quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


29 DE FEVEREIRO DE 2024
NÍLSON SOUZA

Desafio no Brique

Na manhã do último domingo, esperando o Gre-Nal, dei um passeio pelo Brique da Redenção - e saí de lá em alto astral, como sugere a letra do Fogaça. Na verdade, fui para ver de perto o trabalho do caricaturista Roberto, que exerce a sua habilidade de desenhar rostos na Praça da Alfândega, mas também acampa na Avenida José Bonifácio nos finais de semana para expor uma particularidade de sua obra: caricaturas e frases de personagens ilustres da História, como Freud, Charles Darwin, Einstein, Ghandi e outros mais ou menos votados. Vale a pena conhecer o traço e o talento do artista.

Mas o que vale mesmo é a travessia da avenida em passos lentos, com paradas em cada banca da feira para a observação detalhada das antiguidades e curiosidades expostas. Não há como não se encantar com a arte e a criatividade da nossa gente. A primeira surpresa que me reteve por mais tempo foi um boneco de aço e lata semelhante a um Dom Quixote, que toca um instrumento de sopro e balança o corpo sobre uma mesa de madeira. Nada eletrônico: basta um leve impulso para que o aparato se movimente por vários minutos, provavelmente em obediência a alguma lei da física semelhante a que move os pêndulos do relógio de parede.

Os relógios também estão por lá, principalmente aqueles que marcam o tempo com os ponteiros da saudade. Todas aquelas coisas que nossos avós e bisavós utilizaram nas suas vidas passadas estão espalhadas sobre as lonas e mesas dos briqueiros. Tem ferro de passar movido a carvão, miniaturas dos primeiros calhambeques que circularam pela província, placas, estatuetas, máquinas fotográficas, bibelôs, moedas, quadros, coleções de tudo o que se possa imaginar. Faltam olhos para tanto deslumbramento.

E tem também o que mais me atraiu, obrigando-me a levar a mão no bolso: uma banca de jogos de lógica. Mal parei para observar e o atendente, atento e comunicativo, lançou na minha direção quatro pedacinhos de madeira, seguidos de uma quase ordem:

- Faz um T aí, companheiro!

São peças de encaixe de um tradicional quebra-cabeça chinês, que permitem montar uma letra T com todas as extremidades no formato retangular. Com as mesmas peças, também se pode fazer uma flecha indicativa perfeita, um Y com três pontas quadradas, o número 1 e ainda um daqueles trapézios retirados das aulas de geometria. Na hora, não consegui fazer nada, pelo que acabei comprando o jogo para brincar em casa.

Nunca desafie um virginiano. Ao chegar, me concentrei tanto no brinquedinho que perdi os dois primeiros gols do Gre-Nal.

NÍLSON SOUZA

29 DE FEVEREIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

FORMAS DE DAR SEGURANÇA

Um abrangente estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado na terça-feira, apontou que, entre 2013 e 2023, o contingente de policiais militares no país caiu 6,8%. O percentual equivale a 30 mil PMs a menos. No caso dos policiais civis, a redução do quadro foi de 2%. O número de servidores na área em uma nação violenta como o Brasil, sem dúvida, é relevante. Mas, no combate à criminalidade, a inteligência e o uso da tecnologia também se mostram cada vez mais decisivos. Até pela transformação do perfil dos delitos e dos grupos criminosos nos últimos anos.

É interessante observar que, a despeito da queda do contingente especialmente de policiais militares, a partir de 2017 pode ser observada uma diminuição no número de homicídios dolosos, por exemplo. De acordo com o Ministério da Justiça, foram 59,5 mil assassinatos naquele ano. Em 2023, a quantidade caiu para 40,4 mil. 

Neste período, foi observado aumento apenas em um ano. Nos demais, os homicídios diminuíram. Outro estudo publicado no final do ano passado indica tendência semelhante. O Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do FBSP, indicou que, em uma década, até 2021, a taxa de homicídios no Brasil caiu 18%. Deve-se ressalvar que, ainda assim, o país permanece distante de ter indicadores minimamente civilizados de segurança e continua um dos locais mais violentos do mundo.

O policiamento ostensivo é de grande importância no enfrentamento à criminalidade. Sua presença confere sensação de segurança, inibe a ação de delinquentes e assegura pronta resposta, quando preciso. Ainda mais em locais onde é necessária uma atuação mais visível ou em momentos de maior tensionamento. Deve ser valorizado, portanto. Mas, por outro lado, investimentos em tecnologia têm feito a diferença em diversos tipos de delitos. O do roubo e furto de veículos, com o cercamento eletrônico das cidades maiores, é um caso ilustrativo, com queda expressiva nos indicadores. Em janeiro deste ano, por exemplo, o Rio Grande do Sul teve 281 casos, contra 1.756 no mesmo período de 2017.

Também há uma mudança de perfil no mundo do crime. Aumentaram de forma avassaladora nos últimos anos os registros de casos de estelionato, cometidos especialmente por meios virtuais. Combatê-los requer essencialmente investigação, com a ajuda da inteligência e dos meios tecnológicos. Mesmo os crimes mais violentos passaram a ser bastante atrelados a facções criminosas. Esses grupos organizados, de igual forma, exigem uma atuação mais estratégica e sofisticada para monitoramento de seus passos e ações específicas de asfixia financeira para apreender bens e inibir a lavagem de dinheiro.

O policiamento ostensivo, portanto, segue de grande valia para a sociedade. Sua presença nas ruas passa à população o sentimento de proteção pelo Estado. É uma atuação que continuará relevante. Dessa forma, não há dúvida de que devem ser mais bem compreendidas as causas da queda do efetivo para freá-las. Mesmo assim, um trabalho investigativo robusto, alicerçado na tecnologia, ganha mais importância. 

Tanto para desvendar crimes quanto para desmantelar quadrilhas e facções, evitando que estes aconteçam. A área de perícia técnico-científica, para a produção de provas, é outra arma importante nesta batalha. Como é tendência em grande parte das atividades humanas, ferramentas inovadoras tendem a levar a ganhos de eficiência e à redução de custos. Até esta relação tem de ser levada em conta pelos gestores e formuladores de políticas públicas.



29 DE FEVEREIRO DE 2024
O PRAZER DAS PALAVRAS

De volta às aulas

Volta fevereiro, e com ele voltam as aulas na maioria dos estados deste imenso Brasil. Como de costume, também, começam a chegar as dúvidas escolares, enviadas por pais e mães aflitos com o conteúdo que está sendo servido a seus filhos. Fico espantado com a desconfiança generalizada que esses pais têm com relação ao conhecimento dos professores, os quais, a julgar pelas consultas que recebi, demonstram conhecer muito bem o seu ofício, como o prezado leitor poderá avaliar na relação abaixo.

1) ALTO OU AUTO DE NATAL - "Na lista de livros que deram para meu filho este ano consta Auto de Natal, assim, com U, como automóvel. Fui conferir na internet e, como eu imaginava, achei Alto de Natal em várias páginas conceituadas do Google. O problema é que também tem muitas outras com Auto, mesmo, como a escola escreveu. Afinal, é Alto ou Auto de Natal? Obrigada pela atenção."

