segunda-feira, 8 de janeiro de 2018



08 DE JANEIRO DE 2018
GDI

RS ENTRA NA ROTA DE CUBANOS MIGRANTES

EXPANSÃO DA CHEGADA DE CARIBENHOS na América do Sul é fenômeno identificado pelo Grupo de Investigação da RBS (GDI) após acidente em Santa Vitória do Palmar. Sobrevivente e três mortos na colisão, que ainda tirou a vida de quatro brasileiros, integravam grupo de 25 viajantes saídos da ilha

Os quatro cubanos que sofreram acidente de trânsito em Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Estado, não estavam cruzando o Brasil rumo ao Uruguai para turismo: eram parte de novo fenômeno migratório que sai do Caribe em direção à América do Sul. A maioria nutre o desejo de fazer de Montevidéu um trampolim para os Estados Unidos. Em meio à jornada, há também os que vão ficando pelo caminho, decidindo solicitar refúgio e fixar residência no Rio Grande do Sul, na Fronteira Oeste. O acidente, que matou três cubanos e quatro brasileiros, acabou expondo a nova rota de migrantes caribenhos.

Em 5 de janeiro, na Calle Chile, rua do lado brasileiro do Chuí, a apenas duas quadras da fronteira com o Uruguai, oito cubanos se reuniam em frente ao Hotel Bianca. Falavam ininterruptamente, em espanhol. Era meio de tarde e o sol ardente deixava o clima seco, a poeira tomava o horizonte. Quatro deles, um casal com dois filhos, se hospedaram para passar a noite.

Os outros acharam cara a diária e saíram à procura de uma casa para alugar por 30 dias. Entre eles, estava o casal Carlos Luis Torres Molina, 47 anos, e Ivon Rodriguez Perez, 44. De casamentos anteriores, deixaram quatro filhos (um dele e três dela) em Cuba aos cuidados de parentes. Contaram ter partido de Havana, no início da jornada que costuma levar entre três e quatro dias, em 30 de dezembro. Ao falarem dos companheiros de viagem, a surpresa:

- Saímos de Cuba em um grupo de 25 pessoas, contando com os quatro que se acidentaram no táxi (em Santa Vitória do Palmar). Os conhecemos somente na travessia. Estivemos com eles mais ou menos até a chegada a Boa Vista (capital de Roraima), depois nos separamos - conta Molina, que construía móveis artesanais na ilha comunista.

Os migrantes cubanos ingressam no Brasil pela fronteira entre Guiana e Roraima, na cidade de Bonfim (mapa na página ao lado). Sem ter o visto consular, recebem autorização de turista, que vale por 90 dias. Depois, precisam pedir o refúgio na Polícia Federal (PF), o que lhes dá o direito, mesmo antes do julgamento sobre a aceitação, de ter carteira de trabalho e CPF.

- Não queremos mais voltar. Vendemos tudo em Cuba, até a casa - diz Molina, que conta ter gasto US$ 4 mil para chegar ao sul do Brasil com a mulher.

TENSÃO E DIFICULDADE PARA ENCONTRAR POUSO

Naquela tarde, ele e Ivon, além de ter de procurar por um lugar para dormir, sentiam-se aflitos por não saber como solicitar a permanência na América do Sul. Estavam em dúvida entre ficar no Brasil, que avaliam ser mais próspero, ou seguir ao Uruguai, onde os papéis de legalização saem com mais rapidez.

Decidiram pela opção brasileira, tomaram informações junto às autoridades sobre os procedimentos legais. Anotaram o passo a passo em um bloquinho. Já não estavam mais tão perdidos quanto antes. Mas ainda não tinham onde dormir.

A noite caiu, e Molina começou a ficar nervoso. Ele e Ivon regressaram ao Hotel Bianca, no Chuí, pegaram as malas que estavam guardadas ali, e passaram a fazer as últimas tentativas de arrumar pouso. Tenso, Molina passou a fumar um cigarro atrás do outro, da marca cubana H. Upmann. Moreno alto, magro e forte, faz um tipo descolado, bem vestido e vaidoso. Enquanto Ivon negociava uma casa pelo telefone, sem sucesso, o homem marejou os olhos ante a assombrosa hipótese de dormir ao relento em país desconhecido.

Eram 21h35min quando os companheiros cubanos surgiram para chamá-los a se juntar a outra negociação de aluguel. O casal pegou as suas duas malas e partiu em caminhada, desaparecendo em meio ao amontoado de free shops.

EM SANTANA DO LIVRAMENTO, UMA FAMÍLIA SE MULTIPLICA

Distante 597 quilômetros do Chuí, na também fronteiriça Santana do Livramento, grupos de entre 10 e 15 cubanos chegam à rodoviária quase todos os dias. Seis meses atrás, desembarcaram ali, vindos de Havana, Giovani Pino, 42 anos, sua esposa Sandra Cristina, 24, e o padrinho do homem, Benedito Fernandez, 60. Pino optou por permanecer na cidade, encaminhou os papéis de refúgio e logo foi ajeitando a vida:

- No primeiro dia em que cheguei, o patrão me acolheu, me deu a oportunidade do emprego, um bom salário e teto para minha família.

Fernandez ganha a vida como pedreiro na cidade, e Pino trabalha no restaurante da rodoviária. Faz de tudo um pouco. Reside em um apartamento no hotel que fica em frente ao emprego, de propriedade da mesma família dona do terminal de ônibus. Há quase dois meses, Sandra, que viajou grávida, fez o parto na Santa Casa de Misericórdia, em Livramento. Nasceu Maria Victoria.

- Gosto de Cuba, mas preciso trabalhar. Estou bem aqui, quero ficar por um bom tempo. E agora tenho uma filha brasileira. Acho que isso vai ajudar nos papéis - diz Pino.

De outros casamentos, ele deixou seis filhos na ilha caribenha. Tem um neto. Até o momento, não conseguiu enviar dinheiro aos que ficaram. Está priorizando economizar ao máximo para comprar uma casa:

- Os cubanos migram há 30 anos. Onde há oportunidade, migramos.

ALTERNATIVA AOS EUA NA AMÉRICA DO SUL

A pergunta ainda não plenamente respondida é o motivo de os cubanos estarem escolhendo o Uruguai e, mais recentemente e em número ainda comedido, o Brasil. Dados do jornal El País, de Montevidéu, indicam que 6.350 cubanos ingressaram naquele país entre 2016 e 2017. Mas os números se avolumaram a partir de meados do ano passado.

- A chegada de cubanos irá continuar. Não sei até quando, mas continuará. A solidariedade dos uruguaios é um ponto que ajuda nisso - diz Olga Alemán, presidente da Associação de Cubanos no Uruguai.

- É um país receptivo, nutre boas relações diplomáticas, tem legislação que facilita a emissão do refúgio. Muitos estão ficando por aqui, mas, de fato, a ideia inicial da maioria é fazer de Montevidéu uma plataforma para seguir aos EUA - completa Karla Mateluna, uruguaia que mora no Chuy e integra a ONG Idas y Vueltas, de acolhida a imigrantes.

Com a porta dos EUA cada vez mais fechada a estrangeiros, eles seguem procurando alternativas para fugir da falta de emprego e de dinheiro na ilha caribenha, sobretudo desde o início dos anos 1990, após o colapso da antiga União Soviética. A opção uruguaia é reforçada pelo idioma e pelo fato de muitos cubanos já contarem com parentes no país.

- Em 2016, o então presidente dos EUA, Barack Obama, eliminou a política pés secos/pés molhados, que permitia a todo cubano que chegava à fronteira ter caminho aberto para o refúgio e a residência permanente (green card). Milhares de cubanos estão ficando presos na América Latina a caminho dos EUA. Centenas se encontram neste momento chegando a Chile, Peru, Uruguai, Brasil e Argentina, vindos principalmente da Guiana, um dos poucos países que não exige visto para eles - conta Mario J. Pentón, cubano residente em Miami, jornalista do diário 14ymedio, com noticiário especializado na ilha caribenha.

