INFORME ESPECIAL

EXAGERA MAIS, ROLA MAIS, NEYMAR


Robertão é um cara legal. Bom pai, paga em dia seus impostos e conta piadas como ninguém. Robertão adora bater uma bolinha no fim de semana. Mas o técnico do México, os magoados e os perdedores da Copa não acusam o Robertão de fiasquento. Eles miram no Neymar, porque Neymar é um dos melhores jogadores do mundo e, ao mesmo tempo, o que mais recebeu faltas na Rússia. Neymar é caçado, chutado, pisado, sob os olhares omissos dos árbitros pagos para proteger o espetáculo.

Já escrevi que Neymar cai pouco diante da violência a ele dirigida. Inspirado pelos memes da semana, acrescento: Neymar também rola pouco. Deveria rolar mais, fazer mais estardalhaço, berrar a plenos pulmões cada vez que recebe uma falta. Talvez assim consiga chamar atenção para a pancadaria da qual é vítima.

Fiquei feliz e aliviado quando ele corcoveou e se debateu depois do pisão do mexicano. Porque as outras duas opções seriam terríveis para ele e para o Brasil: 1) Chamar o juiz e a Fifa de imbecis e receber o cartão amarelo que o deixaria fora da próxima partida. 2) Levantar e dar um chute no agressor mexicano, o que levaria à mesma consequência, mas com cartão vermelho. Parabéns, Neymar, por extravasar sua raiva e inconformidade de uma maneira apropriada e permitida pela lei do futebol.

Não tenho dúvida: Neymar continuará apanhando, a Fifa continuará fazendo de conta que não vê e os adversários continuarão reclamando, depois de derrotados - no caso do México, com duas jogadas de Neymar. Continua rolando. Exagera mais, Neymar. É o que te resta diante da violência dos trogloditas dentro e fora do campo.

TULIO MILMAN

04 DE JULHO DE 2018
TECNOLOGIA E PUBLICIDADE

Google deixa empresas lerem e-mail de usuários, diz jornal

O Google não cumpriu a promessa que fez há um ano e ainda permite que desenvolvedores tenham acesso aos e-mails dos usuários do Gmail para traçar perfis e personalizar os anúncios, afirmou o jornal The Wall Street Journal. A publicação entrevistou mais de 20 funcionários (atuais e antigos) de empresas que desenvolvem aplicativos.

A companhia continua permitindo que centenas de softwares externos possam explorar as caixas de entrada dos milhões de usuários do Gmail. Segundo o The Wall Street Journal, o Google fez pouco para evitar esse tipo de invasão de privacidade.

O jornal descobriu que uma dessas empresas, a Return Path, coletava informações das caixas de e-mail de mais de dois milhões de pessoas, que usaram a conta do Gmail/Microsoft ou Yahoo para se cadastrar em um dos vários aplicativos oferecidos pela companhia. Thede Loder, chefe de tecnologia da eDataSource, concorrente da Return Path, disse que o uso dos dados coletados em e-mails para o envio de publicidade é uma prática comum, feita há anos. O executivo disse que isso era considerado um "segredo sujo", conhecido entre empresas que trabalham com dados. Lorder afirmou que a eDataSource baniu recentemente o escaneamento de dados de e-mails.

Em nota ao The Wall Street Journal, o Google afirmou que libera o acesso às informações do Gmail só a empresas terceiras que tenham pedido e recebido permissão dos usuários. "Os próprios funcionários do Google leem e-mails apenas em casos muito específicos em que o usuário pede e dá o consentimento, ou onde precisamos para fins de segurança, como investigar um bug ou abuso", disse.

terça-feira, 3 de julho de 2018



03 DE JULHO DE 2018
DIANA CORSO


Crucificando a gestante


No final da festa, a gestante homenageada parecia um espantalho. Descabelada, seminua, a barriga rabiscada, o rosto parecia maquiado por uma criança de três anos. Começou linda, arrumada para a homenagem, roupa nova e instituto de beleza.

A irmã sentiu que a festa degringolou para bullying coletivo, como se as mulheres presentes estivessem punindo a grávida pela sua condição. Lembrava de ter dado risadas, de desenhar na barriga dela com batom. Agora sentia vergonha. Ela, que tinha se esmerado para entrar com o pé direito na missão de madrinha, que organizara um chá de fraldas a rigor. Decididamente, precisava pedir desculpas.