Resposta - Senhora mãe, a escola do teu filho está correta. Os autos eram pecinhas do teatro de origem popular, geralmente religiosa, que eram encenadas, na Idade Média, nas escadarias da igreja. Em Portugal, Gil Vicente escreveu vários autos famosos, como o Auto da Barca do Inferno e o Auto da Índia. No teu caso, é claro que é Auto de Natal. Lembro-te o Auto da Compadecida, do Ariano Suassuna, que até minissérie já virou. A confusão entre as duas palavras é favorecida pelo som, já que a letra L depois da vogal é lida normalmente como /u/. Basta ver o erro corriqueiro de escrever piano de *calda, quando deveria ser cauda.

2) PLURAL DE SOL? FEMININO DE PAPA? - "Minha filha começou a estudar o gênero e o número dos substantivos e o professor deu uma lista de exemplos que serão tomados no teste da primeira semana de março. Fiquei preocupado com duas coisas: ele dá guarda-sóis como o plural de guarda-sol e papisa como o feminino de papa. Mas plural de Sol é possível? Não é só um? E desde quando papa tem feminino, se a Igreja Católica não aceita mulheres em seus quadros?".

Resposta - Senhor pai, o professor do teu filho está correto. O Sol (nota a maiúscula!), nosso astro- rei, é realmente um só, mas o sol (com minúscula), com seus vários significados, flexiona normalmente no plural. O Sol é o centro do sistema planetário a que a Terra pertence, mas há bilhões de outros sóis, a maior parte deles maiores do que o nosso...

Afirmar que papa não tem feminino porque jamais uma mulher assumiu o trono de São Pedro é o mesmo erro de raciocínio: temos de distinguir o universo real, infinito, do universo da linguagem, que é mais extenso ainda, maior que o infinito, pois ela nos permite falar no que existe e no que nunca existiu. Precisamos do feminino papisa, quando mais não seja, para poder dizer "Nunca houve uma papisa até hoje", ou "A história da papisa Joana é uma lenda sem fundamento", ou "Já tivemos vários papas, mas nenhuma papisa".

3) FEMININO DE GAFANHOTO? - "A professora da minha filha pequena disse em aula que o feminino de pato é pata e o de sapo é sapa, mas que só tem formiga e não tem formigo, só tem gafanhoto e não tem gafanhota. Eu também fiquei curiosa e fui pesquisar. Todo o mundo afirma o mesmo, mas ninguém explica o porquê. Existe alguma razão gramatical que eu não estou enxergando? Obrigada."

Resposta - Senhora mãe, a gramática não é responsável por isso. Ocorre que uma língua (qualquer uma) economiza ao máximo os seus recursos e só vai fazer distinções de gênero que sejam importantes para os seus falantes - em outras palavras, ela só vai marcar os dois sexos biológicos quando isso tiver alguma importância para a comunidade. Para a criação de animais domésticos e de abate, por exemplo, é fundamental distinguir entre machos e fêmeas (o boi, a vaca, o touro; a ovelha e o carneiro; o galo e a galinha, e por aí vai a valsa). 

No entanto (ao menos por enquanto) não ganhamos nada em marcar esta distinção no caso da formiga, da girafa, do gafanhoto ou da onça. Se for realmente necessário distinguir, recorremos, então, ao acréscimo de "macho" ou "fêmea": a girafa macho, a fêmea do crocodilo, o macho da saracura, evitando a criação de formas de raro uso como *girafo, a *crocodila e o *saracuro.

CLÁUDIO MORENO


29 DE FEVEREIRO DE 2024
+ ECONOMIA

Crise no clima e nos negócios

Os efeitos da crise climática, sobretudo no RS, foram captados pelo aumento da proporção de empresas em processo de recuperação judicial nos últimos três meses de 2023. A plataforma de monitoramento desenvolvida pela consultoria RGF & Associados, que reúne os dados sobre a saúde da economia brasileira a partir da quantidade de companhias nesse tipo de situação, aponta que, no Estado, passou de 2,08 pontos no terceiro trimestre do ano passado para 2,32 pontos no encerramento do período.

No país, o levantamento indica que o número de empresas em recuperação saiu de 1,79 ponto para 1,85 ponto em igual período. O critério de análise considera e indica a quantidade de companhias em recuperação judicial a cada mil empresas, e avalia mais de 2,19 milhões de empresas de pequeno, médio e grande portes.

No RS, chama atenção que o índice mais elevado está nos laticínios, com 65,8 pontos. O setor enfrenta, e não é de hoje, crise provocada pela concorrência de produtos do Mercosul, e foi afetado pelas intempéries climáticas no último semestre de 2023.

Na segunda posição, com 27,8 pontos, e na quarta, com 22,2 pontos, estão os armazéns gerais e os empreendimentos de fabricação de alimentos para animais. Esses segmentos foram parcialmente destruídos durante as enchentes e as chuvas registradas na tragédia do Vale do Taquari. Na terceira colocação, com 25,6 pontos, figura a construção de redes de abastecimentos de esgoto e construções correlatas.

O levantamento mostrou, ainda, que o número absoluto de empresas em recuperação judicial no país aumentou em 173 (considerando entradas e saídas), pulando de 3.872 para 4.045 (alta de 4,5%).

Já na base total de empresas cadastradas, houve aumento em cerca de 25 mil, saindo de 2,16 milhões para os atuais 2,19 milhões.

Os dados se referem a matrizes de empresas ativas de pequeno, médio e grande portes.

RAFAEL VIGNA INTERINO

29 DE FEVEREIRO DE 2024
POLÍTICA +

Viva ela, a cantora Isabela Fogaça

A cantora Isabela Fogaça, a voz da canção Porto Alegre é Demais, se recupera bem, em casa, de uma cirurgia para retirada de nódulo mamário. Esposa do ex-prefeito José Fogaça, Isabela foi operada no Hospital São Francisco, do complexo Santa Casa, e é só elogios ao atendimento que recebeu.

Quando teve o diagnóstico, assustador para qualquer mulher, Isabela optou por manter a agenda do final do ano: cantar e conhecer o neto italianinho. Viajou para a Itália, onde moram seus filhos Martim e Francesca, e os netos Jonas, quatro anos, e Yago, hoje com quatro meses. Só no final contou do desafio que teria pela frente.

Decreto publicado ontem pelo Piratini define que o Conselho Estadual de Educação terá 28 conselheiros: 14 indicados por entidades representativas e 14 de livre escolha do governador.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul lança hoje edital para contratação de empresa de tecnologia para desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial. O procurador-geral Alexandre Saltz sabe que não há tempo a perder nessa corrida tecnológica.

Eduardo Leite vai à Itália e à Alemanha, em abril. A viagem de uma semana começa no dia 13 e inclui participação na Vinitaly, tradicional feira internacional de vinhos em Verona.

Inteligência artificial e campanha suja

No mundo das resoluções, está tudo redondinho: o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu as balizas para o uso da inteligência artificial na campanha eleitoral.

Trata-se de uma iniciativa necessária para impedir o vale-tudo nas campanhas, e isso inclui a responsabilização das plataformas que não retirarem de circulação os materiais criminosos que venham a ser postados nas redes.

O problema é que as verdadeiras iniquidades de uma campanha não ocorrem na propaganda de rádio e TV, nem nas redes dos candidatos. Ninguém é bobo de se auto-incriminar. O perigo mora na disseminação de montagens fora do universo regrado, para que se espalhem feito penas ao vento, sem que a vítima consiga juntá-las. Uma mentira disseminada num grupo de WhatsApp ganha pernas, asas e motor supersônico no mundo hiperconectado. Como fazer a contenção?

