segunda-feira, 7 de julho de 2014


07 de julho de 2014 | N° 17852
DAVID COIMBRA

POR QUE O BRASIL PODE VENCER A ALEMANHA

A Alemanha tem melhor time do que o Brasil, esteja ou não o Brasil com Neymar. Mas, estando ou não o Brasil com Neymar, o Brasil pode ganhar da Alemanha.

A Seleção Brasileira, de Luiz Gustavo (foto acima), é a maior potência do futebol mundial. Sempre que a Seleção Brasileira entra em campo, o adversário estremece, e com razão. A Alemanha, de Schweinsteiger (foto acima), também é uma grande potência, e ombreia com o Brasil, com a Argentina e com a Itália, os maiores entre os maiores. Por isso, qualquer jogo entre essas quatro seleções é como um Gre-Nal: o inimigo pode estar combalido, esfarrapado, esfomeado, pode estar nas vascas da morte, mas sempre será perigoso.

Em Gre-Nal, o fato de um time entrar em campo como favorito não quer dizer que sairá dele como vencedor. Brasil e Alemanha, a mesma coisa.

POR QUE O BRASIL NÃO DEVE SER CAMPEÃO

O problema maior do Brasil é ganhar DOIS clássicos sem Neymar, o que equivale a dizer: sem craque algum. Uma vitória sobre a Alemanha teria de ser arrancada na superação. Superar-se de novo, contra a Argentina ou a Holanda, é tarefa de Hércules.

Em 1962, quando o Brasil ganhou o bicampeonato, no Chile, o Brasil não perdeu um Neymar: perdeu Pelé.

Mas o Brasil tinha Garrincha.

Menos mal que a Argentina perdeu Di María, seu segundo melhor jogador. Di María é o escudeiro de Messi, é o jogador que lhe serve de desafogador da marcação. As canhotas de Messi e Di María dialogam, eles se procuram no jogo. Sem Di María, Messi está sozinho. Como estava Neymar.

A SAÍDA DE FELIPÃO

Em uma circunstância, a perda de Neymar pode ser positiva: com a saída dele, Felipão terá a chance de engrossar o molho daquele seu meio-campo ralo. Se Felipão escalar Hernanes, montará um meio mais equilibrado, um quadrado com Luiz Gustavo e Fernandinho diante da área, Hernanes e Oscar nas meias. Na frente, o melhor talvez seja fazer a troca simples de Fred por Jô, porque, com um esquema desses, o centroavante é indispensável.

É importante que Felipão dê atenção ao meio-campo. É ali que o jogo da Alemanha se desenvolve. Com esses quatro jogadores, todos com poder de marcação, a Seleção ficará mais consistente para encarar esse adversário duro.

A CULPA DA FIFA

É risível a intenção da CBF, ou de quem quer que seja, de pedir punição ao jogador da Colômbia pela falta que lesionou Neymar. Não tem nada a ver com a mordida de Suárez, um lance antidesportivo, que não foi visto pelo juiz.

A falta do colombiano foi desleal, mas foi um lance de jogo, uma falta marcada pelo juiz, num jogo em que o juiz simplesmente deixou bater. Até aquele momento, haviam sido cometidas 50 faltas, sem que o juiz tomasse qualquer atitude além de tapear o próprio peito e dizer que a responsabilidade era dele.

Os dois times bateram na sexta-feira. O volante Fernandinho, da Seleção Brasileira, bateu muito, tem batido muito, é um jogador violento. James Rodríguez, da Colômbia, apanhou tanto quanto Neymar, apenas teve mais sorte. Fernandinho fez igual, ou pior, do que Zúñiga.


Por que o juiz permitiu esse comportamento temerário dos jogadores? Por que os juízes têm permitido condutas que tais? Obviamente, por instrução da Fifa. A Fifa quer emoção, quer que o jogo corra. Os jogos correm. Mas a violência também. A Fifa tem de fazer um mea culpa nesse caso e mudar a orientação aos árbitros.

07 de julho de 2014 | N° 17852
PAULO SANT’ANA

Loucos de todo gênero

Por onde andamos, topamos com loucos. Eles estão no elevador conosco. Estão no serviço onde trabalhamos, no teatro quando vamos assistir a uma peça, às vezes há um louco dentro da nossa própria família.

Por toda parte, há loucos em profusão.

Esses loucos com quem topamos no nosso dia a dia não são loucos de atar. Alguns são loucos de amar.

Alguém já escreveu a respeito que “hospício é o quartel-general dos loucos”, isto quer dizer que as restantes unidades militares andam apinhadas de loucos pelas ruas.

Ou seja, há loucos em todos os nossos derredores, talvez nós próprios sejamos loucos.

Um pensador ilustre já disse que “louco é aquele de quem roubaram tudo, menos a razão”. Eu acho genial essa frase.

No tango Balada para un Loco, de Astor Piazolla, há um verso que diz: “São os loucos que inventaram o amor”. Que coisa linda!

Hoje me apanhei falando dos loucos, que são parte integrante e importante da nossa rotina.

Canso de encontrar-me, por acaso, com uma mulher bonita e exclamar: “Seria uma loucura!”, como que insinuando que, se ela viesse a ser minha, eu mergulharia na felicidade completa.

Já vi muitas vezes garotos cometerem peraltices e suas mães se dirigirem a eles carinhosamente: “Louquinho!”.

Ou seja, para mim, a palavra louco está associada ao belo, ao bem, a tudo de positivo. Até associada à ternura.

Vocês já ouviram piadas sobre loucos? Podem reparar que o louco surge nas piadas sempre como ingênuo, puro, inocente, ou seja, a palavra louco muitas vezes designa maravilhoso, grandioso, extraordinário.

O antigo Código Civil Brasileiro continha uma expressão odiosa: “Loucos de todo gênero”, que foi substituída no novo Código por expressão mais atualizada acerca dos diagnósticos psiquiátricos. Muito benfeito isso, porque há loucos adoráveis, obcecados por uma causa ou por um grande amor.


Sempre que ouço alguém dizer que “fulano é louco”, passo a me interessar por este fulano.