A cobrança de visto revela o motivo de os migrantes não tomarem um avião no Aeroporto José Martí, em Havana, direto para São Paulo, Montevidéu ou Buenos Aires. Tanto os viajantes quanto o jornalista, crítico do regime dos irmãos Fidel (morto em 2016) e Raúl Castro, explicam que os cubanos estão bloqueados. Para sair de Cuba por via aérea, só conseguem visto consular para Guiana e Rússia. Por isso, seguem até Georgetown, na Guiana, e ingressam no Brasil por via terrestre.

- Se calcula que ao menos 82 mil cubanos chegaram ao Uruguai na última década, tendência que deve aumentar pelas difíceis condições que encontram para viajar aos EUA, onde existe a maior comunidade de exilados - afirma Pentón.

POLÍCIAS SUSPEITAM DE REDE DE ATRAVESSADORES

Autoridades policiais não estão convencidas e demonstram estranheza com o fluxo crescente. Nos bastidores, é recorrente a indicação de que a PF está em busca de informações. A Polícia Civil gaúcha, em suas bases fronteiriças, faz o mesmo. 

Uma das suspeitas é de que redes internacionais de coiotes estejam insuflando a alternativa da América do Sul, criando rotas difíceis e longas para vender soluções. Traficantes de pessoas, no contexto da chegada dos cubanos, foram presos recentemente no Uruguai. E os relatos de jornadas de trabalho exaustivas já começam a surgir. É mais um capítulo da crise humanitária mundial, com ingredientes de um embrionário processo migratório na América Latina.

CARLOS ROLLSING

08 DE JANEIRO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Substituto

- Presidente, o ministro...

- Quer sair, eu já sei.

- Como o senhor sabe?

- Na última reunião do ministério, ele mandou um sobrinho, com um bilhete pedindo dispensa.

- Quem podemos chamar para substituí-lo?

- A primeira condição é que seja alguém qualificado, com competência indiscutível para o cargo.

- A primeira condição não é que seja de um partido que apoia o governo?

- Tem razão. Competência para o cargo é a segunda condição.

- E que não tenha sido citado em alguma delação?

- Certo. Competência para o cargo é a terceira condição.

- E que o Sarney aprove?

- Exato. Competência para o cargo não é tão importante assim. Acho que está na hora de dar um cargo para o PLB neste governo. Você não concorda?

- Concordo. Só que... Não sei se existe um partido com esse nome.

- Não existe? São tantas siglas, que eu às vezes me perco. O que você me diz do (NOME OMITIDO PARA EVITAR PROCESSO)? Vi ele no noticiário por estes dias, não me lembro fazendo o quê.

- Foi filmado destruindo uma boate no Rio, distribuindo gorjetas de cem dólares e dando vivas à Odebrecht.

- Ele foi preso?

- Foi, mas o Gilmar soltou.

- Existe alguma outra coisa contra ele?

- Bom... Na semana passada, ele matou a mãe. Sem motivo.

- Além disso.

- Nada.

- O partido dele é dos nossos?

- É.

- Hmm. Vou ter que pensar...

- Presidente, posso fazer uma sugestão? Meu filho está desempregado e...

L.F. VERISSIMO

sábado, 6 de janeiro de 2018


06 DE JANEIRO DE 2018
LYA LUFT

Dicionário para crianças


(Esta é mais uma homenagem ao meu amado filho André, menino desta história real, que, já homem de 51 anos, nos deixou há pouco mais de dois meses.)

O menino de uns oito anos chegou até o pai e pediu que explicasse uma palavra. O pai olhou, pensou e disse que agora ele já estava grandinho e podia procurar num dicionário. E deu-lhe um dicionário escolar, o chamado Luftinho, explicando como se fazia. A criança sentou na poltrona, olhou, folheou, leu, sacudiu a cabeça: "Tá difícil, pai, não tem dicionário pra criança?". Hoje deve ter, mas naquele tempo não tinha. Nem computador, nem Google, nada.

O menino então decidiu: "Eu vou escrever um, posso?". Claro que podia. Pegou um arquivo, daqueles bem antigos, pequeno, o alfabeto ele conhecia, escrevia direitinho. Depois de uma semana chuvosa de férias, quando os pais tinham esquecido o assunto, lá chegou ele com o arquivo na mão: "Olha aqui o meu dicionário. Este as crianças vão entender".

Afogado. Afogado é uma pessoa que se afoga. Na praia, eu vi pessoas afogadas e os salva-vidas iam lá e salvavam elas. Os salva-vidas são pessoas que salvam as pessoas. Um homem que se afoga mas fica vivo é porque não tinha se afogado muito. Eu nunca me afoguei.

Alface. Alface é uma verdura. A alface é de comer, mas eu não como alface. Ela é verde na folha e branca no cabo. Minha mãe diz que salada faz bem pra saúde, mas eu só gosto de salada de batata.

Amigo. Amigo é uma pessoa que gosta da outra. Daí é amigo. Eu sou amigo da minha família e da família da nossa empregada. A gente devia ser amigo de todo mundo. Mas às vezes não dá.

Seco. Seco é o contrário de molhado. Por exemplo: quando não chove, fica tudo seco. Quando o sol fica raiando muitos dias, tudo fica seco. Sem sol, nada fica seco. Aí a mãe reclama que está tudo úmido. Úmido é um tipo de molhado. Mas o sol não pode raiar o tempo todo. Porque daí todas as plantas se queimam e então também tem que existir a chuva. Que é molhada.

Xixi. Estou botando essa palavra porque só conheço essa com x. O xixi é um líquido que sai da barriga da gente. O xixi é amarelo. O xixi é importante, porque senão onde íamos botar toda a água que a gente toma?

Zebu. O zebu é um animal. É um tipo de boi com uma bola nas costas. Ele tem uma cabeça, um corpo, quatro pernas, um rabo, dois olhos, uma boca, um nariz, um pé, outro pé. E mais dois pés. Aí uns homens chegam lá e matam ele e tiram a carne dele e comem. Isso eu acho muito triste. Mas, se não fosse assim, como é que a gente ia comer carne?

(Deixei esta para o final, fora da ordem, porque mostra quem ele já era; o sublinhado é meu.)

Bonito. Bonito é uma coisa que se chama de bonito. Por exemplo: uma pessoa que seja o contrário de feia é bonita. Eu, minha mãe, meu pai e meus irmãos somos todos bonitos. Mas o mundo que Deus fez é o mais bonito de tudo.

LYA LUFT



06 DE JANEIRO DE 2018
PAULO GERMANO

O SEGREDO DE ROBERTO JEFFERSON

Roberto Jefferson é um homem gentil. Gentil é pouco, ele é afetivo mesmo, carinhoso, de uma amabilidade contagiante. Roberto Jefferson é um queridão, essa é que é a verdade.

Também é um corrupto confesso, claro, mas isso não me interessa agora. Você diz seu nome a Roberto Jefferson uma única vez, e nunca mais, nem daqui a 15 anos, ele chamará você de outra coisa que não seja seu nome.

Aliás, ele certamente não sabia o nome da repórter que perguntou, durante aquela entrevista a um grupo de jornalistas em frente ao Palácio do Jaburu, por que ele estava chorando. Pouco antes, Michel Temer havia confirmado a filha de Jefferson como a nova ministra do Trabalho.

- É um resgate, sabe, querida? - respondeu ele à repórter, a quem só chamou de querida porque não sabia seu nome, para depois repetir mirando o horizonte: - É um resgate...

Isso tudo com a voz trêmula e os olhos encharcados. Referia-se a um resgate da dignidade de sua família, que padeceu quando Jefferson foi cassado, condenado e preso por causa do mensalão. Hoje, depois desse fundo do poço, o ex-deputado figura de novo entre os homens mais influentes da República. Como ele conseguiu?

Porque é um psicopata? Um dissimulado? Porque tem dinheiro, e dinheiro compra tudo?

Peguemos outro exemplo.

Paulo Maluf, talvez o maior símbolo de corrupção da nossa história recente, dá presente aos funcionários no aniversário e abraça qualquer pessoa que o aborde na rua. Uma vez - eu não estava lá, mas um colega estava -, quando a Justiça aceitou mais uma denúncia contra ele, jornalistas de todos os veículos de São Paulo posicionaram-se em frente à sua cinematográfica mansão nos Jardins. O sol era forte e o pessoal já buscava uma sombra para entrevistar o homem por ali, até que a porta se abriu.

