terça-feira, 5 de dezembro de 2017


05 DE DEZEMBRO DE 2017
ARTIGOS

DEMOCRACIA DOS FRACOS

Democracia é um nome estranho, paradoxal. Representa união e, ao mesmo tempo, diferenças. Não se trata de um conceito pronto, ao contrário, sua definição pressupõe conflitos e troca de ideias, a fim de proporcionar uma vida digna e sadia a todos. No entanto, quando os pressupostos do ambiente democrático são ignorados, ela assume os riscos de sua própria destruição. Ao invés de libertar, de emancipar, de empoderar e de oportunizar a autocrítica, aos poucos, consolida a sobrevida pelas exageradas ideologias, pelo autoengano. 

Faz parte do jogo democrático a participação e o engajamento à convivência. Todavia, é necessário identificar quais são os limites desse jogo a fim de consolidar seus objetivos mais primários e não enaltecer ressentimentos capazes de fomentar a intolerância contra qualquer opinião divergente daquele que conquistou o poder e o exerce.

Em uma situação contrária, a apatia, a indiferença (patológica de nossos dias), tornam-se vetores de autofagia da democracia e ignoram as diferenças humanas e culturais. Por esse motivo, a sua essência vital, de seus significados, de seu sentido formal presente nas leis e instituições, de sua orientação como estrutura da paz e da liberdade reside na pluralidade de diferenças de valores, de culturas, de tribos urbanas ou indígenas, das vozes silentes e marginalizadas. Nem sempre o consenso democrático, ao determinar orientações comuns para que haja paz nas relações humanas, sintetiza a vontade de todos.

Nisso, percebe-se a sua incompletude. A indignação e a impaciência são valores caros ao aperfeiçoamento dos territórios democráticos. A primeira não se satisfaz com as misérias humanas. A segunda não aceita a passividade deste cenário a se repetir ano após ano. Todo agir livre nas democracias pressupõe responsabilidade e o enfrentamento daquilo que nos constrange, que põe em dúvida a moral pela avaliação ética. Afinal, a democracia dá vida e voz aos marginalizados, aos esquecidos, ou seja, a democracia inclui os fracos, os vulneráveis. Por esse motivo, precisa-se rememorar sempre: O que é democracia?

SÉRGIO RICARDO FERNANDES DE AQUINO

05 DE DEZEMBRO DE 2017
POLÍTICA +

GASTOS ASSUSTAM TESOURO


Como o Rio Grande do Sul não é uma ilha, tudo o que se passa abaixo do Mampituba em matéria de gastos públicos chega ao conhecimento dos técnicos da Secretaria do Tesouro Nacional que analisam o pedido de adesão ao regime de recuperação fiscal.

Os técnicos já estavam de cabelo em pé com os projetos de reajuste para os servidores do Judiciário (que já está na Assembleia) e do Tribunal de Contas (aprovado pelos conselheiros) quando chegou a notícia do pagamento de um resíduo da conversão da URV, a moeda virtual criada em 1994, no Plano Real.

NOS BASTIDORES, A AVALIAÇÃO É DE QUE ESSES GASTOS VÃO NA CONTRAMÃO DO AJUSTE FISCAL E DESQUALIFICAM O PEDIDO DE SOCORRO FEITO PELO GOVERNO GAÚCHO. RELEMBRANDO, ATÉ 2009 OS MAGISTRADOS RECEBERAM R$ 1,4 BILHÃO A TÍTULO DE DIFERENÇAS DA URV.

Arrecadados pela campanha Escolha o Destino, R$ 3,6 milhões foram encaminhados para custear 50 projetos de instituições que trabalham com pessoas carentes no Rio Grande do Sul. O convênio com essas entidades foi assinado ontem pelo governador José Ivo Sartori, no Palácio Piratini.

Criada em 2015 pela primeira-dama Maria Helena Sartori, titular do Gabinete de Políticas Sociais, a campanha incentiva a população gaúcha a destinar parte do Imposto de Renda devido a projetos sociais que beneficiam crianças, adolescentes e idosos.

Considerando apenas a participação de pessoas físicas, o Estado tem potencial para distribuir R$ 300 milhões por ano, mas, desde o início da campanha, foram arrecadados apenas R$ 44 milhões.

- As pessoas sempre dizem que pagam imposto e nunca veem o resultado. Pois esta é uma oportunidade de escolher o destino do seu dinheiro e ver, sim, os benefícios - disse Maria Helena durante a cerimônia.

Podem participar do Escolha o Destino cidadãos e empresas, respeitando, respectivamente, os limites legais de 6% e 1% do valor devido do imposto.

O dinheiro arrecadado é depositado em fundos da criança e do adolescente ou da pessoa idosa, que repassam a verba às entidades habilitadas. ESCOLHA O DESTINO

ROSANE DE OLIVEIRA

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


04 DE DEZEMBRO DE 2017
CINEMA

Um argentino solitário em Manhattan


Ao andar pelas ruas de Nova York, o argentino Nico (Guillermo Pfening) encontra uma cadeira que estava abandonada em uma calçada e decide levá-la para casa. Longe de ser exuberante, a cadeira alia conforto e resistência. Cumpre bem, portanto, a função que se espera dela.

É uma passagem aparentemente banal de Ninguém Está Olhando, novo filme da diretora argentina Julia Solomonoff. Mas o drama concebido pela cineasta é como a cadeira do personagem, simples do ponto de vista estético e, no final das contas, mais vigorosa do que parecia à primeira vista.

Ator de grande popularidade na Argentina, Nico troca Buenos Aires por Nova York. Ele diz a todos que está em Manhattan por conta de projetos no cinema, mas logo se descobre que deixou seu país de origem devido a um caso amoroso mal resolvido com um produtor de TV.

Nos EUA, Nico coleciona namoros e trabalhos breves. Só há consistência na relação dele com um bebê, de quem cuida para ganhar uns trocados. Enquanto o mundo rui ao seu redor, o protagonista se ampara em um afeto quase paterno.

A convivência com o bebê é um bálsamo no dia a dia dessa Nova York vista pela América do Sul, uma cidade que se impõe, sobretudo, pela frieza.

No microcosmo de Nico, a rejeição é profissional e afetiva. Ele não avança como um ator para tipos norte-americanos devido ao sotaque e tampouco se enquadra no estereótipo latino porque é loiro. Além disso, a cena gay da metrópole, ainda que vibrante, não oferece o acolhimento que ele procura.

Há ainda o macrocosmo de argentinos, brasileiros, colombianos, paraguaios... Manhattan os incorpora, mas como uma subclasse. Nesse aspecto, um mérito de Ninguém Está Olhando é deixar que o gosto amargo suba lentamente à superfície, sem a ebulição do denuncismo.

A crise existencial do personagem é bem delineada pelo roteiro, também de Solomonoff. A qualidade dos diálogos, aliás, tem sido marca fundamental do cinema argentino neste século.

Mas fatia expressiva da força dramática do filme se deve à interpretação notável de Guillermo Pfening. Sem recorrer a rompantes para reiterar a solidão, o ator põe a sensibilidade a serviço de Nico, um homem em fuga e, em última instância, em busca de si mesmo.

Folhapress - NAIEF HADDAD

04 DE DEZEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Aconteceu!


Uma das minhas páginas preferidas no Facebook é "Filmes e séries que marcaram época". Tem seriados, desenhos e filmes antigos. As maravilhosas animações da dupla Hanna e Barbera: Os Flintstones (Yabadabadoo!), Dom Pixote (ó, querida, ó, querida, ó, queriiiiida Clementina), Os Herculoides (com Gleep e Gloop, criaturas capazes de assumir múltiplas formas!) e tantos outros.