07 de julho de 2014 | N° 17852
DIONE KUHN

Escassez de ideias no embate inicial

Tudo bem que foi o primeiro debate, todos os candidatos queriam se apresentar. O objetivo era dar o primeiro recado ao eleitor. Mas, se essa for a tônica da campanha, o prejudicado será o cidadão. Nenhuma proposta concreta, viável ou inovadora foi apresentada. Apenas promessas e discursos genéricos. Pelo menos, ficaram evidentes as estratégias dos principais candidatos. A elas:

Ana Amélia - Evitou as críticas ao governo de Tarso, seu principal adversário no momento, tentando passar para o eleitor a imagem de que está acima de partidos e picuinhas, preocupada com a gestão do Estado. Falou muito em melhorar a qualidade da educação, mas não disse de que forma.

José Ivo Sartori - Reforçou o discurso de que irá governar para todos e não só para um partido. Quer ser uma espécie de terceira via, driblando a polarização e a troca de acusações entre Ana Amélia e Tarso. Esse confronto, por enquanto, não ocorreu.

Roberto Robaina - Cumpriu o papel de sempre, o de agitar o debate. Colocou Ana Amélia como a candidata do neoliberalismo e Tarso, como o do continuísmo. Ao longo da campanha, ficará claro, como em eleições passadas, que as críticas serão mais leves para o PT e mais pesadas para os demais.

Tarso Genro - Por estar no governo, evidentemente foi o mais atacado. E assim será até o fim. Tentou levantar a autoestima do Estado, que está mergulhado numa grave crise financeira, usando o discurso de que investir é a saída para o governo, mesmo que apenas com empréstimos.


Vieira da Cunha - Bateu no governo sempre que teve oportunidade. E continuará fazendo esse papel, pois precisa se diferenciar dos demais por estar nas últimas colocações na pesquisa.

07 de julho de 2014 | N° 17852
NILSON SOUZA

Subi no ônibus

Como no título palindrômico acima, orgulhos e nacionalismos também vão e voltam. Veja-se os slogans dos ônibus que transportaram as 32 seleções da Copa. Só quatro ainda circulam: Brasil: “Preparem-se, o hexa está chegando!”; Alemanha: “Um país, um time, um sonho”; Argentina: “Não somos um time, somos um país”; e Holanda: “Homens de verdade vestem laranja”.

O nosso já pareceu mais pretensioso, mas estamos mesmo nos aproximando da meta. E os que já voltaram para casa? Subi no ônibus para ver e comentar.

Argélia: “Guerreiros do deserto no Brasil”. Caíram guerreando.

Austrália: “Socceroos: pulando nosso caminho para a história”. Pularam fora na primeira fase.

Bélgica: “Espere o impossível”. Aconteceu. Era aquele gol do Higuaín, no sábado.

Bósnia: “Dragões no coração, dragões em campo”. Messi e o nigeriano Odemwingie fizeram o papel de São Jorge.

Camarões: “Um leão será sempre um leão”. Levou nove gols e virou gatinho.

Chile: “Chi, chi, chi, le, le, le, Viva Chile!”. Viveu até o pênalti na trave contra nós.

Colômbia: “Aqui não viaja uma equipe, viaja todo um país”. Boa viagem, de volta. Assinado: Thiago Silva e David Luiz.

Costa Rica: “Minhas paixões são futebol, minha força, minhas pessoas, meu orgulho Costa Rica”. Orgulho justificado.

Costa do Marfim: “Elefantes rumo ao Brasil”. Nem sempre os elefantes escolhem o lugar para morrer.

Croácia: “Com fogo em nossos corações, um por todos e todos por um, Croácia”. Chamuscada na primeira fase.

Equador: “Um compromisso, uma paixão, um coração. Tudo por você, Equador”. Deixou saudades só em Viamão.

Inglaterra: “O sonho de um time, as batidas de coração de milhares”. Infarto coletivo.

França: “A palavra ‘impossível’ não existe em francês”. Mas existe em alemão.

Gana: “As Estrelas Negras chegaram para iluminar o Brasil”. Cometas. Nem deu para ver.

Grécia: “Os heróis jogam como os gregos”. Navas, goleiro da Costa Rica, é que conquistou um lugar no Panteão.

Honduras: “Somos um povo, uma nação, cinco estrelas no coração”. E oito bolas na rede.

Irã: “Honra da Pérsia”. Um gol de honra, quatro sofridos.

Itália: “Vamos pintar o sonho da Copa do Mundo de azul”. Faltou tinta. E futebol.

Japão: “Samurais, chegou a hora de lutar!” Luta inglória.

Coreia do Sul: “Vamos nos divertir, Vermelhos!” Divertiram os adversários.

México: “Sempre unidos, sempre aztecas”. Sempre quase.

Nigéria: “Só juntos podemos vencer”. A união terminou em falha do goleiro e gol contra.

Portugal: “O passado é história, o futuro é a vitória”. Pois, pois.

Rússia: “Ninguém pode nos alcançar”. Muitos ultrapassaram.

Espanha: “Dentro de nossos corações, existe a paixão dos campeões”. A paixão virou decepção.

Suíça: “Estação final: 13/07/2014 - Maracanã”. Messi e Di María estavam no caminho.

Estados Unidos: “Unidos por um time, guiados pela paixão”. E abatidos pela Bélgica.


Uruguai: “O sonho de três milhões... Vamos Uruguai!” Terminou em pesadelos: mordida e Maracanaço.

sábado, 5 de julho de 2014


06 de julho de 2014 | N° 17851
MARTHA MEDEIROS

90 minutos

A primeira Copa que recordo com clareza foi a de 1970, eu tinha oito anos. Assisti a todos os jogos do Brasil sentada no chão, lugar de criança. O sofá era reservado aos mais velhos (pai e mãe entrando na casa dos 30, uns fósseis), então a mim restava o parquet, que era bem limpinho.