- Entrem, meus amigos, a casa é de vocês! - sorriu Maluf, estendendo a mão para cada um deles.

E, num canto da gigantesca sala de estar, havia uma mesa com biscoitos, sanduíches, refrigerante, café e suco de laranja. Boa parte dos repórteres se atracou na comilança e, na hora da entrevista, o anfitrião sorriu de novo:

- Não esqueçam que só o doutor Paulo (Maluf se refere assim a ele mesmo) é quem dá cafezinho! - e todos gargalharam, desarmados.

José Sarney, quando era presidente do Senado, conseguiu um emprego e liderou uma vaquinha para ajudar um pobre coitado que invadiu a Casa e, equilibrando-se sobre o parapeito da galeria mais alta do plenário, ameaçou se matar porque tinha fome. Minha amiga Kelly Matos, que durante anos cobriu o Congresso em Brasília, sempre se impressionou com a amabilidade de dois controversos senadores: Renan Calheiros e Romero Jucá.

Não é à toa que todos estão no poder há décadas. Talvez um que outro seja, de fato, psicopata, mas não são suas condições psíquicas que os levaram até onde estão. Tampouco foi o dinheiro. Porque o dinheiro pode comprar as pessoas por um curto período, mas o que faz delas aliadas durante uma vida inteira é isso aqui, ó: afeto.

Se você dá afeto, se presta atenção no outro, se sorri para as pessoas e consegue ajudá-las, aí a dívida de gratidão torna-se eterna. No ambiente profissional, isso é comum demais: conheço o chefe de uma faculdade que há anos prejudica o próprio trabalho por conta do alcoolismo, mas durante décadas ele foi tão generoso com os colegas, que ninguém tem coragem de demiti-lo.

As pessoas duram mais em seus cargos, têm mais tempo de sucesso quando são afetuosas. Se meter a mão no dinheiro público faz parte do cargo, dificilmente alguém vai delatar esse larápio - nosso consolo é que Maluf enfim foi preso. Só que aos 86 anos.

Eu aqui, sem refletir muito, consigo pensar em pelo menos 10 profissionais mais talentosos do que eu, mas que, por serem grosseiros, turrões ou geniosos demais, não conseguiram até hoje decolar na carreira. Gosto do capítulo 13 da carta aos coríntios, em que Paulo diz o seguinte: "E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria".

Ninguém chega a lugar algum sem amor. É ele que compra as pessoas. É o que fez Roberto Jefferson se reerguer, é o que leva as pessoas ao poder, é o que traz sucesso e felicidade. Mas a Justiça precisa estar acima de tudo - inclusive do amor.

PAULO GERMANO


06 DE JANEIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Ou você amadurece, ou se falsifica

Você acorda, vai ao banheiro, se olha no espelho, faz a barba ou pinta o olho e inicia mais um dia da sua vida, mas é sua vida mesmo, ou você interpreta um personagem? Você amadureceu pra valer ou virou uma cópia falsificada de um adulto? Tenho visto alguns humanos adulterados por aí, gente grande made in Paraguai.

Éramos crianças inocentes e protegidas, até que os anos passaram. A adolescência nada mais é do que você percorrendo, sozinho, um amplo deserto e enxergando, ao longe, aquela poeirinha no horizonte que, nos filmes de aventura, indica uma cavalaria armada ou uma tribo de peles-vermelhas se aproximando, qualquer coisa que pareça ameaçadora na imaginação e que assustará ainda mais quando chegar perto - e você não tem nem um reles pangaré pra montar e escapar desse ataque iminente. Sabe que terá que ser muito homem - ou muito mulher - pra enfrentar.

Aquela poeirinha vai se agigantar na sua frente. E então você verá que não são malfeitores com rifles em punho nem os índios estereotipados dos faroestes. São escolhas a fazer, relações amorosas, dúvidas e dívidas, filhos pra educar, a finitude pra lidar e posicionamentos exigidos pela sociedade: a maldita esquadra da maturidade, que não está a fim de negociar com seu amadorismo.

E agora?

Quem encara paga um preço alto. Não tem o recurso de se amparar nas costas de papai e mamãe, não tem a hipótese de transferir as decisões para o dia de São Nunca. Com a coragem que nem sabia que tinha, você assume sua identidade, dá um trato nos seus medos e começa a trajetória: trabalha, rala, ama, sofre, se expõe, se impõe, fala, cala, sofre, destrói, constrói. Mas constrói mesmo. Uma vida legítima. Uma vida sua.

Ou.

Ou se escora. Na mãe velhinha, no pai doente, na mulher com quem está casado há 42 anos, no namorado rico que virou a salvação da lavoura, se escora na chapação, no álcool, nos medicamentos tarja preta, numa idealização fraudulenta ("Sou ótimo, pena que o mundo não reconheceu meu brilhantismo"), se escora na muleta que estiver mais à mão e distribui sorrisos sedutores e desculpas esfarrapadas: sou uma farsa, mas uma farsa de terno e gravata, uma farsa em vestido de baile.

Falsificam-se a si mesmos os que não têm raça. Os que dependem de mil e quinhentos empurrões e, mesmo empurrados, não ganham velocidade, ritmo, rumo. Ficam sempre no meio do trajeto, soluçando, reclamando, retrocedendo à memória das longas tardes no jardim de infância, quando, em segurança, sabiam que seus pais estariam esperando, no final do dia, no portão.

Na maturidade, não tem ninguém esperando no portão pra nos levar pra casa, mas tem uma caminhada excitante rumo a um prazer que só quem se arrisca, conhece. O prazer da independência. O prazer de ter a sua assinatura avalizando cada uma de suas conquistas.

Já quem se falsificou num adulto que parece que é, mas não é, desperdiçou a chance de ter uma vida autêntica porque se assustou com a poeira no horizonte, previu que seria uma luta perdida, que não daria conta. Mas daria. O gigante, em qualquer circunstância, somos nós.

MARTHA MEDEIROS

06 DE JANEIRO DE 2018
CARPINEJAR

O homem conversa da mesma forma que dirige


O que mais incomoda as mulheres não é o que o homem fala, é o que ele não deixa ser dito.

Faltou na escola no dia em que a professora disse: um de cada vez.

Sempre interrompe, sempre se antecipa e se sobrepõe à mulher no momento em que ela está se explicando. Usa o tom grave de sua voz para abafar as delicadezas e refutar qualquer sinal de contrariedade. Não precisa nem gritar para bloquear o pensamento de sua namorada ou esposa: explora a violência do timbre para calar e intimidar. Ele não quer registrar nada que o ponha em dúvida - só que viver assim, na mais completa tirania, de apenas um lado ter razão, é impossível.

Pergunte a um gago como é irritante alguém completar as palavras por ele.

A maior parte das brigas não surge de uma desavença explícita, vem da injustiça da interrupção, do jeito falhado que se conversa.

É só ausência de educação mesmo, porque não custa esperar o outro finalizar as suas ideias para, então, expor os seus comentários.

Mas o homem conversa como ele dirige: cortando os carros, atropelando os sinais, não dando pisca-alerta para mudar de pista, buzinando, abrindo o vidro para xingar, aproveitando a inexistência de radar para aumentar a velocidade. Alimenta o mesmo padrão agressivo no trânsito do verbo.

Sua indisposição enerva o mais corriqueiro papo. Toda avaliação é vista como crítica, todo apontamento é acolhido como defeito, toda atenção é identificada como ameaça.

Como a mulher não consegue terminar o seu raciocínio, acredita que ele não escutou o que apresentou antes e busca repetir do início. A repetição demanda o dobro de tempo e paciência previstos na discussão de relacionamento. O que era para ser breve vira, forçosamente, uma maratona de soletração.

O machismo é que ele jura que sabe o que a mulher vai falar. Ele passará uma vida desconhecendo quem o acompanha, desperdiçando infinitas chances de aprender o que ela é e o que ela procura em sua vida pois nunca ouviu nenhum desabafo até o fim.

CARPINEJAR

06 DE JANEIRO DE 2018
CLAUDIA TAJES

NUVEM particular


Alguém me contou uma boa notícia relacionada a uma pessoa próxima, pessoa essa que vive sozinha e com muitas dificuldades, sempre às voltas com problemas de dinheiro, de saúde, de calotes, enfim, leva uma existência complicada, a tal pessoa. Falo bastante com ela, se não posso ajudar de perto, ao menos ouço e procuro sugerir algumas saídas. É o que dá para fazer. Fiquei feliz como se a boa nova tivesse a ver comigo. 

