domingo, 31 de agosto de 2014


Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade,
E sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que
Me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo
Que eu ainda extraí de mim de um grito mudo.

Clarice Lispector




Boa Tarde Meu Anjo!

"Eu peço a Deus tudo o que eu quero e preciso.
É o que me cabe. Ser ou não ser atendida -
isso não me cabe a mim, isso já é matéria-mágica que
se me dá ou se retrai. Obstinada, eu rezo.
Eu não tenho o poder. Tenho a prece."

(Clarice Lispector)









Entardecer de domingo

Em algum momento, em geral à tardinha, o domingo nos crava os dentes, sem morder…



Os domingos tem dentes. A expressão é da jornalista Eliane Brum em seu último e tocante livro Meus desacontecimentos (Ed. Leya). O significado dessas palavras qualquer um é capaz de sentir na própria carne. Há domingos que até passam suaves, despercebidos, encontram-nos distraídos. Mas em geral, em algum momento, principalmente à tardinha, o sétimo dia nos crava os dentes, sem morder, é só um aperto quase indolor. Acusamos o golpe discretamente, disfarçamos a instalação dessa farpa de medo que nos cutuca a cada passo, até adormecer.



Talvez sintamos assim porque certamente o fim de semana, mesmo que tenha sido maravilhoso, sempre deixa a desejar. Quem sabe porque temos medo das segundas feiras? Quando conseguimos desengatar da locomotiva dos deveres, duvidamos da nossa capacidade de reingressar nos trilhos. Por sorte, de perto o trabalho volta a parecer factível.



A engrenagem cotidiana nos embala numa fieira de dias que vamos vivendo sem pensar, adiará as esperanças de felicidade, que ficam adormecidas até a noite de sexta. O entardecer dos dias úteis desperta a expectativa de prazeres, da merecida recompensa.



A partir desse momento queremos apenas tudo: ficar junto com a família e os amigos, mas evitar compromissos sociais; amar e ser amados, mas não ter que pensar no outro o tempo todo; empanturrar-nos de comer, beber, passear, dançar, mas sem ressacas; dormir bastante e perder tempo, mas ganhar cultura; relaxar, mas organizar nossas coisas pessoais; jogar conversa fora mas ter diálogos transcendentes. Expectativas contraditórias entre si, conflitantes. No fim, a realização de alguns desses desejos acaba sendo pífia frente ao ressentimento pelos que foram preteridos. Um tempo grávido de promessas é condenado ao aborto dos ideais.



A forma como organizamos nosso ócio diz muito de nós, pois é o tempo que liberamos para realizar nossos desejos. Por isso, Eliane Brum tornou-se uma observadora de domingos: Acredito que não se pode conhecer uma pessoa, um grupo, uma aldeia ou um país sem habitá-lo por ao menos um domingo.



Na melancolia dominical, sentimento quase universal, fica provado que tempo livre é como mente vazia, oficina do diabo. As exigências dos desejos podem ser mais inclementes do que as do trabalho. A síntese deles costuma chamar-se de felicidade. Se por ela entendermos a saciedade plena estaremos condenados ao seu antônimo, a insatisfação, ou à sua ausência, a tristeza.



Nos sábados e domingos não temos obrigações: dia de lembrar que não há prescrição ou cota obrigatória de prazeres a serem vividos e ostentados. Felicidade, a possível, é discreta e nunca completa. Bom domingo!


Quanto você pagaria por um abraço de conchinha com George Clooney ou Scarlett Johansson?

Uma ex-personal trainer do Oregon cobra 60 dólares por hora


Renata Honorato - Divulgação/Cuddle Up To Me

Samantha Hess e um cliente durante uma sessão de abraço de conchinha em Portland, nos Estados Unidos (Divulgação/Cuddle Up To Me/VEJA)

Abraçar alguém é, à primeira vista, um ato de generosidade. Nos Estados Unidos, porém, há gente que faz disso um negócio. É o caso do site Cuddle Up To Me, de Samantha Hess, uma ex-personal trainer de 30 anos. Depois de sofrer com o fim de um namoro e assistir a um vídeo de um comediante vendendo abraços em uma praça, ela decidiu transformar calor humano em dinheiro. Deu certo. Ao oferecer "pacotes" de uma hora de abraço de conchinha (cuddle, em inglês, aliás) por 60 dólares, ela fatura mais de 7.000 dólares por mês — isso inclui abraços, treinamento para futuros "profissionais" e a venda de exemplares de seu livro. "É como manter um contato próximo com uma pessoa sem estar saindo com ela", diz.

Samantha afirma que a venda de abraço não tem conotação sexual. "Se alguém procura sexo ao contratar o Cuddle Up To Me, certamente ficará desapontado." Para evitar problemas, ela disponibiliza em seu site as "políticas de uso", normas que devem ser seguidas antes de fechar o negócio. Isso inclui regras de higiene. Samantha sempre pede aos seus clientes que escovem os dentes, tomem banho, lavem o cabelo, usem perfumes leves e, é claro, vistam roupas limpas antes de encontrá-la ou recebê-la em casa.

Os potenciais clientes também passam por uma entrevista prévia, por e-mail, e por uma pequena investigação, pela qual Samantha tenta afastar criminosos, por exemplo. Em seguida, ela marca uma conversa pessoalmente em algum lugar público. Se ambos se sentirem confortáveis, é marcado horário e local do grande dia. O abraço de conchinha pode acontecer na casa do cliente ou em um parque, por exemplo. Por ora, Samantha atende a clientela de Portland, cidade de Oregon, mas é possível fechar acordos especiais em outros Estados americanos.

