sexta-feira, 25 de setembro de 2026

25 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Nunes Marques é outro que deve explicações

Depois dos colegas Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que até hoje não deram explicações convincentes sobre negócios ligados ao Banco Master e relações com Daniel Vorcaro, chega a vez de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques ser cobrado a prestar esclarecimentos plausíveis. Não é apropriado que, sobre um membro da mais alta Corte brasileira, seu filho e pessoas próximas, pairem tantas dúvidas acerca de vínculos com o ex-banqueiro e seus interesses no Judiciário. Várias mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal (PF) formam um acervo de episódios obscuros que aguardam elucidação.

A mais recente revelação mostra um contrato de advocacia com a "Turma do KN". Conforme a PF, as iniciais são uma referência a Kassio Nunes. A "turma" seriam Camila Ramos, sócia do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos, e seu marido, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Previa o pagamento de R$ 427 milhões à banca em caso de êxito em ações sobre pagamentos de precatórios do setor sucroalcooleiro adquiridos pelo Master, que totalizavam R$ 8,5 bilhões. Ontem, o gabinete de Ramos foi alvo de uma operação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Ramos é amigo e foi juiz auxiliar de Nunes Marques quando o hoje ministro foi vice-presidente do TRF-1, de 2018 a 2020. Seis meses antes de o contrato ser firmado, Ramos votou a favor do Master em dois casos sobre precatórios do setor. Em 2024, na 2ª Turma do STF, Nunes Marques desempatou um processo que interessava à tese do Master. Votou após mudar de ideia, depois de declarar-se impedido. O resultado foi comemorado por Vorcaro, mostram mensagens de celular.

Há mais referências constrangedoras. Em uma delas, surge um pedido para o então banqueiro autorizar uma estadia com tarifa promocional para o ministro em um hotel. Em outra, há sugestão de pagamento de um possível encontro íntimo de Nunes Marques com uma mulher.

O jovem advogado Kevin Marques, filho do ministro, também aparece nas trocas de mensagens em situações mal explicadas. Em um diálogo com Vorcaro, um colaborador pergunta, sobre Kevin: "Esse aqui - 500 mil mês - mantém?". O filho de Nunes Marques parece ser um prodígio na profissão. Tem apenas 26 anos e foi aprovado no exame da OAB em 2024. Mesmo assim, em pouco tempo acumulou clientela de peso e patrimônio vultoso. Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontam que, em 2025, iniciou o ano com R$ 5 milhões aplicados em fundos e, no segundo semestre, fez aporte de R$ 22 milhões.

No final de 2025, após a primeira prisão de Vorcaro, a defesa do Master tentou uma manobra para que o caso ficasse com Nunes Marques. Em favor do ministro, cumpre lembrar que, na 2ª Turma, neste ano, votou pela manutenção da prisão do ex-banqueiro.

É ingenuidade não vincular as revelações que embaraçam Nunes Marques à guerra de vazamentos entre alas do STF. Há interesse de Moraes e de seus aliados para o ministro seguir pressionado. Coagido, continuaria a declarar-se impedido de votar em casos como o que envolve Moraes e Vorcaro. Um acordo tácito pela garantia de que os enrolados com o Master não precisem dar satisfações nem ser investigados desonra ainda mais a Corte. O interesse do país é o de que toda conduta suspeita seja apurada. 

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