segunda-feira, 31 de dezembro de 2018


31 DE DEZEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O ano em que a social-democracia foi à lona

Lá adiante, vivendo no saudável distanciamento histórico, que fica no lugar de onde se vê o que já não existe mais, lá adiante, as pessoas talvez olhem para 2018 como o ano em que a social-democracia sofreu o definitivo gancho no bico do queixo. Você sabe: é aquele murro que faz o cérebro bater contra as paredes da caixa craniana e leva o lutador a nocaute. Quer fazê-lo sentir dor, atinja-o rim. Quer fazê-lo dormir, bico do queixo. No começo da década, a social-democracia começou a receber golpes nas ilhargas, enfraqueceu-se, abriu a guarda e, em 2018, foi à lona.

Você pode achar abstrato falar em "social-democracia". Pode achar que essa discussão não faz parte do seu dia. Ao contrário. A social-democracia, depois da II Guerra Mundial, passou a ser identificada como o sistema político-administrativo ideal em quase todo o Ocidente. O bom sucesso da Alemanha foi o maior responsável por esse conceito. O grande campeão da social-democracia, Willy Brandt, chegou a ganhar o Nobel da Paz, e, antes dele, Konrad Adenauer não se dizia social-democrata, mas, em sua atuação, é claro que era.

Assim, a Europa inteira foi se tornando social-democrata, às vezes mais à esquerda, às vezes mais à direita. O Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a Coreia do Sul, o Japão também aderiram a tipos flexíveis de social-democracia. Nos Estados Unidos, a social-democracia de Roosevelt foi festejada como a redentora do país depois da crise dos anos 1930. Houve interregnos reformistas, como nos períodos de Reagan e da sua mentora britânica, Margaret Thatcher, mas, em geral, os governantes de maior prestígio nos dois lados do Atlântico, Clinton, Obama, Tony Blair, eram sociais-democratas.

No Brasil, o pensamento social-democrata foi absoluto. O lema do governo Sarney era "tudo pelo social". O PT não é comunista coisa nenhuma; é social-democrata. E o PSDB leva a social-democracia no nome. Se você examinar detidamente as ideias dos políticos brasileiros, constatará que quase todos são sociais-democratas, dos mais à esquerda aos mais à direita. Alguns não têm ideia nenhuma, é verdade, mas, se você perguntar no que eles acreditam, eles apontarão para a ideia social-democrata do vizinho.

Em 2018, a lógica da social-democracia foi fraturada. Mas que lógica é essa, afinal? Em uma frase: é a de que os ideais de liberdade e igualdade sejam garantidos dentro de uma economia de mercado bem regulada pelo Estado.

As pessoas não acreditam mais nisso. De cinco anos para cá, elas têm explodido em revoltas ocasionais contra pedaços dessas convicções. Em geral, elas nem sabem com exatidão por que estão se rebelando, como nos recentes protestos dos coletes amarelos na França ou nas marchas de 2013 no Brasil, mas o fato é que elas estão insatisfeitas. Donde, o sucesso de Bolsonaro, de Trump, do Brexit et caterva.

Em toda parte, no Ocidente, as pessoas estão gritando que, com a social-democracia, o Estado adquire muita fluidez e muita abrangência, enquanto perde sua força de controle das relações sociais. Na América Latina, a situação é mais grave: o Estado parece existir apenas para continuar existindo. Ele se retroalimenta. Deveria ser uma entidade criada pela sociedade para servi-la, mas é ele que se serve dela. A sociedade se sacrifica para manter vivo um Estado cada dia mais faminto, cada dia mais exigente.

A social-democracia foi ao chão em 2018. Está vencida e desacordada. Ainda poderá se levantar. Mas terá de mudar.

DAVID COIMBRA

31 DE DEZEMBRO DE 2018
RBS BRASÍLIA

Jair e a posse dos sonhos

Forjado no antipetismo e embalado pelo discurso da segurança, Jair Bolsonaro tem tudo para viver a cerimônia de posse que sempre sonhou. Diante da expectativa de um público recorde na Esplanada, ele mesmo tratou de animar ainda mais seus apoiadores: guardou para as vésperas do evento o anúncio da publicação de um decreto para facilitar a posse de armas. É uma bandeira simples de campanha, que atinge em especial uma demanda do homem do campo. Isso não quer dizer que as pessoas poderão andar armadas por aí, mas que será mais fácil ter um revólver dentro de casa. 

A medida aquece os negócios da indústria de armas e empolga o eleitor clássico de Bolsonaro, mas é uma ilusão. O problema da segurança no Brasil não passa pela flexibilização do Estatuto do Desarmamento. O futuro ministro da Justiça Sergio Moro sabe disso, mas apoiou o anúncio do futuro presidente. Sabe que é importante que o chefe assuma com medidas que inflamem a alta popularidade. Outras ações do mesmo quilate já estão no forno para os primeiros dias de governo.

PRESENTÃO

Petistas passaram o final de semana nas redes sociais, justificando a decisão nada democrática de não participar da posse do presidente da República eleito, colocando lenha na fogueira da polarização. Mas quem ganha é Bolsonaro, que recebe de presente mais um motivo para legitimar o discurso do "nós contra eles".

CONDIÇÃO

José Fogaça (MDB) optou por não assumir automaticamente a vaga de suplente de Osmar Terra, que será ministro da Cidadania. Como a Câmara está em recesso, ele avisa que só assumirá se houver convocação extraordinária ou for chamado para comissão representativa. O cargo poderá ficar vago por 30 dias, uma economia de R$ 33,7 mil.

NO HORIZONTE

O Estado deve receber nos próximos quatro anos pelo menos R$ 300 milhões para investimentos em aeroportos. A principal obra deve ser a construção de um novo terminal em Caxias do Sul. O aeroporto vai funcionar no distrito de Vila Oliva. Segundo o diretor de investimentos da secretaria de Aviação Civil, o gaúcho Eduardo Bernardi, os recursos estão garantidos.

Feliz Ano-Novo!

Colaborou Silvana Pires - CAROLINA BAHIA

31 DE DEZEMBRO DE 2018
ARTIGOS

ROMPER COM O QUE DIVERGE, BUSCAR O QUE CONVERGE


O 2019 que se inicia deve ser o ano desenhado a partir dos obstáculos acumulados em 2018. O Estado se debate na maior crise de sua história. Há desafios decisivos em todas as áreas. Conhecemos as dificuldades e procuramos montar uma equipe de alta eficiência, tanto tecnicamente quanto politicamente. Estamos preparados para enfrentar os desafios.

O 2019, no entanto, pode ser o ano em que o Rio Grande exorcizará a sina de território simbólico rachado, em que as rivalidades se tornam irreconciliáveis e o irracional prepondera sobre a razão simplesmente porque a solução não foi proposta por si, mas pelo outro.

Como governador, mais do que desejo, é meu dever propor o rompimento dessa cultura que muito já nos tirou e, ao fim, nos levou à situação em que nos encontramos hoje.

Afirmo meu compromisso de lutar no Rio Grande do Sul por duas causas: uma, imediata, a saída da crise e a retomada do crescimento econômico; outra, estratégica, de deflagrar o processo de um Estado de vanguarda, inovador e receptivo a quem quiser empreender e provedor de serviços de excelência em saúde, educação, segurança.

Tenho trabalhado intensamente desde as eleições para promover a conciliação junto a aliados e adversários, por convicção de que, separados, não chegaremos a lugar algum, e a certeza de que as receitas anteriores não mais nos servem.

A finalidade é dizer não ao que diverge; buscar à exaustão o que converge e romper com o arquétipo positivista que conduziu a política rio-grandense desde o final do século 19: adversário é inimigo, opostos não se atraem. Reconstruir as bases do Estado a partir do que nos une e não do que nos separa é o desafio que aceitei.