Talvez Samantha não tivesse clientes entre brasileiros, pródigos na distribuição de beijos e abraços. Entre os americanos, contudo, os abraços são garantia de o que cliente é amado e aceito, aposta a "abraçadora". É comum, por exemplo, que deficientes físicos ou pessoas muito tímidas procurem seus serviços. "Eu gosto de chamar o meu serviço de massagem para a mente. Meu objetivo é fazer com que meus clientes se sintam parte da minha família e renovados após uma sessão", diz. Em tese, a terapia de Samantha não é reconhecida pela comunidade médica.

Outro americano, Steve Maher, de Los Angeles, oferece serviço similar: com ele, o abraço é premium. Ele é dono do site The Ecstatic Embrace, que cobra 120 dólares por uma sessão de 90 minutos. Do outro lado do planeta, no Japão, existem os chamados kyabakuras, estabelecimentos em que os clientes tomam drinks enquanto são mimados por garotas bonitas — relações sexuais são proibidas. Algumas histórias já chegaram ao cinema, com sexo. Em As Sessões, do diretor Ben Lewin, a personagem Cheryl Cohen Greene é uma "sexual surrogate", alguém que faz sexo com seus pacientes sem envolvimento romântico. O filme é inspirado em uma história real.

Na entrevista a seguir, Samantha Hess fala ao site de VEJA sobre o negócio do abraço de conchinha:

Vender abraços é uma atividade inusitada. Como descobriu esse nicho e decidiu transformar o abraço em negócio? Isso faz parte da minha personalidade. É uma maneira de manter contato físico com alguém mesmo sem me envolver emocionalmente com essa pessoa. Olhei ao meu redor, percebi que tinha muitos amigos, mas ainda assim sentia falta de alguma coisa. Um dia, vi um vídeo de um comediante que oferecia abraços por dois dólares em uma feira. Foi aí que pensei: "Eu posso fazer isso!" 

E as pessoas encaram com naturalidade a sua profissão? Algumas pessoas ficam curiosas sobre o meu trabalho, mas a maioria delas encara a ideia como um serviço real e disponível a todos. Entre meus clientes estão jovens, velhos, talentosos, altos, magros, baixos. Eles são operários, prestadores de serviços, CEOs, desempregados, homens e mulheres, gente de todo o tipo. Os mais jovens têm aproximadamente 20 anos e os mais velhos, 70 anos.

O que eles buscam ao contratá-la? Todos têm a necessidade de se sentir amados e aceitos. Eu ofereço um serviço totalmente voltado ao cliente, então eles não têm que se preocupar comigo. É diferente de um relacionamento, porque às vezes as pessoas não estão preparadas para sair com alguém. Os clientes só precisam aproveitar o momento (risos).

Quantas pessoas já contrataram seus serviços desde junho de 2013, quando você começou a trabalhar com isso? Já atendi centenas de pessoas.

Você ganha dinheiro suficiente para levar a vida somente abraçando pessoas? Essa é a minha única atividade e é com esse trabalho que levo a vida. Em abril, lancei um livro, Touch: The Power of Human Connection (Toque: o poder da conexão humana), que também rende alguma receita.

Divulgação/VEJALivro 'Touch: The Power of Human Connection'
Sobre o que fala o livro? Decidi escrever o livro porque recebo milhares de e-mails todas as semanas, especialmente quando apareço nas publicações aqui nos Estados Unidos.

Muitas pessoas queriam saber mais sobre a minha história e por que decidi trabalhar com isso. Meu livro aborda um pouco da psicologia por trás do toque, casos de pessoas que contrataram meus serviços, além de 19 dicas de posições que tornam o abraço mais confortável.

Algum cliente já achou que você fosse uma garota de programa? Há algumas regras de segurança que devem ser seguidas. Antes de fechar um contrato, a pessoa entra em contato comigo e trocamos alguns e-mails. No meu site há regras que qualquer pessoa pode baixar e ler. Depois, agendamos um encontro em um lugar público para que eu possa entender por que a pessoa deseja contratar meus serviços. A ideia é identificar qualquer sinal de alerta.

Se a pessoa estiver em busca de serviços sexuais, ela certamente não ficará contente com a minha proposta. Se tudo der certo, o contrato é assinado e então eu peço uma cópia de um documento de identificação. Todas as informações, além do local do encontro para a sessão, são encaminhadas para uma terceira pessoa. Trata-se de uma forma de zelar pela minha segurança. 

Você toma algum cuidado adicional? Fiz aulas de defesa pessoal. Também carrego comigo uma arma não letal.

Você mora em Portland. Existem planos de oferecer seus serviços em outras cidades? Abrimos uma loja física em Portland para que as pessoas conheçam o serviço. Nesse espaço oferecemos um programa de treinamento de 40 horas para interessados em aprender as técnicas do abraço. A ideia é criar centros de treinamento em diferentes países e abrir "lojas" em todo o mundo.

O que é ensinado nesse curso? Você é a professora? Eu sou a professora. Ensinamos técnicas de como tocar outra pessoa e quais as melhores posições para o abraço. Também temos aulas de marketing, desenvolvimento web e todo e qualquer assunto relacionado ao negócio.