Consolei-a com o argumento de que isso era um rito, que não havia sido cruel. Mas ela perguntava: por que fazemos isso? Pensei no argumento clássico: temos inveja da gestante. Mesmo que as outras já tivessem filhos, seria um estado cobiçado. Como se ela estivesse em um estado de plenitude em que todas gostaríamos de estar. Mas não me convenci.

Da parte das mulheres que já experimentaram uma gestação, tal visão eufórica me parece injustificável. Os nove meses não são uma travessia fácil. Não bastassem as transformações físicas, precisamos enfrentar a labilidade emocional e a cabeça que não cessa de desfilar incertezas. Um chá de fraldas deveria ser como um grupo de apoio mútuo, uma celebração que, sem deixar de ser alegre, poderia ser acolhedora. Só que acabou tomando a forma de um rito, um exorcismo de pendências com a maternidade. Por quê?

Porque a gestante deixa de ser dona do seu corpo. O rito a coloca na condição de casca em torno do feto. "Empalhaçar" uma grávida é uma alegoria da alienação de si que ela está sofrendo, seus trajes evidenciam e exacerbam sua transformação corporal. Por quase um ano - contando a gestação e o puerpério -, ela se esgaça, desequilibra-se, sente-se alterada e privada do controle sobre sua imagem corporal. Pode estar feliz, sentir-se bonita, mas fará um cotidiano esforço de adaptação para reconhecer-se no espelho e entender que naquela barriga há alguém que é dela, mas não é ela.

Frente às grávidas nos identificamos com o bebê. Empenhadas em lembrar à futura mãe que somente ele importa, ignoramos ostensivamente o querer dela. Fazemos questão de esquecer que também temos o potencial da gestação, que conhecemos seus fardos.

Tememos que nossa mãe possa ter vacilado em seu desejo por nós. Já pensou se ela tivesse ponderado que não nascêssemos? Que perigoso é o poder de uma mulher na condição materna! Melhor ir cortando as asinhas das futuras mães, elas que aprendam a ser um contêiner, a inexistir, a sujeitar-se ao filho. Talvez essa seja a razão da crueldade do rito. Não é difícil entender a ressaca da futura madrinha. Precisamos falar mais sobre a crueldade com as gestantes.

*Até o dia 16 de julho, David Coimbra escreve no Jornal da Copa, encartado nesta edição.



DIANA CORSO

03 DE JULHO DE 2018

OPINIÃO DA RBS

A CONTA QUE NÃO FECHA


Tema obrigatório da campanha eleitoral deste ano, embora evitado até agora pelos pré-candidatos à Presidência da República, o déficit previdenciário no país continua à espera de opções de enfrentamento, sem as quais quem tomar posse ficará em situação difícil em âmbito federal e nos Estados. O Rio Grande do Sul, cujo quadro é o mais crítico, corre o risco de ser o Brasil amanhã, se nada for feito para equilibrar receita e despesa da previdência dos servidores. Essa é uma conta que não pode ficar indefinidamente sem fechar, pois há o risco real até mesmo de colapso mais à frente.

No país, as receitas previdenciárias subiram 4,6% no ano passado. No mesmo período, os dispêndios com aposentados aumentaram 9,7%. Tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul, o desequilíbrio no setor público ocorre por uma razão óbvia: as contribuições dos servidores em atividade não conseguem mais, como ocorria até há algum tempo, custear os vencimentos de quem reuniu as condições necessárias para aposentar-se. E esse, obviamente, é um direito que não pode ser colocado em risco. Assim como na área privada, quem trabalha no setor público precisa ter a segurança de que não haverá sobressaltos quando chegar a hora de parar.

A questão é que, em muitas unidades da federação, incluindo o Rio Grande do Sul, o percentual de inativos vem subindo ano a ano, superando de longe o de quem se mantém em atividade. Isso faz com que o Executivo gaúcho gaste hoje 30% de sua receita corrente líquida com menos de 2% da população. A consequência natural é que, tanto no Brasil quanto no Estado, enquanto os recursos destinados à Previdência se ampliam, os relacionados a investimentos se mostram cada vez mais reduzidos.