A desconstrução de adversários com base em mentiras precede a existência das redes sociais e vem de um tempo em que não se falava em inteligência artificial nem no cinema. Espalhavam-se panfletos apócrifos nas ruas e praças e às vezes isso bastava para que um candidato viável perdesse a eleição e ainda ficasse com a pecha de ladrão, marido traído, traidor, bêbado, homossexual (a expressão usada, claro, era outra, bem chula).

Lá pelo final dos anos 1990 era comum tentar semear entre os jornalistas a dúvida sobre a saúde física (ou mental) do adversário. Não na propaganda oficial, fiscalizável, mas no ti-ti-ti da tia que trabalhava no hospital X e viu o candidato Y chegar em coma.

Nas últimas eleições, as coisas se sofisticaram (para pior). Enquanto candidato posa de bom moço, a equipe do serviço sujo espalha boatos escondida no anonimato. As chamadas "tias do zap" são, em geral, inocentes úteis usadas para disseminar mentiras, porque é fácil identificar aqueles que acreditam em tudo e "compartilham sem dó", para usar a expressão mais característica que acompanha as fake news.

As campanhas de 2018 e 2022 foram pródigas na proliferação de fake news, uma praga que se multiplica em ambientes de polarização e se mantém ativa fora do período eleitoral.

Com a inteligência artificial e a possibilidade de criar áudios e vídeos usando a imagem e a voz de pessoas reais em montagens surreais, partidos, candidatos, jornalistas e integrantes da Justiça Eleitoral precisam redobrar os cuidados. É um mundo novo que se descortina, para o bem e para o mal.

ROSANE DE OLIVEIRA

29 DE FEVEREIRO DE 2024
CAROLINE GARSKE

Saneamento básico

Já sei por que Lula insiste tanto em opinar sobre a guerra de Gaza. É mais fácil apontar culpados pelo que acontece lá do que explicar como o Brasil ainda tem 49 milhões de pessoas sem esgoto e 5 milhões (duas e meia Faixas de Gaza) sem água encanada.

Os números do IBGE apareceram há poucos dias e mereceram poucos - ou nenhum - discursos inflamados dos nossos governantes. Para Lula, a crise humanitária no Oriente Médio se tornou uma obsessão. Outro dia, evocou a memória da própria mãe para, aos berros, manifestar uma posição política que considera de suma importância: "EU apoio a criação de um Estado palestino", discursou, diante da torcida.

Para Lula, Lula é a grande notícia. Talvez ele não saiba, mas boa parte dos moradores de Israel e dos judeus do mundo também apoia a criação de um Estado palestino, assim como critica o governo Netanyahu. 

O que Lula ainda não disse é como construir esse novo país quando a força que governa hoje a Faixa de Gaza não aceita a existência do seu futuro vizinho e trabalha para destruí-lo, com terrorismo, sequestros, opressão de minorias, violência, radicalismo religioso e milhares de bombas lançadas em direção a cidades habitadas por civis em Israel. Lula defende uma ideia de fácil digestão, mas não opina sobre como chegar lá, porque isso implicaria admitir uma verdade que desagradaria à sua bolha: a culpa pelo que acontece em Gaza é menos de Israel do que das ditaduras e dos terroristas que proliferam na região.

Não me surpreende o fato de Lula não ter se desculpado pela infeliz comparação de uma guerra iniciada pelo Hamas com o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas. Fomos nós que o interpretamos mal, é o que diz. Lula se esquece do Hamas, dos reféns e dos assassinados em Israel. Essa indignação seletiva é fruto da ignorância e da radicalização política local, resumida no mantra "se o outro lado apoia Israel, eu sou contra".

Enquanto isso, no Brasil, os yanomami seguem morrendo e milhões de crianças adoecem por falta de serviços básicos. Falar sobre o Oriente Médio, definitivamente, é bem mais charmoso. Nem que, para ser aceito no clube do qual decidiu ser membro, Lula desautorize Lula. A defesa convicta da energia limpa na campanha eleitoral se transformou, logo depois, em adesão à Organização dos Países Produtores de Petróleo, na qual as palavras democracia e liberdade são tão odiadas quanto na Faixa de Gaza governada pelo Hamas.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024


Tudo o que você já odiou um dia

Você questionava os tênis largados no banheiro, as meias sujas dentro dos tênis, a toalha que não era estendida, a calça embrulhada com a roupa íntima no cesto, os cabides no chão do quarto, a xícara largada com restinho de café no braço do sofá, o pote do queijo aberto, as chaves no lugar errado, os carregadores dos celulares com fios trocados, as portas escancaradas dos armários, as luzes acesas dos aposentos.

Você reclamava dos esquecimentos, das repetições, da confusão do outro ao sair de casa, do desleixo dele ao voltar para casa. "Depois eu arrumo" nunca acontecia. "Depois eu lavo" empilhava a louça na pia. "Depois eu faço" demorava a vir. Como você nunca esperou, e se pôs a ajeitar antes, jamais pôde descobrir se a intenção alheia resultaria em ação.

Você protestava diariamente contra a ameaça à sua ordem, ao conteúdo das gavetas alinhado, ao capricho do forro de papel estampado. Irritava-se longamente procurando a tesoura que estava longe do seu esconderijo, ou a escova de dente que localizava deitada no box, jamais de pé em seu pote. Perdia tempo caçando objetos, coisas, ideias, deslocados de onde você havia deixado.

Entendia tudo como agressão ao seu método, como má vontade, como indisposição, como implicância. Quanto mais encontrava oposição, mais faxinava, mais acentuava o seu rigor, a sua disciplina.

Não se permitia momento algum de distração para não dar o exemplo. Vivia tenso, angustiado, apressado, revisando sua lista mental de limpeza. As discussões sempre giravam em torno de quem realizava mais pelo lar, em torno de quem realizava menos, numa disputa desleal de tarefas.

Acreditava que a sua companhia tinha um problema, um defeito, um transtorno, jurava que ela dependia de correção, de reeducação, de um ajuste de personalidade, para se mostrar mais atenta. Nunca admitiu a possibilidade de ela ser naturalmente daquele jeito.

Você se rebelava contra os rastros da pessoa. Como se pretendesse morar sozinho. Como se pretendesse ser casado com você mesmo. Não cogitou que você gostava de consertar a arruaça dos caminhos, gostava de se ver útil, gostava de receber ocupações. Virava um herói dos problemas que criava. 

Até que o adeus, na falta do presente, devolveu o passado. É só perder a pessoa que agora sente dificuldade para arrumar o ambiente. Não deseja alterar nem um pouquinho a desordem. Dói refazer o que foi desfeito. Pela primeira vez, percebe que aquilo que tinha era vida, que aquela bagunça era vida.

A saudade é um amor que vem atrasado. Um amor que acorda tarde demais. Um amor por tudo o que você já odiou um dia. A saudade é finalmente não querer mudar o outro.

CARPINEJAR 


28 DE FEVEREIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

COLHENDO BENEFÍCIOS

Deve ser reconhecido o significativo avanço na observação de direitos laborais dos safristas recrutados para a vindima na serra gaúcha. Os números apresentados na segunda-feira pelo Ministério do Trabalho, fruto de fiscalizações realizadas entre os dias 21 de janeiro e 23 de fevereiro, são claros neste sentido. A quantidade de trabalhadores com carteira assinada mais do que triplicou em relação à safra da uva no ano passado. Passou de 2,1 mil para 7,1 mil. Verificações anteriores também atestaram a melhoria das condições nos alojamentos, garantido dignidade aos trabalhadores.