RENATA AGOSTINI - FLÁVIA FOREQUE - JOHANNA NUBLAT DE BRASÍLIA

Cursos-relâmpago inflam vitrine eleitoral de Dilma

Matrículas para formar técnicos com diploma são só 28% de programa exaltado para suprir empresas e indústrias

Há mais alunos para ter noções de manicure (2 a 4 meses) do que para ser técnico em mecânica (1 a 3 anos)

Alardeada pela campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) como "o maior programa profissionalizante do mundo", a iniciativa federal para formar técnicos e melhorar a qualificação do trabalhador vem sendo impulsionada por inscrições em cursos rápidos, como de vendedor, recepcionista e manicure.

Segundo levantamento inédito do Ministério da Educação, feito a pedido da Folha, o programa tem atraído menos interessados em cursos verdadeiramente técnicos, como de enfermagem, eletrotécnica e mecânica.

Quando lançou o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), em 2011, o governo já previa uma maior procura pelos cursos que duram de dois a quatro meses. Na campanha, porém, Dilma tem ignorado essa distinção ao entoar dados da iniciativa ao eleitor.

"No que se refere à educação considero que tivemos um grande salto. Vou citar o Pronatec: 8 milhões de jovens e adultos com acesso ao ensino técnico", afirmou durante o primeiro debate entre candidatos à Presidência, promovido pela Band.

Os cursos mais céleres e simples, chamados de Formação Inicial e Continuada, são o que garantirão a Dilma Rousseff alcançar neste ano a meta de 8 milhões de matrículas no Pronatec.

A formação técnica, que é o principal objetivo do programa, representou apenas 28% das matrículas registrada até o final de julho.

Os cursos técnicos têm duração mínima de um ano e há casos que chegam a três anos. Podem ser feitos enquanto o jovem cursa o ensino médio ou após formar-se na escola.

São cursos práticos voltados para o mercado de trabalho e dão direito a um diploma em sua conclusão.

Já os de formação inicial e continuada, com duração média de três meses, têm exigência de escolaridade mais baixa e servem para dar noções básicas sobre uma função ou aperfeiçoar o conhecimento do aluno que deseja reingressar no mercado de trabalho. Não há diploma, apenas um certificado de participação.

No total, os dez cursos de Formação Inicial e Continuada mais procurados receberam 890 mil matrículas. Já os dez cursos técnicos mais populares tiveram 390 mil.

Dilma sempre fez questão de pontuar que o mote do Pronatec era a formação de técnicos capazes de suprir a demanda das empresas e das indústrias brasileiras.

"Com o Pronatec, queremos que o país, cada vez mais, tenha uma geração de jovens com formação técnica de qualidade, capazes de melhorar nossos produtos e serviços", disse em outubro de 2012 no programa de rádio "Café com a Presidenta".

Desde o ano passado, o governo tem intensificado a propaganda do Pronatec. Em 2013, ele foi de longe a iniciativa com a qual o Ministério da Educação mais gastou em publicidade --R$ 15,7 milhões, mais da metade do aplicado pela pasta em propaganda.


Que loucura isso! mais de quinze milhões gastos com propaganda. Quantas escolas poderiam ser construídas..Quantos postos de saúde..? Cadê a gestão dos recursos públicos...E fica assim..Cadê nosso TCU?
IVAN MARTINS
27/08/2014 10h27 - Atualizado em 27/08/2014 10h48

Desilusão

Às vezes é preciso uma bofetada que – pleft! – nos devolva de volta à vida

Desilusão é uma experiência terrível. Num momento qualquer, você está cheio de esperança. No outro, seu mundo veio abaixo. Como uma repentina bofetada, a desilusão machuca, desnorteia e humilha. É o evento dramático que, na vida amorosa, separa a realidade do sonho, os homens dos meninos e os tolos dos sábios. A desilusão é nosso diploma. Quem não passou por ela é um inocente. Ainda não sabe de nada.

Você, apaixonado, sugere à namorada que talvez seja hora de fazer planos e morar juntos. Ela responde, cheia de dedos, que talvez não esteja assim tão envolvida com você. Pleft!

Encantada com o sujeito, você pergunta, toda bonitinha, se o que rola entre vocês é um namoro – e ele diz, sem hesitar, que também sai com outra garota e não quer compromisso. Pleft!

Depois de cinco anos de casamento, as coisas esfriaram ao ponto de congelamento. Você tem esperança e propõe uma segunda lua de mel – então seu marido conta que tem saído com uma colega, que está apaixonado e vinha se preparando para contar que pretende morar com ela. Pleft!

Com essas histórias, quero dizer, ao contrário das lamúrias frequentes, que desilusão é bom. Quem nos desilude nos abre os olhos e nos descortina o mundo verdadeiro. Por isso, nos presta um grande serviço.

O iludido acredita, essencialmente, que o outro sente por ele o mesmo que ele sente pelo outro. Vive a fantasia de ser amado ou, pelo menos, tem esperança de um dia ser correspondido. É um sonhador que pode passar anos caminhando no interior do seu sonho, vendo apenas o que deseja ver. A desilusão é o despertar. Deveria ser saudada como libertação, mas costuma ser recebida com ressentimento. A pena de si mesmo é maior que a gratidão.

