sábado, 25 de abril de 2015


25 de abril de 2015 | N° 18143
DAVID COIMBRA

O cachorro Vírgula – final

Eva encheu o bolo de carne moída de veneno. Em seguida, parou, pensou por alguns segundos e examinou o bolo mais uma vez. Era tão grande que tinha de pegar com as duas mãos. Abriu-o de novo. Colocou mais veneno. E mais um pouco ainda, antes de fechá-lo em definitivo. Sorriu. Aquilo mataria um cavalo de circo. O vira-lata não tinha chance nenhuma. Não, ela não ia perder para o cachorro! Saiu para o pátio. Gritou:

– Vem cá, desgraçado! Tenho uma coisinha bem temperada pra te dar! Vem cá, pro teu último almoço, desgraçado!

Naquele exato instante, Cris dizia a penúltima palavra que Eric queria ouvir:

– Monstro! Você é um monstro! Como é que vai trocar sua mulher por um cachorro?

– Não é uma troca, Cris... É...

– Claro que é uma troca! Você não é um menino, Eric! É um homem! Olha aqui, eu vou te ajudar: vou pegar esse cachorro e levar para o meu sítio. Fica a uma hora daqui. Você pode ir lá todos os finais de semana, para matar a saudade do cachorro.

Eric sentiu a garganta se fechar.

– Mas eu não quero ficar longe do Vírgula...

– Por favor, Eric! Estou tentando salvar o teu casamento. Pega o telefone. Liga pra ela agora e diz que o problema está resolvido.

Eric fechou os olhos. Respirou fundo. Tirou o celular do bolso.

Quando o celular de Eva chamou, ela tinha acabado de atirar a bola de carne envenenada para Vírgula. O grande pastor alemão olhou a comida e entortou a cabeça para o lado, do jeito que os cachorros fazem quando estão em dúvida. Então, caminhou em direção à carne. Eva deu-lhe as costas e correu para dentro de casa, a fim de atender ao telefone, que havia deixado na cozinha.

– Eva... – disse Eric, do outro lado da linha.

– Oi...

– Eu... Eu quero que fique tudo bem... Eu... – pensou em Vírgula. Estava traindo Vírgula! Era um miserável, um pulha, mas Cris devia ter razão. Ele tinha de ser um homem. Um adulto. Disse, enfim, antes de desligar: – As coisas vão se ajeitar...

– Eu sei que vão – respondeu Eva, num tom de voz confiante.

Cris, que ouvia a conversa, pôs a mão em seu ombro, depois que ele desligou.

– Por que você não vai almoçar em casa, pra falar com ela antes de ela ir para o jornal? Seja homem. Seja adulto!

Eric balançou a cabeça afirmativamente.

– Vou fazer isso. Vou falar com ela.

No caminho para casa, Eric sentia vontade de chorar, pensando em Vírgula. Será que era normal gostar tanto assim de um cachorro? Será que ele nunca ia crescer? Alguma coisa devia estar errada com ele, porque, na verdade, o que o angustiava era o cachorro, e não a mulher.

Ao abrir o portão de casa, Eric em nenhum momento imaginou a reconciliação com Eva, só pensava que Vírgula viria correndo e feliz em sua direção. Mas Vírgula não veio. Eric estranhou. Caminhou até o pátio, confuso. Nada do cachorro. O que será que havia acontecido?

– Vírgula! – Chamou Eric. – Vírgula!

Dentro de casa, Eva ouviu a voz de Eric e sorriu. Como será que ele reagiria ao encontrar o corpo do cachorro maldito? Ela mesma não sabia onde o bicho havia se metido. A última vez que o vira, ele estava se preparando para comer o bolo de carne. Devia ter ido morrer debaixo da casa ou no fundo do quintal, sabe-se lá.

– Vírgula! Vírgula! – chamava Eric, agora com angústia. E, de repente, ele parou de chamar. Eva esperou. Nada. Silêncio.

Esperou.


Então, saiu para o pátio, a fim de ver o que estava acontecendo. Abriu a porta. Ganhou a rua. E viu os três no meio do pátio: o cachorro, o homem e o menino, Vírgula, Eric e Tiaguinho, perfilados. O cachorro, sentado, com a língua para fora, olhava-a com inocência. O menino, com as mãos na cintura, olhava-a com raiva. O homem, com o bolo de carne envenenada nas mãos, olhava-a com desprezo. Naquele momento, Eva compreendeu tudo. Soube que, por causa do menino, havia perdido o homem para o cachorro.