Por mais que a situação do Rio Grande do Sul preocupe, o fato é que os desequilíbrios se repetem em outros Estados. Entre os que enfrentam situação igualmente grave, estão Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba. A particularidade de o quadro se reproduzir também em âmbito federal reforça a importância de o tema constar como prioridade no debate eleitoral, que tende a se intensificar depois da Copa. O país não pode permitir que tanto o déficit dos servidores públicos quanto o do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se mantenha indefinidamente em níveis recordes.

Infelizmente, o enfraquecimento político do governo federal, devido a denúncias de corrupção, impediu a votação de pontos importantes da reforma da seguridade, que poderiam facilitar também a vida dos futuros governadores. O fato é que, sem alternativa que realmente contribua para reequilibrar o sistema previdenciário, gestores públicos terão dificuldade para governar depois de janeiro, em âmbito federal e nos Estados.

OPINIÃO DA RBS

03 DE JULHO DE 2018
POLÍTICA +

DESPESA COM PESSOAL PERTO DO LIMITE NO RS



Depois de fechar o primeiro quadrimestre do ano com a folha de pagamento dos servidores batendo recorde no Poder Executivo, o governador José Ivo Sartori tem pela frente o desafio de manter a despesa com pessoal sob controle. Do contrário, corre sério risco de ter problemas com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), criada em 2000 para disciplinar as contas públicas no país.

Em abril, segundo o último relatório divulgado pela Secretaria Estadual da Fazenda, o governo destinou 46,54% da receita corrente líquida (isto é, tudo o que o Estado arrecada, descontadas as transferências obrigatórias) para bancar os contracheques do Executivo, que chegaram ao 30º mês de parcelamento em junho. Calculado com base em critérios do Tribunal de Contas, o índice é muito próximo do limite prudencial definido pela LRF, de 46,55%.

A situação preocupa por vários motivos. Primeiro, porque a norma federal impõe restrições e penalidades para gestões que gastam acima do permitido com o funcionalismo. Em segundo lugar, pelo fato de que, neste ano, há mais um reajuste previsto para a segurança pública (em novembro) e existe a expectativa de que Sartori convoque aprovados no último concurso da Brigada Militar - tudo isso, vale lembrar, às vésperas de mais uma campanha eleitoral, que terá o governador como candidato à reeleição.

Se a receita não crescer na mesma proporção das despesas, o Executivo deve superar o limite prudencial. Até agora, isso havia ocorrido no início da gestão de Sartori (veja os detalhes no quadro abaixo), levando ao congelamento de nomeações até abril de 2016.

Com a volta da situação anterior, o governo ficará proibido, por exemplo, de ampliar horas extras e de conceder reajustes sem determinação legal, judicial ou contratual. Pior do que isso, só se o nível de comprometimento ultrapassar 49% da receita (limite máximo permitido), o que ocorreu apenas em 2001, logo após a entrada em vigor da LRF, na administração de Olívio Dutra (PT), quando o país ainda se adaptava às novas e rigorosas exigências contábeis.

JULIANA BUBLITZ


03 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR

A cabeça da agulha

Tinha que pregar um botão em minha camisa. Já tinha definido a roupa para o aniversário da tia de Beatriz. Estava atrasado. Não queria olhar de novo todo o guarda-roupa para uma nova escolha. Deduzi que seria menos trabalhoso repor o botão, já que a calça combinava com a estampa que combinava com o casaco que combinava com os sapatos.

Sofria para atravessar o algodão na cabeça da agulha. Ia pelos cantos, jamais por dentro. Como um gol falso festejado pela torcida, quando a bola vai pelo lado de fora da rede.

Apelei para o meu filho:

- Você pode pôr a linha para mim? Tem olhos melhores que os meus.

Ele colocou sem muito esforço. Atingiu o alvo até com humilhante facilidade.

Sem querer, eu reencenava com o meu filho o gesto e as palavras de minha mãe comigo na infância. Iguaizinhos. O flashback foi assustador. Eu me revi pequeno na cozinha e a mãe me confiando a missão: "Seus olhos são melhores que os meus!".