Nas horas seguintes, esperei por um telefonema da pessoa, que me liga várias vezes por semana para relatar de uma unha encravada a um pequeno furto, de uma gripe que não cura a um salário que não veio. O teor varia, mas é sempre péssimo. Até que não me aguentei. Achei que a pessoa contar uma vitória, para variar, faria bem a nós duas. Nada como começar o ano com a autoestima melhorzinha e poder dividir isso.

Depois de muitos minutos de conversa, e de um interminável desfile de perrengues, desliguei. A pessoa simplesmente não falou uma palavra sobre a boa nova. Passou batido por uma notícia que, a menos que eu muito me engane, vai fazer com que o 2018 dela seja bem melhor, já que envolve trabalho e remuneração. Ou seja, paz e tranquilidade, se a gente botar na ponta do lápis. Quem passou 2017 se equilibrando para pagar as contas entenderá.

Meus ouvidos passaram o dia inconformados. Então, o papel deles é o de lata de lixo e mais nada? Na hora em que poderiam se alegrar com uma novidade animadora, são esquecidos? Já era noite quando não me aguentei e mandei uma mensagem: mas vem cá, não aconteceu isso e isso para ti? A resposta chegou bem mais tarde, breve como um pesar jamais será: sim!

Sim, um ponto de exclamação e nem mais uma palavra. Nem sequer uma carinha sorrindo.

Fiquei pensando no meu histórico com ela. Quando as coisas estão mal, ou seja, sempre, a criatura narra tudo com riqueza de detalhes e conclui que não há o que fazer, que não há jeito a dar, que não há esperança à vista. 

Nem sempre estive sozinha nessa empreitada. Há dois anos, amigos que conheceram a tal pessoa em situação diferente conseguiram atendimento psicológico para ela. Aconteceu o mais ou menos esperado: ela não foi às consultas. No primeiro dia, o ônibus atrasou; no outro, não tinha guarda-chuva para enfrentar a tempestade, então errou o endereço etc, etc, etc. Muitos desistiram ali.

O pior é que também eu, ainda que em tom de queixa divertida, costumo enumerar infortúnios por aí. Depois desse episódio com a pessoa das minhas relações, essa que gasta o latim se lamentando, mas se economiza para dizer que há luz no fim do túnel, decidi mudar de atitude. Não me queixo mais de nada, juro. Nem para fazer piada. Ou talvez faça uma piadinha de vez em quando, mas sem estender demais. Ou talvez estenda um pouquinho, mas sem deixar a peteca cair. Ou talvez deixe a peteca cair, mas junte rapidinho. Prometo.

O ano já chegou chegando. Se a gente não tirar a nuvem particular de cima da cabeça, aí sim é que ele passa por cima mesmo. Força na peruca e vamos em frente.

Recebi um e-mail curioso na semana passada a respeito da coluna "Mais amor, menos Gilmar". Embora estivesse claro - claríssimo! - que o Gilmar em questão era o Mendes, um leitor, chamado Gilmar, ficou ofendido com o uso do nome. Publico aqui o e-mail dele. Acredito que outros cidadãos chamados Gilmar não ficaram brabos comigo. Mas se, por acaso, algum se sentiu atingido, já sabe: não tinha a ver com o nome, tinha a ver com o homem.

"Sou com muito orgulho Gilmar (meu pai, no ano de 1958, ano em que nasci, deu-me este nome em homenagem a um grande Gylmar). Detesto Gilmar Mendes talvez mais que você. Por mais que teu texto tenha endereço certo, generalizaste, mesmo que talvez não tenhas tido intenção. Mas ficou mal. Um pouquinho mais de sensibilidade ajuda a escrever um texto melhor."

CLAUDIA TAJES


06 DE JANEIRO DE 2018
PIANGERS

E-mail pra mim mesmo

Acho que nos mudamos por causa de uma discussão sobre o ar-condicionado na sala. Tínhamos falado sobre nos mudar en passant, quem sabe mudamos ano que vem, e, quando o verão estava chegando e a Ana quis instalar um ar-condicionado na sala, eu disse: Mas não íamos nos mudar?. E ela: Mas não definimos nada. E eu: Ora, por mim está decidido. E ficamos felizes de decidir uma coisa tão importante assim, como quem decide ir pra praia no fim de semana.

Foi no final do ano passado que eu comecei a sentir medo da decisão. Como faço todos os anos, entrei no site futureme.org e escrevi um e-mail pra mim mesmo, que será entregue no dia 31 de dezembro do ano seguinte. Você pode achar estranho mandar um e-mail pra você mesmo, mas, acredite: é um e-mail para uma pessoa diferente. 

Você hoje é diferente de você daqui um ano. Todos os anos, percebo isso. Meus e-mails são sempre agradecidos pelo ano que passou e sempre apreensivos pelo que vem pela frente. Sempre que o e-mail chega relembro momentos muito bonitos que vivi e, mais importante, consigo perceber o ridículo dos meus medos.

O e-mail que escrevi pra mim mesmo em 2016 acabou de chegar. Nele, descrevo como estava nervoso pelo que vinha pela frente. Tinha acabado de tomar algumas das decisões mais ousadas da minha vida: mudar de cidade, cancelar um contrato com a mais importante empresa de comunicação do Brasil, abrir mão de um trabalho que eu adorava fazer. No e-mail, escrevi que tinha medo que tudo desse errado. Que faltasse dinheiro. Que eu me tornasse obsoleto. Que ninguém se lembrasse mais de mim. Em uma linha agora cômica, escrevo: "Tenho medo de que, ao priorizar minha família e abrir mão de segurança profissional, eu acabe ficando sem nenhum dos dois. E se, depois de abrir mão de tudo isso, minha esposa decida se separar de mim?".

São medos, é isso que temos. São nossos medos que nos impedem de viver. Nos mudamos para um apartamento mais simples, e tive mais tempo com a família. Por muitas vezes, fiquei feliz de não estar mais naquela corrida louca por estabilidade e segurança. Este ano tudo pode acontecer. Veremos o que mudou quando meu próximo e-mail pra mim mesmo chegar.

06 DE JANEIRO DE 2018
RBS BRASÍLIA

UMA ESPLANADA DE ABSURDOS


O presidente Michel Temer não escolheu um ministério de notáveis quando montou a primeira equipe e, pelo andar da carruagem, terminará o governo com o time ainda pior. Além de ter aparecido na delação da Odebrecht, a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) foi condenada em um processo trabalhista porque não assinava a carteira do motorista. Se não fosse um escândalo, seria a típica piada pronta. 

E é essa deputada que vai assumir o Ministério do Trabalho. Questionado sobre se essa revelação poderia impedir a nomeação, o ministro Carlos Marun (Secretaria de Governo) afirmou que não. O Planalto está contente com ela e recuar da decisão seria um absurdo. Dentro da lógica do Planalto, o que interessa é cada ministro representar votos na Câmara. Filha do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, Cristiane promete carregar o apoio do partido à reforma da Previdência. É a tal governabilidade.

Na semana que passou, a volta de Jefferson aos holofotes chamou atenção. Mas outros nomes polêmicos também comandam as negociações por cargos, sem qualquer segredo. Condenado no mensalão, Valdemar da Costa Neto articula pelo PR. Investigados na Lava-Jato, Ciro Nogueira e Romero Jucá, respectivamente, comandam o toma lá dá cá pelo Progressistas e pelo MDB. Ex-ministro da Indústria e Comércio, Marcos Pereira - também citado na Lava-Jato - deve reassumir o comando do PRB. O resultado dessas conversas, portanto, está longe de qualificar ou garantir qualquer renovação na maneira de comandar a Esplanada.

Ao assumir a Presidência da República, Temer fez uma escolha clara: uma equipe econômica de primeira, alinhada com as expectativas de mercado, e o restante da Esplanada livre para barganhas. Neste último ano de governo, o desembarque de políticos de diferentes partidos para a campanha leva o Planalto a uma reforma ministerial forçada. Mas a regra do vale-tudo continuará a mesma.