Era esperado que aumentasse a fiscalização dos órgãos competentes após o episódio de um ano atrás, quando foram resgatados em Bento Gonçalves 207 safristas em condições consideradas análogas à escravidão. A maior parte era de baianos. Foi o maior caso do gênero no Rio Grande do Sul. Deveria ser tratado como um divisor de águas, portanto.

O episódio levou a assinaturas de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) entre vinícolas e o Ministério Público do Trabalho (MPT). Mas, mais importante, gerou conscientização e mobilização. Produtores de uva, setor vitivinícola como um todo, entidades empresariais e poder público se comprometeram a redobrar a atenção para o cumprimento de normas legais e a garantias de boas práticas nas relações com os safristas oriundos de outras regiões do Estado, do país e até do Exterior.

Trata-se de uma mudança de quadro proveitosa para todos os envolvidos. Em primeiro lugar para os próprios trabalhadores, pelo respeito aos seus direitos. Mas também para os próprios empregadores rurais e as vinícolas, elos de uma cadeia que, além da qualidade dos produtos, tem de cuidar da imagem e da reputação. Ao demonstrarem os resultados do esforço para deixar no passado um lamentável ocorrido, também disseminam benefícios indiretos, como para o próprio turismo na região.

O primeiro passo para solucionar o problema em si e a crise reputacional, logo após a descoberta dos trabalhadores que não recebiam os seus direitos e ainda eram submetidos a maus-tratos, foi o reconhecimento da gravidade do fato. Em seguida, veio a adoção de medidas para sanar as falhas na contratação, assegurar boas condições de alojamento e alimentação e evitar práticas condenáveis. Os números mostram uma evolução relevante. Mesmo assim, é preciso que tanto o setor quanto os órgãos ligados à fiscalização permaneçam atentos. Afinal, ainda nesta safra foram flagrados casos pontuais de trabalhadores submetidos a circunstâncias degradantes. Também foram encontrados safristas em situação de contratação irregular. Os cuidados, portanto, não devem arrefecer. O desafio não está totalmente vencido, embora o progresso mereça registro.

A persistência no propósito de combater qualquer tipo de desrespeito a prerrogativas laborais e de garantir direitos de quem vem de longe atrás de trabalho tem o potencial de produzir mais benefícios. É um caminho para, mais do que enterrar uma percepção equivocada devido à generalização, valorizar ainda mais marcas e produtos da região.

OPINIÃO DA RBS


28 DE FEVEREIRO DE 2024
DIÁRIOS DO PODER

A ferocidade de Milei contra Lula

Como se a Argentina não tivesse seus sérios problemas, chama atenção a ferocidade do presidente Javier Milei em relação ao governo Lula.

O presidente vizinho aproveitou a manifestação de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, no último domingo, para deflagrar uma saraivada de postagens contra o brasileiro, acusando-o de ser "pró-Hamas" e criticando o que chama de "autoritarismo de Lula".

Em seu perfil no X (ex-Twitter), Milei republicou vídeos compartilhados na internet por jornalistas e manifestantes presentes no evento. Um deles é Santiago Abascal, do Vox, partido de extrema direita espanhol, outro é Eduardo Menoni, que se intitula jornalista e analista político, fundador do Libertad Media, um site de direita.

Entre as postagens, o influenciador cita, por exemplo, o ditador Augusto Pinochet: "Si apoyas la mano dura al estilo Augusto Pinochet que salvó a Chile del comunismo de Salvador Allende".

Coube à presidente do PT, Gleisi Hoffmann, rebater as críticas, dizendo que Milei faz "molecagens".

As relações entre os governos de Brasil e Argentina estão estremecidas desde que Milei assumiu. O argentino, que na campanha se identificava como libertário, cada vez mais busca relações com o movimento alt-right (direita alternativa) americano. Nesta semana, ele participa da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o principal encontro conservador dos EUA. No domingo, mesmo dia do ato na Paulista, ele se encontrou com Donald Trump.

RODRIGO LOPES

28 DE FEVEREIRO DE 2024
MÁRIO CORSO

O revolucionário conservador

O revolucionário conservador é mais do que uma posição política, na verdade é uma postura frente ao mundo. Seu eixo programático é querer o melhor para os outros, para o planeta e para o cosmos. Não é qualquer melhor, é o melhor mesmo, o melhor perfeito e irrepreensível. Ele sabe o que realmente deve ser feito.

O revolucionário conservador não negocia. O jogo político de ceder um pouco para avançar conspurca o melhor a ser feito, então ele não faz. Ele não é um desses que põem a mão na massa se não for pela melhor pizza já feita no mundo.

O revolucionário conservador é uma promessa, alguém que mais tarde será lembrado pelos seus feitos. Quando as coordenadas históricas e contingenciais se alinharem, ele vai começar.

O revolucionário conservador é uma pessoa pura, tranquila - salvo quando palestra pela melhor qualquer coisa -, pois ele não tem más experiências no currículo para lhe atormentarem a consciência. Alguém poderia dizer que ele não teve experiência alguma; porém, ele apenas é cauteloso. Não quer se aventurar em projetos quaisquer. Aliás, como cobrar experiência dele, se ninguém quer bancar e fazer suas ideias geniais?

O revolucionário conservador não aceita qualquer emprego. Caso trabalhe, será em uma instituição progressista, que distribua lucro aos funcionários, sirva cafezinho orgânico, seja perto da sua casa e tenha horário livre - afinal, o ócio é criativo.

No campo do amor, o revolucionário conservador está em busca da pessoa perfeita para si. Não quer errar e ter que começar de novo. Ele é cerebral em relação às paixões, pois elas podem nos arrastar para escolhas impensadas. Lembrem, ele pensa muito, passa a vida a pensar, precisa pensar muito bem sobre um tema tão delicado. Quando chega a uma definição, deixa passar um tempo antes de tomá-la, para refletir se era bem isso.

O revolucionário conservador quer escrever. Tanto para tornar públicas suas ideias, como para falar de sua vida exemplar, modelo para tantos outros. Apenas não escreve porque ninguém lhe ofereceu um contrato com adiantamento. Por que sairia escrevendo sem ter um destino certo de publicação?

O revolucionário conservador tende a estar só e pouca ou nenhuma marca deixa no mundo. Seu sensato imobilismo não está listado como virtude. Ele é um revolucionário que conservou o mundo tal como o recebeu.

MÁRIO CORSO

28 DE FEVEREIRO DE 2024
CHAMOU ATENÇÃO

Estádio Olímpico em ruínas

A pressão do prefeito não adiantou. Um ano e meio se passou desde que Sebastião Melo subiu o tom e determinou prazo de 12 meses para que as obras fossem iniciadas no estádio Olímpico e no entorno da Arena do Grêmio.

Caso a movimentação não começasse no período, Melo prometia revogar o regime urbanístico especial criado - que deixou o terreno do Olímpico com um valor muito maior.

Se mesmo assim nada fosse feito, o prefeito sugeriu até que a prefeitura pudesse desapropriar a área e vendê-la. Um projeto de lei foi encaminhado pela prefeitura para a Câmara Municipal. A matéria segue em tramitação e já recebeu parecer favorável de três comissões.

Preocupação

Como se sabe, as intervenções não começaram e as ruínas seguem preocupando moradores do entorno, que reclamam de assaltos na região. Além disso, equipes da Secretaria Municipal de Saúde realizam inspeções no terreno em busca de focos do mosquito Aedes aegypti.