Lembro que eu torcia, vibrava, não parava quieta, e esse não parar quieta incluía levantar e ir até o banheiro, depois ao quarto para escrever alguma coisa no diário, passar na cozinha para pegar um suco e uma bolacha Maria, voltar à sala, ver mais um pouco do jogo, e então dar uma descidinha até ali na rua para ver se tinha alguém com quem brincar, não tinha, voltar, assistir ao jogo mais um pouco, de novo ir ao quarto para ver se tinha tema para entregar na segunda-feira e, se tivesse, fazê-lo, e então voltar à sala a tempo de ver o Carlos Alberto fechando a goleada de 4 a 1 contra a Itália e o Brasil levantando a taça Jules Rimet.

Hiperativa? Não, isso nem existia. E também não era por causa do desconforto do chão que eu me levantava de tempos em tempos para me distrair com outras coisas. É que jogo de futebol, naquela época, demorava uma eternidade. Jogo de futebol durava umas quatro horas e meia no tempo regulamentar. Pensando bem, acho que cinco horas. Ou seis. Jogo de futebol engolia todo o domingo.

Quando o pai saía para o estádio com meu irmão, eu e minha mãe íamos a uma sessão dupla de cinema, depois dávamos uma passadinha na casa da vó, tomávamos um lanche no Joe´s e, quando voltávamos para casa, ligávamos o radinho e o jogo deles ainda estava no primeiro tempo.

Quando o pai dizia “hoje tem jogo”, eu ia para o sítio dos primos em São Sebastião do Caí, brincava, brincava, brincava e, quando voltava para casa, o juiz ainda não tinha apitado o fim da partida.

Jogo de futebol era algo tão longo, tão extenso que parecia iniciar-se na quarta e terminar na quinta, dava tempo de o edifício em obras ao lado do nosso ficar pronto, alguém podia se submeter a uma cirurgia no cérebro durante uma semifinal que receberia alta antes da decisão por pênaltis.

Dizem que jogo de futebol sempre durou 90 minutos. Imagina se caio nessa.

É só comparar com os jogos de hoje. O time dá o pontapé inicial, eu vou rapidinho até o micro-ondas para ver se a pipoca ficou pronta e quando volto para a frente da tevê os jogadores já estão trocando de camisetas com os adversários e cumprimentando o juiz. O jogo começa às 13h, eu tiro a mesa, vou escovar os dentes e, quando retorno para a sala, o Galvão Bueno e a Patrícia Poeta já estão dentro da noite escura mostrando a reprise dos gols.


Tudo anda muito ligeiro, antes nada terminava. Noventa minutos durava uma vida. Mas agora, pelo visto, quem está durando uma vida sou eu.

06 de julho de 2014 | N° 17851
ANTONIO PRATA

Abundância

Senta-se muito mal por este mundo afora: em bancos de concreto, em tamboretes frios, de metal, em tábuas duras e sem encosto. Não entendo. Tenho cá para mim que uma poltrona ou uma cadeira confortáveis são como um prato bem preparado, um bom vinho, um dia de sol: um breve alívio em nossa incessante caminhada sob a inclemente gravidade. E, no entanto...

Conheço um homem muito rico que tem uma ilha. É dessas histórias: começou servindo cafezinho na empresa, bancou os próprios estudos, foi subindo, subindo, subindo, chegou à presidência, comprou uma ilha. Semana passada, me levou para conhecê-la.

À casa, no alto do morro, ele não dá muita bola: “Essa parte é da minha mulher”, diz, seguindo apressado em direção ao quiosque, uns 50 metros atrás. Ali, à beira-mar, construiu um pantagruélico complexo gastronômico: churrasqueira, forno a lenha, geladeira industrial, máquina de chope com quatro torneiras, câmara fria e um forno de pizza grande o suficiente para assar dois carneiros inteiros – o que ele faz, algumas vezes por ano. O quiosque é sua Disneylândia, sua Shangri-La, o prêmio autoconcedido por tantos anos de abnegação. É onde pretende passar boa parte de seu tempo livre. Pois bem, no meio do quiosque há uma mesa de jacarandá e dois bancos compridos – sem encosto.

Veja: o cara gasta milhões de reais na ilha, mais alguns milhares no quiosque. Manda trazer cordeiros da Patagônia, faz pessoalmente a marinada com 50 litros de vinho branco, 80 cabeças de alho, 200 ramos de alecrim. Importa chope de uma microcervejaria dinamarquesa, regula a temperatura em 4,6°C – e depois disso tudo, depois de 30 anos de esforço e 18 horas de lenta cocção, castiga o corpo cansado no tronco? Entrega o peso de seus ombros aos pobres músculos do abdome? Convenhamos: é impossível ser feliz sem apoiar as costas.

O leitor pode achar que é um problema do meu amigo. Culpa, talvez, por tudo o que conquistou? Nada. Ano retrasado, enquanto cobria a Olimpíada para este jornal, visitei a Torre de Londres. Contemplei cetros de ouro maciço, coroas cravejadas de diamantes, tronos de reis e rainhas. Vocês já viram um trono? Ora, os líderes supremos do Império Britânico podiam apoiar seu poder no alto dos céus, mas os majestáticos glúteos apoiavam é em duríssimos assentos de madeira, com encosto reto, a 90 graus – isso, séculos após o glorioso advento da almofada. (Não é à toa que tenham deixado Índia, África e Ásia naquele estado.)

Sei pouco sobre a vida: nunca li Proust, minha matemática parou na regra de três e dos afluentes do Amazonas só me ocorrem o Negro e o Solimões, mas encontrei a minha poltrona. Nela aboletado, com os pés esticados num pufe, uma almofada escorando a cabeça e um copo de água com gás na mesinha ao lado, posso ler A Comédia Humana num fôlego, ver Breaking Bad de ponta a ponta, assistir a minha filha crescer.


Dizem por aí que a nossa missão na terra é escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Bobagem. O que importa é encontrar uma poltrona. Tá bom: um amor e uma poltrona. O resto, se tiver que vir, virá.

06 de julho de 2014 | N° 17851
FABRÍCIO CARPINEJAR

A última bolacha recheada do pacote

A vingança é um efeito colateral da vaidade. É um sinal da arrogância que existia desde o começo da relação.

Ninguém se torna vingativo, as pessoas já são vingativas e demonstram a predisposição de destruir logo no primeiro encontro.

A vingança não é uma novidade do fim, mas uma notícia velha do início.