Quando guri, fiquei surpreso ao descobrir que Hanna Barbera não era uma mulher, e sim dois homens, William Hanna e Joseph Barbera. Já morreram, ambos. Li uma matéria de jornal sobre William Hanna que terminava assim: "Morreu aos 90 anos, dormindo". Achei bonito. Imaginei que o último sonho de William Hanna deu-se em meio a suas centenas de personagens tão cheios de cores e de alegrias.

Nessa página ainda há Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, me sinto esparramado no sofá da sala da minha mãe, molhando bolacha Maria no Nescau e rindo em frente à TV.

Entre os seriados que às vezes assisto, está um que, se bem me lembro, só passava tarde da noite na TV. É o Além da Imaginação, que contava histórias curtas de terror. A fórmula era interessantíssima, contos de, no máximo, 20 minutos em que a tensão se mantinha sempre alta, até o desfecho surpreendente.

A versão radiofônica desse programa também era muito boa. O Timeline bem que podia ter uma seção parecida (vou propor para o Potter e a Kelly). Chamava-se Aconteceu. Duas ou três vozes encenavam uma espécie de radionovela baseada em algum tema sobrenatural. No final, a música-tema aumentava de volume, enquanto o locutor repetia:

- Você pode não acreditar, mas realmente... A-CON-TE-CEU!

Acontecimentos sobrenaturais são possíveis? Existem mesmo? Belchior dizia saber que nada é divino, nada é maravilhoso, nada é sagrado, nada é misterioso, mas tenho cá minhas dúvidas. Outro dia, a Kelly contou, no Timeline, uma ocorrência extraordinária. Não foi nada aterrorizante, como seria em Aconteceu ou Além da Imaginação. Foi engraçado. É que, há alguns anos, duas torcidas rivais do Grêmio entraram em conflito e, no tumulto, quebraram uma santa que havia no velho Estádio Olímpico. 

O tempo foi passando, a santa continuou quebrada e o Grêmio não ganhava mais título nenhum. Aí, Fernandão, o histórico segurança do clube, chegou à conclusão de que o problema não era falta de centroavante: era o ressentimento da santa. Procurou os torcedores que a machucaram a fim de convencê-los a fazer um desagravo a ela. Mas eram duas torcidas inimigas, que acabavam não se acertando de fazer algo positivo em conjunto, e o Grêmio seguia sem ganhar.

Fernandão insistiu, falou com eles e, por fim, convenceu-os. Os torcedores, então, consertaram a santa e foram à capela para pedir perdão coletivo. Essa espécie de cerimônia foi realizada às vésperas da Copa do Brasil do ano passado. Depois disso, o Grêmio ganhou a taça. E agora conquistou a América. Segundo a Kelly, a direção do Grêmio está pensando em construir uma catedral para a santa na Arena, o que considero bastante sensato.

Sei bem que, neste momento, há muito gremista incréu dizendo que isso é bobagem. Mas duvido que ele vá lá fazer mal à santa. Nada é maravilhoso? Nada é misterioso? Talvez. Mas é melhor não arriscar.

DAVID COIMBRA


04 DE DEZEMBRO DE 2017
OPINIÃO DA RBS

RECEITAS AMEAÇADAS

Parlamentares contrários à reforma previdenciária precisam indicar opções viáveis para garantir receitas adicionais, permitindo ao governo federal manter seus compromissos

Num apelo derradeiro para sensibilizar os parlamentares a votarem a PEC da Previdência, garantindo os 308 votos necessários na Câmara, o Planalto traça um cenário radical e inquietante. Ainda assim, é uma perspectiva que não está muito longe da realidade, na hipótese de a reforma não ser aprovada ainda neste ano, ficando para ser examinada no próximo, em plena campanha eleitoral. 

O documento oficial entregue aos deputados alerta que, se a aprovação não ocorrer, permitindo ao governo federal reduzir compromissos com aposentadorias e pensões, as imposições do chamado teto de gastos vão acabar comprometendo seriamente as verbas destinadas a áreas como saúde e educação. É uma possibilidade impensável, mas não de todo absurda, e é preciso impedir que se torne realidade.

Com o teto de gastos, aprovado no ano passado, o crescimento das despesas federais fica limitado à inflação do ano anterior. Alguns gastos obrigatórios, em relação aos quais o governo não têm controle, devem crescer mais do que 6% no próximo ano, o dobro da inflação prevista até dezembro. É o caso, justamente, de aposentadorias, que respondem por 41% do gasto total, e pessoal. O agravante é que, mesmo na hipótese de as mudanças previdenciárias serem aprovadas neste ano, o impacto sobre os dispêndios obrigatórios de 2018 será modesto, pois os ganhos para o Tesouro ocorrerão só mais adiante.

Sem a reforma, portanto, em pouco tempo restariam recursos apenas para os próprios desembolsos com Previdência e assistência, salários dos servidores e uma parte dos dispêndios com abono e seguro-desemprego. No cenário em que as alterações na seguridade conseguem superar as hesitações por parte de parlamentares mais interessados na campanha eleitoral de 2018 do que em viabilizar as contas públicas, os gastos previdenciários registrariam alguma folga. Em consequência, haveria maior margem de atuação para atender a áreas que afetam justamente o cotidiano dos brasileiros de menor renda.

Parlamentares contrários à reforma previdenciária precisam indicar opções viáveis para garantir receitas adicionais, permitindo ao governo federal manter seus compromissos. Um eventual passo atrás no rigor fiscal com o qual o país se comprometeu provocaria um grau de incertezas muito grande, com consequências sérias para todos os brasileiros.

04 DE DEZEMBRO DE 2017
L.F. VERISSIMO

Êxtases

"Bliss it was in that dawn to be alive", êxtase era estar vivo naquela aurora, escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa. Poderia ter dito o mesmo de outra aurora republicana, anterior à francesa: a declaração da independência americana. O fim do século 18 e o começo do século 19 pareciam estar trazendo um novo dia para a humanidade, um dia de entusiasmar poetas. Não havia dúvida, então, sobre a inevitabilidade histórica do que se chamaria "democracia" e o ocaso definitivo de monarquias absolutas e castas opressoras.

Há um texto do Paulo Mendes Campos falando das primeiras horas do Gênese, com "o mundo ainda úmido da criação", que descreve com o mesmo encanto aquele outro começo, quando tudo que havia na Terra recebeu seu nome verdadeiro. O novo dia da humanidade equivaleria a uma segunda Criação. 

Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos nas estantes da biblioteca do Museu Britânico, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico e a modernidade tecnológica e a modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundirem para transformar o mundo.

Mas o século 19 se encarregou de frustrar as auroras anunciadas no século 18 e suas próprias promessas. Foi o século da reação, da restauração conservadora na Europa, do nascente capitalismo industrial sem consciência e sem remorso, com homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo legal ou moral, fora os magros salários - para êxtase dos patrões.

William Wordsworth foi um poeta romântico inglês cuja admiração pela Revolução Francesa não sobreviveu ao Terror, mas que saudou como ninguém o aparente triunfo da Razão trazido pela Revolução, no seu poema mais citado. O poema termina dizendo que o êxtase não aconteceu numa remota ilha, Deus sabe onde, "mas no nosso mundo, no lugar em que no fim encontraremos nossa felicidade, ou nada".