UMA EXCEÇÃO

Ao contrário de outras pastas, a tendência no Ministério do Desenvolvimento Social é de que o secretário-executivo, Alberto Beltrame, seja o substituto de Osmar Terra, que deve se afastar para concorrer à reeleição na Câmara. Técnico, Beltrame conhece a fundo os principais programas da pasta.

CAROLINA BAHIA

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018


Perspectivas 2018 



Sim, a gente está careca de saber que, no Brasil, até o passado é imprevisível, que não dá para fazer profecias e perspectivas nem em relação ao tempo que foi. Semana passada falei do imprevisível 2017, com suas extremidades e intensidades marcantes. O ano já foi, com suas temeridades, seus debates, controvérsias, escândalos e delações do fim do mundo, que, felizmente, não acabaram com o planeta.

Ninguém acabou o planeta, em 2017, e o Internacional, como se sabe, retornou para a série de onde não deveria ter saído. O tempo e o mundo não terminaram. O último dia do ano não foi o último dia do tempo e a terra segue rodando em volta do sol. Grande novidade. Depois das farras gastronômicas e das esbórnias etílicas, quem pode vai para a praia ou para a serra descansar, enquanto outros seguem tocando os barcos. A vida continua nas ruas, enquanto uma bala perdida não a acabe.

As pessoas estão procurando ter esperança em 2018. Esperança do verbo esperançar, e não apenas ficar esperando o Godot e algum maná que caia do céu, em forma de chuva, mandado por Deus. Na economia, os economistas, empresários e jornalistas do ramo apostam em continuidade do crescimento para 2018 e muitos falam que a economia se descolou da política, o que é bom, do jeito que nossa política anda.

Espera-se que os governos não fiquem atrapalhando a vida dos contribuintes, pessoas físicas e jurídicas. Os políticos, os governantes e as autoridades de toga têm alguns meses antes das eleições de 2018 para tentar mudar a imagem que está aí. As urnas, com voto impresso, podem mandar muitos para casa. Eles que pensem bem, como disse o outro, na porta da casa de político sem mandato só o vento bate.

Na área cultural, seguiremos com muitos shows - Andrea Bocelli é uma das celebridades que vão pintar por aí. Música, artes plásticas, cinema, literatura, teatro e outras atividades culturais ainda constituem o que temos de melhor. Ah, tem o futebol, claro, e aí tomara que os cartolas não pisem, literalmente, na "bola", que, como se viu, os homens da toga e a cana dura podem pegar forte.

Tomara que os censores de plantão fiquem quietinhos, paradinhos. Você conhece algum censor que tenha entrado para a História? Tomara que os vários segmentos da sociedade e as dezenas de países do mundo consigam se entender, ao menos um pouco, em 2018, com suas muitas e diversas demandas. Tomara que a gente consiga pensar mais no bem comum do que nos interesses individuais. Tomara que a gente tenha mais Brasil e menos Brasília em 2018.

Tomara que, neste ano, o tráfico e o consumo de drogas diminua e, aí, caiam os índices de criminalidade, que nos deixam atarantados. Tomara que as fake news em 2018 sejam só do bem e que nas redes sociais haja menos ódio e ofensas. Tomara que o Inter coloque muitas faixas no peito e troféus na sala em 2018. Espera-se que no ano novo no Oriente e no Ocidente haja mais entendimento e solidariedade.

a propósito...

O título deste texto é Perspectivas 2018, mas vocês certamente notaram que, depois de algumas linhas, ao invés de falar em perspectivas, comecei a falar em desejos e esperanças. Pensando bem, acho que é melhor assim. Melhor falar em bons desejos, sonhos e esperanças do que meramente arriscar profecias e perspectivas para o ano novo.

Perspectiva é melhor na óptica, no desenho e na pintura, por exemplo. O futuro a Deus e a nós pertence. Com grandes ou pequenos atos no cotidiano, na pequena ou na grande História, podemos pensar em sermos melhores, dentro um planeta mais limpo, pacífico e aceitável.

De qualquer jeito, melhor prever bom, ótimo 2018 e é isso que desejo a menos oito ou nove fiéis e queridos leitores. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/colunas/livros/604372-francisco-de-araujo-reconta.html)

Francisco de Araújo reconta Detalhe da capa do livro 

REPRODUÇÃO/JC Recontagem - De Chico a Francisco (AGE Editora, 340 páginas), de Francisco de Araújo Santos, padre por muitos anos, professor universitário na Pucrs e na Ufrgs e executivo em várias empresas, apresenta relatos pessoais e profissionais de uma vida plena de curiosidade intelectual, viagens de estudo a Nova Iorque e Londres e experiências em empresas, assim como aspectos familiares e de convívio com muitos amigos, mundo afora. 

Nascido em Porto Alegre em 17 de abril de 1935, numa chácara na avenida Carlos Gomes, depois Francisco morou numa casa na rua Padre Chagas; na 24 de Outubro, 847; em Paris, no Rio de Janeiro, Londres e Nova Iorque, tornando-se verdadeiro cidadão do mundo, estudando, lecionando, administrando empresas e escrevendo os livros A emergência da modernidade; O Liberalismo; Empresa aberta; Humanismo de Maritain no Brasil de hoje; e Lucro e ética, este último com Luiz Pilla Vares. 

Mas Francisco nunca esqueceu dos anos de infância, do umbigo porto-alegrense e do apelido Chico Labirinto, que se aplicava ao inquieto menino que foi. No livro, em meio a ideias, fatos históricos e pessoas, Francisco fala com emoção dos muitos amigos que granjeou ao longo da vida social, empresarial e acadêmica, como Erico Verissimo, Irmão Otão e Lya Luft. Ao fim e ao cabo, o professor lembra das palavras que ouviu de um professor no Colégio Catarinense, em 1955, que citou um poeta italiano: "A gente se lembra triste das coisas que nos fizeram felizes, e se lembra sorrindo das coisas que nos doeram." Francisco escreveu: no fim da jornada, sinto-me livre e grato. 

Agora, sim, as lembranças agradáveis se vestem de melancolia e saudade. As lembranças amargas se desfazem em poeira. O capítulo final trata das poderosas lembranças dos tempos do velho casarão do Colégio do Rosário, onde eram dadas as aulas do curso primário. 

O volume apresenta muitas fotografias, que auxiliam a compor quadros da memória. Em várias cidades, em muitos ambientes acadêmicos e corporativos, sociais e familiares, Francisco de Araújo Santos viveu muitas vidas, em muitos tempos, em meio a muitas pessoas, livros e estudos. Viveu e vive, agora recontando todas as lembranças, oferecendo aos leitores o legado de uma existência intensa, movimentada e movida, sobretudo, por uma saudável curiosidade de professor, que segue ativa. 

lançamentos 

Volta ao mundo - 407 dias em 42 países (Editora Inverso, 260 páginas), do casal Thainá Cabral e Eduardo Glitz, partiu de uma ideia de conhecer quatro ou cinco países e acabou com uma verdadeira volta do mundo. Apenas com malinhas de mão e planos de viagens, o casal percorreu 42 países em todos os continentes. 

O volume tem textos rápidos, ágeis, e belas fotos em cores. A renda da venda do livro se destina ao Solar Meninos de Luz, do Rio de Janeiro. Segredos e conselhos de um headhunter - Desvendando o mistério da seleção de executivos (Evecom Comunicação e Marketing, 188 páginas), do psicólogo, especialista em recursos humanos e executivo de empresas Rubem Souza - hoje, dono da consultoria RSA, apresenta ideias para quem quer ser feliz, bem-sucedido e vencedor no concorrido e enigmático mercado de trabalho. 

Dois (Tordesilhas, 184 páginas), segundo romance do professor-doutor em Teoria Literária e Literatura Oscar Nakasato, resenhista do Ilustrada da Folha de S. Paulo, narrado, com escrita sensível, por duas vozes, traz as vidas de dois irmãos idosos, de identidades singulares. Personalidades quase opostas, dentro da mesma família, revelam dores, idiossincrasias e cegueiras, mas que impedem o leitor de um julgamento incisivo. 

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/01/colunas/livros/604372-francisco-de-araujo-reconta.html)

05 DE JANEIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

A sepultura erótica de Victor Noir


A estranha mensagem de WhatsApp que recebi do meu amigo Cabeça perguntava o seguinte:

"Já ouviu falar de Victor Noir?".