Na verdade, o inimigo é quem nos ilude. Faz mal aquele que, por fraqueza ou piedade – muitas vezes por vaidade – alimenta nossos sentimentos infundados. Quem nos olha nos olhos e diz a verdade merece nosso respeito. Demonstra respeito por nós, ainda que nos magoe.

A verdade, é importante que se diga, nem sempre é nítida. Quando se trata de afeto, somos criaturas confusas, habitadas por dúvidas e contradições. Por isso, mais importante que aquilo ouvimos é o que vemos. Mais importante que sentimentos, são ações. Se o sujeito parece ter por você o maior carinho, mas é sua amiga que ele chama para sair, parece que é da amiga que ele gosta – embora talvez nem saiba. As decisões dele contam tudo que você precisa saber, desde que você as conheça. Quem diz o que sente, mas esconde o que faz, ilude.
Eis uma boa máxima: não me diga o que você sente, me conte o que você faz.

Da minha parte, tendo vivido ilusões e desilusões, prefiro as últimas. Elas me salvaram de vexames profundos, me tiraram de enganos demorados, me abriram portas que eu desconhecia e me puseram no caminho certo. Tem sido assim com todos que eu conheço. Os mais tristes, os mais dignos de piedade, são os que se agarram a ilusões que todos em volta reconhecem, menos eles. A esses faz falta uma desilusão. Uma boa bofetada – pleft! – que os devolva de volta à vida.

Ivan Martins
ELIANE CANTANHÊDE

A derrota de Dilma

BRASÍLIA - Ganhe ou perca a reeleição, Dilma Rousseff não escapa mais de uma derrota no seu primeiro mandato: na economia. Não foi por falta de aviso. Até Lula alertou.

Enquanto Dilma usa a propaganda de TV, debates e entrevistas para falar de programas pontuais, como o Pronatec, que qualquer gerente faz, a economia brasileira continua dando uma notícia ruim atrás da outra.

O desafio da oposição não é bater na tecla de PIB, controle fiscal e contas externas (a maioria das pessoas nem sabe o que é isso), mas ensinar que não se trata só de números nem atinge só o "mercado" e a "elite". Afeta o desenvolvimento, a indústria, os investimentos, a competitividade e, portanto, a vida de todo mundo e o futuro do Brasil.

O super Guido Mantega, que sempre prevê PIBs estratosféricos e acaba se esborrachando com os resultados, conseguiu adicionar uma pitada de ridículo nas novas notícias ruins. Na quinta (28), ele disse que os adversários de Dilma levariam o país "à recessão". Na sexta (29), o governo anunciou que o risco já chegou: o recuo da atividade econômica pelo segundo trimestre consecutivo caracteriza... "recessão técnica". Ou "herança maldita", segundo Aécio. Não há Pronatec que dê jeito...

Para piorar as coisas, vamos ao resultado fiscal anunciado na mesma sexta: o governo federal (Tesouro, BC e INSS) teve o maior rombo do mês de julho desde 1997. A presidente candidata anda gastando muito.

Passado o trauma da morte de Eduardo Campos e assimilada a chegada triunfal de Marina Silva, a economia retoma o centro do debate eleitoral. Não há uma crise, mas há má gestão. Como Campos dizia, Dilma é "a primeira presidente a entregar o país pior do que encontrou".


Dilma e Mantega culpam o cenário internacional. Marina, rumo à vitória, e Aécio dizem que não é bem assim e apontam quem vai arranhar o joelho, cortar o cotovelo e talvez machucar a cabeça se a economia for ladeira abaixo. O eleitor, claro.

sábado, 30 de agosto de 2014


LINDO DIA ANJO AMIGO.

Esse amor que sinto é forte e bem resolvido...
Amo esse homem até nos credos somos almas gêmeas.
Sem ele tudo é pequeno sem graça.
Com ele tudo é pleno e seguro.
Amo-o muito.
Sol Holme

By Sol Holme




LINDO DIA ANJO AMIGO.
Encoste tua cabeça no meu colo.
Descanse tente ouvir as asas das borboletas.
Estão se reencontrando em um voo perfeito.
Eternamente vivas dentro do peito.
Jamais solitária com os batimentos.
Soltas ao vento só o coração ouve suas asas.
Eternamente soltas o amor venceu.

Sol Holme

By Sol Holme




LINDO DIA ANJO AMIGO.
o céu é o limite!

INFINITAMENTE COMO O MEU AMOR. . .
ENCONTREI EM TI MINHAS ESTRELAS E LUAS.
O POR DO SOL ME LEMBRA VOCÊ E NELE ESTÁS.
É O MELHOR LUGAR ONDE TE ENCONTRO.
VEJO E SINTO TEU BRILHO E CALOR.
O AMOR É TUDO QUE TENHO E A TI ENTREGO.
QUE ME FALTE TUDO MENOS VOCÊ. . .
VOCÊ MEU AR SEGREDOS ENCANTOS.
MEU CÉU MEU LUGAR.
Sol Holme

By Sol Holme




RUTH DE AQUINO
29/08/2014 21h07


Transmarina e a “zelite”

Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

"O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate  da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.
Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.


Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.

RUTH DE AQUINO
29/08/2014 21h07

Transmarina e a “zelite”

Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

"O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate  da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.
Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.


Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.