L.F. VERISSIMO

sábado, 2 de dezembro de 2017



02 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

As vassouras das bruxas

O motorista de táxi de um aeroporto deste Brasil xingava um político, acusado no rádio por ter-se encontrado ali mesmo, dias atrás, com um suspeito de corrupção. "Viu só?", ele vociferava, "Viu só?". Cansada de aeroporto e do assunto, e porque logo antes alguém tinha me dito "Olha aí o Fulano, fotografado ao lado do Sicrano que é suspeito de corrupção! Certamente ele também é...", fui curta e direta: "Meu filho, se sua namorada conversar com uma moça desonesta e disserem que por isso ela também é desonesta, você vai gostar?". 

Ele olhou sobre o ombro, meio espantado: "Sabe que a senhora tem razão?". Comentei: "Chama-se a isso caça às bruxas". Chegando ao meu destino, não tive tempo de explicar mais. Isso ocorreu há poucos anos. Hoje, confesso, talvez eu não tivesse dito nada, porque os honrados, os valorosos, andam reduzidos.

E, assim, não cheguei a lhe falar das caças às bruxas da Idade Média: a tropa de psicopatas autorizados caçava gente com o entusiasmo com que se caçariam animais selvagens. O maior divertimento era julgar, esfolar vivo e queimar na fogueira depois de inimagináveis sofrimentos. Além dos hereges habituais, pegavam as mulheres simples, que lidavam com o que hoje chamaríamos medicina alternativa, na sabedoria popular de suas antepassadas.

Melhoramos um pouco como civilização, temos antibióticos e iPhones, mas também temos gente sendo vendida como escravos, menores trabalhando ilegalmente, mulheres apanhando dos maridos (vai ser mais divertido quando os papéis se inverterem... Será?). A caça às bruxas anda voltando, e sou quase fanática contra os crimes de corrupção, porque nos deixaram tão pobres, tão atrasados, tão feios ou abençoados em nossa desonestidade. 

Execução moral de inocentes na fogueira da opinião pública, mais disposta a ver em tudo o mal, me assusta tanto quanto me enojam bondades concedidas a faltosos comprovados, até confessos. Estamos num mundo destrambelhado, de pernas para o ar. (Se lermos os antigos, como alguns filósofos ou escritores, veremos que eles pensavam assim também...)

Num encontro em que um grupo de jovens questionava a falta de civilidade com que agem alguns personagens investigados na Lava-a-Jato (obrigada, Moreno) ou em debates no Congresso, comentaram como seria reconfortante ver debates entre homens educados e preparados. Respondi que bastava ler um pouco de história dos povos para ver que não há nada de novo entre nós. Às vezes, como grupos ou como sociedade, adoecemos de uma triste falta de compostura.

Um rancor primitivo que nasce de fundos problemas pessoais e a agressividade geral que nos botou numa selva sem a graça das borboletas e dos bugios nos aniquilam. E até as bruxas boas, nas quais piamente acredito, em lugar de varrer tanta sujeira, fogem ligeirinho nas suas vassouras - e julgamos ser o vento nas ramagens.

LYA LUFT


02 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Não pertenço a este lugar


Era um restaurante popular e estava com todas as mesas lotadas, a maioria delas ocupadas por dois casais, algumas com um casal e dois filhos. A mesa em que eu estava era maior: cinco adultos e três adolescentes. Nem 15 minutos de conversa e eu já não entendia o que fazia ali. Estava alheia aos assuntos e não achava graça das piadas. Até que um dos adultos disse algo detestável, e eu pensei: Não pertenço a este lugar. Lembrei a minha casa, o meu quarto, a minha cama, onde eu preferiria estar. Preciso ir embora. Preciso chamar um táxi. A comida está vindo, o garçom já colocou o prato servido à minha frente, é agora, levanta e vai. Mas não levantei.

Não foi, nem de longe, a pior noite da minha vida. Já estive em vários outros lugares a que eu não pertencia. Uma missa rezada por um pastor mal-intencionado. Um escritório com gente estressada trabalhando até tarde. Uma entrevista que dei para um jornalista que induzia as minhas respostas. Uma festa num clube sofisticado onde as pessoas só falavam em dinheiro. Um quarto úmido de hotel, com as paredes descascadas e luz branca no teto. Um carro de madrugada lotado de garotos bêbados.

Quando pude, saí mais cedo, saí antes do fim, mas nunca fui embora durante o apogeu de um acontecimento, como uma noiva que abandona o altar. Nunca fiz da minha retirada um gesto político, audacioso e inesperado. Sempre fui daquelas mulheres que, uma vez dito sim, mantinha meu sim até o limite da educação - mesmo quando o meu sim já tinha virado, dentro de mim, um não.

Pra ser gentil, me senti estrangeira várias vezes sem estar viajando.

Pode ser suportável, mas nem sempre. Cortesia demais nos desintegra. Se alguém te oferece um baseado, é só dizer "não, obrigado", caso não seja chegado. Se alguém te tira pra dançar, é só dizer "não, obrigada", caso esteja cansada. Alguém ao teu lado diz que buzinar é coisa de preto, discorde e denuncie o racismo, em vez de ficar num silêncio conivente. E toque a vida pra frente, elegantemente.

Como elegantemente fez o ator Pedro Cardoso quando se levantou de um programa de TV transmitido ao vivo e se retirou, em duplo protesto: ele foi solidário com os trabalhadores em greve da TV Brasil, que é pública, e o fez também em repúdio a um comentário inapropriado que o presidente da emissora teria feito contra Taís Araújo. Pedro é um homem inteligente, politizado e, como se viu, um lorde. 

Não agiu feito um moleque. Foi até o programa para divulgar um livro que havia lançado, mas diante das informações que recebeu ao chegar lá, sobre a greve e sobre a injúria, não se sentiu confortável em dar audiência a um canal que não estava sintonizado com suas convicções. Pediu desculpas a todos, explicou-se e, com toda a calma, deixou o estúdio, não sem antes abraçar a apresentadora.

"Eu não pertenço a este lugar." A cada vez que essa frase grudar em seu pensamento a ponto de gerar desconforto, levante, se despeça e agradeça por você ter coragem para decidir, pernas para sair e sua dignidade aguardando lá fora.

MARTHA MEDEIROS



02 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Black Friday da eternidade

Todos recebem um bônus. A vida dá uma segunda chance, um período extra, uma dilatação de prazo, um visto a mais. Ela não nos entrega para o fim sem um anúncio, sem nos colocar em uma antessala aqui mesmo.

A dificuldade é aproveitar a Black Friday da eternidade. O que atrapalha é a soberba.

Há pessoas que ficam humildes depois de um acidente e refazem os seus hábitos. Percebem que estavam no caminho errado, contrárias à ternura e recuam prodigiosamente para recuperar os laços com a família e amigos. Mudam o jeito de encarar os limites. Tornam-se mais abertas e confessionais, começam a se despedir dia a dia pelo medo de não definir mais qual será o dia derradeiro. Criam férias nas folgas, esticam os lazeres nos finais de semana. Possuídos pela delicadeza, falam o eu te amo com a naturalidade de um cumprimento, abraçam e beijam com uma intensidade incomum. 

A quase morte passa a ser um trailer da existência. Compreendem o significado do puxão de orelhas do vento e dos anjos e escutam com afinco o som de um pássaro e da chuva. São empresários que largam o acúmulo dos bens pelo bem partilhado, são sujeitos roçados pela suavidade do perdão. Antes ricos de números e vazios de palavras, invertem o julgamento e se predispõem a praticar a fragilidade com coragem. Pois é só cuidando dos outros que revelamos o cuidado consigo.