E nada mais.


Fiquei especulando. Victor Noir, Victor Noir... Esse Noir, evidentemente, não é aquele nome unissex brasileiro, na certa é sobrenome francês, pronunciando-se "Noah", de "negro", até porque o prenome, Victor, com cê incrustado bem na vesícula, é clássico na França pelo menos desde Victor Hugo, e estou falando do autor de Os Miseráveis, não do eficiente centromédio do Grêmio de 1977, aquele que só marcou um gol na vida - de pênalti.

"Não, não lembro de ter ouvido falar de Victor Noir", foi a resposta que dei ao Cabeça, já temendo ser censurado por minha ignorância. Então, a mensagem seguinte que ele me enviou foi ainda mais enigmática: "Pesquisa".

Foi o que fiz. Naquele exato instante, estava no Trader Joe?s, um supermercado daqui, abastecendo a despensa, porque haveria uma blizzard, terrível tempestade de neve que é mais do que tempestade: é borrasca e fúria. Ocorre que a curiosidade me dilacerou e, ali mesmo, entre as gôndolas de iogurte grego e pita bread, corri ao socorro do Google e indaguei com sofreguidão: "Quem foi o maldito Victor Noir?".

O resultado dessa rápida pesquisa, como previra o Cabeça, me deixou encantado. Victor Noir foi um jornalista francês da época do imperador Napoleão III, sobrinho do Napoleão quente, aquele que escondia a mão e coçava a barriga. Certo dia, o editor-chefe do jornal em que trabalhava Noir escreveu um artigo criticando o primeiro Napoleão, o quente, e um sobrinho-neto do imperador, um obscuro fidalgo chamado Pierre, se ofendeu e desafiou o jornalista para um duelo. Como de costume na época, o editor-chefe mandou emissários para combinarem as regras do combate com Pierre. Um desses emissários era, precisamente, o nosso Victor Noir.

Quando eles chegaram, Pierre, que era um irritadinho, sentiu-se insultado, disse que não tinha nada a tratar com subalternos e que só falaria com o editor. Victor se tomou de brios, eles discutiram, Pierre sacou de uma pistola e o matou. O assassinato foi um escândalo e gerou grande revolta em Paris, mas não é isso que torna Victor Noir um personagem interessante, e sim o fato de que, anos mais tarde, um escultor fez uma estátua para representá-lo em seu túmulo, situado no famoso cemitério Père-Lachaise, em Paris. É uma belíssima obra de arte: o Victor Noir de bronze está deitado em decúbito dorsal, na cena que deve ter sido vista um segundo depois de sua morte. Os lábios estão entreabertos, os braços estão estendidos, a cartola está caída ao lado do corpo. E, na altura da virilha, vê-se uma protuberância: como acontece em muitos casos de enforcamento, Victor Noir teve uma ereção na hora da morte.

Essa estátua impressionante e realista, deitada sobre a sepultura de Victor Noir, está esbranquiçada devido à erosão do bronze, com exceção de duas partes: a boca e o nariz e o volume em que assoma o pênis debaixo do tecido das calças. É que, por algum motivo, espalhou-se pelo mundo a superstição de que a mulher que beijar a boca de Victor, acariciar-lhe o órgão genital e deixar uma flor em sua cartola ganhará, em troca, fertilidade e profícua vida sexual.

Há, nas redes, admiráveis imagens de lindas mulheres beijando os lábios frios da estátua, afagando-lhe o membro rijo e até de algumas deitadas sobre Victor ou acavaladas nele, como se estivessem em pleno exercício do prazer.

Esse Victor Noir mal havia completado 21 anos de idade quando morreu. Não teve nem tempo para escrever algo digno de nota, não chegou a produzir nada que fosse realmente expressivo, em vida. Mas, na morte, transformado em bronze inerte, Victor Noir encontrou a glória. Seu assassino morreu no esquecimento, enquanto Victor Noir seduz mulheres do mundo todo há um século e meio. Pode haver façanha maior? Pode um homem desejar destino mais sublime?

Tinha razão, o meu amigo Cabeça. Victor Noir merece nossa reverência. Victor Noir é meu herói.

DAVID COIMBRA


A hora de agradar o chefe

Rafael Souto

Tenho observado como o jogo político dentro das organizações está ultrapassando limites da razoabilidade. É fato que fazer propaganda do próprio trabalho é importante.

No entanto, isso funciona como lenha na fogueira das vaidades. Reforça comportamentos nos quais as pessoas precisam defender suas áreas e seus cargos com unhas e dentes.

Essa exposição, se feita demasiadamente, produz vários efeitos colaterais. Um dos mais evidentes é o isolamento entre as áreas, que assistem aos seus diretores trocando gentilezas entre si, construindo muros e torcendo para o fracasso alheio.

A consultoria McKinsey fez um recente estudo no qual revela que o número de níveis hierárquicos caiu, em média, de 16 para sete, em grandes empresas nos últimos 10 anos.

O que parecia ser uma redução de burocracia e ganhos de agilidade mostra que as responsabilidades ficaram maiores e a quantidade de pessoas para executar diminuiu.

É só conversar com os gestores de empresas, preferencialmente os de média gestão. Eles vivem o pior dos mundos. São pressionados pela operação para dar conta do recado e estão distantes das decisões estratégicas.

Nesse sentindo, há um interessante ensaio do professor da Universidade de Berlim, Byung Chul Han, chamado O Cansaço das Demandas, que conclui que o excesso de responsabilidades e a dificuldade de atendê-las vão criando sobrecargas. A sensação é única e nada prazerosa: de estar sempre devendo.

O efeito mais nocivo dessa síndrome de carregador de piano é a necessidade de estar sempre alinhado com o chefe. Isso significa concordar com o que está sendo falado e decidido.

Consequentemente, os profissionais ficam cada vez mais especializados na adequação das ideias do seu líder e nas respostas que o agradem. Evitam divergências, assumem poucos riscos e aguardam as decisões serem tomadas para acompanharem a onda. O maior desafio é se manterem no poder.

Um levantamento do site americano Career Builder mostra que apenas 34% dos jovens querem cargos de liderança. Um dos motivos é que eles não querem perder suas identidades. Pertencem a uma geração que recebeu mais liberdade. Conseguem ler a toxidade das empresas mesmo com inúmeras fantasias sobre o trabalho e repudiam um modelo de liderança baseado no comando, controle e intenso jogo político.

Aos que seguem sua jornada ao Olimpo, saibam que a arte de agradar o chefe será uma das mais valorizadas. Mas tentem sobreviver porque amanhã tem nova reunião e a pauta é inovação.

Rafael Souto escreve às sextas-feiras, mensalmente. Amanhã, Alfredo Fedrizzi.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018


04 DE JANEIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

A estranha mensagem do meu amigo Cabeça


Recebi uma mensagem estranha do meu amigo Nelson Guahnon, o famoso Cabeça.

O Cabeça possui vários talentos, entre os quais o de ser um jogador de cartas praticamente profissional. Se o jogo fosse legalizado no Brasil, ele seria um nababo. Tivemos vários confrontos de canastra na praia e, uma vez, uma única vez, o venci. Mas tenho treinado, desenvolvi alguns truques e, na próxima oportunidade, vou surpreendê-lo com uma tática imbatível que eu mesmo criei.

Aliás, falando em criar, ontem criei um prato novo. Chamá-lo-ei de Pain de Viande Coimbrrà. Os dois erres e o acento grave do Coimbra são para enfatizar a pronúncia francesa.

Decidi inventar essa receita porque aqui, como você deve saber, está fazendo muito frio. Para hoje, inclusive, há previsão de blizzard, que é a pior das piores tempestades de neve. Ou seja: é o tempo dos vinhos tintos e dos pratos calóricos. Sinto que estou engordando, por conta disso. Mas não me importo. Enquanto a temperatura não subir para pelo menos sete abaixo de zero, seguirei com força nas comidas fortes.