Cabe destacar que o propósito não é, em si, unir, mas unir em torno do propósito. E esse 2019 que se inicia tem a chance de passar para a história como o ano em que o gaúcho quebrou de vez a polarização, o atraso, e finalmente se uniu em torno de uma proposta sublime: resgatar de fato a grandeza que a sua querência carrega no nome e fazer desse efetivamente um lugar que sirva de modelo, próspero, seguro, amigável e, por isso, cada vez melhor de empreender e viver.

Para 2019 cumprir esses propósitos depende apenas de nós. De todos nós.

EDUARDO LEITE

31 DE DEZEMBRO DE 2018
INDICADORES

De pedra a vidraça

Como no ditado popular: ser pedra ao invés de vidraça, para muitos, talvez para a grande maioria das pessoas, é muito mais fácil. Não é raro encontrarmos nas rodas de conversas aqueles que são capazes de julgar tudo e todos, mas incapazes de olhar para dentro e pensar no que poderiam fazer para ser melhores como cidadãos ou, efetivamente, ser agentes do bem nos seus núcleos e perante a sociedade!

Infelizmente, tornamo-nos hábeis em apontar o dedo e fazer acusações, sem conhecer todos os fatos. Cometemos injustiças impulsionados pela abundante informação e muitas vezes pelas comuns fake news. Bastam alguns cliques nos nossos smartphones que nos sentimos os "espertos", com o perdão do trocadilho, capazes de executar sentenças contra atitudes ou pessoas sem sequer checar as fontes. E isto vale para todos os aspectos da vida. Trata-se da máxima de que ser oposição é muito mais simples do que ser governo ou "mais fácil criticar do que fazer"!

Mas temos que inverter esta lógica nefasta para construir uma país melhor! Precisaremos agir de forma ativa, saindo da passividade crítica e passando para a proatividade com resultado. Para isso, temos um novo impulso com o governo federal. Parece que, finalmente, há ventos de mudanças e este fato já nos motiva a aderir a outros projetos. Aliás, novo governo que de pedra passa a ser vidraça e já vem sofrendo com estilhaços de atitudes pretéritas de seus atuais aliados.

Não é fácil, em nenhum sentido. Simples é falar, mas difícil é levar uma vida "à prova de bala", capaz de afastar qualquer acusação, ainda mais em posições públicas. Assim, para 2019, desejo que possamos olhar profundamente para dentro, para aquilo que podemos evoluir como pessoa, pois só assim melhoraremos a situação ao nosso redor. Deixemos as pedras de lado e busquemos tijolos e argamassa para construir um Brasil melhor, para que, no final do próximo ano, estejamos muito mais esperançosos do que estamos hoje. Enfim, que venha o ano novo e que possamos ser suficientemente fortes para transformar ao invés de apedrejar.

Feliz 2019!

Michel Gralha escreve às segundas-feiras, mensalmente - MICHEL GRALHA

31 DE DEZEMBRO DE 2018
ROSANE TREMEA

Ano-Novo, ainda Natal


Se fosse possível, viveria sempre numa manhã de Natal. Numa manhã de Natal, com uns cinco ou seis anos, comi o pé do Menino Jesus. Como eu poderia imaginar que não era um doce de açúcar, um marzipã, aquela figura do nosso presépio de gesso? Noutra manhã de Natal, com uns cinco ou seis anos, escondi um dos Reis Magos para proteger um gato que decepou-lhe a cabeça ao invadir a sagrada área sob a árvore. 

Por décadas, as duas figuras continuariam no nosso presépio assim, meio prejudicadas: o pequeno Jesus com aquela cicatriz amarelada marcando para sempre a travessura infantil; o Rei Baltasar seguiria seus dias com um colar de cola branca no pescoço negro.

Numa manhã de Natal, uma menininha de uns sete ou oito anos me perguntou, daquele jeito à queima-roupa, se eu ainda acreditava em Papai Noel. E eu, sem titubear, respondi que sim. Ela suspirou aliviada. Ainda bem que acreditava, pois descobrira que a avó tinha dúvidas. E eu suspirei aliviada também: poderia ter sido pior se a menina fosse americana e tivesse ligado para o presidente Trump ao invés de interpelar a avó - a incerteza teria virado desilusão ali mesmo, ao pé da árvore.

Numa manhã de Natal, uma menina de quatro anos, sem dúvidas sobre a existência de Papai Noel, encantada com os presentes que ele lhe havia deixado depois de entrar diligentemente pela lareira, deu-se conta de que só havia pacotes para ela. Pois então ninguém mais naquela sala havia se comportado? Só ela? Todos, flagrados e desmascarados, riram um riso amarelo.

Numa manhã de Natal, sem ter com quem deixar o filho, a mãe carregou o menino de cinco anos para o trabalho. Parecia não haver fantasia ou magia na cena. A criança abandonada pelo pai com meses de idade mal falava. A mãe falou pelas duas. Falou das marcas, nem todas visíveis, de uma vida de sacrifício e abnegação. Do trabalho duro para que, numa manhã de Natal, o menino franzino portasse orgulhoso as sandalinhas tinindo de novas. Não havia magia, mas o amor transbordava daquela fala.

Numa manhã de Natal, outra menina de cinco anos, feliz não pelos presentes, que esses ela tinha bastante, mas pela atenção exclusiva de todos os adultos à volta, que brincavam e riam e se divertiam com ela, suspirou uma frase: "Meu coração está cheio de gente". Um jeito de dizer que se sentia feliz e amada.

E eu pensei que seria bom viver sempre uma manhã de Natal todos os dias do novo ano. Com o coração cheio de gente.

ROSANE TREMEA


31 DE DEZEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

Tubo de mostarda e ketchup

Grande parte das discussões de casal é resultado da pura antipatia para comparecer na casa dos pais da esposa. As brigas têm o seu ápice no Natal e Ano-Novo, quando os parentes são passagem obrigatória.

É um diz que diz infernal. O pior tipo é aquele que aceita passar a data comemorativa com a família do outro, mas coloca defeito durante os dias que antecedem o encontro. Quer transmitir a imagem de aliado da boca para fora, já que aceitou o convite, mas, na verdade, deseja um golpe de Estado e derrubar a alternativa. Instaura uma conspiração pelo WhatsApp com fake news.

Começa com o interrogatório gratuito, esperando localizar um impedimento: quem vai estar lá, o que terá de comida, onde será feita a confraternização, e se chover, e se aparecer o tio bêbado?

São vésperas catando tragédia, arrumando sarna para se coçar, montando o cenário mais escabroso e inverossímil. Com as respostas sempre otimistas de sua companhia, ele não desiste de seu projeto maquiavélico.

Tenta puxar para o lado do romance: "Seria tão bom se tivéssemos um momento nosso, se ficássemos a sós, namorando". Não surtindo efeito, distribui culpa com as imagens da mãe velha e do pai velho, alegando que talvez seja a última ceia deles, o último réveillon deles.

Não alcançando o cancelamento, investe pesado na avareza: "Não tenho dinheiro para comprar presente para todo mundo". E traz à tona implicâncias antigas com o sogro e com a sogra, com os irmãos, com as mulheres dos irmãos, com os sobrinhos emprestados. É uma fofocalhada de que nenhuma terapia de uma hora dará conta.

Pelo simples motivo de não desejar ir, destrói as bases familiares de seu amor, de onde ele saiu, para o bem ou para o mal. Não vê que fragiliza quem gosta, fortalecendo ressentimentos e renovando mágoas. É um antiesportista, disposto a destruir as raízes de alguém especial para não ter mais ninguém pela frente em seu caminho. É como um tubo de mostarda e de ketchup no fim: só espirra, só faz barulho, não tempera mais nenhuma conversa.

No fim, isolado em sua maldade, ele vai contrariado para a reunião e se diverte mais do que a esposa, que não consegue relaxar um minuto após tamanho terrorismo e desconfiança.