Mas a maior parte dos sobreviventes não vê a luz em extinção, não coloca as mãos em concha para proteger a chama da vela. Despreza os avisos e as profecias. Pelo contrário, como superou uma tragédia iminente, acha-se agora invencível. Acredita que nada pode mais levá-lo embora. Internaliza uma onipotência que agrava os defeitos e os vícios. Dedica-se ainda mais à carreira e à fortuna e abandona de vez os semelhantes, já que eles são inferiores e não desfrutaram da mesma experiência de ressurreição.

Não percebe a promoção, a liquidação dos ideais, o céu se abrindo. Não acorda as horas mortas, não renasce diferente dos escombros, não compra a sua vida de volta, aquela vida que se consumia na indiferença e no egoísmo. Descarta Deus e os homens, como se respirar fosse um dom vitalício.

O susto da morte pode gerar arrependimento ou arrogância, agradecimento ou acusação. Nem sempre é entendido como milagre.

Quem acha que nunca vai morrer não encontra tempo para amar.

CARPINEJAR

02 DE DEZEMBRO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

O FIM DO RECATO

O conflito final não será entre veganos e carnívoros, tatuados e sem-tinta, monogâmicos e poliamantes, mas entre recatados e o resto do mundo.

Manter amigos e conhecidos atualizados a respeito do programa da noite anterior, o cardápio do café da manhã e os planos para o próximo fim de semana tornou-se o novo "bom-dia". Ainda assim, sobrevivem entre nós aqueles que nunca fotografaram o próprio pé (a não ser por engano), só atualizam o status conjugal no cartório (por obrigação) e preferem se queixar da vida para o motorista do Uber a fazer revelações sobre a própria intimidade em uma rede social. Sim, eles ainda existem, mas estão se tornando cada vez mais raros.

Diferentes gerações dificilmente chegariam a um consenso a respeito do que é "íntimo demais" para ser compartilhado em uma rede social. A vida amorosa? O banheiro de casa? Uma doença terrível? Nos últimos anos, o conceito de intimidade foi sendo empurrado para um quartinho cada vez menor nos fundos da nossa vida privada. Para boa parte dos nativos digitais, não existe outra forma de viver a não ser trocando experiências e forjando uma identidade virtual ativa e supostamente genuína, transparente. Se deixar de compartilhar é quase como deixar de existir, palavras como "recato", "pudor" ou mesmo "privacidade" soam tão anacrônicas quanto "fax".

Na vida, como nas redes, agimos a maior parte do tempo por observação, assimilação e imitação. Adultos recém desembarcados nas redes sociais - colonizadas por pioneiros muito mais jovens - costumavam torcer o nariz para gente que fazia selfies na frente do espelho do banheiro, por exemplo. Com o tempo, esse novíssimo gênero fotográfico foi tornando-se lugar-comum e impôs-se como "mainstream" nesse ambiente. 

Da mesma forma, as timelines foram se enchendo de experiências de compartilhamento tão ou mais inusitadas. A intimidade alheia passou a ser encarada com naturalidade e bom humor - e eventualmente até mesmo algum interesse. Passamos a viver como se morássemos em um enorme condomínio em que é impossível ignorar o que o vizinho comeu no almoço, a música que ouviu com os amigos e os barulhos que fez quando estava com a namorada. Já aqueles que preferem permanecer parte do dia com as janelas fechadas e as luzes apagadas são vistos como arrogantes, antissociais, esquisitões.

Na semana que passou, um jornalista que passou boa parte da carreira administrando a vida particular com discrição e sobriedade sucumbiu à urgência de compartilhar com milhões de seguidores uma declaração de amor, em tom lírico, para a nova namorada. Seja pela necessidade de rejuvenescer a própria imagem diante dos telespectadores, seja por ter assimilado a nova sensibilidade da época, William Bonner atravessou uma fronteira invisível. Com sua defecção, o pequeno exército dos recatados ficou ainda menor e mais fraco. O que talvez ninguém tenha reparado, já que os poucos remanescentes da categoria não se deram ao trabalho de fazer um post a respeito.

CLÁUDIA LAITANO


02 DE DEZEMBRO DE 2017
DRAUZIO VARELLA

Malu e Alfredão

Não havia um dia em que o casal não brigasse. Alfredão nunca entendeu por que viveu oito anos com aquela mulher. Conta que se conheceram num restaurante nordestino com música ao vivo, na zona norte. Ela dançava com um rapaz tão magro quanto baixo:

- Mas não tirava os olhos de mim.

Incitado por um amigo que exaltou os dotes físicos da morena, ele foi tirá-la para dançar, mas o rapaz magro e baixo criou caso: mulher que estava com ele não dançava com outro nem morta. Apesar de ter o triplo da massa corpórea do adversário, Alfredão houve por bem não criar caso.

Meia hora mais tarde, o garçom lhe entregou um bilhete, com um telefone e a mensagem sucinta: "Me liga. Malu". Ela mesma atendeu ao telefonema no escritório de advocacia em que trabalhava como secretária. Combinaram encontrar-se num barzinho, no fim da tarde. Ela era articulada, desenvolta e falava com entusiasmo. Ele mais ouvia, encantado com os seios exuberantes, na blusa entreaberta.

Tomaram cerveja com torresmo e caldo de feijão, e riram muito. Ele só estranhou o empenho com que a moça defendia a igualdade entre mulheres e homens e a necessidade de acabar com o machismo na sociedade brasileira.

- Nunca tinha ouvido falar em feminismo, mas concordei com tudo. Não estava ali para debater, meu interesse era levar ela para a cama.

Não conseguiu naquela noite nem nos quatro encontros seguintes. Na sexta vez, depois de se beijarem com ardor na porta do prédio dela, desanimou:

- Falei de mim para comigo: não vou conseguir comer essa mulher de jeito nenhum.

Uma semana mais tarde, ela ligou para saber a razão da indiferença. Ele desconversou, estava com excesso de trabalho na fábrica, além do que, a mãe andava doente e só contava com o filho único. Malu suspirou, naquele fim de semana estava tão solitária no apartamento.

- Minha mãe sarou na hora. E, na fábrica, que trabalho?

A noite daquela sexta-feira acabou no sábado ao meio-dia. Até hoje Alfredão se orgulha da performance.

- Sete. Juro por Deus que foram sete.

A partir desse encontro, começaram a ficar juntos três noites por semana, frequência que Malu julgava frustrante.

- Era tanta reclamação que, quando vi, já dormia lá todos os dias.

A rotina o obrigava a acordar às cinco da manhã, passar em casa para o café com a mãe, trocar de roupa e ir para o trabalho.

Durante o expediente, precisava ligar pelo menos duas ou três vezes para a namorada, a última das quais ao sair, para que ela estimasse o tempo para chegar no apartamento. Se deixava de telefonar ou se atrasava, eram horas de falatório.

A marcação cerrada, no entanto, não era o pior: ela morria de ciúmes de todas as mulheres que passassem por perto dele. Não havia um dia em que o casal não brigasse.

- Quando ela começava, não tinha Cristo que fizesse parar.

De espírito conciliador, por natureza, Alfredão acabava perdendo o controle. Os vizinhos reclamavam da gritaria. Ele só pensava em acabar com tudo:

- Não tinha paz, sofria do lado dela, mas não conseguia me libertar. Quando criava coragem para ir embora, ela aparecia na saída da fábrica ameaçando se matar, meio implorando, meio me intimidando. Contra a vontade, eu cedia. Aquela mulher tomou posse do meu ser.