30 de agosto de 2014 | N° 17907O
PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Folias ortográficas

É MELHOR CONVIVER com a complexa ortografia do que destruir a nossa apreensão da realidade

Quando o doutor Simão Bacamarte construiu o seu hospício, conta-nos Machado, “de todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos... Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito”. Felizmente naquela época ainda não se manifestavam essas pobres mentes que de vez em quando saem do anonimato para anunciar uma solução mágica para nossa ortografia; caso contrário, tenho certeza de que nosso bom alienista os mandaria internar na Casa Verde.

Como certos fenômenos meteorológicos, aparecem e desaparecem ciclicamente. Sentem-se iluminados por uma inspiração genial e inédita; com aquele olhinho brilhante que tão bem conhecemos, anunciam uma verdade que ninguém, antes deles, em todo o planeta – nem os filólogos, nem os linguistas, nem os lexicógrafos do mundo inteiro – ninguém, repito, havia percebido: para eliminar as dificuldades inerentes à escrita, basta criar um sistema em que a cada letra corresponda um só fonema! Puxa, que simples!

Como não são especialistas no tema, pouco se lhes dá que nenhum país tenha adotado essa ortografia fonêmica ou que os linguistas reprovem unanimemente essa ideia. Para eles, nada disso conta; afinal, alguém que viu a luz não deve dar ouvidos aos que vivem na treva.

O problema é que esta mesma ignorância que os deixa felizes impede que entendam a real importância da ortografia. Ela é que deixa visível o DNA das palavras; ao realçar as semelhanças e diferenças entre elas, agrupa-as em famílias que nosso cérebro pode reconhecer. A grafia diferente do fonema /s/ em obsceno, obcecado e obsessão nos informa que se trata de três conceitos distintos; escrever essas três palavras da mesma forma levaria, em poucas gerações, a um mingau semântico irreversível. Todas as sociedades civilizadas já fizeram essa conta: é melhor conviver com a complexidade da ortografia, com todos os problemas e custos que isso traz, do que destruir a própria essência de nossa apreensão da realidade.

Falo tudo isso porque uma dessas sumidades se infiltrou na comissão do Senado encarregada de propor ajustes ao Novo Acordo e anda pregando a mesma “simplificação” pedestre que era defendida, em 1940, pelo famoso general Bertoldo Klinger. Trata-se do professor Ernani Pimentel, nome totalmente desconhecido do mundo acadêmico, autor de apostilas para concurso – “com mais de 10.000 páginas publicadas”, diz seu saite, que parece substituir a qualidade pela quantidade.

A comissão existe para sugerir aperfeiçoamentos ao Acordo assinado pelos países lusófonos; ele acha pouco, e quer botar tudo abaixo! Alguns jornalistas apressados caíram no conto do vigário e apresentaram suas ideias como se fossem oficiais (desmentidas pelo senador responsável). O nome do professor Pasquale, outro membro da comissão, deve ter entrado aqui como Pilatos no Credo; pelo bom senso e boa formação que demonstra no que escreve, dificilmente iria embarcar nessa canoa furadíssima.


Cláudio Moreno é professor de Português e escreve quinzenalmente aos sábados

30 de agosto de 2014 | N° 17907
PAULO SANT’ANA

Dois apoiam a tortura

Recebi e-mails de três pessoas – duas delas apoiando a tortura e outra afirmando que Miriam Leitão não foi torturada e se dizendo ex-agente do DOI-Codi –, fruto de duas colunas publicadas por mim referentes à denúncia da jornalista de O Globo de que foi severamente torturada.

Eis as opiniões espetaculares: “Boa noite, caro Paulo. Apenas um comentário sobre Miriam Leitão: que ódio! Era uma guerra. E na guerra não há concessões. Você e eu (por questão da nossa idade) sabemos disso. Havia o perigo do comunismo. A Rússia era poderosa. Alguns brasileiros optaram por essa via. Quem não a queria combateu. Certamente houve excessos, mas dos dois lados. Ou você desconhece que Genoino – para não ser abatido – delatou seus companheiros e todos foram mortos? E os justiçamentos entre os ditos guerrilheiros? Houve. Mas ninguém fala.

Grande abraço. Saúde. E que reencontres tua amiga a Bengala. Sandra Silva”.

Outro e-mail: “Costumo ler, diariamente, seus textos. Inclusive, aproveitei um deles para inserir na segunda edição de meu livro Brasil: Sempre, por julgá-lo oportuno. No entanto – embora não sendo médico –, tenho a convicção de que o senhor está sofrendo de algum distúrbio, próprio da idade avançada, ou até mesmo de uma possível esclerose.

Explico-me: não é possível que o senhor, com o conhecimento e a experiência granjeados ao longo de tantos anos de jornalismo, esteja acreditando nessa estorinha da Miriam Leitão. Ora, 50 anos depois da contrarrevolução de 64, vir uma pestinha dessas dizer que sobreviveu – ela e o filho, este, ainda em gestação – às ‘mais infames torturas’ e que seu torturador foi o coronel Malhães, recentemente assassinado?

Por que essa megera esquerdinha não falou tudo isso antes? Por que, agora, depois que o coronel Malhães está morto e, em consequência, impossibilitado de se defender? Gostaria que o senhor tivesse, pelo menos, a dignidade (própria de sua pessoa) ainda íntegra, sua coragem (sempre demonstrada), no sentido de trazer a público, em seu espaço, este pequeno pronunciamento de quem foi agente do DOI-Codi e se pronuncia com conhecimento de causa. Saudações. Marco Pollo Giordani – OAB/RS 23.781. Porto Alegre, RS”.