CARPINEJAR

sábado, 29 de dezembro de 2018


29 DE DEZEMBRO DE 2018
ANA CARDOSO

Não vou sentir falta de 2018

Tenho uma teoria que depois dos 35 a gente não separa mais os anos em ruins ou bons. Que a impressão geral sobre o que vivemos se aplica a períodos maiores, de cinco ou até mesmo 10 anos. Se, quando adolescente, eu amei 1997 e odiei 1998, hoje penso que o ciclo mais recente da minha vida tem sido bem feliz. Mas é preciso fazer uma ressalva aqui - em 2018 - com o limão que recebi do universo, só consegui fazer uma limonada bem chinfrim, bem amarga. Não foi um ano fácil.

Entre as coisas boas, estão os amigos novos, as idas a Portugal, a energia do deserto do Atacama e a breve e curiosa viagem aos Estados Unidos, na qual pudemos observar como nossos hábitos alimentares são diferentes e desconstruir o fascínio das meninas por cereais matinais, balas e outros produtos tão nocivos quanto atraentes.

Também não pretendo me esquecer jamais dos bons momentos com o marido, as conversas com a mãe, as risadas com a sogra, os lançamentos de livros com amigos, as histórias que me contaram nos eventos de que participei, os livros lidos, filmes assistidos e algumas séries que acompanhei.

Há um espaço "premium" na minha memória para as caminhadas até a escola com as meninas, os dentes que caíram da Aurora, os desenhos lindos da Anita e para uma cena que se repete, em algumas noites, e me enche de alegria: todos deitados, cada um com seu livro na mão, lendo sozinhos.

Algumas coisas simplesmente passaram batido. Não sei se o inverno foi frio ou quente. Ignoro meu peso. Da Copa, já não me lembro mais nem do desempenho do Brasil, nem de quem ganhou o torneio. Se dormi bem ou mal. Se espirrei muito quando a primavera chegou. Ou se alguém aqui em casa teve que tomar antibiótico nesse inverno. Sobre esses assuntos não tenho qualquer registro.

Mas, no geral, eu não quero mesmo lembrar de muita coisa. Da greve dos caminhoneiros, das chuvaradas, das casas destelhadas, dos temporais, das ocupações incendiadas por policiais, do assassinato da Marielle, da não solução do assassinato da Marielle, das notícias falsas, dos vídeos mentirosos e das brigas nas redes sociais.

Se 2019 vai ser um ano bom, eu realmente não sei. Mas é certo que já comprei açúcar e vodka, para fazer, ao menos, uma caipirinha com os limões do futuro. Eles prometem ser azeeedos.

ANA CARDOSO


29 DE DEZEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

A UM PASSO

"Muita vida te aguarda, muita vida te procura." São versos do poeta português Joaquim Pessoa, que fazem parte do poema A um Passo do Amor. Escolhi começar assim a última crônica do ano, pois a ideia de que muita vida nos aguarda faz bem para o espírito. O futuro às vezes é associado ao fim, e não a mais vida.

É bem verdade que este início de ano nos pega com os dentes trincados: o primeiro dia de janeiro inaugurará um novo estilo de governo e seja o que Deus quiser - mesmo, já que Deus estará sendo representado no primeiro escalão. Que não se faça muita bobagem em nome Dele.

Mas não terei o mau gosto de falar de política neste fim de semana. Realidade demais cansa, e estamos exaustos deste 2018 esgotante. Pausa. Trégua. Hora de embarcar na poesia dos fogos de artifício e dos abraços à meia-noite, confiando no conceito de renovação: 2019 há de ser o ano em que viveremos tudo - exceto as mesmas coisas de sempre, combinado?

Que a gente valorize os relacionamentos acima de outros interesses, principalmente dos interesses de Mark Zuckerberg. Que a gente aprenda a ouvir, a escutar profundamente, considerando as necessidades de quem nos cerca. Que a gente sirva a quem tem menos do que nós: nossos sofrimentos diminuem quando damos atenção à dor alheia.

Que tenhamos um ano mais light, sem tanto bate-boca virtual, sem patrulha, sem grosserias generalizadas. Reatemos os laços. Que nossas irritações momentâneas não reduzam nosso plantel de afetos.

Que resgatemos na memória os acontecimentos da nossa infância para compreender melhor o modo como nos comportamos hoje, que deixemos de lado as máscaras que escondem nossos sentimentos e sejamos mais francos, sem receio de expor nossas fragilidades.

Que tratemos bem de nós mesmos, mas sem deixar que a vaidade fique maior do que a lucidez. Que usemos mais cores, que pratiquemos muitos esportes e exercícios, mas sem esquecer de privilegiar o conhecimento e de defender a arte livre quando ela estiver sendo ameaçada.

Que a gente descanse. Durma mais. E ame, ame, ame sem receio de parecer um bobo. Que a gente atraia os outros com uma atmosfera mais pacífica, generosa, risonha. Que sejamos mais inventivos e originais, que sejamos eficientes por meio da criatividade, não por meio da força bruta, da energia mal canalizada. Que não façamos nada da marra, que não violemos nossa essência primária.

Sem querer ser retrô, mas já sendo: voltemos a valorizar o mundo artesanal.

Muita vida te aguarda, muita vida te procura, diz o poema. Confie nisso. Ao findar do último minuto de segunda-feira, diga adeus aos tutoriais (este, inclusive) e siga sua intuição, seu olfato, seu radar, até localizar pessoas de bem e as oportunidades surpreendentes que estão a um passo, esperando pelo seu sim.

MARTHA MEDEIROS


29 DE DEZEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

Sem fogos de artifícios

Você sabe se a visita é de confiança pelo jeito que o seu cachorro reage. Mas também é possível saber como é o dono da casa pelo modo como trata o próprio cachorro.

Cachorro não é um objeto de decoração pela casa, para colocar no colo por alguns minutos e depois abandoná-lo ao choro e à saudade pelo resto do dia. Implica responsabilidade e disponibilidade. É um compromisso de vida e, ao mesmo tempo, exige tempo para passear e circular pela rua e praça.

Não adianta só viajar ou só trabalhar e transferir os encargos para os mais próximos. Não adianta banhar e tosar no pet shop se o carinho é inexistente na maior parte da rotina. É o clássico caso de alienação canina, ainda mais se mora em um apartamento.

Ter um cão é garantir o seu bem-estar. É levá-lo mensalmente ao veterinário, controlar as vacinas, mediar a alimentação de acordo com as necessidades de cada raça e antever adversidades. Por exemplo, no calorão do verão, não pode sair com o bichinho em horários de rush do sol. Se você mal consegue respirar, imagine ele revestido de pelo. Se você, com sapatos, não suporta as calçadas queimando, imagine ele com as patas expostas. É empurrar a sua cria para caminhar em brasas.

Amar um cachorro é se colocar no lugar dele.

Não vai querer mais soltar fogos de artifício na virada. Entenderá o poder empático do silêncio no último dia de dezembro. Não será mais inconsequente e egoísta.

Pois um cachorro escuta quatro vezes melhor do que uma pessoa. Assim escuta a oito metros o que o homem só escuta a dois metros. Ele detecta a origem do som com precisão, em apenas 0,06 segundo.

Você nem abriu a porta, e o cachorro já ouviu você chegando. Você mal acordou, pisou o pé para dentro do chinelo, e o cachorro já corre para a porta do seu quarto. Você vive querendo adivinhar o que ele está descobrindo - porque ele flagra os sons de insetos, da água correndo, do vento mudando a sua direção, dos subterrâneos, das paredes. Escuta o que até aquele instante parece invisível.

De repente a cabeça dele se inclina para um lado como se ele estivesse de pé, em vigília, por um novo movimento. É um profeta do que surgirá. Alcança uma frequência entre 10 a 40.000 Hz, inacessível para a escala humana, presa entre 16 e 20.000 Hz.

O cachorro prostra-se em sentinela e late para algo que não aconteceu. Só não aconteceu para você, para ele aconteceu.