Sendo assim, resolvi, de inopino, preparar o tal prato. Primeiro, pus um quilo de batatas para ferver. A batata, sempre digo, é uma das glórias da América. A humanidade mudou por causa da batata. Levada pelos descobridores à Europa, matou a fome do Velho e Cansado Mundo. Tanto que um dos mais belos quadros da fase inicial de Van Gogh é, exatamente, Os Comedores de Batata, em que ele retrata uma família pobre dos Países Baixos ao redor da mesa de jantar. Nesse quadro, Van Gogh ainda usa os tons terrosos do seu compatriota Rembrandt, mas já mostra o traço inquieto que o consagraria como um dos maiores artistas da História.

A batata é o único alimento posto à mesa, como soía acontecer com milhões de famílias europeias. Não havendo batata, o que havia era a tragédia. Pouco antes de Van Gogh pintar esse quadro, uma praga atacou as plantações de batata da Irlanda e as dizimou. Ocorre que a batata era só o que os irlandeses pobres tinham para comer. À falta dela, mais de um milhão morreram de inanição e perto de outros 2 milhões fugiram do país. Foi uma das maiores diásporas da Europa. Grande parte desses imigrantes veio para os Estados Unidos e 100 mil deles se instalaram justamente aqui, em Boston. É por isso que, no centro da cidade, há um belo monumento de bronze que lembra, com pesar, a Grande Fome Irlandesa.

Por todas essas razões, reverenciei aquele quilo de batatas antes de acomodá-las no prato que forjei a fim de enfrentar as inclemências do inverno da Nova Inglaterra.

Essas batatas, depois de amolecidas pela fervura, eu as amassei pacientemente com manteiga, sal e queijo parmesão, transformando-as em meigo purê.

Mas não é de purê que estamos falando, porque, adrede preparado, esperava um oloroso refogado de cebola e alho bem picadinhos. Para fritá-los, não empreguei o óleo vulgar, como você deve estar pensando. Ah, não. Espalhei, no chão da frigideira, esguias tiras de bacon e deixei que a gordura que delas escorreu fizesse o trabalho.

Quando esse refogado estava crepitando, derramei sobre ele um guisado de carne de porco com apenas 15% de gordura, que havia temperado com sal e pimenta do reino.

Então, misturei.

Misturei, misturei, misturei.

Terminada essa etapa, deitei o conteúdo da frigideira e o purê numa mesma travessa, aplainei tudo com carinho, cobri com queijo parmesão e levei ao forno. Após meia hora, abri o tinto da Califórnia, chamei o Bernardo e a Marcinha e engordei mais exatos 800 gramas de uma só vez.

Foi bom.

Mas agora percebo que ainda não falei da mensagem estranha que recebi do meu amigo Cabeça! Farei isso amanhã.

DAVID COIMBRA


04 DE JANEIRO DE 2018
ARTIGO


INOVAÇÃO? COM INCERTEZA


Nos escondemos detrás da cortina de um destino assustadoramente incontrolável; e com isso adiamos escolhas, na esperança de obtermos mais dados. Deixamos de viajar e de construir. Postergamos a decisão de ter filhos. Vestimos óculos que só nos mostram o de costume, supondo paradoxal controle sobre uma astronave que, como cantavam Toquinho e Vinícius, não tem tempo nem hora de chegar.

Já reparou em como os inovadores encaram a incerteza? Tornam-se confortáveis com o desconhecido e decidem o que fazer quando não conhecem algoritmos de estrada, antes o contrário: entendem que o próprio fato de tomar a decisão é no mínimo caminho para estabelecer prioridades, e que é possível avançar na direção certa mesmo fazendo, momentaneamente, escolhas erradas.

Já pensou se, por curiosidade, revistássemos as "previsões de época" e as comparássemos com o que de fato ocorreu? Veríamos que é quase impossível prever-se o que chamamos de "grandes rupturas", justamente porque elas nada mais são do que recompensa orgânica para quem - não importa a área - mergulha no desconhecido e investe tempo e recursos conectando insight colaborativo com incremento aplicado e útil.

Enquanto não nos proporcionarmos tempo para aprender que machine learning não significa robôs dominando a Terra, que inteligência artificial é tão "coisa de futuro" quanto a Netflix lhe sugerindo um título com base nos seus hábitos e que você pode conviver com uma pessoa que não vota no seu partido político, continuaremos a confundir disciplina com rigidez, obstinação com obsessão e foco com estreitamento.

E por que nos recusamos a aceitar que o futuro não vem do passado, e sim do que estamos construindo exatamente agora? Talvez já esteja na hora de nos darmos conta de que não ter tantas certezas é a única chance de sermos um dia surpreendidos, ou mesmo de surpreendermos alguém.

Consultor de empresas, professor da PUC-RS/Famecos e escritor cassio@grinbergconsulting.com.br
CASSIO SCLOVSKY GRINBERG


04 DE JANEIRO DE 2018
POLÍTICA

Jefferson conquista ministério para filha

EX-ALIADO DO PT e hoje defensor da reforma da Previdência, ex-deputado manteve PTB no Trabalho
Opresidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, demonstrou a força que tem dentro de seu partido ao conseguir emplacar a filha, a deputada federal Cristiane Brasil (RJ), como ministra do Trabalho. O nome foi confirmado após reunião com o presidente Michel Temer, ontem, no Palácio do Jaburu.

A definição resolveu impasse criado com a rejeição do primeiro indicado pela sigla, o deputado Pedro Fernandes (MA), que foi vetado por divergências com o ex- presidente José Sarney (PMDB).

Na saída da reunião com o presidente, Jefferson chorou ao falar sobre a filha. Disse que a nomeação dela significa "um resgate" da família após o envolvimento dele no mensalão.

- Estou com orgulho e surpreso. É emoção que me dá. É um resgate - afirmou, em lágrimas.

Embora a carreira política de Cristiane tenha influência direta do pai, Jefferson negou que a indicação tenha sido dele. Disse que "o nome surgiu" no encontro com o presidente, do qual também participou o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. A escolha também teria o aval da bancada do PTB na Câmara.

Esta não é a primeira vez que o PTB discute o nome de Cristiane para o governo. Em julho, após a deputada fazer discursos na Câmara contra a primeira denúncia criminal que atingiu Temer, ela chegou a ser cotada para o Ministério da Cultura, mas o nome foi rejeitado pelo Planalto.

Desta vez, para assumir o novo cargo, Cristiane se comprometeu a abrir mão da candidatura à reeleição, embora já estivesse planejando a campanha eleitoral. A deputada é considerada uma das principais forças do partido no Rio de Janeiro, ainda que tenha sido apontada por um delator da Odebrecht como beneficiária de repasse ilegal de R$ 200 mil. Em abril do ano passado, quando a informação foi divulgada, ela negou envolvimento e disse que se tratava de "comentário sem qualquer prova".

TEMER PRECISA ENCONTRAR TITULAR PARA A INDÚSTRIA

Jefferson, por sua vez, vai concorrer à Câmara 12 anos após ter o mandato cassado pela Casa, em meio à crise do mensalão. O presidente do PTB também foi condenado a sete anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ficou preso por menos de dois anos e teve a pena perdoada.

A saída de Ronaldo Nogueira (PTB-RS) do Ministério do Trabalho criou um embaraço para o governo. O primeiro nome indicado pelo partido, de Fernandes, foi vetado devido à proximidade com o governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), adversário político da família Sarney.

Ao comentar o caso, Jefferson admitiu que a interferência gerou mal-estar na bancada do PTB na Câmara. Afirmou, no entanto, que a situação não deve mudar a relação de seus correligionários com o governo - o PTB é um dos principais apoiadores da reforma da Previdência.

Resolvida a nomeação no Trabalho, a partir de hoje o presidente Temer deve discutir o novo responsável pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Ontem, Marcos Pereira (PRB) pediu demissão da pasta, alegando que irá concorrer à Câmara. Pereira garantiu que o PRB seguirá apoiando as reformas do governo.

matheus.schuch@gruporbs.com.br - MATHEUS SCHUCH RBS BRASÍLIA


04 DE JANEIRO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Resoluções


Videntes e profetas se aproveitam da falta de memória do público para manter suas reputações intactas, mesmo quando erram. É conhecido o caso daquele homem santo que viu, nos búzios, a morte do papa, e ficou célebre. Ninguém se lembrou que ele previa a morte do papa todos os anos, um dia tinha que acertar. 

