quarta-feira, 17 de junho de 2015



17 de junho de 2015 | N° 18197
FÁBIO PRIKLADNICKI

CHATOS DA COPA

Nos tempos que antecederam a Copa do Mundo do Brasil, o pessoal de dividiu, grosso modo, em duas categorias: aqueles que tinham olhos apenas para a expectativa de comemorar o hexa em casa, depois do trauma de 1950, e aqueles que, embora torcendo pela Seleção, estavam particularmente interessados nos efeitos, digamos, político-econômicos do megaevento.

Este segundo grupo suspeitava, desde o princípio, que as obras custariam mais caro do que o previsto, que seriam pagas principalmente com dinheiro público, que muitos estádios virariam elefantes brancos e que haveria um custo social muito alto, com desapropriações e repressão.

As reportagens que começaram a aparecer aqui e ali confirmavam as suspeitas, mas havia muita gente que preferia ignorar o noticiário. Já o pessoal que tinha uma visão crítica da Copa, abraçando a hashtag #naovaitercopa, era acusado de falta de patriotismo. Dizia-se que eles deveriam apoiar a Seleção a todo custo, ressuscitando, de alguma forma, o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Na verdade, os críticos que foram chamados de “chatos” eram patriotas, sim, só que de outro modo.

Na esteira de junho de 2013, houve quem temesse que os protestos pudessem “manchar” a imagem do país em rede mundial. Que ironia lembrarmos hoje disso, com tantos escândalos na política e no futebol que maculam muito mais a imagem do Brasil e da própria Fifa. Colocou-se em pauta uma lei que classificava qualquer manifestante como terrorista. Houve repressão de qualquer forma, e não apenas da parte das autoridades.

Em uma lógica perversa, manifestantes pacíficos e violentos eram e seguem sendo chamados, igualmente, de black blocks (o governador do Paraná, Beto Richa, recentemente classificou dessa forma os professores que foram às ruas por seus direitos). Contrariando os chamados “chatos do contra”, houve Copa, sim. O que menos gente imaginava é que a Copa não terminaria. Estão aí as obras pela cidade para provar isso. E essa é só a parte mais conhecida da história.