Eu me achava útil costurando a rara fragilidade ocular de minha mãe; ela, que parecia não apresentar defeitos.

Dificilmente ela pedia ajuda, mania dos pais. Ela já havia tentado em vão seguir sozinha, molhando a ponta do fio com a saliva, sem resultados imediatos. Ladeava o aço, com a visão embaralhada e um quê de ansiedade.

O ato de encilhar a linha na agulha demonstrava ser mais grandioso do que eu imaginava. Três gerações - avó, pai e filho - se juntavam numa mesma mão, atravessando três décadas. O tempo corre, mas a família permanece se ajudando.

Quantas afirmações de minha mãe, inconscientes e preciosas, ainda existem em mim para serem repetidas?

Havia tanto amor envolvido naquela banalidade doméstica: a esperança de costurar as próprias roupas, a decência do pouco, o cuidado com aquilo que se tem e também a felicidade de realizar uma tarefa a dois, que poderia vir a ser de uma solidão ingrata.

Na cabeça da agulha, três cabeças pensavam simultaneamente, três cabeças se amavam. O nó da garganta selava a nossa sincronicidade.

O que me leva a parafrasear, generosamente, a Bíblia: é mais fácil passar o filho pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus.

CARPINEJAR

segunda-feira, 2 de julho de 2018


02 DE JULHO DE 2018
CLÓVIS MALTA

Diante das pancadas da vida



Todo mundo sofreu junto, por instantes, quando o atacante Michy Batshuayi chutou uma bola que foi bater na sua própria cara ao celebrar o gol decisivo da seleção belga contra a da Inglaterra, na Rússia. Em seguida, a legítima videocassetada percorreu o planeta como meme, a ponto de ele mesmo se questionar nas redes sociais por que tinha sido tão estúpido.

Não chegou a tanto. Era para ser apenas a comemoração de um feito inédito no caso da Bélgica, no ambiente visceral de Copa do Mundo. A bola foi arremessada contra a rede, mas bateu na trave e voltou com o impacto de um canhonaço. O ineditismo, no caso, foi o efeito bumerangue. Qualquer pessoa, até mesmo longe de um estádio, está sempre sob o risco de ser atingida assim, de forma inesperada - no campo ou fora dele.

O escritor Nelson Rodrigues, para quem o futebol sempre foi algo épico, muito além de 11 atletas de cada lado obcecados meramente pelo gol, defendeu numa de suas crônicas magistrais o fim do som das bofetadas. Sim, essas que doem como uma bolada, atingem até a alma e abrem uma fenda como a de ferida sem casca. O argumento foi o de que "uma bofetada muda seria menos ultrajante".

E, no entanto, esses golpes secos que costumamos levar, ou até mesmo nos infligir, provocam sempre estardalhaço, como era comum, até pouco tempo, em filmes e telenovelas. Armamos uma jogada e, quando ficamos à espera do grito de gol, o que percebemos é a dor do desaponto, de algo que se volta como uma bola contra nós mesmos. Às vezes, é a aposta frustrada numa pessoa. Outras, a oportunidade perdida de jogar com o vento a favor. Queremos vencer como os que passam à História, e nos confrontamos com a derrota dos obscuros.

Até nisso a Copa nos acena com sabedoria. Assim como na vida, quem disputa o Mundial vai atrás da vitória. A meta é derrotar o adversário, e esse padrão independe de país, de continente. Não é difícil, então, imaginar o sentimento de quem pressente o fim para uma seleção de talentos - a síntese do que uma nação tem de melhor no futebol.

Ainda assim, tem quem faça bonito na Rússia ao se dar conta de estar voltando para casa. O Senegal, por exemplo. Os senegaleses jogaram o melhor que podiam. Nem se queixaram de ter perdido a oportunidade por um estranho critério de número de cartões. O Marrocos e o Peru saíram derrotados, mas sob aplausos, como se tivessem vencido. Perderam o jogo, mas não a altivez. Não a dignidade, a confiança na vida e nos seres humanos.

Muitos dos jogadores que amargaram a derrota na Rússia são exemplos isolados de superação. Basta citar Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. O que dizer, então, do fato de seis de 11 titulares da Seleção Brasileira terem crescido sem o apoio de uma figura paterna?