Alfredão se afastou da mãe, dos parentes e de todos os amigos. Vivia angustiado, triste, do trabalho para casa. Para evitar as cenas de ciúme, fazia de tudo para não sair à noite. Quando iam à pizzaria, dava um jeito de sentar virado para a parede ou de frente para uma mesa em que só houvesse homens. Apesar da cautela, as crises eclodiam a toda hora. Única forma de encontro afetivo naqueles anos, a vida sexual se tornou bissexta.

Num fim de tarde, ele foi buscá-la no escritório. Não havia ninguém. Esperava o elevador quando ouviu vozes, lá dentro. Ao se aproximar, percebeu que eram gemidos.

Esmurrou a porta até abrirem. Xingou Malu de todos os nomes, ameaçou esganar o advogado, arrancou um computador da mesa e atirou contra a parede. Quase derrubou a porta ao sair.

- Tudo encenação. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Fiquei livre daquele inferno.

DRAUZIO VARELLA


02 DE DEZEMBRO DE 2017
J.J. CAMARGO

INSANIDADE LEGALMENTE RESPALDADA

a indústria da judicialização não para de crescer, agravada por sentenças ensandecidas

Nós, brasileiros, herdamos a tradição portuguesa da autocrítica exagerada e depreciativa. Como se denegrir o meio em que vivemos justificasse nossas deficiências e precariedades. Escolha um tipo qualquer de atividade profissional e se formará imediatamente uma fila de detratores da brasilidade, responsável por esse complexo de inferioridade que nos impusemos sem pressão externa.

Participei de um debate entre colegas que pretendia identificar, baseado em experiências vividas ou confidenciadas, onde era mais complicado ser médico neste século de transformações galopantes em que tudo muda antes que nos habituemos com a nova realidade.

A origem da discussão é a tomada de consciência de que a figura do médico tradicional está ameaçada em muitos lugares e extinta em outros. E a metamorfose tem como agravante a celeridade que leva de roldão conceitos seculares e frustra expectativas consideradas inabaláveis.

Tendo como ponto comum apenas o reconhecimento de que tudo mudou, mal conseguimos acreditar quando relatam mudanças em outros países em que se praticava uma medicina que costumávamos copiar com admiração, e agora assistimos perplexos a uma realidade que não invejamos mais. Na França, médicos têm sido processados e punidos sob a alegação de não terem informado corretamente às mães grávidas da possibilidade, por mais remota que fosse, de que o feto pudesse ter alguma anomalia, o que as conduziria ao aborto preventivo. 

No controverso caso Perruche, uma criança com deficiência atribuída a uma rubéola da mãe nas primeiras 12 semanas de gestação figurou como autora de ação de reparação de danos por ter nascido em vez de ter sido abortada.

Há 30 anos, a medicina dos EUA era consensualmente festejada e o que fazia ou recomendava servia de referência e modelo aos mais exigentes manuais de conduta técnica e ética, copiados e difundidos com religiosidade pelos médicos jovens egressos da escola americana. Quando a judicialização inundou a prática médica ianque, a transferência daqueles rígidos ditames anglo-saxões para a nossa população latina revelou-se francamente agressiva e cruel.

O compartilhamento com o paciente de todas as decisões técnicas do tratamento, ingenuamente interpretado como um avanço respeitoso na conquista da soberania plena do indivíduo, nada mais era do que uma atitude defensiva do médico pressionado pelos advogados do seguro profissional a evitar o protagonismo e, com isso, reduzir o risco de ser processado. Ou, em outras palavras, omitindo-se de ser médico deve haver menos risco de ser demandado porque, afinal, ele nem o foi.

O desfecho de tudo o que é insano não tem limites. Depois do esperado enrijecimento da relação médico paciente, a indústria da judicialização não para de crescer, agravada por algumas sentenças ensandecidas: recentemente, um juiz americano deu ganho de causa a um paciente que acionou seu cirurgião porque removeu um tumor de bexiga encontrado fortuitamente durante uma operação para tratar de um cálculo encravado no ureter. 

Quando saiu do hospital, parecia feliz e agradecido. Tempos depois, a gratidão (geralmente frágil) cedeu lugar à ganância (sempre poderosa) e o paciente processou o médico porque gostaria de ter sido consultado sobre a retirada do tumor que, afinal, era uma propriedade dele e, portanto, com direito de dar-lhe o destino que lhe aprouvesse. Tão maluca quanto a reivindicação foi a decisão judicial que deu ganho de causa ao paciente. Ao incauto doutor, afeito a resolver problemas e agora impossibilitado de devolver-lhe o tumor, só restava ressarcir o paciente por danos morais, visto que o pobre infeliz fora privado, por pura precipitação médica, de um câncer, pelo qual, aparentemente, nutria grande afeto e estima.

Nesse ritmo, cada vez mais se dará razão a Einstein quando reconheceu que "duas coisas eram infinitas: o universo e a estupidez humana". Mas em relação ao universo, ele ainda não tinha certeza absoluta!

J.J. CAMARGO


02 DE DEZEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Insulte alguém você também

Ouço aplausos e ovações àquela madame que constrangeu o senador Romero Jucá em um avião, dias atrás. Virou moda.

Funciona assim: você, como todo mundo, tem um celular. Aí você enxerga alguém de quem discorda. Pode ser qualquer um, isso já aconteceu com o Chico Buarque, o Mantega, o Lula, o Alexandre Garcia, uma filósofa feminista que visitou o Brasil há algumas semanas, jogadores e técnicos de futebol, poderia acontecer até com alguns que já morreram, como o Brizola ou o dom Vicente Scherer. Você é quem decide, basta escolher um canalha preferido.

O passo seguinte é ligar a câmera do celular, ir até a pessoa e insultá-la. Pode fazer sem medo. Você estará protegido pelo seu próprio anonimato. Você é "o povo", um cidadão brasileiro que enfim está reagindo a tantos desmandos, tanta corrupção e tanta exploração. Alguém pode dizer "Opa, mas o Caetano Veloso não fez nada para merecer isso!". Essa é a opinião desse alguém. 

Não importa. O que importa é a SUA opinião, você é quem decide. E o lindo é que você pode fazer o que bem entender aí com esse seu celular, porque, seja lá o que acontecer, quem tem algo a perder é a sua vítima, não você. Ela é a pessoa pública, ela é quem tem de zelar por sua imagem. Você, não. Que jornal ou TV ou rádio ou site vai se interessar em publicar "João Carlos promove barraco em avião"? Nenhum. Pode ir lá, faça bastante escândalo, provoque a pessoa. Se ela reagir, tanto melhor, será a consagração.

Há outro ponto positivo: as pessoas confundem bravura com despudor, desassombro com petulância. Assim, mesmo que você não corra risco algum, vai passar por corajoso.

Claro, isso pode acontecer com alguém de quem você gosta, dia desses. Mas é um preço pequeno a pagar. Você já virou celebridade nas redes. Por pouco tempo, verdade, essas coisas não duram muito, mas... vá que apareça outro "cafajeste famoso" no seu caminho. Então, empunhe seu celular. Faça justiça. Você é o nosso herói.

DAVID COIMBRA

02 DE DEZEMBRO DE 2017
OPINIÃO DA RBS

RISCOENERGÉTICO


Oultimato dado à CEEE- Distribuidora (CEEE- D) pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pode desagradar aos defensores da manutenção da empresa como estatal, particularmente às corporações de servidores, mas não tem como ser simplesmente ignorado. Em respeito à parcela de um terço da população gaúcha atendida pela empresa, é preciso transparência em relação à sua realidade financeira, que, pelos dados disponíveis, gera preocupação.