Não venha dizer que só conheceremos com quem a gente se casou quando nos separamos. A gente conhece de quem a gente vai se separar quando casamos.

Quem se acha demais acaba se vingando. Porque pensa que, ao namorar, realiza um favor. Porque pensa que, ao namorar, concede o bilhete premiado de sua companhia. Porque pensa que, ao namorar, está garantindo a simpatia de sua conversa, a gentileza de sua personalidade, a dádiva de sua alegria, o luxo de seu humor, atributos raros e impossíveis de se jogar fora.

Quem se acha demais não namora, na verdade dá uma chance.

O tipo narcisista se coloca na posição de provedor da verdade. É afetado, unilateral e autoritário – tornou-se assim pela beleza, pelo dinheiro ou pela projeção social.

A questão é que se enxerga perfeito e intocável e confunde sua presença amorosa com filantropia.

O narcisista não admitirá qualquer crítica, e a separação é a maior delas, discordância evidente de seu modo de vida.

Jamais aceitará que errou, jamais pedirá desculpa, jamais arcará com a responsabilidade de seus atos, jamais carregará culpa pelo distanciamento. Não tem humildade da autocrítica para acolher suas falhas, muito menos sente o remorso que vem da saudade. Não tem aquela pontada natural após uma ruptura, aquela tristeza baldia e consciência aguda de que foi desatento e que poderia ter sido diferente.

Não atravessa o luto, parte direto para a represália. Uma vez rejeitado, fará de tudo para mostrar que a pessoa nada é sem ele. Diante de uma ruptura, pode deflagrar perseguição, boicote e uma série de constrangimentos sociais. Procura humilhar quem antes adorava, procura rebaixar quem antes endeusava. Troca de lado: odeia com todo o ânimo quem amava.

Sua generosidade é investimento ou um modo de manter o controle da situação. O que oferece ao longo da convivência cobrará no final.

É tão centralizador que usa a dor para aumentar seu poder e castigará qualquer um que renunciou o prazer de seu reflexo.

O narcisista é vingativo por perceber o amor como uma monarquia. Sem ele, o outro não é nada, não tem história, não tem passado, não tem futuro. Distanciado de seu domínio, perde o direito à coroa e converte-se, de novo, em reles súdito.

A vingança é vaidade, mas não tema, não se acovarde.


A última bolacha recheada do pacote ficará para as formigas.

06 de julho de 2014 | N° 17851
PAULO SANT’ANA

Tristeza testamentária

Deixa-me aqui no meu canto sozinho que não quero que me amofinem com asneiras cada vez mais desinteressantes.

Deixa-me sozinho em meu canto a esperar o destino. Nada mais tenho a fazer que já não tenha feito.

Cumpri com todos os rituais do meu código de humanidades. Quando tinha de fazer o bem, acabei fazendo-o. Quando não tinha que fazer o mal, acabei fazendo-o de modo inconsciente.

Nada mais tenho a fazer. Tudo que tinha que ser feito, o foi. Acabei até fazendo o que não tinha que ser feito.

Deixa-me, portanto, aqui no meu canto anônimo a cismar de que há pouco do que possa me orgulhar e muito há que me envergonhe.

Deixa-me no meu canto a perquirir do significado das injustiças que vi em torno de mim, dos que tombaram ou enfraqueceram diante do arbítrio, da prepotência, do maior amassando o menor, dos justos sem recompensa, dos fracos que desistiram.

Deixa-me aqui no meu canto a pitar meu cigarrinho, essa delícia que no entanto me pesa na consciência. Nessa fumaça que se vai espalhando, eu vejo pouco a pouco se formando a imagem dos raros êxitos que tive e a brasa que a provoca me faz lembrar das centenas de sonhos meus que se transformaram em cinzas.

Deixa-me quieto, que para mim falta pouco.

Quando pararem todos os relógios da minha vida e os necrológios noticiarem que morri, só gostaria que quem me visse finalmente estático se aproximasse do meu cadáver e dissesse: “Foi um sonhador. Ergueu castelos de quimeras e todos eles se esfarelaram quando trombaram com os infortúnios da incompreensão. Mas viveu e lutou, e só isso já justifica uma existência”.

Deixa-me só no meu canto, o único lugar que me sobrou na vida.

Falta pouco, mas isso dura tanto!

E se vires alguém depois de me deixares quieto em meu canto, dize a ele que estou aqui no posto final de sentinela, à espera de que o destino escolha a maneira de me imolar.

Pois eu não sabia que a vida teria um dia um fim?


Então, abre passagem para a morte, que eu calculo até que suas profundezas possam conter a felicidade que não conheci em vida.

06 de julho de 2014 | N° 17851
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

Todos têm qualidades e defeitos

ESSE CARA NÃO VAI GANHAR GORJETA

Se tem algo que me irrita nos Estados Unidos é esse sistema deles da gorjeta. Todo mundo espera gorjeta, não é só garçom. O garçom, até entendo. Muitos garçons dos Estados Unidos, a única coisa que eles ganham é a gorjeta. Então, por justiça, você tem de pagar de 15% a 20% a mais na conta. Não dar gorjeta é meio ofensivo. Um amigo meu, brasileiríssimo, foi saindo do restaurante em Nova York sem dar gorjeta e o garçom o interpelou com delicadeza:

– O senhor desculpa. Houve algum problema no seu atendimento?

Ele: – Ar... Não... Por quê? Ah, não dei gorjeta? Que distração a minha, aí está, aí está!

E deu gordos vinte e tantos por cento.

No Japão é o contrário. Lá, eles não aceitam gorjeta de jeito nenhum. Se você deixar dinheiro a mais no pires, o garçom vai atrás para devolver. Corre uma quadra atrás de você para dar-lhe o troco. Se você insistir, ele fica meio chateado e recusa firmemente dando um monte de explicações em japonês de uma forma que o deixará confuso.

De uma maneira ou de outra, os dois sistemas funcionam no quesito atendimento. Tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, os garçons são muito gentis. Por aqui, é de praxe eles se achegarem à mesa para saber se está tudo bem, estão sempre sorrindo e fazendo brincadeiras. São bem-humorados, esses garçons americanos.

Certo.