Não são fantasmas, são ruídos vivos se formando em grandes distâncias.

Antes do celular tocar, ele olha para o seu celular. Antes de algum objeto quebrar no chão, ele olha para os seus braços. Antes da campainha vibrar, ele olha para o interfone.

O cão tem uma hipersensibilidade auditiva. Um relâmpago é um terremoto para ele. Uma colisão de carros ao longe é uma choque de trens.

O cachorro escuta, inclusive, a sua lágrima antes de cair, o batimento do seu coração alterado, uma dor antes de ser palavra, e vem lamber o seu rosto e lhe oferecer conforto.

Fogos de artifício torturam os cães, esse seres mais afeitos à paz. É uma dor absurda que paralisa, traumatiza e dissemina medo e ganidos pela madrugada inteira.

Não comece 2019 espalhando sofrimento com a sua alegria.

CARPINEJAR

29 DE DEZEMBRO DE 2018
PIANGERS

Um incompetente em Réveillon

Você não quer passar um Réveillon do meu lado. Posso garantir que meus fins de ano são contagiantes fracassos. É realmente impressionante. Quando criança passávamos em Novo Hamburgo, na casa da vó Elza e do vô Hugo, mais nove primos correndo no pátio e pisando em todos os cocôs dos cachorros. Eram festas tocantemente simples, nenhuma extravagância de nenhuma parte; cansamos de brindar o ano com cidras baratas de maçã.

O calor era sempre infernal, e os fogos de artifício fraquíssimos; as pessoas realmente abastadas para adquirir foguetes tinham ido passar a virada em algum outro lugar, não em Novo Hamburgo. Estavam em Punta, Floripa, Rio de Janeiro. Nós, não. Perto da virada, ficávamos no meio da Rua Oswaldo Aranha, no bairro Pátria Nova, olhando para o céu e tentando enxergar alguma luz colorida. Eram sempre dois ou três fogos, todos muito espaçados, um pu-pum, esperávamos alguns minutos, pof, mais alguns minutos, plá-plá-plá, e íamos dormir com sensação de que aquela era nossa Copacabana.

Lembro de um ano em que meu tio propôs vermos este show de luzes em algum lugar mais alto, rodamos por alguns minutos e acabamos passando a virada no cemitério da cidade. Nas palavras do meu tio: "é o único lugar que não tem nenhum prédio pra atrapalhar!".

Depois de adulto continuei cometendo o mesmo erro de minha mãe. Mesmo morando em Florianópolis, onde pessoas do mundo todo pagam fortunas para virar o ano, eu juntava minhas filhas e esposa e dirigia mais de seis horas no contrafluxo dos gaúchos, para um dos menos excitantes Réveillons do planeta. Passávamos calor, tomávamos cervejas baratíssimas, montávamos uma piscina infantil na grama e entrávamos todos.

Quando meus avós morreram, ficamos sem saber o que fazer. O Réveillon perdeu um pouco de sentido. Pulamos de cidade em cidade, às vezes com minha mãe, às vezes com minha sogra, às vezes sem nenhuma das duas. Da única vez em que experimentamos fazer a virada em uma festa, o empreendimento foi desastroso: faltou comida, ventou demais, as meninas dormiram em um banco, não conseguimos carona pra voltar pra casa.

Desde então, assumimos nossa inaptidão para viradas de ano espetaculares. Nos últimos anos, passamos o dia 31 como se fosse qualquer outro: jantamos juntos, conversamos, lemos deitados na cama e dormimos todos antes da meia-noite. No ano seguinte tudo recomeça. Talvez esta seja nossa nova tradição.

PIANGERS

29 DE DEZEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

PROSOPAGNOSIA

Algumas pessoas não conseguem reconhecer amigos, pais ou filhos, mas memorizam seus nomes
É muito chato: você olha a cara da pessoa, sabe quem é, mas não lembra o nome de jeito nenhum. O constrangimento se deve ao fato de que a área cerebral envolvida no reconhecimento de faces é separada daquela responsável pelo arquivamento de nomes próprios.

Somos bons reconhecedores de fisionomias porque essa habilidade foi essencial à sobrevivência. Das cavernas aos dias nas ruas de São Paulo, perceber se quem vem em nossa direção é amigo ou inimigo valeu muito mais do que saber seu nome. Essa necessidade foi tão premente que, na seleção natural de nossos ancestrais, levaram vantagem aqueles com uma área do cérebro especializada no reconhecimento de faces: o giro fusiforme.

No início dos anos 2000, o grupo de Kalanit Gril-Spector, da Universidade Stanford, observou que diversas partes do córtex visual (região responsável pelo controle da visão) das crianças se modificavam com a idade. Entre elas, estava o giro fusiforme.

O desenvolvimento recente dos aparelhos de obtenção de imagens por ressonância magnética quantitativa (qMRI) tornou possível estimar o volume que as células ocupam em determinado tecido. Por meio dessa tecnologia, o grupo de Stanford avaliou os volumes do giro fusiforme e de uma área situada a 2cm de distância: o sulco colateral, envolvido na identificação de lugares e localizações.

Foram incluídos no estudo 22 crianças de cinco a 12 anos e 25 adultos com 22 a 28 anos. O experimento consistiu em colocar os participantes para observar separadamente imagens de faces e de lugares, enquanto a ressonância calculava o volume de neurônios existentes em ambos os sulcos.

Não houve diferenças no volume de tecido existente no sulco colateral de crianças ou adultos, enquanto se detinham nas imagens de lugares. Ao contrário, ao olhar para as faces, a ressonância mostrou que os adultos tinham sulcos fusiformes com volume 12% maior do que as crianças, em média.

Para confirmar se o aumento de volume do sulco fusiforme nos adultos estaria associado à maior facilidade para identificar fisionomias, os participantes foram postos diante da tela de um computador que exibia fotografias de rostos em três ângulos diferentes. Em seguida, precisavam reconhecê-los num painel que mostrava rostos parecidos. Aqueles com sulcos fusiformes mais volumosos eram mais eficientes no reconhecimento, de fato.

Como o número de neurônios pouco varia do nascimento à morte, a explicação para esse aumento de volume do sulco fusiforme estaria relacionada com o aumento do número das conexões através da quais os neurônios enviam sinais uns para os outros (sinapses). Na analogia dos autores: o número de árvores na floresta permaneceria o mesmo, mas os galhos se tornariam mais densos e complexos.

Recém-publicados na revista Science, esses achados surpreendem porque demonstram que essa região do cérebro continua a se desenvolver da infância à vida adulta, enquanto a apenas 2cm de distância a área encarregada de identificar lugares permanece inalterada.

O reconhecimento imediato de rostos e expressões faciais permitiu que nossos ancestrais decidissem num relance se deviam correr, lutar ou aproximar-se, discernimento crucial à vida em comunidades sociais com maior número de indivíduos. Na infância, temos poucas fisionomias a conhecer, as pessoas que nos cercam são nossos pais, parentes e vizinhos. À medida que nos tornamos adultos, no entanto, o contato com gente estranha cresce exponencialmente, e exige circuitos mais complexos de neurônios.

Comparado a outros tipos de informação visual, o reconhecimento de faces requer processamento mais elaborado, uma vez que elas, muitas vezes, diferem umas das outras em apenas alguns traços.

Decifrar os segredos das conexões no sulco fusiforme permitirá entender os casos de prosopagnosia congênita ou causada por pequenos derrames cerebrais que lesam os neurônios do sulco fusiformes. Essas pessoas são incapazes de reconhecer parcial ou totalmente o rosto dos amigos, dos pais ou dos próprios filhos, mas mantêm preservada a capacidade de memorizar seus nomes e demais características individuais. Cerca de 2% da população sofrem desse transtorno em algum grau.