Nos bastidores, Grêmio - dono do Olímpico -, Karagounis e OAS 26 - donas da Arena - seguem em negociação. Porém, ainda não há qualquer previsão de acerto entre as partes. Para que as obras em ambos os estádios possam ocorrer, é necessário que seja realizada a troca de chaves, ou seja, o Tricolor repassa o estádio na Azenha para as empresas, que transferem a Arena para o clube gaúcho.

Apesar de parecer simples, a negociação é complexa. O Grêmio teme ser responsabilizado pelas obras do entorno da Arena. Além disso, bancos cobram na Justiça a falta de pagamento pelo empréstimo feito à OAS para construção do novo estádio. O estádio chegou a ser penhorado.

As instituições financeiras cobram R$ 226,39 milhões não pagos. A ação está suspensa na Justiça de São Paulo. É aguardada uma definição de uma ação que está tramitando há oito anos no RS. Uma decisão liminar de 2016 determinou que todo o valor arrecadado mensalmente pela Arena Porto Alegrense que não for direcionado para a manutenção do estádio deve ser repassado aos bancos credores.

O estádio Olímpico não recebe jogos desde 2013. Já os treinos no local deixaram de ocorrer em dezembro de 2014.

JOCIMAR FARINA

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024


27 DE FEVEREIRO DE 2024
CARPINEJAR

Orelhas de couve-flor

Os atletas que praticam MMA exibem uma sequela estética, uma característica de tantos combates, que impressiona quem não é adepto do esporte: as famosas orelhas de couve-flor. Resultam dos golpes sofridos ou de permanecer com a cabeça prensada contra o chão por muito tempo.

O trauma contínuo no ringue molda a cartilagem e modifica os traços. De acordo com o vocabulário médico, a doença se denomina pericondrite. Eu fiquei com medo de que a paternidade me deixasse assim. Porque meus filhos tinham a mania de dormir no colo segurando a minha orelha. Não eram adeptos ao bico para adormecer, ou a um cueiro predileto, ou à mamadeira. Somente se entregavam quando puxavam o meu lóbulo.

Parecia que eu caminhava com um prendedor, um tampão. Mariana e Vicente gostavam da minha orelha. Servia de maçaneta dos seus sonhos. De corrimão do meu rosto. Fazê-los dormir significava sempre embalá-los de um lado para o outro, pelos corredores da casa, ostentando um estranho brinco. 

Na verdade, representava um artifício de controle da parte deles, uma referência para continuarem no colo e não serem postos no berço. Encontraram um jeito de me pôr a trabalhar mais.

Seguravam o ponto de apoio com seus dedinhos rechonchudos. Depois de horas e horas de cantigas de ninar, eu sentia as orelhas fervendo. Mariana padeceu com o meu ritmo. Eu me mostrava agitado, tenso, precipitado aos 20 anos.

Pai amador, eu mais a chacoalhava do que a acalmava. Mais dançava forró com ela do que a aninhava. Lembrava um liquidificador, uma britadeira. Pensava que conquistaria o repouso com o esforço. Talvez ela pegasse na minha orelha para não cair do cavalo selvagem, do touro bravo, na base do "segura, peão". Minha orelha funcionava como aquela alcinha de segurança do carro de que o caroneiro se vale diante de direção perigosa.

O primeiro filho sofre por ser a escola do segundo filho. Os traumas e os medos surgem sem trégua para o primogênito. Já experiente, já sabedor dos meus erros de criação, aos 30 anos, eu me transformei na suavidade do acalanto para o Vicente. Virei uma chaleira, um vaporizador de ar, sem a pressa do quarto, sem a urgência de resolver a questão, demonstrando ter todo o tempo do mundo e transmitindo segurança e quietude.

Demorei a perceber que os bebês são radares da nossa ansiedade.  Dizem que, com o terceiro filho - o que não me aconteceu -, finalmente relaxamos e o soltamos no mundo. Deixamos de nos preocupar excessivamente. Ele até pena um pouco, pois se torna perigosamente livre, com a possibilidade de confundir confiança com desatenção.

O que posso garantir é que sou um pai de muitas lutas vencidas contra cólicas, febres e otites de meus filhos. Tenho o meu cinturão de ouro guardado.

CARPINEJAR

27 DE FEVEREIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

ELEIÇÕES E IA

A revolução da inteligência artificial (IA) generativa promete ao mundo benefícios como maior eficiência em tarefas e ganhos de produtividade na economia. Mas são avanços científicos que, ao mesmo tempo em que fascinam, trazem preocupações crescentes. As inquietações se referem, principalmente, à ampliação de possibilidades de produção de conteúdos fraudulentos por meio de ferramentas de IA. São vídeos, fotos e áudios falsos, mas ultrarrealistas, o que dificulta a sua identificação.

Chamou especial atenção nas últimas semanas a Sora, nova ferramenta da OpenAI, criadora do ChatGPT, capaz de produzir vídeos e outros tipos de imagens que impressionam por parecerem bastante com peças reais. Embora ainda não possa ser utilizada pelo público em geral, é uma amostra da velocidade de evolução dessa tecnologia. Além disso, outras plataformas semelhantes já estão acessíveis a qualquer interessado na criação de audiovisuais por meio da IA.

A disseminação de ferramentas análogas preocupa no país e no Exterior por uma série de razões. Uma delas é simplificar a produção e o compartilhamento massivo de deepfakes, como se chamam essas manipulações convincentes de vídeos e áudios com o objetivo de atingir adversários políticos. Em diversas nações, especialistas alertam para o risco à higidez da própria democracia, pelo potencial de influenciar e macular o resultado de pleitos. 

Criar vídeos falsos em que pessoas aparecem falando ou fazendo algo que nunca disseram ou fizeram já foi um recurso empregado na eleição argentina, no ano passado. Outro caso ocorreu na disputa pela prefeitura de Chicago, nos EUA. Também ao final de 2023, o prefeito de Manaus (AM) foi vítima da falsificação de um áudio imitando a sua voz, no qual pretensamente chamava professores municipais de "vagabundos".

O uso criminoso de ferramentas semelhantes é ainda mais diversificado. Vem sendo empregado por estelionatários para aplicar golpes, por exemplo. Há ainda os casos de vídeos pornográficos falsos produzidos a partir de fotos e áudios das vítimas. Os tipos de danos são variados e graves.

São apreensões que elevam a pressão para que o Congresso regulamente a utilização da IA no país, inclusive prevendo punições em situações que se mostrem delituosas. O presidente da Câmara, Arthur Lira, é favorável e se comprometeu a dar prioridade ao tema neste ano. 

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, apresentou em 2023 um projeto de lei com esta finalidade. O texto, que contou com a colaboração de uma comissão de juristas, está em tramitação, e o relator da matéria na Casa, o senador Eduardo Gomes (PL-TO), afirma que entregará o parecer para votação em abril. Não há garantias, porém, de que possa valer a tempo do pleito municipal de 2024.

Idealmente, em especial no uso eleitoral de deepfakes geradas por IA, a disseminação de desinformação com o objetivo de difamar e caluniar adversários políticos poderia ser freada por um processo educativo de criação de consciência crítica por parte dos eleitores. Ocorre que o freio à propagação das fake news tradicionais já tem se mostrado, na prática, bastante dificultoso. Em parte, pela omissão das plataformas de redes sociais quanto à moderação de conteúdo. Mas também, infelizmente, pela propensão de parcela de cidadãos a compartilhar conteúdos sem nenhuma checagem, desde que atinjam a corrente política contrária ou confirmem o seu viés ideológico.