Mas e os outros profissionais? A maioria dos prestadores de serviço espera gorjeta. Outro dia, fui ao supermercado, saí carregado de pacotes e chamei um táxi. O motorista abriu o porta-malas lá do assento dele.

– Open! – gritou, sem nem olhar para trás.

Abri o porta-malas, ajeitei os pacotes, fechei o porta-malas, entrei no táxi, cumprimentei-o e ele não respondeu. Paciência. Dei o endereço. Quando chegamos, ele abriu o porta-malas pelo painel e gritou de novo:

– Open!

Tirei todas as compras, acomodei-as na calçada. Fui pagar e, então, ele finalmente falou uma frase completa. Perguntou quanto eu iria dar de gorjeta. Respondi que pagaria E-XA-TA-MEN-TE o que estava no taxímetro. Nem um maldito centavo para aquele cara. Ele me devolveu o troco de cenho franzido e saiu cantando pneu.

Alguém, por favor, chame os japoneses.

BOM DIA, ESTRANHO

Os americanos cumprimentam a gente. Pelo menos esses aqui da Nova Inglaterra. É estranho. Você está caminhando na rua, faz contato visual com um passante e ele dá bom-dia. Fiquei surpreso, nas primeiras vezes. Por que aquele cara me cumprimentou? Será que me conhece? Será brasileiro? Será que nos vimos em outra circunstância?

Resolvi experimentar para ver se a coisa se repetia. Olhei para outra pessoa na calçada, ela sorriu e me cumprimentou. Cumprimentei de volta, encantado. Bonito isso. Afinal, somos todos colegas transeuntes. É uma certa solidariedade de classe, transeuntes unidos jamais serão vencidos.

Em Nova York essas gentilezas não acontecem. Gente demais. Seria cansativo de passar o tempo todo sorrindo:

– Bom dia! Bom dia! Bom dia! Bom dia! Bomdiabomdiabomdiabomdia!

Metrópoles são selvagens porque têm tudo em excesso.

A HOLANDESA

A propósito de defeitos e qualidades, todos os dias alguém me manda um texto de certa escritora holandesa da qual jamais ouvi falar, descrevendo as coisas boas do Brasil, comparando-as com as coisas ruins da Europa e dos Estados Unidos. Ela diz, por exemplo:

“Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo”.

Ou: “O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma”.

De onde é que tiraram essa escritora holandesa?

Vamos arranjar um estrangeiro que defenda melhor o Brasil.


Chamem os japoneses!

6 de julho de 2014 | N° 17851
NOITE

Sexo, algemas e cinta-liga

Donna foi conhecer o primeiro bar com temática erótica do Brasil, em Porto Alegre
A decoração, o cardápio de comidas e bebidas, a trilha sonora, os shows: tudo foi cuidadosamente pensado para fazer as pessoas falarem de sexo de forma natural. Essa é a missão do Valentina Bar 18+, o primeiro com temática erótica do Brasil. E a ideia que surgiu durante uma viagem de três amigos pela Europa virou sucesso de público principalmente o feminino na Capital.

– Homem faz associação com “puteiro”, mulher não, porque nunca frequentou. Por isso, a curiosidade em um lugar assim é maior delas – diz o sócio Alexandre Godoy, 31 anos.

Quarta-feira, noite tradicional de futebol na televisão, é uma das de maior movimento no bar. Uma dançarina e um dançarino fazem apresentações burlescas – bem mais elaboradas do que um simples striptease – para grupos de mulheres, casais e até (alguns) homens solteiros.

A Copa do Mundo mudou um pouco o perfil da clientela, que também passou a falar espanhol, inglês, árabe. Na quarta-feira em que a Argentina garantiu a classificação para as oitavas de final, por exemplo, 56% do público era feminino. Em dias normais, a média é de 65% de mulheres.

Nas TVs espalhadas pelo local, filmes do canal criado por Erika Lust, principal diretora de filmes pornôs com estética voltada para o gosto do público feminino, e do projeto holandês The Beautiful Agony. Os vídeos, assim como o clima, vão esquentando à medida em que as mesas, a maioria reservadas, são ocupadas e a noite avança: os olhares desconfiados e os corpos pouco à vontade de quem vai ao bar erótico pela primeira vez se transformam em caras, bocas e poses para fotos com algemas e apontando para os inúmeros e sugestivos luminosos.

– Mulheres interagindo como se não tivesse ninguém olhando pra elas, é um momento de liberação – explica Godoy.

E elas ficam mesmo muito à vontade. Algumas são conhecidas pelo nome, têm seu garçom preferido e até já participaram dos shows. Como Nathalia, que, na sua quinta ida ao “Valen”, já subia ao palco pela terceira vez. Desta vez, sob os olhares surpresos, sorrisos meio tímidos e aplausos orgulhosos da irmã Karoline e das amigas Rayama e Cristina, todas estreantes no bar.


– Até dá para pegar uns caras, mas tem que dar abertura – garante Nathália.
Neymar fora da Copa.

Famosos se mobilizam nas redes sociais
04/07/2014 21h18 - Atualizado em 04/07/2014 23h17

 
Gisele Bündchen e Neymar - modelo posta foto em solidariedade ao jogador (Foto: Reprodução Instagram)

Tentaram desde o início da Copa do Mundo. Mas foi o jogador colombiano Zuñiga que tirou Neymar do Mundial, numa falta cruel e indefensável. O atacante brasileiro fraturou a vértebra na região lombar e não vai se recuperar a tempo para qualquer outro jogo. Os brasileiros estão completamente arrasados, não sem razão.

No Twitter, a hashtag #ForçaNeymar lidera os Trending Topics mundiais do Twitter, tendo sido repetida mais de 102 mil vezes desde o momento da contusão, de acordo com a ferramenta de monitoramento de redes sociais Topsy. Ainda segundo este mecanismo de busca, o nome do jogador foi citado 521 mil vezes em uma hora, após sua chegada ao hospital.

Segundo Zuñiga, "foi uma jogada normal. Nunca tive a intenção de machucar um jogador. No campo, jogo pela camisa do meu país, não sem a intenção de machucar. Estava apenas defendendo a minha camisa.