DRAUZIO VARELLA

29 DE DEZEMBRO DE 2018
J.J.CAMARGO

O NOVO SEMPRE VEM

Passada aquela fase da vida em que não temos ideia do que queremos ser e, com romantismo exagerado, anunciamos o sonho de sermos bombeiros, astronautas ou jogadores de futebol, começa a temporada da incerteza, com períodos sombrios, em que sentimos vontade de confessar a angústia de admitir que não gostamos de coisa nenhuma, pelo menos não dessas que estão por aí.

Os pais de um ou de muitos filhos sabem da aflição do tempo passar, encerrando a inconsequência abençoada da infância, e entrando na interminável adolescência, com nenhuma vocação no horizonte, ainda que o rebento esteja sempre olhando pra lá.

É tão crítica esta ansiedade que, passado um tempo, os pais já admitem que os projetos sonhados para sua prole eram mesmo utópicos, e de bom grado aceitariam alternativas funcionais, quaisquer delas, desde que despertassem paixão nos olhos das suas crias.

A nossa maturidade se anuncia com a percepção de que pessoas diferentes não conseguem se alimentar de sonhos idênticos, e, finalmente, o entendimento de que projetos capazes de acelerar os corações de uns provocam bocejos em outros. E, então, só falta admitirmos que estamos sendo irracionais quando interferimos nas escolhas dos nossos filhos e que temos de parar de pensar por eles com nossas cabeças antiquadas e dar espaço ao novo, porque, como cantou Belchior, "o novo sempre vem", e quase sempre vence.

Não bastasse a agonia de reconhecer que paternidade rima com, mas não é sinônimo de, propriedade, outras surpresas nos aguardam: uma pena que lá atrás ninguém nos tenha avisado que essa aflição nunca termina e que, definida a profissão, a expectativa recomeça com novos alvos e diferentes trilhas de conquistas, sucesso e frustração. Só então começamos a entender que ser pai é simples. É só estar disponível o tempo todo e sempre.

Mais adiante, com os filhos já encaminhados, é razoável festejar a pausa da acomodação, da qual estão naturalmente excluídos os pais indecisos, esses que tiveram filhos distanciados no tempo, fazendo a preocupação com o destino dos herdeiros retardatários se sobrepor à educação dos netos, que ninguém imaginava, chegam com a insuspeitada função de manter os avós vigilantes com as ameaças novas que, para desespero de todos os responsáveis, não causam nenhum temor nos ameaçados.

Na serenidade da velhice, percebemos que tudo o que vivemos só tinha a missão de completar o ciclo, para no fim nos parecermos tanto com os nossos pais.

J.J.CAMARGO


29 DE DEZEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

Nós somos superiores

Um professor de Harvard recomendou que os restaurantes servissem porções de batatas fritas com apenas seis batatinhas. Os Estados Unidos reagiram como se ele fosse o Bin Laden ressuscitado. Foi uma insurgência nacional. As redes sociais vilipendiaram o assustado professor, que ganiu:

- Eu não sou nenhum monstro!

Para os americanos, é. Batata frita, nos Estados Unidos, chama-se "french fries". Ou seja: "fritas francesas". Mas deveria ser "american fries", porque nunca vi gostar tanto de batata frita. Tudo o que você pede em um bar ou restaurante, aqui, vem com batata frita.

Sempre achei estranha a combinação inglesa clássica, o "fish and chips", que, em sua apresentação ortodoxa, vinha em um cone feito com uma folha de jornal. "Ai, que nojo", você, que é tão sensível, diria. Acontece que o papel-jornal tem maior poder de absorção da gordura, e o peixe e as batatas desse tradicional prato britânico são mergulhados em muito azeite. Além disso, os ingleses são os maiores admiradores da imprensa livre, entre os povos europeus. Então, você matava a fome e se informava. Todos esses méritos, porém, não tornam harmônico o casamento entre o peixe e a batata frita. Peixe, se tiver de vir acompanhado de batata, terá de ser a sauté, levemente besuntada de manteiga e polvilhada com salsinha fresca.

Os americanos herdaram esse gosto enviesado de seus antepassados ingleses. Servem peixe com batatas fritas, como se faz na velha Álbion, servem filé com batatas fritas, como se faz do outro lado do Canal da Mancha, nas irmãs França e Bélgica, servem até sopa com batatas fritas.

O costume de comer hambúrguer com fritas, hoje disseminado no Brasil, é totalmente americano. O nosso velho xis nunca apareceu com essa companhia nas boas mesas.

Então, os americanos passam o dia comendo batata frita. A batata frita é o verdadeiro prato nacional dos Estados Unidos. Logo, eles jamais aceitariam essa recomendação do professor de Harvard. Vão continuar comendo batatas fritas obstinadamente.

A rigor, os Estados Unidos não têm uma comida típica. Há alguns pratos regionais, é verdade. Aqui, na Nova Inglaterra, eles fazem a "clam chowder". A tradução seria "sopa de mexilhões". É um creme branco que, às vezes, eles servem dentro de um pão de alentado tamanho. É bom. Mas não se pode dizer que seja o centro de uma refeição. É mais um consomê.

Você sabe o que isso significa? Uma superioridade nossa, brasileiros, em relação eles. Os americanos gostam de comida, sobretudo de comida em abundância, muita quantidade, muitas calorias, muita batata frita. Mas eles não sabem comer. Nós, sim. Nossos hábitos alimentares ancestrais são perfeitos. De manhã, café com leite, pão com manteiga, no máximo uma lâmina de queijo e outra de presunto sobre a fatia de pão. Ou, quem sabe, rodelas finas de salamito. Se você tiver tempo, um ovo duro. Ao meio-dia, você fará o que um americano nunca faz: você vai parar tudo a fim de desfrutar o almoço. Ah, é por isso que as empresas têm de permitir duas horas de pausa, a partir do meio-dia: para que o brasileiro se acomode à mesa e veja aterrissar a sua frente aquele prato fragrante e colorido com o negro do feijão e o branco do arroz, o bife dourado, o amarelo da gema do ovo que já se derrama e, tudo bem, batatas fritas. Ao lado, numa delicada tigela, repousa a salada de alface, tomates e cebola fatiada e escaldada, que a cebola deve ser escaldada na água fervente e depois resfriada na água gelada e em seguida escaldada de novo e resfriada mais uma vez, para que perca a acidez e se torne quase doce, como beijo de irmã.

Essa pausa para o almoço não serve apenas para a alimentação; serve para a meditação. É o momento em que o brasileiro se recolhe para estar consigo mesmo ou para com os seus. Um almoço de duas horas de duração é uma das vitórias da civilização. E mais civilizado será o homem se, às 17h, ele fizer outra interrupção nas atividades do dia para tomar um café da tarde. Aí, sim, estaremos diante de alguém que sabe viver. Ele sai do escritório ombreado por dois amigos, senta-se ao balcão da lancheria mais próxima e pede uma batida de banana com pão feito em casa, untado por uma generosa dose de manteiga.

Depois disso, já em casa, em meio ao Jornal Nacional, ele senta-se novamente à mesa, sorri para os filhos e janta talvez uma massa à bolonhesa, talvez um singelo arroz com camarão, ou até uma sopinha frugal. Seja. Mas haverá um cálice de tinto para acompanhar e a conversa amena e sorrisos suaves, que só fazem bem à digestão e à arte de viver.

Nós éramos assim. Tínhamos de ser sempre assim. Tínhamos de exercer nossa superioridade sobre esse mundo veloz, superficial, rasteiro e rude, que acredita que hambúrguer com fritas seja comida.

DAVID COIMBRA


29 DE DEZEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

Utopia mínima

Sempre tive um pé atrás com utopias. Elas trazem em si uma ideia bacana de reformar a humanidade, mas que sempre dá no seu oposto: o sonho vira pesadelo. Eu acredito que o homem é aprimorável, que outros mundos são possíveis, mas não dessa forma. Correr atrás de miragens não traz nada de bom.

