terça-feira, 29 de setembro de 2026

29 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Não poderia ser coincidência

Eu estava no barbeiro. Na cadeira ao meu lado, sentou-se um jovem. O cabeleireiro perguntou qual corte queria.

O rapaz mostrou uma série de imagens preparadas pelo ChatGPT, indicando como deveria ficar seu cabelo ao longo de cinco meses, fotograma por fotograma. Não orientou verbalmente como desejava seu novo penteado; serviu-se de uma insólita fotonovela no celular. Peguei um Uber para o supermercado.

Não consegui identificar as músicas que tocavam no carro. Parecia Bon Jovi, mas não era. Tirei a cisma: - O que anda ouvindo?

O motorista me respondeu que só colocava canções geradas por inteligência artificial, que não perdia mais tempo com bandas reais. A interpretação, as melodias e o fundo sonoro correspondiam a uma ficção engendrada de acordo com os seus comandos.

Imaginei que ele dominava o inglês. Ele disse que não. Então, reproduzia músicas biônicas sem sequer entender a letra. Achei muito estranho. Não censurei. Não comprei discussão. A minha nota no aplicativo já andava baixa.

Parei no supermercado. Num dos corredores, um homem atendia ao telefone no viva-voz. Assumi que estava falando com a esposa, conferindo sua lista. Mas eu conhecia aquele timbre. Ele conversava com sua Alexa, questionando o preço de cada produto que apanhava das estantes, checando se valia a oferta. Efetuava uma comparação minuciosa de valores antes de encher o carrinho. Raciocinei: "Que loucura!".

Encontrei no caixa um colega de academia. Ele me cumprimentou e comentou que vinha se tornando escritor como eu. Dei os parabéns. Pedi para antecipar o assunto da obra. Tratava-se de uma história de terror que havia feito num dia.

- Um dia? - eu me espantei. Daí ele explicou que usou o ChatGPT.

Ou seja, não foi ele que escreveu. Apenas passou uma sinopse para que a máquina realizasse o trabalho em seu lugar, sob encomenda. Jamais desconfiou de quais autores o assistente virtual havia se alimentado para simular um estilo. Afinal, a ferramenta elabora suas sugestões a partir de uma imensa massa de textos existentes. Nada se cria, tudo se copia.

Voltei para casa com a certeza de que convivo com androides. Abdicamos da espontaneidade e da autonomia para ações banais. Delegamos a maioria de nossos prazeres e funções ao pensamento robotizado. Não suportamos as dúvidas, não aprendemos com as hesitações, não inventamos saídas.

A pressa nos substituiu.

Eu me lembrei de uma entrevista com Dario Amodei, CEO da Anthropic. O físico americano defende que as empresas desacelerem o desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA para que os mecanismos de segurança acompanhem a evolução da tecnologia.

O padrinho da IA, Geoffrey Hinton, também alertou sobre os crescentes perigos decorrentes dos progressos na área: - No momento, pelo que posso perceber, eles não são mais inteligentes do que nós. Mas acho que em breve serão.

O que eu sei é que ninguém mais corta o cabelo sem IA. Ninguém mais escuta música sem IA. Ninguém mais faz compras sem IA. Ninguém mais concebe livros sem IA. Não poderia ser coincidência. 

CARPINEJAR

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