A partida estava quente, o Brasil estava entrando forte, e nós também. Foi uma jogada normal. Não entrei pensando em fazer mal, só para defender o meu país. Espero que ele se recupere logo. Que não seja nada grave, pois é um talento do Brasil e do futebol mundial".

De acordo com o médico Rodrigo Lasmar, da Seleção Brasileira, Neymar deve usar uma cinta para imobilizar o local, o que limita os movimentos e precisará de quatro a seis semsnas para se recuperar.

O próximo jogo do Brasil será contra a Alemanha, no Mineirão, em Belo Horizonte, nesta terça-feira (08).


RUTH DE AQUINO
04/07/2014 21h55

O mata-mata depois da Copa

O eleitor consciente não quer um presidente que pense e aja como o técnico Felipão

Que país é este que melhora quando tudo para, e a bola rola? Os crimes quase somem, só se pensa positivo, o trânsito flui, os homens choram mais que as mulheres, e o Brasil dá ao mundo uma lição de civilidade e bom humor, ao reverenciar craques de fora e confraternizar entre si e com estrangeiros. O povo se dedica a torcer e festejar, mesmo quando a Seleção decepciona. Hospedar celebrações é uma vocação nacional.

Não é, porém, o futebol que determinará o perfil deste país nos próximos quatro anos. Manter ou mudar? E mudar quem, quanto, onde, com que velocidade para ajudar o Brasil a competir sem vexame em educação, saúde, transporte, segurança, meio ambiente e infraestrutura? O mata-mata eleitoral depois da Copa, quando pendurarmos as rezas, é decisivo e leva jeito de ser desleal.

Vemos políticos decadentes e reincidentes, que não resistiriam a um tira-teima. Muitos passes são negociados na alcova. Apesar da bacanal partidária, a realidade da eleição se limita, no fundo, a dois times: situação e oposição. Os titulares querem decidir tudo logo. O pessoal no banco luta por uma semifinal e uma final. O mata-mata deverá dividir o país.

Por mais que o brasileiro goste de Felipão, de seu ar bonachão e suas fanfarronadas, o eleitor consciente não quer um presidente que diga, como ele: “Gostou, gostou; não gostou, vai para o inferno”. Felipão deu essa declaração na quinta-feira para jornalistas, na véspera do confronto com a Colômbia. Felipão sempre reagiu mal a críticas à escalação ou a seu estilo. Dias antes, chamara só alguns jornalistas amigos para dar entrevista. “Aqueles que não foram convidados, é talvez porque eu não goste tanto”, afirmou Felipão. Ele criticou a imprensa e deu umas cutucadas ferinas, sem citar o nome, em seu antecessor, Mano Menezes. Só faltou lamentar a herança maldita.

A Copa melhorou o humor nacional. Não se respira nada a não ser futebol, e o brasileiro vai para os bares torcer pelas zebras simpáticas. Não há a mais pálida lembrança do caos previsto nos aeroportos ou nos estádios, só reclamações periféricas de obras incompletas, filas e falta de comida. No Rio de Janeiro, as maiores armas não são fuzis ou metralhadoras, mas coxinhas de frango, rodízio de churrasco, caipirinhas, sol e telão na praia, namoros em vários idiomas, feijoada e petiscos nas favelas. Em que próxima oportunidade as cariocas verão tantos homens juntos, animados e disponíveis? Talvez em 2016.

Nossa maior tragédia, até a semana passada, era a queda de um “viaduto da Copa” em Belo Horizonte, com mortes. E a ação criminosa de cambistas. A gangue mais poderosa, suspeita a polícia, envolve um funcionário estrangeiro da Fifa. Muito free-lancer vende ingressos descaradamente nas redes sociais, por uma fortuna. Durante uma semana, tentei em vão comprar oficialmente um ingresso no site da Fifa para assistir ao jogo Alemanha e França no Maracanã. Uma amiga no Facebook disse que tinha um amigo “repassando ingressos”. Entrei em contato. Ele queria R$ 3.500 pelo ingresso de R$ 660, “sem sol nem chuva”. Sério, a quem apelar?

Entre a Copa e a eleição, teremos pouco tempo para debater nossos desafios e entender como cada partido pretende escalar os times de governo. Algumas semelhanças os políticos têm com a Seleção. Falta meio de campo. Os partidos se concentram no ataque e na defesa, abusam de passes errados. Falta conjunto, sentimento de equipe. Talentos individuais não mudam o rumo do Brasil. O desespero faz o capitão do time (ou a capitã) se esconder, com medo de falhar na frente de todos e bater para fora. Líderes de partidos dão chutões para a frente, sem saber onde a Brazuca vai parar.

Dá vontade de dizer que jogar limpo e cadenciado, com criatividade, honestidade e objetivos concretos, para todo o povo levar vantagem, talvez credenciasse nossos políticos a ganhar um voto de coração, orgulho e consciência. Do jeito como anda nossa política, ela desperta vaia, indiferença ou idolatria. Todos esses sentimentos conduzem à derrota do Brasil nos próximos quatro anos.

Como atrair os eleitores juniores, se a maior novidade recente do Congresso foi o implante capilar de Renan Calheiros? Como recuperar a confiança no exercício da política, se as promessas são sistematicamente quebradas, como se nosso voto fosse para cambistas?


Os gols contra do Brasil são péssimos serviços públicos, corrupção em todos os níveis de governo, assaltos seguidos de morte em qualquer lugar e hora, infraestrutura precária, inflação alta, crescimento baixo e aumentos indiscriminados. Os planos de saúde há 11 anos sobem mais que a inflação e terão reajuste de 9,5%, o maior desde 2005. Esse é o verdadeiro mata-mata brasileiro.

05 de julho de 2014 | N° 17850
NÍLSON SOUZA

O PAÍS DAS LÁGRIMAS

A verdade é que somos chorões incorrigíveis. Choramos nas vitórias e nas derrotas. Nosso maior campeão – Pelé – chorou mais de mil vezes em público e nunca teve constrangimento em admitir sua emotividade. Uma das imagens célebres da Copa de 58 é a do menino Pelé fungando no ombro de Didi, consolado por Gilmar. Jamais o execramos por isso, pois suas lágrimas sempre foram associadas às conquistas.