Como estamos na época das utopias mínimas - as promessas de fim de ano -, vamos a uma reflexão sobre elas. 2019 está à porta, ganharemos um ano novinho em folha e não queremos estragá-lo de entrada. Então, o que fazer com as inevitáveis promessas que fazemos?

Minha sugestão: sigam sonhando. Mas tendo em mente que existe um imposto sobre o sonho: cada promessa se transforma em cobrança. Mesmos as internas, aquelas juras que fazemos apenas a nós próprios sem comunicar a ninguém. Uma vez não alcançadas, resultam em uma sensação amarga. Caímos de nível aos nossos próprios olhos, gerando um desgaste na autoimagem. Algumas depressões são sonhos abortados, fracassos oriundos de metas exageradas.

Nós, humanos, somos esquisitos. Não basta sofrermos pelo que vivemos, sofremos pelo que não vivemos. Projetos que não aconteceram, se foram muito desejados e possíveis, nos assombram e os carregamos como um fardo de dúvida. Promessas funcionam nessa gramática do não vivido.

E, vocês sabem, a festa à que não fomos sempre é a que teria sido realmente boa. Com os desejos, isso se repete. Entramos no reino do "tivesse". Tivesse trocado de curso, tudo estaria diferente. Tivesse mudado de cidade, estaria melhor. Tivesse insistido mais na relação, ainda estaríamos juntos. Talvez sim, talvez não, mas a incerteza sobre a escolha nos consome.

O problema, portanto, não são as promessas, e sim pedir demasiado: "Neste ano, vou emagrecer 20 quilos". Não daria para prometer: neste ano vou mudar a minha alimentação e parar de engordar? É factível e, se você tem sobrepeso importante, será uma grande vitória e você estará pronto para outro passo. Até porque a maioria desses regimes rápidos nos devolve ao peso original em pouco tempo.

Se você é desses que dizem "comigo só funciona na radicalidade, ou tudo ou nada", sem problema, mas lembre-se de que a repercussão negativa também será "ambiciosa". Você pode ganhar uma ressaca na autoestima tão radical quanto a meta.

A questão é sonhar sem construir futuras derrotas. Quem consegue vibrar com as pequenas conquistas é que chega longe.

Lembre-se: nunca é tarde para quem tem perseverança. O esforço se mostra mais forte do que os arroubos de soluções rápidas. No fundo, voltamos à fábula da lebre e da tartaruga.

Aproveite o fim de ano para sonhar com o que você realmente pode fazer no ano que vem. Meus votos são de que tenha a tenacidade de perseguir suas metas, não importa quanto tempo leve para chegar lá. O segredo não é apostar alto, é não desistir.

MÁRIO CORSO


29 DE DEZEMBRO DE 2018
DUAS VISÕES

O BRASIL QUE EU SONHO

O início de um novo ano é motivo de alegria e expectativas. Novo significa inusitado, desconhecido, não ainda experimentado, algo a respeito do qual não se pode oferecer resposta segundo esquemas predeterminados.

A partir da compreensão da fé, na confiança de que Deus nos sustenta, acompanha e inspira, nos abrimos a um novo tempo que irrompe diante de nós, desejando que encontremos paz e prosperidade. Deus nos encoraja a sonhar.

Inauguramos o ano de 2019 desejando felicidades porque trazemos em nós, como promessa, a esperança do novo. Eu sonho que o Brasil supere os altos índices de miséria, ofereça à população condições dignas de vida, promova a justa distribuição da renda, conceda aos jovens formação e estudo de qualidade, ofereça a todos oportunidades de trabalho, cuide dos idosos, construa um projeto de nação que corresponda aos anseios, sobretudo, dos mais pobres e preserve os autênticos valores democráticos.

Eu sonho pela construção de uma agenda de futuro marcada pela inovação, capaz de promover e efetivar a superação de estruturas ultrapassadas, viciadas, ineficientes e corruptas. Isso exige ética, ousadia e determinação.

Eu sonho com o cultivo de atitudes novas e nobres, evitando toda forma de exploração e domínio. O ano vindouro será verdadeiramente novo se formos capazes de descobrir meios para promover e cuidar da vida nas suas diversas formas de manifestação, com- preender que um índice maior de civilidade depende do grau de engajamento e disposição comum gratuita para favorecer o bem comum, perceber que precisamos de mais poesia nas relações interpessoais e com o meio ambiente, resgatar aquela força originária (dynamis) que permite a poetas, artistas, pensadores e místicos contemplar tudo a partir do êxtase.

Eu sonho com uma sociedade que cresça em civilidade, adorando mais profundamente, venerando com maior intensidade, respeitando as diferenças, sendo mais sensível, grata e devota. Somos assim provocados a, durante o próximo ano, cultivar com mais determinação nossa condição humana, marcada por fragilidade, sensibilidade, ousadia e devoção, e a promover a construção de pontes capazes de aproximar culturas e povos. Se no horizonte do cenário mundial despontam sinais de preocupação à causa da prepotência de alguns poucos, na aurora do novo ano desponta para os filhos desta "pátria amada" um lume de esperança. Esperança de justiça social, paz e fraternidade.

Os cristãos, filhos e filhas desta "terra adorada", especialmente os jovens, têm a missão de colaborar na construção de dias melhores para as futuras gerações comprometendo-se com a ética, promovendo o cuidado pela casa comum e responsabilizando-se pela coisa pública.

O resgate da esperança é fundamental para que o Brasil possa avançar. Por isso, eu sonho. Sonho com um tempo novo em que a esperança não nos seja roubada.

DOM JAIME SPENGLER Arcebispo metropolitano de Porto Alegre



29 DE DEZEMBRO DE 2018
SCOLA ENTREVISTA

"Sou contra o valor abusivo do pedágio no Estado"

JUVIR COSTELLA, Futuro secretário dos Transportes do RS

Sem experiência na área, mas com disposição para buscar respostas rápidas para melhorar os serviços, Juvir Costella assume, nos próximos dias, o cargo de secretário dos Transportes do Rio Grande do Sul. Ainda no primeiro ano, o governo eleito precisará destravar o programa de concessões que começou a ser feito pela atual gestão mas andou devagar, concluir obras que já começaram, como a duplicação da RS-118, entre Gravataí e Sapucaia do Sul, e rediscutir o papel da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). Costella é deputado eleito pelo MDB, mesmo partido de José Ivo Sartori. Ainda assim, se diz insatisfeito com a qualidade das estradas.

Como melhorar as estradas estaduais?

Temos de enfrentar essa questão indo em busca de recursos. O futuro governo terá como prioridade a recuperação das estradas. Tem uma questão de segurança e logística importante aí. Se tivermos rodovias em estado de bom para ótimo, isso trará investimentos de empresas para o Rio Grande do Sul.

O senhor está satisfeito com as estradas?

Não, de forma alguma. A recuperação vem acontecendo, principalmente nos últimos dois anos. Em algumas regiões, avançamos bastante. Mas temos ainda muito, muito mesmo, para evoluir. Foram mais de 3 mil quilômetros de estradas recuperadas. Mas trata-se apenas de uma etapa. E tem outra coisa preocupante: acessos municipais. Estamos no século 21 e quase 50 municípios não têm acesso de asfalto. Isso chega a ser desumano.

A RS-118 sempre teve atraso na entrega. Agora, a mais recente promessa é de conclusão no primeiro semestre de 2019. Vai se confirmar?

Não trabalho com chance de atraso. Prefiro falar sobre expectativa de conclusão. Vou ser incansável para garantir a conclusão no primeiro semestre. Sempre pode atrasar 30, 60 dias.

É apenas questão de dinheiro? Ou existe algum outro possível entrave?

Os projetos mais importantes para essa estrada estão concluídos. A área que precisa ser desocupada, dos quilômetros 0 ao 5, em Sapucaia do Sul, já foi feita. As obras mais pesadas, como viadutos e elevadas, estão prontas. O acesso de Esteio está 60% concluído. O único ponto que tem um pouco mais de dificuldade é a inclusão da BR-448 (Rodovia do Parque) com a RS-118. Esse viaduto independe da conclusão da estrada, que é uma obra para todo o Estado e não apenas para a Região Metropolitana.