Pois até nisso nossos atletas são uma síntese do Brasil. No nosso país do futebol, 40% dos lares estão sob o comando de mulheres. Milhões delas sequer contam com uma presença masculina para ajudar na criação dos filhos.

Pode haver pancada maior na vida de quem prospera sem o apoio de um pai? Pior que sim, pois desgraça não tem limite, principalmente quando associada à pobreza ou mesmo à miséria. E essa é uma condição comum à maioria deles.

Nem todos os gênios da bola conseguirão chamar a atenção para o seu talento. Muitos deles passarão incógnitos da idade de atuar profissionalmente nessa carreira tão efêmera.

Quem está na Rússia defendendo nossas cores, porém, nos manda um recado que vai além da obsessão por fazer gol. Um gênio da crônica e da dramaturgia como Nelson Rodrigues teria mais facilidade de captar e descrever. De forma resumida e sem muita encenação, é como se nossos atletas nos dissessem, sem falar, que essas boladas da vida bem no meio da cara doem, mas tudo passa.

*Até o dia 16 de julho, David Coimbra escreve no Jornal da Copa, encartado nesta edição.

clovis.malta@zerohora.com.br - CLÓVIS MALTA

02 DE JULHO DE 2018
EDITORIAL

COLEÇÃO DE PROMESSAS


A criação de uma fábrica estatal de chips é, sobretudo, fruto da visão equivocada de que o Estado deve gerar riqueza, quando o papel deve ser o de não atrapalhar a livre-iniciativa

Depois de enterrar R$ 1,08 bilhão de recursos públicos e sem qualquer perspectiva de equilíbrio financeiro, a Ceitec agora tenta um novo plano - o enésimo - para parar de dar prejuízo. Parcerias com a iniciativa privada ou até mesmo a privatização, descartada por ora pelo Planalto, seriam soluções plausíveis, se é que há algum interessado. A esta altura, está evidente que o Estado não sabe gerir, como mostra reportagem publicada na superedição de final de semana.

Dez anos após ser federalizada, a empresa que produz semicondutores ainda engatinha e tenta reverter a sensação de frustração em relação à promessa de colocar o Brasil no cenário mundial da microeletrônica. O feito mais expressivo, por enquanto, foi o de registrar resultados negativos em todos os anos de exercício sem conseguir ganhos significativos para a indústria nacional.

A criação de uma fábrica estatal de chips é, sobretudo, fruto da visão equivocada de que o Estado deve gerar riqueza, quando o papel deve ser o de não atrapalhar a livre-iniciativa.

Esse modo primário de gestão pública teve e ainda tem um alto custo social para os brasileiros. Com enormes desafios nas áreas de saneamento básico, educação, saúde e segurança, o governo federal ainda despende energia e recursos públicos em atividades que seriam mais bem assimiladas pelo setor privado.

Mesmo que seja uma empresa de alta tecnologia, a Ceitec não escapa do loteamento político e, apesar do quadro qualificado de cientistas, também serve de porto seguro para aliados do governo em seus cargos de direção. Sem dúvida, há técnicos excelentes em atuação na Ceitec, mas que poderiam se realizar mais profissionalmente, e ser mais bem remunerados, na iniciativa privada.

Num momento em que o país discute um rombo de R$ 139 bilhões nas contas federais e em que as estatais estão no centro dos principais escândalos de corrupção, nada justifica a insistência em um modelo de gestão que só acumula prejuízos e coleciona promessas.

02 DE JULHO DE 2018
POLÍTICA

INATIVOS JÁ SÃO 55,4% DOS SERVIDORES ESTADUAIS


CONTINGENTE DE APOSENTADOS do Executivo volta a crescer e excede em 30,3 mil o número de vínculos de funcionários públicos em atividade no RS
Motivo de preocupação no governo, o contingente de servidores públicos estaduais inativos já representa 55,4% da folha do Poder Executivo no Rio Grande do Sul. No primeiro quadrimestre do ano, o número de aposentados excedeu a população de municípios como Sapucaia do Sul, Bagé ou Uruguaiana, superando os funcionários ativos em 30,3 mil e agravando o rombo na Previdência do Estado.