Agora há uma crítica implacável sobre os chorões da Seleção. Menos, gente. Só falta ressuscitar aquela mentira machista de que homem não chora. Chora, sim. E chorar não significa fraqueza. Significa apenas deixar transparecer algum tipo de emoção. Às vezes, é até uma demonstração de coragem.

Tenho um episódio familiar para justificar isso. Meu sobrinho debulhava-se em lágrimas para não ficar na escola, nos primeiros dias de aula. A família já não sabia o que fazer. Um dia, com os parentes agrupados no portão do colégio sem saber como proceder, ele olhou para o grupo e falou sem interromper o berreiro:

– Podem ir. Eu choro, mas fico.

E ficou. Essa me parece a atitude mais digna e mais humana. Se não dá para evitar, chore. Mas não deixe de reagir. Não sei se chorar faz bem ou faz mal, os especialistas divergem sobre isso. Só sei que não chorar é antinatural.

E quando alguém chora compulsivamente, com ou sem razão aparente, não adianta pedir que pare, não adianta criticar, não adianta gritar, não adianta argumentar. O pranto costuma ser ilógico, mesmo quando as causas nos parecem claras e insofismáveis. Adianta, isto sim, entender. Abraçar ajuda. Ouvir ajuda. Compreender ajuda. Ser solidário ajuda muito.

O pequeno príncipe, lembram-se dele, começou a soluçar só de pensar que sua amada rosa estava ameaçada pelo carneiro.

E o genial Saint-Exupéry, depois de admitir sua dificuldade para alcançar o coração do menino, conclui:

– É tão misterioso o país das lágrimas.

É mesmo. Mas o tempo – esse senhor às vezes implacável e impiedoso – também sabe ser sensível e delicado para enxugar rostos molhados.


O colunista escreve semanalmente no 2º Caderno

05 de julho de 2014 | N° 17850
PAULO SANT’ANA

Quem me interessa é o Giuliano

A Colômbia tremeu diante do Brasil, não foi nem sombra da Colômbia dos quatro jogos anteriores. E isso provou mais uma vez que a tradicionalidade se impõe no futebol.

Para o Brasil ser campeão, ao que tudo indica terá de passar pela Alemanha e na finalíssima pela Argentina.

Desde o início da Copa, venho afirmando que a Holanda será a campeã. Então, se não for a Argentina a provável adversária do Brasil na finalíssima, será a Holanda.

Melhor pegar a Holanda do que a Argentina, é sempre mais difícil enfrentar os históricos rivais da nossa vizinhança, Uruguai e Argentina.

Aqui na minha volta, trabalham diversos colegas de ZH. Quando vieram aqui olhar o que estou escrevendo, concordaram inteiramente comigo: a Colômbia se achicou ontem contra o Brasil.

Todos esperavam mais da Colômbia ontem, creio que até o Brasil.

Tanto contra a Colômbia ontem quanto na estreia contra a Croácia, o Brasil viu pairar dúvidas em dois lances decisivos em que as arbitragens optaram por favorecê-lo.

Ontem, o jogador da Colômbia que botou a bola para dentro do gol brasileiro não estava impedido. O outro colombiano, o que estava em posição de impedimento, não participou da jogada.

Contra a Croácia, foi claro que Fred não sofreu o pênalti que o juiz assinalou.

São problemas que pairam sobre os resultados.

À última hora em que escrevo, chega a notícia de que Neymar fraturou uma vértebra lombar. Portanto, estará fora do jogo contra a Alemanha e de uma eventual finalíssima.

O Brasil perde, assim, o seu melhor jogador. É triste, mas o Brasil tem forças para se recuperar desse golpe e chegar até o título.

No amistoso contra o Maringá, quinta-feira, o estreante Giuliano, recentemente adquirido pelo Grêmio, segundo quem viu o jogo, enviado por Zero Hora, teve ótima atuação e colaborou para que Barcos jogasse melhor.

Será que Giuliano não será decisivo para que o Grêmio possa avançar na tabela neste Brasileirão que recomeça em seguida?


O Grêmio anda precisando de um jogador que se destaque entre a meia-cancha e o ataque.

05 de julho de 2014 | N° 17850
CAROL BENSIMON

Procurando o Guaíba

Nunca morei na zona sul de Porto Alegre, mas meus amigos todos moravam lá. Naquele tempo, ainda não existiam os adesivos de orgulho escancarado, “Zona Sul é tudo de bom”. Para falar a verdade, acho que nem a expressão “tudo de bom” tinha sido inventada. Ok, não faz tanto tempo assim.

O Guaíba já era poluído e as distâncias não pareciam mais enormes, como na época em que as pessoas tinham casas de fim de semana em Ipanema. Vi fotos. Adoro essas fotos de coisas perdidas. Ao mesmo tempo, fico me perguntando onde a gente estava quando deixou os coliformes fecais tomarem conta desse que deveria ser o maior patrimônio natural da cidade.

Há muita coisa envolvendo o Guaíba que a gente simplesmente aceita com uma vergonhosa resignação. O fato de suas margens serem salpicadas de propriedades privadas é uma delas. Já levei muito turista pra ver o Guaíba a partir da Zona Sul, e inclua aí os turistas “de dentro”, pouco ou nada acostumados a esse lado da cidade. Passamos o Iberê Camargo.

Estamos buscando a água, queremos chegar pertinho, talvez sentar, ficar olhando para o horizonte como algum tipo de terapia grátis e eficaz. A caçada começa. Primeiro, uma escolinha de futebol. Depois, um clube de velas. A curva traz casas populares, e então mais um clube privado. Posso apontar para a rua e dizer “ali corre o Guaíba”, mas tudo é muito rápido, vago, um traço de água escondido entre muros ou grades.

Tudo bem, admito que há alguma diversão insana nessa busca. Porque de repente o Guaíba está lá, no fim de uma rua sem saída, nós descemos, ficamos naquele quadrado de capim alto, entre duas propriedades privadas, maravilhados, pensando que aquilo podia ser diferente, uma regra, não a exceção, que nós podíamos ser muitos, não apenas dois, com toalhas de piquenique, chimarrão, entusiasmo pela vida e por nossa cidade peculiar.