O Rio Grande do Sul tem locais conhecidos como Estrada da Morte e Curva da Morte. O que o senhor vai fazer para acabar com esse estigma?

O grande desafio é fazer com que as estradas tenham melhores condições. Precisamos também criar um trabalho de conscientização das pessoas com relação ao respeito dos limites de velocidade e identificar e atuar em pontos com grandes índices de mortes.

O que vai acontecer com a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR)?

Há duas discussões: rediscutir o papel do Daer. Existem excelentes técnicos no departamento queestão sendo mal aproveitados. E a EGR tem papel fundamental para o Estado. Está em 16 rodovias com praças de pedágios. O governador eleito tem dito que, se tiver de vender, vamos fazê-lo. Digo a mesma coisa. Não vejo dificuldade nenhuma em vender a EGR, mas quem vai fazer o papel da empresa depois disso?

Mas, por enquanto, muda alguma coisa?

Por enquanto, ela vem desenvolvendo o seu bom papel. Não sou contra pedágio. Sou contra o valor abusivo do pedágio. Por que do Mampituba para cima podemos ter pedágio de R$ 2,50 e aqui custa R$ 7, R$ 8? Esse é um outro debate que quero fazer.

A tarifa aqui é elevada?

Tarifa de R$ 7 para as estradas do Estado é alta demais. O que leva uma praça de pedágio a cobrar esse valor? Existe a expectativa de se criarem novas praças por meio de parcerias e concessões. E precisamos debater também se é papel do Estado manter uma empresa pública para administrar pedágios.

Qual é sua opinião sobre isso?

Não é papel do Estado manter empresa que cuida de pedágios e de estradas. Acho que isso pode ser feito por meio de concessões e parcerias.

O caminho da EGR, então, é a privatização?

Exatamente. O Estado deve buscar algo por aí, privatização ou forma de concessão. A EGR tem hoje cerca de 1,5 mil servidores envolvidos em todas as praças. São muitas famílias envolvidas, por isso, é necessário planejamento. Mas insisto: não é papel do Estado ter empresa para cuidar de pedágios. Para estradas, já temos o Daer.

Quais são as concessões que vão acontecer ainda no primeiro ano do governo?

Uma empresa de consultoria vai entregar a modelagem das concessões no primeiro trimestre. Em cima disso, vamos começar a trabalhar. Ela cria parâmetros de exploração das estradas a partir de dados técnicos. Sou muito ativo. Sou um cara de respostas. E rápidas.

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Balanço do governo Sartori aponta a recuperação de 3 mil quilômetros de estradas, de um total de 10 mil quilômetros, por meio de financiamentos de BNDES e Banco Mundial.

Durante a campanha eleitoral, o governador eleito Eduardo Leite (PSDB) prometeu "extinguir" a EGR, o que foi reafirmado em entrevista à Rádio Gaúcha na sexta-feira.

As tarifas em locais administrados pela EGR variam em cada praça. Para carros de passeio, vão de R$ 3,25 (caso da RS-239, em Campo Bom), a R$ 7,90 (caso da RS-115, em Gramado).

Até dezembro deste ano, a EGR arrecadou R$ 260 milhões em pedágios. O custo da empresa nesse período foi de R$ 263 milhões. O balanço considera a operação das 14 praças espalhadas pelo Estado.
DANIEL SCOLA

29 DE DEZEMBRO DE 2018
VIOLÊNCIA URBANA

Família e motorista são feitos reféns em assalto

Um casal de Minas Gerais e a filha, de 11 anos, foram feitos reféns por mais de cinco horas, após pedir uma corrida por aplicativo em Canoas. Eles foram sequestrados por dois homens que já mantinham em cárcere o motorista. O caso começou por volta das 4h de sexta-feira, na Capital.

Após entrar no carro, o condutor foi obrigado pela dupla a ligar o aplicativo e aceitar uma corrida. Um deles, que estava armado, assumiu a direção do veículo, uma SUV Tiguan. Cerca de meia hora depois, os três chegaram a Canoas, quando a família mineira ingressou no carro. Eles pegariam um voo para Belo Horizonte, segundo o agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Fernando Martelli.

O motorista do aplicativo sentou-se no banco do carona, enquanto a família era mantida no banco traseiro, ao lado de um dos ladrões. Por volta das 7h30min, o condutor do app conseguiu pular do carro, na altura de Glorinha, no km 59 da freeway (BR-290). O homem rolou sobre o canteiro central da rodovia e atravessou para a pista contrária. Martelli conta que ele pegou carona e foi deixado no posto da PRF:

- Ele chegou muito assustado, chorando, com a perna ralada de quando caiu no chão.

O homem disse à polícia que, durante as horas em que ficou com os criminosos, foi obrigado a parar em caixas eletrônicos na tentativa de fazer saques. Ainda segundo o relato dele, um dos assaltantes fumava crack e ameaçava os reféns exigindo dinheiro.

A família seguiu com os sequestradores até as 10h, quando foi libertada, em Osório. Eles pegaram carona e foram deixados no posto do Comando Rodoviário da Brigada Militar, na RS-030. Os mineiros perderam roupas, mochilas, carteiras e os celulares, segundo a polícia. A delegada Laura Rodrigues Lopes, da DPTur, informou que eles não sofreram ferimentos e irá analisar câmeras próximas ao local onde o veículo foi abandonado, no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre.

TIAGO BOFF

29 DE DEZEMBRO DE 2018
INDICADORES - Economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS

Que 2019 não seja um ano velho


Tenho lido analistas de mercado sugerirem que o governo Temer acaba relativamente bem, tendo feito algum dever de casa, com reformas importantes. De acordo com estas análises, a PEC do Teto dos Gastos, a reforma trabalhista e a política de juros foram importantes ações para promover a retomada da economia. Bem, não me parece ter funcionado tão bem até aqui. Esperava-se que encerraríamos 2018 em situação bastante melhor - o que incluiria uma condição fiscal um pouco mais confortável, maior crescimento econômico, menor desemprego e inflação controlada.

A inflação, de fato, está sob controle, por mérito da acertada política monetária conduzida pelo Banco Central e também da crise. Mas, é só. A situação fiscal complexa, herdada do governo Dilma, ignorou a "pedagogia" do teto de gastos - inclusive com ações bastante emblemáticas como o aumento do salário dos ministros, sancionado pelo presidente Michel Temer sem constrangimento. Alguns dizem que o teto moraliza o gasto, pois seria possível aumentar o investimento em saúde, por exemplo, desde que se mova recursos de outras áreas em benefício desta. Será ingenuidade?

Já a reforma trabalhista foi aprovada com a promessa de melhorar o ambiente de contratação de funcionários, o que aumentaria o emprego. Não aumentou e encerramos o ano com mais de 12 milhões de desempregados. Nenhuma regulação trabalhista é capaz de gerar emprego, mas pode ser um estímulo positivo adicional, reduzindo insegurança jurídica. Nisso, acredito que a reforma tenha atuado. Mas, não sem transferir boa parte do custo para o trabalhador. É ele que, agora, ganhando salário por hora intermitente, poderá ter de pagar perícia técnica no caso de uma insalubridade duvidosa, por exemplo.

Para 2019, então, eu desejo que o desenvolvimentismo ultrapassado que se desenha não prospere. As políticas já em curso precisarão ser complementadas por outras, de modo a organizar de verdade a estrutura econômica do país, levando em conta também os custos envolvidos e a sua distribuição.

Crescimento econômico e emprego são os fundamentos de uma economia dinâmica. Mas, eles precisam significar a melhoria de vida de todas as pessoas. Neste sentido, o aprofundamento das desigualdades não pode ser desconsiderado, como foi no passado. Enfim, entre otimismo e pessimismo para 2019, fico com o realismo: temos muito trabalho pela frente.