Conforme o alerta feito pela Aneel, a CEEE-D precisaria fazer investimentos num total de R$ 2,6 bilhões até 2020 para garantir o cumprimento do acordo que permitiu a renovação de sua concessão. Além disso, terá que fechar as contas no positivo em 2018. Em 2017, o resultado deverá ser negativo, como já ocorrera no ano anterior. E, a partir de 2019, terá que garantir o pagamento dos juros da dívida.

Como a empresa não dispõe dos recursos necessários para esses compromissos, nem mesmo para garantir um mínimo de qualidade aos serviços prestados, a alternativa defendida pelo Piratini tem sido a sua privatização. Um projeto com esse objetivo se encontra em análise pela Assembleia, que hesita em enfrentar a questão com a objetividade exigida pelo caso.

Os consumidores não podem ficar sem um insumo básico como energia, em consequência da ineficiência geral registrada na empresa ao longo dos últimos anos. Esse é um debate do qual os gaúchos não têm como escapar, para não correrem o risco de serem acusados de leniência mais à frente.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017



Jaime Cimenti
Velhice, envelhescência 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é quem tem 60 anos ou mais. Na real, todo mundo acha que só os outros é que são velhos e idosos. Ninguém é muito chegado a considerar-se idoso ou velho e pensar que um dia a cortina final se fecha. É bom pensar que velho é quem tem 20 ou 30 anos mais do que a gente. Antigamente, velho era quem tinha 10 anos mais do que nós. Hoje mudou, as pessoas estão vivendo bem mais.

Lá por 1974, por exemplo, o brasileiro vivia em média 55 anos. Hoje, vive 70 e poucos. Daqui a pouco, teremos em torno de um terço da população composta de idosos. Envelhescência é chamado o período que vai de 45 a 65 anos, no qual as pessoas se preparam para a velhice. Se preparam para ter uma nova cara, um novo olhar sobre o envelhecimento e pensar que nunca é tarde para se reinventar.

Os novos idosos e aposentados procuram, tanto quanto possível, viver as últimas décadas de vida com alegria, vida, saúde, movimento, produtividade e seguirem fazendo parte ativa da sociedade. Uns até tentam carreira de dançarino com 70 ou 80 anos. Na civilização oriental, especialmente na China, o idoso é venerado. Lao-Tsé entendia que a velhice era um momento supremo, o alcance espiritual máximo, quando o corpo, em êxtase, se libertaria para o humano se tornar um santo.

Confúcio encarava a velhice como um período em que as pessoas merecem paz, cuidado e atenção. No velho Egito, 2.500 a.C, Ptah-Holep, o filósofo, reclamava que a velhice era pior coisa que poderia acontecer a um homem. Na Grécia, Sócrates falava em preparação para a velhice saudável, através de atividades físicas regulares, boa alimentação, muita água, trabalho feliz e amizades profundas.

Já Aristóteles tinha uma visão amarga da velhice, dizendo que os velhos eram reticentes, de mau caráter, maldosos e desconfiados. O médico Hipócrates, por sua vez, pregava higiene física e mental, dieta sóbria e moderação na vida. Em Roma, Cícero ensinava que, na velhice, os prazeres corporais são substituídos pelos prazeres intelectuais e que vale a pena descobrir o prazer que cada idade proporciona.

Sêneca achava que a velhice era boa. Já Deepak Chopra, o médico do Bill Clinton, aproxima medicina oriental e ocidental, aplica princípios de física quântica e nos anima dizendo que não há fim para a dança cósmica, mostrando que a vida segue. Como se vê, nesses milênios, os doentes, os mal-humorados de nascença, os que estão em dificuldades financeiras e os que não gostam de sorrir acham que a velhice é uma m... ou uma m... pura.

Os que conseguem manter a saúde, a alegria de viver, de aprender e descobrir todo dia, acham que a "melhor idade" é um período maravilhoso. "O trabalho é a farra dos velhos", disse o Mario Quintana, que também ensinou: "A gente está velho quando começa a adular ou criticar os jovens". Sabia muito, o Mario, que deve estar lá em cima, em contato com os anjos que apareceram em muitos poemas que escreveu.

a propósito... 

É isso. Precisamos falar mais em idosos do que em velhos ou macróbios.

Idoso é o velho respeitado. Precisamos de preparação para um país que terá um terço de idosos e, daqui para diante, muitos centenários, como no Japão e nos Estados Unidos, por exemplo. Envelhescência já, com disposição para os aposentados não ficarem só nos aposentos. Lugar de idoso é em todo lugar possível e imaginável.

Enquanto os idosos ainda dançam a "dança cósmica" por aqui, vida saudável, ativa e longa para eles. Quando forem bailar a "dança cósmica" em outras dimensões, aí suas boas lembranças permanecerão nos que ainda não entraram noutra.

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/11/colunas/livros/598810-dialogo-e-etica-da-conversacao.html)

Notícia da edição impressa de 01/12/2017. Alterada em 30/11 às 16h02min 


Diálogo e ética da conversação Detalhe da capa do livro REPRODUÇÃO/JC Filosofia da afirmação e da negação (É Realizações, 320 páginas, R$ 49,90), do escritor e pensador Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), em síntese, abordando temas como o ceticismo, o relativismo, a verdade, a coragem, Deus, matéria, criação, Platão, Kant e Pitágoras, apresenta um panorama completo da obra do filósofo nascido em Tietê, estado de São Paulo, e que passou a infância e a adolescência na gaúcha Pelotas. 

Licenciou-se em Direito e Ciências Sociais pela Ufrgs, mudou-se para São Paulo, onde fundou duas editoras. Publicou a conhecida Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, com 45 volumes e vários outros livros, como Filosofia Concreta e Métodos lógicos e dialéticos. 

Filosofia da afirmação e da negação apresenta, em forma de diálogos fictícios, uma ética da conversação, que faz muita falta em nossos dias belicosos. Escreve o autor: "Creio no diálogo, quando bem conduzido, e sob regras rigorosas. O homem de hoje não sabe mais conversar. Ele disputa apenas. É um combate em que os golpes mais diversos e inesperados surgem. Mas num diálogo, conduzido em ordem, tal não acontece. Deixa de ser um combate para ser uma comparação de ideias. 

Um sentido culto domina aí. Não é mais o bárbaro lutador, mas o homem culto que se enfrenta com outro, amantes ambos da verdade, em busca de algo que permita compreender melhor as coisas do mundo e de si mesmo". Os diálogos da obra acreditam que o brasileiro tem ótimas condições para uma filosofia plural e ecumênica, e por isso o autor nos transporta os personagens dos diálogos para linguagens e cenários propriamente brasileiros, para tratar de problemas universais. 

Com sua grande capacidade analítica, o autor apresenta "homens da tarde, da noite e da madrugada", dialogando de forma clara e positiva sobre temas antigos e novos, que serviram para o projeto de Santos, que era o de criar um público brasileiro para o estudo da filosofia. "Temos que sair à rua, como outrora o fez Sócrates, para denunciar os falsos sábios", escreve o autor. Pena que Santos não esteja mais entre nós, para estimular o sentido mais profundo do verdadeiro diálogo, que anda escasso nesses tempos de monólogos, vaidades e egos gigantes. 

lançamentos 

A saúde dos ventos - Parte 2 (BesouroBox, 296 páginas) do professor, médico e escritor Waldomiro Manfroi, apresenta a sequência do diário do fictício prof. Humberto Leivas. Passagens da história rio-grandense, os elos relacionados à convivência possível entre medicina, positivismo, farmácia e odontologia no RS, os estudantes de Medicina e a gripe espanhola, e o apoteótico funeral do professor Sarmento Leite estão na narrativa bem elaborada e fluente. 