Até o fim de 2018, a tendência é de que o grupo siga aumentando. Segundo dados da Secretaria da Fazenda, em abril, havia 8.887 funcionários aptos a se aposentar, o equivalente a 7,1% do quadro em atividade.

- O cenário preocupa e muito. Quase 100% dos inativos têm regime de paridade com os ativos. Isso significa que sempre que alguma categoria ganha reajuste, como a da segurança, a folha de aposentados também aumenta. Ao mesmo tempo, temos limites legais para fazer contratações e o quantitativo atual de ativos não consegue suprir de forma adequada o nível de qualidade exigido pela sociedade - avalia Bruno Jatene, gestor de planejamento financeiro do Tesouro.

No início do governo de José Ivo Sartori (MDB), os profissionais no exercício de suas funções eram maioria no Executivo. De abril de 2015 para cá, o volume de inativos avançou 9,5%, e os custos do Estado com aposentadorias cresceram 16,4% em termos reais (descontada a inflação). A reposição das vagas não seguiu o mesmo ritmo, e o déficit previden- ciário - que deve ser um dos temas candentes na próxima eleição - se aprofundou (veja quadro).

Em teoria, as contribuições dos ativos deveriam cobrir os benefícios daqueles que se retiraram, mas a conta não fecha há anos. Em 2017, o Estado teve de bancar déficit de R$ 10,56 bilhões, dinheiro que poderia ter sido aplicado em áreas como saúde e educação.

- Os servidores aposentados têm direito adquirido e devem ser pagos, não há o que discutir quanto a isso. O que assusta é o fato de o Estado estar gastando 30% de sua receita corrente líquida com menos de 2% da população, enquanto a capacidade de investimentos é mínima - alerta o economista Ely José de Mattos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

SINDICATO DEFENDE MAIOR REFORÇO NA ARRECADAÇÃO

A origem do problema remonta às décadas de 1970 e 1980, quando o Estado assumiu posição de vanguarda no país ao priorizar ampla oferta de serviços públicos. O equívoco foi ter demorado a fazer ajustes para dar sustentabilidade ao sistema, o que começou a ocorrer apenas em 2011, com a criação de um fundo de capitalização e, em 2015, com a previdência complementar.

Apesar de positivas, as medidas levarão anos para surtir efeito e, até lá, o desequilíbrio continuará se acentuando. Embora outros Estados também estejam em dificuldades, o caso do Rio Grande do Sul é apontado como o mais preocupante do país no Anuário Estatístico da Previdência Social, lançado em janeiro pela União. Um dos agravantes é a expectativa de vida acima da média brasileira na região.

A saída para o impasse, na avaliação do especialista em finanças públicas e Previdência Fabio Giambiagi, passa pelo Congresso. O economista defende a elevação da idade mínima para aposentadoria, inclusive no setor público e para categorias com regras especiais, como PMs e professores, que se aposentam antes das demais - muitos com menos de 50 anos.

- Se nada for feito, vamos caminhar para um contexto muito, muito difícil nos próximos anos, e não só no Rio Grande do Sul - adverte Giambiagi.

A solução sugerida é alvo de críticas da Federação Sindical dos Servidores Públicos no Estado (Fessergs). Para a secretária-geral da entidade, Márcia Trindade, antes de qualquer outra medida o governo do Estado deve apostar em ações para reforçar a arrecadação.

- Por que não reduzir as isenções fiscais e correr atrás dos sonegadores? Os servidores não são os culpados da crise. Já estamos dando a nossa parcela de sacrifício - afirma Márcia.

juliana.bublitz@zerohora.com.br - JULIANA BUBLITZ

02 DE JULHO DE 2018
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Outras Copas

O primeiro jogo de Copa do Mundo a que assisti foi em Porto Alegre. Copa de 50, Iugoslávia x México. Fiquei atrás de uma das goleiras e me lembro de um atacante iugoslavo dando um soco na barriga do goleiro mexicano. O juiz não viu, ninguém viu, acho que só eu vi. O bandido continuou em campo e a Iugoslávia ganhou o jogo. Ou foi empate? Enfim, faz tempo. A Iugoslávia nem existe mais.