O Congresso, portanto, não pode se omitir. Mas deve ser cuidadoso diante de um tema complexo, em constante evolução e que se constitui em uma nova fronteira tecnológica. Há risco até de o regramento ter uma obsolescência prematura. É preciso ter garantias, por exemplo, de não ser posto nenhum obstáculo à inovação e às infinitas contribuições que a IA pode trazer à humanidade, da educação à medicina. 

Por outro lado, faz-se necessária uma regulação capaz de inibir e punir o uso criminoso da inteligência artificial. Faz-se necessária uma regulação capaz de inibir e punir o uso criminoso da inteligência artificial

OPINIÃO DA RBS

27 DE FEVEREIRO DE 2024
+ ECONOMIA

Quiero Café y yo también Onde estão 1,5 mil quilômetros de ferrovia que sumiram no RS?

O RS permanece fora do mapa das ferrovias. Cercada de expectativas no governo passado, a prorrogação da concessão da Malha Sul (que também envolve SC, PR e SP) não evoluiu. Após a troca na gestão federal, as esperanças se renovaram e nada aconteceu.

Pelo contrário. A exemplo do que já ocorria quando o titular da Infraestrutura era o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, as atenções seguem no Sudeste. Desde 1996, ano que demarca a concessão, hoje gerida pela Rumo Logística, a malha férrea gaúcha encolheu. Dos 3,15 mil quilômetros ativos, restaram só 1,6 mil quilômetros de traçado.

A Fronteira Oeste e a Metade Sul, de onde brota parte do arroz, da soja e do milho gaúchos, ficaram sem vagões. Em agosto de 2023, uma reunião na ANTT realinhou as diretrizes. Na ocasião, discutiram-se as obras nas malhas Paulista, Sul e Oeste.

A meta era "tentar entender problemas, agir na articulação e sugerir soluções para garantir a execução do cronograma de entregas". Um relatório da Rumo indicou investimentos de R$ 20 bilhões obrigatórios e entregues desde 2015 até o primeiro semestre deste ano.

Fala e números embelezam o quadro que, na prática, é bem diferente. A concessão passa por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, possui 16 entroncamentos e 16 pontos terminais. São quatro corredores, seis ramais, 38 estações com origem de carga e 115 rotas que levam a três portos: Santos (SP), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS). 

Os trens, "quanto mais ao Sul, pior", são velhos, lentos e com infraestrutura danificada, concordam especialistas ouvidos pela coluna. A cada ano, cerca de R$ 125,3 bilhões, ou seja, 21,5% do PIB gaúcho, segundo aponta a Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Camaralog), escorrem em grãos desperdiçados no RS.

Enquanto nada acontece para alterar a situação e os prejuízos, o Tribunal de Contas da União (TCU) entrou em cena e - com base em decisão de dezembro, que definia pagamento adicional de R$ 1,170 bilhão pela Rumo, referente à otimização do contrato - gerou acordo no valor de R$ 2,6 bilhões.

O contrato, assinado junto ao Ministério dos Transportes, é, justamente, para "corrigir distorções e tornar a operação da empresa mais eficiente e garantir avanços na política ferroviária brasileira", afirmou o ministro Renan Filho. Outra vez, as palavras adornam a paisagem. Mas a pergunta é: onde estão os 1,5 mil quilômetros da ferrovia gaúcha que sumiram nos últimos 27 anos?

Com inauguração prevista para o início de abril, o Quiero Café terá mais uma unidade em Porto Alegre. Os gestores investiram cerca de R$ 900 mil na nova operação.

O espaço, na Avenida Wenceslau Escobar, 1.467, no bairro Cristal, será a sétima unidade da marca na Capital. O proprietário da nova franquia do Quiero Café na Capital é Felipe Lohman. O empreendedor já tem também outras operações da marca em Capão da Canoa, Tramandaí e Tubarão (SC).

- Muitos clientes que frequentam as minhas unidades do litoral são de Porto Alegre e moradores da Zona Sul. Sempre recebia deles muitos pedidos por uma loja do Quiero por lá, e isso me motivou a investir na região - afirma Lohman.

A rede já tem 61 unidades no Brasil, espalhadas por cinco Estados. Em 2023, a marca inaugurou 14 lojas, e faturou R$ 152 milhões. O valor representou alta de 56,7% em relação ao ano anterior.

- A nossa expansão não se dá por metas a serem buscadas a qualquer custo, mas através da construção de relacionamento sólido com os inicialmente candidatos a franquia, e depois de fato franqueados da rede - destaca Matheus Fell, sócio-fundador da marca.

A coluna publicou ontem uma nota sobre como é feito o azeite de oliva no Rio Grande do Sul. O QR Code para acessar o vídeo, porém, não funcionou. Quer entender como o azeite extravirgem, chamado de "ouro líquido", sai verde da linha de produção?

Aponte a câmera do seu celular para o código ao lado e confira o passo a passo da produção de azeites na Prosperato, empreendimento situado em Caçapava do Sul, na região central do Estado.

RAFAEL VIGNA INTERINO


27 DE FEVEREIRO DE 2024
CHAMOU ATENÇÃO

Para não cair no lugar errado

Em 20 dias, o município de Santiago, na região central do Estado, recolheu quase 30 toneladas de pneus sem uso em borracharias e empresas especializadas da cidade. O objetivo é evitar o descarte inadequado do material, reduzindo o impacto ambiental.

Conforme o coordenador da central de triagem e transbordo de Santiago, Márcio Luciano Sudatti, a campanha é uma parceria com a empresa Recicla Eco Pneus, de Capela de Santana. A companhia recolhe o material a cada 15 dias.

- A empresa não cobra nada, não tem ônus algum para o município ou para as empresas da área de borracharia. E isso também facilita muito na fiscalização, porque estão fazendo o descarte correto do material - explica Márcio.

Região

Além de Santiago, a parceria agora beneficia também os municípios de Cacequi, Mata, Nova Esperança do Sul, Jaguari, Unistalda e Capão do Cipó. Nesta semana, a coleta começou ontem e segue até quinta-feira.

Somente na primeira coleta de fevereiro foram quase 4 mil pneus que tiveram a destinação correta.

O material é transportado, pela própria Recicla Eco Pneus, até o depósito da companhia, onde ocorre a divisão e fragmentação do material. Segundo informações da empresa, o arame dos pneus vai para construção civil, cercamento, fábrica de pregos e outros. Já a borracha é triturada e tem várias funções, como combustível para caldeiras em fábricas, produção de asfalto e confecção de tapetes.

AMANDA BOEIRA


27 DE FEVEREIRO DE 2024
NÍLSON SOUZA

Xarás

Não estamos entre os mais populares, mas formamos um grupo suficientemente numeroso para ocupar com exclusividade uma cidade do tamanho de Camboriú, em Santa Catarina. Acabo de descobrir que tenho mais de 100 mil xarás no país, 5 mil e poucos apenas no Rio Grande do Sul. 

Nunca pensei que éramos tantos, pois, nos ambientes coletivos que frequentei ao longo da vida, sempre eram raros os que atendiam pelo meu nome de chamada: ao que lembro, apenas um no Ensino Médio, outro na minha turma da Aeronáutica, um terceiro no meu time de futebol amador e quatro nas redações dos jornais onde exerci a maior parte de minha atividade profissional.

