24 de Julho de 2026
EM FOCO
Temor
Atenção ao nível do Guaíba e dos rios
Apesar do retorno do sol ontem, alguns mananciais gaúchos seguem acima da cota de inundação. Com solo saturado, lago que banha a Capital deve atingir a cota de alerta amanhã. Além disso, novos temporais são aguardados na próxima semana
A quinta-feira foi marcada por chuva moderada no Rio Grande do Sul, mas de forte apreensão e novos alagamentos, especialmente no Vale do Jacuí. Embora a previsão para hoje indique a volta do sol e a melhora do tempo na maior parte do Estado, a atenção permanece totalmente voltada para a elevação dos rios e do Guaíba. O cenário exige cautela, pois a chuva deve retornar com força no final de domingo e se estender pelo início da próxima semana.
Os rios Caí, dos Sinos, Jacuí, Taquari e Uruguai seguem acima da cota de inundação em diversos municípios gaúchos em razão dos altos volumes acumulados desde o dia 17, há exatamente uma semana.
Segundo balanço divulgado pela Defesa Civil na noite de ontem, o número de cidades que registraram estragos subiu para 204 - contra 169 no levantamento do dia anterior. Às 19h havia 1.315 pessoas desabrigadas, mais de três quartos delas (76,5%) no Vale do Taquari. O município com mais desabrigados era Lajeado, com 540 pessoas abrigadas sobretudo no Parque do Imigrante.
Ontem, diante do grande volume de troncos de árvores, madeiras e entulhos no Guaíba, a CastSul suspendeu a travessia do catamarã, evitando a navegação à noite. O retorno da operação dependerá das condições do Guaíba, informou a empresa.
Trajetória ascendente
A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba manterá a trajetória de subida até amanhã, quando deverá atingir 2m70cm na medição do Cais Mauá, alcançando a cota de alerta. O nível de transbordamento no local é de 3m.
A elevação no Guaíba decorre principalmente do escoamento das águas que descem das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, e não tanto da precipitação direta sobre a Capital. Na madrugada de ontem, o manancial atingiu 1m92cm às 3h e permaneceu em 1m90cm ao longo da manhã, dentro da cota de atenção. Ao longo do dia, não foi registrado vento vindo do quadrante sul - fator que, quando presente, dificulta o escoamento para a Lagoa dos Patos. Ainda na tarde de quinta, a operação do Catamarã no Guaíba foi suspensa por precaução. Às 18h30min, a medição no Cais Mauá indicava declínio temporário, marcando 1m27cm.
Abrigos
A Defesa Civil estadual emitiu alerta de risco alto para inundação nas Ilhas de Porto Alegre, válido até as 17h30min de hoje. A Defesa Civil municipal informou que não há necessidade de remoção imediata de moradores, mas já estruturou dois abrigos emergenciais e pontos avançados de atendimento no bairro Guarujá, na Região das Ilhas e no extremo sul da Capital.
Na Ilha da Pintada, a água avançou sobre vias públicas como a Rua Nossa Senhora da Boa Viagem. Moradores precisaram erguer móveis ou transferi-los para os andares superiores das residências. Relatos da comunidade indicam que a população da Ilha da Pintada encolheu drasticamente desde a enchente de 2024: de cerca de 6 mil para 1,2 mil habitantes, aproximadamente, reflexo das cheias e da adesão a programas como o Compra Assistida, do governo federal, voltados a realocar famílias que viviam em regiões de risco.
No município de São Jerônimo, na Região Carbonífera, o Rio Jacuí atingiu a cota de inundação no final da noite de quarta-feira e chegou a 5m78cm às 11h de ontem - mais de um metro acima do limite crítico de transbordamento, que é de 4m64cm.
A Defesa Civil municipal removeu 16 pessoas (sete famílias) nos bairros Centro, Beira-Rio e Cidade Baixa. Outros moradores optaram pela desocupação preventiva por conta própria. Também foram registrados bloqueios em vias de acesso nas áreas ribeirinhas. O RS já contava com abrigos ativos em 13 cidades: Arroio do Meio, Arroio dos Ratos, Bom Retiro do Sul, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Lajeado, Montenegro, Muçum, Roca Sales, Santa Cruz do Sul e São Sebastião do Caí. Os locais estão distribuídos em escolas, ginásios municipais, parques e salões. _
Participaram Airton Lemos, Caroline Batista, Leticia Mendes, Heloisa Gamero, Júlia Ozório e Paulo Rocha
Precipitações acima de 100mm semana que vem
Meteorologistas projetam volumes expressivos de chuva na próxima semana em diferentes regiões do RS. Os acumulados podem superar 100 milímetros entre segunda-feira e sábado. O primeiro seria entre segunda e quarta-feira, com volumes mais elevados principalmente na segunda e na terça. Após uma trégua na quinta-feira, a instabilidade deve retornar entre sexta-feira e sábado.
Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marcelo Schneider afirma que a chuva mais intensa deve atingir uma faixa que atravessa a Região Central e a Região Metropolitana, além de áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra.
- O problema maior dos próximos dias será de segunda a quarta-feira, principalmente segunda e terça, quando as expectativas são de acumulados de chuva mais elevados em grande parte do Estado, principalmente na faixa central, de Santa Maria até Porto Alegre. Pode atingir também áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra - explica.
O meteorologista acrescenta que a instabilidade será provocada por uma frente fria estacionária. O contraste entre o calor e a umidade no Norte e o ar frio represado no sul do Estado deve favorecer a formação de chuva.
- Ao norte do Estado vai fazer muito calor e haverá umidade. Ao sul, o ar frio vai ficar represado. Por isso, entre segunda e o início da quarta-feira, há previsão de pancadas de chuva, trovoadas, rajadas de vento e possibilidade de granizo - afirma Schneider. _
"As pessoas estão cansadas de perder tudo"
No início da manhã de ontem, quando empurrou o portão em frente à casa na Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada, o soldador aposentado Daniel Portilla, 64 anos, viu uma cena a qual está habituado. A água do Rio Jacuí avançando sobre a via.
Criado na Região das Ilhas, Portilla viu inúmeras vezes as águas tomarem as ruas. Na enchente de 2024, precisou deixar o segundo andar da casa pela rua dos fundos. Na da frente, a água já havia ultrapassado o portão.
- Já perdi muita coisa aqui. Sempre que começa a chuva lá para cima, a gente já começa a se preocupar. Levanta os móveis. Guarda o que pode no segundo andar - relata.
A Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, onde ele mora, é uma das primeiras a ser tomada pelas águas. A reportagem conversou com moradores e eles relataram que muitas pessoas já deixaram a área de forma preventiva.
O padre Rudimar DalAsta, uma liderança na comunidade da Pintada, relata que muitos moradores já deixaram as casas como forma de prevenção. Outros, como Portilla, optaram por erguer os móveis.
- As pessoas estão cansadas de perder tudo. É uma cena que vimos se repetir muitas vezes - diz.
Pelas ruas da Ilha da Pintada, é possível encontrar muitas casas demolidas. A maior parte são moradores que deixaram o local após a última enchente.
- Muitos saíram, aderiram ao Compra Assistida (programa do governo federal). A população da ilha diminuiu muito. Antes eram mais de 6 mil, agora são cerca de 1,2 mil - relata o padre. _
Segundo o professor Fernando Dornelles, do IPH/UFRGS, na ausência de novas chuvas, o nível do Guaíba leva cerca de três dias para apresentar queda significativa. No entanto, o solo saturado pela umidade reduz a capacidade de absorção, o que faz com que novas precipitações em curto intervalo provoquem repiques mais acentuados nos rios.
Hoje
O avanço de uma massa de ar seco garante tempo firme na Campanha, Fronteira Oeste, Centro, Sul, Serra e Região Metropolitana. Há chance de chuva rápida e isolada apenas no Norte e Noroeste, próximo à divisa com Santa Catarina. As mínimas oscilam entre 8ºC e 9ºC no Oeste, Campanha e Campos de Cima da Serra; as máximas podem atingir 21°C na Grande Porto Alegre e 24°C no Noroeste.
Amanhã
O tempo firme predomina na maior parte do Estado, com presença de muitas nuvens e períodos de sol. Chuvas fracas ficam restritas ao Oeste. O amanhecer será frio, com marcas mais baixas na Campanha, Serra e áreas elevadas, mas as temperaturas sobem gradualmente à tarde.
Domingo
A partir do domingo, uma nova mudança no cenário traz instabilidade para todo o território gaúcho, com risco de temporais no Norte, Oeste, Missões, Centro, Campanha e Vales. A previsão indica continuidade da chuva na segunda e na terça-feira.
Travessia do Rio Uruguai foi interrompida
A elevação do Rio Uruguai provocada pelo alto volume de chuva registrado nos últimos dias interrompeu as principais travessias por balsa entre o Brasil e a Argentina ontem. Uma das situações mais preocupantes foi registrada entre Tiradentes do Sul e El Soberbio, onde o rio atingiu 11m72cm durante a manhã, conforme informações da Defesa Civil.
Em Porto Mauá e Alba Posse, a elevação chegou a 9m39cm. Por medida de segurança, famílias ribeirinhas precisaram deixar suas residências em áreas consideradas vulneráveis ao avanço das águas.
As operações entre Porto Vera Cruz e Panambi e entre Porto Xavier e San Javier foram suspensas após o rio ultrapassar a marca de 6m . A paralisação impactou moradores, trabalhadores e o transporte de mercadorias que utilizam diariamente as balsas para cruzar a fronteira.
A operação da barca Aliança, responsável pela travessia entre Barra do Guarita e Itapiranga (SC), também precisou ser interrompida.

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