Meu jogo de Copa inesquecível foi aquele Brasil e França no México, em 1986. O que perdemos nos pênaltis. A Seleção Brasileira de 86 era remanescente da Seleção de 82, a que não podia perder, na Espanha, e perdeu. Portanto uma Seleção ferida. Em 82, jogadores como Falcão, Zico, Sócrates, Júnior, Éder ainda estavam em grande forma. 82 era para ter sido o ano deles. Não deu. Aquela foi uma geração sem apoteose, pelo menos em Copas do Mundo. Mas fizeram um grande jogo contra a França, em Guadalajara.

Falcão não jogou contra a França. Zico não começou, entrou no lugar do Müller. Lá estava o Careca, um dos melhores centroavantes que já vi jogar. O zagueiro Júlio César, que, sempre achei, merecia uma carreira melhor do que a que teve. Elzo e Alemão no meio, Josimar e Branco nas laterais. Sócrates na frente.

Curiosidade: de todos os jogadores brasileiros no México em 86, só dois, Edinho e Júnior, jogavam em times do Exterior. O Falcão já tinha voltado, do Roma para o São Paulo. 86 foi antes da diáspora.

Os franceses tinham Giresse, Tigana e o grande Platini, mas quem acabou conosco foi o Fernandez. Fez o gol da vitória na série de pênaltis que desempataram a partida, e em que o goleiro deles (Bats) defendeu o chute do Sócrates, o Platini chutou para fora e o Júlio César chutou na trave. Ficou tudo com o pé do Fernandez.

Fui a todas as outras Copas depois da de 86. Só não fui à de 2014, no Brasil, que acompanhei da poltrona. Vi grandes vitórias do Brasil. Mas inesquecível mesmo foi aquela derrota gloriosa em Guadalajara, há 32 anos. Era para redimirem o time de 82, e uma geração inteira. Mas o Fernandez não se apiedou de nós.

LUIS FERNANDO VERISSIMO

sábado, 30 de junho de 2018


30 DE JUNHO DE 2018
LYA LUFT

Pão & circo


Não falo apenas no pão e circo do velho Nero, que, diante da insatisfação dos explorados romanos, mandou que lhes dessem mais pão e circo. Essa verdade abrange séculos, quem sabe milênios. Gladiadores se mutilando, inocentes devorados vivos por feras, sangue e entranhas, miséria grassando lá fora, tiranos loucos, e a gente aplaudindo enquanto comia pão seco e torcia, berrava, aplaudia. Nas nossas vidas pessoais, pode acontecer algo parecido, sem feras sanguinárias nem tiranos loucos. 

Está tudo confuso, preocupante, assustador, então vamos às compras, uma camiseta de R$ 10 ou uma bolsa de vários milhares, uma ida ao shopping só pra olhar ou uma fugidinha pra Miami ou Nova York. Pode ser uma amante, um namoradinho, uma balada, um bom livro, um bom uísque, um bom papo com amigas ou amigos, um passeio de carro vendo o rio e as nuvens, ou simplesmente uma tarde no quarto chorando.

Mas, de preferência, uma das distrações acima, porque chorar dá medo de não conseguir parar nunca mais, sobretudo se for uma perda trágica que nos estraçalha apesar dos esforços e do tempo amigo, que nem sempre cura (abranda). Então também pessoas têm seus dias de pão e circo pra não desanimar, não enlouquecer, não fugir correndo, não se matar.

Nestes tempos de Copa do Mundo, eu, que não entendo de futebol, mas gosto e assisto, ouço comentar que o tempo pode ter sido escolhido para acontecerem alguns golpes baixos enquanto estamos distraídos torcendo ou secando. Alguém me diz: "Poxa vida, você gostar de futebol?". Bem, sinto muito, mas sou gente. Gosto de seriados como Criminal Minds, leio romances do gênero e, de momento, para descarregar minha agressividade (em geral moderada) com a situação aqui fora, entro no meu iPhone e releio o Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William Shirer. 

Em inglês, pra não perder o costume e não exercer o feio vício profissional de encontrar esquisitices na tradução (sim, eu às vezes também leio no iPhone, levando comigo para toda parte um livrão de mil e muitas páginas. Novos tempos, sem abdicar dos velhos hábitos).