Ely José de Mattos escreve aos fins de semana, a cada 15 dias - ELY JOSÉ DE MATTOS

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018



Jaime Cimenti
O ano de 2018 


Quem pensou que 2017 foi um ano muito louco e imprevisível deve estar pensando agora que 2018 foi bem mais bizarro e que 2019 promete superar os dois. Nos tempos em que o Frank Sinatra cantava o lendário chubidubidu, o céu era o limite.

Hoje, os limites vão além do céu, vão para lá do infinito que ninguém sabe onde termina. Os limites morreram. Falando em falta de limites, há quem diga que o Papai Noel vai ser preso brevemente em decorrência de acusações de exploração de trabalho infantil, trabalho escravo e assédio moral em relação aos anões operários da fábrica de brinquedos.

Os anões da fábrica do Bom Velhinho seriam menores, e, assim, seriam vítimas das irregularidades, trabalhando de graça. O Ministério Público Universal está de olho em tudo e haveria acusações, também, de maus tratos às pobres renas que todo ano, no clima gelado, puxam o trenó com o velhinho gorducho e as toneladas de presentes.

Há relatos de protetores de animais dando conta de que as renas estariam mostrando sinais de estresse e sofrimento. Certos setores da polícia internacional e dos ministérios da Fazenda de alguns países estariam questionando sobre a falta de pagamento de impostos de exportação/importação e ocorrência de crime de contrabando, pois há circulação de mercadorias. Em caso de contrabando poderá ocorrer a apreensão do veículo utilizado, ou seja, o poderoso trenó. Bom, isso tudo deve ser fake, mas nesse planeta tudo é possível e inimaginável.

O ano de 2018 teve ex-presidente preso, tiros no ônibus da caravana do Lula, facada na barriga do Bolsonaro, redes sociais calando a boca de profetas furados como escumadeiras e mostrando que a TV, o rádio e a dinossáurica mídia impressa não são essa Coca-Cola toda. Ninguém sacou o tamanho e o alcance dos protestos de 2013 e as redes sociais revelaram uma fome de mudanças nunca vista. As eleições deste ano estão sendo consideradas como as mais surpreendentes da história, mas as futuras eleições prometem ainda mais. Quem viver, conseguindo não levar um balaço político letal, uma facada eleitoral mortífera ou tiro de assaltante, verá.

O ano de 2018 teve o cinematográfico casamento real na Inglaterra, entre o rebelde caçula Harry, agora senhor comportado, com a plebeia Megan, que deve obedecer doravante o protocolo da realeza e ficar sempre um pouco atrás da cunhada Kate. Também tivemos um afinadíssimo grupo de afrodescendentes cantando, no casório real, a imortal Stand by me em plena Abadia de Westminster. Apresentação até comedida, sem vozes muito altas ou danças, mas tocante e reveladora de novos comportamentos em novos mundos. John Lennon não faria melhor.

Definitivamente, 2018 foi o ano das redes sociais, o ano em que vivemos perigosamente, bem perigosamente, em meio aos tapas e beijos virtuais, brigas de amigos, parentes e inimigos. Pretextos políticos foram utilizados para sair xingando, na pressa típica da web, todo mundo. Nunca houve divisão igual e tão descentrada. Foi um fio desencapado esse 2018.



A propósito... 


Teve de tudo um pouco o ano que termina: muita tensão, altos e baixos, e vai deixar suas marcas indeléveis, tipo 1968, o ano aquele que não acabou e, que, aliás, na França, teve uma espécie de refilmagem. O ano foi uma terapia coletiva ruidosa, sem terapeuta para coordenar. Um gritedo geral, esqueletos tirados dos armários e expostos em praça pública.

Depois do destampatório, que venham novos tempos, novos anos, com a calma, a serenidade e a democracia esperadas. Ninguém aguentaria tão cedo um novo 2018. Ou será que 2019 será ainda mais chocante? Não vou profetizar sobre o futuro. Melhor profetizar o passado e o presente. Melhor não pensar muito e deixar que as luzes do sol e da lua iluminem o pedaço e os pedaços, os todos e os cacos.  -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/12/662481-o-gaucho-e-as-mudancas.html)


O gaúcho e as mudanças 


Nestes últimos anos de grandes mudanças e questionamentos nacionais e mundiais, o Rio Grande do Sul e os rio-grandenses, ou gaúchos, como preferir, fique à vontade, é claro que está no DNA do Sul discutir e tomar partido, vigorosamente, sobre várias (ou todas) questões. Somos politizados, divididos, aguerridos e gostamos de opinar.

E agora, gauchada? A crise do Rio Grande e os caminhos da mudança (Brand&Book, 272 páginas), organizado e apresentado pelo economista Luiz Tadeu Viapiana, sócio da Centro Comunicação e Marketing, vem em boa hora para subsidiar a todos nós. Um time de gaúchos do porte de Patrícia Salerno, Paulo Nascimento, Cézar Busatto, Darcy Francisco Carvalho dos Santos, Ronald Krummenauer e outros, em 14 artigos, tratam de temas candentes e essenciais para todos nós, que temos um novo governo.

A ideia central do volume é refletir e agir para retomar o crescimento econômico e oferecer mais qualidade de vida para nós. Nosso Estado já foi referência em serviços públicos e, hoje, patina. A máquina estatal é cara, pesada e, muitas vezes, ineficiente. Temos menos saúde, segurança, educação e infraestrutura, e é triste lembrar de nossa dívida pública, que aumentou 27 vezes nos últimos 27 anos.

Os autores dos textos do livro abordam com conhecimento de causa temas como a modernização da máquina pública, os gargalos enfrentados pelos setores produtivos, a reforma da Previdência estadual e a corrida pela inovação da gestão pública. Eles apontam caminhos para o cotidiano dos cidadãos, para a melhora da segurança e da saúde e, claro, caminhos para a salvação de nossas combalidas finanças públicas.

Os textos têm saudáveis diferenças de pontos de vista e linguagens autorais diversas, mas o caráter propositivo perpassa todo o volume e é isso o que interessa. Interessa com urgência estabelecer prioridades e traçar estratégias para ações concretas. Portanto, deve ser elogiada a oportuna iniciativa de Luiz Tadeu Viapiana e a útil obra, que, diga-se, é dedicada ao economista Cézar Busatto, falecido dia 23 de agosto deste ano.

No volume está um dos últimos textos de Busatto. Vamos lá, gauchada, que não está morto quem peleia, mesmo que seja o lambari na boca da baleia. 

Lançamentos 

Mídias e discursos do poder: estratégias de legitimação do encarceramento da juventude no Brasil (Editora Revan, 504 páginas), da professora Marília de Nardin Budó, graduada em Direito e Jornalismo e autora de Mídia e controle social, publicado pela Revan, fala das práticas punitivas, dos discursos que as mobilizam, de encarceramento e morte de adolescentes, principalmente negros.

"Como os discursos político e midiático interagem?", questiona Marília. O segredo da Constituição (IntusForma Tecnologia Vivencial, 40 páginas), de Ana Pregardier, pesquisadora, especialista em psicologia e gerenciamento de projetos, autora de 28 obras e do advogado Rogério Machado, especializado em direito preventivo, consensual e reparativo de danos, apresenta nossa Constituição Cidadã de 1988 de modo criativo, em forma de ficção infantil, com belíssimas ilustrações em cores.

Italianos e austro-húngaros no Brasil - Nacionalismos e identidades (Educs, 192 páginas), do professor João Fábio Bertonha, autor de dezenas de livros sofre fascismo, antifascismo, história da Itália e imigrações, traz textos sobre italianos no Brasil, integração, vida social, nacionalismos, transnacionalismo e identidades, e sobre italianos e austríacos de língua italiana no Brasil, com identidades em conflito. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/12/662481-o-gaucho-e-as-mudancas.html)