Reportagens com videntes e profetas sobre o que nos espera no futuro, feitas no começo do ano, nunca são checadas no fim do ano para sabermos no que erraram e acertaram. As pessoas preferem a ilusão de um futuro conhecido, pelo menos por alguns iluminados, à realidade de um futuro imprevisível. Preferem ser enganadas a enfrentar o mistério.

Como no caso das previsões, são raras as resoluções de começo de ano que resistiriam a uma checada no fim. Quais resoluções foram cumpridas, quais esquecidas, quais frustradas? Resolvi fazer um teste com as minhas próprias resoluções - as que consegui me lembrar - tomadas no raiar de 2017.

Ler A Montanha Mágica, do Thomas Mann - Ficou para este ano. Sério.

Arrumar meus livros e discos - Comecei, mas aí choveu, chegaram visitas...

Dar a volta ao mundo de skate - Continua nos planos.

Conhecer a Ana de Armas (não no sentido bíblico, claro) - Continuo esperando uma chance.

Conhecer a Ana de Armas no sentido bíblico - Continuo me preparando, inclusive com uma dieta de carboidratos.

Fazer cócegas no Gilmar Mendes - Não surgiu a oportunidade.

Ser uma pessoa melhor, mais tolerante com políticos e governantes, e acreditar no caráter e nas melhores intenções de todos a minha volta - Isto é, emigrar. Não deu.

Comer mais verdes - Ficou para este ano. Juro.

Cortar o sal - Tentei. Não consegui.

Cuidar o açúcar - Estou cuidando. Estou cuidando!

Em suma, minhas resoluções para 2017, com algumas exceções, fracassaram. Quis praticar boas ações, mas a primeira velhinha que tentei ajudar a atravessar a rua começou a gritar "Ladrão! Ladrão!" e a me bater com sua bolsa. Desisti da caridade. E tomei uma resolução para 2018 que me livrará de futuros vexames: não tomar nenhuma resolução para 2018.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018



03 DE JANEIRO DE 2018
DAVID COIMBRA

A salsicha da morte

Saiu uma pesquisa científica que diz que cada salsicha comida equivale a 15 minutos de vida perdidos. Não sei como ainda estou vivo. Sou descendente de alemães, povo apreciador de embutidos. Já comi muita salsicha gentilmente introduzida no meio do pão do cachorro-quente ou picadinha, no molho de um macarrão que faço e que meu amigo Admar Barreto adora, e mesmo a salsicha solitária, temperada com mostarda e regada a cerveja preta, como se fazia com a robusta Bock dos ótimos restaurantes germânicos que quase não existem mais em Porto Alegre.

Vigoram, na Alemanha, 1,5 mil tipos diferentes de salsicha. Quando soube dessa informação, pensei: vou descobrir qual é a campeã. A melhor de todas. Comeria uma salsicha por dia e anotaria criteriosamente suas qualidades e defeitos. Ao cabo de quatro anos e pouco, teria a vencedora. Escreveria o relatório e publicaria primeiro em ZH, depois pela L&PM. Seria um trabalho para ilustrar e iluminar as gerações de comedores de salsicha.

Só que, mais ou menos na mesma época, andava encantado com as Ilhas Maldivas. Via fotos e filmes desse paraíso na Terra. Como o país é formado por 1,2 mil ilhas, planejei reunir os dois projetos: conheceria uma ilha Maldiva por dia e, neste mesmo dia, comeria um tipo de salsicha alemã. Passaria quase três anos e meio na empreitada. Mas, como sobrariam 300 salsichas, decidi experimentá-las com queijos franceses, porque há 246 variedades deles. O general De Gaulle, inclusive, certo dia se queixou dos queijos, indagando:

- Como se pode governar um país que tem 246 tipos diferentes de queijo?

Um problema, de fato.

Mas o maior problema seria finalizar o meu projeto de reunir queijos, salsichas e ilhas, já que ainda faltariam pelo menos 50 salsichas alemãs sem nada para acompanhar, nem ilha Maldiva, nem queijo francês. Foi aí que decidi que acrescentaria à tarefa os pratos com bacalhau que são feitos em Portugal, que, dizem, são 365, um para cada dia do ano, inclusive os feriados.

A questão é que sobrariam 315 pratos com bacalhau absolutamente desacompanhados, o que é inadmissível, e eu teria de fazer uma reengenharia no meu programa. O que combinar com o bacalhau? Lembrei que, nos Estados Unidos, há 2,6 mil tipos diferentes de séries de TV. Assim, daria conta dos 315 pratos com bacalhau restantes e ainda teria praticamente 2,3 mil séries para assistir junto com as 1,5 mil salsichas, os 246 queijos e as 1,2 mil ilhas Maldivas.

Todas essas ponderações matemáticas, televisivas, gastronômicas e geográficas estavam me afligindo, até que, ao ler a tal pesquisa científica, concluí que não teria todo esse tempo para fazer tudo isso se continuasse comendo salsichas. Foi Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro, quem um dia disse, de capacete pontudo na cabeça e dedo apontando para o firmamento:

- Se as pessoas soubessem como são feitas as salsichas e as leis, não dormiriam tranquilas.

Agora está provado que tinha razão, o velho Otto. Não comerei mais salsichas. Mas ainda preciso combinar as séries com as ilhas, os queijos e os pratos de bacalhau. A conta não fecha. Por que a vida tem de ser tão complicada?

DAVID COIMBRA


03 DE JANEIRO DE 2018
ARTIGO

O CRISTIANISMO E OS DIREITOS HUMANOS

O conceito de DH precede a ascensão do cristianismo e tem origem intelectual diversificada, mas Jesus e os cristãos tiveram um tremendo impacto tanto na teoria quanto na prática dos DH. Jesus não tinha segundas intenções quando ajudava os mais necessitados e, seguindo o seu exemplo, muitos cristãos começaram a prestar ajuda a quem precisava, fazendo surgir, por exemplo, os primeiros hospitais.

Cada século teve o seu próprio grau de civilização, e o critério mais válido para medi-lo e torná-lo um termo de comparação é o desenvolvimento dos DH. Já o reconhecimento dos DH foi fruto de uma difícil luta contra tiranos, monarcas e até governantes eleitos. E, ao longo dos séculos, os cristãos tiveram a missão de garantir que os direitos e valores da pessoa humana previstos na Bíblia fossem reconhecidos, respeitados e promovidos.

Com a criação da ONU e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi enfatizada a importância fundamental do cristianismo. É que a declaração e seus documentos suplementares oferecem diretrizes para o cumprimento dos nossos compromissos com outros seres humanos, e essas diretrizes são análogas às responsabilidades pregadas pelas igrejas cristãs.

Portanto, a ONU possibilitou a codificação dos DH e a sua promoção e proteção em nível mundial. E, tanto do ponto de vista religioso quanto do jurídico, pode-se definir que Jesus, o cristianismo e a Bíblia trouxeram os ideais básicos da dignidade universal para o ser humano.

Doutor em Direito, mestre em Estudos Europeus e advogado stefan.schneider@eui.eu - STEFAN STAIGER SCHNEIDER



03 DE JANEIRO DE 2018
EDUCAÇÃO

Concurso tem 32,4 mil inscritos


Serão quatro dias de seleção. Os 32.438 candidatos inscritos concorrerão a 4.017 vagas distribuídas entre 89 cursos de graduação. A oferta corresponde a 70% do total de vagas deste ano - os 30% restantes são destinados ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), sistema do Ministério da Educação (MEC) que utiliza a nota do Enem.

As provas serão realizadas nas cidades de Porto Alegre, Bento Gonçalves, Imbé e Tramandaí, totalizando 55 diferentes pontos. Os candidatos deverão comparecer às 8h nos respectivos locais de aplicação do exame, munidos de documento de identificação e caneta esferográfica azul ou preta. As provas terão início às 8h30min, e quem chegar atrasado não entra. Os candidatos somente poderão sair das salas após decorridas duas horas do início da prova.

Medicina é o curso com maior índice de procura (83,81 candidatos por vaga). Fisioterapia (27,57), Psicologia Diurno (27,43) e Psicologia Noturno (25,76) seguem a lista das graduações mais procuradas. Assim como nas últimas edições, os candidatos terão quatro horas e 30 minutos em cada dia para a realização do exame.