Então, aqui, vejo futebol com Vicente, lembrando meu pai há tantas décadas ouvindo futebol no rádio nas tardes de domingo, entretido e fascinado, berrando a cada gol do seu time, enquanto minha mãe rondava, mal-humorada, reclamando baixinho que domingos à tarde ela não tinha marido.

Nestes dias difíceis que nos enchem de preocupação, é bom entrar nessa do pão e circo? Por que não? Pular, gritar, vestir a camiseta, botar chapéu ou óculos bizarros, vender a alma para poder viajar para a Rússia, tudo isso nos alivia. Quem sabe a gente tenha mais energia, mais lucidez, depois de um breve tempo esquecendo a pobreza, as dívidas, o emprego ameaçado, a mulher trabalhando em três turnos... a incerteza. 

Atualmente, nem bebo, nem danço, nem viajo, nem visto camiseta, mas aqui e ali vejo jogos, torcendo, sem entender nada das regras, mas encantada com as coisas humanas: a violência de alguns, a solidariedade de outros, o desânimo, a esperança, a glória, o abatimento, as manhas e tramas, e o marido de vez em quando me iluminando com algum bem-vindo comentário (ou eu ficaria demais nas nuvens).

Merecemos muito mais momentos bons e leves no dia, na vida, sem circo nem espetáculo, sem inocentes despedaçados enquanto nos distraímos com a arena.

LYA LUFT

30 DE JUNHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Marciana


Apaixonar-se é ganhar um visto para entrar em outro planeta. A gente descobre cheiros e sabores desconhecidos, um vocabulário diferente, histórias novas, lugares em que nunca estivemos, enfim, lidamos com o deslumbramento de estar em outro mundo o mundo do outro.

Há quem permaneça neste novo planeta por pouco tempo e logo retorne para o seu, e há quem se instale em definitivo: pede asilo e se naturaliza. Amar é sempre uma viagem. De ida e volta, ou só de ida.

Afora a aventura amorosa de explorar um universo diferente, não costumo me distanciar muito do meu território, pois não acho agradável me sentir uma marciana - e o fato é que me sinto, às vezes. Acontece quando leio o noticiário político, quando estou entre pessoas pedantes, quando testemunho preconceitos ou pieguices, e até em situações bem triviais, como quando alguém puxa um Parabéns a Você. Pois é, coitado do Parabéns a Você, tão inocente, mas é inevitável: a canção começa, e na mesma hora brotam duas antenas verdes na minha cabeça e um terceiro olho no meio da testa.

Cultos religiosos também têm esse poder de me transformar num ET. Oração, pra mim, é algo privativo e silencioso. Já em grupo, não consigo me encaixar. Gosto de igrejas vazias - e de teatros lotados. No entanto, até mesmo num teatro posso vir a me sentir estrangeira, nos casos em que a plateia ri por nada, como se rir fosse obrigatório. Uma vez, estava assistindo a uma peça trágica sobre um casal que havia perdido o filho, e, mesmo assim, algumas pessoas achavam graça. Refletir não basta? Se comover não basta? No meu planeta, basta.

Frequento desde churrasco na laje até festa em castelo, mas, se eu perceber que estou longe demais da minha turma e da minha essência, a marciana surge e me ordena: embarque logo na nave e vamos pra casa. Deve ser consequência da passagem do tempo, maturidade não é período para desperdícios. Tem sido cada vez mais fundamental me sentir inteira onde estou, e não uma turista.

E aqui dou um salto para falar de inclusão. Pessoas que sofrem de alguma deficiência costumam viver à parte da sociedade, em um planeta com o qual não interagimos. É por isso que o Clube Social Pertence está inaugurando uma ONG com a missão de promover a socialização e a independência de jovens que podem fazer tudo o que fazemos, bastando dar a eles uma oportunidade. 

No próximo dia 9 de julho, às 19h30min, na pizzaria Fratello Sole do Shopping Iguatemi, em Porto Alegre, isso será demonstrado na prática, com a garotada colaborando na cozinha e no serviço do jantar. Quem quiser conhecer melhor o projeto desta importante ONG, compareça. Ser portador de uma deficiência não deve impedir ninguém de se sentir inteiro onde está, e eles estão aqui, ao nosso lado, no mesmo mundo que a gente.

MARTHA MEDEIROS