sexta-feira, 10 de abril de 2015


10 de abril de 2015 | N° 18128
DAVID COIMBRA

O chinês que só usa marrom

O pai do Li usa sempre a mesma roupa marrom. Toda marrom. O pai do Li é chinês. O Li é colega do meu filho na primeira série, um dos tantos estrangeiros com os quais ele convive.

Os Estados Unidos são um país de estrangeiros. Partes de todo o mundo moram aqui. Conheço ucranianos, russos, africanos, espanhóis, indianos, árabes, de tudo, inclusive chineses, como o Li e o pai dele.

É sempre o pai do Li que busca o Li na escola, nunca a mãe do Li. O pai do Li é muito tímido. É um chinês alto, magro e silencioso. Ele nunca fala nada, dentro daquela roupa marrom dele. Nem hello, bye, nada. Ele chega à escola e se esconde num canto entre os armários das crianças e uma porta de vidro. Aí o Li sai da sala e eles vão embora quietos.

Outro dia, ia buscar o meu filho e vi o pai do Li do outro lado da calçada, também a caminho da escola. Não havia mais ninguém na rua, só nós dois. Pensei: vou lá falar com o pai do Li. Tomei essa resolução, em primeiro lugar, para ser simpático, e, em segundo, por solidariedade. Somos dois estrangeiros aqui, ponderei. Moramos no mesmo bairro, nossos filhos estudam na mesma escola. Temos muito em comum. Se for falar com ele, pode ser que se abra. Pode ser que esteja precisando exatamente disso, do contato com outro adulto.

Sim, falarei com o pai do Li, decidi. E girei o corpo em sua direção. Então, vi que o pai do Li percebeu meu movimento e estremeceu. Tenho certeza de que estremeceu, e foi de medo de que me aproximasse. Por quê? Qual o problema?

Fiquei um pouco irritado com a hesitação do pai do Li. Que chinês mais arisco! Eu ia contar que já estive na China, e tudo mais. Seria uma conversinha bacana. Mas, não, o pai do Li não podia trocar uma ideia com um brasileiro, ah, não!

Resolvi: agora, sim, que vou lá, falar com esse pai do Li. E comecei a atravessar a rua. O pai do Li, obviamente, sentiu que me aproximava. Vi que entesou. Ficou nervoso. Acelerou o passo, para tentar escapar. Mas, lá na frente, teríamos de passar pelo mesmo portão. Se chegássemos juntos àquele ponto, ele não teria outra saída senão falar comigo. Apressei o passo também, para emparelhar com ele.

Comecei a preparar o meu melhor e mais sádico sorriso de hello. Aí, ele diminuiu a velocidade. Queria que eu chegasse antes. Só que fiz o mesmo, reduzi a passada. Chegaríamos juntos, afinal!

Ele ficou desconcertado, olhou para os lados, devia estar procurando uma saída, uma salvação. Tudo para não conversar comigo.

Fui me aproximando, me aproximando. Então identifiquei a aflição no rosto do pai do Li. Vi, reluzindo naqueles olhinhos amendoados, o horror ao desconhecido. O pai do Li estava em pânico.

Senti uma súbita compaixão. Calculei: é possível que ele não saiba falar inglês, por isso se retrai. Suspirei. E me agachei. Fiz de conta que amarrava as botinas. O pai do Li aproveitou para estugar o passo e se afastar. Mais tarde, o vi parado em seu canto, atrás da porta de vidro. Ao passar ao lado, procurei seus olhos. Talvez obtivesse um cumprimento, enfim, ou um pequeno agradecimento por meu ato compreensivo.


Qual o quê! Ele virou o rosto para a parede. Chinês bem xucro! Da próxima vez, vou encher esse cara de hello! Pode se preparar, pai do Li!