Pois agora o IBGE me proporciona a oportunidade de saber quantos patrícios foram registrados com este prenome que, segundo o Dicionário de Nomes Próprios, significa "filho do campeão" ou (minha definição romântica preferida) "filho da nuvem". Os Nilsons e todos os leitores e leitoras que tiverem curiosidade de saber quantos xarás foram registrados entre 1930 e 2010 podem facilmente consultar o site Nomes do Brasil, do IBGE, no endereço censo2010.ibge.gov.br/nomes.

É mais uma maravilha do Censo. Quando a gente lembra o trabalhão que os recenseadores tiveram para coletar dados e entrevistar algumas pessoas no ambiente de desconfiança e negacionismo do Brasil recente, dá vontade de aplaudi-los novamente. 

Não apenas por terem nos proporcionado curiosidades como essa dos xarás, que talvez sirva apenas para atenuar as agruras do cotidiano, mas também e principalmente pelas revelações sobre as próprias agruras: a quantidade de brasileiros residindo em sub-habitações, o número de lares sem esgoto e água tratada, informações preciosas sobre trabalho, segurança, educação, saúde, coisas que os governantes e legisladores precisam levar em conta na tomada de decisões sobre políticas públicas.

O Brasil traduzido em números é o retrato fiel de uma nação que, mesmo aos trancos e barrancos, avança para um futuro melhor. Já o Brasil traduzido em nomes tem curiosidades e descobertas para todos os gostos. Quem não vai querer saber, por exemplo, quantas pessoas têm o mesmo nome de seus afetos, de seus ídolos ou mesmo daquele político que apoia ou rejeita?

Tudo depende do que se quer procurar. Na minha pesquisa estendida, fiquei aliviado em constatar que 1.808 brasileiras atendem pelo nome de Esperança.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024


26 DE FEVEREIRO DE 2024
CARPINEJAR

Virada espetacular

Gre-Nal precisa de VAR. Não importa se é primeira fase. Não importa se é Gauchão. É o maior clássico da América Latina, uma rivalidade secular, um confronto cardíaco, sempre surpreendente, sempre sorrateiro nos detalhes.

Ainda que eu considere correta a marcação de penalidade de Anderson Daronco para Kannemann em cima de Alan Patrick (vale onde terminou o empurrão) na entrada da área, não poderia existir sombra de dúvidas da legalidade.

O que quase 50 mil torcedores testemunharam, um público recorde no Beira-Rio para o clássico 441, é digno de uma final. Nem o empurra-empurra nos acréscimos roubou os méritos e a qualidade do espetáculo. Tanto Coudet quanto Renato usaram todas as suas peças e sua criatividade para colocar a gangorra a seu favor.

Prevaleceu a sanha colorada. Houve de tudo um pouco: os santos e os vilões, os heróis e os proscritos, o Judas e o Messias.

Renê fez a pior exibição de um atleta num Gre-Nal. Além do gol contra bisonho ao dominar a bola na frente do goleiro Anthoni, não freou Villasanti em sua infiltração para o segundo gol do Grêmio e errou uma infinidade de passes, possibilitando contra-ataques. Ele não saiu queimado do gramado, mas carbonizado, acrescentando a atuação desastrada ao histórico de antagonista na eliminação para o Fluminense na Libertadores. A posição está vaga, assim como a do goleiro, caso o Inter realmente deseje voltar a obter títulos e talvez cumprir o melhor ano das suas últimas temporadas.

Se a lateral esquerda do Inter assumiu o protagonismo da bizarrice, já a lateral direita produziu os melhores momentos da equipe, com Bustos e Wanderson conferindo amplitude pelos flancos.

Do lado do Grêmio, despontou uma estrela em ascensão: o jovem Gustavo Nunes, que, aos 18 anos, não sentiu a responsabilidade e o peso do primeiro clássico.

Mas o favoritismo acabou se confirmando. Mauricio mostrou que, se não estivesse como reserva no Pré-Olímpico, o Brasil estaria nas Olimpíadas de Paris. Puxou a reação, serviu, abriu-se para a triangulação. É o nosso aprendiz de feiticeiro de Alan Patrick - este, por sua vez, um maestro, um regente, um 10 absoluto, que decide o placar levando a marcação.

Ainda tivemos aquele jogador do banco chamado às pressas para resolver: o argentino Alario, que parece ter superado o período de adaptação e reencontrado o caminho vocacionado das redes. Fez o gol 600 do Inter nos Gre-Nais, recompensando a valentia de Coudet, que havia tirado Bruno Henrique um pouco antes para a entrada do centroavante.

Com a sua segunda vitória consecutiva no tradicional embate, Inter quebra a hegemonia gremista e inverte a freguesia.

A vitória por 3 a 2, pela penúltima rodada da primeira fase do Gauchão, garantiu ao Internacional a primeira colocação da fase classificatória com uma rodada de antecedência, somando 25 pontos e o mando de campo no mata-mata. É uma vantagem que soa simbólica, porém é gigantesca, ainda mais diante do retrospecto desfavorável do Inter na Arena.

CARPINEJAR

26 DE FEVEREIRO DE 2024
CINEMA

Sete filmes para assistir com desconto

Até quarta-feira, a Semana do Cinema oferece ingressos com preço promocional de R$ 12 por sessão, além de descontos em combos de pipoca e refrigerante. A ação é organizada pela Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec), em parceria com a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex). Em Porto Alegre, fazem parte as redes Cineflix (Shopping Total); Cinemark (Bourbon Ipiranga, Bourbon Wallig e BarraShoppingSul); Cinépolis (Shopping João Pessoa); GNC (shoppings Iguatemi, Moinhos e Praia de Belas) e Espaço de Cinema no Shopping Bourbon Country. Para ajudar a escolher, fiz uma lista com os sete melhores filmes em cartaz nessas salas (veja horários na página 3). Leia outros textos sobre cinema pelo link gzh.rs/ticianozh.

1) Anatomia de uma Queda (2023)

De Justine Triet. Preterida pela França na escolha do candidato ao Oscar internacional, esta mistura de suspense de tribunal com drama conjugal acabou recebendo cinco indicações ao prêmio da Academia de Hollywood: melhor filme, direção, atriz (Sandra Hüller), roteiro original e edição.

2) Dias Perfeitos (2023)

De Wim Wenders. É o filme que representa o Japão no Oscar internacional, dirigido por um alemão e com trilha em inglês - a caminho do trabalho, o protagonista escuta fitas cassete de artistas como Lou Reed, Patti Smith e Van Morrison. Esse personagem, Hirayama (Koji Yakusho, prêmio de melhor ator no Festival de Cannes), limpa os banheiros públicos de Tóquio. Com extrema delicadeza, Wenders acompanha sua rotina e os encontros inesperados que trazem à tona um pouco do seu passado.

3) O Menino e a Garça (2023)

De Hayao Miyazaki. Pode ser a despedida de um mestre na arte da animação à moda antiga - desenhando à mão cada quadro, o diretor japonês levou cerca de sete anos para concluir o filme. Oscarizado por A Viagem de Chihiro (2001), Miyazaki é forte candidato a ganhar de novo a estatueta da categoria.

4) Minha Irmã e Eu (2023)

De Susana Garcia. Não morri de amores, mas Ingrid Guimarães e Tata Werneck cumprem o que se espera de uma comédia: fazem rir. E há de se levar a sério um filme brasileiro que já conseguiu ultrapassar a marca dos 2 milhões de espectadores, façanha inédita para o cinema nacional desde a pandemia.