Arquitecrônicas (Libretos, 182 páginas), do arquiteto, professor universitário, cronista e compositor Cesar Dorfman, com apresentação do jornalista e escritor Rafael Guimaraens, apresenta crônicas e histórias com personagens e situações singulares. Dorfman não perde a piada nem o amigo, fala das vicissitudes da profissão de arquiteto e dos desejos e sonhos das pessoas, que são a matéria-prima da arquitetura. 

René Thiollier - Obra e vida do grão-senhor da Villa Fortunata e da Academia Paulista de Letras (Ateliê Editorial, 272 páginas), do professor Valter Cesar Pinheiro, da Universidade Federal de Sergipe, fala do homem que, junto com Mario de Andrade e Oswald de Andrade, compôs a trinca seletíssima que promoveu a Semana de Arte Moderna de 1922 e a Viagem a Minas em 1924. Thiollier foi cronista, jornalista e escritor, e este livro trata com profundidade de sua obra literária.

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/11/colunas/livros/598810-dialogo-e-etica-da-conversacao.html)


01 DE DEZEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Por que o Grêmio venceu

Vou repetir o que escrevi lá no primeiro semestre: nenhum time gaúcho jogou COMO este time do Grêmio joga. Nem o melhor time gaúcho que vi sobre um campo de futebol: o Inter dos anos 1970.

Friso, sublinho, ratifico e realço: o Inter dos anos 1970 era MELHOR, mas não jogava COMO esse Grêmio, espécie de Flamengo de Zico, de toco y me voy, de tiki-taka, de tá aqui-não tá mais aqui.

Escrevi também que um título o consagraria, e o time conquistou o maior deles, pelo menos até agora. Consagrado está.

Sabia que o Grêmio seria tricampeão da América antes mesmo do primeiro jogo da final. Não por adivinhação, informação privilegiada ou sabedoria superior. Bastava olhar: os sinais eram fortes. Todas as instâncias do clube estavam concentradas na decisão. Quando isso acontece, os méritos são de quem orienta: o Homem. O presidente. Romildo Bolzan soube conduzir o clube da quase bancarrota ao pódio de maior do continente. Com discrição e humildade, qualidades raras na vida pública, identificou erros seus e de gestões anteriores, corrigiu-os rapidamente e mostrou que há uma mão segura comandando o clube.

Outro dirigente importante foi Adalberto Preis, que apostou em quem poucos acreditavam: Renato Portaluppi.

Renato chegou para substituir um técnico que parecia o seu oposto. Roger faz parte da categoria dos treinadores "estudiosos", é discreto e nem um pouco dado às manifestações brejeiras que caracterizam Renato desde que ele foi jogador.

Mas o Renato que assumiu o Grêmio no ano passado foi um Renato diferente. Foi um Renato maduro, de surpreendente ponderação em suas declarações, que chegou a corrigir palavras mal assestadas.

- Não quis dizer "despencar" - explicou-se, quando se referiu ao Corinthians no segundo turno do Brasileiro. - Quis dizer "escorregar".

- Não quis dizer "o mundo é dos espertos" - reparou, no caso do drone espião. - Quis dizer "o mundo é dos inteligentes".

E, depois da conquista da América, recomendou que os torcedores fizessem festa "sem exageros". Renato pregando festa sem exageros, imagine.

Quando técnico e dirigentes têm a mesma sintonia, os jogadores sentem-se seguros - a autoridade (não o autoritarismo) dá confiança a povos, crianças, funcionários e meias de armação.

Confiantes, os jogadores puderam desenvolver suas qualidades. Talvez o maior símbolo desta confiança adquirida pelo grupo do Grêmio seja Bressan. Depois de falhar sucessivamente em várias partidas, Bressan foi emprestado ao Peñarol. Em pouco tempo, o Peñarol o devolveu, para desespero do torcedor gremista. A torcida, com boas razões, não podia ouvir seu nome sem estremecer de horror. Pois Renato afiançou:

- O Bressan fica e vai jogar.

E Bressan ficou e jogou. E bem. Na finalíssima, a torcida também estremeceu de horror por causa de Bressan. Mas foi quando ele se machucou e teve de sair de campo, não quando teve de entrar.

Outra prova concreta da tranquilidade que o clube passou ao time ocorreu aos 41 minutos do primeiro tempo da final, quando Luan recebeu a bola na intermediária de ataque, sem marcação. Se ele engatasse a quinta marcha e usasse a velocidade empregada por Fernandinho no primeiro gol, entraria livre na área. 

Mas a bola veio alta e Luan perdeu meio segundo para dominá-la. Esse átimo foi o suficiente para que três defensores do Lanús recuassem para participar da jogada. Luan nem ligou. Pôs a bola no chão como se estivesse de férias, como se assobiasse com a mão no bolso, com a naturalidade dos craques. E, com a naturalidade dos craques, meteu-se entre os três zagueiros, driblou-os e, na saída do goleiro, deu a famosa "cavadinha" para marcar 2 a 0.

O jogador tem de estar com a cabeça muito boa para fazer algo assim numa final de Libertadores. Luan está com a cabeça boa, todos os jogadores estão com a cabeça boa, porque os comandantes do clube têm cabeça boa.

Boas cabeças ganham títulos. Conquistam o mundo.

DAVID COIMBRA

01 DE DEZEMBRO DE 2017
ARTIGOS

ANTES DE COMBATER, É PRECISO PREVENIR


Enfrentar esse quadro deve ser uma prioridade do país. Hoje, temos muitas ações em desenvolvimento por diversos órgãos, que atuam isoladamente nos níveis nacional, estadual e municipal. No entanto, precisamos somar essas forças em um programa comum, trabalhando- as de forma articulada, com foco na prevenção.

Com esse objetivo, criamos a Frente Parlamentar Mista de Prevenção à Violência. Uma iniciativa que reúne mais de 250 deputados e senadores de todas as correntes partidárias, além de uma ampla rede de agentes sociais. Vamos percorrer o Brasil conhecendo e discutindo caminhos para o futuro, a partir de exemplos e experiências positivas.

Na segunda-feira, realizaremos nossa primeira audiência pública, no Plenarinho da Assembleia Legislativa gaúcha, com painéis sobre educação, saúde, justiça e atuação dos municípios. Uma visão multissetorial sobre o tema, que só terá resultados práticos ao unir esforços em todas as áreas.

Aqui no Estado, mostramos que isso era possível com o Programa de Prevenção da Violência (PPV), realizado em nosso governo. Por meio de ações integradas, com reforço na segurança, investimento em saúde, educação e assistência social, reduzimos as taxas de criminalidade em 50 dos bairros mais violentos do Rio Grande do Sul. Entre 2007 e 2010, o número de latrocínios caiu quase 40%, enquanto o de roubo de veículos teve queda de cerca de 30%.

A violência é uma epidemia no Brasil. E, antes mesmo de ser combatida, precisa ser prevenida. Todos os setores e movimentos da sociedade devem estar envolvidos nesse trabalho, culminando na formação de um Programa Nacional de Prevenção à Violência. Agindo de forma estratégica e coordenada, poderemos vislumbrar o fim dessa rotina de medo, com o início de uma cultura de paz.