E o terceiro e-mail: “Faze-me o favor, pelo menos tu. Está mais do que na hora de dar um basta a esta história de ditadura. Na imprensa e no PT, estão fazendo de tudo para denegrir a era militar no Brasil, para as pessoas com menos de 50 anos, que são a maioria da população brasileira. Tenho 60 anos e vivi, e muito bem, na época da ditadura, daria 30 anos da minha vida para voltarmos à vida tranquila e segura daquela época.


Torturados foram os anarquistas e golpistas, os mesmos que dizem ter sido torturados estão levando agora o país ao caos. Com certeza não houve naquela época ninguém ligado ao governo invadindo casas e torturando famílias como acontece hoje por bandidos protegidos por um governo falimentar e uma imprensa que só está interessada em divulgar tragédias. Façam o favor, assumam de uma vez o papel de terroristas escondidos por trás dos microfones, ou pelo escudo de parlamentares. CHEGA. Delvair Cenci”.

30 de agosto de 2014 | N° 17907
NÍLSON SOUZA

O GOSTO DE AGOSTO

Minha primeira crônica neste espaço, há mais de 10 anos, foi um desagravo a agosto, esse mês vilipendiado até pela rima fácil. Nossos desgostos de agosto, mantenho a convicção, não são maiores nem menores do que aqueles que nos afligem em outros meses do ano. O mesmo vale para nossas alegrias e realizações.

Admito que se trata de uma defesa em causa própria, pois nasci neste mês de azaleias precocemente floridas e geadas imprevistas. Agosto costuma ser todas as estações, o que o faz um representante digno dos demais meses do ano. Isso sob a ótica de quem vive no nosso hemisfério, pois, como se sabe, agosto muda de rosto em outras paragens do planeta.

As mulheres portuguesas, por exemplo, evitam casar-se em agosto desde que o mês, possivelmente por razões climáticas, foi escolhido pelos navegadores do século 15 para a largada rumo ao descobrimento de novas terras. Como muitos não voltavam, elas preferiam ficar solteiras a se tornar viúvas.

Por aqui também existe um certo medo atávico de agosto, infundado a meu ver. A gauchada costuma ser cruel com os velhinhos sem saúde, da música de Chico Buarque, comentando ironicamente sobre um ou outro mais caidinho: “Esse não passa de agosto!”. É tão falso, que muitas vezes quem não passa é o autor do comentário, mas o preconceito com os idosos e com o mês acaba se propagando.

O poeta Caio Fernando Abreu chamava esse sentimento generalizado de angústias agostianas, mas dizia também que são incontroláveis os sonhos de agosto.

Eis aí uma boa definição, que bem poderia substituir os rótulos referentes a desgostos e cães danados: agosto é o mês dos sonhos incontroláveis. Sonha-se em agosto.


Eu, que sou agostiniano nato e convicto, não por causa da respeitável ordem religiosa de Santo Agostinho, mas sim pelo calendário, cultuo um argumento para consolar os angustiados deste mês que se despede amanhã: agosto pode ser visto igualmente como a antessala da primavera.

30 de agosto de 2014 | N° 17907
CLÁUDIA LAITANO

Empatia e raiva

No final da sua conferência no Fronteiras do Pensamento, o psicólogo canadense Paul Bloom anunciou que seu próximo objeto de estudo é a empatia, surpreendendo ao acrescentar: “Sou contra”. A plateia achou engraçado, mais ou menos como se Bloom tivesse admitido que não se comove com fotos de bebês nem morre de fofura com vídeos de gatinhos.

A tese de Bloom é mais ou menos a seguinte. Se você valoriza a compaixão e a bondade, esforça-se para fazer o que é certo e o que é justo e, na medida do possível, gostaria de contribuir para que o mundo se tornasse um lugar melhor para se viver, usar a empatia como bússola moral pode não ser a estratégia mais adequada.

Ainda que a empatia seja uma atitude em certa medida inata (outros primatas demonstram ser muito parecidos conosco nesse ponto) e seus benefícios pareçam óbvios, a capacidade de colocar-se no lugar dos outros nem sempre nos conduz aos melhores julgamentos e às ações mais justas.

O “bem”, argumenta Bloom, está mais relacionado à compaixão, ao autocontrole e ao senso de justiça do que à empatia – enquanto o “mal” costuma decorrer da falta de preocupação com os outros e da inabilidade para controlar impulsos.

Empatia e raiva teriam, segundo o psicólogo, muitos traços em comum. Ambos são sentimentos que emergem na infância e impactam a forma como nos relacionamos uns com os outros. Decorrem de julgamentos morais e são necessários em alguma medida – a raiva, por exemplo, pode nos mover a reagir quando presenciamos um gesto de violência ou uma cena de injustiça.

Mas assim como os pais deveriam ensinar as crianças em que momentos a raiva tem que ser controlada e como temperá-la com o bom senso, também é preciso mostrar a elas que nem sempre uma reação de empatia com alguém com quem nos identificamos conduz à atitude mais justa. Às vezes, é preciso olhar os fatos com distanciamento para saber o que é certo e para não agir de forma estritamente emocional ou tendenciosa.