A questão é: no fim das contas, nós queremos tão pouco! E isso não é demérito nenhum. Estou apenas dizendo que é muito fácil nos satisfazer. Pegue como exemplo o projeto de revitalização do Cais do Porto: será que precisamos de uma torre de escritórios e de um shopping center (sim, o projeto prevê um shopping ao lado do Gasômetro), ou simplesmente de um livre acesso ao Guaíba, alguns bancos confortáveis, banheiros, um punhado de cafés?


Quando vou até a Vila Assunção, onde estão os restos do Timbuka, o lendário bar, tenho a comprovação de minha teoria. Não há banheiros, comércio, tudo é improvisado. No entanto, as pessoas estão lá. Elas nunca saíram de lá, o que não deixa de ser comovente. O Guaíba é delas, nosso, apesar de todos os esforços contrários. Que siga assim. Mas com bancos, píeres e grama aparada.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Jaime Cimenti

Solidões urbanas

Nos Estados Unidos, 75% das pessoas vivem em apenas 2% do território nacional, em cidades. No Brasil não se chegou a tanto, mas a tendência é seguir na mesma direção. Como se sabe, é muito grande a solidão nos centros urbanos em todo o planeta. Solidão (Geração Editorial, 192 páginas), livro de reportagens do consagrado jornalista José Maria Mayrink, reúne os famosos textos publicados em dezembro de 1982 no jornal O Estado de S. Paulo.

Escritos em primeira pessoa, longos, literários, tiveram enorme e instantânea repercussão. Mayrink foi a campo conversar com mendigos, moradores de rua, trabalhadores noturnos, imigrantes, presidiários, cidadãos comuns, padres e freiras reclusos nos mosteiros e conventos, e recolheu histórias comoventes sobre solidão, sensação de abandono, desespero, tristeza e angústia.

Muitos leitores se identificaram com os que vivem sozinhos ou solitários em meio à multidão, aos “sons do silêncio” e aos ruídos, tantas vezes metálicos e impessoais, das metrópoles. O jornalista, escritor e editor do livro, Luiz Fernando Emediato, na introdução, diz que, em 1978, 300 mil pessoas moravam sozinhas em São Paulo, em pequenos apartamentos, no espaço vazio das mansões, debaixo das pontes e dos viadutos e até em túmulos vazios dos cemitérios.

Naquela época, segundo o IBGE, dez pessoas tentavam se matar, todos os dias, de tédio e solidão, em SP. Infelizmente, a série de reportagens de Mayrink, um dos mais premiados, renomados e experientes jornalistas brasileiros, mais de trinta anos depois, mostra atualidade.

Um dos entrevistados, o psicanalista João Batista Ferreira, disse que “a solidão é do mundo, não tanto das pessoas, porque estamos numa época de empobrecimento geral. O mundo está sozinho”. Por aí, mudamos, avançamos, progredimos, nascemos aos montes, enchemos as megalópoles, estamos e não estamos acompanhados nas redes sociais feito os personagens das telas de Edward Hopper, sozinhos em bares, praias, restaurantes, casas, hotéis e domingos. Hopper, o genial pintor da solidão americana.

As fotos e textos do livro de Mayrink são uma inspiração para a gente se enxergar e se encontrar melhor, em meio ao concreto, ao asfalto, aos vapores da gasolina e do diesel e à natureza bonita que ainda temos. É muitíssimo.


Jaime Cimenti

Um livro para os que amam livros

O Retrato (Novo Conceito, 414 páginas, tradução de Bárbara Menezes), romance do escritor norte-americano Charlie Lovett, nascido na Carolina do Norte, em 1962, e que trabalhou como livreiro-antiquário de 1984 a 1990 é, antes e acima de tudo, uma obra para aqueles que amam livros e histórias sobre livros. Lançado pela grande editora Penguin, nos Estados Unidos, em maio passado, o livro, considerado como um romance de obsessão, foi recomendado pela poderosa livraria Barnes and Noble e pode ser adaptado para a tela grande.

Charlie é romancista, professor e dramaturgo, ama livros novos e antigos e suas peças infantis já foram assistidas em mais de três mil montagens diferentes em todo o mundo. Charlie gosta de visitar escolas para conversar com alunos e professores, e seu site charlieovett.com mostra o muito que já viveu e fez. Assim como Peter Byerly, o protagonista de O Retrato, Charlie viveu no interior da Inglaterra. Peter Byerly perde precocemente sua esposa em 1995 e, cheio de tristeza e mais introspectivo que nunca, decide deixar os Estados Unidos e se instalar na Inglaterra, onde passa a se dedicar à restauração e ao comércio de livros raros.

Num de seus dias de pesquisas solitárias, Peter se depara com o retrato de uma jovem muito parecida com sua amada esposa, guardado dentro de um livro. A semelhança é impressionante, mas a aquarela foi pintada há muito tempo. Obcecado, trilhando um caminho entre a era vitoriana e o final do século XX, Peter passa a investigar a origem do misterioso retrato. As pistas acabam por levá-lo a se envolver em um mistério histórico: uma obra perdida do imortal dramaturgo inglês William Shakespeare. Mistura de suspense e paixão, a narrativa leva os leitores a uma viagem pelo tempo, no rastro de histórias sobre livros.

Estranhos fatos podem manchar para sempre a reputação de Shakespeare. Séculos antes, um livreiro encantador, mas sem escrúpulos, Bartholomew Harbottle, arquitetou um plano para transformar um romance obscuro, chamado Pandosto, em uma obra de valor inestimável. Arte, literatura, mais história de amor e solidão estão na narrativa caudalosa e envolvente. O autor mencionou livros e autores reais no romance, mas inventou cenas, ações e diálogos para personagens históricos.


Escritores elisabetanos, colecionadores de livros, bibliotecários, bibliógrafos e estudiosos estão na história, junto com a falta de cuidado do colecionador John Warburton e da ignorância de sua cozinheira Betsy Baker, que permitiram a destruição de mais de 50 manuscritos de peças elisabetanas e jacobinas.