sábado, 15 de novembro de 2014


16 de novembro de 2014 | N° 17985
PAULO SANT’ANA

Ilusões sepultadas

Cumpro o doloroso dever de noticiar que foram sepultadas ontem, num cemitério arrabaldino, todas as minhas ilusões.

Foram enterradas com pompa e circunstância.

Portanto, não me iludo com mais nada.

“Para iludir minha desgraça, estudo. / Intimamente sei que não me iludo. / Para onde vou (o mundo inteiro o nota) / Nos meus olhares fúnebres, carrego / A indiferença estúpida de um cego / E o ar indolente de um chinês idiota!”

Não tenho, portanto, desde ontem, sequer mais uma ilusão. Só me restam como prazeres da vida os pequenos de dormir e fazer por vezes lautas refeições.

Amar? Nem de longe. Não cabe mais neste coração, que já foi peregrino, nem uma paixão, quanto mais um grande amor.

O meu terreno das grandes emoções foi salgado, e nele não viceja mais nada.

Em suma, não chega a ser viver este meu novo expediente. É vegetar.

Tenho inveja dos álacres que amam, dos que se levantam e desde a manhã se preparam para o encontro com a mulher amada.

Tenho profunda inveja dos que são capazes de comprar um ramo de flores e escrever um soneto ou um acróstico.

Nada que se pareça com amor cabe mais nas minhas divagações. Tudo que se refira às alturas magníficas a que se pode lançar um coração apaixonado é coisa que não me pertence.

Ah, como eram alegres aqueles tempos em que eu passeava com ela pelo parque, de mãos dadas, duvidando de que na vida existissem tantos desgraçados. Pois existem, e um deles é este que vos escreve.

Falam de amor, eu ouço tudo e calo, não me é dado mais esse direito, meu coração calcinado não abriga mais tamanha ilusão.

Chego às vezes a pensar, com despeito, que o amor na humanidade é uma mentira.

Não é, mas deixem que eu me engane.

Estão lá no fundo de uma cova de um cemitério distante as minhas últimas ilusões.

Foram grandiosas, comoventes, altissonantes. E hoje não são mais nada.

Será que é lícito que continue vivendo sem palpitar um coração desanimado?

É permitido a um ser humano viver sem um grande amor.


Que desperdício!