Considerar raiva e empatia como os dois lados de uma mesma moeda é especialmente útil para analisarmos algumas reações sanguíneas muito comuns no hiperconectado mundo em que vivemos, principalmente nas redes sociais. Uma boa causa – digamos, ser contra qualquer tipo de preconceito ou violência – pode rapidamente degenerar em linchamento moral e agressão. Um exemplo banal: da indignação natural com uma mulher que prendeu um gato em uma lata de lixo (vídeo que se tornou viral há alguns anos), chegou-se, sem muito esforço, às ameaças de morte e ao constrangimento físico.

Lembrei disso lendo algumas manifestações mais violentas em relação à torcedora do Grêmio flagrada em vídeo gritando “macaco”. Por mais que uma reação forte contra o racismo seja necessária, dentro e fora dos estádios, é sempre perigoso personalizar o problema.

Primeiro porque demonizar uma pessoa por uma atitude coletiva não parece a melhor estratégia para evitar que episódios como esse voltem a acontecer. Segundo porque ninguém gostaria de viver em um mundo em que castigos como o linchamento moral – ou coisa pior – são decididos passionalmente, por qualquer um que se deixa levar pela raiva (do algoz) ou pela empatia (com a vítima).


Em uma época em que sentimentos bons e ruins são compartilhados por milhares – milhões – de pessoas ao mesmo tempo, mais do que nunca é preciso saber distinguir emoção e razão, desejos de justiça e linchamento puro e simples.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Jaime cimenti

Mensagem aos formandos

Meus parabéns pela tua formatura em Administração de Empresas na Ufrgs, minha filha Laura. Poucos momentos na vida são tão gratificantes para alunos, pais, professores, familiares e amigos. Todos se formam juntos. Formatura é obra coletiva e, como se diz em inglês, work in progress, obra em andamento. Estudar é para sempre, não termina nunca.

Formatura marca o limite (ou não) da época chic: estudos, amigos, festas, baladas, estágios e abre o período chock: emprego, namoro, noivado, casamento, casa e filhos (ou não). Daqui muitos, muuuuitos anos, virá a fase cheque (ou não), aquela de pagar contas, dos planos de saúde, condomínio, IPTU etc... Cada fase tem seus ônus e seus bônus.

Seu stress e seu strass. Cada idade tem suas graças e desgraças, que, se não fosse assim, não teria muita graça. Desculpa o trocadilho, um pouco sem graça. Chic, chock, cheque. Formatura: muitas pessoas, rostos, muitos caminhos, estações, escolhas e cidades. O acaso, o destino e as decisões se dando ou não as mãos.

O feijão e o sonho. Concreto e fantasia, realização, felicidade, trabalho, desafios, perdas e ganhos, a vida pulsando dentro e fora da gente, o mundo por conquistar. As coisas da Academia se misturando com os lances da vida “real”. O mundo não está muito fácil, na verdade nunca esteve, mas o sol nasce para todos, todos os dias e cada um, com o apoio dos outros, vai buscando seu caminho, sua verdade e sua luz. Vida é jogo coletivo. Felicidades para ti e para todos os formandos, professores, funcionários, pais, amigos e familiares. Quero mais que tu e os demais formandos trabalhem com a seriedade, o divertimento e a atenção de uma criança que brinca.

Tomara que as vidas profissionais e pessoais tenham muita alegria, satisfação, paz, amor, humor, ética e saúde e que cheguem muito bem à fase cheque. Se eu puder ajudar, estou aí, mas não quero atrapalhar. Vou respeitar as decisões, procurar interferir pouco, mas sempre de olho. Depois da vida, liberdade é o bem maior, não tenham dúvidas.


Nem tudo é só contigo, filha. Na vida é melhor sair dos imprescindíveis encontros com os outros melhor do que quando a gente chegou. A vida é a arte do encontro e o amor deve ganhar no final, no início , no meio ou sempre. Obrigado pelo merecido diploma. Um pedacinho é meu, da tua mãe, da tua irmã, da nonna, dos padrinhos, dos familiares e dos amigos, não é? 
Jaime Cimenti

Amadurecimento, perda do amor e reencontro

Diga aos lobos que estou em casa (Editora Novo Conceito, 464 páginas, tradução de Bárbara Menezes), romance que marcou a estreia arrebatadora da escritora nova-iorquina Carol Rifka Brunt, em 2012, é uma comovente narrativa que trata, sobretudo, de amadurecimento, perda do amor e reencontro e que mostra como a compaixão pode reconstruir muito.

Carol escreveu para revistas como North American Review e para jornais como o The Sun e, em 2006, recebeu o prêmio New Writing Ventures, cedido pela University of East Anglia e Arts Council England que, em 2007, apoiou a autora a escrever Diga aos lobos que estou em casa. A obra recebeu o Prêmio Alex da Young Adult Library Services Association de melhor livro do ano. Atualmente, Carol vive na Inglaterra com o marido e os três filhos. Diga aos lobos mostra, inicialmente, duas pessoas solitárias que se envolvem no mais improvável tipo de amizade e descobrem que, às vezes, você só sabe que perdeu alguém depois que o encontra.

June Elbus tinha 14 anos em 1987 e, na época, só um renomado tio pintor, Finn Weiss, conseguia compreendê-la. Tímida na escola, vivendo uma relação distante com a irmã mais velha, June só se sente “ela mesma” na presença do tio. Quando ele morre precocemente de uma doença sobre a qual a mãe de June prefere não falar, o mundo da garota desaba.