5) Pobres Criaturas (2023)

De Yorgos Lanthimos. Misturando Frankenstein, socialismo e muito sexo, com a habitual combinação entre gosto pelo choque, pessimismo e humor excêntrico do diretor grego, é o segundo título com mais indicações ao Oscar. São 11: melhor filme, direção, atriz (Emma Stone), ator coadjuvante (Mark Ruffalo), roteiro adaptado, fotografia, edição, design de produção, figurinos, maquiagem e cabelos e música original.

6) Vidas Passadas (2023)

De Celine Song. Jamais é manipulativo ou maniqueísta no retrato de um triângulo amoroso que tem como vértice uma escritora que emigrou da Coreia do Sul para os Estados Unidos. Foi indicado ao Oscar de melhor filme e ao troféu de roteiro original.

7) Zona de Interesse (2023)

De Jonathan Glazer. Ao retratar o cotidiano familiar do comandante de Auschwitz, onde pelo menos 1,1 milhão de judeus foram exterminados, o cineasta inglês propicia uma experiência perturbadora. Concorre a cinco Oscar: melhor filme, direção, roteiro adaptado, som e longa internacional.

Bônus: Todos Menos Você (2023)

De Will Gluck. Ainda não vi a comédia romântica estrelada por Sydney Sweeney e Glen Powell, mas estou impressionado pelo sucesso de público: já arrecadou quase US$ 200 milhões no mundo.

TICIANO OSÓRIO


26 DE FEVEREIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

ATRASADO NA CORRIDA

O Censo Escolar 2023, divulgado na semana passada pelo Ministério da Educação, demonstra o quanto o Rio Grande do Sul está atrasado e tem de avançar na expansão do ensino em tempo integral na rede pública. Por trazer os dados de todas as 27 unidades da federação, o levantamento tem o mérito de, com informações atualizadas, permitir uma comparação do quadro gaúcho com o dos demais Estados e do Distrito Federal.

A expansão da rede com turno e contraturno vem se ampliando, é verdade. Mas está ainda bastante aquém do necessário. As posições do Rio Grande do Sul não são nada honrosas. No Ensino Fundamental, está na 22ª colocação. Somente 7,69% dos estudantes apareciam matriculados no ano passado em colégios de turno integral. É metade da média nacional (14,9%), também um nível longe de ser satisfatório.

O panorama é ainda mais desafiador no Ensino Médio. Na última etapa da Educação Básica, o Rio Grande do Sul tem a segunda pior posição, melhor apenas do que o Distrito Federal. Somente 6,54% dos alunos estão em escolas com turno integral, ante uma média nacional de 20%.

Os benefícios do ensino integral são conhecidos e comprovados. Um deles, por óbvio, é o de conseguir elevar o nível de aprendizagem dos alunos, além de oferecer outras atividades profissionalizantes, de esportes e cultura. Em especial em áreas carentes, ocupa crianças e jovens que, sem essa opção, poderiam estar expostos a más influências e à violência nas ruas.

Ampliar a rede de turno integral não depende apenas de vontade. É imprescindível ter escolas com infraestrutura adequada para receber alunos pela manhã e à tarde. Os colégios devem contar com quadras de esporte, refeitórios ampliados e outros espaços para demais atividades complementares. A burocracia tem sido um obstáculo para o governo gaúcho tocar obras nas escolas no ritmo prometido. Elevar o quadro de professores e funcionários também é precondição. Há custos envolvidos e as finanças gaúchas, apesar de os tempos de penúria extrema terem ficado para trás, não permitem um ritmo de investimento à altura das necessidades do Estado.

A rede pública estadual tinha em 2022 apenas 18 escolas de turno integral. O número saltou para 111 no ano passado e, em 2024, chega a 205, informa o governo gaúcho. A meta é chegar ao fim do segundo mandato do governo Leite, em 2026, com 50% das instituições com turno e returno. A ver se a promessa será cumprida. Na Capital, a prefeitura assegura que, até o final do ano, 100% das escolas terão contraturno.

Na Educação Infantil, por outro lado, o Estado é destaque nacional. É a segunda unidade da federação com maior percentual de alunos (45%) no ensino integral. Resta, portanto, um avanço significativo no Fundamental e no Médio para oferecer às crianças e aos adolescentes do Rio Grande do Sul a chance de uma aprendizagem mais sólida e uma formação mais completa como cidadãos. É o que pode fazer a diferença para o futuro. Tanto para o progresso individual, devido à ampliação de chances de melhor colocação no mercado de trabalho, como para o próprio desenvolvimento socioeconômico do Estado.



26 DE FEVEREIRO DE 2024
CLÁUDIA LAITANO

A pior obra-prima

Foi um daqueles casos de amor ao primeiro acorde. George Gershwin (1898 -1937) tinha apenas 25 anos e já era famoso como compositor popular quando recebeu uma encomenda, em cima do laço, para compor uma peça musical que misturasse elementos do jazz e da música clássica. O espetáculo coletivo, intitulado Um Experimento em Música Moderna, seria apresentado no Aeolian Hall, em Nova York, no dia 12 de fevereiro de 1924. A ideia era mostrar para um público pouco acostumado ao jazz, na época ainda associado à vida boêmia, que o novo ritmo merecia ser levado a sério pela elite branca da cidade.

No início, nada deu certo. O sistema de ventilação do teatro não estava funcionando, e as músicas selecionadas menos ainda. Parte da plateia já começava a se retirar quando Gershwin, a penúltima atração do programa, se posicionou ao piano, à frente da orquestra, e o inconfundível solo de clarinete que abre Rhapsody in Blue soou no teatro. Quinze minutos depois, a plateia estava aplaudindo de pé. O compositor genial que morreria antes de completar 40 anos e a música que ele compôs em poucos dias acabavam de entrar para a história.

Cem anos depois, Gershwin e Rhapsody in Blue são tratados nos Estados Unidos como grandes tesouros nacionais. Em 1984, na abertura das Olimpíadas de Los Angeles, 84 pianistas tocaram juntos aquele que é considerado um hino não oficial do país, adotado pela companhia aérea United Airlines como jingle dos seus filmes publicitários. Muita gente, como eu, associa a música de Gershwin à abertura do filme Manhattan (1979), de Woody Allen - ou seja, pensa logo em Nova York. Rhapsody in Blue é um pouco Garota de Ipanema, um pouco Aquarela do Brasil, um pouco Bachianas Brasileiras.

Em 2024, os cem anos da apresentação no Aeolian Hall estão sendo comemorados com concertos, regravações, homenagens de todos os tipos - e alguma polêmica. Com o título "A pior obra-prima", o pianista Ethan Iverson escreveu um artigo no New York Times acusando Rhapsody in Blue de ser "brega e caucasiana", um "cheesecake" que "entupiu as artérias da música americana" ao mesmo tempo em que se apropriou de elementos da música negra. 

O linguista John McWhorter saiu em defesa de Gershwin, reconhecendo que a música é, pelos padrões modernos, um caso de apropriação cultural. Embora tenha feito isso com intenção artística sincera, o compositor adotou formas musicais negras e, como resultado, ganhou a fama e a fortuna que o racismo da época tornava impossível para os compositores negros americanos. Apesar disso, continua McWhorter, Rhapsody in Blue é "uma explosão de glória, linda e azul, um testemunho da magnífica miscigenação da cultura americana".

CLÁUDIA LAITANO