Deputada federal e presidente da Frente Parlamentar Mista de Prevenção à Violência 

YEDA CRUSIUS


01 DE DEZEMBRO DE 2017
ECONOMIA

Aneel vê risco de CEEE perder concessão

COMPANHIA ESTADUAL precisaria de R$ 2,6 bilhões para reverter indicadores e melhorar serviço

Em rara manifestação pública sobre empresas reguladas, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou ontem, em Porto Alegre, que a CEEE-Distribuidora (CEEE-D) corre o risco de romper contrato que permitiu a renovação da concessão até 2020. Eventual descumprimento de requisitos representa risco de perda da permissão para levar eletricidade a cerca de um terço da população do Rio Grande do Sul.

Conforme André Pepitone, diretor da Aneel, a CEEE-D precisaria de investimento de R$ 2,6 bilhões até 2020 para cumprir o acordo de concessão, que define indicadores de saúde financeira e de qualidade dos serviços prestados.

Na audiência pública, que também teve a presença de representantes do governo estadual, um diretor e executivos da agência reguladora apresentaram a situação da companhia. Enquanto o evento ocorria no 14º andar de um prédio no Centro, ouvia-se o som de protesto de funcionários da CEEE-D, do lado de fora do edifício, contra a realização do encontro.

Por conta das dificuldades financeiras da companhia, o Piratini argumenta que a única saída para a empresa pública é a sua venda. Por isso, encaminhou à Assembleia Legislativa projeto para retirar a exigência de plebiscito para a privatização.

- Sem aporte de recursos, a empresa terá dificuldades. Do jeito que está, não conseguirá atender às obrigações - sublinhou Pepitone.

Uma das exigências previstas no acordo é de que a geração de caixa da CEEE-D - indicador conhecido como Ebitda - seja positiva em 2017. Porém, até setembro, estava negativa em R$ 235 milhões, conforme a Aneel. No ano passado, pelos dados da agência reguladora, já houve resultado negativo de R$ 276 milhões.

Caso a CEEE-D descumpra os termos por dois anos seguidos, o processo de perda da concessão (caducidade) poderá ser aberto. Em 2018, além de ter geração de caixa no azul, a companhia precisa investir para melhorar o serviço. Para 2019 e 2020, o acordo acrescenta outro ingrediente. Além de caixa e investimentos, a companhia precisaria garantir pagamento do juro de sua dívida.

- A situação é preocupante. Representa um grande risco para os consumidores - declarou Hálisson Costa, superintendente da Aneel.

SEXTA PIOR DISTRIBUIÇÃO DO SETOR NO BRASIL

A agência reguladora também apresentou informações relacionadas à qualidade dos serviços da CEEE-D. Segundo a Aneel, a companhia é a sexta pior do setor de distribuição no país. A avaliação leva em conta critérios como falta de energia e prazos de atendimento aos clientes.

- Os dados da Aneel mostram que houve melhora nos serviços prestados a partir de 2015. Mas ainda há elevado nível de reclamações de consumidores - comentou o secretário estadual de Minas e Energia, Artur Lemos Júnior.

Do lado de fora do edifício que sediou a audiência, o protesto de funcionários da empresa atacou a proposta de privatização da companhia. Presidente do Sindicato dos Eletricitários do Estado (Senergisul), Ana Maria Spadari questionou a veracidade das informações apresentadas pela Aneel:

- Os dados não são verdadeiros. A saída para a CEEE-D é a venda de ações da companhia.

O grupo CEEE é dividido em duas empresas: a CEEE-D, que cuida da distribuição, ou seja, é responsável por levar energia até o consumidor final, e a CEEE-GT, que tem a incumbência de gerar a eletricidade nas usinas e depois transportá-la por meio de linhas de transmissão. Embora distribua luz para cerca de um terço da população do Estado (incluindo Porto Alegre, Litoral e regiões Metropolitana, Sul e Campanha), a CEEE-D tem a situação financeira mais problemática.

LEONARDO VIECELI

quinta-feira, 30 de novembro de 2017


30 DE NOVEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA

Gays. Negros. Lula. Pedofilia. Campeão


Homossexuais. Lula. Moro. Loiras. Bolsonaro. Negros. Mulatos. Anões. Mulherzinha. Temer. Lésbica. Lava-Jato. Foi golpe. Não foi golpe. Dilma. Work alcoolic. Bolsomito. Bolsominions. Pedofilia. MBL. Sexo. Sexo. Sexo. Sexo. Dinheiro na cueca. Provolone na cueca. Biscoito na cueca. Cueca. Calcinha. Sem calcinha. Sexo. Mala. Dinheiro na mala. Mala de dinheiro. Malas. Cunha. PT. Comunistas. Liberais. Bonner. Fátima. Trump. Privatizações. Greves. MST. Maduro. Cuba. Sexo. Sexo. Sexo. Sexo.

Achei que, fazendo uma reunião de temas palpitantes, conseguiria a sua leitura, mesmo sem escrever sobre o jogo do Grêmio contra o Lanús. É que não posso escrever sobre o jogo do Grêmio contra o Lanús, não agora - agora são 9h45min da manhã na costa leste dos Estados Unidos. Com o fuso horário, diferença de três horas para menos, faltam nove para a partida, e tenho que entregar o texto até a tarde.

A questão é que, hoje, as pessoas só vão ler sobre a finalíssima. Quem vai se importar com a reforma da Previdência, com as leis trabalhistas ou com a eleição de 2018 se houve uma decisão de Libertadores na véspera?

É o que digo sobre decisões. Aquele campeonato mixuruca, vencido por um time mixuruca, o Campeonato Brasileiro, não tem decisão. Campeonato sem decisão é o dia a dia, é a lua tomando o lugar do sol a cada entardecer, é acordar para ir ao trabalho todas as manhãs, é deitar-se para dormir todas as noites, são as terças que sucedem as segundas e as quintas que sucedem as quartas, é a rotina, é a aposentadoria, é passar o domingo de pijama, é a vida comezinha de tantos seres humanos comuns que já passaram pelo planeta Terra. Cientistas calculam em 100 bilhões o número de pessoas que já viveram, contando as 7 bilhões que ainda respiram debaixo do sol. Quantas dessas deixaram sua marca no mundo?

Pense em Júlio César, Napoleão, Maomé, Jesus, Freud, Cleópatra, Leonardo da Vinci, Michelângelo, Beethoven, Mozart, Pelé, Ellen Roche, gente que fez diferença, pessoas que serão lembradas pela eternidade. Eles são a decisão, eles são a finalíssima.

Agora pense naquela senhora sua vizinha, que mora no 302 e de quem você não lembra o nome. Ela e outros bilhões de Homo sapiens são os pontos corridos.

É assim a vida.

Infelizmente, esse é o raciocínio de muitos desmiolados que cometem atrocidades. Eles querem ser lembrados, nem que seja por sua extrema maldade. É a lógica daquela pessoa estranha que mora no Canadá, se diz socialite e vai às redes sociais para produzir abjetas manifestações racistas e insultar crianças. Há muitos tipos assim, capazes de fazer as maiores estultices para que os outros falem deles. Para dar sentido às suas vidas. Mas assim, não. Assim é melhor nem ter existido. É melhor ser pontos corridos.

Este é o pensamento correto, é desta forma que tem de ser. Fazer polêmica é fácil. Para chamar atenção, basta falar alto. Mas, para valer a pena abrir a boca, você tem que ter algo realmente interessante a falar. Caso contrário, melhor ficar quieto. O silêncio nem sempre é falta do que dizer. É a dignidade de quem prefere calar.

DAVID COIMBRA