Mas a morte de Finn acaba colocando no caminho de June alguém que a ajudará a superar a dor e a reavaliar o que ela pensa saber sobre Finn, sua família e sobre si mesma. Finn era seu confidente, padrinho e melhor amigo.  No funeral do tio, June observa um homem desconhecido que não tem coragem de se juntar aos familiares de Finn.

Dias depois, a jovem recebe um pacote pelo correio. Dentro dele há um lindo bule que pertenceu a seu tio e um bilhete de Toby, o homem que apareceu no funeral. No bilhete, Toby pediu para encontrar June. À medida que os dois se aproximam, nota que não é a única a ter saudades de Finn.


Ela sente que, se conseguir realmente confiar em Toby, ele poderá tornar-se a pessoa mais importante do mundo para ela. Com linguagem profundamente sensível e segura, a autora, em seu romance de estreia, traz um personagem ausente fascinante e magnético e apresenta uma história de amor das mais incomuns. Na verdade, diversas histórias de amor, que mostram como a esperança pode fazer a diferença, em meio a agruras.

Endeavor, que ocorre em 22 de setembro, contará com três painéis
MARCO QUINTANA/JC

Empreendedorismo será tema de evento na Capital

Um dos temas em debate será o da sucessão, destaca Bruna Eboli

Embora pesquisas apontem que mais de 70% dos jovens brasileiros desejem empreender, nem 10% deles realmente buscam capacitação na área. Os dados são trazidos pela Endeavor, organização não governamental internacional voltada ao fomento do empreendedorismo, que realiza, em 22 de setembro, no Teatro do CIEE, o CEO Summit 2014. O evento, que contará com palestras de empresários e também de representantes das empresas apoiadas pela instituição, busca reunir cerca de 400 pessoas ligadas ao tema.

Realizado em Porto Alegre desde 2012, o Endeavor, que também teve edições em Belo Horizonte, São Paulo e Fortaleza, será divido em três painéis. Em um deles, o executivo Pedro Janot, que ficou tetraplégico após cair de um cavalo em 2011, falará sobre a sua trajetória profissional e de sua história de superação. “Ele tem uma biografia de sucesso, foi presidente da Azul, trouxe a Zara pro Brasil, passou por Richards e Pão de Açúcar. Brincamos que agora está na sua quarta startup, que é a cura dele”, conta a coordenadora regional da Endeavor no Rio Grande do Sul, Bruna Eboli.

Nos outros painéis, receberá atenção o tema da sucessão, com a presença do presidente da Artecola, Eduardo Kuntz, além de exposição das experiências das empresas que recebem apoio da Endeavor no Rio Grande do Sul. Atualmente, integram o sistema a RPH, empresa voltada à medicina nuclear, sediada no Tecnopuc; e a Sirtec, dedicada à construção e manutenção de redes elétricas, com matriz em São Borja. Segundo Bruna, até o fim do ano, a sucursal gaúcha da Endeavor pretende adicionar mais duas empresas a sua rede.

Ao todo, são 67 negócios no Brasil apoiados pela organização, que está presente em 20 países. Escolhidos já com um modelo de negócios consolidado, eles recebem presença de um gestor de contas designado pela Endeavor, além de participarem de um processo chamado de mentoria, no qual 300 executivos brasileiros experientes os aconselham e facilitam os caminhos para a solução de possíveis problemas ou desafios. A organização é mantida financeiramente pelos próprios empresários envolvidos em sua rede.

Além disso, a entidade mantém uma biblioteca digital com e-books e artigos sobre empreendedorismo. Bruna também garantiu que, em novembro, a Endeavor lançará um ranking comparando 17 capitais brasileiras a partir de 25 critérios. As categorias serão divididas em oito pilares, como ambiente regulatório, infraestrutura e capital humano, por exemplo, e têm como objetivo gerar parâmetros que estimulem as grandes cidades a seguirem os bons exemplos de suas contrapartes nacionais.

Criação de novas empresas cresce 14,5% em julho

O mês de julho registrou a criação de 170.952 empreendimentos no País, número que representa uma alta de 14,5% ante junho. Segundo o Indicador Serasa Experian de Nascimento de Empresas, o resultado é o segundo maior para meses de julho desde 2010, ficando atrás apenas do registrado no mesmo mês do ano passado, quando surgiram 179.148 firmas.

No acumulado dos sete primeiros meses do ano, o total de novos empreendimentos atingiu 1,115 milhão, elevação de 2,9% na comparação com igual período de 2013. Nesta base comparativa, o resultado é o maior da séria histórica do indicador, com início em 2010.

Na análise dos dados por segmento, os Microempreendedores Individuais (MEIs) foram os principais responsáveis pela criação de novas empresas, com 123.069. Segundo a Serasa, na margem, “a alta de 12,4% denota recuperação do setor, que havia apresentado queda de 5,2% em junho em relação a maio”.

As Sociedades Limitadas figuram em segundo lugar, responsáveis pelo surgimento de 21.688 companhias, número 21,9% maior que em junho. Em julho, o número de novas Empresas Individuais foi de 17.338 (alta de 17,5%) e o de novas empresas de outras naturezas chegou a 8.857 (alta de 21,5%).


“A crescente formalização dos negócios no Brasil pode ser responsável pelo aumento constante dos MEIs, registrado desde o início da série histórica do indicador”, diz a Serasa Experian, em nota. A instituição destaca que essa modalidade passou de quase metade do total de novos empreendimentos (44,5% em 2010) para 72,3% no último levantamento.